Mostrando postagens com marcador Vida Piedosa.... Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vida Piedosa.... Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

The zuera never ends? Será?



"Há certos gracejos que teríamos vergonha de dizer, e no entanto, quando ouvimos numa cena de comédia, ou mesmo em particular, nos regozijamos e não sentimos nenhuma revolta diante de sua inconveniência. O caso da piedade repete-se aqui, pois damos soltas àquele prurido de rir que contínhamos em nós como a razão, temendo passar por chocarreiros, e não nos apercebemos de que ao fortalecê-lo assim nos deixamos arrastar frequentemente por ele no trato ordinário, até nos convertermos em farsantes" (Platão, 'República', Livro X).

Até que ponto as gracejos, o humor, as brincadeiras se justificam? É correto brincar de tudo? Caçoar de tudo? Não há limites para o humor? Não é o humorista Rafinha Bastos quem propaga que o humor não pode ser tolhido? Claro, ele diz que tudo é feito em tons de brincadeira, e que não refletem, necessariamente, uma posição em qualquer assunto quando ele chacota de algo ou alguém. É apenas viés cômico, uma percepção jocosa de um fato ou boato. O objetivo é fazer com que as pessoas riam, e, em meio às vagas procelosas da vida, tal fim torna-se quase que um bem supremo ou, pelo menos, algo inquestionável. C. S. Lewis, minha principal orientação nesse sentido*, observa que é mesmo
um ídolo para aqueles que se deparam com as amarguras da vida*. O contentamento que deveria ser buscado em Deus é buscado neste paliativo intocável. Mas, então, o que devemos pensar sobre isso?

Pois bem, minha tese básica é que há alguns elementos distintos que julgam as piadas. Um deles é o objetivo da piada em si. Outro é o seu conteúdo. E, claro, não podemos negligenciar a ocasião. O que precisa ser antecipado é que há piadas que devem ser evitadas. Há limite no humor porque é uma atividade humana escrutinável à ética. Não é um ato supra-moral.

Claro, não estou, em momento algum, defendendo que não haja brincadeiras saudáveis e piadas muito bem colocadas. Quem me conhece sabe o quão brincalhão eu sou. Por isso, o assunto é caro a mim. Por isso, tal perscrutação introspectiva é movida por grande sinceridade e confronto pessoal. Se você que lê achar que o que virá a seguir é muito pesado e tão difícil que lhe parece impraticável, saiba que estamos praticamente juntos. Entretanto, hoje é o dia em que resolvi abandonar as brincadeiras que não agradam a Deus. Uma área em que deixei-me levar após conhecer a Cristo e agora vejo-me enredado em situações que açoitam minha consciência. É dia de santificação e espero que atinja a vocês também!

Para começo de conversa, a desculpa de que a brincadeira era só brincadeira e não refletia algum ponto de vista ou posicionamento não é necessariamente verdadeira. A motivação aqui, como observada acima, é simplesmente alegrar, fazer com que as pessoas sorriam, independente do conteúdo que se emprega.
Primeiro, evidentemente, não é tudo que alegra e faz sorrir que é bom. O pecado mesmo, num primeiro momento, alegra. Não fosse assim não haveria tentação alguma! E isso é assim porque o pecado é a perversão de um prazer legítimo. O sexo fora do casamento ainda é bom porque é sexo, e não porque é fora do casamento. Mas ele mesmo fora instituído para o casamento e é ali que deve ser desfrutado.
Em segundo lugar, e o ponto culminante aqui, é que o humor é elaborado dentro de um referencial teórico. Aqui vou com um pouco de filosofia. Tal como a arte ou mesmo a literatura pura, nada que o homem produz está desassociado de seus pressupostos*. Ele elabora suas piadas em torno do que acredita. Mesmo que admitamos que uma vez ou outra ele pode ter feito uma piada que não reflete suas crenças, via de regra, ele pensará conforme suas crenças mais profundas e básicas.
É muito famosa a frase de Charles Chaplin a esse respeito: "se você estivesse levando a sério as minhas brincadeiras de dizer a verdade, você teria ouvido muitas verdades que insisto em dizer brincando". É esse o ponto! Mesmo em meio ao humor, tal como num simples romance - mesmo nos que não são caracterizados como 'romance de tese' -, defende-se uma cosmovisão. Basta olharmos para as piadas do grupo Porta dos Fundos que veremos argumentações 'dawkinetes'. E isso é muito fácil de detectar pra quem conhecer sobre algum assunto.
A essa altura, claro, alguém poderia objetar: 'Ei, mas é só piada! Não vou me deixar levar!'. Sinto informar que isso não passa de uma ingenuidade enorme. O humor, primeiro de tudo, é uma ferramenta didática excelente. O próprio lúdico, quem sabe, poderia ser encarado como um princípio para tal tese que defendo agora. O certo é que a atração natural pelo gracejo nos atrai a atenção para o que é dito. Chaplin esperava transmitir alguma ideia com suas piadas. E mesmo que os humoristas, conscientemente, não percebam, vendem suas visões de mundo ao recitarem seus shows.
Uma forma inquestionável de observar isso é que esses que defendem o humor acima de tudo não percebem que defendem uma ética com tal proposta. Nela está inclusa, por exemplo, que não há nada tão sagrado que não possa ser omitida de uma elaboração proposicional jocosa. Se disserem que não estão vendendo ideia alguma com suas piadas, são mais inocentes - intelectualmente, e não moralmente, falando - do que poderíamos supor. Mas prefiro imaginar que seja estupidez mesmo. A alternativa seria que são deliberadamente cretinos e maldosos.
A piada é tão didática que muitos se valem dela como recurso erístico, i. é., como estratégia de debate. Ela é extremamente persuasiva e é muito difícil alguém não versado em retórica perceber o que foi feito. Basta que alguém saiba reformular qualquer posição com xisto e dará aquela impressão de que, de repente, aquela ideia não é tão atrativa assim. O ateu Christopher Hitchens era um mestre nisso. Mesmo que seus argumentos não fossem tão substanciosos e suas críticas não fossem nada avassaladoras, sua retórica era incrível e isso era muito atrativo aos ouvintes. Mas para um indivíduo treinado nas artes liberais (mais especificamente no Trivium), saberá que isso não passa da falácia denominada 'apelo ao ridículo'.

É certo que, mesmo que as intenções sejam boas, o conteúdo das piadas deve ser observado. Lewis, na sagacidade que é de seu apanágio, nota que o diabo sabe usar o humor para o mal. Basicamente há duas formas de fazer isso. Uma é a de atenuar a vildade de qualquer ação. Assim, algo completamente imoral, lamentável, que deveria nos trazer repulsa sem fim, passa a ser tolerável, senão desejável, quando se vê por um prisma de zoação. Daí que coisas tristes como o homossexualismo é, ao invés de ser um tema sério e muito triste, abraçado pelo nosso cotidiano. A glutonaria é omitida com brincadeiras e piadas sobre gordos. A ociosidade vil é disfarçada sobre uma montanha de risos e assim por diante. E para nosso terror, quantos não acham engraçado imitar terroristas muçulmanos que decepam cristãos fiéis?! Brincamos com a deficiência das pessoas quando nunca nos importamos com sua dor! Até mesmo achamos legal quando caçoam das Escrituras ou mesmo escarnecem do próprio Cristo! Tudo isso, por mais caro que nos seja, deve ser abandonado caso queiramos agradar a Deus!
A outra forma que o Inimigo de nossas almas usa o humor para o mal é o de caçoar das coisas santas. Virtudes são colocadas em cheque nessa estratégia. Ri-se da honestidade impecável de um homem que nem mesmo atravessa um sinal vermelho quando ninguém está vendo. Coloca-se a coragem
numa situação em que ela leva o indivíduo que a demonstra se dando mal, tudo num tom de brincadeira, de modo que, com o tempo, a coragem possa parecer algo estúpido para as pessoas. Pouco a pouco, observa o autor das Crônicas de Nárnia, aquelas coisas que Deus preza vão se tornando odiosas, repulsivas, nos corações dos homens.


Agora, claro, pelo amor de Deus, ninguém venha pensar que defendemos a vida taciturna, fúnebre e melancólica! Não mesmo! Vamos considerar alguns usos legítimos do humor.

Primeiro, no que diz respeito à retórica. É claro que a ironia, que eventualmente produz alguma comicidade, pode ser muito persuasiva e seria um elemento legítimo na argumentação (principalmente na estratégia chamada 'reductio ad absurdum'). Quem não se lembra de Elias, no Monte Carmelo, fazendo chacotas impagáveis ao Baal adorado em Israel? Esse seria um uso legítimo do humor. E ele bem poderia ser usado como ferramenta didática também, desde que para ensinar coisas boas. Caçoar de alguns erros teológicos grosseiros junto a amigos ou mesmo a um público que é por nós considerado pode ser uma ótima ferramenta para despertar os equivocados de seu sono dogmático. Mas tudo deve ser feito com sabedoria e cautela.

Agora, e fora do uso instrutivo? É pecado? Não mesmo! Até porque Deus quer que nos alegremos. O fundamento último de nossa felicidade, claro, está em Deus. Mas todos os demais apetites nos foram dados por ele mesmo. E as demais alegrias são legítimas. O próprio riso e predisposição para as piadas pode ser santo. Deus mesmo nos convida, nas Escrituras, a nos alegrarmos no Senhor. Ele ordena festas! Pede para que nos alegremos com os que se alegram! Bolas foras, situações embaraçosas ou, quiçá, algum tropeço que não cause nenhum ferimento grave são coisas que podem povoar nossas piadas. Há, de fato, alguns poucos humoristas cristãos fazendo um bom trabalho, como o
pessoal do canal do youtube 'Desconfinados'. Entre amigos e amantes o mero esboço de um gracejo causa riso fácil, como observa Lewis. Boas gargalhadas, movidas por piadas santas, são muito desejáveis! Tudo que temos que fazer é vigiar nosso coração para que não busque nas piadas o que deveríamos buscar em Deus, i. é, paz de espírito ou luz para as trevas da angústia. Também devemos observar se o que falamos é santo e agradável a Deus. Se contaríamos aquela piada para Jesus caso ele estivesse ao nosso lado. Ou melhor, como bem disse Chesterton outrora, ele está! Perceber isso mudará toda a história.

