segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Maldito Clichê

Uma das misérias, das patologias linguísticas, que mais me causa repulsa é o tal do clichê. O clichê extraí da palavra seu significado, deixando apenas um vestígio do que esta palavra, de fato, evocava outrora. Quando uma palavra ou expressão se torna clichê, podemos decretá-la, praticamente, morta. É o uso leviano da palavra. Aliás, acredito que o uso leviano, a popularização de expressões sem que se conheça, de fato, seu significado, é a gênese dos clichês.
A alternativa é procurarmos sinônimos, para resgatarmos o valor das vítimas desta mazela linguística. Mais um problema que a ignorância nos trás...
Eu odeio clichês!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Aprender a Ler a Bíblia (Parte 6)


Olharemos, nesta lição, formas equivocadas de se interpretar a Bíblia. Esperamos que, ao final de nossa reflexão, aqueles que se valem das técnicas erradas por nós, aqui, destacadas, as abandonem, para o bem de suas próprias almas.
Ao interpretarmos a Bíblia, deveremos adotar o método de interpretação literal. Com esta afirmação, queremos fechar as portas para o método alegórico. O que tudo isso quer dizer? Primeiro, não quer dizer 'literalizar' tudo, ignorando o fato de haver figuras de linguagem. A Bíblia está repleta de figuras de linguagem, e a interpretação literal admite isto*¹. Interpretação literal significa entender literalmente o que as palavras denotam, ao invés de buscar conotações. 
Podemos esclarecer. Quando olhamos para a seguinte frase: "Como eu não tinha o que fazer ali na oficina e devia voltar para o presídio, me despedi de Akimitch e vim acompanhado por um soldado" (DOSTOIEVSKI, p.31), recebemos algumas informações. Lembrando-nos que o livro fala sobre um presidiário na Sibéria*², podemos, facilmente, deduzir que o protagonista referia-se a uma oficina (literal) que os presos trabalhavam; e que voltou para um presídio literal; com um soldado literal. Ou seja, entendemos exatamente o que foi descrito.
Já os que advogam a interpretação alegórica, poderiam querer entender as palavras todas como metáforas (e afins), ou seja, entenderiam que as palavras não correspondem ao que elas normalmente querem dizer. Oficina é um símbolo para, digamos, lugar onde se produz algo. Presídio é o local de enclausuramento. Soldado é alguém que ajuda na manutenção de impedir a liberdade (estamos tentando alegorizar). Logo, alguém desta estirpe poderia dizer que Alexandr Petrovitch (o protagonista do enredo) estava, na verdade, fazendo uma auto-descrição psicológica, onde a oficina seriam os pensamentos; o presídio seriam as emoções; e o soldado seria, talvez, o pudor, ou as normas sociais. Outra possível alegorização seria dizer que Petrovitch estava fazendo uma reflexão antropológico-filosófica platônica, onde oficina seria o mundo das idéias; o presídio seria o corpo humano; o soldado seriam as leis que regem o universo e o conduz de volta ao mundo físico.
E, assim por diante, a interpretação alegórica permite-nos, por meio de manipulações subjetivas no significado do texto, fazer qualquer tipo de interpretação. Ou seja, "a alegorização passa a ser arbitrária. É um processo que carece de objetividade e que não refreia a imaginação" (ZUCK, p.53). Perde-se a objetividade na própria comunicação. Imagine como seria se alegorizássemos tudo o que ouvíssemos. Entenderíamos, então, tudo conforme gostaríamos de entender, e instauraríamos o caos comunicativo.
Há, ainda, outros métodos não literais de interpretação. Os cabalistas do século 12 podem ser tomados como arquétipos para ilustração. Entendiam que o sentido 'não-literal', 'misterioso', 'oculto', era a verdadeira revelação da parte de Deus. Berkhof nos informa: "Na sua tentativa de desvendar os mistérios divinos, valiam-se dos seguintes métodos: a. Gematria, de acordo com a qual podiam substituir uma dada palavra bíblica por outra que tivesse o mesmo valor numérico*³; Notarikon, que consistia em formar palavras pela combinação das letras iniciais e finais ou considerando cada letra de uma palavra como a letra inicial de outras palavras; e c. Temoorah, que denotava um método de criar novos significados pela permuta de letras" (BERKHOF, p.15-16).
Por que não adotamos nenhum destes métodos? Ora, ao observarmos que a Bíblia foi escrita por homens (embora inspirados por Deus; assunto de outras reflexões), em linguagem, portanto, humana; dirigida a outros homens; não há um porquê para não buscarmos o sentido literal. "Isto indica que a Bíblia não foi escrita num código misterioso para ser decifrado por meio de alguma fórmula mágica. Como foi escrita nas línguas do povo (hebraico, aramaico e grego), não precisava ser decodificada, decifrada nem traduzida. Quem a lia não precisava procurar nas entrelinhas um significado 'mais profundo' ou fora do normal" (ZUCK, p.72).
Primeiro, não existe evidência alguma de que os autores intentaram camuflar suas verdadeiras mensagens por meio dos textos bíblicos. Quando Paulo escreveu: "É necessário, portanto, que o bispo seja irrepreensível, esposo de uma só mulher...etc." (1 Timóteo 3:2), não há motivos razoáveis para pensarmos que ele não estava, de fato, dando as qualidades que um bispo deveria ter.
Além disso, se os autores tiveram esta intenção, o que produziram para ocultar sua verdadeira mensagem foi, de fato, sublime. As verdades que comunicaram literalmente são excelsas! Não podem ser ignoradas. E o pior, a idéia de que produziram uma mensagem nesse formato oculto fica, praticamente, impossível de se engolir uma vez que temos autores diferentes falando de verdades semelhantes, e até mesmo citando uns aos outros buscando e alegando um único significado, objetivo, para os textos referidos (o que a interpretação alegórica torna inviável, pois não é possível, nela, justificar o uso exclusivo de uma conotação, isto é, da atribuição simbólica de significado).
Concluímos, pois, que as interpretações não-literais, além de serem, em si mesmas, irracionais e sem justificativa, produzem, como efeito, uma subjetivização do texto, de modo que a Bíblia passa a dizer tudo aquilo que o intérprete quer, e não o que Deus quis dizer. Fujamos desta hermenêutica manca, que só tende a nos guiar por nossa própria (pseudo)sabedoria.

