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sábado, 31 de outubro de 2015

Diálogos Sobre a Religião - Ateu e Reformado debatem moral e doutrina da salvação

O seguinte diálogo é inspirado em várias conversas que tivemos ou debates que vimos. Não se dirige a nenhum de nossos amigos e colegas ateus em particular, mas aos que têm esses argumentos e que, inclusive, já usaram contra nós. Foram vários. Então, não se sinta, caso você se lembre de termos conversado algumas partes desse diálogo, como se estivesse recebendo uma indireta. As mesmas coisas foram conversadas com outras pessoas.
Outra ressalva importante é explicar a preferência por ‘REFORMADO’ ao invés de cristão’. Na verdade não pretendemos fazer grandes explicações aqui, pois já a começamos noutro artigo[1]. Em suma, estamos usando o termo na presunção de que a fé reformada é a autêntica e mais exata representação da fé bíblica. Mas é claro que os argumentos – a maioria, pelo menos, senão todos – aqui esboçados poderia ser usado por outros seguimentos cristãos.



Numa situação qualquer em que um bom cristão, de confissão reformada, se encontra com um amigo ateu e, por qualquer motivo que levaria a uma discussão sobre religião - e eles existem aos montes - começa-se a seguinte discussão:

ATEU - Sabe, meu amigo, há algo que realmente me incomoda nos religiosos...
REFORMADO - Puxa, eu não responderia pelos 'religiosos', mas, tudo bem, diga-me o que é...
ATEU - Eles se acham melhores do que as demais pessoas por serem religiosas, mas na verdade o fato de serem religiosas as fazem, na verdade, piores...
REFORMADO - Como assim? Refere-te a questões históricas?
ATEU - Não, não! Bom, o que eu quero dizer é que, eu, como ateu, sou melhor do que vocês quando faço algo de bom.
REFORMADO - Sério? Como assim?
ATEU - Quando vocês fazem algo de bom o fazem porque querem ir para o céu. Com todo respeito, mas isso é ser mercenário. Nós, ateus, fazemos o bem porque isso é o certo.
REFORMADO - Mas se alguém não quiser fazer o certo ele é mau?
ATEU - Certamente.
REFORMADO - Sob qual critério?
ATEU - oras, ele não estará fazendo o certo.
REFORMADO - E quem falou que ele deve fazer?
ATEU - Mas o que é isso? Está pensando como se fosse um ateu!
REFORMADO - Estou pensando como um ateu mesmo, para mostrar que sua visão de mundo não comporta essas suas afirmações.
ATEU - Então, quer dizer que só quem é crente pode ser bom?
REFORMADO - