Mostrando postagens com marcador Antropologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Antropologia. Mostrar todas as postagens

sábado, 24 de janeiro de 2015

Sobre filosofia e ser filósofo... (Parte 3 -Educação e Signficado Existencial ou resgatando o antigo conceito de vocação).

Parte 2

ERRATA: O texto havia sido publicado sem que as revisões do Misael fossem efetivadas. Foi descuido meu. Mas agora já está tudo certo! Boa leitura! Peço-lhes desculpas.

CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

Este artigo atenderá a algumas demandas diversas. Ele nos ajudará a sistematizar uma explicação muito relevante que temos a respeito de vocação, particularmente da vocação intelectual, a qual somos cobrados muitas vezes para dar. Mas ele também poderá mudar a forma como o leitor concebe sua própria educação, seu modo de olhar para a vida acadêmica, ainda que ele não tenha sido chamado para ser um acadêmico, e como ele encara os estudiosos (como ameaça a seu bem estar ou como heróis da civilização). E, finalmente, para uma aplicação mais particular, tentará tornar clara a nossa decisão por se envolver com um curso das humanas tão pouco rentável como o de Filosofia. Filosofia no Brasil!

Basicamente seguiremos o seguinte roteiro. Primeiro, iremos explorar um pouco o conceito de vocação. Depois, iremos demonstrar a relevância das discussões acadêmicas para mostrar que não se trata de uma atividade sem sentido, ou que seu significado não é subjetivo. Assim, teremos por justificada a vocação acadêmica e seus benefícios (ou malefícios) para a sociedade. Em suma, esperamos mostrar que o intelectual não é alguém distante da sociedade, mas, antes, forma seus alicerces.


VOCAÇÃO E EDUCAÇÃO


Há dois grandes empecilhos que impedem as pessoas de compreenderem o porquê de alguém com competência para cursar um curso mais 'adequado', financeiramente falando, não o faz, mas, ao invés disso, opta por algo como 'filosofia'. O primeiro é a ignorância quanto ao conceito de 'vocação'. O segundo é a falta de conhecimento da importância de um curso como esses. Vamos dar uma olhada no primeiro problema nesta seção. Para esclarecê-lo, vamos evocar o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho que nota algo de exímio valor para nosso labor, no livro 'O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota', mais precisamente no brilhante artigo denominado 'Vocação e Equívocos':


"Se você escreve, ou pinta, ou faz sermões na igreja, ou toca música, ou monta a cavalo, ou tira fotos, ou faz qualquer outra coisa que pareça interessante já deve ter ouvido mil vezes a pergunta: 'Você faz isso por dinheiro ou por prazer?' [...]. O que está omitido na pergunta [...] é a possibilidade de que alguém se dedique de todo o coração a alguma coisa sem ser por necessidade econômica ou por prazer - ou, pior ainda, que continue se dedicando a ela como se fosse a coisa mais importante do mundo mesmo quando só dá prejuízo e dor de cabeça. O que está omitido nessa pergunta [...] é aquilo que se chama vocação" (CARVALHO, p.47).

Essa concepção fútil, claro, alcança a educação. Para as pessoas, em geral, só há essas duas opções. Ou você faz algo por puro prazer, ou porque é rentável e vêem a escolha do curso universitário, ou mesmo ofício, à luz desses critérios. Isso mostra a insignificância que nos metemos, a pobreza de espírito a qual nossa sociedade está inserida. No entanto, Olavo se equivoca ao pensar que esse é um problema tipicamente brasileiro. Francis Schaeffer, após elaborar um panorama completo da decadência da cultura ocidental, fala sobre os porquês de chegarmos a conceber a educação nesse sentido. Schaffer discursa que a pretensão humanista chega, se acompanharmos o desenvolvimento da filosofia, ao ponto em que o homem, a partir de si mesmo, não consegue conceber sentido para a vida, nem formular valores objetivos e, com isso, enredou-se numa situação em que os únicos valores admitidos pelo homem moderno são 'paz pessoal' e 'prosperidade'. Com o primeiro, Schaeffer quer dizer um tipo de descompromisso com todas as coisas e pessoas, bem como imperturbabilidade e liberdade completa para fazer o que bem se entende. 'Prosperidade' é encarada em termos 'materialistas' (eticamente - e não metafisicamente - falando). Afinal, a melhor aposta do humanismo humanista (ou 'secular') é o hedonismo, mui exponenciado quando se tem mais recursos. Em outras palavras, 'já que a vida acaba aqui, temos que 'aproveitá-la' da forma mais intensa possível. Em suma, a crise na educação vai anuir com esses valores, admitidos tacitamente pelo homem comum, pai de família, que só quer o bem para seus filhos. Vale a pena citar as palavras de Schaeffer, falando dos anos 60, com foco no que acontecia na Europa, mas que é facilmente percebido em terras tupiniquins:
"Se algum estudante dos anos 60 perguntasse a seus pais e a outras pessoas 'estudar para quê?', a resposta que frequentemente lhe era dada, se não em palavras ao menos em inferência, era 'ora, porque as estatísticas dizem que uma pessoa com estudo ganha muito mais'. E quando ele perguntava 'ganhar mais para quê?', a resposta era 'para que possa pagar uma faculdade para seu filho'. De acordo com esse tipo de resposta, declarada ou implícita, não existe sentido na vida do homem, e a educação não faz sentido" (SCHAEFFER, p. 145-146).
Percebem o looping? Se a pergunta continuasse: 'E por que pagar faculdade para meus filhos?', a resposta seria: 'para que ganhassem mais' e assim por diante. E são os jovens que mais se incomodam com essa questão porque as questões existenciais ainda não lhes foram solapadas pela ocupação*.
Nesse contexto em que a educação não faz sentido é claro que só sobram as duas alternativas mencionadas por Olavo. Ou alguém se envolveria por puro prazer, ou por que dá dinheiro. Ninguém consegue conceber que poderíamos nos envolver por entendermos que nos enveredamos naquilo por que sentimos que temos esse papel no universo, que devemos desempenhar essa função, em suma, 'vocação'*. Schaeffer e Olavo estão de acordo que o que se perdeu, o que era fundamental e anterior à própria empreita rumo à educação, foi o 'sentido da vida'. Se o todo não faz sentido, muito menos faz suas partes. Se a vida não faz sentido, estudar também não. Temos uma crise existencial que precede a crise educacional. Uma crise filosófica...

É interessante que Craig, pautado no célebre livro de Alan Bloom, 'The Closing of the American Mind', vai ainda mais afundo para observar que as consequências nefastas do pensamento ocidental encontra sua origem no pós-modernismo. Não só a perda de sentido e de valores, mas da própria noção de verdade. "Uma vez que não há nenhuma verdade absoluta, uma vez que tudo é relativo, o propósito da educação não é ensinar a verdade ou conhecer os fatos - pelo contrário, trata-se apenas de adquirir a habilidade necessária para enriquecer, conseguir poder e fama" (CRAIG, p. 11).

Arthur Schopenhauer, famoso filósofo alemão pessimista do século XIX, pode muito nos ajudar em suas elucubrações a respeito desses assuntos. Ele não evoca a noção de vocação, preferindo deter-se na questão do prazer pelos estudos. Não podemos deixar de concordar que o intelectual deve sentir algum prazer no esclarecimento. Sanar suas dúvidas, ampliar seus horizontes, ter uma compreensão mais adequada e abrangente da vida pode ter e, de fato, tem muito valor. A grande validade da citação que fazemos de Schopenhauer destina-se, particularmente, àqueles que não conseguem entender que poderíamos nos envolver com o labor mental sem pensar, primeiramente, em quanto isso nos renderá. Observemos um poucos suas palavras embebedadas de desprezo por quem pensa assim:
"Diletantes, diletantes! - Assim os que exercem uma ciência ou uma arte por amor a ela, por alegria, per il loro diletto [pelo seu deleite], são chamados com desprezo por aqueles que se consagram a tais coisas com vistas ao que ganham, porque seu objeto dileto é o dinheiro que têm a receber. Esse desdém se baseia na sua convicção desprezível de que ninguém se dedicaria seriamente a um assunto se não fosse impelido pela necessidade, pela fome ou por uma avidez semelhante" (SCHOPENHAUER, p. 20-21).
Em certo sentido, Schopenhauer não está em franca oposição a Olavo, visto que o conceito de vocação não exclui nem o prazer e, não necessariamente, visto que pode ocorrer em alguns casos, a remuneração. Aliás, é difícil pensarmos em vocação sem considerarmos que há algum deleite na labuta, na empreita. É claro que tal labuta irá trazer suas dificuldades e obstáculos e muitos deles não seriam vencidos se o indivíduo apenas se deleitasse na tarefa, se não se sentisse vocacionado para tal pois, assim que o prazer cessasse, cessar-se-ia a motivação. O prazer é parte essencial, mas não é o leit motiv. Mas discordamos num ponto de Schopenhauer. Pouco antes da citação anterior ele diz:
"Para a imensa maioria dos eruditos, sua ciência é um meio e não um fim. Desse modo, nunca chegarão a realizar nada de grandioso, porque para tanto seria preciso que tivessem o saber como meta, e que todo o resto, mesmo sua própria existência, fosse apenas um meio Pois tudo o que se realiza em função de outra coisa é feito apenas de maneria parcial, e a verdadeira excelência só pode ser alcançada, em obras de todos os gêneros, quando elas foram produzidas em função de si mesmas e não como meios para fins ulteriores" (SCHOPENHAUER, p. 19).
Claro, evidentemente ele tem razão quanto à competência de quem se envolve nos estudos por amor ao conhecimento. Mas ele faz do conhecimento em si a razão existencial do homem. E aqui ele perde o que acreditamos ser o grande motor da busca pelo conhecimento. Não vamos discordar dele, muito menos de C. S. Lewis, que completa o quadro observando que a descoberta, a sede pelo conhecimento, é apetite que Deus mesmo colocou em nós: "Em certo sentido, refiro-me à busca do conhecimento e da beleza por eles mesmos, mas num sentido que não exclui serem também por causa de Deus. O apetite para essas coisas existe na mente humana, e Deus não cira apetite nenhum em vão" (LEWIS, p. 59). Entretanto, por que ansiamos por conhecer? É verdade que, em certo sentido, desejamos nos proteger. Mas entendemos que há algo mais profundo aí. São as questões essenciais, colocadas no coração humano, as questões últimas, fundamentais, que nos levam à buscar a educação. A cosmovisão humanista diz que não há sentido e muitos que a adotam chegam a dizer que não há, nem mesmo, forma de se chegar à verdade objetiva (ou mesmo que ela não existe!). E se essa possibilidade nos é vetada desde o início, então, como notaram Schaeffer e Craig, a educação está fadada ao fracasso. Todavia, se olharmos para o ardoroso trabalho da pesquisa e reflexão como meios para encontrarmos as respostas mais significativas, então nos debruçaremos nos livros, na natureza, e onde mais apontarmos o nariz e suspeitarmos que as respostas estão. A salvação da educação, bem como a compreensão e valorização daqueles destinados a ofícios afins, está, pois, numa concepção diferente sobre a vida. Somente uma cosmovisão alternativa poderá salvar o homem da estupidez bem assalariada que ele almeja, do 'american dream'.