Em suma, podemos dizer que a alegoria entende que a linguagem literal não transmite a idéia a ser comunicada, mas que o texto apresenta outras informações, escondidas nas palavras que estão patentes. Cabe mais uma citação esclarecer:
"Se você dissesse para um auditório 'Atravessei o oceano desde os Estados Unidos até a Europa', não ia querer que eles interpretassem sua afirmação como se você tivesse atravessado os mares revoltos da vida e chegado ao porto de uma nova experiência. Da mesma forma, nenhum jornalista que escrevesse sobre a fome predominante num país como a Índia gostaria que a notícia fosse interpretada como se os indianos estivessem experimentando uma enorme fome intelectual" (HENRICHSEN apud ZUCK, p. 73).
E é exatamente o não desejado apontado pelo texto que a alegoria faz. O significado literal é descartado, e um significado oculto é colocado como se fosse o verdadeiro e único significado.
Tomaremos o sermão do reverendo Natanael Moraes, na Igreja Central de Patrocínio, no dia 03 de Agosto, como exemplo do que é fazer uma aplicação sem alegorizar. Seu sermão foi baseado em 1 Reis 19. Em suma, podemos resumir o que se passa neste capítulo da seguinte forma: Elias havia matado os profetas de Baal no famoso evento no Monte Carmelo. Depois disto, Jezabel, muito irada, jurou que mataria a Elias. Este ficou com medo, fugiu, deixando seu moço em Berseba, e indo ao deserto refugiar-se. Lá, pediu a morte a Deus, aparentemente exausto de seu labor. Um anjo aparece, o acorda, e o ordena que comesse. Elias vê que havia algo preparado para ele, come, e volta a dormir. O anjo tornou a aparecer, e o processo repetiu-se, mas, desta vez o anjo o ordenou a se levantar, pois ele tinha um longo caminho a percorrer. Elias comeu e bebeu, e caminhou, com a força daquela comida, por quarenta dias e quarenta noites, até o monte Horebe. Lá ele passou a noite. Veio-lhe, então, a palavra do Senhor questionando sua estada ali. Elias responde que fora zeloso, e queixa-se de Israel pela apostasia, e teme por sua exterminação, como aconteceu aos outros fiéis a Deus. Deus lhe manda que ele saísse, e, após uma ventania; um terremoto; e fogo, veio um 'cicio tranquilo e suave', o qual, o vendo, sai Elias da caverna. Deus novamente lhe pergunta sobre o que ele fazia ali, e ele torna a dar a mesma resposta, enfatizando seu zelo pra com o Senhor (v.14, notar o 'extremo' antes de zeloso). Deus então lhe dá algumas recomendações, mostrando a Elias que ele não conhecia os planos de Deus, nem que Deus havia preservado sete mil crentes que não haviam apostatado; e que Deus estava preparando sucessores para o trabalho de Elias. Este é o texto, do verso 1 ao 18, em forma resumida.
O reverendo Natanael destacou que Elias, fugindo de seu problema, entrou em uma caverna, e lá refugiou-se, aparentemente depressivo e, não havendo indicação alguma do contrário, ainda desejando a morte (cf. v.4). De forma ANÁLOGA, e não ALEGÓRICA, o reverendo observou, metaforicamente, que por vezes nos encontramos em cavernas, ou seja, nos encontramos em situações de desespero e angústia, e buscamos nos esconder, e nos refugiar, desesperados e desesperançosos. É importante notar que o texto, se fosse alegórico, diria que, na verdade, Elias não foi para uma caverna, nem que este evento aconteceu, mas que, na verdade, o texto significa alguma outra coisa. Na aplicação, nos valemos da interpretação adequada e literal, entendendo que, de fato, Deus tirou Elias da depressão e de sua fuga, e observando que tal se dá, muitas vezes, conosco. Embora não entremos em cavernas, literalmente, nos refugiamos e ficamos depressivos. Esta é uma analogia válida.
Por outro lado, percebam esta alegoria que MacArthur destaca:
"Um famosos pregador carismático, com quem tenho conversado com frequência, pregou uma série de sermões sobre o livro de Neemias. À medida que ele ensinava, todos os pontos do livro representavam algo diferente ou significavam alguma coisa simbólica. Eis algumas [sic.] de seus ensinos: As muralhas de Jerusalém estavam arruinadas, e isso dá a entender as muralhas destruídas da personalidade humana. Neemias representa o Espírito Santo, que vem para reedificar as muralhas da personalidade humana. Quando se refere ao açude do rei (Ne 2.14), esse pastor afirma que o açude simboliza o batismo do Espírito Santo e, a partir disso, continua ensinando sobre importância de falar em línguas" (p.115).
O problema é que, como nota MacArthur, o "livro de Neemias não tem nenhuma ligação com as muralhas da personalidade humana, com o batismo do Espírito ou com o falar em línguas" (p.115). Isto é alegoria. Os pontos de analogia foram forçados. Não existiam numa interpretação natural. Mas surgem, do nada, na interpretação alegórica.

