quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

RECONSTRUCIONISMO, DIREITA, NAZISMO E FASCISMO - Alguma Relação?




INTRODUÇÃO


Uma forma sofista hoje de argumentar, principalmente no que diz respeito à política, é acusar o mais depressa possível o adversário de nazista ou fascista. Já até ganhou um nome como falácia informal, a saber, o ad hitlerum. Não precisa nem fazer muito sentido. Parece até que se você falar com alguma convicção, basta. Se houver um bom número de pessoas dizendo, então, melhor ainda. Esse é o modus operandi de boa parte da esquerda, dos progressistas. É o suficiente para desqualificar o alvejado por tais impropérios políticos. Mas é apenas mais uma forma covarde de manipulação retórica. O reconstrucionismo não é o primeiro alvo de tais acusações. Conservadores e pessoas de direita, em geral, já foram acusados alguma vez de um ou de outro, mesmo sem fazer sentido algum.

Foquemos nisso, pois. É bem verdade que o Reconstrucionismo, a depender dos cânones de análise, poderia ser localizado à direita. Mas faz sentido qualquer acusação de que o nazismo ou o fascismo foram movimentos de direita ou, mais especificamente, que são análogos ao reconstrucionismo?

Os argumentos que tentam provar algo nesse sentido normalmente levantam pontos de analogia adjacentes, acidentais ou irrelevantes para tentar, por elas, nos fazer pensar que o todo se encaixa, e que uma coisa pode em geral se confundir com a outra. É, na lógica, o argumento da ‘falácia da falsa analogia’. Nela, basicamente, buscando-se provar algo em A, se faz analogia com B, que guarda algumas semelhanças, e, sem qualquer justificativa, passa-se a afirmar os pontos não análogos de B em A. Em termos menos formais, um exemplo vem a calhar. Se algum político de direita sobe ao poder, logo vão tentar aplicar o ad hitlerum. E para ‘provar’, mostram que ambos eram políticos, bebem água, gostam do exército e de ordem. Apontam esses e alguns outros detalhes provavelmente verdadeiros, sem apontar o que é substancioso. É como dizer que alguém está sob suspeita de um crime por ter semelhanças com o bandido visto no local onde foi realizado e, depois de questionado sobre as semelhanças, dizer que o perpetrador tinha duas pernas, pés, dois braços, mãos, cabeça, dois olhos e assim por diante. No caso do reconstrucionismo, chegam à pachorra de dizer que ele é essencialmente a mesma coisa que nazismo ou fascismo por usar mídias para disseminação de ideias! Isso quando simplesmente não mentem dizendo que o Reconstrucionismo preconiza algum tipo de devoção a uma liderança! À liderança de Cristo nos céus, certamente! Mas jamais à liderança de homem algum! É por isso que Deus estabeleceu não apenas uma Igreja, mas também uma Bíblia, para que, no caso da corrupção eclesiástica, não fôssemos reféns de homem algum!

Mas o que distingue, portanto, essencialmente, o Nazismo ou Fascismo das posições de direita em geral, e do Reconstrucionismo especificamente?

Se dissermos que conservadores, liberais e reconstrucionistas são críticos ferrenhos de toda forma de totalitarismo, dirão que não basta, que é fachada, tal como o Nazismo carregar ‘socialismo’ no nome ser mera aparência. Todavia, lançam a favor da posição de que Hitler não era de esquerda ou progressista por ter combatido comunistas. Oras, se ele combater comunistas prova que não era um, então quando os conservadores e reconstrucionistas combatem os nazistas e fascistas não valeria para provar que não se identificam com esses grupos?

É claro que esta é uma simplificação, mas já dá pra vermos como as coisas são tomadas com leviandade no que diz respeito a tais assuntos. Para demonstrarmos a distinção, basta que apontemos as diferenças principais e rapidamente se poderá perceber que as coisas não batem.


1 - DIFERENÇAS EVIDENTES


Nesta seção, mostraremos elementos presentes nas perspectivas de direita que são absolutamente incompatíveis com perspectivas totalitárias e autoritárias (como o nazismo ou o fascismo). Na próxima, mostraremos outras diferenças sutis mas que, bem distinguidas, ainda servem para mostrar o contraste. Por fim, mostraremos os pontos realmente mais parecidos mas destacaremos as diferenças que ainda subsistem.