AS FALSAS VOCAÇÕES PARA SER INTELECTUAL


No número das vocações, existe, pois, a do intelectual. Aqueles chamados para pensar, refletir, e sanar dúvidas, expandir a compreensão das coisas, educar. Dentre esses, temos aquele que irá estudar as ciências humanas, os pensadores, os filósofos (o que pode incluir não só filósofos mas, também, sociólogos, economistas... etc.). E aqui ainda temos de distinguir entre o filósofo e o professor de filosofia. Em suma, muito do descrédito para com a filosofia é por conta de haver tão poucos pensadores, não-vocacionados que se passam por vocacionados. Não que não haja quem estude num curso de humanas, mas que aqueles que entram ali, dizem-nos os 'amigos' que chamamos para conversar [nos referimos às fontes bibliográficas], não são verdadeiros 'filósofos', ou 'pensadores'. Ouçamos-los.
Para começar, gostaríamos de citar ousadas afirmações de outro filósofo brasileiro, Luiz Felipe Pondé. As reflexões desta seção partirão de suas afirmações:
"Na maioria dos casos, professores de universidades (ou não) são pessoas que, além de não gostar dos alunos, têm uma inteligência mediana e foram, quando jovens, alunos medíocres, que fizeram ciências humanas porque sempre foi fácil entrar na faculdade em cursos de ciências humanas. Claro que todos pensavam em si mesmos como Marx ou Freud não revelados. Ao final, o que se revela com mais frequência é alguém fracassado que ganha mal e odeia os alunos. Professores normalmente não gostam de ler ou de estudar, mas dizem que esse pecado é apenas dos alunos. Há um enorme sofrimento na maioria dos professores porque têm de fingir o tempo todo que acreditam na importância do que fazem" (PONDÉ, p.).
Há muita coisa pesada e polêmica aqui, não? Segundo Pondé, os professores são incompetentes, frustrados e até mesmo não gostam de ler! Seria essa uma constatação isolada? É claro que não! Não é de hoje que vários pensadores têm reclamado, desprezado e até feito chacotas de outros pseudo-pensadores de sua época.
Comecemos com o turrão Schopenhauer: "Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo c´redito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes" (SCHOPENHAUER, p. 17). Ou seja, muitos (para Schopenhauer, a maioria) dos que adentram aos cursos superiores o fazem não por amor ao conhecimento, ou por vocação, como Olavo diria, tomam o conhecimento como um meio para alcançar fama, dinheiro, prestígio e notoriedade, ou, na perspectiva de Pondé, adentraram-se ao mundo das humanas porque não tinham muitas alternativas.
A propósito, o professor Olavo, noutra obra, intitulada 'A Filosofia e Seu Inverso', defende que a filosofia tem a ver com a formação 'espiritual' do homem, trazendo-lhe orientação para a vida, em oposição à mentalidade 'profissionalizante' assumida com a formação das universidades modernas que permitiu às pessoas a possibilidade de lidarem artificialmente com as discussões filosóficas. Ele nos conclama a ver a filosofia tal como ela nasceu e, para isso, evoca o exemplo dos clássicos, i. é, de Sócrates, Platão e Aristóteles. O professor Olavo nota, particularmente, seguindo a Eric Voegelin, a disputa entre Sócrates e Platão contra os sofistas. Ele começa observando que
"Sócrates se volta contra tudo aquilo que, no meio ateniense, é opinião dominante, tida como respeitável e séria no mais alto grau. Graças ao próprio empenho de Sócrates e de Platão, a doxa ateniense nos parece hoje coberta de ridículo, mas na época ela era tão respeitada que desafiá-la podia ser punido com a morte, como de fato o foi. [...] A diferença específica de Sócrates reside num estrato mais profundo da experiência da discussão. Enquanto seus adversários repetem ideias correntes, apegando-se à segurança dos papéis sociais que lhes infundem a ilusão de estar certos por pensar de acordo com a maioria, ou com a classe dominante, Sócrates fala apenas como indivíduo humano, sem respaldo em qualquer autoridade externa. E não apenas faz isso, mas apela ao próprio testemunho íntimo de seus contendores, o que equivale a despi-los de suas identidades sociais e induzi-los à confissão direta, sincera, humana, de seus verdadeiros sentimentos" (OLAVO, 2012, p. 35).
Mais adiante Olavo caminha com Voegelin para observar que esse oposto do filósofo, que não lida com as questões íntimas como se tivessem relação com ele, ou que apenas abraça a opinião main stream, foi denominado por Platão de 'filodoxo', ou seja, um amante (filo) da opinião (doxa). E segundo Olavo, a maioria das faculdades e universidades estão cheias deles. Não se pensa mais com sinceridade e devoção. O grande objetivo é se amoldar ao establishment, e ganhar um título de autoridade em algum assunto. Schopenhauer, novamente, está em sintonia com esse mesmo pensamento, e o transporta lá para a Alemanha do século XIX:
"É possível dividir os pensadores entre aqueles que pensam a princípio para si mesmos e aqueles que pensam de imediato para os outros. Os primeiros são pensadores autênticos, são os que pensam por si mesmos, são eles mais propriamente os filósofos. [...] O prazer e a felicidade onde sua existência consiste exatamente em pensar. Os outros são os sofistas: eles querem criar uma aparência e procuram sua felicidade naquilo que esperam receber dos outros" (SCHOPENHAUER, p. 47).
Claro, olhando para o que já aprendemos de Aristóteles, podemos perceber que Schopenhauer adere a seu ideal eudemônico que concebe a realização existencial no ato de pensar, o que não coadunamos. Mas, independente, ele concorda que há aquele tipo de 'profissional do saber', 'sofistas', que veem na busca do conhecimento a busca pela felicidade nos aplausos alheios.

Pondé também fala de professores que não gostam de ler. Outros filósofos falam de um problema de mesmo porte, o fato de não saberem ler! Sim! Não falamos de professores analfabetos, mas que leram muito sem se tornar mais esclarecidos por isso. O conhecimento que adquiriram não foi abraçado de maneira adequada, de modo que praticamente 'não lhes pertence'. Mortimer Adler e Charles Van Doren podem elucidar esse ponto:
"Montaigne falava de uma 'ignorância abecedariana que precede o conhecimento, e uma ignorância doutoral que se segue ao conhecimento'. A primeira ignorância é a do analfabeto, isto é, do sujeito incapaz de ler. A segunda ignorância é a do sujeito que leu muitos livros, mas os leu de maneira incorreta. Alexander Pope os chamava, com justiça, de livrescos estúpidos, literatos ignorantes. Na história, sempre houve ignorantes alfabetizados, isto é, pessoas que leram muito mas leram mal. Os gregos tinham um nome especial para essa estranha mistura de aprendizado e estupidez - um nome que pode ser aplicado aos literatos ignorantes de todas as eras. Eles chamavam esse fenômeno de sofomania" (ADLER, VAN DOREN, p. 33).
E se alguém precisa de explicações quanto ao que é ler mal, podemos ver uma das formas denunciadas por Schopenhauer, que tanto reclama daqueles que leem demais e não param para pensar no que estão lendo:
"A leitura contínua, retomada de imediato a cada momento livre, imobiliza o espírito mais do que o trabalho manual contínuo, já que é possível entregar-se a seus próprios pensamentos durante esse trabalho. [...] Com isso não se chega à ruminação: mas é só por meio dela que nos apropriamos do que foi lido, assim como as refeições não nos alimentam quando comemos, e sim quando digerimos. Em contrapartida, se alguém lê continuamente, sem parar para pensar, o que foi lido não cria raízes e se perde em grande parte" (SCHOPENHAUER, p. 114).
E é justamente por isso que temos tão rasos pensadores (na verdade, pretensos pensadores). E por serem de qualidade tão ruim, tão sem proveito, é que todos desprezam seu ofício de forma geral. Eles não sabem nem dialogar com os 'professores mortos' (como Adler chama os livros)*. Entretanto, não podemos nos esquecer que o grande erro castrante é o da pressuposição de que não há sentido e valores na vida, ou mesmo que não há verdade, como vimos com o dr. Craig. Afastando-se desses pressupostos esterilizadores teremos uma avenina pela frente rumo ao conhecimento e o bem!

Mas temos que ser cautelosos. Podemos cair naqueles erros também. Podemos nos tornar pseudo-intelectuais. Não basta sabermos ler direito. Seria ingenuidade pensar que não seremos assediados pelos benefícios que o reconhecimento de sabedoria pode trazer. Nessa entoada Lewis nos adverte:
"podemos vir a amar o conhecimento - o nosso conhecer - mais que o objeto conhecido: deleitar-nos não no exercício de nossos talentos, mas no fato de que eles nos pertencem, ou mesmo na fama que eles nos proporcionam. A cada sucesso na vida de um intelectual esse perigo aumenta" (LEWIS, p. 60).
Tomando essas cautelas, acreditamos que poderemos salvar nossa vida intelectual.

Ok, sabemos o que é vocação, e como ela é importante, mas, alguém poderá perguntar: 'filosofia?'. Será que há alguma utilidade no estudo disso? É aí que vamos explorar nosso segundo ponto.


E PRA QUE SERVE ESSA TAL DE FILOSOFIA?