Portanto, reafirmamos o nosso ponto. A alegoria é uma forma perigosíssima de interpretação. Ela foge do texto, e impõe a ele coisas que ele não diz, nem explícita nem implicitamente. Fujamos desse equívoco. Que isto sirva de lição sobre como fazer aplicações corretas.

BIBLIOGRAFIA


BERKHOF, Louis. Princípios de Interpretação Bíblica. . Tradução de Denise Meister. São Paulo: Cultura Cristã, 2 ed., 2004, 144p.
DOSTOIEVSKI, F. Recordação da Casa dos Mortos. Tradução de José Geraldo Vieira. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves, 3 ed., 1988, 267p.
LADD, George. Apocalipse: introdução e comentário. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova e Mundo Cristão, 2 ed., 1982, 224p.
MACARTHUR JR, John. F. O Caos Carismático. Tradução de Rogerio Portella. São José dos Campos: Editora Fiel. 395p.
ZUCK, Roy B. A Interpretação Bíblica. Tradução de Cesar de F. A. Bueno Vieira. São Paulo: Vida Nova, 1994, 360p.

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*¹ Estudaremos, se Deus permitir, sobre figuras de linguagem numa reflexão posterior.
*² Aqui, inevitavelmente, já tocamos em outros pontos da hermenêutica, que, também, noutro momento, pretendemos estudar. A saber, estamos nos referindo da interpretação à luz de seu contexto.
*³ Já houveram tentativas de interpretar Apocalipse 13:18 (o número da besta) desta forma. George Ladd descredibiliza tais tentativas em seu comentário ao livro de Apocalipse, p. 138-139.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Uma pequena evidência de quão estúpido é Richard Dawkins








Muito já se tem dito a respeito da ignorância de Dawkins a respeito de assuntos filosóficos e teológicos*¹. Muitos blogs existem para demonstrar a falta de honestidade intelectual que este senhor lida com questões tão importantes como a existência de Deus. Permitam-me apenas um pequeno acréscimo a todo o mar de evidências, num apontamento que a tempos já havia percebido.