  1. Estado Mínimo vs Estado Máximo

Para começo de conversa, podemos colocar como análogo para o Reconstrucionista e o Conservador, ou o Reconstrucionista e o Libertário (pois há reconstrucionistas mais partidários de posições politicamente libertárias), o fato de que todos esses adotam uma perspectiva de Estado Mínimo (ou até mesmo nulo!). Essa já é uma gritante diferença tanto em relação ao Fascismo quanto em relação ao Nazismo. Não é possível autoritarismo ou totalitarismo com um Estado Mínimo! Por definição, o autoritarismo só pode ser exercido se o Estado for muito poderoso, a ponto de conseguir ordenar inconteste tudo o que quiser aos cidadãos. E o totalitarismo, igualmente por definição, só é possível se o Estado assumir várias e várias funções, impedindo o cidadão de exercer sua liberdade. Como poderia haver totalitarismo se o Estado não faz outra coisa senão zelar em última instância pela manutenção da ordem e cumprimento da Lei? Claro, se a Lei for totalitária, essa proposição é contraditória. Mas numa perspectiva liberal, o Estado não tem nem mesmo prerrogativa de gerar saúde e educação. Seu ofício é o policial e de julgar e executar as penas.
Só isso bastaria para que o ad hitlerum fosse desacreditado como um enorme engodo. Pior ainda, esta é uma perspectiva muito mais aproximada às visões de esquerda, progressistas, que insistem em tornar o Estado cada vez maior e mais presente. Um Estado para ter poder para redistribuir as rendas, tirar dos ricos e realocar os recursos deve ser poderoso o bastante para enfrentar a qualquer organização. Para isso, tem de ser muito grande e forte para não poder ser resistido pelo levante de quaisquer cidadãos ou conjunto de cidadãos. É o contrário do que todas essas perspectivas de direita propõem.


  1. Livre Mercado vs Economia Planificada

Vale mencionar a relação com o Mercado. Ao passo que o Nazismo, e. g. tenha adotado a pretensa economia racional, ou a planificação econômica, conservadores, liberais e reconstrucionistas advogam o livre mercado. Para quem não está familiarizado às discussões econômicas, esta pode parecer uma diferença acidental. Todavia, a liberdade nas trocas é fundamental para determinar nossa liberdade. É ela que move a maior parte das forças dos indivíduos numa sociedade. A partir dela, os indivíduos escolhem a profissão que quiser, adotam as atividades que bem entenderem para sobreviver e melhorar de vida, têm liberdade de escolher o que querem possuir e consumir e de produzir o que bem entenderem. É evidente que há distinções entre as perspectivas de direita quanto ao grau desta liberdade, i. e., enquanto alguns (libertários e liberais) adotam uma perspectiva de liberdade absoluta, outros (conservadores e reconstrucionistas) colocam um limite mínimo pelo filtro moral e dos costumes - inclusive com argumentos econômicos de ser a cultura e a moral condições para o mercado, não só para as relações de confiança, como para o próprio conhecimento valorativo das coisas. O livre-mercado é adotado pelo Reconstrucionista por estar de acordo com os quinto, sexto e oitavo mandamentos. A economia planificada é mais uma forma de lançar as garras sobre os indivíduos e minorar sua liberdade. Ou seja, é mais um passo no ‘caminho da servidão’.


  1. Armamento Civil x Desarmamento Civil

Ainda parece-nos relevante mencionar outro fator que determina a liberdade individual e distingue a direita e o reconstrucionismo de ser identificado com o nazismo ou o fascismo, a saber, a questão armamentista. Ao passo que as posições de direita são à favor do direito à defesa pessoal e até mesmo de resistir ao Estado quando este se tornar inaceitável - o direito à resistência civil -, temos no Nazismo, claramente, uma política desarmamentista. Uma população desarmada é não só insegura em relação aos criminosos e bandidos que estão no seu meio - dos quais o Estado não tem condição de nos proteger integralmente -, mas também em relação ao próprio Estado. Se os governantes saírem da linha, monopolizando os poderes bélicos, será impossível de ser vacanciado coercitivamente.


Se alguém quer impedir as barbaridades do totalitarismo, deve começar observando esses três aspectos. Sem observá-los, nada poderá ser feito caso um ditador sem escrúpulos se levante. E, particularmente aqui, conservadores e reconstrucionistas estão ainda mais próximos quando dizem que o homem é mau e não confiável, e que é justamente por isso que não podemos deixá-lo com tantos poderes em mãos, que devemos mantê-lo sob vigilância. É brincar de roleta russa inflar um Estado. E, as experiências totalitárias do século XX infelizmente nos provam isso na prática.