Portanto, qual filosofia pretendemos seguir? Vamos dar ouvidos a C. S. Lewis ou a Rafinha Bastos? Todos nós estamos envolvidos com a questão, e não há como não se decidir. Hoje mesmo fiz minha escolha definitiva. Qual é a sua? Sei que poderei perder algumas amizades com isso, o que lamentarei profundamente. Mas nada é mais valioso do que agradar ao meu Senhor!

[PS: Não estou falando que tudo que o Rafinha Bastos ou o grupo Porta dos Fundos produz é ruim. Pode haver algo de produtivo por conta da graça comum. Mas se formos dar audiência para eles e outros com filosofias semelhantes, devemos considerar o quão influente serão em outras mentes menos seletivas e, se mesmo assim considerarmos que vale a pena assistir, devemos ter a coragem de mudar de canal ou tirar o vídeo quando falharem nos filtros que propus aqui].

*Particularmente me refiro à carta XI do livro 'Cartas de um diabo a seu aprendiz' ou 'cartas do inferno'.
*Para quem quer entender o que estamos querendo dizer com isso, leia este artigo: crise existencial
*Para entender o que queremos dizer por 'pressupostos' e 'cosmovisão', leia esse artigo: cosmovisão - o que é?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O que pensar sobre Jogos de Azar?



INTRO

Uma questão ética relevante para ser discutida é a questão da pertinência de um cristão se envolver em jogos de azar. É viável para o cristão se envolver com isso? É pecado?
Existe, na cultura cristã, a afirmação taxativa de que é. E a maioria das pessoas que conheço afirmam que aprenderam que é errado. Mas se pergunto quais são as fontes bíblicas de tal ensino, grande parte não sabe responder, enquanto que outros respondem com argumentos muito duvidosos. Nós, como reformados, assumindo a sola scriptura, não podemos nos conformar com o ensino ‘tradicional’. Ou temos um ensino bíblico sobre o tema, ou não o proibamos, nem falemos que Deus não gosta, quando ele não se pronunciou.
Primeiro, para não haver confusão, vamos definir o que queremos dizer por ‘jogos de azar’. Em grande parte, o erro que nos parece haver neles (já antecipando nossa posição) está incluso em sua definição. Para evitar tal equívoco, tomemos uma definição. Nas palavras de Champlin, "jogo é um risco que envolve dinheiro, que se pode ganhar ou perder mediante uma aposta" ..."(R.N. CHAMPLIN, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.3, p.568-9).
Colocarei aqui aqueles argumentos que considerei bons. Li alguns artigos, e em boa parte, vi argumentos bem falaciosos. Não consegui perceber nestes que apresentarei. Também observaremos algumas objeções comuns, bem como traremos à baila suas devidas (ou possíveis) refutações. Percebam que são argumentos cumulativos. Ou seja, o que pode escapar em um é respondido em outro.

ARGUMENTOS E OBJEÇÕES

1)      Argumento do Vício.
O primeiro bom argumento que vi é que o jogo envolve o vício, e este vício em particular, traz grandes mazelas sociais. Pessoas se envolvem com jogos de tal forma que perdem tudo!  Depois disso, as conseqüências são muito amplas para se colocar em um texto como esse. Mas vários tipos de distúrbios sociais poderiam ser mencionados: como a miséria e mendicância; ou o envolvimento com crimes, por conta da situação que alguém foi levado por conta de jogos; ou ainda, como último exemplo, em problemas familiares por conta de gastar recursos com jogos ao invés de empregá-los em necessidades da família.
Qualquer vício é, obviamente, desencorajado e proibido pelas Escrituras. Pertinente, neste momento, é o texto de 1 Coríntios 6:12:
 ‘Todas as coisas me são lícitas, mas nem tudo me convém. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas’.
 Wiersbe, comentando sobre esse texto, observa que esse ‘todas as coisas me são lícitas’ era um ditado dos liberais morais de Corinto. Paulo concorda. Todas as coisas me são possíveis, alcançáveis, mas nem todas me são convenientes, ou seja, próprias, corretas. ‘Posso’ é uma palavra que pode ter, pelo menos, dois sentidos. ‘Posso’ de ‘capacidade’, ‘habilidade’; ou ‘posso’ de ser permitido. Podemos todas as coisas no primeiro sentido, mas não no segundo.
Este mesmo comentarista observa que Paulo estava argüindo sobre a liberdade cristã, e entende que Paulo estava combatendo a idéia de ser livre para entrar em outro vício. É o que fica explícito na proposição ‘não me deixarei dominar por nenhuma delas’.
Portanto, vício é pecado.
Objeção: Alguém pode replicar que joga e não é viciado, ou que jamais se viciará. Bom, primeiro que tais alegações são muito suspeitas. O viciado nem sempre percebe que está viciado. Às vezes demora um bom tempo para admitir. No programa dos 12 passos do AA (Alcoólicos Anônimos), o primeiro passo é admitir o vício. Portanto, alegar que não é viciado nem sempre é sinônimo de que, de fato, não o é.
Mais difícil ainda é garantir que não vai se viciar. Pessoas que ficam viciadas também pensam assim. Ou alguém pensa que todo mundo que está escravizado a algum vício começou pensando e querendo se viciar?
Por fim, ainda que haja uma forma de garantir não se viciar, o jogo, praticado como um ato público é um testemunho e um incentivo para mais fracos (principalmente para quem tem um papel de liderança, no qual poderá ser imitado), propensos ao vício, caírem na cilada. Portanto, tal pratica poderia levar outras pessoas ao pecado.
Aqui, a questão é muito parecida com a bebida, e tem os mesmos argumentos desmotivadores. Primeiro, para se viciar, tem de começar. Uma vez iniciado (na bebida ou nos jogos), abre-se as portas para a possibilidade de se viciar. Mesmo assim, bebida não é pecado em si (ficar bêbado é). Se alguém consegue beber sem vício e sem embriagar-se, ainda assim deve ser cauteloso (se não omisso para com seu prazer), pois seu gesto pode incentivar outros mais fracos a beberem, e caírem no vício.

2)      Argumento da Forma de Angariar Recursos

Um dos fortes (e controvertido) argumento usado é o de como devemos obter nossos bens, recursos, posses, etc. Claramente Moisés declara em Gênesis 3:19 “No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela fostes formado; porque tu és pó e ao pó tornarás”. Ninguém, sensato, pensa que o suor funciona como margarina. A expressão significa que o homem vai conseguir os recursos de subsistência mediante seu trabalho. Essa é uma maldição na qual Deus encerrou toda a humanidade. Portanto, jogar, é tentar granjear recursos sem os esforços que Deus nos incumbiu de ter. É tentar escapar do juízo de Deus, o que só acarretará mais juízo.
E a analogia da fé só tem a confirmar tal postulado. Efésios 4:28 (NVI):
“O que furtava não furte mais; antes trabalhe, fazendo algo de útil com as mãos, para que tenha o que repartir com quem estiver em necessidade”. Alguém pode objetar que o texto refere-se apenas à antítese entre conseguir por trabalho ou por furto. Mas não é só isso que o texto ensina. Ele diz que os recursos que a pessoa terá será oriundo do seu esforço (não necessariamente um serviço braçal). É assim que a Bíblia legitima o ganho.
1 Tessalonicenses 4:11-12 ensina a mesma coisa:
“Esforcem-se para ter uma vida tranqüila, cuidar dos seus próprios negócios e trabalhar com as próprias mãos, como nós os instruímos; a fim de que andem decentemente aos olhos dos que são de fora e não dependam de ninguém.”
Claramente, juntando todos estes textos, percebemos uma ética bíblica em que os recursos devem ser obtidos pelo esforço, pelo trabalho. Em momento algum se recomenda angariar algo por outra forma além do labor.
Cumprindo esse itinerário divino, temos a promessa de que seremos sustentados. Obviamente, Deus não promete sustentar o negligente, o ocioso.  Em 1 Timóteo 6:17, Paulo diz que Deus ‘tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento’ (RA), e em Filipenses 4:19 o mesmo autor diz “E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades”.
Assim, temos o modo de obter sustento e recursos, e temos a promessa de que Deus nos sustentará. Onde é que jogos podem entrar aqui. Ao que me parece, jogar seria não confiar e/ou não estar satisfeito com a providência divina.
Objeção: Alguém poderia dizer: mas, com essa mentalidade de que tudo que temos deve ser adquirido pelo suor de nosso trabalho, então não podemos receber presente. Mas essa é uma má aplicação da regra que acabamos de estipular (percebendo-a na Palavra). Receber um presente, primeiro, não é apostar dinheiro (o que já elimina boa parte do pecado); e, mais em conexão com esse tópico, o presente foi obtido com o suor do trabalho de alguém (naturalmente, se soubermos que provém de fontes ilícitas, não podemos aceitar).
A regra que descobrimos é que os bens devem ser obtidos pelo esforço. Um presente deve ser oriundo da mesma fonte. Ganhar ‘uma bolada’ num jogo de azar não é receber um presente, um ato voluntário em que alguém oferece um recurso que conseguiu mediante esforço. Portanto, é uma falsa analogia.

3)      Argumento da Confiança na Sorte
Um dos grandes problemas que os Reformadores apontaram em relação aos jogos é que, quando neles, o cristão tinha a tendência em acreditar em algo chamado ‘sorte’. Primeiramente, sorte não existe. Isso está bem claro no texto de Provérbios 16:33: “A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda decisão”.
Acreditar em ‘sorte’ é negar princípios bíblicos inegociáveis das doutrinas da providência e da soberania de Deus.
Objeção: Uma objeção comum é a de que jogaremos confiando na providência de Deus. Mas isso seria tentá-lo. É fazer algo que ele não ordenou (alguns diriam: ‘proibiu’, mas, por hora, preferimos ser mais cautelosos) e esperar que ele o abençoe. Uma situação hipotética semelhante seria alguém encher a cara, depois dirigir em alta velocidade para chegar rápido em casa, e esperar que Deus o abençoe com uma apressada caminhada segura. Pra começar, Deus não mandou ficar bêbado. Pra começar, Deus não mandou beber. Não se pode ‘esperar em sua providência em ocasiões assim’.

