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sábado, 14 de junho de 2014

Os Estoicos


[para uma melhor compreensão do estoicismo é bom que se leia este artigo sobre Heráclito]
Estudaremos, agora, uma importante escola filosófica da Antiguidade, o chamado estoicismo. Para isso contaremos principalmente com o capítulo sobre o assunto no livro de Jean-François Pradeau, escrito por Brad Inwood, que nos será guia para o estoicismo como Nash para o Platonismo ou Durant para política em Aristóteles e Platão.
Pois bem, o movimento foi criado por Zenão de Chipre. Mas antes de estudar os estóicos, temos que estudar uma escola que os precedeu, e que muito os influenciou: os cínicos, um movimento filosófico criado por um dos discípulos de Sócrates chamado Antístenes. Antístenes é pra Zenão o que Aristipo é para Epicuro. Gaarder e Chalita reconhecem a influência dos cínicos sobre os estóicos: “Os cínicos foram de grande importância para a filosofia estoica”(GAARDER, p. 148) e “As ideias dos estóicos foram influenciadas por uma corrente de pensamento que se desenvolveu na mesma época de Sócrates: o cinismo. Fundada por Antístenes (445? – 365 a. C.), um ateniense que conheceu o grande filósofo [Sócrates]” (CHALITA, p. 78). Veremos o porquê.
O estoicismo nasce, em Atenas, no final do século IV a. C., o século macedônico da Grécia, com Zenão. Inwood entende que Zenão nasceu em 334 e morreu em 262 a. C. (PRADEAU, p. 80). Chalita suspeita da data 320 a 250 a. C. (CHALITA, p. 76). Ambos, nas mesmas páginas, indicam que ele nasceu em Cítio (ou Cício), na ilha de Chipre.
Chalita nos informa que “Zenão entrou em contato com a filosofia por meio de textos trazidos de Atenas por seu pai, um comerciante” (CHALITA, p. 76). Chalita prossegue dizendo que “Posteriormente, ele se transferiu para Atenas, onde começou a ensinar próximo ao pórtico da cidade” (CHALITA, p. 76), mas isso pula informações importantes, concedidas a nós por Inwood. Antes, Gaarder nos diz que Zenão “se transferiu para Atenas depois de ter sobrevivido a um naufrágio” (GAARDER, p. 148). Quem sabe o naufrágio tenha-o despertado à reflexão sobre a vida. Ou seria um naufrágio no caminho à cidade de Atenas? Seja como for, Brad Inwood nos conta que, antes de começar a ensinar, Zenão foi “seduzido pela leitura das ‘obras socráticas’, ele foi para Atenas a fim de aprofundar seus conhecimentos. Ele sentiu um verdadeiro choque com a leitura pública de algumas partes do livro II das Memórias de Xenofonte (430-355 a. C.) e perguntou onde poderia encontrar homens como o Sócrates (469-399 a. C.) que se acabava de descrever. Crates de Tebas (368/365-288/255 a. C.), filósofo cínico renomado, foi-lhe designado. Levado por seu entusiasmo socrático, Zenão se devotou aos ideais da filosofia cínica: ele tomou a decisão de viver ‘em conformidade com a natureza’ e de repensar as convenções da sociedade civil a partir de seus fundamento” (PRADEAU, p. 80). Isso mesmo! Zenão não apenas estudou o cinismo, como aprendeu filosofia aos pés de um mestre cínico, e chegou a viver como um verdadeiro discípulo de Antístenes. Por isso, antes de continuarmos com os estóicos, temos que fazer uma pequena digressão e estudar os cínicos. Só então poderemos voltar e compreender melhor o estoicismo.

O CINISMO

Antístenes foi um fiel discípulo de Sócrates. Maria Lacerda de Moura parece considera-lo o mais fiel seguidor do sábio de Atenas. “Antístenes, durante o processo de Sócrates e os dias que se seguiram à sua condenação, desesperado diante do inevitável, revoltado, louco de dor, fugiu a toda e qualquer presença, par apenas viver junto de Sócrates até os últimos momentos do filósofo. Depois, fugiu de toda gente, na angústia de uma perturbação irritante contra a maldade, a incompreensão e imbecilidade humana que condenam um Sócrates, cuja pureza ninguém queria ver” (PLATÃO, p. 70-71). Talvez a conturbação tenha-o feito imaginar que a apatia ante as coisas seria a solução para a felicidade. Ele deve ter se lembrado de um evento com Sócrates que certamente fertilizou sua mente, fazendo germinar o ‘cinismo’: “Conta-se que, um dia, Sócrates parou diante de uma tenda do mercado em que estavam expostas diversas mercadorias. Depois de algum tempo, ele exclamou: ‘Vejam quantas coisas o ateniense precisa para viver!’. Naturalmente ele queria dizer com isto que ele próprio não precisava de nada daquilo” (GAARDER, p. 147).
Pois bem, o que Antístenes ensinava? Gaarder esclarece: “Os cínicos diziam que a verdadeira felicidade não depende de fatores externos como o luxo, o poder político e a boa saúde. Para eles, a verdadeira felicidade consistia em se libertar dessas coisas causais e efêmeras. E justamente porque a felicidade não estava nessas coisas ela podia ser alcançada por todos. E, uma vez alcançada, não podia mais ser perdida” (GAARDER, p. 147). É importante destacarmos que, uma vez que a felicidade não dependia de algo que apenas poucos possuíam, como saúde, riquezas e status, antes dependia da competência racional que todos tinham para se tornarem ‘cínicos’, ela era de alcance universal. Aqui percebemos as raízes socráticas do pensamento de Antístenes. Ele credita a felicidade à competência universal dos homens, à razão humana. É, pois, algo de caráter universal. Chalita completa a doutrina: “o pensamento cínico pregava que a maior virtude que um homem podia atingir era a independência frente a todos os acontecimentos da vida. Isso significava libertar-se dos costumes e das normas sociais por meio da satisfação apenas das necessidades absolutamente vitais, como a alimentação e o sono; todas as outras, impostas pelas regras sociais, deveriam ser desprezadas” (CHALITA, p. 78). Para ele, pois, as coisas que nos faziam pensar serem necessárias para a felicidade seriam, na verdade, um construto social, um anseio artificial criado por homens, iludidos, buscando ídolos para satisfazer a ‘irrealização’ presente em seus corações (observem que as inquietações existenciais estão, novamente, presentes em outro filósofo da antiguidade). O anseio por riquezas, status e até saúde são impressos em nossos corações pela cultura em que vivemos, ensinava Antístenes.
Acontece que Chalita ensina que alimentar-se e dormir seriam coisas lícitas de se buscar. E, no final das contas, todas as lutas das pessoas banais não são fruto justamente dessa busca? Querem dormir melhor, mais confortavelmente, e comer bem, bem como garantir esses dois. Seja como for, Gaarder amplia e torna a visão cínica ainda mais radical: “Os cínicos achavam que as pessoas não precisavam se preocupar com a saúde, nem mesmo com o sofrimento e com a morte. E elas também não deveriam se atormentar com o sofrimento dos outros” (GAARDER, p. 148). Ou seja, a paz é alcançada quando não se importa com nada mais além da mera sobrevivência. Essa parece a proposta de Antístenes.
Antístenes, enquanto o mestre ainda vivia, não se deu a ensinar e ter discípulos. Por isso Moura relata que Antístenes dizia: “Quando uma época tem a felicidade de possuir um Sócrates, é só a ele que convém escutar [...] Aprendereis comigo daquele que me ensina; a água é mais fresca e mais sã, quando bebida na fonte” (ANTÍSTENES apud PLATÃO, p. 73) e prossegue: “E Antístenes não teve discípulos enquanto Sócrates viveu. [...] Morava no Pireu. Todas as manhãs andava quarenta estádios para ouvir Sócrates. Platão não foi tão longe...” (PLATÃO, p. 73). Mas é claro, logo tal discípulo comprometido iria angariar discípulos.
Alguém, além de Zenão, viveu ao extremo essa filosofia: “Diógenes (século IVa .C.), o cínico mais famoso, levou esse ideal às últimas consequências, vivendo em absoluta pobreza. Há histórias que afirmam que ele chegou a viver dentro de um barril, nu, e que ridicularizava a todos os cidadãos e seus hábitos com um humor implacável” (CHALITA, p. 78). Talvez zombasse deles, pra lá e pra cá, ávidos em conseguir coisas, mirando objetivos que não eram melhores que as miragens dos viajantes do deserto. Gaarder nos conta uma interessante histórica sobre Diógenes: “Conta-se que ele vivia dentro de um barril e não
possuía mais do que uma túnica, um cajado e um embornal de pão. [...] Um dia, quando estava sentado ao sol junto ao seu barril, recebeu a visita de Alexandre Magno. Alexandre aproximou-se do sábio, perguntou-lhe se ele tinha algum desejo e disse-lhe que, caso tivesse, seu desejo seria imediatamente satisfeito. Ao que Diógenes respondeu: ‘Sim, desejo que te afastes da frente do meu sol’. Com isto Diógenes mostrou que era mais rico e mais feliz que o grande conquistador. Ele tinha tudo o que desejava” (GAARDER, p. 147-148).

A HISTÓRIA DO ESTOICISMO

Inwood diz que, “em seu começo, ele [o estoicismo] se restringiu à atividade filosófica do fundador da escola” (PRADEAU, p. 80), ou seja, entendemos com isso que não havia mestres tão cedo do estoicismo. Talvez seus bons discípulos tenham vindo depois. O certo é que “ele reunia seus ouvintes debaixo de um pórtico. O substantivo estoico vem da palavra grega para ‘pórtico’ (stoa)” (GAARDER, p. 148).
Depois de um tempo como cínico, Zenão continuou a filosofar, e a estudar, e abandonou o ideal de Antístenes, conforme nota Inwood: “Somente muito mais tarde, depois de pesquisas aprofundadas em vários domínios da filosofia, foi que Zenão fundou uma escola que se comprometia na via de uma ciência universal. Essas ciências compreendia a física, aí incluídas a cosmologia e a teologia, a análise dos modos formais de raciocínio e da epistemologia, assim como uma determinada abordagem da ética e da política, onde se sustenta valores civis ao mesmo tempo em que se repensava seu fundamento” (PRADEAU, p. 80). Ou seja, Zenão tinha pretensões de desenvolver uma cosmovisão completa. Ele não poderia ter conceitos tão simplesmente ético-existenciais. Era preciso refletir sobre o mundo, sobre os homens, sobre as relações humanas e sobre os próprios pensamentos.
Inwood prossegue dizendo que “em seu começo a escola era pequena. Na realidade, os primeiros discípulos de Zenão forma chamados mais de ‘zenonitas’ do que ‘estoicos’, enquanto que os discípulos de Epicuro (341-270 a. C.) foram desde o início chamados de ‘epicuristas’” (PRADEAU, p. 81). Mas esse tímido movimento prosseguiu, ganhou caráter próprio e vida além do mestre, como segue informando Inwood: “mas o movimento fundado por Zenão sobreviveu ao seu fundador e adquiriu uma identidade independente. Os filósofo que escolheram seguir Zenão em vida formavam um conjunto heteróclito. Alguns eram, por exemplo, encarregados da tarefa frequentemente ingrata de conselheiros políticos [...] Outros discípulos de Zenão foram menos fiéis aos princípios filosóficos de seu mestre...”” (PRADEAU, p. 81).
Dentre os famosos estoicos, conhecemos aquele que viveram já a partir do primeiro século da era cristã em diante. Sêneca, o escravo Epíteto e o imperador Marco Aurélio são os mais celebrados. Entretanto, segundo Brad Inwood, “os mais célebres discípulos de Zenão foram incontestavelmente Cleanto de Assos (331/330-225/220 a. C.) e Ariston de Quios [nasceu por volta de 300 e não se sabe quando morreu] [...], dois rivais cujas interpretações da herança zenoniana diferiam sensivelmente” (PRADEAU, p.). Percebam, pois, que, já no início a própria ortodoxia zenonita (ou seja, estoica) havia uma disputa. Aliás, a disputa era justamente em definir a ortodoxia.
Quanto a Ariston, Inwood diz: “Como Herillus de Cartago, Ariston pensava que o coração das doutrinas da escola era a ética num sentido muito preciso, quer dizer, uma ética socrática de inspiração cínica” (PRADEAU, p.). Portanto, nesse sentido, o estoicismo não teria necessariamente uma cosmovisão, ou, pelo menos, a teria toda voltada para a ética.
Cleanto, por sua vez, “ao contrário, afirmava que a escola devia considerar a física, a teologia, mas também a epistemologia e a lógica como objetos de estudo da mesma importância da ética. Ele se esforçou para encontrar uma combinação satisfatória entre estes domínios de estudos que iria caracterizar a escola” (PRADEAU, p.) Ou seja, Cleanto seguia a proposta do mestre, como vimos, e buscou formar uma cosmovisão coerente dentro do estoicismo.
Bom, como Cleanto seguiu a proposta do mestre, estava ali a ortodoxia. Sendo assim “não é, portanto, de admirar que Ariston se tenha distanciado da escola estoica para libertar seu próprio ensino. Seus discípulos eram chamados de ‘aristonianos’, mas eles não foram muitos, e a influência da escola de Ariston não durou” (PRADEAU, p.) Entretanto, como veremos adiante, a escola acabou adotando uma postura mais aristoniana no futuro mais distante.
Inwood ainda nos diz que “Cleanto permaneceu à cabeça da escola quando da morte de Zenão em 262/261 a. C., durante trinta e dois anos até sua própria morte em 230/299 a. C.” (PRADEAU, p.). Portanto, a fidelidade aos princípios do mestre garantiu a Cleanto a sequência na administração da casa.
Mas o desenvolvimento da filosofia estoica não estava em Cleanto, mas em seu discípulo Crisipo: “Seu discípulo Crisipo de Soles (281/278-208/205 a. C.) assumiu as teses de Cleanto ([...] a propósito da tradição estoica e as desenvolveu”. Inwood amplia muito nosso conhecimento sobre Crisipo: “Depois de um período em que ele ministrou seu ensino de maneira autônoma, Crisipo reacendeu a chama da Escola. Ele se preocupava em permanecer fora da política, diferentemente dos primeiros estoicos; ele era, por outro lado, vigorosamente contrário à intepretação aristoniana do estoicismo. [...] Ele é conhecido por ter defendido com entusiasmo a concepção zenonista da epistemologia estoica (que mistura uma crença na possibilidade de um saber inabalável com posições materialistas e empiristas) contra a Academia”(PRADEAU, p. 81-82). Portanto, foi não apenas um sistematizador, mas também um apologista do estoicismo.
É aqui, em Crisipo, que temos a resolução máxima do estoicismo. Mais adiante Inwood irá dizer: “Ainda que as doutrinas da escola tenham evoluído consideravelmente durante os quinhentos anos de sua existência, a versão mais acabada e mais influente do estoicismo permanece seguramente aquela de Crisipo e dos seus discípulos” (PRADEAU, p.). Por isso, não achamos interessante prosseguir na exposição que Inwood faz sobre o resto da história. Podemos resumir que no século II a. C. houve uma perversão da doutrina. Mas, foi nesse período, como vimos, que os romanos começam a intervir na Grécia. Isso acabou minando o poder das escolas vigentes, as famosas escolas de Aristóteles e Platão, bem como o Jardim de Epicuro. Nesse tempo, o estoicismo já havia avançado por outros territórios e em breve alcançou o espírito romano. Vincent Cheung nos dá uma pista interessante para explicar como o epicurismo impregnou-se nos romanos: Posidônio, um filósofo estoico que viveu de 130 a 50 a. C., foi o instrutor de Cícero, e este último foi um dos grandes divulgadores da filosofia no império romano (CHEUNG, p. 23). Nos primeiros séculos da era cristã já não temos escolas oficiais, mas há mestres e escritores estoicos. A escola acaba ganhando uma cadeira no império, ao lado das cadeiras do epicurismo, aristotelismo e platonismo. Um imperador chega a ser estoico. Mesmo assim, a escola acaba morrendo no império romano cristão. Arrematemos a seção com Chalita: “O estoicismo teve uma longa duração, estendendo-se até o final do século II da era cristã, quando alguns pensadores romanos ainda cultivavam as ideias dos filósofos estóicos, modificadas conforme os interesses individuais, segundo os diferentes momentos históricos e lugares” (CHALITA, p. 77).