Quem foi que nunca se deparou com conceitos de filósofos, frases soltas ditas por essa ou aquela celebridade grega de centenas de anos atrás, e se perguntou: qual a relevância disso? Não é raro ver quem pense serem essas discussões filosóficas, e até teológicas, uma grande babaquice. E não é apenas gente iletrada. Registramos o exemplo do respeitado teólogo e razoável filósofo R. C. Sproul cometendo uma gafe célebre, mas muito didática*. Pois bem, além do fato de, normalmente, tais asseverações serem injustas, pautadas na absoluta falta de compreensão do que os pensadores disseram, temos que salientar que uma hora ou outra aquelas ideias batem à nossa porta. Isso mesmo, as mais abstratas elucubrações filosóficas começam a escorrer pelas escadarias da academia e, mais cedo ou mais tarde, quando conseguem prevalecer no topo, alcançam as mentes mais simples e 'vulgares' da população. Padeiros e donas de casa, sem perceber, repetem os jargões filosóficos da moda, e a população, em geral, pensa como os filósofos ditaram que deveriam pensar.
Uma evidência muito tranquila para quem quiser averiguar é a seguinte: pesquisem nas escolas literárias. Elas são reflexo das elaborações filosóficas que as precederam. É frequente que os autores até conheçam as principais discussões filosóficas e tomem partido. Acontece que eles irão expressar essas concepções em suas historias, narrativas, contos, romances e poemas. Logo as pessoas irão ler o que foi dito. Haverá escritos considerados mais sofisticados, e os intelectuais se devotarão a eles. E também surgirão escritos mais grosseiros, amiúde de competência intelectual proporcional e são esses que também, usualmente, nem conseguem perceber que escrevem admitindo conceitos e teses filosóficas, e acabam popularizando-as aos mais simples.
Música, teatro e cinema também contribuem muito para a divulgação dessas ideias, como bem nota Francis Schaeffer na obra 'Como Viveremos?'. E é o próprio Schaeffer - não exclusivamente, pois o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho faz observações muito semelhantes em 'O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota' - também nota que haver outra maneira muito eficaz de encucar nos mais diversos setores sociais alguma ideia: as universidades. São delas que saem os formadores de opinião, e o que seus professores lhes convenceram é o que será base para o que irão transmitir. Aliás, aqui valem as palavras de William Lane Craig:
"De fato, a instituição mais importante na construção da sociedade ocidental é a universidade. É na universidade que os nossos futuros líderes políticos, jornalistas, advogados, professores, cientistas, executivos e artistas serão formados. É na universidade que eles formularão ou, mais provavelmente, absorverão a cosmovisão que moldará suas vidas. Uma vez que são os formadores de opinião e os líderes que moldam a nossa cultura, a cosmovisão que eles absorverem na universidade será aquela que moldará a nossa cultura" (CRAIG, p. 15).
Sendo assim, achamos que a ideia de que as questões filosóficas não passam de divagações e devaneios malucos provou-se obsoleta e infantil. Qualquer um pode ignorá-las, mas, a qualquer hora poderá notar que aquelas ideias que lhe pareciam tão naturais não eram outra coisa senão a formação social de suas ideias. Alguém que ignora esse fenômeno está muito propício a ser manipulado. E aqui podemos recorrer às observações pertinentes de Olavo de Carvalho a esse respeito - novamente, não está sozinho, pois Schaeffer coaduna com ele em observar a existência desse projeto -, que acredita existir 'estrategistas da guerra cultural', 'manipuladores conscientes' das opiniões, e segue isso com base nos escritos do mui influente Antonio Gramsci. Então revela o que para todos parece impossível:
"Que, para o estrategista da guerra cultura, o 'senso comum' seja um produto social como qualquer outro, sujeito a ser moldado e alterado pela ação organizada de uma elite militante; que sentimentos e reações, que, para o cidadão comum, constituem a expressão personalíssima da sua liberdade interior, sejam para o planejador social apenas cópias mecânicas de moldes coletivos que ele mesmo fabricou; que a direção de conjuntos das transformações culturais não seja a expressão dos desejos espontâneos da comunidade mas o efeito calculado de planos concebidos por uma elite intelectual desconhecida da maioria da população - tudo isso lhe parece ao mesmo tempo um insulto à sua liberdade de consciência e um atentado contra a ordem do mundo tal a concebe" (CARVALHO, 2013, p. 172).
Se existem mesmo esses planejadores culturais, os homens estarão menos sujeitos na medida em que forem educados, que conhecerem as raízes do que creem. A forma de se livrar é o interesse verdadeiro pela sua maturação, pela 'educação' no sentido estrito do termo. Precisamos estar cientes que, de uma forma ou de outra, abraçamos os pensamentos de nosso meio e época, e o conhecimento filosófico, devidamente adquirido, nos permitirá transcender nossa situação para avaliarmos de forma mais adequada o que nos é apresentado. Recorremos às acertadas palavras de Sproul para iluminar a questão:
"A filosofia nos obriga a pensar em termos de fundamentos. Com fundamentos quero dizer os primeiros princípios ou verdades básicas. A maioria das ideias que moldam nossa vida é aceita (pelo menos no começo) sem muita crítica. Não criamos um mundo ou ambiente do zero e depois vivemos nele. Entramos num mundo e numa cultura que já existem e aprendemos a interagir com eles" (SPROUL, p. 11).
E falando em Sproul, podemos pegar, mais uma vez, um exemplo de sua vida para ilustrarmos o que estamos trabalhando por aqui. Sproul conta que no segundo ano da faculdade de filosofia precisava arrumar um emprego nas férias e, não achando nada que demandasse alguém com conhecimentos filosóficos, acabou na manutenção de um hospital onde se encontrou com um homem cumprindo funções semelhantes para, em seguida, descobrir que se tratava de um Ph. D. em filosofia que fora expulso da Alemanha por ocasião da ascensão de Hitler que não queria, ali, ninguém que
discordasse de seus valores. Então Sproul notou:
"Eu estava empunhando uma vassoura poque vivia em uma cultura que dá pouco valor à filosofia e tem pouca estima por quem gosta dela. Meu amigo, todavia, estava com uma vassoura nas mãos porque vinha de uma cultura que dava grande valor à filosofia. Sua família fora destruída porque Hitler sabia que idéias são perigosas" (SPROUL, p. 10-11).
As ideias são perigosas, e, a menos que não queiramos ser vítimas delas, precisamos nos debruçar sobre os livros e refletirmos bem para combater, ou mesmo prevenir, as mazelas que uma ideia errada pode produzir.

É interessante notarmos que a questão do declínio do significado da educação é justamente produto de desdobramentos filosóficos. Cientes do que acabamos de expor, podemos voltar para o que apresentamos no início do artigo para percebermos que foi justamente por conta de concepções filosóficas que acometeram o Ocidente é que a educação caiu onde caiu.

Alguém poderia, ainda, nos lançar uma última objeção. Será que não há coisas prioritárias para serem estudadas? Por exemplo, medicina. Será que não é mais importante salvar a vida das pessoas para que elas pensem? Ou protegê-las e lhes dar conforto, estudando engenharia, por exemplo? Há quem diga que devemos dar uma atenção especial às 'verdadeiras ciências'. Isso, para Olavo, é típico dos países subdesenvolvidos:
"Sobretudo em países do terceiro mundo, a formação das elites governantes é maciçamente concentrada em estudos de economia, administração, direito, ciência política e diplomacia. Para esses indivíduos, as letras e artes são, na melhor das hipóteses, um adorno elegante, um complemento lúdico às atividades 'peso pesado' da política, da vida militar e da economia" (CARVALHO, 2013, p. 171).
E completa dizendo que há uma falsa suposição, da parte de muitos, de que um povo deve, primeiro, atentar-se às questões políticas, militares e econômicas para, só então, lidar com os 'tesouros culturais': "Nenhum povo ascendeu ao primado econômico e político para somente depois se dedicar a interesses superiores. O inverso é que é verdadeiro: a afirmação das capacidades nacionais naqueles três domínios antecede as realizações político-econômicas" (CARVALHO, 2013, p. 66). É interessante observar que C. S. Lewis faz a mesma constatação:
"Se os homens tivessem adiado a busca do conhecimento e da beleza até estarem em segurança, essa busca jamais teria começado. [...] Jamais faltaram razões plausíveis para se adiarem todas as atividades meramente culturais até que algum perigo iminente seja desviado ou evitado ou que alguma injustiça gritante seja consertada. Entretanto, a humanidade há muito tempo preferiu esquecer essas razões. Quis o conhecimento e a beleza agora, e não ia esperar o momento apropriado que jamais chega" (LEWIS, p. 53).
Um pouco mais adiante ele reforça a ideia:
"Sempre houve muitos rivais de nosso trabalho. Estamos sempre nos apaixonando ou querelando, procurando emprego ou temendo perdê-lo, adoecendo e nos recuperando, acompanhando negócios públicos. Se nos deixarmos pegar pelo abandono, sempre ficaremos esperando que uma ou outra distração termine antes que comecemos de fato nosso trabalho. Os únicos que alcançam muito são os que desejam tão intensamente o conhecimento que o procuram enquanto as condições ainda são desfavoráveis" (LEWIS, p. 62).


CONCLUSÃO


Não há dúvidas de que a formação de um filósofo é algo de extrema importância para o bem estar da sociedade. Graduar-se nessa área, ou em alguma outra área das humanas, é de valor crucial para ter a possibilidade de influenciar a cultura para o bem ou para o mal. E é justamente por conta da situação, do zeitgeist, do espírito pessimista que assombra a humanidade e concatena a razão à falta de sentido para tudo, e até mesmo à falta de verdades, que a a educação é desprezada, e com isso os pensadores. Mas é justamente nesse desprezo que se coloca à mercê deles. É um sistema que se auto-alimenta. Quanto mais as pessoas ignorarem os pensadores, seus poderes de influência, e desprezarem a própria educação, não vendo nela nada além do que um meio para se enriquecer, mais suscetíveis à manipulação, ao engano e ao engodo estarão. O autor desse texto é que não se enquadrará nesse cenário! Não há, portanto, motivos para abandonar o projeto de graduar-se em prol de caminhar rumo ao objetivo de tornar-se um filósofo (não que a graduação seja absolutamente necessária, mas é um meio ordinário), amigo tanto do bem quanto do saber, comprometido com o bem da sociedade. Acreditamos que existe sentido para a vida, valores, e que há verdades objetivas. E tentaremos mudar os rumos, ao menos dos que se encontram ao nosso redor.


........................................
Queremos agradecer a Misael Pulhes pela revisão que fez ao texto!
------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

* Sobre isso, dissertamos mais demoradamente aqui.
*  Julgamos, aliás, que a leitura dos livros de Adler/Van Doren e Schopenhauer, relendo-os aplicando seus próprios métodos a eles mesmos, dará as competências iniciais para uma boa educação, ou pelo menos as bases para o aprendizado.
* A propósito, diga-se de passagem, é bom conceituarmos vocação antes de continuar, caso o leitor sinta-se um pouco perdido. Olavo define-a da seguinte forma: . O termo que, até onde sabemos, tem origem cristã, particularmente protestante (o que não é omitido pelo professor Olavo, embora ele diga ver coisas semelhantes na própria Idade Média), é mui bem definido por Marcos Botelho num vídeo com esse mesmo nome. Nele, Botelho diz o seguinte: 'A base do chamado é servir ao próximo' e, adiante, diz que uma vocação é aquilo que 'você sabe fazer, gosta de fazer e Deus colocou nas suas mãos para fazer'. Podemos arrematar com uma elaboração muito feliz de Botelho: 'Vocação é a maneira que Deus se expressa ao mundo através de você'! O vídeo completo pode ser visto clicando aqui.
A título de completude temos Lewis dando alguma luz para os que não sabem qual seria sua vocação: "O modo com que um indivíduo foi criado, seus talentos, suas circunstâncias, normalmente são todos índices razoáveis de sua vocação" (LEWIS, p. 53).
* Quem quiser, dê uma olhada aqui.