2 - MEIAS-VERDADES


  1. Imposição Moral


É bem verdade que o fascismo apregoava algum tipo de discurso moralista, tal como o fazem conservadores e reconstrucionista - desde que não tomemos ‘moralista’ no sentido pejorativo de hipócrita. Essa é uma analogia verdadeira. E conservadores e reconstrucionistas não libertários realmente acreditam que o Estado deva impor alguma moralidade. A grande questão é ver como isso é feito. Ao passo que no fascismo havia uma perspectiva totalitária, conservadores e reconstrucionistas entendem que isso se dá debaixo para cima, i. e., que as leis inibidoras de comportamentos refletem a moralidade dos indivíduos, os valores da comunidade, de modo que os transgressores são perturbadores da ordem e da paz - e, no caso do reconstrucionista, rebeldes contra Deus.

Antes de mais nada, é importante notar, ainda que de forma breve, que é impossível não haver uma imposição de moralidade. Em qualquer perspectiva de Estado, há uma prescrição para o outro. Mesmo numa perspectiva totalmente anarquista, há o imperativo moral de que os homens não devem governar sobre os outros e nem lhes ordenar o que fazer, ou interferir em suas vidas. Em qualquer concepção política, pois, haverá uma imposição moral.

E mesmo num acordo de maioria, sempre poderá haver alguém inserido numa sociedade que discorde dos seus valores. Isso pode ser uma minoria com valores distintos, estrangeiros ou mesmo um bandido que julgue ter o direito de roubar, matar ou estuprar. Então, se emergirá a questão moral de ser lícito ou não impor sobre este tais normas da maioria ou se isso não deveria ser feito e, assim, se deveria observar uma lei que contemplasse a todos os valores - talvez uma perspectiva liberal, alguém diria. A questão é discutir moralmente justamente essa questão. Quem determina quando e como interferir? Reconstrucionistas adotam uma perspectiva bíblica. Conservadores tomam os valores culturais como parâmetro, principalmente os valores milenares e testados pelo tempo. Numa cultura cristianizada, conservadores e reconstrucionistas tendem a se harmonizar. Mas é possível um conservador argumentar em função da experiência da cristandade e das influências cristãs. De toda forma, não é o tema para ser ampliado aqui.

Uma questão que ainda precisa ser levantada é que o grau de tolerância é determinado por nossos valores. Por exemplo, para um cristão seria imoral não interferir numa situação em que uma tribo indígena sacrificaria uma criança ou não interferir num casamento de um muçulmano com uma criança de dez, doze anos. Se tivermos poder para impedir o que realmente acreditamos ser maus e não o fazemos não somos moralmente superiores por tolerar, mas covardes!


  1. Nacionalismo


Isso já nos faz ver a diferença entre o nacionalismo dessas vertentes. Ao passo que tanto no conservadorismo - por questão de afinidade, familiaridade - quanto no reconstrucionismo - por questão de ordo amoris, i. e., por questão de graus de proximidade biblicamente estabelecidos, saindo do cônjuge, filhos, pais, irmãos na fé da sua igreja local, das demais igrejas e do mundo todo, vizinhos, pessoas da rua, bairro, cidade, país… - existe uma fundamentação para o nacionalismo, que naquele caso diz respeito à valorização dos conhecidos e dos valores e riquezas culturais do que é nosso, e neste último caso dizendo respeito a um dever moral, sem ignorar o motivo conservador. Mas isso é muito diferente de um nacionalismo ideológico, proposto como projeto de poder e que não emerge naturalmente das afeições naturais ou dever para com o próximo, mas de um discurso político, ou seja, um nacionalismo artificial. Essa diferença sutil faz toda a diferença. O nacionalismo ideológico é compatível e até útil ao totalitarismo. Alguém pode dizer até que é indissociável. Seja como for, não tem nada que ver com os nacionalismos dos conservadores ou dos reconstrucionistas.


  1. Racismo?


Outra confusão muito comum é a relacionada à acusação de racismo da parte de esquerdistas para conservadores e pessoas de direita em geral. Está baseada na confusão entre raça e cultura, como se elas se implicassem mutuamente. Alguém de uma raça pode perfeitamente ser de duas ou mais culturas diferentes, ou até mesmo de uma cultura diferente daquela que sua raça normalmente abraça. Assim, quando acusam qualquer pensamento de direita, pelo prisma dos princípios multiculturalistas, de racismo, estão, na verdade, vendo uma crítica à raça de alguém quando se está criticando uma cultura, alguns valores e coisas do tipo. É só mais uma confusão por semelhança, para tentar fazer a atitude evidentemente racista de Hitler para com os judeus - como raça - parecer ser a mesma daquelas que tecem críticas culturais seja à própria ou a outras culturas. Aliás, essa uma das grandes diferenças entre as perspectivas de direita e os dois movimentos totalitários que intitulam este pequeno texto. 