4)      Argumento da Motivação.
Alguns autores bem observam que os jogos alimentam a ganância (ou, se alimentam dela). Nada que estimule o amor e o apego ao dinheiro é aconselhado na Bíblia. Pelo contrário, ela nos ensina não superestimar o dinheiro. Veja o texto de 1 Timóteo 6:10:
“Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores”. Olha que perigo! E, cá entre nós, é meio difícil (para não dizer impossível) alguém se envolver com esses jogos e não ter sua ganância estimulada.
Objeções: Caso alguém diga que não joga por ganância, então perguntaríamos: ‘por que joga, então?’ Se não está tão afim de ganhar dinheiro assim, abandone logo esse jogo!
Se alguém disser que joga para conseguir recursos para fins caridosos, só está usando uma ética jesuíta completamente anti-bíblica, de que os fins justificam os meios. Apontar para um fim bom não valida um meio mal. Para convencer quem contende, basta fazê-lo perceber que se envolver com o tráfico para angariar recursos em prol de atividades filantrópicas é completamente condenável. Se jogos de azar são errados, a situação fica sendo a mesma.
5)      Argumento da Mordomia Cristã
R. C. Sproul, no livro ‘Boa Pergunta’, usa o argumento da mordomia. Jogos são um péssimo emprego dos nossos recursos. As chances de ganho são extremamente mínimas. A grande maioria dos jogadores nunca vão ganhar, e, num montante, terão desperdiçado muito dinheiro. Ainda mais em jogos onde pode-se perder muita coisa.
Objeção: Alguém poderia levantar a questão de que o investimento na bolsa de valores dá na mesma. Na verdade, isso me parece aquela clássica falácia de tentar desmentir um erro com outro. Porém, nem isso esta objeção consegue ser. Pois, o investimento na bolsa não é uma aposta na sorte. É algo em que existe uma parte dependente da competência analítica do investidor. Mas, ainda que esse argumento não seja suficiente, no máximo, teríamos de admitir que investir na bolsa também é errado, e não que tanto ela quanto jogos de azar são certos.

CONCLUSÃO
Muitos textos são usados equivocadamente para acusar este pecado. Isso mesmo, pecado. Concatenando os argumentos, podemos chegar à conclusão de jogos de azar são pecaminosos. Eles envolvem vício; tentam burlar a forma prescrita por Deus de obter recursos; estimulam a confiança na sorte; fomentam a ganância; e são uma péssima mordomia do tempo e recursos.  Esses cinco argumentos, concomitantemente mencionados, inescapavelmente, ao que nos parece, encerra o jogador de jogos de azar em uma situação de pecado.

Outros argumentos menos convincentes ainda poderiam ser citados (como o fato de que os jogos estão, muitas vezes, ligados a financiamento de crimes, ou associados a eles de alguma forma – como a prostituição em cassinos). Entretanto, mencionamos os que mais nos convenceram. E esperamos que os cristãos que lerem não se envolvam mais com isso!

sábado, 26 de julho de 2014

Entregar folhetos? Não, muito obrigado...


Este é um daqueles artigos polêmicos. Não pretende-se como, mas é bem possível que se torne por conta do estado das coisas que ele mesmo descreve. Não o seria caso tudo estivesse bem, e, oh, como desejamos que estivéssemos enganados quanto à nossa leitura da situação atual, quanto às coisas que descreveremos...
Bom, o título já nos denuncia. Agora, precisamos fazer algumas ressalvas. A primeira é que não nos furtamos ao ato de proclamar as boas novas de Cristo. Jamais! Longe de nós tal mal! Quem nos conhece sabe que já nos envolvemos nas mais desconfortáveis situações para que pudéssemos ter condições de realizar o chamado ato de 'evangelizar'. Por isso, com temor, investigando nosso próprio coração e averiguando se não há intenção má, declaramos que tal artigo não tem nada a ver com negligência missionária.
Há outra ressalva. Muitos que não têm pretensão alguma de evangelizar adorarão o artigo. Servir-lhes-ão como alento para o ímpio coração. O incômodo de que lhes é devida a obrigação de pregar o Evangelho, e que tal parece se encarnar no ato referido no título deste texto, é lançado às catacumbas e o artigo é estimado com grande louvor. Pois bem, esse parágrafo é para dizer a estes que eles são hipócritas! Longe de mim querer sofrar suas feridas. Colocar o dedo nela é meu intuito, mas não neste artigo. Fiquemos com a frase de Spurgeon: 'Todo cristão ou é missionário ou é um impostor'.
Por fim, não consideramos que todos que entregam folhetos caem em todos os erros que iremos mencionar. Mas é difícil vê-los desassociados de qualquer deles...


Feitas as devidas pré-considerações, vamos ao que interessa. Por que não gostamos de tal prática? Permitam-nos, de modo breve, listar algumas boas razões.

A primeira e mais óbvia delas é a má qualidade dos folhetos. É óbvio que não demandamos nada exaustivo em um mero folheto, e eles têm a vantagem de ser um texto curto que, por tal natureza, principalmente no Brasil, podem ser considerados e lidos. Mas, via de regra, a grande maioria, a maioria esmagadora, dos folhetos que já vimos são muito ruins. Nos níveis mais baixos vemos teologia da prosperidade, mentiras que estão muito distantes de evangelizar, e que só tenderão a decepcionar, quando não criar um grande obstáculo para que alguém aprecie a fé cristã. Alguém que se interessa por Cristo para que ele o deixe rico, ou tão somente cure suas doenças é pouco melhor do que os nove leprosos que buscaram a Jesus para serem curados e nem mesmo voltaram para agradecer. Alguns folhetos anunciam um mágico, alguém para entreter ou satisfazer particularidades triviais e fúteis (ou pelo menos com tais características diante do real significado de Cristo na Cruz), e os que recebem-nos bem dessa forma não são melhores que Herodes e suas tolas expectativas. Se um folheto promete a vida cristã como um mar de rosas, mente e faz um desfavor à causa de Cristo e à alma de quem o leu.
Os folhetos mais inofensivos, contudo, não apresentam de forma adequada a mensagem de Deus para este mundo caído. É certo que Jesus vai levar-nos para o céu; é bem verdade que ele nos consola em nossas dores; não há dúvidas de que ele venceu a morte e ressuscitou! Qual cristão ao ler tais coisas não emitirá um sonoro 'Amém!'? Mas a mensagem de Cristo não pode ser anunciada sem a mais desagradável das notícias: a humilhante realidade de que todos, por sua própria conta, estão perdidos, não importa o quão bons sejam, ou quanto se esforcem para se salvarem. Evangelismo que não comunica ao pecador que ele é justamente isso, pecador, não é e nem nunca foi evangelismo bíblico. Em outras palavras, não é o que Deus disse aos homens...
A propósito, só mais um exemplo para não nos delongarmos muito. 'Salvação'. Dizer em um folheto que Jesus salva é, tampouco, evangelismo. Salva de que, exatamente? Oras, não se pode ver-se resgatado se não se percebe escravo, perdido, condenado... a mensagem de salvação é tão eficiente se comunicada sem isso quanto um belo quadro apresentado a um cego. Quer coisa mais estúpida? Pois então, e há folhetos que são de tal estirpe.
Seja como for, entendemos que a mensagem do Evangelho, embora não demande essencialmente uma teologia sistemática robusta para ser devidamente apresentada, exige mais do que um tweet. Há folhetos mais extensos, e há livretinhos, bem curtinhos, que poderiam dar conta do recado. Seria algo mais viável. E se o dinheiro gasto com folhetos fosse gasto para distribuir boa literatura, gratuita, entre os que desejamos evangelizar?

Mas, vá lá, digamos que você tenha um excelente folheto. E então, estariamos compelidos a seguí-lo em sua entrega? Ainda cremos que não. Tal empresa nos parece, no mínimo, uma irresponsabilidade. A prática evangelística pessoal, responsável, que nos envolve e demanda que nos desgastemos é substituída por um evangelismo fast-food. Entregar um folheto tranquiliza a alma que sabe que precisa evangelizar mas, por uma série de motivos, não o faz. É como evangelizar 'de longe' [quando se pode evangelizar de perto]. Encaixa-se perfeitamente naquilo que J. I. Packer chama de 'evangelismo impessoal' em sua excelente (e curta) obra chamada 'A Evangelização e Soberania de Deus'.
Poderiam nos perguntar, então, afinal de contas, o que raios queremos. Seria apenas o evangelismo via púlpito o que nos parece correto? De modo algum, embora consideremos o púlpito uma oportunidade singular. Bom, para responder a tal inquietação indagativa, gostaríamos de olhar para os imperativos do próprio texto denominado 'a grande comissão'. Lá Jesus ordena que devemos fazer discípulos, ensinando-os a guardar tudo que ele ensinou. Certo. Perguntamos, então, se o 'panfleteiro de Jesus' está apto para tal labor. Ele consegue ensinar o que Cristo ensinou? É claro que é uma tarefa da Igreja, e o mais sossegado é, pois, terceirizá-la. 'Os teólogos da Igreja que vão ensinar isso. Eu não! Sou apenas o apresentador inicial do programa...'. Ótimo, não notaram a deficiência? Este alguém não é um discípulo... um discípulo aprendeu e, se de fato o fez, pode passar adiante. Não é preciso competências pedagógicas para tal. Estamos falando de ensinar os rudimentos da fé cristã, que, embora não sejam tão prolongados, não cabem em um folheto. Bom, a primeira tarefa para o evangelismo responsável, pois, parece-nos a dedicação mínima aos estudos teológicos. Não se assustem com tal expressão, como se falássemos de escolasticismo, de abstrações teóricas tão etéreas que escapam ao João Lavrador de Spurgeon. Não propomos que todos sejam exímios teólogos (aliás, seria ótimo). Sabemos que há mãos, pés e pâncreas no corpo... Mas, depois de algum tempo na igreja não haver qualquer progresso, há, certamente, algo muito errado. É bem possível que a Igreja não dê a educação teológica necessária, mas, sinceramente, quem quer e se interesse, aprende. Não somos melhores do que ninguém, e nos convertemos em um ambiente nada estimulante aos estudos... mas, convenhamos, temos internet e um bom número de materiais na rede. Quem quer, vai atrás. Há algo mais deleitoso à alma regenerada do que conhecer mais a Deus? Muito do evangelismo responsável é preterido justamente pela recusa em aprender. Demanda tempo. Gasta tempo. Não é muito confortável. Para entregar folheto não é preciso suar tanto...