BIBLIOGRAFIA


ADLER, Mortimer Jerome; VAN DOREN, Charles. Como Ler Livros: o guia clássico para a leitura inteligente. Tradução de Edward H. Wolff e Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2010. 432p.
CARVALHO, Olavo de. A Filosofia e Seu Inverso: E Outros Estudos. Campina: Vide Editorial, 2012, 264p.
CARVALHO, Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Organização de Felipe Moura Brasil. Rio de Janeiro: Record, 7 ed., 2013, 616p.
CRAIG, William Lane. Apologética para questões difíceis da vida. Tradução de Heber Carlos de Campos. São Paulo: Vida Nova, 2010, 192p.
LEWIS, C. S. O Peso de Glória. Tradução de Lenita Ananias do Nascimento. São Paulo: Editora Vida, 2008, 184p.
PONDÉ, L. F. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia. São Paulo: Leya. 2012, 232p.
SCHAEFFER, Francis. Como Viveremos? Tradução de
SCHOPENHAUER, Arthur. A Arte de Escrever. Tradução, organização, prefácio e notas de Pedro Süssekind. Porto Alegre: L&PM, 2013, 152p.
SPROUL, R. C. Filosofia Para Iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208p.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Vamos olhar mais de perto os fatos concernentes ao descobrimento do Brasil...

INTRODUÇÃO: POR QUE PORTUGAL?

Todo mundo, no Brasil, sabe (ou deveria saber) que fomos colonizados pelos portugueses. Alguns lamentam, e outros vêem vantagens nesse fato. Iremos opinar também, mas, antes, estudemos a história para fundamentar nossas opiniões, tornando-as posições. Pois bem, agora, é legítimo perguntarmos: por que não a Espanha? Ou Inglaterra... Holanda, França... Claro, não temos tempo e espaço, aqui, para uma dissertação completa sobre a história da Europa Medieval para que consigamos estabelecer perfeitamente as causas. Mas, mesmo que não se saiba muito sobre a história européia, há alguns detalhes que podem ser elencados.

POR QUE PORTUGAL FOI PIONEIRO NAS GRANDES NAVEGAÇÕES?

O historiador Boris Fausto aponta algumas razões para Portugal ser pioneiro nas grandes navegações. Talvez uma das mais importantes seja o fato de Portugal, desde muito cedo, ter se tornado uma monarquia centralizada, ou seja, em meio à descentralização do poder na Europa, ao famoso período feudal, os lusitanos têm, mais cedo que os outros países, os poderes centralizados nas mãos de um único rei, que a tudo administra. Tal fenômeno lhes angariou recursos suficientes para aventurarem-se pelos mares. Tanto o próprio Estado quanto os burgueses apoiavam a empreitada, completa Fábio Costa.
Portugal também aprendeu, com os genoveses, da Itália, que perambulavam a tempos pelo mediterrâneo, técnicas de navegação. Costa acrescenta a informação de que havia uma preparação teórica sobre o assunto, a famosa Escola de Sagres, o que indica que estudavam a questão, levando-a a sério.
Ainda outro fator óbvio, mas que pode passar despercebido, é a posição do país. Portugal estava de frente para o mar, para o Oceano Atlântico, e até mesmo as correntes marítimas lhe eram favoráveis.
Questão também determinante era a tecnologia naval dos portugueses. Inventaram seus engenheiros um navio rápido e muito eficiente: a caravela. "Pequenas - cerca de vinte metros de comprimento -, ágeis, capazes de avançar em zigue-zague contra o vento e dotadas de artilharia pesada, as caravelas eram consideradas os melhores veleiros a navegar em alto-mar" (DEL PRIORI, VENANCIO, p. 11). Foi em uma delas que Pedro Álvares Cabral veio, em grande expedição, ao Brasil.
O professor Fábio Costa também nota algo importante. Portugal tinha por característica básica o comércio. Não eram muito dados à produção. Antes, seu apanágio era justamente as transações comerciais. Isso é que os impeliu a decidirem-se por tomar o rumo dos mares desconhecidos do oeste.

O QUE MOTIVAVA PORTUGAL ÀS EXPEDIÇÕES?

E, falando nos motivos que levaram os portugueses às empreitadas no além-mar, Fausto deixa-os ainda mais claros: o ouro e as especiarias (pimenta, noz moscado, cravo, canela...). As especiarias eram importantes para disfarçar o mau gosto dos alimentos que, de forma muito comum, se estragavam (não havia meios tão eficazes como os de hoje para preservação dos alimentos). Eram, pois, produtos de valor alto no mercado. Fábio Costa nos conta que, até então, Portugal comprava especiarias dos italianos, que compravam dos árabes que, por sua vez, granjeavam na Índia. Entretanto, em dado momento, Portugal quer encurtar a distância, e então visa pegar por si mesmo as especiarias nas Índias.
Boris Fausto não elimina das motivações o desejo de aventura, de conhecer novas terras. Fantasiavam sobre o que haveria no novo mundo. Desde a Idade Média ficavam a imaginar, e não raro cogitavam lendas, sereias e afins. Mas Fábio Costa bem lembra, sem eliminar o espírito aventureiro, que os portugueses já não estavam muito crentes nessas histórias, o que lhes desobstruía muito os caminhos dos mares. O medo fora grandemente minorado. Estamos no Renascimento, e a 'crendice medieval' [misturada às boas reflexões filosóficas e teológicas elucubradas por uma elite intelectual que se confundia com os oficiais eclesiásticos] já estava sendo jogada no lixo.

É bom lembrar que o Brasil não foi o primeiro lugar que os portugueses foram. Em 1415 eles chegam ao norte da África, conforme informa o professor Fábio. Dali pra frente começam a explorar todo o litoral africano, intentando rodear o continente para chegar às índias. De 1415 a 1460 eles conquistam as Ilhas Atlânticas. Em 1488, Bartolomeu Dias cruza o Cabo das Tormentas, ao sul da África (o encontro entre o Oceano Atlântico e o Índico), que passa a ser chamado de Cabo da Boa Esperança. E, finalmente, em 1498, Vasco da Gama [notem que foi o SEGUNDO a passar o cabo... vice de novo] vai até Calicute, nas Índias. Quanto a isso, Del Priori e Venancio são mais uma vez bem úteis: "[Vasco da Gama] ao longo da viagem tomara contato com o mundo muçulmano da costa oriental da África, onde hábeis mercadores controlavam inteiramente o comércio. Comércio, diga-se, de escravos capturados no interior da África e conduzidos aos portos de Sofala e Zanzibar - o Zenju-Bar, ou seja, 'páis dos escravos' -e de tecidos de algodão e especiarias, notadamente gengibre e o cravo. O encontro entre o mundo europeu e o indiano deu-se, contudo, em Calicute, mercado dos produtos desejados pelos portugueses: gengibre de Dekan, canela do Ceilão, pimenta da Malásia, cravo das ilhas Molucas e todas as demais especiarias levadas por árabes para Istambul e margens do Mediterrâneo. Durante três meses, Vasco da Gama contabilizou algo em torno de 1500 embarcações árabes nos portos da Índia" (DEL PRIORI, VENANCIO, p. 13).

Finalmente, temos a expedição de 1500, liderada por Pedro Álvares Cabral, que vem 'descobrir' o Brasil. Precismos nos deter, um pouco, na discussão dessa descoberta. E, então, iremos falar sobre essa primeira impressão e afins.

FINALMENTE, O 'DESCOBRIMENTO' DO BRASIL

Mary Del Priori e Renato Venancio notam algo instigante. Lembremo-nos que em 1494 foi assinado o Tratado de Tordesilhas, que dividia os mares do oeste, o Oceano Atlântico, entre Portugal e Espanha (é claro que, algum tempo depois, outros países iriam entrar na empreitada, e o 'companheiro' de Península Ibérica de Portugal, Espanha, logo entrou no 'ramo' também). Eram terras já demarcadas. Dom Manuel I, então rei de Portugal, após a volta de Vasco da Gama e seus relatos sobre Calicute e seu rei, monta uma segunda expedição, pomposa e impressionante, para dobrar o rei, montar um vínculo comercial direto com ele. Essa era a expedição de Cabral. Queriam ir às Índias. Então os autores supra mencionados notam: "Tendo em vista a pressa de se retornar a Calicute, é de se estranhar que a frota de Cabral pudesse perder tempo 'explorando' zonas desconhecidas e já chanceladas, há seis anos, pelo Tratado de Tordesilhas. Tomar posse das terras demarcadas devia fazer parte dos planos da expedição. Por que outra razão uma das treze embarcações, a conduzida por Gaspar de Lemos, teria voltado a Lisboa, anunciando a 'descoberta', quando os olhos da cristandade ocidental estavam bem abertos sobre a primeira expedição a abrir oficialmente a Carreira das Índias?" (DEL PRIORI, VENANCIO, p. 17). Isso mesmo. Os autores defendem que não foi por acidente que Cabral chegou aqui. Permitam-nos uma nova citação extensa: "O afastamenteo para oeste, hoje sabemos, foi intencional, pois, desde as viagens de Diogo de Teive ao Norte da África, em cerca de 1452, sabia-se da existência de terras a noroeste dos Açores e da Madeira. [...] Uma carta veneziana de 1424 representou, por sua vez, um conjunto de ilhas atlânticas, ao sul e ao norte das Canárias - Antilias, Sanaases e Saya, Imana e Brasiz -, que passaram a figurar em outros mapas cada vez mais a ocidente da Europa. Datada de 1474, a célebre carta de Tocanelli, enderaçada ao príncipe d. João, ou a algum membro de sua futura Corte, o incentivava a buscar um caminho paras as Índias em viagem transatlântica, tomando rumo ocidental e baseando-se na existência de algumas das ilhas acima mencionadas. A região, aparentemente desconhecida pelos portugueses, era, tudo indica, conhecida de marienheiros franceses, como negociante e marinheiro Jean Cousin, provável visitante da embocadura do Amazonas em 1488, assim como dos espanhóis, Diogo de Lepe e Alonso de Hojeda, que teriam passado por trechos da costa norte brasileira antes de 1500" (DEL PRIORI, VENANCIO, p. 17). São evidências muito fortes de que eles já sabiam que havia algo por aqui.
O historiador Boris Fausto também alavanca a questão da discussão sobre o termo 'descobrimento'. Ainda que considerássemos o ano de 1500 como a descoberta de novas terras, ainda assim o termo não seria totalmente adequado, visto que já haviam moradores, que foram denominados pelos Europeus de Índios. Pensamos que seria viável falar sobre o descobrimento europeu do Brasil.