A FILOSOFIA DOS ESTOICOS

Com Inwood seguiremos o desenvolvimento máximo da cosmovisão estoica, encontrado em Crisipo e seus seguidores. Talvez, por isso, encontremos divergências para com outros autores (embora, claro, possa ser apenas incompletude de Inwood). Seja como for, buscaremos formular uma exposição completa da filosofia estoica em forma de cosmovisão.
Antes, é interessante notar as informações que Inwood nos concede sobre a teorização filosófica conforme era concebida por Zenão e demais estoicos. A filosofia era exposta dividida em física (metafísica e teologia inclusas), ética e lógica. “Para Zenão, trata-se na realidade de uma divisão do discurso sobre a filosofia mais do que de uma divisão da própria filosofia; outros filósofos (como Sêneca na Carta 89) afirmam com insistência que a filosofia em seu conjunto é uma, e que a divisão em partes é certamente útil, mas totalmente artificial. Podem existir divergências entre os estoicos quanto à ordem de apreensão destas partes. De acordo com eles, esta ordem é em certa medida o efeito de uma convenção; testemunha disso é a necessidade entrecruzar os temas próprios a cada uma das partes do ensino” (PRADEAU, p.). Na verdade, a sabedoria é uma coisa só, uma única disciplina. Sêneca reconhece que a divisão é útil, didática. Zenão entende que se trata de um discurso e não da própria filosofia. Tanto é que não podemos desassociá-las completamente ao discursar sobre cada uma particularmente.
Entretanto, mesmo concordando na utilidade do discurso filosófico fracionado em disciplinas diferentes, não entram em acordo para com a relação entre as partes da filosofia. Propuseram famosas analogias, como registra Inwood, para elucidar a questão: Sabe-se que os estoicos empregavam muitas analogias para descrever a relação das partes da filosofia entre si e em relação com o todo, e a maioria delas implica uma concepção holista e orgânica da filosofia. A única imagem que tende a fazer de uma parte da filosofia um elemento autônomo é aquela que compara a lógica com um tapume que cerca um campo cultivado, no qual a ética designa os frutos que aí crescem, a física as árvores que os carrega ou a terra que produz a colheita. A partir desta imagem, a física aparece em relação íntima e direta com a ética da qual ela recolhe os benefícios (a física é então a árvore que carrega as olivas, ou, antes, a terra onde cresce o trigo), enquanto que a lógica é o instrumento de proteção que parece separado desses benefícios. [...] Mas, em outras analogias, a lógica em seu papel de proteção é muito mais solidária com aquilo que ela defende: ela é a casca do ovo, ou, antes, os ossos e os tendões do corpo animal” (PRADEAU, p. 83-84).

FÍSICA, METAFÍSICA E TEOLOGIA

Comecemos a metafísica dos estoicos por Inwood: “A física estoica é profundamente influenciada pelo Timeu de Platão e pela cosmologia de Aristóteles. O cosmos é uno, é um todo finito, composto pelos quatro elementos fundamentais da matéria (a terra, o ar, o fogo e a água) e seus compostos (os estoicos consideram que existem dois princípios nos elementos: um princípio ativo divino e um princípio inerte, sem qualidade e passivo; mas estes dois fatores ou princípios não são jamais separados um do outro nos corpos)” (PRADEAU, p.). O que temos aqui são conceitos da matéria semelhantes aos de, primeiramente, Empédocles e seus quatro elementos; e, em seguida, o conceito próximo (senão idêntico) aos de Aristóteles e Platão, que concebiam a matéria em si algo próximo ao ápeiron de Anaximandro, ou seja, algo sem qualidades, apenas um ente com propriedade de ser. Esse, aliás, seria o ‘princípio passivo’, inerte, a qual Inwood se refere. Mas esse não é todo o quadro. Precisamos prosseguir para compreender como se dá o segundo princípio.
Quando foi dito que os estoicos foram influenciados por Platão, temos uma informação nova sobre o ateniense: “A exemplo de Platão os estoicos pensam que o cosmos é um ser vivo. No entanto, sua alma é incorpórea: ela é feita de pneuma, uma espécie de sopro composto de ar e de fogo (embora sua natureza seja controvertida no seio da escola)” (PRADEAU, p.). Bom, o que Inwood se esquece é de mencionar que os estoicos eram, aqui, influenciados por Heráclito. Sproul admite isso: “Deram ênfase à ideia de Heráclito do fogo seminal que determina todas as coisas, o logos spermatikos” (SPROUL, p. 54). Temos, pois, a alma do cosmos, algo imaterial, a quem nos referiremos por ‘pneuma’. É algo incorpóreo mas, ao mesmo tempo, lembra o fogo. Um ‘fogo espiritual’, talvez. Talvez aqui tenhamos a ideia do fogo, embora não o admitindo como algo deste mundo, algo material, e novamente voltamos a uma espécie de ápeiron (embora, agora, perfeitamente qualificado; estamos nos referindo apenas à ideia de que é algo que não é deste mundo). Difícil determinar. Inwood mesmo diz que é uma ideia controvertida.
Como já meio que antecipamos, esse pneuma ganha ares pessoais, talvez mero antropomorfismo de alguns, e é responsável pela ‘criação’ do mundo. Percebam a doutrina, segundo expõe Inwood: “os estoicos sustentam a ideia de que há ciclos de criação e de e destruição do universo, sob influência de uma entidade ativa divina, Zeus, responsável tanto pelo fim eventual do cosmos numa conflagração ígnea quanto por sua regeneração a partir do fogo, passando por uma zona úmida, até o reaparecimento dos quatro elementos conhecidos do cosmos” (PRADEAU, p. 84-85). Portanto, não só criação, como deterioração do mundo. Esse logos, portanto, é que determina todas as coisas, como apontou Sproul. A própria matéria emana dele, e para ele volta. Nesse sentido, temos mesmo uma espécie de panteísmo nos estoicos. Vincent Cheung, também admitindo a influência de Heráclito, arremata o conceito: “Provavelmente inspirado por Heráclito [...], os estóicos ensinavam que no princípio não havia nada, mas apenas o fogo eterno, do qual emergiram os elementos que construíram o universo. O mundo seria eventualmente consumido numa conflagração universal e retornaria para o fogo, e assim o ciclo da história iria se repetir eternamente” (CHEUNG, p. 23).
O logos é também o responsável pelo desenvolvimento de todas as coisas. Ele é como um princípio teleológico do mundo. Vincent Cheung, observando a ‘história’ da doutrina do logos, claro, chega aos estoicos, e então diz: “o estoicismo considera o logos um princípio da razão divina, e o logos spermatikoi governa, na forma de sementes e lampejos o fogo divino, o desenvolvimento de cada objeto na natureza” (CHEUNG, 2009, p. 63). Em termos semelhantes, deixando claro a responsabilidade pelo movimento do mundo material, temos Chalita: “O universo, por sua vez, teria um elemento que o organizaria racionalmente: o fogo; esse elemento faria aparecer todas as características da matéria nas diferentes coisas, como a luz solar faz uma semente germinar e crescer” (CHALITA, p. 77). O conceito de semente elucida o que Inwood, logo no começo desta seção, quis dizer por ‘princípio ativo’ nos elementos. É como se o logos ‘semeasse’ as qualidades no princípio passivo, conduzindo-o e levando-o às mudanças diversas, e a adquirir os mais diferenciados predicados.
Cheung admite a teleologia implicada pelo conceito do logos “O fogo divino que permeia todo o mundo é um fogo racional, e o logos ou Razão que determina o curso do universo. Algumas pessoas têm a concepção errônea de que pelo fato do Estoicismo afirmar que todos os eventos são determinados pelo Destino, ele nega, portanto, que haja um propósito na história. Contudo, visto que o logos deles é um fogo inteligente, o Estoicismo pode de fato afirmar uma visão teleológica do universo” (CHEUNG, p. 23). Portanto, não se tratava meramente de uma ‘força’, mas de uma força inteligente, (tal como em Anaxágoras), quiçá pessoal*1.
Aqui, antes de continuarmos na exposição da cosmovisão estoica, temos que lidar com um impasse. Ou os diversos intérpretes estão em franca contradição, ou não compreenderam bem o estoicismo, ou ainda não se expressaram muito bem. Pode ser, ainda, que os autores estejam se referindo às concepções de Zenão ou Cleanto, ao passo que estejamos analisando o desenvolvimento da doutrina em Crisipo*2. Percebam, primeiro, um tipo de informação. Sproul se refere, metafisicamente aos estoicos, da seguinte maneira: “Os estóicos desenvolveram uma cosmologia de materialismo” (SPROUL, p. 54). Portanto, para ele, os estóicos são materialistas, tal como Leucipo, Demócrito, Epicuro e Lucrécio. Junto a R. C. Sproul, temos Jostein Gaarder no seu clássico ‘O Mundo de Sofia’ (já antecipando nossa discussão antropológica): “... os estóicos também negavam a oposição entre ‘espírito’ e ‘matéria’. Para eles existia apenas uma natureza. Chamamos tal concepção de monismo” (GAARDER, p. 148). Portanto, evidentemente, os estoicos seriam materialistas e monistas. É Inwood que completa o ‘quadro de acusação’: “O cosmos é de fato um todo físico, onde não há nem vazio no interior (embora o cosmos seja cercado por um espaço vazio infinito), nem entidades causais eficientes incorpóreas” (PRADEAU, p.). Portanto, se não há causas eficientes corpóreas, temos um determinismo materialista à lá Demócrito.
No entanto, é o próprio Inwood quem vai nos falar de realidades incorpóreas: “Existem também os incorpóreos no sistema estoico: o vazio, o espaço, o tempo, os ‘exprimíveis’ (lekta), o conteúdo intelectual do discurso e do pensamento*3” (PRADEAU, p. 85). Não bastassem essas, ele mesmo admite a existência do ‘pneuma’, o deus estoico, que cria e destrói a todas as coisas. Não vimos que ele denomina esse pneuma como uma entidade incorpórea? E não foi estudado que é ele a causa eficiente, material, formal e final de todas as coisas? Talvez Inwood tenha intentado dizer que não há espíritos e deuses permeando o cosmos. Mas, transcendendo-o, semelhante à concepção metafísica de Espinoza, temos uma alma, incorpórea, determinadora de todas as coisas, e de onde todas as coisas surge. O conceito pode ser resumido em Charles Hodge: “O universo, portanto [...], do qual Deus é a alma, e a Natureza, o corpo, é vivo, imortal, racional e perfeito. [...] Deus, como o princípio controlador e operativo em todas as coisas, age segundo leis necessárias, totalmente racionais” (HODGE, p. 184).
Aqui nos deparamos com uma possível controvérsia. Vincent Cheung parece negar a transcendência do logos estoico: Os estóicos eram panteístas, de forma que o logos deles não é transcendente, mas imanente” (CHEUNG, p. 23-24). Entretanto, segundo o que temos visto, parece-nos possível conceber algum grau de transcendência tal como uma alma transcende o corpo, entretanto está intimamente associado a ele. A propósito, essa analogia foi, de fato, usada por Sêneca: “Sêneca explica Zeus ou a existência de Deus ao mesmo tempo que o mundo e a alma do mundo, apontando para o homem que se sente como um ser singular e contudo também como constituído de duas substâncias, corpo e alma” (DOLLINGER apud HODGE, p. 241). A analogia só falha pelo fato de que parece ser do próprio ser do logos que se faz o mundo, e onde ele termina. É como se esse ‘fogo’ misterioso transformasse-se na matéria e, em seguida (?), em tudo mais*4.
Podemos, então, falar de antropologia filosófica. Inwood faz uma intrigante afirmação: “Mas a alma, o espírito e deus são entidades causais que interagem com outros corpos; por conseguinte, eles são de natureza material, quer dizer, feitos do pneuma anteriormente mencionado” (PRADEAU, p. 85). Podemos entender ‘deus’ como o pneuma, e ‘espírito’ como parte da ‘alma’, mas não há qualquer indício de distinção, e, a única saída e recorrer ao conceito platônico que vê ‘espírito’ como uma parte da alma; uma alternativa é ver espírito como ‘pneuma’ – afinal, em grego, é esse o termo para espírito – e ‘deus’ como uma entidade diferente, mas isso iria complicar todo o sistema. Buscando conciliar as coisas, versemos sobre ‘deus’ como o pneuma. Sendo assim, claro, há uma relação causal para com o cosmos. Mas, e a alma humana? É certo que há uma interação entre o homem e a natureza. Então começamos a compreender a antropologia dos zenonitas. Inwood lança mais uma sentença nada clara (aliás, o que é comum no livro de Pradeau): “A alma humana perfeita é indiscernível, tanto física quanto moralmente, do ser divino” (PRADEAU, p. 85). É certo que tudo que existe provém do pneuma, e, talvez, nesse sentido, podemos falar de ‘monismo’ dentro de uma concepção panteísta. Mas, claro, há distinções de propriedades entre ‘alma’ e ‘matéria’. Para começar, a mais essencial de todas: a alma é ‘imaterial’. Ao menos a alma do mundo é. E é bem necessário que a alma dos homens o seja, afinal, nela reside os ‘exprimíveis’ e os conteúdos mentais. Retomando os dizeres de Cheung, o logos divino espalha suas sementes no cosmos, e isso não só originando e dirigindo o ‘movimento’ (no sentido antigo da expressão), mas criando pequenas ‘ramificações’, que são as almas humanas: “Esse logos universal produz sementes ou ‘faíscas’, os logoi spermatikoi, em todas as coisas, de modo que cada pessoa tem em si uma faísca do divino” (SPROUL, p. 54). Com essa concepção em mente podemos entender o conceito ‘cosmopolita’ dos estoicos, conforme aponta Gaarder: “Assim como Heráclito, os estóicos diziam que todas as pessoas eram parte de uma mesma razão universal, ou ‘logos’. Eles consideravam cada pessoa um mundo em miniatura, um ‘microcosmo’, que era reflexo do ‘macrocosmo’” (GAARDER, p. 148). Os homens são ‘micro-pneumas’, como ‘chuviscos ígneos’, faíscas do logos criador de todas as coisas (o que muitos, dentro de um contexto religioso politeísta, referiam-se a Zeus). Isso acabou “levando Epitecto a afirmar que existe uma ‘centelha de divindade’ dentro de todo homem” (CHEUNG, p. 24).
E, não podemos refletir adequadamente sobre antropologia filosófica sem lidar com a questão da imortalidade da alma. Quanto a isso, Vincent Cheung nota que “a visão estoica da história parece excluir a imortalidade individual, ainda que pareça haver visões levemente diferentes neste assunto” (CHEUNG, p. 23). Hodge confirma: “A alma dos homens é da mesma natureza que a alma do mundo, mas como existência individual, deixando de existir quando a vida do corpo cessa” (HODGE, p. 184). De uma forma ou de outra tudo que surge no fogo, termina no fogo, inclusive as almas humanas. Então Cheung prossegue, citando Marvin R. Vincent: “Eles negavam a imortalidade universal e perpétua da alma; alguns supondo que ela era englobada na deidade; outros, que ela sobreviveria apenas até a conflagração final; outros, que a imortalidade era restrita apenas aos sábios e bons” (VINCENT apud CHEUNG, p. 23).
Antes de terminar a metafísica, ainda nos resta refletir sobre o determinismo que o sistema implica. Inwood se expressa da seguinte forma: “No sistema estoico, todo acontecimento é causado e determinado por uma cadeia racional e providencial de causas e efeitos, que se reproduz naturalmente a cada ciclo de criação e destruição do cosmos. Somente os corpos podem ser causas ou efeitos” (PRADEAU, p. 85). Temos, aqui, pois, uma história cíclica. Um conceito provavelmente oriundo das filosofias orientais*5. Gaarder se expressa de maneira mais informal, ou menos técnica: “... os estóicos diziam que todos os processos naturais – por exemplo, a enfermidade e a morte – eram regidos pelas constantes leis da natureza. [...] Nada acontece por acaso, diziam os estóicos. Tudo acontece porque tem de acontecer e de nada adianta alguém lamentar a sorte quando o destino bate à sua porta” (GAARDER, p. 149). Claro, tal conceito irá suscitar críticas de viés ético-existencial que serão usadas pelos adversários do sistema, como Inwood nos conta: “O determinismo causal que caracteriza este sistema físico suscita críticas de seus adversários, mas Crisipo e outros estoicos tiveram sucesso em mostrar que a forma do determinismo que eles defendiam não excluía a responsabilidade moral e a possibilidade de cada um se tornar melhor, como sua própria teoria ética pressupõe” (PRADEAU, p. 85). Com isso, abriremos nossa discussão sobre a ética epicurista. Antes, uma breve exposição epistemológica.