Esse mesmo multiculturalismo, curiosamente, não raro justifica as barbaridades muçulmanas ou hinduístas como questões meramente culturais, mas está pronto a condenar o reconstrucionismo, não aceitando os valores culturais dos judeus. Está, de fato, no espírito de boa parte dos setores progressistas o ser anticristão e antissemita. Portanto, o tal ‘multiculturalismo’ é só uma fachada para rejeitar o Ocidente cristianizado, para tentar derrubar o que já foi reconstruído pela cristandade - o que deve, sim, ser conservado e, daí, uma associação mais clara entre conservadorismo e reconstrucionismo.


3 - OS PEQUENOS PONTOS DE CONTATO E SUAS DIFERENÇAS


  1. Liberdade de Pensamento


Há, aqui, uma divergência no pensamento das vertentes de direita. Há aqueles que acreditam não haver necessidade do cerceamento de qualquer opinião, e há aqueles que acreditam que algumas são proibidas. Isso, novamente, tange ao aspecto da fundamentação moral, i. e., por qual padrão as pessoas estabelecem isso é uma questão muito significativa. Mas, sem levar logo para este lado, podemos observar que já em nossa sociedade, como apontamos alhures, há uma proibição explícita ao nazismo, e em muitos países há a proibição do comunismo (como a Polônia). Isso pelo fato de considerarmos como moralmente já definido que estas coisas são inaceitáveis. Igualmente, muitos considerariam criminosa a apologia às drogas, ao roubo e a outras coisas que progressistas adoram propagandear, principalmente aos mais jovens - e, assim, menos preparados para se precaver.

Se temos boas razões para considerarmos uma determinada opinião como inaceitável, é legítimo proibir que seja propagada e até mesmo, a depender do seu risco, considerá-la digna de punição pertinente. Portanto, quando o Reconstrucionismo coloca seus parâmetros de proibição, dizer que é uma política de censura e, portanto, é nazista, é simplesmente dizer que nossa própria cultura e todas as demais são nazistas, o que é não dizer nada - afinal, se toda cultura é nazista, ser nazista é simplesmente ser cultura. Dizer que é uma ‘censura’ é apenas artifício retórico. Está censurado tudo o que é inaceitável. A grande questão é distinguir o que é aceitável e o que não é.

Se a fé cristã é verdadeira, todos os homens sabem que Deus existe, e não existe maior impiedade do que a blasfêmia. Igualmente, se o cristianismo é verdadeiro, a pior coisa que poderia ser feito a um indivíduo é corrompê-lo com uma doutrina que o afaste da salvação - i. e., alguma doutrina que negue o pilar do cristianismo. Portanto, é óbvio que, dada a veracidade do cristianismo, essas coisas devem ser vetadas.

É importante observar que essa seria, primeiro, a crença dos homens em geral, não uma imposição autoritária de um Estado-totalitário. Isso só vingaria - e de fato, assim o era no próprio Antigo Testamento - quando o Senhor fosse reconhecido como tal numa dada sociedade.

Além disso, não adiantaria alguém dizer que não acredita nisso. Primeiro, poderia ser refutado pela argumentação pressuposicional - principalmente o Argumento Transcendental - ou por qualquer outro argumento que se queira. O ponto é que, seja como for, as decisões políticas e legais SEMPRE irão se basear em crenças que certamente alguém na sociedade pode discordar. Assim, é impossível não ‘impor as crenças’.

E, na prática, isso significa que só poderão subsistir os Reconstrucionistas? Este é só mais um espantalho bobo feito contra os reconstrucionistas para tentar indispô-los contra os próprios cristãos. É claro que, mesmo que a fé reconstrucionista esteja certa, ela não é a única ‘forma’ de cristianismo válida. Isso não quer dizer um tipo de relativismo em relação às demais crenças teológicas - como alguns críticos parecem preferir -, mas a percepção que graus menores de equívocos não desabonam a fé dos cristãos em geral. É perfeitamente possível que, mesmo que estejamos corretos, um batista ou metodista não deixem de ser cristãos. Assim, a tolerância se restringirá a formas legítimas de cristianismo, e não será tolerada as blasfêmias públicas. A propósito, esta não é uma perspectiva exclusiva dos reconstrucionistas, mas, em alguma medida, é tal como Calvino, os puritanos e o próprio Kuyper - pra não falar da Igreja Católica - acreditam. Portanto, condenar os reconstrucionistas por isso é condenar uma miríade de cristão de uma vasta gama de matizes teológicos.