Roger Greenway, no 'Ide e fazei discípulos', bem como muitos outros autores, observam que o evangelismo da Igreja primitiva se dava de muitos modos, mas temos de destacar um em particular, que é a nossa proposta. Se de fato queremos evangelizar, não nos falta campo. Temos certeza de que cada um dos
panfleteiros têm ao menos um amigo ou colega a quem poderiam compartilhar a bendita mensagem de forma mais responsável. Isso se dá através da amizade e da demonstração de interesse genuíno. É, também, orar constantemente para que tal empreitada obtenha êxito. Compartilhar o Evangelho dessa forma é uma empresa muito mais rentável e digna. É assim que nos informam ter sido muitíssimo da prática missionária da igreja 'primitiva' (exaurindo a pejoração do termo, para os desavisados).
Há mais objeção da parte do enfadado panfleteiro. Ele poderia dizer que tal prática não alcançaria os que não conhecemos. Mas, ora bolas, é claro que alcançaria! Primeiro, poderíamos dizer que a prática desses parece preterir os que eles conhecem, afinal, entregam folhetos para pessoas nas ruas e desconhecidos, ignorando os que conhecem. Ainda há a réplica de que uma atividade não elimina a outra, o que temos de anuir. Entretanto, ainda somos a favor de acabar com o panfletagem porque a outra prática pode muito bem alcançar êxito onde esta parece imprescindível. Se alcançamos nosso vizinho, é certo que ele conhece pessoas que não conhecemos. E se, de fato, o alcançamos para ser como nós somos, ele irá atrás dos que conhece.

Um último recurso, uma última objeção, ainda precisa ser considerada. Alguém pode apresentar algum exemplo de alguém que se converteu por conta de um folheto. Bom, para começo de conversa, achamos muito improvável que um folheto, por si só, ofereça as informações necessárias para tal. Na melhor das hipóteses ele sugere algo, e desperta lembranças de outras coisas que podem levar à 'decisão por Cristo'. Pois bem, mesmo que assumamos tal possibilidade, ainda assim insistimos para que a Igreja abandone os folhetos. Diante do que argumentamos, ainda parece-nos muito mais viável que se gaste o tempo em projetos mais adequados e eficientes.
E ainda que pensemos no argumento, em si, constatamos que é fútil, bobo. Se alguém, algum dia, se converteu por ter lido um fragmento de uma Bíblia jogada ao chão, não significa que devemos rasgar nossas Bíblias e distribuir suas porções pelas ruas da cidade.

CONCLUSÃO

Onde queremos chegar com isso? Simples: invistam o tempo e o dinheiro dos folhetos de modo diferente. Comprem e distribuam literatura, para o segundo item; e gastem tempo estudando as Escrituras, teologia e afins (em suma, se preparando), e evangelizemos os nossos conhecidos, amigos, colegas e parentes, nem que seja um de cada vez. É tudo questão de remir o tempo, e aproveitá-lo da melhor maneira possível...

sábado, 28 de junho de 2014

A TENSÃO ENTRE A ORAÇÃO E OS DECRETOS DE DEUS


A oração é um ato sublime! O homem, mortal, finito e pecador, é convidado, intimado, e lhe é permitido, falar com o Criador do Universo, com o majestoso e glorioso Deus santíssimo! Que privilégio! Que honra!
Porém, existem alguns obstáculos inibidores. Alguns pensamentos parecem nos afastar do interesse e da prática deste privilégio. Queremos observar e corrigir, na medida em que o espaço nos permitir, alguns destes equívocos cogitativos para viabilizarmos nosso coração para a busca de Deus em oração.
Para quem acha que não há obstáculos colocados por nossos corações, vejam se estas colocações não lhe parecem verdadeiras e familiares: “Nunca nos sentimos mais próximos de Deus do que quando oramos; mas, quando oramos, por quantas vezes nossa atenção é distraída! Quão pequena reverência mostramos diante da grandiosa majestade do Deus com Quem falamos! Quão pouco remorso sentimos por nossas misérias! Quão pouco provamos da doce influência de suas ternas compaixões! Ao orar, não hesitamos muitas vezes em começar, e freqüentemente nos alegramos por terminar, como que dizendo: ‘Deus nos impôs uma tarefa muito cansativa quando recomendou que clamássemos a Ele?’ ...” (HOOKER apud RYLE, p. 35, itálico nosso). Viu? Seja sincero: você nunca deu-se à oração, não vendo a hora de aquele tempo, que parecia um suplício, uma penitência, acabar? O autor deste artigo já, e não foram poucas as vezes. Isso é vergonhoso, lamentável e estúpido. Sim, irmãos, estúpido! É onde nosso coração, sob as influências da carne, tende a nos levar: à loucura (cf. Romanos 1:21-22*¹).
Bom, veja o quadro que pintamos: por um lado, vemos o quão espetacular é o ato de oração. É uma oportunidade ímpar concedida por Deus. Ele, imenso e infinito, volta-se para ouvir-nos; nós que não passamos de pó! Além disso, ele, que é santíssimo, puríssimo, volta-se para ouvir pecadores imundos, por intermédio de Cristo. Ele nos convida, por meio de Cristo, a nos achegarmos a ele. Do outro lado, temos, na prática, a impressão, muitas vezes, de que a oração é uma ‘obrigação que nos pesa’. O que parece estar acontecendo aí? Certamente existe alguma mentira que nosso coração está nos contando. Se percebermos a sublimidade da oração, certamente não levantaremos obstáculo algum para nos devotarmos ao ato de orar. Se notarmos o quão espetacular é o ato da oração, faremos, como observa Leandro Lima na pregação ‘Os discípulos mais íntimos de Jesus’, como Pedro no monte da transfiguração, iremos buscar prolongar aqueles momentos de comunhão com Deus. Se refutarmos, se desmentirmos alguns conceitos errados sobre a oração, talvez possamos estar um pouco mais propícios a nos darmos à sua prática. Lidemos com um, por hora.
Um amigo nos enviou um vídeo de John Piper. Gostaríamos que vissem:


Alguns, refletindo sobre o controle absoluto de Deus, e, daí, passando a pensar sobre seus decretos*², sentem-se desmotivados a orar. Contrariando o que Piper disse, vejamos como Letham coloca a questão: “a oração não é tanto uma petição por um problema no qual a vontade de Deus não é decisivamente conhecida, mas um pedido acerca de algo que foi definitivamente estabelecido” (p.154). Em outras palavras, estaríamos pedindo, mas não faria diferença, pois simplesmente teríamos de nos ater ao que fora determinado. No final das contas, isto não nos faz parecer inúteis? Esta parece-nos uma piedade estóica*³. Do que vale a petição, se não é, de fato, atendida, nem mesmo quando as coisas acontecem conforme pedimos? Entendemos que as palavras, outra vez mui oportunas, de Charles Hodge solucionam a questão: “Quando uma pessoa ingressa em algum grande empreendimento, estabelece de antemão o plano de suas operações; seleciona e determina seus meios e designa cada parte subordinada e certifica-se de que suas solicitações por assistência e orientação sejam atendidas. Se fosse possível que cada instância de tal aplicação ou pedido pudesse ser prevista e a resposta determinada, isso não seria [in]consistente com o dever ou a propriedade de tais pedidos serem feitos, ou coma liberdade de ação por parte do controlador. Esta ilustração pode valer bem pouco; mas é certo que as Escrituras ensinam tanto a preordenação quanto a eficácia da oração. As duas, portanto, não podem ser inconsistentes. Deus não determinou executar seus propósitos sem o uso de meios; e entre esses meios as orações de seus povo têm lugar apropriado. Se a objeção à oração, fundamentada na preordenação dos acontecimentos, é válida, é válida contra o uso de meios em qualquer caso. Se é ilógico dizer: ‘Se está preordenado que eu viva, não é necessário que eu coma’, não me é menos ilógico dizer: ‘Se está preordenado que receba algum bem, não é necessário que o peça’” (p.1536-1537).*4

Adentremo-nos um pouco mais no assunto. Filipenses 4:6-7 nos diz: “Não andeis ansiosos por coisa alguma; antes em tudo sejam os vossos pedidos conhecidos diante de Deus pela oração e súplica com ações de graças; e a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos pensamentos em Cristo Jesus.” Uma análise rápida do texto é suficiente para lhe captar a temática principal: ‘apresente, diante de Deus, seus pedidos’. É muito mais que uma boa sugestão. Devemos confessar nossos anseios e petições diante de Deus. É interessante notar a conjunção adversativa ‘antes’. Ao invés de ficarmos ansiosos, devemos apresentar nossas petições diante de Deus. Quero um carro; quero uma casa; quero tal livro; quero ter um bom dia amanhã; quero sarar este e aquele machucado; quero ser mais santo; quero abandonar tal pecado; quero um emprego; quero uma namorada; quero me casar... etc. Tudo deve ser colocado diante de Deus. Não é correto a ansiedade, o apavoramento e a perda de sono. Quanto mais cientes estivermos do poder providencial de Deus, e de como ele governa com sabedoria e virtude, menos ansiosos estaremos. O fato é: nossos desejos devem estar diante de Deus; e devemos levá-los à Ele em oração. ‘Ele já sabe’. Sim, já. Mas a relação dialogal, pessoal, que ele estabelece conosco faz-lhe exigir que conversemos com ele. ‘Conte-me’, diz o Senhor. ‘Conte-me, e deposite suas esperanças em mim’.
Agora, notemos que o texto não traz: ‘Apresente seus desejos ao Senhor, e ele irá atendê-los todos’. Não existe essa promessa na Bíblia. Primeiro, como vimos na reflexão anterior, ele pode ‘atender-nos’. Mas às vezes isso não vai acontecer. O caso é que, há um fator psicológico muito benéfico na oração. Ela nos colocará em contato com Deus ante o que almejamos. Se o conhecemos; se sabemos ao menos um pouco sobre sua providência, ficaremos bem menos preocupados. O texto ainda promete que ficaremos repletos da paz de Deus mediante a apresentação sem reservas e o pleno conhecimento e fé na providência, soberania e sabedoria de Deus. Isto o texto promete.
Para finalizarmos, notemos, também de forma breve, o texto de 1 João 5:14: “E esta é a confiança que temos nele, que se pedirmos alguma coisa segundo a sua vontade, ele nos ouve.” A condição para sermos atendidos é, justamente, a conformidade dos nossos pedidos com os preceitos e decretos divinos. Com os preceitos diz respeito à ética, à virtude. Se estamos pedindo algo que é justo, puro e bom, é provável que seremos atendidos. Mas pode ser que não seja a coisa mais sábia a ser feita, e Deus nos negue a satisfação desse desejo. É justamente essa a relação de nossas petições com os decretos. Às vezes, embora nosso desejo seja razoável, puro e justo, não satisfazê-lo glorifique mais a Deus, e beneficie mais nossa alma. Para o reconhecimento da vontade geral de Deus, não há melhor guia do que a Palavra. Em outros casos específicos, porém, não teremos o caminho aberto, mas podemos confiar no Senhor (cf. reflexão parte 4).