EPISTEMOLOGIA

Os estoicos, tal como Heráclito, os materialistas e Aristóteles, eram empiristas também. Gabriel Chalita apresenta de forma sucinta o conceito: “O conhecimento seria adquirido sempre por meio dos cinco sentidos, que captariam as características dos objetos e dos seres. [...] as ideias e os conceitos sobre qualquer coisa são apenas combinações mentais das informações que o ser humano adquire sensorialmente” (CHALITA, p. 77), ao que Inwood expõe em termos mais formais: “Na medida em que os estoicos acreditam na confiabilidade das percepções sensíveis, e que o conteúdo da percepção pode constituir um fundamento sólido para a formação de conceitos e de inferências, é crucial mostrar a seus adversários (em geral, aos acadêmicos, durante o período cético da escola) que existe pelo menos um tipo de percepção sensível confiável” (PRADEAU, p.). É interessante destacarmos, aqui, um conceito que, posteriormente seria defendido por filósofos como David Hume, e que foi ignorado por Epicuro quando concebeu a existência dos deuses: os conceitos que formulamos são abstrações mentais, junções do que formamos em nossa mente, ou como coloca Chalita, combinações mentais das informações sensíveis. Não são, portanto, necessariamente, realidades concretas (ou quem sabe o sejam, se admitirmos um viés platônico do estoicismo).
Brad Inwood amplia nossa compreensão da epistemologia estoica: “Houve um debate em torno do que se chama de representação compreensível [...] no início do século III a. C., que se prologou até Cícero [..] sem que se possa, porém, reconhecer claramente um vencedor. Os estoicos permaneceram convencidos de que existem percepções sensíveis confiáveis, que contêm seu próprio critério de verdade e que representam as coisas tais como elas são na realidade. [...] A objeção cética consiste sumariamente em afirmar que se pode sempre encontrar e imaginar uma representação errada, indiscernível, de uma representação confiável, de maneira que sua verdade não pode jamais ser asseverada com certeza” (PRADEAU, p. 88). Diferindo-se de Demócrito, e agregados a Epicuro, entendiam que o que nos era informado pelos sentidos de fato, correspondia ao que era a realidade. O que temos na mente é, pois, uma representação do real. Mas os céticos trabalhavam com a questão de que o que é representado em nossa alma ser algo falso. No final das contas, essa discussão não pode ser resolvida apenas na lógica, mas tão somente no campo da disputa das cosmovisões. Tudo dependerá dos pressupostos assumidos e da coerência e abrangência das cosmovisões a que cada conceito é derivado.
Inwood também nos conta que “os estoicos se servem, além disso, da lógica como de um instrumento de defesa nas discussões” (PRADEAU, p.) e, por isso mesmo, ampliaram muito os estudos da lógica, particularmente no que diz respeito à análise de paradoxos e ambiguidades*6. E, por lógica temos todo o conceito do Trivium já organizado pois, como Inwood informa, “ela inclui tanto a retórica quanto a dialética”*7 (PRADEAU, p. 87).

ÉTICA-EXISTENCIAL

Uma ética adequada, coerente, deve estar calcada nos fundamentos da cosmovisão a que pertence. Nisso o estoicismo dá de dez a zero no epicurismo. Da metafísica e antropologia filosófica implicamos a ética. Lembremo-nos que a “razão do homem é vista como sendo do mesmo tipo do fogo eterno, o qual permeia a ordem do mundo” (BAHNSEN apud CHEUNG, p. 24). Portanto, o logos, aquele fogo que permeia o mundo, dirigindo seus passos, é o que habita em todos os homens. A razão humana é a razão do mundo. O curso da natureza, o destino, pois, é o curso da razão. Compreendido isso podemos entender esta citação de
Inwood: “No domínio da ética, os estoicos sustentam uma forma de eudemonismo: o objetivo da vida humana é a realização do fim (telos) que lhe é próprio [Aristóteles]. Este fim consiste em viver em conformidade com a natureza (a nossa natureza e a natureza do cosmos; compreende-se então a importância da ideia segundo a qual nossa natureza é idêntica à potência divina que estrutura o mundo natural)” (PRADEAU, p.). Portanto, a virtude consiste em olhar para a razão que está em nós e no mundo a fim de lhe seguir. É adequar-se, pois, ao logos, tal como existe em nós e fora de nós. Então tomemos Cheung para ampliar a discussão: “Visto que o homem está sujeito às forças imanentes do mundo, ele deve viver em harmonia com a natureza. Visto que a Razão permeia e governa o mundo, viver em harmonia com a natureza é viver em conformidade com a racionalidade, e a racionalidade é superior às emoções. Tudo que está fora da razão deveria ser visto com indiferença, seja o prazer, o sofrimento, ou mesmo a morte” (CHEUNG, p. 24). Nesse sentido parece que os estoicos consideram as paixões, o prazer e a dor, como efeitos não racionais na alma, que devem ser abandonados, desprezados e erradicados, afinal, “o mais elevado fim da vida é a virtude; e a virtude é viver segundo a razão” (HODGE, p. 184).
Isso nos leva ao conceito de apatia. Como já falamos repetidamente, há variantes na doutrina estoica, de modo que teremos dois tipos, pelo menos, de concepção estoica aqui. Uma, de viés mais cínico, é a que Chalita apresenta: “A felicidade, para os estóicos, era um estado de tranquilidade plena, que só podia ser atingido por meio da prática virtuosa. Por sua vez, a virtude era definida como uma negação constante, que consistia na indiferença dirigida a todas as experiências da vida; o estado que seria atingido com esta prática é descrito pelo termo grego apatheia. Em outras palavras, o homem não deveria se preocupar com questões relacionadas com a morte, não deveria se esforçar pelo enriquecimento material, nem deveria sofrer com o cansaço. O único valor, segundo os estóicos, é a sabedoria, que é alcançada com o cultivo do pensamento, que por sua vez é a única atividade em que vale a pena se empenhar. Em resumo, trata-se de uma indiferença direcionada a toda forma de prazer e de sofrimento. Tanto as experiências dolorosas quanto as prazerosas são irracionais, conforme a doutrina do estoicismo, porque são paixões, ou seja, vícios e, portanto, mal supremo” (CHALITA, p. 76). Aqui, evidentemente, temos um ‘q’ aristotélico quando se fala que a atividade máxima seria o cultivo da sabedoria que, para os estoicos, tal como Platão e Aristóteles tomam como sinônimo para sua própria filosofia, corresponde ao estoicismo. Prazer e dor, seguindo a interpretação também de Cheung, perturbam a alma. Não se deve ser afetado de forma alguma. Como Chalita completa: “Ser indiferente, ou seja, não sofrer nem agir por nenhuma paixão, era para os estóicos ser virtuoso. Dessa forma, o máximo da virtude seria alcançado quando o homem ficasse alheio a tudo, vivendo como numa fortaleza interior, tendo como seu tesouro o pensamento e a sabedoria filosófica” (CHALITA, p. 77). Essa perspectiva torna o perseguidor da tranquilidade um sujeito inerte que, de preferência, vive em reclusão e deixa as coisas rolarem. Entretanto, Inwood nos fala de uma corrente dominante (talvez a de Crisipo e seus discípulos), que concebem a coisa em termos um pouco diferentes: “Na corrente dominante do estoicismo, o ideal de vida é muito mais naturalista e é orientado também tanto para ação quanto para a contemplação. Todos os estoicos estão, no entanto, de acordo em afirmar que a virtude humana designa o estado ideal da alma racional unificada; eles subscrevem nesse sentido o ideal socrático do Protágoras ou do Fédon, mais do que o modelo platônico ou aristotélico da harmonização das ‘partes’ da alma entre si, cada uma tendo uma função própria e se comportando de maneira quase autônoma” (PRADEAU, p. 85-86). Ou seja, descartando a ideia de que a há repartições na alma, como o fizeram Platão e Aristóteles, fica definido que há somente um aspecto do homem que precisa ser realizado, levado a cabo: a razão. Mas o que diferencia essa interpretação é que se segue: “Viver de acordo com a natureza significa, por conseguinte, ter uma vida ativa, ter um ideal moral de autogoverno e se esforçar para alcança-lo” (PRADEAU, p. 86). Diferente da inércia cínica proposta na outra, aqui a conformidade com a natureza inclui atividade, embora atividade racional, consciente e em interação com o curso das coisas. Seja como for, todos concordam que é preciso uma vida de reflexão filosófica, contemplação.
Essa vida contemplativa, filosófica tem insinuações que não exploramos muito bem: “A vida completamente conforme à razão é a única vida virtuosa e feliz, e o melhor guia para levar esta vida perfeita e divina, de acordo com Crisipo, é a compreensão dos acontecimentos que ocorrem na natureza” (PRADEAU, p.). Portanto, a questão não é apenas lidar com o prazer e a dor, e sim lidar com o destino. Viver de acordo com a razão, com o logos, e viver de acordo com o curso racional e fixo que o logos mantém o mundo. “Os estoicos da corrente aristoniana parecem mais socráticos do que platônicos nesse ponto; para praticar a virtude, afirmam eles, o homem não tem necessidade de estabelecer uma teoria física elaborada” (PRADEAU, p. ). Eles entendem que não é, pois, preciso conceitos metafísicos elaborados, bastando seguir a vida em aceitação ao que ela traz. Já outros entendiam que um conhecimento da física e, quiçá, da metafísica, poderiam orientar o homem: “A vontade cínica de seguir a natureza mais do que as convenções se torna, nos estoicos eminentes, o esforço de viver em conformidade com esta ordem própria do cosmos regido pela providência” (PRADEAU, p.). Em todo caso, é impossível não pensarmos em Antístenes aqui.

Deixemos Sproul, resumidamente, resumir o que iremos expor de forma mais ampliada (percebam que ele fala a partir da perspectiva de que o estoicismo era materialista): “A preocupação central do estoicismo foi a filosofia moral. A virtude é encontrada na reação da pessoa ao determinismo materialista. O ser humano não pode determinar seu próprio destino. Ele não tem controle sobre o que lhe acontece. Sua liberdade é restrita à sua reação ou atitude interior ao que lhe sobrevém. O objetivo da vida virtuosa é a ataraxia*8 filosófica” (SPROUL, p. 54). Esse conceito de aceitar seu destino com apatia é muito bem trabalhado por Jostein Gaarder: “... os estóicos diziam que todos os processos naturais – por exemplo, a enfermidade e a morte – eram regidos pelas constantes leis da natureza. Por esta razão, o homem deveria aprender a aceitar o seu destino. Nada acontece por acaso, diziam os estóicos. Tudo acontece porque tem de acontecer e de nada adianta alguém lamentar a sorte quando o destino bate à sua porta. Também as coisa felizes da vida devem ser aceitas pelo homem com grande tranquilidade. Vemos aqui a proximidade dos estóicos com os cínicos, que viam com total indiferença todos esses eventos exteriores. Ainda hoje falamos de uma ‘tranquilidade estóica’ quando queremos nos referir a uma pessoa que não se deixa inflamar por seus sentimentos” (GAARDER, p. 149).
Portanto, a pessoa sábia é aquela que, refletindo, alcança a ciência do curso das coisas, mas também se autoconvence de que não há nada, em muitos casos, a fazer senão aceitar. Por isso Sproul diz: “Os estóicos buscavam a ataraxia pela prática da ‘imperturbabilidade’, a aceitação do destino pessoal com serenidade e coragem. [...] O segredo de uma vida boa e feliz é saber o que está sob o nosso controle e o que não está” (SPROUL, p. 54). A morte e a guerra eram, naqueles tempos, inevitáveis. Por isso, “diante da guerra e da morte inevitável, não há sabedoria a não ser na ataraxia – ‘encarar todas as coisas com serenidade de espírito’” (DURANT, p. 92). Isso mesmo, lutar contra a morte é uma perda de tempo, e só redundará em frustração. Ela, pois, se levanta como o símbolo máximo do que não pode ser evitado e deve ser encarado com naturalidade. Por isso, Durant completa: “... os estóicos achavam que a indiferença filosófica era a única atitude razoável para com a vida na qual a luta pela existência está tão injustamente condenada a uma derrota inevitável. Se a vitória for inteiramente impossível, deve ser desdenhada. O segredo da paz não é tornar nossas realizações iguais aos nossos desejos, mas baixar nossos desejos ao nível de nossas realizações” (DURANT, p. 90).
Máximas muito interessantes, então, surgem. Epiteto, o escravo, diz: “Não posso escapar à morte, mas será que não posso escapar ao medo dela?” (EPICTETO apud SPROUL, p. 54). Durant também se arrisca num aforisma: “Não procure fazer com que as coisas aconteçam segundo a sua preferência, mas prefira que elas aconteçam como têm que acontecer, assim viveras com prosperidade” (DURANT, p. 92). Essa é, pois, a “filosofia da ‘cabeça erguida’, pela qual nada jamais nos abala ou nos faz perder as esperanças” (SPROUL, p. 54). Por isso, “devemos demonstrar autocontrole, autossuficiência e indiferença emocional em meio às situações da vida. Mas se a vida se torna dura demais, o Estoicismo permite o suicídio” (CHEUNG, p. 24). Não estamos certos se essa concessão é, de fato, ortodoxa, visto que o suicídio só pode resultar de uma alma que está completamente afetada pela situação, de modo que está longe da ataraxia. Mas vale a observação de Cheung de que a doutrina implica em autodomínio, autocontrole e autossuficiência.
Fica, clara, pois, a diferença entre estoicos e epicureus, mas Gaarder é pertinente para assinalar e ressaltar a diferença: “O objetivo dos cínicos e dos estóicos era suportar todas as formas de dor, e isto é algo completamente diferente de fazer todo o esforço para tirar do caminho a dor.” (GAARDER, p. 149). Em certo sentido, o estoico também foge da dor, mas não por afastar-se do que traz dor, mas pela apatia.
Subsiste a questão de como educar a alma e alcançar a ataraxia (semelhante a um nirvana). Vamos com Inwood: “Os meios da educação moral que os estoicos conservam parecem estar inspirados em Aristóteles, tornamo-nos corajosos ao realizar ações corajosas, ainda que, à primeira vista, a maioria das ações corajosas não atinja o ideal procurado” (PRADEAU, p. 86). Assim, tal como Aristóteles ensinava que a virtude só pode ser alcançada pela imitação dela mesma, ou seja, na prática da virtude, o estoico dirá que a tranquilidade só pode ser alcançada na busca pela tranquilidade. Esse conceito é importante para livrá-los de uma arapuca que se monta à frente diante do sistema, e que Inwood mesmo nos informa: “Encontramos o mesmo absolutismo paradoxal na psicologia moral dos estoicos: sendo dado que a alma humana é uma (não existe partes irracionais para controlar, trata-se somente de perfazer o exercício de sua razão), a única maneira de preservar sua liberdade contra as perturbações devastadoras e dolorosas que se chamam paixões (pathé) consiste em erradicar pura e simplesmente qualquer erro e qualquer forma de fraqueza moral. Somente o ‘sábio’ pode atingir esse estado; infelizmente os modelos a imitar são, em todo caso, muito pouco numerosos, e Sócrates é a única figura de sábio que não se presta à controvérsia” (PRADEAU, p. 86). Traduzamos o problema da seguinte maneira: a alma só se liberta das perturbações, da dor, quando não é mais afetada pelas paixões. Mas somente a alma já perfeita, da qual não temos muitos exemplos (se é que temos), pode não ser afetada pelas paixões, de modo que todos, no final das contas, estão enredados na situação de afetação e distantes da perfeição. Se você precisa ser perfeito para não ser afetado, como poderá, a partir da situação de suscetível à afetação, tornar-se perfeito se, para isso, é preciso não ser afetado? Podemos colocar ainda de outra forma. A alma só é livre se não houver erros morais, se for apática. Mas só alcança a apatia quem tiver alcançado a perfeição. Portanto, a alma não poderia se erradicar. Como dissemos, o segredo está na busca pela apatia. Através da reflexão a alma irá se tornando cada vez menos afetada até atingir a apatia total, o nirvana estoico. Quanto mais próximo da apatia, mais feliz se é.
Gaarder nos conta que a ideia de que há uma ‘partícula divina’ em todo homem gera a ideia de direito universal e natural: “Isto levou à ideia de um direito universalmente válido, o assim chamado direito natural. O direito natural baseia-se na razão atemporal do homem e do universo e, por isso mesmo, não se modifica no tempo e no espaço. Nesse sentido, os estóicos colocam-se ao lado de Sócrates contra os sofistas. O direito natural vale para todas as pessoas, inclusive para os escravos. Para os estóicos, as legislações dos diferentes Estados não passavam de imitações imperfeitas de um direito cujas bases estavam na própria natureza” (GAARDER, p. 148). Essa é uma implicação muito interessante da doutrina, e não a vimos explorada por outros autores, exceto, talvez, por Franklin Ferreira e Alan Myat: “para os filósofos estóicos, este mesmo princípio cósmico [o logos] permeia todas as coisas e provê o padrão de conduta para o homem racional” (FERREIRA; MYATT, p. 509). Novamente, é possível que seja uma modificação de algum estoico em particular. Seja como for, é perfeitamente adequada. O homem tem valor, naturalmente, por ser, em certo sentido, divino, e, a partir da razão, i. é., da concepção humana do que é bom, deve-se legislar. Lado outro, tudo seria divino num sistema panteísta, talvez, dependendo da interpretação do estoicismo, não tendo uma ‘alma’ semelhante ao logos, mas, certamente, ‘parte’ dele.
Gabriel Chalita e Jostein Gaarder também falam da implicação sociológica do conceito antropológico-filosófico. “Na política, finalmente, há uma única ideia estoica relevante. Eles afirmavam que o homem não pertenceria a um país ou a uma cidade, mas sim que ele seria cidadão do mundo. Essa ideia foi denominada de cosmopolitismo. Assim, afirmou Musônio Rufo, no século I: ‘O mundo é a pátria comum de todos os homens’” (CHALITA, p. 77). Chalita diz que essa seria a única contribuição relevante que fizeram à filosofia política. Gaarder nota que é uma ideia perfeitamente pertinente ao momento imperialista que viviam esses pensadores: “Os estóicos eram marcadamente ‘cosmopolitas’, o que significava que eram filhos legítimos de usa época. Sendo cosmopolitas, eram mais abertos para a cultura contemporânea do que os ‘filósofos de barril’ (os cínicos). Os estóicos chamavam a atenção para a convivência entre as pessoas, interessavam-se por política, e alguns deles chegaram até mesmo a ser estadistas atuantes, como o imperador romano Marco Aurélio (121-180), por exemplo” (GAARDER, p. 148-149).

