quinta-feira, 4 de junho de 2026

O QUE QUEREM OS RECONSTRUCIONISTAS?



INTRODUÇÃO


Alguém pode começar por essa questão, i. e., pode-se investigar ou mesmo apenas se interessar sobre o assunto a partir da pergunta que encabeça este artigo. É evidente que se trata de uma questão logicamente secundária. Ela demanda esclarecer o que é o reconstrucionismo para, então, perguntar o que ele pretende. Ir diretamente a essa questão parece, no mínimo, irresponsável do ponto de vista da honestidade intelectual.  É a forma mais barata de rejeitar ou buscar que alguém rejeite uma ideia. Um puro argumento retórico, sem consistência lógica, de quem sabe que poderá desviar a discussão do foco principal - a definição e as razões -  e levantar algo que o ouvinte ou leitor já presumem ser tido como ruim. É quase um 'apelo ao público', uma tentativa de apelar a um padrão moral ou opinião vigentes, sem incitar à reflexão crítica sobre os mesmos.


Se respondermos à questão, podemos dizer que o Reconstrucionismo quer redimir o mundo no poder do Evangelho. Quer espraiar a verdade bíblica a fim de que todos os povos reconheçam o senhorio de Jesus. Quer que as influências da Lei do Senhor afetem todos os homens, o pecado seja minorado no mundo e a piedade incentivada. Quer reconstruir o mundo destruído pelo pecado. Essa é a destruição. O mundo construído por Deus foi levado às ruínas pelo pecado. O Senhor mesmo estabelece sua Igreja para começar a reconstrução, que se dará total e finalmente na volta de Jesus.

Se alguém disser que o reconstrucionismo quer apenas instaurar uma 'sociedade teonomista' ou 'teocrática', estará reduzindo a questão, deixando escapar elementos importantes e essenciais. Tal reducionismo é prejudicial, e não leva à sincera investigação da questão. Dizer que a reconstrução meramente pretende matar estes ou aqueles indivíduos é simplificar a questão num nível tal que não podemos estar certos de que quem assim o faz tenha o mínimo de integridade intelectual - muito menos de caráter.


Isso poderia ser visto noutras questões igualmente polêmicas. Por exemplo, se alguém abordasse o Aliancismo meramente em função da implicação do pedobatismo (batismo de crianças), diante de um grupo evangelical que foi acostumado com a ideia de que isso não passa de uma prática católico-romana, poderia garantir que um bom Presbiteriano não fosse mais ouvido e encerraria a importante discussão sobre o assunto. Além disso, reduziria drasticamente o que significa o aliancismo, fazendo-o mera doutrina de batismo de bebês, quando é muito mais do que isso. A pergunta certa, portanto, não é 'O que querem os aliancistas?', mas 'O que é o Aliancismo?'. Só então podemos analisar dignamente suas implicações.


Todavia, seja como for, ainda que se comece por essa forma de investigação, o questionador honesto emendaria uma segunda questão (ou conjunto de questões) que nos remeteriam ao tema da prioridade lógica. Ou seja, se alguém perguntasse: 'o que querem os fulanos?' e ouvisse que querem isso ou aquilo, questionaria 'mas por quê?' e então voltaríamos para a questão primordial.


DEFINIÇÃO


'Reconstrucionismo' é um nome técnico para denominar uma doutrina teológica, uma perspectiva e uma concepção filosófico-teológica. Trata-se de uma visão que reúne outros elementos teológicos, outros conceitos e afins. Tal como o acróstico da TULIP reúne em seu bojo algumas doutrinas específicas, o mesmo se dá com o reconstrucionismo. É uma visão abrangente e específica da fé cristã.

E o que compõe o Reconstrucionismo?

Uma das formas interessantes de apresentá-lo é através dos chamados 'cinco pontos do reconstrucionismo'. Ele é essencialmente aliancista, calvinista, pressuposicionalista, pós-milenista e teonomista. Talvez seja interessante uma breve exposição de ponto a ponto para que a noção seja melhor aquilatada.


  1. Os Cinco Pontos do Reconstrucionismo


i) O 'aliancismo' é a perspectiva teológica de que Deus fez uma aliança inaugural com toda a humanidade, mas que foi quebrada, e então ele faz uma aliança alternativa, graciosa, para livrar os homens da condenação da aliança anterior e restaurar os homens nela, mas na condição de aprovados. Para isso, Jesus 'recapitula Adão' e nos insere na aliança da graça.