Dawkins está a analisar a quarta via para a existência de Deus de Tomás de Aquino. Esta via diz:
“Encontra-se nas coisas algo mais ou menos bom, mais ou menos verdadeiro, mais ou menos nobre etc. Ora, mais e menos se dizem de coisas diversas conforme elas se aproximam diferentemente daquilo
que é em si o máximo [...] Existe em grau supremo algo verdadeiro, bom, nobre e, conseqüentemente o ente em grau supremo, pois, como se mostra no livro II da Metafísica, o que é em sumo grau verdadeiro, é ente em sumo grau [...] Por outro lado, o que se encontra no mais algo grau em determinado gênero é causa de tudo o que é desse gênero (...) Existe então algo que é, para todos os outros entes, causa de ser, de bondade e de toda a perfeição: nós o chamamos Deus”*²


Richard Dawkins diz que este argumento é ruim, pois, faz com que todo adjetivo, mesmo os pejorativos, tenham que encontrar um superlativo em Deus. Suas palavras são: "as pessoas variam quanto ao fedor, mas só podemos fazer comparação pela referência de um máximo perfeito de fedor concebível. Tem de haver, portanto, um fedorento inigualável, e a ele chamamos Deus" ('Deus, um delírio', p. 90, no e-book).


A isto Sproul já nos havia advertido: "Pode ser contra-argumentado que, se isso é verdade, Deus também teria de ser máxima ou perfeitamente mau - para explicar os graus relativos de maldade no mundo. Por isso foi fundamental que Tomás, seguindo Agostinho, tenha definido o mal em termos de privação e negação. O padrão fundamental pelo qual temos de julgar o mal não é o mal máximo, mas a perfeição máxima" ('Filosofia para iniciantes', p. 75).

As, Dawkis vacila por não perceber que os graus de fedores existem como negações dos graus de bons aromas. Um vacilo digno de alguém nada versado em filosofia... e o pior, um vexame para alguém que publica um livro sem conhecer sobre o assunto.

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*¹ Dentre eles temos A. Flew e Alvin Plantinga.
*² Tirei as citações deste artigo: http://filosofante.org/filosofante/not_arquivos/pdf/Cinco_Vias.pdf

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Aprender a Ler a Bíblia (Parte 5)


Até aqui temos bagagem suficiente para já termos começado a ler a Bíblia. O que tratamos no primeiro, terceiro e quarto artigo sobre aprender a ler a Bíblia foram as noções básicas da hermenêutica. Noções estas que todo crente deveria e é capaz de reter. É imprescindível que a Igreja aproprie-se destas lições e comece, o quanto antes, a ler a Bíblia.
Seguiremos agora com regras mais técnicas, que aperfeiçoarão as habilidades dos leitores como intérpretes das Escrituras. Nesta lição, aprenderemos sobre o que Agostinho cunhou de 'Analogia da Fé'.

Na verdade, este item deveria ser tratado após traçarmos considerações sobre o método gramático-histórico*¹. Todavia, pode muito bem ser trazido à baila sem prejuízo à formação hermenêutica dos leitores. Antes, só tem a nos esclarecer, iluminar.
Este princípio, o da analogia da fé, deriva-se do fato de termos alguns pressupostos quanto as Escrituras. Entendemos que, embora sejam produção humana, são, também (e precipuamente), obra de Deus. Foram doadas pelo Espírito, que iluminou e inspirou a mente de seus autores, conferindo-lhes informações e garantindo precisão e fidelidade*². Sendo assim, toda a Bíblia é, ulteriormente, obra de um só autor, o Espírito de Deus. Como ele é infalível e inerrante, tal é sua produção. Um corolário, pois, é que há uma unidade intrínseca na Palavra de Deus. Todas as partes concordam umas com as outras, e o entendimento de um particular, de uma seção, deve se harmonizar com o todo das Escrituras.
Alguns pensadores cristãos ampliam o conceito para que compreendamos. Comecemos por Zuck: "A Bíblia não se contradiz. [...] As passagens que aparentemente contêm discrepâncias precisam ser interpretadas à luz da harmonia das Escrituras. [...] Como a Bíblia é  coerente, suas passagens obscuras e secundárias devem ser interpretadas com base em trechos claros e principais. [...] outra consequência da unidade das Escrituras é que muitas vezes, a Bíblia interpreta a si mesma" (Zuck, p.83-84). Ferreira e Myatt, bem como Zuck, reportam a Calvino e Lutero os méritos por enfatizar tal aspeco da interpretação bíblica, e, semelhantemente, afirmam: "A Escritura é sua própria intérprete, por isso os textos menos claros da Escritura devem ser interpretados à luz dos textos mais claros, sempre conferindo textos paralelos que tratam do mesmo assunto" (FERREIRA; MYATT, p.43).
Geisler e Howe, no elucidante 'Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e 'Contradições' da Bíblia', no começo do livro, expõem alguns erros clássicos que encerram equívocos mortais em relação à perspectiva sobre as Escrituras. A nós cabe observar os erros 5 e 6, que são pertinentes à nossa presente reflexão.
O erro 5 é: "deixar de interpretar passagens difíceis à luz das que são claras", e o autor da exemplos de como harmonizar textos*³. O erro número 6 é: "basear um ensino numa passagem obscura". O autor menciona o fato de que há passagens difíceis de se entender por conta de palavras-chave do texto não aparecerem em outro lugar; ou por causa da distância cronológica e cultural que estamos do texto, de modo que não sabemos ao que o autor está se referindo. Portanto, quanto estivermos lendo um texto, e não compreendermos uma passagem em particular, ou ser ela de difícil entendimento, devemos nos precaver para não tirar conclusões precipitadas. Devemos olhar para o resto das Escrituras e, assim, formular doutrinas e ensinamentos.
Na medida em que formos lendo mais da Bíblia, devemos ir revisando nossas convicções doutrinárias. Certamente, é impossível ler as Escrituras sem algumas convicções básicas já formuladas. Porém, devemos ser fiéis à Bíblia, e, assim, temos de estar prontos a reformular nossos pensamentos à luz do que vamos descobrindo na medida que estudamos a Palavra. Tal consideração, também, nos torna mais humildes em relação ao que sabemos. Na medida em que conhecermos mais da Palavra teremos condições de afirmar com mais convicção as doutrinas que percebemos.
Meditem e apreendam esta lição, pois usaremos dela para esclarecer outras. No mais, a ilustração de Packer é excelente para finalizar este artigo:
"“A Bíblia assemelha-se a uma orquestra sinfônica, e o Espírito Santo é o maestro. Cada músico foi levado voluntária, espontânea e criativamente a tocar as notas como o grande maestro desejava, apesar de nenhum deles ser capaz de ouvir a música de forma integral... O valor de cada parte torna-se completamente evidente quando visto em relação a todo o restante” (PACKER apud MACARTHUR, p.120).