“FAÇA-SE A TUA VONTADE, ASSIM NA TERRA COMO NO CÉU” (MATEUS 6:10)

Na Oração Dominical, ensinada por Jesus, há uma abordagem ao tema e, a título de completudo, é bom que estudemos o texto também. A expressão ‘vontade’ é θελημα (thélema), que também pode ser traduzida por ‘desejo’, segundo o Léxico do N.T. Grego-Português, de F. Wilbur Gingrich e Frederik W. Danker (p.95). Aqui, Jesus estava se referindo a um tipo diferente de vontade que a tratada outrora, em nossos artigos. Para compreendermos esta questão, os teólogos distinguiram dois tipos de vontades divinas. Berkhof sintetiza assim: “A vontade decretatória de Deus e Sua vontade preceptiva. A primeira é a vontade de Deus pela qual ele projeta ou decreta tudo que virá a acontecer, quer pretenda realiza-lo efetivamente (causativamente), quer permita que venha a ocorrer por meio da livre ação das Suas criaturas racionais. A segunda é a regra de vida que Deus firmou para as Suas criaturas morais, indicando os deveres que lhes impõe. A primeira é realizada sempre, ao passo que a segunda é desobedecida com frequência” (p.70). Em outras palavras, uma diz respeito às determinações que Deus fez quanto aos eventos que aconteceriam no desenrolar da história. A outra, a segunda, vontade diz respeito aos preceitos de Deus, ao que ele avalia, (sendo ele mesmo o padrão para a moralidade de modo que o que ele avalia é o que é), como certo e errado. Não podemos presumir que o pedido tanja à vontade decretatória, pois ela certamente se fará. O pedido diz respeito à vontade preceptiva, de modo que o desejo daquele que ora é que os preceitos, a ética bíblica, seja implantada no mundo, ou seja, que o pecado seja evitado e a benignidade praticada. Com esse conceito em mente, podemos, enfim, estudar os comentários. É interessante observar que os comentaristas que pegamos não tecem muitos detalhes sobre o assunto, ou o evitam, talvez por não perceberem esta questão doutrinária, e/ou por perceberem as dificuldades que a circundam.
J. Dwight Pentecost, contrariando a opinião dos outros comentaristas, entende que este não se constitui um pedido particular mas, antes, está acoplado ao pedido da vinda do reino (p.116)*5. Como a vinda do reino se desassocia dos preceitos de Deus (no sentido de serem coisas diferentes), entendemos que esse comentarista se equivocou. Wiersbe, na já entoada labuta de demonstrar o que não deve permear nossas orações, diz que “Não temos o direito de pedir a Deus qualquer coisa [...] que seja um empecilho a sua vontade na terra” (p.30), mas logo associa esta vontade exclusivamente ao benefício do povo de Deus, quando os preceitos divinos têm aplicação para todos os homens, ou seja, o que é certo para os crentes também é certo para o ímpio, e vice-versa (cf. Romanos 2:14-15).  Suas palavras são: “Se estivermos orando segundo a palavra de Deus, de uma forma ou de outra, a resposta abençoará todo o povo de Deus” (p.30). Não que a conclusão seja errada, mas é que a vontade preceptiva de Deus sendo efetivada abençoa não só a igreja mas a todos os homens*6.
Finalmente, peguemos o Catecismo Maior de Westminster (Pergunta 192), entende a questão tal como a enunciamos. Vejamos a resposta: “Reconhecendo que, por natureza, nós e todos os homens somos, não só inteiramente incapazes de conhecer e fazer a vontade de Deus, e indispostos a isso, mas propensos a rebelar-nos contra sua palavra, a desanimar-nos, a murmurar contra sua providência, e inteiramente inclinados a fazer a vontade da carne e do Diabo, pedimos que Deus, pelo seu Espírito, tire de nós e dos outros toda cegueira, fraqueza, indisposição e perversidade do coração, e pela sua graça nos faça capazes e prontos para conhecer, fazer e submeter-nos à sua vontade em tudo, com humildade, alegria, fidelidade, diligência, zelo, sinceridade e constância, como os anjos do céu”. Ou seja, o catecismo percebe que a ‘vontade de Deus’ aqui mencionada diz respeito à sua vontade preceptiva.
Um detalhe que fugiu à especulação dos comentaristas consultados e que queremos sugerir é que pode haver alguns termos omitidos, por zeugma, em “assim na terra como no céu”. Estamos nos referindo à expressão “é feita” depois do termo ‘como’, ficando: “assim na terra como [é feita] no céu”. Por analogia da fé*5, temos textos que deixam claro que a vontade preceptiva de Deus é feita nos céus. Pelos textos sugeridos pelo catecismo, tangente à essa parte, imaginamos que esta interpretação lhes passou pela cabeça (mencionam Salmos 103:20-22 e Daniel 7:10). Os anjos maus já foram expulsos de lá (2 Pedro 2:4). Portanto, o pedido, na oração, é para que as coisas na terra sejam como as coisas nos céus, onde a vontade preceptiva de Deus é plenamente realizada.

Concluímos que devemos, sim, apresentar nossas petições diante de Deus.Esse é um meio de graça, uma forma de as coisas acontecerem de fato. Devemos, também, dar uma boa estudada na providência divina para que alcancemos a paz mediante a oração. Mas, apresentar nossa oração não significa que seremos atendidos. O seremos desde que nossos pedidos coadunem com a 'vontade de Deus'. E, podemos conhecê-la, de forma geral, no estudo das Escrituras.


*¹ O texto está falando da situação do coração ímpio, que rejeita o verdadeiro conhecimento sobre Deus, e é enredado numa situação em que, para evitar a verdade, usa-se de todo tipo de subterfúgio, e erige uma cosmovisão, uma filosofia de vida e sobre as coisas, calcada em princípios falsos. Para quem for versado em filosofia, poderíamos colocar a situação da seguinte forma: os efeitos noéticos consistiriam, no mínimo, na eleição de falsos pressupostos e no erigir de uma cosmovisão pautada neles, o que redunda em equívoco e loucura.
Mas essa é a situação que muitas vezes nós, crentes, nos vemos. Por vezes, somos levados a dar ouvidos às inclinações ruins de nosso coração, e, não raro, enamorados com algum pecado, adotamos princípios equivocados e formas estranhas de pensar, até que cedemos ao confronto do Espírito e nos voltamos à verdade. Isso, claro, ocorre em aspectos particulares da nossa fé, e não nela como um todo, e nem de forma que neguemos alguma doutrina da graça ou algum princípio inegociável.
*² É importante observar que existe duas posições reformadas a respeito dos decretos e a liberdade do homem. Existem irmãos deterministas bíblicos, e irmãos compatibilistas. Quem estiver interessado, sugerimos, para o primeiro grupo, que leiam Introdução à Teologia Sistemática, de Vincent Cheung, ou ‘Questões Últimas da Vida’, de Ronald Nash, p.357 a 374 (e.g.); e, para o segundo, que leiam ‘Teologia Sistemática’, de Louis Berkhof ou ‘O Ser de Deus e as suas obras: A providência e a realização histórica’, de Heber Carlos de Campos.
*³ Sproul, no ‘Filosofia para Iniciantes’, os define assim:“A preocupação central do estoicismo foi a filosofia moral. A virtude é encontrada na reação da pessoa ao determinismo materialista. O ser humano não pode determinar seu próprio destino. Ele não tem controle sobre o que lhe acontece. Sua liberdade é restrita à sua reação ou atitude interior ao que lhe sobrevém” (p.54). Nossa referência à piedade estoica diz respeito ao fato de orarmos ser onde reside a liberdade, mas, na verdade, não faz sentido caracterizar o ato como uma comunicação com um ser pessoal, conforme o resto do texto demonstra. Para conhecer mais sobre o estoicismo, veja o artigo que elaboramos sobre aqui: http://panaceiateoreferente.blogspot.com.br/2014/06/os-estoicos.html
De fato, Richard J. Foster, no seu horrível e místico-medieval ‘Celebração da Disciplina’, por não compreender como se dá a interação entre a oração e os decretos, critica a perspectiva calvinista (i.é., a perspectiva que temos defendido aqui) nas seguintes palavras: “Muitos, com sua ênfase sobre aquiescência e resignação ao modo de ser das coisas como ‘a vontade de Deus’, aproximam-se mais de Epicteto que de Cristo [Sproul, na mesma página supramencionada refere-se também à Epicteto com a seguinte frase a ele atribuída: “Não posso escapar à morte, mas será que não posso escapar ao medo dela?” (EPICTETO apud SPROUL, p. 54)]” (p.50). De fato, concordamos com Foster em criticar a posição que define a oração quase como uma mera formalidade. Mas, de maneira alguma poderíamos concordar, a luz do que vemos neste livro, com as seguintes palavras de Foster: “Moisés  foi ousado na oração porque acreditava poder mudar as coisas, e mudar até mesmo a mente de Deus” (p.50). Sua declaração posterior cheira a teísmo-aberto: “Estamos cooperando com Deus para determinar o futuro” (p.50).
*4 Cf. o seguinte endereço para um artigo muito elucidativo de John Piper: http://www.monergismo.com/textos/oracao/oracao-predestinacao-conversa_piper.pdf.
*5 Parece-nos que F. Davidson também tem uma opinião semelhante. Ele pula a expressão ‘seja feita a tua vontade’, e comenta o “assim na terra como no céu” como se referisse aos novos céus e nova terra, onde, certamente, a vontade dele será realizada.
*6 Peguemos, por exemplo, 1 Timóteo 2:1-2, particularmente a parte que nos ordena orar “em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade”. Qual o objetivo desta oração? O verso prossegue, respondendo: “para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito”. Esta é, pois, uma aplicação desta sessão da oração dominical, pois, se as autoridades exercerem corretamente seu ofício a teremos promovendo o bem e punindo o mal (cf. Romanos 13:1-7; 1 Pedro 2:13-14).