Tal perspectiva une toda a Escritura como ensinando, do início ao fim, a 'Religião da Aliança'. Esta Aliança da Graça vai se desenvolvendo progressivamente na revelação de Cristo, até alcançar sua plenitude na Aliança em Jesus.


ii) Por 'calvinista', quer-se dizer as doutrinas da graça, tais como expostas na TULIP (Depravação Total, Eleição Incondicional, Expiação Limitada, Graça Irresistível, Perseverança dos Santos). Aqui estão inclusas (e implicadas ou pressupostas) as importantes doutrinas da Queda, da Regeneração e demais doutrinas soteriológicas não disputadas.


iii) 'Pressuposicionalismo' não é fácil de ser definido. É basicamente a percepção de alguns pensadores cristãos, no final do Século XIX e início do século XX, de que, primeiro, todas as pessoas têm uma cosmovisão, e que todas as ideias, filosofias, teologias e afins se dão numa cosmovisão, i. e., formam um sistema que lidam com as questões fundamentais. Percebeu-se que toda cosmovisão possui pressupostos, crenças fundamentais. Os pós-modernos entenderam que não seria possível justificar tais pressupostos. Os pensadores calvinistas, tais como Abraham Kuyper e Cornelius Van Til acreditaram ter encontrado um método. Esta forma incluía pressupor a existência do Deus cristão e da cosmovisão bíblica como condição de possibilidade de todo e qualquer conhecimento, valores e afins. Portanto, o pressuposicionalismo é comprometido a vindicar a cosmovisão bíblica como o fundamento para todas as ciências e saberes.
É importante ressaltar que é maldade e desonestidade entender que tal apreço autoritativo-final pelas Escrituras significa acreditar que ela tenha as respostas para todas as coisas e seja um sistema pronto de ideias. Primeiramente, ela é autoritária, infalível e inerrante em tudo o que fala, em todos os assuntos que aborda, i. e., para aquilo pelo qual foi dada por Deus. É natural que ela não tenha respostas para quais ingredientes compõem uma boa receita de algum prato específico, ou que não possa nos dizer qual é o melhor jogador de um determinado esporte, ou a melhor equipe. Nada disso depõe contra sua autoridade última, pois ela não fala dessas coisas. Não reivindica se autoridade sobre culinária ou esportes.

Além disso, a própria Escritura não está exposta em forma sistemática. Ela é como a ‘matéria bruta’. Não contém seções completas de cristologia, eclesiologia e afins. É preciso dedutivamente derivar as doutrinas do texto bíblico e organizá-la sistematicamente. Depois, é possível nos aprofundarmos em reflexões sobre essas doutrinas de forma cada vez mais profunda.

Quanto às demais ciências, salienta-se que as Sagradas Letras oferecem os fundamentos da cosmovisão pelo qual todas são erigidas. Deste modo, esta própria proposta presume que haja outras ciências que não as teológicas, mas faz das teológicas a ‘rainha de todas as ciências’.


iv) Pós-milenismo é uma posição clássica dentro da teologia reformada. É basicamente a ideia de que a obra de Cristo neste mundo, quando se encarnou, inaugura seu reino. Agora, à destra de Deus Pai,

Jesus está a reinando, e todos os seus inimigos estão sendo subjugados. Além da sua própria providência, e da ação do Espírito Santo no coração dos homens, o Senhor usa particularmente sua Igreja para proclamar, defender e vindicar seu Reino no mundo, levando o Evangelho e a sua Lei (tema que será exposto no último tópico). Mas, mais do que isso, os pós-milenistas são otimistas.

Não um otimismo ingênuo, mas um que confia em Deus, crendo que ele mesmo prometeu que a missão da Igreja obterá sucesso. Só então, após um considerável avanço do Reino de Deus no mundo, Cristo voltará, os mortos ressurgirão, Ele julgará vivos e mortos, restaurará o cosmos, tirando dele todo o pecado, e lançará os réprobros na condenação eterna, mas os salvos pela graça viverão no mundo restaurado pela eternidade.