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*¹ "Muitos escritores de Hermenêutica acham que as interpretações gramatical e histórica preenchem todos os requerimentos para a interpretação adequada da Bíblia. Eles não consideram o caráter teológico especial dessa disciplina. Há outros, no entanto, que são conscientes da necessidade de se reconhecer um terceiro elemento na interpretação da Escritura" (BERKHOF, p.101).
*² Os seguintes textos são importantes e suficientes: 2 Timóteo 3:16 diz que 'Toda Escritura é inspirada por Deus'; 2 Pedro 1:20-21 diz que "nenhuma profecia da Escritura provém de particular elucidação", e que não vieram de vontade humana, mas os homens falaram movidos pelo Espírito Santo; Judas 3 diz que a fé (e aqui fé se refere ao escopo, o conteúdo doutrinário) foi entregue, (ou seja, dada, doada), aos santos.
*³ Um exemplo digno de nota é a possível contradição entre Tiago e Paulo. "Tiago parece estar dizendo que a salvação é pelas obras (Tg 2:14-26), ao passo que Paulo ensinou com toda a clareza que é pela graça (Rm 4:5; Tt 3:5-7; Ef 2:8-9). Neste caso, Tiago não deve ser interpretado de maneira a contradizer Paulo. O apóstolo Paulo está falando da justificação perante Deus (o que é pela fé somente), ao passo que Tiago está se referindo à justificação perante os homens (que não têm como ver a nossa fé, mas somente as nossas obras" (GEISLER; HOWE, p.21).
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BIBLIOGRAFIA
BERKHOF, Louis. Princípios de Interpretação Bíblica. Tradução de Denise Meister. São Paulo: Cultura Cristã, 2 ed., 2004, 144p.
FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, 1220p.
GEISLER; Norman; HOWE, Thomas. Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e “Contradições” da Bíblia. Tradução de Milton Azevedo Andrade. São Paulo: Mundo Cristão, 1999, 582p.
MACARTHUR JR, John. F. O Caos Carismático. Tradução de Rogerio Portella. São José dos Campos: Editora Fiel. 395p.
ZUCK, Roy B. A Interpretação Bíblica. Tradução de Cesar de F. A. Bueno Vieira. São Paulo: Vida Nova, 1994, 360p.