IMPRESSÕES DE AMBOS OS LADOS

Seja como for, chegaram os portugueses ao Brasil. E aqui, vale dissertar sobre a perspectiva dos portugueses, ante os indígenas; e sobre a perspectiva dos indígenas a respeito dos portugueses.

Quanto aos indígenas, Boris notava que eles certamente estranharam toda aquela roupa sobre o corpo. Além disso, Narloch nota que eles não haviam desenvolvido nenhum tipo de meio de transporte e, o que viram no horizonte "enormes ilhas de maderia, que eram na verdade canoas altas cheias de homens estranhos" (NARLOCH, p. 47).
Naturalmente, segue Fausto, os padres estavam já interessados na catequese (Del Priori e Venancio nos informam que missionários estavam na expedição, pois queriam evangelizar nas Índias) e logo ergueram uma cruz. "No dia 26 de abril, uma missa celebrada pelo franciscano Henrique Soares de Coimbra marcou os festejos do Domingo de Páscoa. Em 1º de maio, uma cruz foi plantada" (DEL PRIORI; VENANCIO, p. 18) e "no dia 1º de maio, sexta feira, para comemar a paixão de Cristo, frei Henrique celebrou a segunda missa, precedida de uma procissão, tendo à frente os estandartes da Ordem de Cristo. Participaram da cerimônia mais de mil portugueses e cerca de 150 nativos" (CÉSAR, p.20). Elben M. Lenz César ainda nos relata que Pero Vaz de Caminha, o escrivão da comitiva, a quem devemos o primeiro relato sobre o Brasil e o contato com os nativos, demandou que aquele povo fosse evangelizado, e completa: "O entusiasmo de Caminha pela evangelização dos indígenas assenta-se, em parte, numa impressão demasiadamente otimista e simplista que teve dos nativos por ocasião da segunda missa campal: os índios ajudaram a carregar a cruz para o local designado e imitaram os portugueses durante o ofício religioso, ajoelhando-se, pondo-se em pé, levantando as mãos para o alto e olhando atentamente para o celebrante. Para o escrivão da feitoria de Calicute, o peixe já estava quase na rede. Faltava apenas o clérigo para os batizar!" (CÉSAR, p. 23). O problema, como nos informa Élben é que, embora Gaspar de Lemos tenha levado a carta para Dom Manuel, o então rei de Portugal, não surtiu efeito e ficou arquivada. Somente cerca de 300 anos mais tarde é que o documento foi redescoberto. Mas também sugere que ela possa ter motivado a primeira leva de missionários em 1549, tema que voltaremos a abordar.

Claro, os portugueses, pomposos e vestidos, certamente tinham estranhamento para com a nudez indígena. Mas Del Priori e Venancio nos lembram que não era inteiramente uma novidade: "Que gente seria aquela? A nudez era novidade? Não. Portugueses estavam familiarizados com etíopes, com os quais se deparavam quando costeavam o litoral africano, eles também nus e portando mortíferas azagaias" (DEL PRIORI; VENANCIO, p. 19).

Bóris vai assumir ares de que os índios foram ultrajados pelos lusitanos, e Del Priori e Venancio não ficam atrás. Mas da perspectiva dos portugueses já temos que observar a realista perspectiva de Leandro Narloch: "Os portugueses não eram seres onipotentes que faziam o que quisessem nas praias brasileiras. Imagine só. Você viaja para o lugar mais desconhecido do mundo, que só algumas dúzias de pessoas do seu país visitaram. Há sobre o lugar relatos tenebrosos de selvagens guerreiros que falam uma língua estranha, andam nus e devoram seus inimigos - ao chegar, você percebe que isso é verdade. Seu grupo está em vinte ou trinta pessoas; eles, em milhares. Mesmo com espadas e arcabuzes, sua munição é limitada, o carregamento é demorado e não contém os milhares de flechas que eles possuem. Numa condição dessas, é provável que você sentisse medo ou pelo menos que preferisse evitar conflitos. Faria algumas concessões para que aquela multidão de pessoas estranhas não se irritasse" (NARLOCH, p. 33). É claro que já não chegaram 'mandando no pedaço', como Fausto nos faz querer entender. Portanto, os portugueses tiveram de apresentar-se humildes e agradáveis, ou então poderiam se dar muito mal. E já começamos a desmentir alguns conceitos consagrados... Narloch promete mais...


ANTES DOS PORTUGUESES: UM BACKGROUND DA SITUAÇÃO

O que os índios faziam antes dos portugueses chegarem? Há uma série de especulações. Os autores falam de milhares de anos atrás, e têm opiniões diversificadas. Preferimos, na ausência de registro ou documentos históricos, nos limitar a falar dos costumes que já haviam adquirido e do que parece mais palpável.
Bom, tinham uma cultura muito rudimentar. Del Priori e Venancio, típicos historiadores do politicamente correto, tentam dar ares de nobreza às produções culturais dos índios. "Na região Centro-Sul do Brasil, caçadores e coletores cruzavam campos, savanas e alagadiços em busca de peixes, carnívoros de médio porte e répteis, como o jacaré e o lagarto, base de sua alimentação. A presença de instrumentos capazes de modificar a consistência dos alimentos indica claramente as transformações que os grupos humanos impunham ao meio ambiente. Peças de pedra, côncavas ou convexas, funcionando como verdadeiros batedores-trituradores, mós e pilões, pontas de arpão e anzóis, feitos de ossos, evidenciam não apenas uma simples preocupação fisiológica, mas uma cultura em torno do alimento. [...] grupos horticultores começaram a plantar milho, algodão, amendoim e porongos - utilizados como cuias e cabaças. Esses primeiros horticultores criaram, também, uma cerâmica utilitária, pequena e escura, cuja função era o armazenamento. O início da domesticação de plantas e a relação com as espécies nativas [...] bem como a criação de instrumentos relacionados com o seu processamento [...] demonstram a existência de um sofisticado conhecimento sobre coleta e preparação de alimentos. Essa relação com o meio ambiente permitiu aos primeiros habitantes da 'terra dos papagaios' dispor de diferentes nichos ecológicos e desenvolver estratégias alimentares que tinham uma relação estreia com o mundo que os cercava. Mas os ancestrais das tribos tupis não eram apenas estômago. Eram extremamente sensíveis ao mundo cultural: esculturas de pedra e osso representando pássaros, mamíferos e homens constituem um catálogo apaixonante de suas criações artísticas. Nas grutas, a representação de animais - cada grupo tinha seu favorito [...] -, de formas geométricas ou de figuras humanas envolvidas em cenas familiares e sexuais indica o misto de fruição estética e investimento ritual em torno de imagens. Na execução dessas obras, não faltavam extremos cuidados: em Roraima, no interior das cavernas, usavam-se até andaimes para o acabamento das pinturas. No belíssimo conjunto rupestre do Lajedo de Soledade, no Rio Grande do Norte, imagens associadas a rituais propiciatórios para chuvas comprovam a maestria na preparação das tintas, evitando o escorrimento das cores" (DEL PRIORI, VENANCIO, p. 20-21). Aqui, particularmente, os autores estão falando de ancestrais mais distantes. Entretanto, as características dos seus descendentes não diferiu muito. Na verdade, não notamos qualquer progresso... os autores ainda mencionam as questões religiosas e sociais (questões familiares e afins). Coisas que já conhecemos: rituais; espíritos da natureza; caciques poligâmicos... De interessante na lista está os vínculos afetivos entre pais e filhos: "A forte ligação entre pais e filhos chamou a atenção dos europeus: 'são obedientíssimos a seus pais e mães e todos muito amáveis e aprazíveis'" (DEL PRIORI, VENANCIO, p. 22) e a divisão de tarefas segundo as competências dos gêneros e das idades: "Mulheres semeavam, plantavam e colhiam produtos agrícolas, coletavam frutas silvestres e maricos, fabricavam farinhas e óleo de palmeira, preparavam as raízes para a produção do cauim, fiavma algodão e teciam redes, cuidavam dos animais domésticos, e do corpo dos parentes, catando piolhos, deplilando-os, etc. Os homens derrubavam a mata e preparavam a terra para a horticultura, caçavam e pescava, construíam malocas, fabricavma canoas e armas, cortavam lenha  e protegiam mulheres e crianças" (DEL PRIORI, VENANCIO, p. 22-23).
Entretanto, ainda que não neguemos (se é que alguém o faz) que os índios tinham algum valor cultural, há muito que foi omitido pelos historiadores. Eles não falam das guerras que os índios estavam envolvidos, e também não destacam o óbvio: era uma cultura muitíssimo atrasada. Leandro Narloch, declaradamente subversivo, não furta-se de observar tudo isso: "Em 1500, quando os portugueses apareceram na praia, a nação tupi se espalhava de São Paulo ao Nordeste e à Amazônia, dividida em diversas tribos, como os tupiniquins e os tupinambás, que disputavam espaço travando guerras constantes entre si e com índios de outras famílias linguísticas. Não se sabe exatamente quantas pessoas viviam no atual território brasileiro - as estimativas variam muito de 1 milhão a 3,5 milhões de pessoas, divididas em mais de duzentas culturas. Ainda demoraria alguns séculos para essas tribos se reconhecerem na identidade única de índios, um conceito criado pelos europeus. Naquela época, um tupinambá achava um botocudo tão estrangeiro quanto um português. Guerreava contra um tupiniquim com o mesmo gosto com que devorava um jesuíta. Entre todos esses povos, a guerra não era só comum - também fazia parte do calendário das tribos, como um ritual que uma hora ou outra tinha de acontecer" (NARLOCH, p. 34-35). Tais observações, como veremos, são determinantes para que julguemos a questão indígena. Portanto, tomemos nota desse fenômeno.
Claro, alguém poderia criticar as fontes de Narloch. Ele, basicamente, apóia-se nos relatos dos padres jesuítas e de documentos de cronistas. Os segundos tinham de priorizar sua objetividade, e é meio difícil considerar que os jesuítas, que louvavam a não-usura dos indígenas, que tiveram vários conflitos com os gananciosos colonos, estivem fraudando seus relatos para agradar a burguesia...
Adiante Narloch é ainda mais elucidativo quanto às impressões dos índios. "A imagem divulgada do descobrimento do Brasil é aquela dos portugueses na praia, com as caravelas ao fundo, sendo recebidos por índios curiosos que brotam da floresta. Na verdade, houve um episódio que aconteceu antes: os índios subiram nas caravelas. [...] Provaram bolos, figo e mel (mas cuspiram as comidas com nojo), e ficaram espantadíssimos ao conhecer uma galinha. [...] naquela tarde de abril de 1500, os índios também fizeram sua descoberta. A chegada dos europeus revelou a eles um universo de tecnologias, plantas, animais e modos de pensar" (NARLOCH, p. 45). O autor descreve uma série de descobertas novas, como se passassem à idade do ferro de forma abrupta. Estavam fascinados com toda aquela avançada tecnologia. Anzóis para pescar; machados para facilitar o trabalho; animais domésticos; coco e banana... para não falar dos próprios navios, espetaculares! Leandro Narloch disse que não conheciam nem mesmo a roda! "Fizeram de tudo para conquistar a amizade dos novos [...] amigos. Antes que os brancos desembarcassem, subiram nos navios para conhecê-los. Na praia, deram presentes, estoques de mandioca e mulheres se ofereceram generosas. Devem ter achado urgente misturar-se com aquela cultura e se apoderar dos objetos diferentes que aqueles homens traziam [...] A história tradicional diz que os portugueses deram quinquilharias aos índios em troca de coisas muito mais valiosas, como pau-brasil e animais exóticos. Isso é achar que os índios eram completos idiotas. Aos seus olhos, nada poderia ser mais fascinantes que a cultura e os objetos dos visitantes. Não eram só quinquilharias que os portugueses ofereciam, mas riquezas e costumes [...]. Comprar aqueles artefatos com papagaios ou pau-brasil era um ótimo negócio" (NARLOCH, p. 48).