  1. A Pena Capital Aplicada a Homossexuais


Este é o ponto, talvez, mais dramático de toda a questão. Principalmente por termos na presente era um tipo de enaltecimento do homossexualismo e demais negações da ordem criacional. Antes de mais nada, é preciso salientar que os cristãos em geral devem amar os pecadores, inclusive os homossexuais. Nosso desejo não é outro senão que Deus os livre de seus pecados tal como livrou e nos tem livrado dos nossos.

É bem verdade que, à primeira vista, esta é uma semelhança real entre reconstrucionismo e nazismo. Mas é evidente que, primeiramente, à luz de tudo o que foi considerado, isso nem mesmo se aproxima de tornar as duas coisas mais iguais do que um cavalo e um homem o são por ambos terem coração e pulmões. Além disso, quando se busca ver alguma semelhança entre algum movimento de direita com essa postura e o nazismo ou fascismo, costuma-se oportunamente se esquecer de mencionar que aquelas experiências que ninguém discute serem alguma forma de marxismo - ou de esquerda, para não entrar no debate -, como a Rússia comunista de Stalin, ou a Cuba comunista de Che Guevara, igualmente matavam homossexuais.

Todavia, mesmo aqui é preciso considerações. Ao passo que, ao que parece, no nazismo o motor de tal pena capital estava vinculado a princípios utilitaristas e evolucionistas - preservação da raça, manutenção dos melhores indivíduos -, i. e.., estava toda a questão vinculada a elementos naturalistas, no reconstrucionismo está vinculada à consideração de que é Deus, não os homens, que diz o que é abominável, ou seja, que determina o que é mesmo mau e o quão mau é.

Se notarmos bem, todas as culturas apresentam valores que são chocantes diante de outras. Hoje mesmo, consideraríamos terrível muitos dos costumes do próprio Ocidente de outrora, como as práticas de doação dos filhos dos romanos, ou a escravidão tão comum. Acontece, pois, que se não tivermos um padrão definitivo e último pelo qual possamos julgar todas as culturas, inclusive a nossa, não poderemos senão expressar o choque emocional diante de algo muito diverso daquilo que estamos acostumados.

Além disso, deve-se dizer que a própria prática da pena capital aqui tem contornos muito diversos. Num mundo reconstruído - uma situação muito distante da que temos hoje -, a imoralidade será altamente minorada, de modo que tanto héteros quanto homossexuais terão menos estímulos lascivos do que em nossa sociedade hedonista e obscena. Isso já facilitará a vida daquela pessoa que tem desejos sexuais por pessoas do mesmo sexo. Estas deverão entender que esses desejos são maus, e que devem contê-los, tal como uma pessoa que tem desejos sexuais por crianças - um pedófilo - deverá se conter sempre. Deverá haver toda assistência pastoral e familiar para que o indivíduo sob tais condições consiga vencer sua situação, viva em castidade ou até mesmo encontre do Senhor a superação desses desejos pecaminosos. Mas ela não comete crime enquanto não praticar o homossexualismo. Assim, tal como com outras pessoas por diversos motivos, esta condição as conduz a privarem-se de satisfazer seus desejos. Serão educadas e instruídas sobre a abominação da prática e não haverá qualquer incentivo ou propaganda. Então, aqueles que caírem são justamente aqueles que estão em franca rebeldia e entregues aos desejos que a sociedade justamente condena. Sociedade esta que amorosamente buscará ajudá-lo de todas as formas a não cair.