[PS: Agradecimento especial às correções ortográficas de Ronaldo Vasconcelos]

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Aprenda a Ler a Bíblia (Parte 4)



Já estamos em vias de ser diretamente instruídos por Deus, por meio de sua Palavra. Os primeiros passos para a compreensão da Bíblia, o ato de ler, já foram iluminados na lição anterior. Já sabemos o que temos que fazer para uma leitura eficaz. Mas há mais a ser dito sobre isto.
Insistimos que reflitamos sobre os textos lidos. Não podemos, simplesmente, passar os olhos sobre eles e considerar que fomos alimentados pela Palavra de Deus. Isto é irresponsável, se não for blasfemo (querer enganar a Deus com atitudes externas, como as orações dos fariseus - Mateus 6:1-8). É preciso explorar o texto. Para fazer isto, traremos algumas dicas de investigação.
Após lido o texto, é interessante fazer algumas perguntas, trazer algumas questões para ele*¹. Para a interpretação, primeiro, temos que definir que tipo de texto é. Para uma epístola, ou um texto não-narrativo, temos perguntas específicas como: Quem está escrevendo? Pra quem se destina o escrito? Em que situação se encontram os destinatários? E o remetente? Qual o propósito do remetente ao escrever-lhes?*²
Para textos narrativos, histórias, temos outras questões: Quem está falando? Para quem se está falando? O que a(s) pessoa(s) a quem se fala está(ão) passando? Onde é que o evento está acontecendo? Quando o evento acontece?
Além destas questões, algumas outras questões para todo tipo de texto, que ajudam na aplicação do que foi lido são: Há algum exemplo a ser seguido ou evitado? Ensina-se alguma doutrina? Combate-se alguma doutrina? Há alguma promessa? Há algum mandamento? Há alguma exortação?
Nas primeiras devocionais, ao aplicar tais questões ao texto, podemos achar cansativa tal tarefa (ou até desnecessária). Com o tempo, nos acostumaremos a questionar o texto, de modo que teremos esta metodologia interrogativa automaticamente engatilhada em nossas mentes. Assim, vale a pena começar a explorar o texto com essas questões ao lado para, depois, com treino, fazê-las ao batermos os olhos no texto.
Alguém pode notar que tal questionário trará coisas demais para o momento devocional, e concluir que, evidentemente, a(s) questão(ões) que nos chamar(em) mais a atenção é(são) a(s) que devemos nos deter numa devocional. Não podemos, num momento devocional, lidar com todos os mandamentos; lições; exortações; exemplos; promessas e doutrinas que um texto apresentar. O problema com esta metodologia é justamente o de furtar-se, por exemplo, de lidar com um problema que acomete nossas vidas e que o texto apresenta. Talvez a solução seja explorar, com todas as questões, o menor número de versículos possíveis para que não encontremos coisas demais para uma reflexão.
Notem, com isto, que o desenvolvimento da leitura bíblica retarda um pouco, porém, torna-se muito mais profundo. Nós entendemos que vale a pena estudar a Bíblia desta forma. Demorar-se-á muito mais tempo para terminar de ler a Bíblia. Mas, após lê-la desta maneira, teremos aprendido muito mais do que aqueles que somente correram seus olhos por todo o texto e não colheram todo o tesouro.
Uma última dica nesta lição é para que se escrevam as devocionais. Compre um caderninho, ou faça no computador. Selecione o texto e escreva as resposta às questões. Produza, após o questionário, um pequeno texto de um ou dois parágrafos (quem sabe mais!). Faça tópicos sobre o texto para ajudar a relacioná-lo com outros que falam do mesmo assunto (que trazem exortações semelhantes; com mandamentos parecidos; com promessas do mesmo teor; que tocam na mesma doutrina... etc.).
Notar-se-á que a tarefa da leitura bíblica torna-se muito mais séria e envolvente. É mais do que parar cinco minutos e dar uma olhada, uma espiada nas Escrituras. Mas, afinal de contas, é a suprema e bendita revelação de Deus ao homem! Negaremos-lhe a dignidade de nos determos com temor e responsabilidade?
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*¹ Estas questões, com algumas alterações, foram aprendidas nas aulas de Homilética do Ibel com o Reverendo Gilson Altino da Fonseca.
*² A relevância e a forma de descobrir estas coisas serão tratadas numa próxima lição.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Aprenda a Ler a Bíblia (Parte 3)