CRÍTICA

Como estamos falando de Grécia (mesmo de Roma), estamos falando de confronto aberto e sério de ideias. O estoicismo, pois, seria criticado, e teria de se defender. Principalmente por se tornar uma cosmovisão tão importante e, justamente, por se tornar uma cosmovisão. Olharemos, pois, para algumas objeções históricas a esta visão de mundo e para algumas outras questões que ela suscitou. Outras questões, como o problema epistemológico, já foram abordadas no decorrer do texto. É importante irmos vendo o que já temos e um dos grandes problemas do estoicismo é justamente seu empirismo, sem, ao que nos parece, considerar a possibilidade de haver ideias inatas*9.
Uma primeira crítica óbvia é a dos que, contra o determinismo, acreditam que a inércia é a resposta. É como se, pelo fato de as coisas estarem determinadas, fossemos embargados de fazer algo. Observem o relato de Durant: “Quando Zenon, que não acreditava na escravidão, e estava batendo num escravo seu por causa de algum delito, o escravo alegou como atenuante que, segundo a filosofia de seu senhor, ele tinha sido destinado, por toda a eternidade, a cometer aquela falta; ao que Zenon replicou com a calma de um sábio, que, de acordo com a mesma filosofia, ele, Zenon, tinha sido destinado a bater nele por causa dela” (DURANT, p. 90). Essa é, pois, a perspectiva prática ante o determinismo. De fato, não há coação. Mesmo assim, a relação de causa e efeito é preservada de modo que a concepção sobre o mundo ainda é racional.
Uma das críticas mais mordazes que vimos é do próprio Epicuro, segundo nos informa Durant: “Seu ponto de partida é uma convicção de que a apatia é impossível, e que o prazer – embora não necessariamente o prazer sensual – é a única finalidade concebível, e perfeitamente legítima, da vida e da atividade [...] até mesmo um estoico sente um prazer sutil na renúncia” (DURANT, p. 90-91). A essa objeção achamos impossível o estoico fugir. Ela falha, justamente, em não lidar com um fenômeno óbvio: temos, seja lá o que for, ‘receptores’ de paixão, e isso é muito natural no homem. A alma humana não consiste simplesmente em razão. Negar as afeições é negar a própria natureza humana, o que é impossível. Mesmo que tenhamos o maior estoico como exemplar, saberemos que ele sente-se bem, sente prazer, na sua apatia plena.
Agora, finalmente, temos que lidar com uma questão muito corrente, a saber, a de creditar ao cristianismo algum plágio ao estoicismo. Durant, que faz essas estúpidas comparações, é quem nos servirá de base para a crítica: “Em trechos assim, sentimos a proximidade do cristianismo e seus intrépidos mártires; de fato, não eram a ética cristã da abnegação, o ideal político cristão de uma fraternidade quase comunista do homem, e a escatologia cristã da conflagração final do mundo inteiro, fragmentos da doutrina estoica flutuando na corrente do pensamento?” (DURANT, p. 92).
Primeiramente, ofereçamos uma resposta à questão da abnegação, da autossuficiência que os cristãos martirizados demonstraram, à sua calma estoica ante a morte. Observemos que, embora todos não sejam destinados ao martírio, só consegue ser martirizado os que eram extremamente piedosos e virtuosos, de modo que seu caráter torna-se padrão para o cristianismo. Bom, em primeiro lugar, longe de estarem apáticos, eles aceitavam com alegria seu destino, cientes de que estariam com Cristo. Além disso, consideravam que Deus é quem guiava seus destinos, e, assim, aquela situação estava sob controle.
Seguimos com Cheung. Observando que o estoico poderia ver uma semelhança de seu ensino em Filipenses 4:12, o filósofo observa que a grande diferença está no verso 13: “Tudo posso naquele que me fortalece” e expõe: “O Cristianismo na verdade ensina a autossuficiência espiritual, emocional e social, sem rejeitar a legitimidade da comunidade; contudo, esta autossuficiência é somente relativa a outros seres humanos, mas não para com Deus, de modo que estamos sempre em necessidade dele [...] Os recursos internos do cristão provêm de Deus, que é distinto do próprio cristão, enquanto que os estóicos buscavam alcançar a autossuficiência absoluta, e não a autossuficiência relativa do cristão. Nós vencemos o mundo e cumprimos nosso propósito não por nós mesmos, mas pelo poder de Deus, o qual opera poderosamente em nós (Colossenses 1:29)” (CHEUNG, p. 25). Tal conceito, pois, faz toda a diferença. Nossa suficiência está em Cristo, e tão somente nele!
Claro, há muitas outras dissemelhanças e Cheung menciona mais algumas: “Este Deus não é um fogo racional imanente panteísta que é parte do universo, mas uma mente transcendente racional que é distinta e o criador do universo. [...] Ele é imanente no sentido de que escolhe exercitar seu poder nos assuntos humanos e naturais, mas ele não é parte desta criação, nem está limitado a ela. E ao contrário da filosofia estoica, não importa quão difícil nossa vida se torne, não há justificativa para cometer o suicídio” (CHEUNG, p. 25).
Durant também fala da escatologia cristã, particularmente a doutrina do inferno ou do fim do mundo ter vindo do estoicismo. Bom, é bem possível que a doutrina do purgatório seja influenciada por esta concepção pagã. “Também para os estóicos gregos, o fogo era um princípio elementar e a alma do mundo, e assim eles ensinaram uma renovação do mundo por meio do fogo” (HODGE, p. 1585). Charles Hodge nos conta da doutrina do purgatório (e não a do inferno) surgindo a partir de ideias gregas do fogo como purificador de todas as coisas. Orígenes parece ser o primeiro a defender essa ideia, mas logo Agostinho iria lhe dar formato doutrinário e Gregório Magno consolidaria tal conceito como doutrina oficial da Igreja (HODGE, p. 1586-1587). Mas as semelhanças com o estoicismo terminam aí.
Como já foi observado, a história, para os estoicos, é cíclica. Além disso, não há existência do homem após a morte, senão a mesma existência no término do ciclo e início do mesmo ciclo. A única diferença entre os ciclos é como os encaramos, como lidamos com o que se nos procede. A alma, não material, parece fugir da causalidade inalienável. Mas isso é tudo. Entretanto, isso faz a visão estoica ser completamente distinta da visão bíblica, conforme salienta Hoekema: “A visão da história dos gregos é incompatível com a visão cristã, que vê história como um cumprimento do propósito de Deus, e como movendo-se em direção a um alvo. Para os escritores da Bíblia, história não é uma série de ciclos repetitivos sem sentido, mas um veículo através do qual Deus realiza seus propósitos para o homem e o universo. A ideia de que a história está se movendo para alvos estabelecidos por Deus, e que o futuro é para ser visto como o cumprimento de promessas feitas no passado, é a contribuição singular dos profetas de Israel” (HOEKEMA, p. 31). O fogo que irá consumir o mundo irá, de fato, renová-lo, mas será de uma vez por todas e para sempre. Não há ciclo, mas linearidade.
E há total relevância do que se faz enquanto no presente, determinando o que se passará no futuro. Isso, aliás, alavanca uma pesada crítica que John Marsh faz, de cunho existencialista, a esta cosmovisão: “Além disso, se tudo que pode acontecer é a constante repetição de um ciclo de eventos, não há possibilidade de sentido no ciclo em si. Ele não alcança nada em si próprio e também não pode contribuir para nada fora de si. Os eventos da história são destituídos de significado” (MARSH apud HOEKEMA, p. 30). Afinal, por que a história é cíclica? Por que esse deus estoico não cessa de destruir e reconstruir o mundo, da mesma forma? Qual o objetivo disso tudo? Sem resposta a tal fenômeno, a cosmovisão peca por falta de abrangência.

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Aliás, temos de concebê-la pessoal, afinal, por que é que o mundo surge e é destruído? Seria uma escolha do pneuma?
*2 Nossa suspeita é ampliada por conta de uma afirmação de Durant que, embora mencione algo que só iremos estudar noutra seção, vale a pena ser citada: “Zenon ergueu sua filosofia da apatheia sobre um determinismo que um estóico posterior, Crisipo, achou difícil distinguir do fatalismo oriental” (DURANT, p. 90). Isso, levado em conta que Crisipo desenvolveu a cosmovisão estoica e a defendeu de seus opositores, nos leva a pensar em reformulações posteriores a Zenão.
Hodge afirma categoricamente que o monismo era adotado inicialmente, mas fora abandonado nas formulações posteriores, não dizendo, no entanto, exatamente quando a metafísica foi alterada: “É sobejamente claro que os estóicos posteriores, especialmente entre os latinos, como Sêneca e Marcos Aurélio, consideravam o princípio geral que animava a matéria como tendo todos os atributos da mente” (HODGE, p. 248).
*3 o ‘conteúdo do pensamento’ são as ideias. Será que eles concebiam-nas existindo à parte das coisas, tal como Platão?
*4 É claro, também podemos conceber a matéria eterna sendo apenas fecundada pelo logos de modo a ganhar propriedades. Mas esse não parece ser exatamente o conteúdo dos estóicos, embora não nos espantássemos com alguém alegando tal interpretação. E não é que Charles Hodge assim expõe o estoicismo? Vejam, ele expõe o estoicismo, primeiro, considerando-o, além de panteísta, hilozoísta (i. é., acredita numa ‘força inteligente, viva’ dentro da matéria), de modo que o logos está em todas as coisas: “Há dois princípios constituintes do universo, um ativo e outro passivo. O princípio passivo é a matéria sem forma e sem propriedades, ou seja, inerte. O princípio ativo é a mente, que habita na matéria seu poder formativo organizador, ou seja, Deus. [...] O universo deve, portanto, ser considerado sobre três aspectos: (a) Como o poder formador de tudo [...] (b) o mundo, como formado por esse princípio vivo, interior [...] (c) a identidade dos dois, quando formam um todo” (HODGE, p. 184). Bem adiante, temos uma clara admissão, de um autor citado por Hodge, que pensa-se na matéria eterna e o logos servindo como causa eficiente, formal e final, mas não material: “A deidade em ação, se podemos assim falar, é um certo éter ou fogo ativo, possuindo inteligência. Este deu forma, no princípio, ao caos original, e, formando uma parte essencial do universo, sustenta sua ordem” (BRYANT apud HODGE, p. 1585).
*5 Cf. o capítulo 7 do brilhante livro de James W. Sire denominado ‘O Universo ao Lado’. Hodge diz claramente que o conceito é hindu: “Os estóicos adotaram a doutrina hindu da dissolução de todas as coisas e do redesenvolvimento de Deus no mundo, depois de longos períodos sucessivos” (HODGE, p. 241).
*6 Infelizmente não é possível colocar as contribuições dos estoicos aqui sem causar enfado. Esta é uma exposição dos conceitos essenciais dos estoicos e basta-nos saber que eles apreciava a disciplina de forma geral.
*7 Quanto à semântica, também lograram-nos elucubrações. Entretanto, ficaram um tanto quanto controversas na exposição de Inwood e, por isso, resolvemos exilá-las do corpo do texto, trazendo-as para o rodapé: “Os estoicos desenvolvem uma teoria semântica complexa, fundada no conceito de exprimível (lekton), e são os primeiros a se interessar pelo conteúdo dos enunciados e dos pensamentos enquanto tais (contrariamente a Aristóteles e a Platão, para quem o sentido da proposição reside na predicação de uma propriedade)” (PRADEAU, p. 87). Os estoicos, segundo Inwood, falam do ‘exprimível’, o que parece se referir ao conceito concebível e que pode ser comunicado. Eles ocuparam-se de estudar os conceitos enquanto conceitos apenas, ao passo que Aristóteles e Platão, diz o autor, falavam do sentido de algo enquanto predicação de uma propriedade. Portanto, um conceito teria sentido enquanto fosse as qualidades de algo sendo comunicado em uma proposição. Isso ficou estranho pois nos parece que Platão concebia os conceitos como conceitos mesmo, como ideias.
Sendo assim, Inwood parece falar de conceitos existindo por si, sem conexão com o mundo para terem significado de forma que não precisem ser predicados para ganharem-no. Mas isso demanda uma metafísica plantonista. Lado outro, eram empiristas, e os conceitos seriam abstrações e junções do percebido.
*8 “A palavra grega pode ser traduzida mais ou menos como ‘paz interior’ ou ‘tranquilidade da alma’” (SPROUL, p. 54).
*9 Lembremo-nos, novamente, que tal ponto foi devidamente trabalhado no artigo sobre epistemologia em Platão.