BIBLIOGRAFIA

A BÍBLIA Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. 2 ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. 1334 p.

BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. Tradução de Odayr Olivetti. Campinas: Luz Para o Caminho, 1990, 848 p. (e-book).

CATECISMO MAIOR DE WESTMINSTER. Tradução de ?. São Paulo: Cultura Cristã. 2005. 288p.

FOSTER, Richard J. Celebração da Disciplina: o caminho do crescimento espiritual. Tradução de Luiz Aparecido Caruso. São Paulo: Editora Vida, 9ª impressão, 2000, 240p.

GINGRICH, F. Wilbur; DANKER, Frederik W. Léxico do N.T. Grego-Português. Tradução de Júlio P. T. Zabatieiro. São Paulo: Vida Nova. 1993, 227p. (e-book).

HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo:Editora Hagnos, 2001. 1777p.

LETHAM, Robert. A Obra de Cristo. Tradução de Valéria da Silva Santos. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, 272p.

LIMA, Leandro. O privilégio dos discípulos mais íntimos de Jesus. Cf. http://www.youtube.com/watch?v=ust1BJOoHL8

PENTECOST, J. Dwight. O Sermão da Montanha. Tradução de ?. Belo Horizonte: Editora Betânia, 1984, 177p. (e-book).

RYLE,J.C. Santidade: sem a qual ninguém verá o Senhor. Tradução de João Bendes e Waleria Coicev. 2.ed. São José dos Campos: Fiel, 2011. 413 p.

SPROUL, R. C. Filosofia para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208 p.

WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo Novo Testamento Volume I. Tradução de Susana E. Klassen. Santo André: Geográfica Editora, 2006, 948p. (e-book).

sexta-feira, 20 de junho de 2014

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Dois conceitos para revolucionar nossa concepção sobre Santidade

Dois vídeos vistos ontem e hoje chacoalharam nossa concepção da vida cristã. Não é que são totalmente novidades. Inconscientemente parece-nos que tais proposições são facilmente reconhecidas no coração humano. É certo que, de Sócrates a Agostinho, se dirá que não só isso mas todas as coisas já estavam ali...
Reflexões filosóficas à parte, precisamos expor de forma bem curta o que foi aprendido. Tal exposição garantirá o aprendizado nosso e dos leitores. Assim esperamos. Percebam, sem clichê, que Cristo é o fundamento da piedade!

MORALIDADE E PIEDADE

Bom, no primeiro vídeo*¹, de John Piper, aprendemos que a o dever não pode ser realizado em termos de mera obrigação. Mera obrigação, regrinhas a serem seguidas, não passa de moralismo, legalismo, 'religiosidade' (no sentido pejorativo do termo). Não é o que Deus quer, e a própria ação moral permeada por moralidade é maculada. Como?
Pois bem, imaginemos, guia-nos Piper, que suspeitássemos que um determinado ato de caridade, seja ele qual for, fosse realizado por mera obrigação. Pensemos em um exemplo concreto. Pensemos em alguém nos ajudando não por prazer, porque nos ama, mas simplesmente porque acha que é o certo a ser feito. Isso não estraga tudo?
Então, por que, afinal, agimos corretamente? A resposta de Piper é que agimos conforme Deus nos ordena porque amamos a Deus pelo que ele fez, através de Cristo, na cruz por nós. Meditar nisso, pensar em que é Deus; quem é Cristo; sua glória; a 'sábia-loucura' da encarnação; as restrições a que se submeteu total e completamente de forma voluntária, sem qualquer necessidade; pensar na dor física de alguém que não precisava experimentar a dor e nem nunca a havia experimentado; pensar na dor psicológica de alguém que aguenta as piores culpas do mundo, em uma quantidade inimaginável, quando nunca foi culpado de nada, imaginar passar o inferno por pessoas miseráveis, indignas de seu amor... é começar a conceber a ação moral em agradecimento a Cristo.

ARREPENDIMENTO VERDADEIRO

O outro vídeo é com R. W. Gleen, e versa sobre o verdadeiro arrependimento*². Dentre as coisas que Gleen destaca temos, essencialmente, o conceito de que o arrependimento genuíno se caracteriza, pensando em seus termos subjetivos, por tristeza pelo pecado e desejo de mudança completa, conversão.
Quanto à essa tristeza, e aqui está o ponto que queremos destacar, não se trata de tristeza por não ter atingido um certo padrão de perfeição moral, nem tristeza por não ter sido melhor do que somos (e, por não termos sido melhores, sentirmo-nos mal), e muito menos é tristeza por ter quebrado os mandamentos. O ponto central é: tristeza pelo fato de que, o que fizemos, custou tão caro a Jesus na cruz maldita! É tristeza em pensar como magoamos a Deus a ponto de ele ter que dar seu Filho Unigênito para fôssemos, individualmente, poupados!
Há uma música, de uma banda de hardcore cristã chamada Dodwood, intitulada de 'Do or Die'*³, que começa com os seguintes pesados dizeres, que, concebidos nesse contexto, fazem todo o sentido:
"Eu matei o filho de Deus hoje
Eu construí a cruz onde ele foi morto
Meus pecados
As mãos que seguraram o martelo, que afundaram os pregos através de sua pele".

O mais importante é que a tristeza segundo Deus (a de Pedro), e não a tristeza segundo o mundo (a de Judas), leva-nos a Cristo, para perto dele, para os seus braços, em busca de perdão e amor. Gleen, mui pertinentemente, observa Paulo a nos informar: "Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende, mas a tristeza do mundo opera para a morte" (2 Coríntios 7:10). É justamente o que ensina o vídeo: sobre a tristeza segundo Deus e a segundo o mundo.

--------------
*¹ Confira o vídeo aqui: https://www.youtube.com/watch?v=QzwwGgNx-OQ
*² Confira o vídeo aqui: https://www.youtube.com/watch?v=V6LOSMB9grw
*³ Confira o um vídeo-clipe com a letra da música aqui: https://www.youtube.com/watch?v=26_Q7A3toSE

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A Crise Existencial e a Resolução no Primeiro Mandamento (Parte 1)

Certa feita, Craig nos despertou à leitura sobre reflexões existenciais. Mencionaremos, nesta artigo, algumas partes do capítulo 2 do livro 'A veracidade da fé cristã', onde o filósofo supra-mencionado nos remete à questão. Mas gostaríamos de sugerir, para quem quiser se aprofundar nestas reflexões, o seguinte vídeo (vejam a série toda):

http://www.youtube.com/watch?v=P8Ak8VVxaGw

Com esta homilia de agora, pretendemos expor sobre a crise existencial, observando sua importância; formas de postergação; incitando-a e, finalmente, buscando uma solução na prática do primeiro mandamento do decálogo, que corresponde a amar a Deus com todas as nossas faculdades e não atribuir nada que pertença exclusivamente a ele, a outro ser.

CRISE EXISTENCIAL

Todos nós já ouvimos falar sobre ‘crise existencial’. ‘Crise’ é uma palavra conhecida. Se configura, segundo o Aurélio, na sua quinta definição, em “Estado de dúvidas e incertezas”; e,na sexta definição: “Fase difícil, grave, na evolução das coisas, dos fatos, das idéias”; a sétima definição traz: “momento perigoso ou decisivo”; a nona: “Tensão; conflito”. Essas são definições pertinentes com nosso assunto. A crise é um momento drástico, decisivo, e, por vezes, perigoso. Agora o adjunto adnominal ‘existencial’ pode causar-nos embaraço, embora saibamos o que ‘crise existencial’ quer dizer. Existência. Ser. Ontos. Uma crise existencial, usando as definições para crise que vimos acima, seria um estado de dúvidas e incertezas relacionados à existência; uma fase difícil em relação à existência; um momento perigoso e decisivo em relação à nossa existência; uma tensão ou conflito em relação à existência.
McGrath pode elucidar a questão. 'Existência'vem do verbo latino, existere, que parece ter o significado básico de 'sobressair-se'. Existir, no sentido pleno da palavra, significa destacar-se do seu meio ambiente [...] todos os tipos de forças desumanizadoras existentes no mundo ameaçam nos rebaixar ao nível do impessoal. Corremos o risco de nos vermos reduzidos a estatísticas e de ver negada nossa individualidade. Corremos o perigo de 'cair no mundo' (Heidegger), imergindo no cenário ao nosso redor e perdendo com isso nossa posição de destaque (MCGRATH, p. 92-93).
Todas essas definições são pertinentes, e, por um certo prisma, expressam uma faceta do que queremos dizer por crise existencial. Crise existencial seria uma inquietação, que chega a algumas pessoas a graus elevados, quanto ao porquê de estarmos aqui. É um momento decisivo, drástico. Precisamos de resposta para prosseguir.
A crise existencial é um fenômeno psicológico que normalmente vem à tona na adolescência. A propósito, é vista como uma característica típica desta fase. Mas, por uma série de questões que não teríamos condições de analisar neste texto, tornou-se um assunto, inclusive, de gestão empresarial (quem quiser uma evidência, leia o, não tão bom, livro de Mario Sergio Cortella chamado ‘Qual é a Tua Obra’, p. 13-16).
Crise existencial é, aliás, representada em outro termo hodierno: espiritualidade. Vejamos as palavras de Cortella:
O desejo por espiritualidade é um sinal de descontentamento muito grande com o rumo que muitas situações estão tomando e, por isso, é uma grande queixa. E a espiritualidade vem à tona quando você precisa refletir sobre si mesmo; aliás, a espiritualidade é precedida pela angústia. De maneira geral, a angústia é um sentimento sem objetivo. Quando você fica triste, é por alguma coisa. Quando você está alegre, é por algum motivo. A angústia se sente e não identifica objeto. Você se levanta e ‘não sei o que está acontecendo, estou com uma coisa, um aperto aqui no peito’. É uma sensação de ‘vazio interior’. (Cortella, p.14).