Uma vez que eliminamos as barreiras psicológicas para o momento devocional (inclusive, pela escolha do texto de maneira responsável, o obstáculo da busca por somente aquilo que nos interessa), temos que aprender a nos voltar para o texto escriturístico. Esta reflexão trará mais algumas dicas úteis para que qualquer leitor interessado consiga fazer leituras bíblicas efetivas, e produza suas próprias devocionais. Nos deteremos na seleção do texto a ser meditado.
Pois bem, uma vez escolhido o livro que faremos nossas devocionais, devemos ir para o seu início. É preciso selecionar uma porção a ser lida por dia. Esta porção é escolhida de acordo com o tempo que cada um tem disponível para meditar. É preciso ter bom senso aqui. O texto deve ser lido; analisado; deve-se meditar nele (talvez até mais do que na hora); e, por fim, devemos orar, falar com Deus a respeito do que lemos. Portanto, separe somente uma parte do tempo para a leitura, e não ele todo.
Vamos supor que dispomos-nos de quinze minutos para as devocionais. Sugerimos, então, a leitura de, no máximo, três versículos como proposta. Porém, é bom ressaltar que estas considerações são apenas métodos para se organizar. Não são regras inflexíveis, como pretendemos mostrar.
Com a proposta de três versículos, devemos nos voltar para o texto. É nele que veremos, de fato, quantos versículos iremos ler. O importante é apanhar uma idéia completa. Se dois versículos forem suficiente para transmitir uma idéia, e os versículos posteriores mudarem o assunto, então devemos parar naqueles dois versículos. Porém, se a idéia completa estiver contida em sete versículos, leremos os sete sem problema algum. Mas devemos ter atenção aqui. Não queremos apanhar um número excessivo de informações, de modo que a meditação fique confusa num turbilhão de idéias. Para exemplificar, permitam-nos apresentar nossa própria experiência.
Estamos meditando, diariamente, como dissemos alhures, no texto de 1 Timóteo. No capítulo 6, versículos 6 a 10, Paulo trata de um tema geral único: a relação do crente com os bens materiais. Porém, ao invés de olharmos para todo esse texto, que trás uma miríade de conceitos, resolvemos nos deter com mais cuidado nos versos de 6 a 8. Ali ele fala sobre contentamento, e no verso 9 e 10 já começa a falar sobre amor ao dinheiro. Preferimos deixar os versos 9 e 10 para a próxima devocional. Os versos 6, 7 e 8 já bastam para meditarmos num dia.
Falaremos um pouco mais de nossa experiência, a título de ilustração. Quando meditamos em 1 Timóteo 3, se não nos falha a memória, olhamos os versos 1 a 7! Embora estejamos meditando em porções menores, este texto exigiu que pegássemos uma porção maior. Não há problema algum nisto.
Há, ainda, outra questão que não podemos deixar de mencionar. Lembremo-nos, como dito em reflexão anterior, que Pedro mesmo admitiu haver passagens difíceis de serem compreendidas (2 Pedro 3:15-16, especialmente verso 16). Às vezes nos depararemos com textos difíceis. Devemos, em oração, buscar fazer o máximo para compreendê-los. Esta empreitada é válida. Pode ser que fiquemos em dúvida sobre seu significado, ou sobre sua relação com outras questões que conhecemos*¹. Quando o texto não nos é decifrado de maneira alguma, nem conseguimos extrair qualquer reflexão sobre ele, devemos, sem receio, postergá-lo, pulá-lo por hora. Certamente não estamos aptos para entendê-lo ainda. Na medida que formos lendo mais a Bíblia e estudando mais doutrinas (nas Escolas Dominicais temos uma oportunidade singular para tal empreitada) teremos mais condições de interpretar e entender textos difíceis*². O autor deste texto mesmo já experimentou tal fenômeno. João 1:1-18 nos era obscuro por demais. Hoje, com um certo amadurecimento, já nos é um texto de deleite.
Mas, atenção, insistimos para que haja esforço para entender o texto justamente para evitar que pulemos textos que digam coisas que não gostamos e que, talvez, sejam justamente o que precisamos ouvir.
O grande lance é destacar alguma idéia, alguma informação bíblica que possa fazer parte de nossas reflexões e meditações. É isto que Deus tem pra nos dizer. E é a isso que devemos nos apegar e 'mastigar bem', para 'digerir' e crescer espiritualmente. Que Deus nos ajude na compreensão de sua Palavra!

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*¹ Em reflexão posterior, trabalharemos esta questão num tópico chamado 'interpretação teológica'.
*² Perguntar para alguém não faz mal. Em uma próxima reflexão, ensinaremos a busca por ajuda em comentários bíblicos. É interessante ficar atento às pregações dominicais para, quem sabe, ser iluminado quanto ao texto numa delas...

terça-feira, 18 de junho de 2013

Aprenda a Ler a Bíblia (parte 2)