REFERÊNCIAS

CHALITA, Gabriel. Vivendo  Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.

CHEUNG, Vincent. Confrontações Pressuposicionalistas. Tradução de Felipe Sabido de Araújo Neto e Marcelo Herberts. Brasília: Monergismo, 2006, 83 páginas (e-book).

CHEUNG, Vincent. Questões Últimas. Tradução de Marcelo Herberts. Brasília: Monergismo, 2009. 143 p.

DURANT, Will. A História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 4ª ed., 2001, 406p.

FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, 1220p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.

HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo:Editora Hagnos, 2001. 1777p.

HOEKEMA, Anthony A. A Bíblia e o Futuro. Tradução de Karl H. Kepler. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1989, 391 p. (e-book).

INWOOD, Brad. O estoicismo _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução e Apêndice de Maria Lacerda de Moura; Introdução de Alceu Amoroso Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, 88p.

SPROUL, R. C. Filosofia para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208 p.

sábado, 10 de maio de 2014

Metafísica, Antropologia e Epistemologia em Platão

A imagem é proposital. Esperamos que a compreendam até o final do artigo.

O MUNDO DAS IDÉIAS

A questão do mundo das ideias parece-nos a principal ideia de Platão [para conhecer a vida desse importante filósofo, clique aqui], e é de cunho metafísico e epistemológico. Entretanto, a excepcional obra de Durant lhe confere pouco mais que uma página (cf. p. 44-45). Durant está mais preocupado com a filosofia política e moral, embora, noutras oportunidades, expondo outros filósofos, explore bem a questão metafísica. Seja como for, é um dos grandes pecados da obra, do qual ele não se justifica no começo dela, seção reservada para isso. Lado outro, Sproul não menciona outra coisa senão a doutrina do mundo das ideias e alguns implicações antropológicas. Gabriel Chalita afirma categoricamente “Para compreender a doutrina platônica, o primeiro conceito a considerar é o de mundo das ideias” (CHALITA, p. 53). Gaarder também dá proeminência a essa doutrina, reservando um espaço muito menor para as reflexões políticas. Ronald Nash, sem dúvida, é o mais completo, dedicando páginas e mais páginas à questão e declara, sem titubear: “O cerne da filosofia de Platão está na sua teoria das ideias ou formas” (NASH, p. 67). Luc Brisson é bem equilibrado em sua exposição, mas começa dissertando sobre as formas. Em nossas exposições buscamos complementar cada obra desses autores com pontos que não abordaram. Aqui, dificilmente alcançaremos a qualidade da exposição de Ronald Nash, que será nosso principal guia. Mas tentaremos completar as lacunas que Nash deixou com o que os outros observam. Sigamos, pois, o exemplo destes que exploram o mundo das ideias, e não daquele que ignora o assunto.

ANAXIMANDRO, HERÁCLITO, PARMÊNIDES, PITÁGORAS, EMPÉDOCLES, DEMÓCRITO E ANAXÁGORAS.

Platão é aquele corajoso homem que retoma, em Atenas, a discussão metafísica. Talvez o fato de ele ter saído de lá o fez entrar em contato com outros povos que refletiam sobre a natureza da realidade, e ele tenha percebido que, antes de mais nada, precisamos saber o que é o mundo (incluindo o homem), e como conhecer, para, então, falar sobre como guiar nossas vidas individual e socialmente.
Nos seus escritos, como observam praticamente todos os autores, ficará clara a influência da tradição anterior. Ao passo que Durant aprecia isso, Maria Lacerda de Moura, seguindo a Antístenes, o critica dizendo que ele “se perdeu em um emaranhado de cultura, de doutrinas diversas que ele quis harmonizar em um todo platônico” (PLATÃO, p. 72), já valendo-se do termo ‘platônico’ no sentido ‘utópico’ que veio adquirir. Bom, se ele conseguiu ou não, vamos ver adiante. O fato é que todos reconhecem que ele apresenta elementos de concórdia com Heráclito, Parmênides, Pitágoras, Demócrito e, nossa sugestão quando ele se refere à matéria, com Anaximandro.
Em Platão ficará, como nunca, clara a relação entre epistemologia, metafísica e antropologia filosófica. Sendo assim, os assuntos se entrelaçarão de modo que não será possível mencionar um sem mencionar o outro. Mesmo assim, tentaremos fazer uma exposição particularizada de cada assunto.

METAFÍSICA

Podemos pegar Platão justamente onde o empasse Heráclito-Parmênides nos deixou. Sendo assim, Gaarder se expressa: “Platão interessava-se pela relação entre aquilo que, de um lado, é eterno e imutável, e aquilo que, de outro, ‘flui’. (Exatamente como os pré-socráticos, portanto!)” (GAARDER, p. 97).
Gaarder ainda é feliz em nos guiar até a raiz da discussão onde Platão segue Empédocles e Demócrito (bem como Anaxágoras, que Gaarder se esquece de mencionar): “Empédocles e Demócrito já tinham nos chamado a atenção para o fato de que, apesar de todos os fenômenos da natureza ‘fluírem’, havia ‘algo que nunca se modificava (as ‘quatro raízes’ ou os ‘átomos’). Platão também se dedicou a este problema, mas de uma forma completamente diferente. Platão achava que tudo o que podemos tocar e sentir na natureza ‘flui’. Não existe, portanto, um elemento básico que não desintegre. Absolutamente tudo o que pertence ao ‘mundo dos sentidos’ é feito de um material sujeito à corrosão do tempo. Ao mesmo tempo, tudo é formado a partir de uma forma eterna e imutável” (GAARDER, p. 98).
A questão das coisas ‘fluírem’, claro, veio de Heráclito. Chalita é perspicaz em observar essa relação de forma explícita: “De maneira semelhante a Heráclito, Platão afirmava que o mundo sensível é um eterno fluxo eterno. Mais exatamente, a doutrina platônica considerava que as coisas materiais são meras aparências [...]. Para alcançar a verdade, o homem deveria dirigir sua inteligência para as ideias, para além do mundo sensível” (CHALITA, p. 53).
Osborne observa que Parmênides levantou uma questão que instigou os filósofos posteriores, inclusive Platão: “Os argumentos contra a mudança e a multiplicidade que encontramos no ‘Caminho da verdade’ tiveram, com efeito, uma influência considerável, em Platão e para além dele, encorajando a distinção entre a ‘realidade’ metafísica e o mundo físico das ‘aparências” (PRADEAU, p. 24-25).
Mas a citação de Gaarder menciona o ‘mundo dos sentidos’ e ‘forma eterna’. Esses conceitos caem aqui de paraquedas. Precisamos esclarecê-los.
Nash é conciso mas brilhante para expor basicamente a essência da doutrina num único parágrafo: “Platão cria que os seres humanos participam de dois mundos diferentes. Um deles é o mundo físico que experimentamos por meio de nossos sentidos físicos. Nosso contato com o mundo inferior é efetuado através dos nossos sentidos corporais [...]. As coisas físicas que existem no mundo inferior existem no tempo e no espaço. O outro mundo do qual participamos é mais difícil de ser descrito [...]. O mundo superior é composto de essências imateriais e eternas que apreendemos por meio da nossa mente. O mundo das ideias (chamado de mundo das formas) é mais real para Platão do que o mundo físico, uma vez que as coisas particulares que existem são cópias, ou imitações, de seus arquétipos, as formas” (NASH, p. 67). Sproul, ainda mais conciso, também menciona a doutrina nos termos de Nash: “Platão imaginou dois ‘mundos’ diferentes. O mundo ou esfera da realidade principal é o mundo das ideias. Esse lugar metafísico está além ou por trás da esfera das coisas materiais. Para Platão, o mundo das ideias não apenas é real, mas também ‘mais real’ do que o mundo dos objetos físicos” (SPROUL, p. 34).
Portanto, primeiramente, temos dois mundos distintos. Um onde existem ideias, formas, e que Platão achava mais real do que o outro, que é o mundo que captamos pelos sentidos.
Quanto a esse mundo sensível não há muito o que falar. É aquilo que vemos, ouvimos, cheiramos, tocamos ou degustamos. Todos o ‘conhecemos’. Mas, e quanto ao tal mundo das ideias. Isso não parece uma ideia estranha demais? Certamente, ao ouvir isso, temos algum tipo de repulsa natural. O leitor não muito afeiçoado à filosofia deve parar agora e imaginar o porquê de os estudantes de filosofia nas universidades serem tão voltados para o consumo de drogas. Parece coisa de louco mesmo. Nash disserta um pouco sobre esse estranhamento: “Do nascimento à morte, a experiência humana é limitada às particularidades físicas. É compreensível que tais prisioneiros creiam que somente o mundo que têm experimentado as sobras) é o único mundo que existe. [...] Nada sabem sobre o mundo não físico que é bem mais real e importante do que seu mundo de sombras. Tal como os prisioneiros acorrentados na caverna, cada ser humano percebe um mundo físico que nada mais é do que uma pobre imitação de um mundo mais real. A alegoria de Platão ajuda a explicar a razão pela qual tantos seres humanos têm dificuldade em apreciar a doutrina de Platão quanto ao mundo ideal. Ela se choca com um dos paradigmas mais básicos dos seres humanos: o de que o mundo dos sentidos é o único mundo que existe. [...] Assim, continuam a viver como se o mundo real fosse apenas o que vêem, ouvem, tocam e cheiram” (NASH, p. 78-79).
A tal ‘alegoria’ mencionada será descrita abaixo, doravante, e a exploraremos. Por hora, protelemos.
O fato é que, mesmo que achem que Platão está completamente louco, deem-lhe o benefício da dúvida. Acompanhem seu raciocínio.
Retomemos o ponto interrompido. Dois mundo. Um, o ‘desconhecido’ (até esse ponto do texto) mundo das ideias. “Platão acreditava numa realidade autônoma por trás do ‘mundo dos sentidos’. A esta realidade ele deu o nome de mundo das ideias. Nele estão as ‘imagens padrão’, as imagens primordiais, eternas e imutáveis, que encontramos na natureza. Esta notável concepção é chamada por nós de a teoria das ideias de Platão” (GAARDER, p. 100). Falemos um pouco sobre ela.

O QUE É ESSE MUNDO DAS IDEIAS?

Não, não se trata aqui daquilo que chamamos de ‘campo das ideias’. É um ‘mundo’ mesmo. “Seria errôneo pensar que Platão cresse que essas formas existissem apenas na mente das pessoas. O ponto central de sua teoria é o de que as formas teriam uma existência objetiva que vai além da mente” (NASH, p. 68). Chalita é muito feliz nesse ponto: “... haveria um mundo imaterial, eterno e imutável, totalmente separado do mundo sensível [...], a que só temos acesso por meio da razão. Nesse plano de realidade estão as ideias, que não são simples cogitações presentes na mente dos homens; elas são, na verdade, realidades que existem por si mesmas, independentes do pensamento e de todas as coisas materiais” (CHALITA, p. 53).
Portanto, além do mundo material, há um outro plano, uma outra ‘dimensão’, metafísica, i. é., para além da física. Nele ‘habitam’ as ideias, formas, ou seja lá que tipo de entidades forem elas. Há entes, seres, a qual denominaremos ideias (ou derivados como ‘ideal’) ou formas, no decorrer do texto, salvo exceção facilmente perceptível. Portanto, é bom notar essa conotação especial para os termos.

E O QUE TEM A VER AS FORMAS COM O MUNDO SENSÍVEL?

Gaarder afirma: “... os pré-socráticos [...] não tinham uma explicação aceitável de como estas partículas mínimas, que um dia tinham se juntado para formar um cavalo, se juntavam novamente quatrocentos ou quinhentos anos mais tarde para formar outro cavalo [...]. O que Platão quer dizer é que os átomos de Demócrito nunca podem se juntar para formar um ‘crocofante’ ou um ‘eledilo’. E foi isto, precisamente, que colocou em marcha suas reflexões filosóficas” (GAARDER, p. 99). Justamente para explicar esse fenômeno temos a relação do mundo das ideias com o mundo sensível. E esse é pano para muita manga.

Talvez Sproul, com a concisão que lhe é peculiar, seja o mais adequado para nos explicar a ideia básica: “Ele [Platão] chamava os objetos materiais de ‘receptáculos’ – coisas que recebem ou contêm outras coisas. O objeto físico contém sua ideia ou forma. A forma é distinta do objeto. A forma causa a essência de uma coisa. Nesse sentido, o objeto material participa da sua forma ideal ou a imita. Mas não passa de uma cópia da forma ideal, além disso imperfeita” (SPROUL, p. 37). Para ilustrar, elucidar a questão, Sproul usa o exemplo de uma cadeira, ao passo que Gaarder usa de um cavalo. Vamos citar as duas para que a questão fique bem reforçada na mente dos leitores: “Quando você pensa em uma cadeira, que ideia ou conceito vem à sua mente? Uma cadeira de madeira com encosto e assento de couro? Uma cadeira de metal dobrável? [...] Esses são apenas alguns exemplos de uma grande variedade de objetos chamados ‘cadeira’. Como definiríamos as características comuns ou a ‘essência’ de uma cadeira? Podemos dizer simplesmente que cadeira é ‘um objeto em que se senta’? Isso não seria adequado. Sentamos em objetos que não chamamos de cadeiras. [...] Podemos dizer que uma cadeira tem quatro pernas, mas algumas têm três e outras têm mais, e cadeiras de balança não têm pernas. [...] Platão argumentou que no mundo ideal existe uma ideia perfeita de cadeira ou ‘cadeiridade’. Nossa alma vem do mundo ideal já com o conhecimento da cadeira ideal. [...] O corpo é a caverna em que a alma ou mente é mantida presa. As cadeiras que vemos no mundo físico são sombras ou cópias imperfeitas da cadeira real, ideal. Reconhecemos as cadeiras como tais à medida que se aproximam da ideia perfeita de ‘cadeiridade’ que é inata à nossa mente [...] nosso encontro com uma dadeira física, que é receptáculo ou cópia imperfeita da dadeira ideal ou da ideia de ‘cadeiridade’, estimula nossa memória da ideia perfeita de cadeira. Por isso a chamamos cadeira” (SPROUL, p. 38-39).
Agora Gaarder: “Por que todos os cavalos são iguais [...]? Talvez você ache que eles não são iguais. Mas existe algo que é comum a todos os cavalos; algo que garante que nós jamais teremos problemas para reconhecer um cavalo. Naturalmente, o ‘exemplar’ isolado do cavalo, este sim ‘flui’, ‘passa’. Ele envelhece e fica manco, depois adoece e morre. Mas a verdadeira ‘forma do cavalo’ é eterna e imutável” (GAARDER, p. 98-99).
Com essas duas citações acreditamos que o conceito ficou bem explorado. As realidades sensíveis são, na verdade, cópias das ideias. São feitas à imagem do que existe no mundo das ideias. Até aqui o conceito não causa problema algum. Mas a coisa começa a complicar.