v) Por fim, temos a 'teonomia'. Talvez seja o ponto mais delicado e discutido. Mas ele é um tanto quanto simples. Entendendo-se que as leis são determinadas pelas cosmovisão dos proponentes (e/ou dos que elevaram os legisladores), bem como a forma de governo e de execução das mesmas, é fácil perceber o que propõe a Teonomia. Ela propõe que a Lei dada no Pentateuco, essencialmente, deve ser a regra para todos os povos e nações. Entende que o ideal de submissão das nações ao senhorio de Cristo está na conformação de suas respectivas legislações à Lei do Senhor, à lei bíblica. É válido dizer que teonomistas adotam a perspectiva da tríplice divisão da Lei do Antigo Testamento. Ou seja, existe uma Lei Moral - sumarizada no decálogo -; uma Lei Civil; uma Lei Cerimonial. A Lei Civil é simplesmente a tradução da Lei Moral aos tempos de Israel, demonstrando o que se deve fazer, e em que medida, caso alguma Lei Moral seja transgredida. Ou seja, para que sustentemos que a Lei Civil permanecesse, basta sustentar que permanece a Lei Moral. E a Lei Cerimonial permanece também, mas de outro modo. Ela é definitivamente realizada em Cristo, de modo que completam sua função e seus benefícios são adquiridos de forma real por causa da obra de Jesus.


  1. A Correlação entre os Cinco Pontos


Ainda nos parece razoável dissertar sobre a relação entre cada um desses elementos para que a noção da 'reconstrução' fique mais clara. Primeiramente, o fundamento está no pressuposicionalismo. Uma vez que a condição de toda ciência e saber está na pressuposição da fé cristã, devemos pensar numa política, economia, psicologia, educação e afins que não neguem nenhum dos elementos bíblicos.

É aqui que temos o argumento essencial de que a fé cristã é verdadeira. E se o cristianismo é verdadeiro, então haverá implicações fundamentais para pensarmos todas as coisas. Mas, mais do que isso, o pressuposicionalismo faz uma apologia à fé cristã que é essencialmente bíblica, e isso qualifica as implicações como bíblicas.

Uma vez estabelecido isso, entende-se que a Teologia da Aliança justifica a permanência da Lei Bíblica no Novo Testamento. Com isso, rompe-se com aquelas noções que fazem da religião do Antigo Testamento algo totalmente obsoleto. Ela é a mesma religião do Novo Testamento. E o que Deus estabeleceu com Lei lá, é lei aqui também. O Senhor não abandonou os princípios morais que estabeleceu. Sendo assim, o Aliancismo implica na Teonomia.

E entende-se que a Missão da Igreja, ao Evangelizar, é levar os homens à submissão à Cristo, i. e., ao reconhecimento do seu Senhorio e, consequentemente, da sua Lei. Acredita-se que isso surtirá efeito, e que a igreja conseguirá êxito até  finalmente converter o mundo a Jesus. O pós-milenismo é a esperança de que o Evangelho crescerá e as nações terão a Jesus por Senhor.

Mas não devemos entender que o sucesso dessa ação se dará pela mera ação política, nem que a ação política poderá fazer os homens melhores. Nada disso se aplica à fé reconstrucionista. Cremos, antes, que o homem está em total estado de depravação, de modo que só pela ação do Espírito Santo a igreja logrará êxito. Daí a importância da doutrina 'calvinista' para o reconstrucionista.


A IMPOSIÇÃO DE VALORES


Estabelecidos os pontos teologicamente, como poderia essa visão subsistir às críticas? Consagraremos esta seção para lidar brevemente com algumas delas.

Onde já se viu dizer que determinadas pessoas com determinadas práticas devem sofrer pena capital? Isso não é imposição de valores? Isso não é falta de tolerância - este que parece ser (no discurso) o valor máximo da contemporaneidade?

Bom, para começo de conversa, temos que questionar a legitimidade da própria pena capital. A opinião majoritariamente reformada é a seguinte: a pena capital se fundamenta no direito de Deus sobre o homem, em primeiro lugar. Mas não só isso, está fundamentada na Lei Moral que encontra apenas em Deus a sua fundamentação e determinação última. Assim, para dizermos o que é mau e o que é bom, bem como o quanto é mau ou bom, temos que recorrer a Deus. Este é um princípio fundamental do cristianismo em geral, e é especialmente destacado na Teonomia. O padrão pelo qual discernimos qualquer assertiva moral é o próprio Deus.

Todas as culturas e cosmovisões em geral fazem algo parecido, i. e., estabelecem, de acordo com seus valores, aquilo que é lícito, aquilo que é ilícito, aquilo que deve ser punido e em que medida deve ser punido. A própria opinião sobre a pena capital reflete os valores de uma cultura. E a própria métrica da tolerância é determinada por esses valores. Toleramos de acordo com os valores que temos. E são esses valores que determinam que tolerar algumas coisas é intolerável. Por exemplo, por nossos valores consideramos intolerável práticas rituais de sacrifício de crianças e se tivermos poder e não impedirmos, seremos condenados moralmente. E é evidente que também tomamos ideias como intoleráveis, como no Brasil o nazismo é proibido, e em outros países o comunismo o é. Todos estabelecemos, por nossos valores, o que é proibido até mesmo de ser publicamente defendido. O problema, pois, não é ser intolerante, mas determinar contra o que devemos ser intolerante.