A pergunta que, primeiro, nos vem à tona é: como superá-la? Isso nos leva a uma questão ainda mais intrigante: alguém já a superou? Talvez digamos, com ar de maturidade e sapiência, que já passamos dessa fase. ‘Crise existencial é coisa para adolescente’, expressaríamos com tons de superioridade. Bom, certamente não.
Antes de mostrar porque não, e como é que os homens adultos a ‘superam’, vejamos algumas descrições mais detalhadas da crise existencial nas palavras dos filósofos cristãos William Lane Craig e Blaise Pascal:
Ao olhar ao seu redor, o ser humano vê apenas trevas e obscuridade. Além disso, até onde seu conhecimento científico está correto, o ser humano percebe que ele é uma partícula infinitesimal perdida na imensidão do tempo e espaço. Sua vida curta é confrontada dos dois lados pela eternidade, seu lugar no universo está perdido no infinito imensurável do espaço, e ele se encontra como que suspenso entre o micro-cosmo infinito interior e o macro-cosmo infinito exterior. Inseguro e desgarrado, o ser humano se debate em seus esforços por levar uma vida feliz e com significado. Sua condição se caracteriza por inconstância, tédio e ansiedade” (CRAIG, 2004, p. 52)
“Não sei quem me enviou ao mundo, nem o que mundo é, nem quem eu mesmo sou. Sou terrivelmente ignorante de tudo. Não sei o que meu corpo é, nem meus sentidos, nem minha alma e essa parte de mim que pensa o que eu digo, que reflete sobre si mesma assim como sobre todas as coisas externas, e não tem mais conhecimento de si mesmo do que delas.
Vejo a imensidão aterrorizante do universo que me cerca, e me vejo restrito a um canto dessa vastidão, sem saber por que fui colocado aqui e não em outro lugar, nem por que o breve período da minha vida me foi atribuído neste momento e não em outro em toda a eternidade que passou antes de mim e virá depois de mim. Em todos os lados só vejo infinito, no qual sou um mero átomo, uma mera sombra que passa e não volta mais. Tudo o que sei é que em breve terei de morrer, mas o que menos entendo de tudo isso é a própria morte da qual não posso escapar.
Assim como não sei de onde venho, também não sei aonde vou. Somente sei que, ao deixar este mundo, caio para sempre no nada ou nas mãos de um Deus irado, sem saber qual desses dois estados será meu destino eterno. Essa é minha condição, cheia de fraqueza e incerteza. (PASCAL apud CRAIG, 2004, p.53).
Alguém estaria disposto a dizer que todo homem adulto já resolveu tamanho impasse? É claro que não. Mas todos, com maior ou menor complexidade de raciocínio, já se perguntou quem é; o que é; de onde veio; para onde vai; o que fazer; como ser feliz. A questão é que, via de regra, não respondemos à estas questões. Então, o que fazem os homens com elas? Como conseguem calar o grito da alma, a angústia, que clamava por respostas? Simples. Ocupação. Primeiro, satirizando [ao nosso entender] a situação humana, Pascal conclui:
De tudo isso concluo que deve passar todos os dias da minha vida sem procurar conhecer o meu destino. Talvez eu consiga encontrar uma solução para as minhas dúvidas; mas não posso me incomodar com isso, não darei nem um passo na direção dessa descoberta(PASCAL apud CRAIG, 2004, p.53).

Craig ainda complementa:
Apesar de seus predicamento, porém, a maioria das pessoas , por incrível que pareça, recusa-se a buscar uma resposta ou até mesmo a pensar sobre o seu dilema (Craig, p. 52)
...as pessoas ocupam seu tempo e seus pensamentos com trivialidades e distrações, para evitar o desespero, o tédio e a ansiedade que inevitavelmente surgiriam se essas distrações fossem retiradas (Craig, p.53).

Ou seja, o homem elegeu a ocupação como um substituto para as reflexões existenciais. Fazer alguma coisa. ‘Este tipo de reflexão é coisa de vagabundo’, esbravejariam alguns. É interessante observarmos que tal solução é, de fato, sugerida, inclusive, por escritores influentes como Goethe e Voltaire:
_ As grandezas – disse Pangloss – são muito perigosas, segundo o relato de todos os filósofos [...]. O senhor sabe....
_ Sei também – disse Cândido – que é preciso cultivar nossa horta.
_ Tem razão – disse Pangloss –, pois, quando o homem foi posto no jardim do Éden, foi posto no jardim do Éden, foi posto ali ut operaretu eum, para que trabalhasse; o que prova que o homem não nasceu para o repouso.
_Trabalhemos sem refletir demais – disse Martinho –; é o único meio de tornar a vida suportável.
[...]
E Pangloss dizia às vezes a Cândido:
_ Todos os acontecimentos estão encadeados no melhor dos mundos possíveis; pois, enfim, se o senhor não tivesse sido expulso de um belo castelo a grandes pontapés no traseiro pelo amor da senhorita Cunegundes, se não tivesse sido apanhado pela Inquisição, se não tivesse corrido a América a pé, se não tivesse dado um bom golpe de espada no barão, se não tivesse perdido todos os seus carneiros do bom país de Eldorado, não estaria aqui comendo cidras em conversas e pistaches.
_ Muito bem dito – respondeu Cândido -, mas temos de cultivar nossa horta (Voltaire em Cândido, p. 134-135).

Aqui, após uma série de desventuras (resumidas nas últimas palavras), os personagens, num último discurso, cansados das reflexões metafísicas de Pangloss, sugerem duas vezes que o que deveriam fazer era trabalhar, como que dizendo que o importante seria trabalhar, e, com ele, deixar de pensar nestas coisas. Percebam o desprezo às reflexões metafísicas e existenciais de Pangloss. Goethe, constantemente, sugere a mesma coisa. Primeiro faz as seguintes reflexões existencialistas pessimistas: “Acontece com o futuro o mesmo que com as coisas que estão longe. Um imenso, obscuro horizonte se estende diante de nossa alma; perdem-se nele nossos sentimentos, bem como nossos olhares, e ardemos, sim!, do desejo de dar tudo o que somos para saborear plenamente as delícias de um sentimento único, enorme, sublime... E quando chegamos lá, quando o distante se tornou aqui,, tudo é o mesmo que antes – continuamos na miséria, em nossa esfera restrita, e nossa alma suspira pela ventura que lhe escapou” (GOETHE, p.39).
Mas logo termina oscilando por uma constatação otimista:
“Considero-me imensamente feliz apenas por poder sentir a simples e inocente alegria do homem que põe em sua mesa um legume que ele próprio cultivou e que apenas o saboreia, mas igualmente, e em um só momento, sorve todos esses dias felizes, a linda manhã em que o plantou, as encantadoras tardes em que o regou e teve o prazer de vê-lo crescer, dia após dia!” (GOETHE, p. 30-40). Ou seja, em outras palavras, o conselho de Voltaire é aqui apreciado. Tudo isso, como salientaram Craig e Pascal, para firmarmos um motivo de existir. Existimos para trabalhar, comer e morrer. Pensar em algo além disso é coisa que não devemos ter tempo para fazer. Temos que trabalhar.
E assim, o homem oblitera suas reflexões existenciais com as ocupações do dia-a-dia. Ele precisa trabalhar, se sustentar; tem prazos, responsabilidades; logo terá família para criar; tem futebol para ver; tem novela para assistir; tem um romance para tomar conta de seus pensamentos... etc. As questões existenciais ficam no porão da alma. Mas acontece que, se não somos instigados a pensar sobre elas, como nesta ocasião, uma outra crise qualquer é suficiente para trazê-la à baila. Uma decepção amorosa; uma frustração trabalhista; uma situação de luto... a crise vêm à tona. E, com as questões não resolvidas, nem mesmo a ocupação poderá nos livrar.
De fato, assim que o homem percebe que não conseguiu dar razões objetivas para sua vida, a depressiva constatação o leva ao desespero. Estão todos os homens que não lidaram com esta questão, os postergadores, sujeitos a tal destino. E, a bem da verdade, Doistoiévski capta muito bem, no 'Recordação da Casa dos Mortos', a idéia de que, se não conseguimos captar um sentido para nossas ações, perdemos a motivação em fazê-las. Antes de expor o trecho, precisamos contextualizar o leitor. O livro relata recordações anotadas de um detento, em uma prisão na Sibéria, chamado Alexandr Petrovich Gorjantchikov. A porção destacada diz respeito a suas reflexões a respeito do trabalho dos detentos:
Certa vez estive a pensar: para se aniquilar um ser humano livre, castigá-lo sem nexo, ou, em vez de um homem livre, se se quisesse fazer um facínora virar um covarde com a só idéia de trabalho, bastaria que àquele e a este se dessem trabalho do caráter mais absurdo e inútil possível. .Os trabalhos forçados das organizações penitenciárias ou de degredo, por menos interesses imediato e individual que apresentem para o detento, pelo menos significam um trabalho que há de beneficiar outrem, digamos assim, e cuja realização tem uma lógica utilitária. O forçado durante o trabalho se considera operário provisório, é pedreiro, abre alicerce, mistura cal, cimento, terra, levanta parede, serra, corta; nisso se aplica, tem um plano a cumprir e ultimar. Não raro se interesse, capricha, colabora. Mas se em tuas horas de tarefa lhe ordenassem levar água dum depósito para outro até enchê-lo, depois esvaziá-lo, indo encher o que antes esvaziou; ou fosse desfiar areia num crivo, ou transportar terra de um canto para outro, depois transferi-la de novo para o local anterior, estou em mim que isso, aquilo ou aquiloutro, ao cabo de uma semana, se tanto, o irritaria a tal ponto que preferiria se enforcar ou então cometeria desatinos de possesso, não aturando tal vilania nem tormento. Essa espécie de castigo seria insensatez hedionda, tortura macabra e inutilidade perversa afetando não só a vítima como os mandantes. (DOSTOIEVSKI, p.21).