BIBLIOGRAFIA

CÉSAR, Elben M. Lenz. História da Evangelização do Brasil: dos jesuítas aos neopentecostais. Viçosa: Ultimato, 2000,  192p.
COSTA, Fábio. História do Brasil - Aula 1: Navegações Portuguesas e Período Pré-colonial. Acessado no dia 23/07/2014, em: https://www.youtube.com/watch?v=5tuK1c_51rw
DEL PRIORI, Mary; VENANCIO, Renato. Uma Breve História do Brasil. São Paulo: Editora Planeta, 2010, 320p.
FAUSTO, Bóris. A História do Brasil por Bóris Fausto. Acessado no dia 23/07/2014 em: https://www.youtube.com/watch?v=pSyE82yRaKU
NARLOCH, Leandro. Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil. São Paulo: Leya, 2009, 320p.




quinta-feira, 17 de julho de 2014

História Política e Cultural do Brasil: introdução.


Pois bem, vamos ao cumprimento de mais uma promessa. Há um tempo atrás, no facebook, cobrados sobre nossos motivos para torcer contra a seleção brasileira, e também motivados em esclarecê-los para não parecer que tínhamos qualquer associação aos idiotas do #nãovaitercopa e afins, fizemos uma pequena dissertação. Dentre os motivos, destaca-se um que germinou esta nova série. É ilusório, e até mesquinho, ver-se como patriota, ou como ato de patriotismo, o brasileiro tão simplesmente torcer para o Brasil em época de copa do mundo de futebol. Patriotismo que não conhece as riquezas culturais, nem mesmo a própria história de seu país, é, no mínimo, semelhante a dizer que ama uma donzela tão somente por conta de suas nádegas avantajadas. Diríamos: isso não é amor, é safadeza. Pois bem, aquilo não é patriotismo...

Olavo de Carvalho há de concordar conosco: "A pressa com que nosso povo copia hábitos e modos de falar estrangeiros, dando mesmo a seus filhos nomes ingleses ou franceses, mostra uma profunda indiferença popular a uma cultura que nada tem a lhe dizer sobre o sentido da vida e que, no máximo, lhe fornece na música popular, no futebol e no carnaval os meios de se anestesiar , através de ruídos sem sentido, contra o sem-sentido da vida. Nosso nacionalismo, por isto, não pode se compor de verdadeiro amor à pátria, exceto em estreitos círculos..." (Olavo de Carvalho, 'O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota', p. 64).

Aqui, pois, é onde pretendemos expor o básico da história e literatura brasileira. Qual a finalidade? Ah, há várias! Estudamos história para compreender o presente. Entender como chegamos à nossa situação, como as coisas ficaram como estão, e até mesmo compreender como estão, demanda um estudo do background da realidade presente, de suas raizes. Há erros e acertos, também, a serem considerados, para repetir estes e evitar aqueles. No final, até mesmo para influenciar de maneira mais efetiva nossa época e tentar viver bem exige, para maior eficiência, a compreensão histórica, uma biografia do país. Afinal, se queremos mesmo conhecer alguém, não temos que saber sobre sua história? Pois bem, encaremos o país como uma pessoa, e perguntemos de onde ele veio, como viveu...

AS FONTES

Não há nada de especial aqui. Seguiremos algumas vídeo-aulas, o que diz que são informações patentes a todos que pretendem passar num vestibular.
* Iremos seguir o documentário 'História do Brasil' com Boris Fausto: https://www.youtube.com/watch?v=pSyE82yRaKU.
* A série de aulas de História do Brasil com o professor Schiavone: https://www.youtube.com/playlist?list=PL-5888xShjYp6bkqJ9Ro5Z6h_LH8P4kkm
* A série de aulas de História do Brasil com o professor Fábio Costa: https://www.youtube.com/playlist?list=PLQsPGRk_FFH-YBVMt6OqirHcokvTER27Z
* Literatura seguiremos o professor Fabiano: https://www.youtube.com/watch?v=fiiwGfm8b8Y
* E à professorea Greice: https://www.youtube.com/watch?v=VcgNsyJ2btI&list=PL-5888xShjYpkwIPfr_XPguudB7DXIJEn.
Quanto a livros, iremos, via de regra, citar particularmente três títulos:
* Breve História do Brasil - Renato Venâncio e Mary Del Priori;
* Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil - Leandro Narloch;
* História da Evangelização do Brasil - Elben M. L. César.

sábado, 17 de maio de 2014

Palavrão é 'foda'!

"Ou alguém compreende, em tua opinião, o nome de alguma coisa quando desconhece o que é a coisa?" (Platão, em 'Teeteto')



Aproveitando o debate ocorrido entre o respeitadíssimo Reverendo Ageu Magalhães e o pastor underground Ariovaldo Carlos Júnior, iremos relançar nosso artigo sobre palavrões. Acreditamos que essa seja uma oportunidade excelente para promover a compreensão mútua e atingirmos o verdadeiro inimigo de Cristo e de sua causa, e já antecipamos que não são os irmãos que falam ‘foda’, ‘pra caralho’, e afins. Antes de qualquer consideração, temos que deixar algo bem claro: somos contra palavrões. Todos os textos que são apresentados contra a linguagem obscena e torpe são nítidos: o crente tem que ser boca limpa (Tito 2:8; Efésios 4:29; Efésios 5:4; Tiago 1:26; Mateus 12:34-37; 1 Coríntios 15:33). Nossa discussão não girará em torno da interpretação destes versículos. Concordamos com a análise de Lopes sobre alguns destes textos:

As interpretações destes versículos podem variar entre si, mas resta pouca dúvida de que o conjunto deles traz uma mensagem uniforme: o filho de Deus é diferente do mundo, no que pensa e no que fala. A pureza e a santidade requeridas na Bíblia para os cristãos abrange não somente seus atos como também seus pensamentos e suas palavras.(LOPES, 2013).

Portanto, elejamos a santidade no falar e no proceder como ponto pacífico, como 'lugar' entre nós. É Chesterton quem diz: “quem quer que se disponha a discutir o que quer que seja deveria sempre começar dizendo o que não está em discussão. Além de declarar o que se quer provar é preciso declarar o que não se quer provar” (CHESTERTON, p. 19). Portanto, antes que qualquer um venha a nos importunar, tenha em mente esses dizeres iniciais.
Como o título deste artigo demonstra, usamos de algumas palavras que são consideradas palavrões. Já nos desfizemos e retornamos para eles de uma forma semelhante ao que aconteceu com a Norma Braga, porém, como demonstraremos, sem cair no que entendemos ter sido o erro dela. Nas suas palavras:

Perdi quase todos os meus amigos não-cristãos, que de modo natural começaram a se afastar, e por força do meio decidi suprimir todas as palavras feias de uma vez só, desde as mais simples às mais cabeludas. No que fui bem-sucedida. Um dia, surpreendi-me comigo mesma quando, conversando com uma irmã após o culto, ouvi-a dizer m**** em meio a um discurso irritado. Não deixei que ela percebesse, mas aquele palavrão provocou em mim uma reação tão forte que não hesitei em classificá-lo como um nada previsível escândalo. Veio então o escândalo do escândalo: horrorizada por ter ficado tão escandalizada com um simples m****, resolvi, dali em diante, revogar a decisão anterior. Recomecei a dizer palavrões normalmente, não com a mesma freqüência que no período pré-conversão, mas com regularidade quando sozinha e em companhia de cristãos tão "descolados" quanto eu. (BRAGA, 2013)

Claro, pelo uso das aspas, podemos perceber o tom irônico de suas palavras. A experiência não ficou muito nítida, pois não sabemos que tipo de amigos eram estes, e nem se eram realmente crentes. Enfim, protelemos, por hora, o assunto.
Retomando de onde paramos, acontece que, compreendendo alguns fenômenos linguísticos que iremos trabalhar adiante, sentimo-nos livres para usar estas palavras sem conotações pejorativas. Os críticos desta atitude dizem perceber este fenômeno, mas não conseguimos perceber onde é que anulam seus argumentos.
Mas, antes de olharmos para seus argumentos, queremos falar um pouco sobre estes fenômenos linguísticos para, então, demonstrar que o ponto nevrálgico não foi tocado pelos opositores, que, diga-se de passagem, são pessoas respeitadas, cultas e cristãs, e que fizeram críticas, principalmente, visando a santificação e o bem estar da Igreja, o que devemos reconhecer.