Embora iremos ensinar regras de interpretação um pouco mais profundas do que, provavelmente, as que a maioria dos leitores estejam familiarizados, temos de antecipar nossas lições observando que a Bíblia é, em matéria de assuntos relacionados à salvação e aos princípios éticos gerais (via de regra), fácil de ser lida.
Ela mesma reivindica isto para ela. Porém, ela também reivindica ter suas dificuldades. Refletiremos sobre esta tensão neste estudo.
Bom, para começar, vamos observar, com Charles Hodge, sobre a perspicuidade (clareza) das Escrituras: "Paulo se alegrou que Timóteo fosse, desde a juventude, conhecedor das Santas Escrituras, as quais tiveram o poder de fazê-lo sábio para a salvação [2 Timóteo 3:14-15]. Disse ele aos Gálatas (1.8, 9): 'Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos termos [sic.] pregado, seja anátema'. Isso implica duas coisas - primeiro, que os cristão gálatas, o povo, tinham o direito de sentar-se no tribunal para avaliar o ensino de um Apóstolo ou de um anjo celestial; e, segundo, que tinham uma regra infalível pela qual esse juízo devia ser determinado, isto é, uma revelação de Deus previamente autenticada" (p.138-139). Portanto, é possível uma educação progressiva, desde a meninice, para que alguém torne-se sábio para a salvação; e a Igreja foi considerada por Paulo como apta para avaliar o ensino que lhe fosse trazido.
E, de fato, não é nada difícil compreendermos certas porções das Escrituras. Não há grandes dificuldades em olharmos, por exemplo, para as porções éticas no final das epístolas de Paulo. Qualquer um pode, por exemplo, pegar o capítulo 12 de Romanos e entender uma série de recomendações sobre como devemos viver. Também não é preciso ser um exegeta ou filósofo analítico para olharmos para João 14:6 ou Atos 4:12 para percebermos que não se pode encontrar reconciliação com Deus exceto por Cristo. Portanto, Berkhof observa com maestria que "as Escrituras não se dirigem exclusivamente, nem primariamente, aos oficiais da Igreja, mas ao povo que constitui a Igreja de Deus" (p.51). Fica, pois, estabelecido que cada indivíduo é responsável por si diante de Deus. "Examinais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam" (João 5:39).
Porém, seríamos por demais levianos se parássemos nossa reflexão por aqui. Olhemos para o que Pedro diz: "E tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor; como também o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada;falando disto, como em todas as suas epístolas, entre as quais há pontos difíceis de entender, que os indoutos e inconstantes torcem, e igualmente as outras Escrituras, para sua própria perdição" (2 Pedro 3:15-16). Pedro admite que existem coisas difíceis de entender nas próprias Escrituras (e, é interessante observar que eles já tinham em conta os escritos neo-testamentários como sendo Escrituras também).
Roy B. Zuck, no começo de sua obra sobre hermenêutica, trás-nos luz sobre este assunto. Ele observa que o texto de Atos 8, versos 27 a 30 (sobre Filipe e o Etíope) demonstram que, às vezes, é preciso que alguém ensine, explique, esclareça uma porção das Escrituras (p.9-10). Outro exemplo pode ser visto nestas palavras: "Vários meses depois que Neemias concluiu a reconstrução dos muros de Jerusalém e os israelitas haviam-se instalado em suas cidades, o escriba Esdras leu para a congregação no 'livro da lei de Moisés' (os cinco primeiros livros da Bíblia). O povo havia-se reunido em frente à Porta das Águas (Ne 8.1). Esdras leu na lei desde o amanhecer até ao meio-dia (v.3). Os levitas também leran na lei em voz alta, 'claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia' (vv. 7,8). Em consequência, todos do povo se alegraram-se, 'porque tinham entendido as palavras que lhes foram explicadas' (v.12)" (ZUCK, p.10).
Assim, é óbvio que existem, também, dificuldades para interpretar a Bíblia. É por isto que a Igreja foi agraciada com mestres. O Espírito outorgou o dom de ensinar, e isto está claro nas Escrituras (Romanos 12:7; 1 Coríntios 12:28; Efésios 4:11).
Não obstante, não são dificuldades insolúveis ou imperceptíveis para o 'leigo'. Com as demais reflexões, buscaremos desvendar-lhes os segredos da interpretação bíblica, e, em partes, sanar este problema da semi-obscuridade bíblica, mas não antes de lhes ensinar sobre como fazer uma devocional. Fiquem atentos, portanto, às próximas reflexões.
Lucio A. de Oliveira
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BIBLIOGRAFIA

BERKHOF, Louis. Princípios de Interpretação Bíblica. . Tradução de Denise Meister. São Paulo: Cultura Cristã, 2 ed., 2004, 144p.
HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo:Editora Hagnos, 2001. 1777p.

ZUCK, Roy B. A Interpretação Bíblica. Tradução de Cesar de F. A. Bueno Vieira. São Paulo: Vida Nova, 1994, 360p.