BIBLIOGRAFIA

CORTELLA, Mario Sergio. Qual é a Tua Obra? Petrópolis: Editora Vozes, 10. ed., 2010, 144p.
CRAIG, William Lane Craig. A veracidade da fé cristã: uma apologética contemporânea. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo:Vida Nova, 2004. 309 p.
DOSTOIEVSKI, F. Recordação da Casa dos Mortos. Tradução de José Geraldo Vieira. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves, 3 ed., 1988, 267p.
GOETHE, Johann Wolfgang. Os sofrimentos do Jovem Werther. Tradução de Leonardo César Lack. São Paulo: Abril, 2010, 176p.
MCGRATH, Alister E. Apologética Cristã no Século XXI: ciência e arte com integridade. Tradução de Emirson Justino e Antivan Guimarães. São Paulo: Editora Vida, 2008, 368p.
VOLTAIRE. Cândido. Tradução de Marcos Araújo Bagno. São Paulo: Nova Alexandria, 1995, 136p.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Aprenda a Ler a Bíblia: Qual a relevância dos grandes homens do passado?




Permitam-nos citar Machado de Assis. No livro 'Esaú e Jacó', os gêmeos Pedro e Paulo adotam posições políticas conflitantes, desde moços, e arma-se um 'pé de guerra'. Certa feita, cada um compra um quadro com um representante de suas posições políticas (Pedro de Luis XVI, e Paulo de Robespierre) e pregam na cabeceira de suas respectivas camas. Crianças que eram, acabaram por destruir o quadro um do outro. A mãe, intentando uni-los (aqui e em todo o livro), vale-se do seguinte argumento (que, finalmente, é pertinente a este artigo): "Não quero ouvir rusgas nem queixas. Afinal, que têm vocês com um sujeito mau que morreu há tantos anos?" (p.104).
Tal se dá o pensamento de muitas pessoas em relação aos grandes nomes do passado. Muitos questionam-se, alguns com pedantismo e petulância, sobre o valor de se saber o que, por exemplo, Calvino, Lutero, Agostinho e tantos outros fizeram. Entendem, estes, que tudo isto não passa de conhecimento fútil. Por isso, colhi algumas falas de sábios, santos e competentes pensadores mais próximos a nós, para demonstrar quão maligna é esta constatação. Olhemos seus discursos. Nosso interesse, em particular, foca-se na compreensão das Escrituras. Na nota número dois deste artigo: http://panaceiateoreferente.blogspot.com.br/2013/06/aprenda-ler-biblia-parte-3.html, falamos sobre a busca por assistência na compreensão de algum texto. É isto que justificaremos com este artigo.

Primeiro, vejamos Robert Letham, doutor em Teologia Histórica, falando, em seu livro 'A obra de Cristo', sobre a importância de se observar o que outras pessoas, no decorrer da história, disseram sobre a Obra de Cristo (e as recomendações, claro, valem para todo assunto). Letham, pois, nos chama a atenção para dois fatores. "Em primeiro lugar, estaremos enganados se pensarmos que podemos ler a Bíblia somente por nós mesmos. Toda interpretação das Escrituras é construída sobre o que aconteceu antes de nós. No século 19, um pequeno grupo dos Estados Unidos decidiu abandonar o ensino histórico das Escrituras e estudar as Escrituras por si mesma, partindo do básico. Esse grupo publicou uma revista com o resultado dos seus estudos, chamada Studies in the Scrptures. E assim nasceu a seita conhecida como as Testemunhas de Jeová.*¹ [...] Como podemos ver, as Testemunhas de Jeová não fizeram nada verdadeiramente novo; elas apenas reproduziram as heresias do Arianismo do século 4º*². Em segundo lugar, se depreciarmos as dificuldades passadas da igreja, não estaríamos nós cheios de orgulho? Não seria talvez o caso de estarmos tão envolvidos com o que o Espírito Santo esteja nos mostrando agora que nós prestamos pouca atenção ao que ele mostrou a outros? Parte da razão pela qual a tecnologia tem avançado tanto hoje é porque ela possui uma base de um longo período para se apoiar. Ela não tem tentado reinventar a roda!" (p.18).
Roy B. Zuck também nos ajuda a entender a questão: "Quando você está dirigindo um carro, precisa ficar atento a toda a sinalização rodoviária. Algumas placas servem para advertir [...]. Outras mostram a direção [...]. Já outras placas são meramente informativas [...]. De forma semelhante, o entendimento de como pessoas e grupos interpretavam a Bíblia antigamente pode funcionar para nós como uma espécie de sinalização, advertindo, conduzindo e informando. Como placa de advertência, o estudo da história da interpretação bíblica pode ajudar-nos a enxergar os erros que outros cometeram no passado e suas consequências [...]" (p. 31).
Paul Washer também tem algumas palavras a dizer sobre o assunto. Na pregação 'O Evangelho Segundo Jesus Cristo', ele faz sobejos elogios à teologia histórica (o que o doutor em Teologia Histórica que ao seu lado estava, dr. Héber Carlos de Campos Júnior, deve ter aplaudido e regozijado dentro de seu coração). Suas palavras foram que uma das grandes necessidades da Igreja hodierna, e uma imprescindibilidade dos aspirantes ao ministério, é que seja conhecida a história da Igreja. "Como cristão, você não pode se separar de dois mil anos de história da Igreja Cristã. A sabedoria não nasceu com você e não vai morrer com você [...]. Há inúmeros santos que viveram antes de você, e Deus usou muitos deles para mudar o mundo [...]. Você deve estudar a Escritura, e a Escritura tem que estar acima de todas as coisas. Mas quero que você aprenda a estudar a Escritura no contexto da cristandade, no contexto de dois mil anos de história em que homens e mulheres estudaram as Escrituras". Então ele dá um exemplo sobre o estudo do texto que estava pregando (1 Coríntios 15). Ele fala de um preparo relacionado à análise do texto, inclusive, se formos capazes, nas línguas originais e tudo o mais. E, então, após concluída nossa interpretação do texto, surge a questão: "como posso saber que realmente entendi este texto? [...] Uma vez que eu interpretei o texto, volto para a história da Igreja, e me pergunto: será que mais alguém interpretou este texto como eu, ou será que minha interpretação é nova comigo? Se ninguém repetiu a interpretação que faço do texto, então provavelmente estou errado. Se todos os santos através das eras estão em acordo e todos discordam de mim, eu provavelmente estou errado".
Por fim, é bom considerarmos as sugestões de Louis Berkhof sobre o assunto. Ele está a versar sobro o uso correto dos comentários. Colhamos algumas palavras: "Ao procurar explicar uma passagem, o intérprete não deve recorrer imediatamente ao uso dos comentários, uma vez que isso pode impedir toda a originalidade no início, envolver uma grande quantidade de trabalho desnecessário, e ainda resultar numa confusão inútil. [...] Seu trabalho será bastante facilitado se ele abordar os Comentários, tanto quanto possível, com questões definidas na mente. [...]... quando ele [o intérprete] consulta os comentários com uma certa linha de pensamento em mente, estará mais bem preparado para escolher entre as opiniões conflitantes que pode encontrar. Caso tenha sucesso em dar uma explicação aparentemente satisfatória sem a ajuda de comentários, é aconselhável que compare sua interpretação com a de outros. E, se descobrir que sua interpretação é contrária à opinião geral em algum ponto particular, deve ter a sabedoria de cobrir cuidadosamente aquele campo mais uma vez para ver se considerou todos os dados e se suas inferências estão corretas em cada aspecto. Ele pode detectar algum erro que irá compeli-lo a rever sua opinião. Mas se achar que acada passo que deu está bem fundamentado, então deve sustentar sua interpretação a despeito de tudo o que os comentaristas possam dizer" (p.84-85).
Isto não é negar o 'sola scriptura', como observa o reverendo Augustus Nicodemus no vídeo 'A Inerrância da Bíblia'. É observado que Sola Scriptura não quer dizer que não aproveitamos a teologia produzida pela igreja, e sim que a Bíblia é a autoridade final sobre o assunto. Os reformadores afirmavam, por este slogan, que a Bíblia seria a base para a reflexão teológica.

Portanto, a interpretação saudável e o mais exata possível de um texto pede uma consideração à produção histórica, ao que já fora feito por nossos irmãos que nos antecederam no decorrer da história.*³ Vale notar a máxima que justifica o estudo da história: o estudo da história serve para que aprendamos com o passado, repetindo seus acertos, evitando seus erros, e, finalmente, para que entendamos a situação atual. Tais questões se aplicam ao estudo da história do pensamento cristão, e, particularmente, à ampliação de nossas competências para compreender a Bíblia.

-------------
*¹ Empreitada semelhante fez surgir os Adventistas do Sétimo Dia.
*² O teólogo Franklin Ferreira, em aula, neste ano de 2013, no Seminário Martin Bucer, observou que o estudo da Teologia Histórica é importante pelo fato de que, após dois mil anos de história do pensamento cristão, não há muito mais coisas para se descobrir.
*³ Se julgarmos preciso que ampliemos o assunto, elucidando, iluminando e ilustrando a questão, o faremos em outro texto.
_______________
BIBLIOGRAFIA
ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. Fixação de texto, notas e posfácio de Pedro Gonzaga; coordenação editorial, biografia do autor, cronologia e panoramo do Rio de Janeiro por Luís Augusto Fischer. Porto Alegre: L&PM, 2012, 272p.

BERKHOF, Louis. Princípios de Interpretação Bíblica. Tradução de Denise Meister. São Paulo: Cultura Cristã, 2 ed., 2004, 144p.

LETHAM, Robert. A Obra de Cristo. Tradução de Valéria da Silva Santos. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, 272p.

LOPES, Augustus Nicodemus. A Inerrância da Bíblia. http://www.youtube.com/watch?v=91QHD5EdCzM, acessado em 06 de Setembro de 2013.

WASHER, Paul. O Evangelho Segundo Jesus Cristo. http://www.youtube.com/watch?v=CNEfQdVjFqw, acessado em 06 de Setembro de 2013.

ZUCK, Roy B. A Interpretação Bíblica. Tradução de Cesar de F. A. Bueno Vieira. São Paulo: Vida Nova, 1994, 360p.