FENÔMENOS LINGUÍSTICOS


Para dar início a esta parte, vamos copiar toda uma página do interessante livro sobre hermenêutica de Roy B. Zuck:

No livro Alice no País do Espleho, Humpty Dumpty disse para Alice: '_ Existem 364 dias nos quais uma pessoa pode receber um presente de in-aniversário'. Alice concordou, e ele acrescentou: 'E um dia só em que possa receber presente de aniversáio, não é? Logo, glória para você![']
'_Não sei o que quer dizer com esse 'glória'', objetou Alice.
'Humpty Dumpty sorriu.[']
'_Está claro que não sabe, nem o saberá enquanto eu não o disser. Glória quer dizer um argumento de escachar.[']
'_Mas 'glória' jamais significou isso, que eu saiba, senhor![']
'_Quando eu uso uma palavra, replicou Humpty com superioridade, ela significa o que eu quero que signifique - e nada mais.[']
'_Mas a questão é se o senhor pode dar significado diferente às palavras'
Alice estava preocupada porque Humpty Dumpty tinha redefinido a palavra glória. Sua preocupação provinha do fato de que, em geral, para comunicar-se, uma pessoa não redefine palavras, dando-lhes sentidos completamente diversos dos aceitos em geral. No entanto, quando alguém explica algo diferente que disse, os ouvintes podem entender.
Se lemos a declaração de Humpty Dumpt de que um aniversário significa 'glória para você', sem uma explicação, ficamos confusos. Mas, pelo contexto, no qual ele explica a frase, seu sentido fica claro (ZUCK, 1994, p.87).

Esta ilustração, e as observações de Zuck, nos trazem muitos esclarecimentos. Podemos pontuar os elementos, os fenômenos, que o texto trás à baila: Humpty Dumpty entende que o significado de uma palavra não é intrínseco a ela; por sua vez, Alice percebe que existem usos comuns, significados convencionais para as palavras, que, se não forem admitidos, atrapalham a comunicação; por fim, Zuck nota que, se (e somente se) as reconotações, os novos significados, forem expostos, é possível retomar a comunicação.
Este fenômeno linguístico não é uma novidade. Aristóteles já o havia notado no Órganon:
Os sons emitidos pela fala são símbolos das paixões da alma, [ao passo que os caracteres escritos [formando palavras] são os símbolos dos sons emitidos pela fala. Como a escrita, também a fala não é a mesma em toda parte [para todas as raças humanas]. Entretanto, as paixões da alma, elas mesmas, das quais esses sons falados e caracteres escritos (palavras) são originalmente signos, são as mesmas em toda parte [para toda a humanidade], como o são também os objetos dos quais essas paixões são representações ou imagens (ARISTÓTELES, p. 81).
O fenômeno também é atestado pelos debates filosóficos do século XX. Adilson Citelli, em sua pequena mas interessante obra 'Linguagem e Persuasão', pode nos elucidar o tema:

"É comum afirmar-se, segundo a orientação dada por Ferdinad de Saussure, que todo signo possui dupla face: o significante e o significado. O significante é o aspecto concreto do signo, é a sua realidade material, ou imagem acústica. O que constitui o significante é o conjunto sonoro, fônico, que torna o signo audível ou legível. O signficado é o aspecto imaterial, conceitual e que nos remete a determinada representação mental evocada pelo significante" (CITELLI, 2005, p.24).

E o próprio Mortimer Jerome Adler, na sua preciosa obra ‘Como Ler Livros’, em sua última edição, também admite o mesmo fenômenos, e talvez seja um dos mais claros ao abordar o assunto:

Um termo não é uma palavra – pelo menos não apenas uma palavra. [...] ....uma palavra pode ter muitas acepções, especialmente as palavras importantes. Se o autor usa uma palavra em um sentido e o leitor a lê em outro, as palavras passaram entre os dois, mas um acordo não chegou a ser firmado (ADLER, VAN DOREN, p. 111).

Adler está particularmente preocupado com a comunicação de ideias, e isso demanda a compreensão deste fenômeno linguístico. Aliás, ele reflete sobre a comunicação nos seguintes termos: “Sua raiz está relacionada com a palavra ‘comum’. Falamos de comunidade como grupo de pessoas que têm algo em comum. A comunicação é um esforço por parte de uma pessoa em compartilhar algo com outra pessoa [...], seu conhecimento, suas decisões, seus sentimentos” (ADLER, VAN DOREN, p. 111-112). Pois bem, o problema é que a linguagem encontra o problema da ambiguidade e, por isso, é mister que notemos o fenômeno supra referido para que haja uma boa e efetiva comunicação:

Se a linguagem fosse um meio puro e perfeito, esses passos não seriam necessários. Se toda palavra tivesse um e apenas um sentido, então as palavras nunca seriam usadas de maneira ambígua; se, em suma, toda palavra fosse um termo ideal, a linguagem seria um meio diáfano [...]. A interpretação seria totalmente desnecessária (ADLER, VAN DOREN, p. 113).

Podemos avançar na compreensão deste assunto. Em aulas, que fizemos no Seminário Martin Bucer, de Prepodêutica Teológica, com o filósofo Dr. Jonas Madureira expondo Agostinho, fomos apresentado a reflexões semelhantes à de Saussure. Agostinho entendia que há um 'logos endeáthetos, que consistia na idéia, no conceito, formado em nossa mente; e há um 'logos proforikós', que consistem em uma forma de externar esta idéia. O endeáthetos existe independente do proforikós, e não vice-versa. A associação do proforikós ao endeáthetos é convencional.
Adilson Citelli observa isto, ao notar que não existe relação necessária entre o significante (proforikós) e o significado (endeáthetos). O exemplo que ele dá é o da palavra 'cabeça', e da idéia de uma cabeça que se forma em nossa mente. Então ele conclui que "cabeças continuariam a existir mesmo se não tivéssemos conhecido processos de linguagem capaz de nomeá-las, transportando-as, pois, do reindo da natureza para o da cultura" (CITELLI, 2005, p.25).
E, para não deixar nosso estudo linguístico incompleto, é bom mencionarmos que Emile Berveniste, embora entendendo que a relação entre as palavras e as coisas sejam arbitrárias, são necessárias dado a nossa necessidade de comunicação [e de conhecimento, acrescento eu] (cf. Citelli, op. cit. pp. 26-27).
O que nos interessa, por hora, é observar que os linguistas notaram não haver relação direta e necessária entre uma palavra e o que determinado grupo de pessoas a relacionam. McGrath também nota isto, ao dizer que a

linguística moderna, de Ferdinad de Saussure em diante, sempre deu destaque à importância das comunidades para a determinação do significado de uma palavra. As palavras adquirem significados, refletindo como são usadas no âmbido de comunidades reais. As definições que encontramos no dicionário não são ordens divinas, portanto não podem fixar o sentido permanente e único de uma palavra; em vez disso, são generalizações sobre as formas pelas quais uma palavra específica é empregada. As definições do dicionário descrevem os modos pelos quais (o plural aqui é proposital) a palavra é usada no mundo real dos seres humanos, em vez de prescrever como deveria ser usada em algum mundo ideal (MCGRATH, 2008, p.103-104).

Até mesmo na elaboração teológica é mister que compreendamos o fenômeno. Charles Hodge também percebe isto. Falando sobre argumentos contra a morte eterna, Hodge lida com uma questão linguística.

"Mr. Constable [...] estabelece o princípio de que a linguagem das Escrituras, especialmente a do Novo Testamento, deve ser interpretada segundo o 'usus loquendi' dos escritores gregos. Temos de recorrer a nossos dicionários clássicos a fim de aprender o significado das palavras que eles usam. À luz deste princípio, ele infere que, uma vez que a palavra ζωη, vida, em grego ordinário, significa existência contínua; e θανατοσ [não consegui colocar o sigma correto], morte, a cessão de existência, tal é seu significado nas Escrituras" (HODGE, p.1660-1661). Para responder, Hodge observa que "o 'usus loquendi' de cada idioma varia mais ou menos em diferentes épocas e como falado pelas diferentes tribos e nações. Cada um admite que o grego heleno tem um uso distinto do idioma dos clássicos. A linguagem da Bíblia deve explicar a linguagem da Bíblia. Ela tem seu próprio 'usus loquendi'. Entretanto, não é verdade que as palavras vida e morte são em qualquer língua usadas somente no sentido limitado que o argumento Mr. Constable lhe designaria. Quando o poeta [Sófloces?] disse 'dum vivimus vivamus', ele seguramente não quis dizer: 'enquanto continuarmos existindo, continuamos existindo'. As escrituras no idioma dos homens usam palavras como os homens costumam usá-las, literal ou figuradamente, e em sentidos adaptados à natureza dos sujeitos a quem elas se aplicam. A palavra vida significa uma coisa quando usada para falar de plantas, outra quando aplicada aos animais, e outra ainda quando expressa em referência à alma humana" (HODGE, p.1661).

É óbvio que Hodge percebe este mesmo fenômeno linguístico que estou observando. As palavras, em contextos diferentes, sofrem oscilações semânticas.
É interessante notar que o reverendo Augustus Nicodemus está ciente deste fenômeno: "Eu sei que muitos vão dizer que o problema é a definição de palavrão. Entendo. Sei que palavras que ontem arrepiavam os cabelos de quem as ouviam, hoje viraram parte do vocabulário normal. Sei também que palavras que são palavrão numa região do Brasil não são em outra" (LOPES, 2013).
O problema pra ele é o seguinte: ". Mesmo considerando tudo isto, ainda há muitos cristãos que usam palavrões no sentido geral e normal." (LOPES, 2013). Quanto a isto, estamos plenamente de acordo com a censura e repreensão. Se em determinado contexto sabe-se do significado de uma palavra, não se pode usá-la e querer que as pessoas a compreendam de forma diferente. Mas é uma via de mão dupla. Não se pode querer importar para todo contexto um significado universal.
Assim, quando empregamos palavras como 'foda', 'pra caralho', e afins, não estamos valendo-nos de palavrões para nos expressar. Estamos usando palavras que não têm seus significados originais mais, e, no contexto em que o autor desse artigo vive, quando proferimos estas palavras, as pessoas não evocam em suas mentes cenas de sexo e afins.
E, se alguém perguntar se há outro exemplo deste fenômeno, podemos citar pelo menos dois. A palavra 'bacana'. O reverendo Salvador Moisés da Fonseca, em aulas no Ibel, nos informou sobre a origem desta palavra, referindo-se ao deus Baco, vindo de 'bacanal' [o dicionário Aurélio nas as relaciona], e a festas em sua homenagem, regadas de muito álcool e orgias. Contudo, a palavra, com o tempo, passou a conotar simplesmente algo legal, interessante, ou algo do tipo. Quem as usar em nosso contexto cultural não pode estar sendo acusado de valer-se de palavras torpes para se expressar, uma vez que tal termo sofreu oscilação semântica.
A outra palavra é o termo 'piedade'. Normalmente o termo é associado a dó, pena, compaixão. Mas o próprio dicionário reconhece uma conotação diferente, mais restrita aos primeiros séculos da era cristã, referindo-se à consideração para com Deus. O homem piedoso é compassivo. Com o tempo o termo passou a se referir, em muitos círculos, à compaixão apenas. É fácil conjecturar sobre como isto aconteceu.
Assim, a nosso ver, os críticos não visaram aqueles que valem-se do que eles entendem serem palavrões como os que reconotam estas palavras. Ninguém tocou a fundo nesta questão. E o fenômeno antropológico e linguístico foi preterido...