A propósito, toda sociedade condena algumas coisas e, segundo seus valores, é correto tais e tais medidas punitivas. Tudo isso tem que ser colocado em questão e demanda justificativa última. Reconstrucionistas justificam com a Bíblia seus valores e medidas punitivas - o que não deveria incomodar a nenhum cristão, mas o humanismo latente de nossa cultura fez com que víssemos a própria Escritura com maus olhos. Assim, nós já consideramos, em nossa cultura, que um bígamo ou polígamo não é justo, nem que alguém poderia ter relações sexuais com uma criança de dez anos, mas há muitas culturas que discordam. Todavia, quem vier a nós para praticá-lo em nossa nação, onde isso é proibido, será devidamente punido. Igualmente, se tivermos o poder de impedir que um desgraçado se case com uma menina de dez anos em qualquer lugar, temos o dever de fazê-lo. Com isso, vemos que toda cultura condena alguma ação - ou mesmo pensamento, como a nossa que, graças a Deus, condena o nazismo - como abominável. A grande questão é saber se há legitimidade para isso. Podemos agir assim por termos um padrão fixo e transcendente pelo qual tudo o mais é avaliado. Assim, esta prática penal só reflete os valores criacionais, bíblicos.

Ainda vale dizer que alguém que cai nesse pecado não está condenado ao inferno. Ela, tal como um assassino, deve ser intimado a se arrepender perante o Senhor antes de sofrerem o devido suplício. Se, de fato, arrependerem-se, poderão encontrar-se com o Senhor assim que a alma abandonar o corpo. Isso está em oposição com os espantalhos que fazem sobre o reconstrucionismo, ao dizerem que dizemos irem para o inferno diretamente os que praticam tai atos. É só mais um artifício retórico para tentar fazer o reconstrucionista parecer o mais malvado possível.

Isso revela outra confusão muito normalmente feita por progressistas, a saber, o de confundir numa mesma categoria homossexuais e judeus - e o desejo de tal bagunça só pode ser o ad hitlerum. Condenam - corretamente - o preconceito contra judeus e, como se fosse o mesmo caso, condenam o juízo negativo em relação aos homossexuais. É evidente que ser da raça judia não é uma ação moral, não tem nada que ver com a vontade e os desejos. Ser homossexual - praticar homossexualismo -, sim, é uma ação moral e diz respeito à vontade. Subsumir as duas coisas sob o conceito de preconceito para, depois, dar a entender que quem condena um pode, pelos mesmos princípios, condenar o outro, é, na melhor das hipóteses, estar desprovido de competências intelectuais.


  1. Morticínio?


Alguém poderia objetar que isso redundaria num vasto número de condenações e que muitas pessoas morreriam. Este é um ad baculum, i. e., uma tentativa de rejeitar a veracidade de algo por conta de alguma implicação que não é do gosto do objetor. Entretanto, mesmo que tivesse alguma procedência, este é um péssimo argumento. O combate ao crime certamente traz muitas mortes, mas somente foucaultianos desvairados e seus séquitos - ainda que sem o saber - ou outros progressistas pensariam que os combatentes ao crime são como nazistas. Igualmente, uma guerra justa pode trazer muitas baixas, mas apenas pacifistas ingênuos pensariam que seria melhor não guerrear, nunca, em situação alguma. Portanto, mesmo que a Reconstrução produzisse mais mortes, não seria ruim em si como a condenação com pena capital para qualquer crime abominável não se torna condenável por produzir mais mortes.

Mas a objeção óbvia é que as pessoas temerão transgredir por medo da espada, por medo da punição. Algumas, por consciência, mas outras justamente por temerem a punição. Além disso, como dito, o próprio incentivo e aplauso cessarão, de modo a diminuir ainda mais os casos. Em todo caso, segue-se o princípio bíblico (Romanos 13) de que a intimidação minora a incidência dos ocorridos e, portanto, evidentemente não haverão tantas penas capitais assim.


CONCLUSÃO


Fica notória a distância entre qualquer pensamento de direita, mesmo o mais radical, como o reconstrucionismo, e o nazismo e o fascismo. Ao passo que possam ser identificadas algumas semelhanças - principalmente com o reconstrucionismo -  (nacionalismo, moralismo, algum tipo de censura e a pena capital a homossexuais), essas são, primeiro, essencialmente distintas e se parecem apenas na superfície, e, em segundo lugar, dada a distinção que têm, somadas às diferenças evidentes (as perspectivas de direita rejeitam o Estado Avantajado; o Cerceamento do Mercado; o Desarmamento - três condições para que se possa implementar alguma forma de totalitarismo -; a perseguição a algum grupo por conta de questões raciais), torna a analogia uma patética, desonesta e desesperada falácia ad hitlerum. Pior ainda, quando olhamos para as ideologias de Esquerda, vemos justamente um Estado poderoso e robusto, tomando conta de todas as atividades humanas - mercado, educação, saúde -, monopolizando absolutamente os poderes bélicos, não raro com discursos nacionalistas ideológicos, fazendo deles sim um terror totalitário.