A primeira dificuldade é esta, conforme expressa-se Nash: “Às vezes, Platão escreveu como se houvesse uma forma, ou arquétipo, para cada classe de objeto no mundo físico. [...] A possibilidade de um cavalo ou um cão perfeito levantou questões difíceis para Platão, e alguns intérpretes pensam que ele tenha, mais tarde em sua vida, abandonado essa posição” (NASH, p. 68). Mas Nash não nos fala sobre quais tipos de problemas Platão enfrentou com essa ideia. Outros autores parecem admiti-la sem preocupar-se com isso. Vejam Gaarder e Chalita, por exemplo: “Platão ficou admirado com a semelhança entre todos os fenômenos da natureza e chegou, portanto, à conclusão de que ‘por cima’ ou ‘por trás’ de tudo o que vemos à nossa volta há um número limitado de formas. A estas formas Platão deu o nome de ideias. Por trás de todos os cavalos, porcos e homens existe a ‘ideia cavalo’, a ‘ideia porco’ e a ‘ideia homem’” (GAARDER, p. 100). Chalita também dá a entender que todas as coisas têm uma forma no mundo das ideias: “... haveria ideias correspondentes a todos os objetos, aos seres e coisas da natureza, virtudes, entidades matemáticas (linha, círculo, ponto, etc.), formas, cores, características da matéria (dureza, mobilidade, calor, etc.), atividades, sentimentos...” (CHALITA, p. 55). No entanto, vamos frisar o que Nash disse com uma citação semelhante: “À medida que seu pensamento amadureceu, Platão parece ter prestado menos atenção às formas de objetos físicos. De fato, ele, algumas vezes, parece ter ficado constrangido por causa de sua antiga afirmação acerca do cavalo perfeito” (NASH, p. 71).
Há, pois, uma dificuldade em definir exatamente o que estaria no mundo das ideias, quais formas ali ‘habitariam’. Algo que definitivamente estaria nesse mundo seriam as virtudes e as formas matemáticas: “Algumas das formas de Platão são de fácil entendimento. Ele cria que aquilo que encontramos no mundo físico são exemplos imperfeitos de absolutos imutáveis, como bondade, justiça, verdade e beleza, existentes em um mundo não-espacial ideal: Platão cria também que o mundo das formas contivesse exemplares de entidades matemáticas e geométricas, como números e o círculo perfeito” (NASH, p. 68).
Vocês se lembram do que estava escrito na entrada da Academia? Pois então, agora as coisas começaram a se esclarecer. A matemática e a filosofia de Platão estão intimamente ligadas. “De mais permanente importância em seu sistema está a crença na existência de padrões perfeitos de verdade, beleza e bondade, assim como a existência de entidades eternas encontradas na matemática, como o número um e o círculo perfeito. Platão cria que as disciplinas matemática e geometria provavam a necessidade de uma existência de uma forma eterna, imutável” (NASH, p. 71).
Como isso acontece? Gaarder esbarra na questão: “... vocês sabem que a soma dos ângulos de um círculo é exatamente 360º. Neste caso, porém, vocês estão falando de um círculo ideal, que não existe na natureza, mas que vocês conseguem visualizar perfeitamente com os ‘olhos de dentro’” (GAARDER, p. 102), porém é Ronald Nash quem nos guiará novamente. Ele observa o argumento do círculo perfeito: “... um círculo é uma linha fechada cujos pontos são equidistantes de um dado ponto central. Segue-se daí que nenhuma figura encontrada no mundo físico é ou pode ser um círculo. Um círculo perfeito teria de ser composto por uma linha que tivesse apenas comprimento e não largura. A razão disso é que se a linha de nosso círculo tivesse qualquer largura, o segmento de linha conteria, de um lado ao outro, um número infinito de pontos. A partir de quais desses pontos mediríamos a distância até o cento do círculo?” (NASH, p. 72). E, cada ponto escolhido poderia ser fragmentado em mais infinitos pontos de modo que não pudéssemos dizer onde exatamente estaríamos delimitando um ‘locos’ na linha. Não há, neste mundo, linhas com comprimento sem largura. Mas a proposição que define um círculo é perfeitamente concebível.
Então Nash arremata a questão: “Da maneira como Platão vê isso, o verdadeiro objeto da reflexão sobre os círculos é o círculo ideal perfeito apreendido pela mente. As imitações da circularidade que encontramos neste mundo de coisa materiais particulares não podem satisfazer a definição de um círculo. A menos que haja um círculo ideal que já conheçamos de alguma forma, nosso conceito ou pensamento sobre um círculo será vazio; não terá referencial [...] [e] uma vez que ele deve existir em algum lugar e uma vez que ele existe ou no mundo inferior ou no mundo superior, o círculo perfeito tem de existir no mundo das formas” (NASH, p. 73). Desse jeito, a matemática seria um pré-requisito indispensável para provar a existência do mundo das ideias e um bom motivo para ser apreciado por Aristocles. Isso tange à questão epistemológica já, embrionariamente, abordada. Voltaremos a refletir sobre as entidades ideais quando abordarmos a dialética.

ANTROPOLOGIA E EPISTEMOLOGIA

Assim como Parmênides argumentava, aquilo que é mutável não pode ser conhecido. O eterno devir não deixa que sobre algo para o conhecimento, argumentava o eleata, como já foi visto noutra oportunidade. E Platão concordava em gênero, número e grau. Gaarder, por isso, informa: “Platão é da opinião de que nunca podemos chegar a conhecer verdadeiramente algo que se transforma. Sobre as coisas do mundo dos sentidos, coisas tangíveis, portanto, não podemos ter senão opiniões incertas. E só podemos chegar a ter um conhecimento seguro daquilo que conhecemos pela razão” (GAARDER, p. 101) e Nash termina: “A fim de que os seres humanos obtenham genuíno conhecimento (em oposição a alguns outros estados epistemológicos, como uma crença ou uma opinião), o objeto desse conhecimento deve ser imutável [...] Mas Platão cria que imutabilidade é uma propriedade exclusiva das formas. Todas as coisas particulares que existem no mundo físico sofrem mudança. Uma vez que nossos corpos fornecem apenas consciência das coisas particulares que existem no mundo físico, segue-se, para Platão, que nossos sentidos jamais podem nos dar conhecimento [...]. Em razão da análise de Platão do significado do conhecimento, experiências sensoriais falham no teste. Somente a razão pode dar conhecimento” (NASH, p. 74-75).
Já que só pode ser objeto de verdadeiro conhecimento aquilo que é imutável, Platão atribui imutabilidade às formas, inclusive predicando-as com a eternidade: “Formas jamais sofrem mudanças [...]. As formas são também eternas. Elas existiam antes de o mundo físico vir à existência. Continuarão a existir até mesmo se todas as coisas do mundo físico, ou mundo inferior, vierem a deixar de existir” (NASH, p. 73).
Mas como é que conhecemos as formas?
Na República, Platão desenvolve um quadro apresentando quatro modos de conhecimento correspondente a graus distintos, proporcionais, de realidade. Ou seja, os graus mais elevados de conhecimento correspondem a objetos mais nobres, com ‘existência mais real’.
“Platão distingue quatro níveis de consciência ou cognição [...] Para Platão, conhecimento é uma apreensão racional de formas imutáveis, enquanto opinião é uma consciência sensível de mudanças particulares. Os objetos da opinião são as coisas particulares que existem no mundo físico; os objetos próprios do conhecimento são as formas eternas e imutáveis que existem no mundo ideal de Platão. Com respeito aos meios de apreensão, o conhecimento usa a razão, enquanto a opinião utiliza a experiência sensorial” (NASH, p. 75).
Aqui não podemos nos esquecer dos termos conforme Parmênides, novamente. Para Parmênides, o que é ‘conhecido’ por meio dos sentidos não passa de ‘opinião’. Platão, embora de forma modificada, concorda. O verdadeiro conhecimento é o racional.
Podemos dividir esses quatro níveis, ou modos, em dois grupos, um que diz respeito ao conhecimento racional, e outro que diz respeito ao conhecimento empírico. Cada grupo, pois, fica com dois modos de conhecimento.

Quanto ao conhecimento inferior, empírico, temos um modo mais elevado que o outro. O modo mais elevado, pois, de opinião é o da crença, onde empregamos os sentidos para formar convicções muito seguras do que estamos percebendo. É o uso normal das faculdades sensíveis do homem. Mas existe, ainda, cognições sobre imagens das coisas sensíveis, como um reflexo, uma foto, ou algo assim. Considerando que as coisas sensíveis são imagens das formas, nesse mais raso nível de cognição temos uma imagem de uma imagem! Esse é o nível da conjectura. Nash torna a coisa mais ‘profunda’: “Certamente Platão estava pensando em algo mais profundo do que isso. Quando refletimos sobre nossa experiência no mundo, podemos reconhecer que algumas experiências são mais confiáveis e fidedignas que outras. Nossos sentidos geralmente nos enganam; as coisas não são sempre como aparentemente se vê. Talvez fosse isso que Platão estivesse tentando mostrar em sua distinção entre crença e conjectura. Algumas vezes, nossas percepções sensoriais parecem tão confiáveis que temos boa base para uma crença. Outras vezes, elas tornam o exercício de qualquer julgamento arriscado, deixando-nos com uma conjectura” (NASH, p. 76).

No ‘andar’ de cima temos o grupo da cognição racional, também com seus dois modos. O modo mais raso é denominado por Nash de ‘Entendimento’. Nash diz: “Ele [Platão] diz que o entendimento, diferente da dialética, faz uso de imagens e hipóteses. Suas referências às imagens podem sugerir que ele tivesse em mente coisas como círculos e quadrados. Ele também relaciona entendimento a conclusões derivadas de hipóteses que possam apontar para a geometria e possíveis raciocínios científicos. As hipóteses de Platão não são suposições de cientistas, mas verdades auto-evidentes ou axiomas” (NASH, p. 76). Brisson também nos ajuda muito aqui: “O domínio do pensamento discursivo (dianoia) equivale ao domínio da dedução considerada como um sistema formal axiomatizado. A partir de proposições consideradas como válidas a priori, procura-se deduzir, aplicando as regras da inferência, pouco numerosas e admitidas por todos, as proposições verdadeiras chamadas ‘teoremas’” (PRADEAU, p. 38).
Platão está falando do discurso racional onde se faz deduções a partir de axiomas e identificamos teoremas. Talvez Euclides, mais que qualquer outro, tenha sido o grande mestre nesta área, ou seja, o grande entendedor*1. Eis, pois, onde mais uma citação que encontramos em um dos livros, agora, fará todo o sentido. É de Gaarder. Ele observa outra razão para Platão apreciar a matemática, além daquela que já notamos, onde a matemática provaria a necessidade da existência do mundo das ideias: “Platão interessou-se muito por matemática, exatamente por que os dados matemáticos nunca se alteram. Por isso podemos chegar a um conhecimento seguro no que diz respeito à matemática” (GAARDER, p. 102). O que se conhece no mundo do entendimento é de nível superior ao conhecimento empírico, fenomenal. As realidades matemáticas são imutáveis, portanto, possíveis de se conhecer. Mas elas não são o mais alto nível de realidade, de conhecimento.

Por fim, temos o nível da dialética. Esse é o modo mais elevado de conhecimento. É aqui onde encontraremos (ou tentaremos encontrar) mais esclarecimentos sobre a natureza das formas. Ronald Nash nos notifica algo sobre esse nível: “Por dialética, Platão parece dizer um conhecimento puro das formas, o conhecimento mais elevado à disposição dos humanos. Enquanto o entendimento é conhecimento por inferência, raciocinando da hipótese para a conclusão, a dialética é intuitiva, isto é, conhecimento imediato, não mediado por qualquer outras coisa” (NASH, p.76).
Brisson, sobre esse nível, nos diz o seguinte: “... as Formas são objetos da dialética que, a partir de processos de reunião eleva-se, primeiro, de Forma em Forma, para o Bem, depois, por intermédio do processo de divisão, desce de Forma em Forma para chegar a uma definição que permanece no domínio do inteligível. A dialética, assim compreendida, descreve, portanto, as relações que as Formas mantêm em si; ela permite de alguma maneira traçar a cartografia do domínio do inteligível. E ela suscita a evidência de que, quando a atividade intuitiva do intelecto (nous) se liga às Formas e finalmente ao Bem, ela serve de fundamento do processo dedutivo” (PRADEAU, p. 38).
Esse é um ponto delicado, e vamos tentar compreendê-lo com muito cuidado. Primeiramente, ele diz que aqui não se trata de hipóteses e deduções. Trata-se de conhecimentos intuitivos. Ao nosso entender, os dois autores estão se referindo à reminiscência, à recordação. Por isso, precisamos fazer uma digressão pela antropologia para nos voltarmos para esse ponto e terminarmos sua exploração.

A TEORIA DA REMINISCÊNCIA OU RECORDAÇÃO

O que é o homem? Essa é nossa pergunta inicial. A doutrina de Platão é muito bem sumarizada por Gabriel Chalita: “O ser humano, de acordo com Platão, é composto de corpo e alma, sendo a alma a parte mais importante e mais real do indivíduo. Ela seria imortal e eterna, existindo desde sempre no mesmo plano do mundo das ideias. Desse lugar, ela viria para se encarnar num corpo, constituindo então um homem” (CHALITA, p. 55).
Vamos por partes. Primeiramente, o dualismo metafísico de Platão estende-se à antropologia filosófica e é a fonte da explicação de como o homem conhece as formas, bem como a explicação do porquê os sentidos não serem muito confiáveis: “Para Platão, portanto, o homem também é um ser dual. Temos um corpo, que ‘flui’ e que está indissoluvelmente ligado ao mundo dos sentidos, compartilhando do mesmo destino de todas as outras coisas presentes neste mundo [...]. Todos os nossos sentidos estão ligados a este corpo e, consequentemente, não são inteiramente confiáveis. Mas também possuímos uma alma imortal, que é a morada da razão. E justamente porque a alma não é material, ela pode ter acesso ao mundo das ideias” (GAARDER, p. 103).
A alma, imaterial, poderia conhecer o imaterial também. Mas como ela o conhece? Como a alma acessa as ideias? Para Platão, a explicação está na imortalidade da alma. Com esta doutrina ele viria a resolver o problema de como a alma conheceria as formas.
Nash enuncia e explica a resolução de Platão para o problema: “Um dos problemas mais difíceis que Platão criou para si mesmo é o da explicação de como os humanos vêm a conhecer o mundo das formas [...] Quando a alma retorna à existência terrena por meio de um novo corpo [...] a alma se esquece do que havia aprendido sobre as formas durante seu estado desencarnado. Contudo, um conhecimento implícito e inconsciente do conhecimento das formas continua presente na mente e emerge ao nível da consciência quando estimulado por várias experiências corporais” (NASH, p. 87-88). Chalita consegue ser tão claro quanto: “A alma, antes de se encarnar, conhecia as ideias, pois estaria junto delas. Ao encarnar-se, entretanto, esse conhecimento se perderia numa espécie de ‘esquecimento’. Uma vez presente no homem [...] ela poderia ‘recordar-se’ pelo processo da reminiscência [...]: por exemplo, quando um homem vê um gato e aprende o que esse animal é, sua alma estaria reconhecendo a ideia de gato. Assim, todo aprendizado seria na verdade uma ‘lembrança’” (CHALITA, p. 55) e Gaarder não fica pra trás: “Platão também achava que a alma já existia antes de vir habitar nosso corpo. E ela existia no mundo das ideias. [...] Entretanto, no momento mesmo em que a alma passa a habitar o corpo humano ela se esquece das ideias perfeitas [...] [e] quando as pessoas entram em contato com as formas da natureza, aos poucos, uma vaga lembrança vai emergindo dentro de sua alma. O homem vê um cavalo, mas um cavalo imperfeito [...]. E isto é suficiente para despertar na sua alma a vaga lembrança do cavalo ideal que ela conheceu um dia no mundo das ideias” (GAARDER, p. 103).