Assim, o Reconstrucionismo adota Deus como fundamento. É a partir da Bíblia que sabemos que a pena capital é lícita e em que situações o é. É a partir dela que determinamos os limites da tolerância e os graus das penas. É Deus, não o homem e seus juízos culturais volúveis e contingentes, que determina o certo e o errado, o mortal e o não-mortal.


Alguns podem sugerir como um absurdo reconstrucionista querer influenciar a cultura para que haja correspondentes mudanças políticas e sociais de acordo com a fé cristã. Todavia, primeiro, o fato de que as leis decorrem dos valores culturais é incontestável. Montesquieu já o observava. Rousseau sabia disso, bem como toda as perspectivas de esquerda, principalmente do século XXI! Mas, ainda mais relevante que esses autores, este é o cerne da proposta da 'visão transformacional' de Abraham Kuyper, e é seguida pelos séquitos do primeiro ministro, bem como por figuras ilustres como Francis Schaeffer, Brian Walsh, Nicholas Wolterstorff, bem como outros nomes importantes da reconstrução como Greg Bahnsen, Gary North, Gary DeMar, Douglas Wilson, Jean Berthoud... e etc. Até mesmo a igreja católica propõe algo nesse sentido! Condenar esse aspecto do reconstrucionismo é chamar meio mundo de cristãos de meros sonhadores. Igualmente, achar que é uma ingenuidade qualquer igreja legitimamente cristã - seja ela reconstrucionista ou não, en passant - se julgar agente de transformação do mundo é duvidar do próprio Cristo e do poder de Deus! Curiosamente, os críticos se esquecem de que eles mesmos temem o levante dos reconstrucionistas e acham que deve haver um alerta contra, ao mesmo tempo que zomba da nossa pretensão de que mudaremos o mundo. Não bastasse tão flagrante contradição, diríamos que parecia ainda mais patético dizer a cento e vinte discípulos, isolados num pequeno ponto do globo sem maior relevância para a ‘história mainstream’, que eles mudariam o mundo. Todavia, quem hoje pode negar que mudaram? Que o Cristianismo é a maior influência do globo?

Para condenar a expectativa reconstrucionista, é preciso jogar no lixo muitos nomes importantes para toda a cristandade contemporânea, nomes que todos respeitam e prezam - e com razão. Não só isso. Se tomarmos os pontos isolados, veremos que as condenações feitas ao reconstrucionismo como um todo pelo prisma de um de seus aspectos acabam atingindo as crenças fundamentais de todos ou de muitos que, não sendo reconstrucionistas, não são criticados com a mesma veemência por causa disso. Ou seja, não raro atacam o pós-milenismo, ou o aliancismo, e. g., do reconstrucionismo, como se fossem doutrinas exclusivas do reconstrucionismo. E muitos, no afã de condená-lo, reproduzem tais críticas como se fossem o bastante para desabonar o reconstrucionismo, mas não afirmariam nada parecido em relação às mesmas crenças em outro grupo.


Por fim, precisamos discutir a forma como isso é alcançado. A própria ideia de que há uma forma adequada transcendentalmente estabelecida é um pressuposto falso. É a própria cosmovisão dos indivíduos que determinarão como se poderá alcançar tais objetivos. E a cosmovisão cristã propõe que os meios sejam o da evangelização, transformação cultural e manifestação da maioria cultural nas leis e costumes. Quando dizem que os reconstrucionistas estão dispostos a fazer de tudo para alcançar esse objetivo, mentem descaradamente. Não estamos dispostos a tudo, pois Deus mesmo não nos permite tudo. Antes, nos orienta como fazê-lo. Assim, os meios fundamentados pela cosmovisão cristã são, normalmente, os que, vivendo numa sociedade cristianizada, tomam como meio 'dado', canônico, como que um consenso inquestionável. Todavia, a própria ideia de se estabelecer tal questão por meios democráticos não encontra guarida em muitos meios - como os islâmicos, e. g. É a nossa visão de mundo que fundamenta e prescreve tal forma. É ela o meio pelo qual pretendemos cumprir a Grande Comissão e submeter todos os povos ao Senhor.


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