OS ARGUMENTOS DOS OPOSITORES

Primeiramente, destacaremos o alvo das críticas de Braga, Lopes, Portela e Baggio. Percebam que não estão criticando quem usa os termos dentro de uma cultura onde eles não tem o significado referente ao significado original da palavra.

Depois de algum tempo, porém, comecei a me sentir incomodada com o recurso freqüente aos palavrões. Sozinha, bastava ficar irritada, que lá vinha um bem cabeludo, e em voz alta [...] ... o ato de praguejar, longe de servir como vazão à raiva, apenas contribuía para confirmar a disposição errada de espírito. (BRAGA, 2013)

Em seu contexto cultural tinha uma "associação de seu uso a um espírito de espontaneidade e rebeldia" (BRAGA, 2013). Ela valeu-se destas palavras para expressar sua indignação e para praguejar. Logo associou-se seu uso com atitudes pecaminosas. O que se deve eliminar, aqui, é o espírito reclamador.
O reverendo Augustus Nicodemus Lopes, pensador que muito admiramos, diz deparar-se "com murais compartilhando fotos meio-eróticas, palavrões, para não falar de comentários cheios de palavras chulas e palavrões do pior tipo [...] estou me referindo aos que se identificam como crentes, que postam tanto declarações de fé e amor a Jesus quanto material chulo" (LOPEZ, 2013). Aqui, pode ser que o reverendo se depara com pessoas que lhe são familiares, inclusive os são seus contextos culturais. Mas, e se ele visse um texto em que eu e um amigo nos referimos a ele como um exegeta muito 'foda'? É possível perceber o termo como um adjetivo sem maldade alguma, embora eu consiga perceber como, com outros óculos, se enxerga este termo de forma pejorativa. E, um dos grandes problemas desta colocação é que, ao colocar tudo num só patamar (toda expressão verbal com conotação, segundo seu campo semântico, perniciosa e divulgações pronográficas), Lopes nos faz pensar que, ao eliminar e rejeitar um (a pornografia e afins), temos que rejeitar o outro. Certamente pornografia não pode ser relativizada como tendo uma conotação diferente. Sexo (ou melhor, o ato sexual) não sofre 'oscilação semântica'.
O mesmo pensador se depara com algumas justificativas ruins: "Os argumentos a favor do uso de palavrões pelos crentes podem parecer bons: todo mundo usa, trabalho ou estudo num ambiente de descrentes e não quero parecer um ET, não tenho nenhuma intenção maligna ou pornográfica, etc." (LOPES, 2013). Percebam que estes também são considerados, por nós, argumentos ruins, falsos. O que fazemos não tem nada a ver com adequação ao meio ou o uso impróprio de uma expressão escorado na boa intenção. Simplesmente, segundo nosso campo semântico, não estamos falando palavrão algum!
E o que enfrenta o respeitado presbítero Solano Portela? Certamente não lida com a questão semântica: "...o pastor responde com uma ode ao palavrão. Indicando que quase morreu de rir, com o vídeo, não somente grafa o monossílabo várias vezes em seu texto, como acusa os que não o utilizam de hipócritas" (PORTELA, 2013). Portela fala de um pastor que viu um vídeo onde um médico vale-se de um monossílabo (que todos nós sabemos qual é) para palestrar sobre higiene pessoal na Igreja. Um determinado 'líder cristão', o tal pastor mencionado, vê o vídeo, ri, e incentiva o uso de palavrões, chamando os que não os usam de hipócritas. A isto Baggio responde muito bem:

Algumas pessoas argumentam que xingar é ser transparente e honesto. Todavia, o próprio bom senso nos diz que não devemos ser transparentes em tudo exatamente. Ainda que não exista nada em nossa vida que esteja oculto aos olhos de Deus – não há áreas privadas diante de Deus – há todavia, áreas e coisas que fazemos que não deveriam se tornar públicas. Por exemplo, o exercício de nossas necessidades físicas. Ninguém que tenha um bom senso ira advogar que, em nome da transparência, deve-se abaixar as calças em público e se aliviar na frente de todos. Isso seria indecoroso na maioria das culturas e sociedades do nosso mundo hoje. Ou seja, a tal de transparência neste caso me parece mais uma desculpa para obscenidade do que algo sincero. (BAGGIO, 2013).

Tais pessoas conotam pejorativamente os termos, e defendem este uso como apropriado. Como já dissemos no começo do artigo, somos totalmente contra!
Portanto, a crítica de Portela não nos atinge. Não achamos que o recato e a moralidade são itens anacrônicos; não barateamos a graça e nem a usamos como desculpa para libertinagem. Estas coisas, que o referido pensador critica, tem nosso aval.
Olhemos, pois, para quem Baggio está criticando:

Quando você manda alguém ir se f**** ou chama uma pessoa de filho da p***, você está demonstrando amor? Você consegue ver a atitude de Cristo nisso? Imagino que não. Não importa o quão transparente você diga que está sendo, a única coisa que sua atitude transparente está demonstrando é a ira e falta de domínio próprio. (BAGGIO, 2013).

Deus do céu! Não estamos defendendo este tipo de atitude. É óbvio que são xingamentos. Não é esta a questão. Não somos a favor do uso inadequado da língua. Não somos a favor de ofensa alguma, nem mesmo as recatadas, camufladas por belas palavras, com muita pompa, onde os termos usados não conotam ofensa, mas o conceito, a intenção, sim. Aqui, as palavras usadas têm, nitidamente, uma conotação pejorativa, que logo captamos pelo tom e pelo significado facilmente dedutível da expressão completa. Nos são conhecidas estas palavras. Certamente, repudiamos isso como pecado!

Também já nos deparamos com outras críticas que as pessoas já nos fizeram, ou que nós mesmos formulamos. Alguns dizem sobre falar estas palavras diante de Deus. Embora sintamo-nos um pouco amedrontado, uma vez que corro o risco de estar errado, percebemos que é possível que usemos algum termo que uma cultura poderia considerar pejorativo! Além disso, nem tudo que se faz cotidianamente nos é cômodo fazer diante de Deus. Por exemplo, embora 'aliviemos o ventre' (#eufemismomodeON) diariamente e na presença de Deus, muitos se sentem constrangidos ao tentarem orar nestes momentos 'críticos', e talvez realmente seja falta de reverência, em situações normais. Mas isto não faz esta necessidade biológica algo pecaminoso. Usamos termos como 'foda' e 'pra caralho' em situações cotidianas, e não em situações solenes e sublimes.
Outro argumento interessante que nos fizeram é o de que parece haver um reconhecimento universal de certos termos, o que fica evidenciado nas censuras que vemos na televisão. A isso formulamos respostas também. Primeiramente, não podemos garantir que os ouvintes, e mesmo os editores dos programas, conheçam esse fenômeno linguístico. A bem da verdade, a maioria dos leitores deste artigo não o conheciam. Além disso, o programa insurge-se em uma certa cultura dominante, e a ela se comunica, e dela tira suas conotações, o que explicaria o uso de expressões particulares ao grupo cultural vigente.

POR QUE LUTAR POR ESTA QUESTÃO?

Há um interesse em particular que deve ser salientado. Poderíamos muito bem abrir mão desta briga e parar de usar as palavras que têm incomodado alguns de nossos irmãos. Mas este seria um desfavor com a minoria e com a verdade. Particularmente interessado em missões urbanas, percebemos que alguns grupos se escandalizariam ao serem repreendidos por usarem expressões que, à luz do decálogo, não são pecaminosas. É colocar um peso a mais na vida destes irmãos. É desnecessário. Como dissemos, é um ditame da antropologia missionária descobrir o campo semântico de determinada cultura antes de buscar redimi-la com o evangelho.

CONCLUSÃO

Também somos terminantemente contra o uso de palavrões. A questão é: SE VOCÊ ENTENDE QUE UMA DETERMINADA PALAVRA É PALAVRÃO, NÃO A USE. Se para você e para seus ouvintes é palavrão, não use. Também não pragueje; não promova a promiscuidade; não seja boca suja! Por outro lado, não importe seus significados para uma cultura alheia. Isto é um quesito fundamental para a antropologia missionária. Só causará confusão e briga atoa...
Concluímos, pois, que toda crítica ao meu palavreado não passou de confusão. Conseguimos conceber como se dá tal mal entendido. Porém, acreditamos que a publicação deste artigo poderá iluminar e contribuir um pouco mais com a questão. E, se alguém nos mostrar que estamos errados, não tardaremos a mudar de atitude. Que Deus nos conduza!
__________________________________________________________________

REFERÊNCIAS

ADLER, Mortimer J; VAN DOREN, Charles. Como Ler Livros. Tradução de Edward Horst Wolff e Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2010, 432p.
ARISTÓTELES. Organon. Tradução, textos adicionais e notas de Edson Bini. São Paulo: EDIPRO, 2ª ed., 2010, 608p.
BAGGIO, Sandro. Crente boca suja. http://www.sandrobaggio.com/2009/09/23/crente-boca-suja/ acessado em 30/07/2013.
BRAGA, Norma. Reflexão óbvia sobre os palavrões. http://normabraga.blogspot.com.br/search?q=palavr%C3%B5es acessado em 30/07/2013
CITELLI, Adilson. Linguagem e Persuasão. São Paulo: Editora Ática, 16ª ed., 2005. 104p.
CHESTERTON, G. K. Ortodoxia. Tradução de Almiro Pisetta. São Paulo: Mundo Cristão. 2008, 264p.
HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo:Editora Hagnos, 2001. 1777p.
LOPES, Augustus Nicodemus. Palavrão? @#%*!!!! Como assim?! http://tempora-mores.blogspot.com.br/2012/02/palavrao-como-assim.html acessado em 30/07/2013
MCGRATH, Alister. Apologética para o século XXI. Tradução de Antivan Guimarães e Emirson Justino. São Paulo: Editora Vida, 2008. 368p.
PORTELA, Solano. Palavrão - só pra garantir esse refrão? http://tempora-mores.blogspot.com.br/2010/03/palavrao-so-pra-garantir-esse-refrao.html acessado em 30/07/2013

ZUCK, Roy B. A interpretação bíblica. Tradução de Cesar de F. A. Bueno Vieira. São Paulo: Vida Nova, 1994. 360p.