Nesse momento, Platão aproxima-se muito da maiêutica de Sócrates e tenta explica-la. A alma, antes de vir a este mundo, esteve no mundo das ideias e lá tomou conhecimento das formas. Quando ela se encarna, esse conhecimento é esquecido. Na medida que há um contato com as cópias das formas, os objetos sensíveis, uma lembrança das formas vai surgindo. Entretanto, somente o filósofo percebe que essas lembranças correspondem à realidade do mundo real, e não a meras abstrações. Portanto, as ideias que temos são inatas. As palavras de Sproul fazem-se pertinentes: “As ideias fundamentais são inatas e não descobertas pela experiência. A melhor coisa que os sentidos podem fazer é despertar a consciência para o que ela já sabe. No pior das hipóteses, os sentidos podem iludir a mente” (SPROUL, p. 39).

Nash ainda estabelece dois modos de reconhecermos, por abstração, as formas. Aproveitando o teor epistemológico de nossa discussão, vale a pena expô-los.
O primeiro é por meio da abstração do que existe em comum num conjunto: “Alguém pode abordar a teoria das formas de Platão em termos da diferença entre um conjunto ou classe versus as coisas particulares que formam o conjunto [...] ... (a forma) é uma maneira de se referir ao conjunto de propriedades essenciais partilhadas por todos os membros específicos desse conjunto. [...] Assim, o círculo representa uma classe ou conjunto [...]. O conceito de classe existe no mundo das formas, enquanto os particulares membros das classes existem no mundo inferior das coisas particulares (mundo visível)” (NASH, p. 69-70). Assim, no conjunto ‘gatos’ abstraímos a ‘gatualidade’ pelos universais encontrados neles.
O segundo modo é a observação da linguagem: “A linguagem humana significante ocorre quando um orador ou escritor atribui um predicado a um objeto [...]. Platão explicou essa faceta da linguagem humana, dizendo que há uma vermelhidão universal (a forma da cor vermelha) que serve como padrão ou norma para todos os exemplos particulares e tons de vermelho encontrados no mundo físico” (NASH, p. 68). Aristóteles, embora com propostas metafísicas diferentes, trabalhará de modo muito adequado a questão da predicação. Deixemos, pois, para o momento adequado.

A ALMA

Pois bem, Platão propõe a reencarnação. A alma é imortal. Quando o homem morre, a alma permanece e depois vai encarnar-se noutro corpo. Assim, pelo menos, narra Platão a questão. Embora Nash nos diga que muitos estudiosos vejam a questão como um mito platônico*2, nem todos pensam assim, e, na verdade, o que vimos é que nossas fontes realmente acreditam que Platão ensinava a doutrina da reencarnação.
Podemos discursar um pouco mais sobre a alma. Brisson nota que Platão retoma toda a tradição precedente nessa discussão: “Na tradição que Platão conheceu e que remonta pelo menos até a Ilíada e a Odisséia, a questão da ‘interioridade’ humana se transforma, mas não de maneira radical. [...] a alma, que se encontra no interior do corpo segundo duas modalidades: como seu motor ou como seu hóspede provisório [...] [em Platão] estes dois modelos se encontram associados. O modelo da alma presa ao corpo que ela anima do interior se impõe em todo lugar em que se fala de ser vivo, enquanto que o modelo do hóspede temporário de um corpo aparece quando se acha evocada a reencarnação” (PRADEAU, p. 34-35).

Dizer que apenas o corpo se vai e a alma permanece é simplista perto do que realmente Platão propõe. Ele propunha três partes da alma. Cada autor coloca as três partes em seus próprios termos. Assim, temos Chalita dizendo: “Platão afirmava que a alma se divida em três partes: a racional, localizada na cabeça, a emocional, alojada no peito, e a sensual, localizada no abdômen e partes adjacentes. A racional, o guia da alma, conheceria a verdade e reuniria a inteligência, a moral e a lógica. A parte emocional conteria as emoções superiores, como a honra e o ódio à injustiça, e obedeceria fielmente a parte racional da alma. A última, pelo contrário, seria rebelde, corresponderia aos desejos inferiores, carnais e, por isso, desordenada e inquieta” (CHALITA, p. 55-56). Portanto, razão, emoção e sensualidade.
Sproul expõe a questão da seguinte forma: “A mente ou alma tem três partes, de acordo com Platão: razão, espírito e apetite. Razão diz respeito à percepção de um valor ou objetivo. Espírito é o que pressiona para a ação, sob impulso da razão. Apetite é o desejo por coisas físicas. Experimentamos conflito moral quando o espírito sofre a oposição do apetite” (SPROUL, p. 39). Sproul, pois, substitui ‘emoção’ por ‘espírito’ e ‘sensualidade’ por ‘apetite’.
Gaarder coloca-se assim: “Segundo ele, o corpo humano consistia em três partes: cabeça, peito e baixo-ventre. A cada uma dessas partes corresponde determinada característica. A razão pertence à cabeça, a vontade ao peito e o desejo ou o prazer ao baixo-ventre. Cada uma dessas características possui também um ideal ou uma virtude. A razão deve aspirar à sabedoria, a vontade deve mostrar coragem e os desejos devem ser controlados, a fim de que o homem possa exercitar a temperança. Somente quando as três partes do homem agem como um todo é que temos o indivíduo harmônico ou íntegro” (GAARDER, p. 106). Isso parece-se com a divisão da alma. É como se cada parte do corpo tivesse uma característica, uma parte da alma. Na cabeça estaria o que o que Chalita e Sproul chamaram de ‘razão’; no peito estaria a ‘emoção’ ou ‘espírito’, e Gaarder chama-a de vontade. Aqui não parece haver um paralelo perfeito, visto que ‘vontade’, ‘emoção’ e ‘espírito’ não são exatamente a mesma coisa. ‘Espírito’ pode ser sinônimo de ‘alma’, ou pode significar ‘ímpeto’, tal como quando falamos que alguém está com ‘espírito de discórdia’ ou ‘espírito de luta’, o que coadunaria (ou pelo menos se aproximaria) com o termo ‘emoção’. Por fim, no ‘baixo-ventre’ estariam os desejos, ao que Chalita chama de ‘sensualidade’ e, Sproul, de ‘apetite’.
Brisson nos explica que somente essa primeira ‘espécie’, ou ‘parte’ da alma subsiste, ou seja, é imortal em si mesma: “a primeira é imortal em si, enquanto que as duas outras não gozam de imortalidade, senão na condição de que o corpo que elas regem seja indestrutível” (PRADEAU, p. 39).
Cabe à parte racional, a parte imortal, o conhecimento das formas. As duas outras formas ‘são declaradas mortais quando se encontram associadas às funções que permitem assegurar a sobrevivência do corpo sensível, ao qual a alma está provisoriamente atrelada” (PRADEAU, p. 39). A vontade (ou emoção), pois, junto aos apetites (sensualidade) se associam para manter o homem vivo.
O ‘espírito’, ou seja, a ‘vontade’, chamada por Brisson de ‘entusiasmo’, “permite ao ser mortal se defender” (PRADEAU, p. 39). Aqui, talvez, Durant possa nos ajudar. Ele diz que ‘emoção, espírito, ambição e coragem’ são uma coisa só (DURANT, p. 39). A discussão ética retomará essa tricotomia, onde traremos mais esclarecimentos. Paremos por aqui.

A DIALÉTICA

Uma vez que compreendemos a epistemologia platônica, podemos prosseguir nossa busca pela compreensão da dialética. Pelo ato da recordação, intuitivamente, pensamos nas formas. Mas podemos estabelecer raciocínios em cima das formas, estabelecendo relações entre elas. Esta também não nos parece uma questão muito clara, portanto, iremos sugerir uma interpretação. Parece-nos que a dialética formal é aquela do tipo em que a ideia de cão, gato e outros é sintetizada na ideia de animal, que por sua vez é sintetizada na ideia de ser vivo, onde se sintetiza a ideia de vida e ser até que se encontre os predicados mais essenciais no próprio Bem, o ser, o ente, a realidade última. Ou seja, parece haver uma hierarquia ontológica nas próprias formas. Nesse sentido, a forma animal é superior à forma cão, gato e cavalo, e abrange essas. Por sua vez a forma ‘vida’ abrande a forma animal, bem como a forma ‘planta’. A forma que abrangeria todas as outras formas seria o Bem, a realidade primordial. Aqui não dá para não pensar em Plotino e no neoplatonismo. Mas ambos cairão no mesmo problema: como se dá, e por que se dá, a derivação ontológica. Mais uma vez, protelemos. No entanto, Nash, mais uma vez, mostra-se extremamente competente em Platão, e achamos que agora é hora deste trecho: “Realidade e conhecimento humano são construídos hierarquicamente. O mais alto tipo de conhecimento é o conhecimento humano do bem. Abaixo do bem, existe uma quantidade de outras coisas que os humanos deveriam se esforçar para conhecer, como verdade, beleza e justiça. Mas outros níveis de conhecimento ainda mais baixos podem ser possíveis, culminando no conhecimento obtido por meio da matemática e da geometria e, finalmente, no conhecimento humano acerca das formas que correspondem a classe de objetos físicos. As camadas mais baixas da consciência humana estão relacionadas às experiências sensoriais, que variam em confiabilidade” (NASH, p. 82).

Neste ínterim nos vêm à mente um contra-argumento contra o mundo das ideais que não podemos ignorar. É o argumento do ‘terceiro homem’, conforme o concebeu Aristóteles. Neste argumento entende-se que uma forma x deveria ter outra forma ‘y’ que abarcasse e ‘x’ e a imagem de x. Por sua vez, a forma y sofreria da mesma necessidade, ad infinitum. Voltemos ao exemplo da ‘vermelhidão’ que Nash abordou alhures. As qualidades, os predicados, são formas também. As formas, por sua vez, devem pertencer a outras formas e assim por diante. É particularmente forte esse argumento se entendermos a derivação ontológica das formas até o bem.
Brisson explica como fugir desta armadilha aristotélica: “No quadro desta relação, o inteligível faz o papel de causa e, o sensível, o papel de efeito. Por conseguinte, a relação entre o sensível e inteligível não é simétrica, pois o sensível depende do inteligível que existe em si para sua existência e para a sua constituição. Somente o reconhecimento desta assimetria indissociável de uma separação radical entre o sensível e o inteligível, permite escapar das consequências do argumento do ‘terceiro homem’, que implicava a existência de um termo que englobaria o sensível e o inteligível, e assim, ininterruptamente até o infinito” (PRADEAU, p. 34). Ou seja, as formas existem para si mesmas, e não dependem de outras coisas para terem sua existência. Assim funcionam como causa, sempre, e jamais como efeito de alguma coisa. Isso parece coadunar com a proposta, inclusive, cosmológica de Platão.
Mas isso parece contraditório, como observamos, com a derivação ontológica que estudamos alhures. Se elas dependem de si mesmo, o que Brisson quer dizer com a ascensão dialética das formas até o Bem?
Acreditamos que a solução esteja, justamente, no ‘Bem’ como parada final das derivações ontológicas. Não é um ad infinitum como postula o argumento do terceiro homem. É ad Sumo Bono. Novamente reconhecemos que estamos interpretando Platão de forma muito parecida com Plotino.
Temos que dizer, por questão de consciência, que, melhor do que Plotino, o mais completo plantonista que conhecemos na antiguidade, no sentido de ter elaborado e aparado a cosmovisão, é Agostinho.

Nesse contexto, estas duas afirmações que Sproul faz são, agora, perfeitamente compreensíveis: “Para Platão, o mundo das ideias é a esfera do verdadeiro conhecimento. O mundo dos objetos materiais é a esfera da mera opinião” (SPROUL, p. 35-36) e “Para Platão, o conhecimento que se restringe ao mundo material, na melhor das hipóteses, é mera opinião, e, na pior, ignorância” (SPROUL, p. 37). O conhecimento da realidade perfeita se dá pela intelecção. Quando mais baixo se voa, menos ciente da verdade se está e mais imperfeito, mais ‘derivado’ ou ‘copiado’ o ente é.

IDEIAS INATAS?

Um dos conceitos mais caros aos racionalistas, especialmente aos platônicos (incluindo os influenciados por Platão), é o da existência de ideias inatas. Aristóteles, que se segue a Platão, e fora um de seus melhores alunos, negará que exista conhecimentos inatos. Depois dele muitos outros o seguirão. Para David Hume, por exemplo, é um conceito indispensável. Antes dele, John Locke, famoso epistemólogo inglês, também defendia que a mente não nasce com qualquer ideia presente. Para todos esses, e muitos outros, todo conhecimento é a posteriori.
Mas eles não notaram que Platão já havia demonstrado, em ‘Parmênides’, um argumento peremptório, definitivo, que não vimos, até hoje, refutação, para provar que é preciso haver conhecimento a priori. Novamente Ronald Nash é nosso guia. A citação é longa, mas é excelente. Deixemos Nash falar: “... pessoas podem se lembrar somente de coisas que sabiam anteriormente [...] [e] alguns tipos de lembrança existem em todo ato de conhecer. Para ilustrar esse ponto, Platão usa julgamentos da forma a é igual a b. Considere um caso em que nós julgamos que dois segmentos de linha ou dois triângulos sejam iguais um ao outro. Quais as condições a serem preenchidas antes que eu saiba que a é igual a b? Temos de ter consciência perceptual dos dois segmentos de linha. Teremos visto a e depois b. Isso é óbvio. Mas Platão insiste que devemos ter conhecimento também de algo mais, o qual ele chama do próprio igual. Isto é [...] há algo mais, a saber, o padrão, a ideia ou a forma de igualdade – que deve ser conhecida antes que eu possa julgar se dois segmentos de linha são iguais em comprimento ou se dois triângulos são iguais em tamanho e forma. Isso levanta uma questão óbvia: de onde vem nossa consciência do conhecimento da forma de igualdade? [...] Segundo a posição empirista, os seres humanos primeiro percebem por meio dos sentidos, as diversas coisas que são similares de certa maneira [...]. A partir de nossa consciência perceptual dessas coisas particulares (a e b), abstraímos uma ideia da propriedade ou relação que elas têm em comum, isto é, igualdade ou similaridade. [...] Universais ou formas comi igualdade podem estar presentes na mente somente depois que exemplos particulares são apreendidos em objetos sensíveis. Somente então a mente, pela abstração ou por outros meios apreende o universal. Platão forneceu duas objeções [...]. Primeiro, Platão argumenta que é absurdo crer que alguém primeiro saiba que a é igual a b, que c é igual a d, e então, a partir desses julgamentos sobre particulares iguais, derive o conhecimento mais geral sobre o que é igualdade. Uma pessoa não poderia saber que a e b são iguais a menos que já conhecesse o padrão, o próprio igual. O conhecimento do universal é logicamente anterior ao conhecimento do particular. [...] Em sua segunda objeção, Platão argumenta que nenhuma coisa particular é suficiente para fornecer uma noção do universal. Universais sempre têm propriedades que jamais podem ser encontradas nos particulares terrenos que as exemplificam” (NASH, p. 83-85).


A ALEGORIA DA CAVERNA

Para arrematar a questão, ou torna-la mais compreensível, Platão elaborou uma ‘historinha’, conhecida como o mito ou alegoria da caverna. Praticamente todos os autores que lemos a descrevem e não conseguimos nos decidir qual seria a melhor para citar. Por isso, resolvemos expor uma versão nossa mesmo.
Platão nos pede para imaginarmos uma cena que parece uma experiência sócio-antropológica bizarra. Haveria um grupo de homens numa caverna, acorrentados, desde sempre, de modo que não pudessem virar-se, nem mesmo virar seus pescoços, e tudo que vissem fosse um ‘paredão’ diante de si. Logo atrás haveria um muro, e ainda atrás dele algumas pessoas passariam com placas em forma de silhueta de coisas, como pessoas, animais, objetos. Essas placas, por conta de uma fogueira depois delas, refletiriam sombras no paredão. Aquilo seria tudo o que aquelas pessoas acorrentadas veriam, e seria tudo que elas acreditam que existe. Podemos até imaginar aqueles que passavam com as placas imitando sons de animais e, tal como numa dublagem, os acorrentados iriam acreditar que aqueles eram os sons adequados a cada coisa que passasse. Aquelas sombras é toda a realidade que esses homens conhecem. Não poderiam dizer que um cão é diferente daquela silhueta de cão que passa à sua frente.
Mas, de alguma maneira, um homem se liberta das correntes. Ele se volta para suas costas e vê aquela cena pitoresca. Primeiramente a luz da fogueira lhe afeta os olhos, ofuscando-o. Era uma quantidade de luz incidindo sobre a retina a qual ele não estava acostumado. Aquilo dói, mas logo passa. Ele se arrasta e consegue fugir da caverna em pleno meio-dia. Os olhos são novamente atacados pela luz estonteante do sol mas, como da outra vez, dentro de algum tempo se acostuma. Agora esse ser tem a oportunidade de ver o mundo como ele realmente é. Tudo aquilo era uma maravilha. Ele via a vida, as formas verdadeiras, as cores vivas da natureza. Ao perguntar-se o que daria vida a tudo aquilo ele se depara com o sol que a tudo animava.
Depois de gozar um bocado de sua liberdade esse homem se lembra que os outros que ficaram na caverna ainda estavam sendo enganados, e privavam-se de conhecer a realidade. Ao voltar lá e começar a falar sobre o que vira é encarado com ceticismo. Chamam-no de louco ou gracejam com suas ‘teorias’. Tudo o que existe, insistem, são aquelas sombras. Como ele insiste em importuná-los, acaba sendo pego e assassinado.
Eis o mito da caverna.
Esse mito tem muitas utilidades para o projeto filosófico de Platão. Gaarder, por exemplo, observa que “Na certa Platão também estava pensando em Sócrates, que tinha sido morto pelos ‘habitantes da cavernas’ por ter colocado em dúvida as noções a que eles estavam habituados e por querer lhes mostrar o caminho do verdadeiro conhecimento. Desta forma, a alegoria da caverna é uma imagem da coragem e da responsabilidade pedagógica do filósofo” (GAARDER, p. 105). Nessa perspectiva, pois, Sócrates, e todo filósofo, é quem se liberta das opiniões, do conhecimento raso, baixo, ilusório, ou seja, da caverna, e liberta-se rumo à sabedoria, ao bem.
Nash, como tem sido costume em assuntos platônicos, é o que mais explora o assunto: “Um dos propósitos da alegoria da caverna é demonstrar que há níveis diferentes de consciência humana, ascendendo das percepções sensoriais ao conhecimento racional das formas e, finalmente, ao mais elevado conhecimento de tudo, o conhecimento do bem. Somente depois que, com grande esforço, os humanos deixam os objetos de sensação na caverna, eles podem ver os objetos do conhecimento como as formas da verdade, beleza e justiça. Com persistência, é possível que eles vejam a própria luz, isto é, o bem” (NASH, p. 78-79).
Sobre o possível paralelo entre as linhas da cognição e a alegoria da caverna, assim Nash conjectura: “A natureza árdua da subida para fora da caverna e a cegueira temporária que se segue ilustram as grandes dificuldades que acompanham a obtenção da dialética. A consciência adquirida pelo prisioneiro fora da caverna claramente representa a linha do nível superior, a dialética, apreensão das formas superiores. Parecer certo concluir que os prisioneiros e seu mundo sombreado, visível na parede da caverna, representam o âmbito da opinião. Em outras palavras, a alegoria não faz distinção entre crença e conjectura. A experiência do prisioneiro liberto que se volta e vê as estátuas que lançam as sobras é, provavelmente, uma referência ao nível mais baixo de conhecimento, isto é, entendimento. [...] Uma das razões pelas quais faz pouco sentido interpretar a visão das estátuas como crenças é a significância que Platão confere ao prisioneiro se libertando de suas cadeias. No momento em que se vê livre da percepção sensorial, a pessoa já se encontra no âmbito do conhecimento. [...] Eu argumento que aquilo que o prisioneiro vê sob a luz que entra na caverna representa a apreensão de um nível inferior ao das formas; seria então algo semelhante ao nível de entendimento” (NASH, p. 80).

Gaarder ainda menciona uma questão que será discutida na ética platônica [veja a discussão aqui], mas que podemos antecipar a título de completude: “... a maioria das pessoas está satisfeita com sua vida em meio a esses reflexos sombreados. Elas acreditam que as sombras são tudo o que existe, e por isso não as veem como sombras. Com isto, esquecem-se também da imortalidade de suas almas” (GAARDER, p. 104).

UM RESUMO

Gostamos de como Brisson começa seu artigo sobre Platão (e nós terminamos a exposição sobre o Mundo das Ideias), sintetizando seu projeto filosófico em uma dupla subversão e resumindo a exposição que fizemos: “Primeira: As coisas percebidas pelos sentidos, no meio das quais vivemos, são somente imagens, imagens de realidades inteligíveis separadas ou Formas, que são os modelos das coisas sensíveis e constituem a realidade verdadeira; diferentemente das coisas sensíveis, as Formas possuem em si seu próprio princípio de existência. Segunda subversão: O homem não se reduz a seu corpo, e sua verdadeira identidade coincide com o que designamos com o termo ‘alma’. Este último dá conta não somente no homem, mas também no universo, de todo movimento material (crescimento, locomoção etc.), ou imaterial (sentimentos, percepção sensível, conhecimento intelectual etc.)” (PRADEAU, p. 32-33).

DE VOLTA À METAFÍSICA: COSMOLOGIA

Temos que dissertar, ainda, sobre alguns assuntos metafísicos. Temos que dissertar sobre a cosmologia platônica. Chalita é, novamente, útil por sua concisão: “O universo como nós o conhecemos teria sido criado por um deus inferior, o demiurgo*3, que teria modelado o mundo a partir das ideias, usando uma matéria preexistente e disforme. No entanto, essa cópia seria imperfeita e inferior ao mundo das ideias” (CHALITA, p. 55). A ideia é, basicamente, esta. Mas podemos explorá-las, com os auxílios que nos dispomos, um pouco mais.
Primeiramente há o problema do material que o Demiurgo usou. Ele se vale da matéria. Mas, afinal de contas, o que é a matéria? Nash admite o problema: “É difícil explicar aquilo que Platão chama de matéria. Esta é um tipo de coisa básica da qual o mundo seria feito. Mas é improvável que a matéria seja qualquer coisa que já tenhamos experimentado. A matéria é desconhecível, pois não tem feições ou propriedades identificáveis. Não tem cor, tamanho ou textura” (NASH, p. 90). Pareceu-nos bem próximo ao ápeiron de Anaximandro. É algo sem qualquer predicado além da existência material. É, de fato, algo muito obscuro.

O demiurgo, pois, modela a matéria segundo as formas. Mas essa ideia também conta com a existência do espaço-tempo. Nash informa: “Se há uma criação, ela deve ter sido criada em algum lugar e em algum tempo. Platão, como muitos filósofos e cientistas, cria que o mundo teria sido criado dentre de alguma coisa. Essa coisa seria uma caixa muito grande que incluiria espaço e tempo. Conquanto as formas fossem não-espaciais e atemporais, todo objeto físico existiria em um espaço e em um tempo contínuo, ensinou Platão” (NASH, p. 90-91).
Mas é Brisson que discute esse aspecto de modo mais estridente. Duas coisas são ditas: “Se Timeu pode dizer do khorá que ‘ele participa do inteligível de uma maneira particularmente desconcertante’, isto não significa que haja uma forma inteligível do khorá, mas que este apresenta muitos aspectos que pertencem ao inteligível: ele é um princípio, ele é imutável, ele não é perceptível pelos sentidos, etc.” e “Platão distingue, portanto, não mais dois, mas três gêneros: além das formas inteligíveis e das coisas sensíveis, ele evoca a existência do khorá, em que se encontram as coisas sensíveis e a partir do qual elas são constituídas”. Temos de observar, pois, que embora o espaço-tempo exista no ‘mundo físico’, não há uma forma para esse ‘recipiente’ da matéria. Futuramente Kant irá explorar esse conceito.

Nessa cosmologia ainda é igualmente soturna a ideia da alma. Brisson, aqui, é quem elucida o problema para nós: “A alma, definida como ‘fonte e princípio do movimento de tudo que se move’, pode ser associada a um corpo que ela anima e a quem ela atribui um movimento espontâneo, estabelecendo assim uma oposição entre o vivo e o não vivo. Além disso, ela é invisível porque se situa num nível intermediário entre o sensível e o inteligível, como Platão deixa entender nas duas passagens do Timeu, no qual aparece descrita a mistura de onde todas as coisas saíram: a alma do mundo, as almas dos deuses, dos demônios, dos homens e dos animais” (PRADEAU, p. 35). Percebem? A alma não é uma forma, mas também não é algo sensível. Parece, entretanto, que a alma é derivada da matéria, ou que tem alguma forma da qual todas as demais almas surgem. Ainda parece que ela é algum elemento especial que anima a matéria, levando as coisas ao movimento. Nesse sentido, seria um quinto elemento ontológico na cosmologia platônica. Existe, pois, as formas; o mundo sensível; a matéria; o espaço-tempo; e a alma.

Sproul ainda é sagaz ao observar uma consequência importante dessa cosmologia platônica: “Esse conceito da relação entre forma e matéria, ideia e receptáculo, está no centro da noção grega da imperfeição inerente a todas as coisas materiais, o que levou inevitavelmente ao desprezo pelas coisas físicas” (SPROUL, p. 37). Gnósticos, por exemplo, valer-se-ão dessa perspectiva para alegar docetismo*4.

PROBLEMAS NA COSMOVISÃO

Várias coisas ficam sem explicação na cosmovisão de Platão. Uma delas, por exemplo, é a identificação da deidade do sistema. Observamos, brevemente, que não se disserta sobre como o Bem dá realidade derivada às demais formas.

Nash observa, também, que “é difícil produzir, dos escritos de Platão, qualquer teoria sistemática e coerente sobre Deus, embora diversas tentativas tenham sido feitas nesse sentido” (NASH, p. 96). Noutro momento Nash é mais competente para expor o assunto: “... a filosofia de Platão contém, pelo menos, dois candidatos para a deidade. Platão jamais destronou os deuses gregos do Olimpo, embora esta atitude fosse causada por sua preocupação com a opinião pública. Ainda assim, sua atitude quanto a esses deuses foi descompromissada, e parece provável que nem cresse neles. [...] Um deles é o artesão ou demiurgo de Timeu. O outro é a forma do bem que desempenha um ponto central na alegoria da caverna [...] Nenhum esforço para combinar essas duas figuras em um único ser tem sido bem-sucedido” (NASH, p. 91). Veremos, na exposição ético-política sobre Platão, que ele parece ter concebido, também, uma necessidade social para a existência da divindade.

Ainda subjazem várias questões, principalmente em questões epistêmico-antropológicas. Por que, pois, a alma se encarna? Se isso a prejudica, por que acontece? É praticamente um sadomasoquismo da alma vir a esse mundo.
Outra questão semelhante é entender porque acontece o esquecimento. Porque o corpo limita o conhecimento? Porque não existe um corpo com capacidade mental de intuição plena das formas sem precisar do processo de reminiscência?
Há ainda outra questão no mesmo teor. Como é que a alma conhece as formas no mundo das ideias? Seria uma ‘visão’ das ideias? Ou seria algum tipo de ligação ontológica?

Ronald Nash também é sagaz em observar que Platão é falacioso ao propor a imortalidade da alma. “Ainda que minha alma tenha sobrevivido a diversas ou a muitas mortes físicas no passado, isso não prova que minha alma continuará a viver da próxima vez que eu morrer. Em tais questões, desempenho passado não é garantia de um desempeno futuro” (NASH, p. 86). Tudo bem que a alma tem que ter existido no mundo das ideias para, depois, encarnar-se e, só então, garantir que conheçamo-las. Mas isso não prova que a alma é imortal. Não prova, aliás, nem que deve haver uma reencarnação. Apenas que a alma deve existir antes da encarnação. Mas a doutrina da reencarnação está ligada à ética platônica, como veremos noutra oportunidade.
Aliás, afinal de contas, o que é a alma? Já observamos que ela parece um elemento distinto de tudo o mais. Ela não é matéria e também não é forma. Não é espaço-tempo e nem pertence às coisas sensíveis. Ela tem a característica de explicar o movimento. É uma criação especial. Aparentemente, mais um elemento eterno. No final das contas, essa cosmovisão parece apenas pressupor uma série de elementos para, então, tentar explicar a realidade. No final das contas, parece nos deixar com uma série de mitos.

Isso não quer dizer que Platão seja um imbecil. Seria imbecilidade sim, da nossa parte, dizer uma coisa dessas. Sem dúvida é um dos maiores vultos da humanidade. Mas, tal como outros filósofos, parece-nos ter errado em vários pontos. Nash mesmo, que tece-lhe muitos elogios, e demonstra-se grande entendedor, conclui: “Platão não completou seu sistema, e isso significa que ele jamais resolveu um número de importantes questões que surgem nos seus escritos” (NASH, p. 96). Adler chega até a afirmar que Sócrates e Platão não criaram um sistema, mas um modo de criar um, o que, claro, parece-nos um exagero: “Aparentemente Pla~tao não criou um sistema filosófico, não criou uma doutrina – a menos que ela significasse que não há doutrina e que devemos simplesmente continuar dialogando. E fazendo perguntas, Platão e Sócrates, que o antecedeu, de fato levantaram a maior parte das questões importantes que os filósofos posteriores julgaram necessário discutir” (ADLER, p. 287).
Entretanto, Platão acertou muitas coisas e contribuiu inexoravelmente para o conhecimento filosófico. Nash termina: Platão fez, no mínimo, [...] importantes contribuições à tradição racionalista. Primeiro, ele ensinou que todo conhecimento humano contém uma inegável referência a um elemento universal que é conhecido independentemente da experiência sensorial; o termo técnico para esse tipo de conhecimento é a priori. Segundo, Platão argumenta que a razão é superior à percepção sensorial porque a sensação é impotente para fornecer o elemento universal, crucia e necessário presente no conhecimento” (NASH, p. 82-83).

No final das contas podemos sintetizar o que expusemos, a título de classificação de Platão como filósofo, nas palavras de Sproul: “Ele era um idealista por causa do significado central que atribuía às Ideias (Com ‘i’ maiúsculo). E era realista porque argumentava que as ideias não são meros construtos mentais ou nomes (nomina), mas entidades reais” (SPROUL, p. 35).
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*1 Para um conhecimento ‘apud’, cf. ‘Como Ler Livros’, p, 269-271.
*2 “Poucos acadêmicos creem que Platão tomava esse relato de modo literal. Ele é geralmente explicado como mito (isto é, uma espécie de faz-de-conta). Frequentemente, em seus escritos, a inabilidade de Platão para fornecer uma resposta satisfatória a uma questão difícil é seguida por um mito, o qual ele não insiste que seja tomado literalmente” (NASH, p. 88).
*3 “Demiurgo, do grego demiougos, significa literalmente ‘artesão, artífice’ (CHALITA, p. 55). Lembremo-nos daquela classe social de comerciantes que já vimos alhures. Platão vivia nessa sociedade, e usou uma figura comum ao povo para a instrução. É importante notar isso para mostrar que ele não falava de ‘demiurgo’ como um nome próprio, como se fosse o nome de um deus.
*4 Doutrina que estudaremos noutra oportunidade quando formos dissertar sobre Cristologia.

REFERÊNCIAS

ADLER, Mortimer J; VAN DOREN, Charles. Como Ler Livros. Tradução de Edward Horst Wolff e Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2010, 432p.

BRISSON, Luc. Platão_ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.

CHALITA, Gabriel. Vivendo Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.

DURANT, Will. A História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 4ª ed., 2001, 406p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.

NASH, Ronald H. Questões Últimas da vida: uma introdução à filosofia. Tradução de Wadislau Martins Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 448 p.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução e Apêndice de Maria Lacerda de Moura; Introdução de Alceu Amoroso Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, 88p.


SPROUL, R. C. Filosofia para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208 p.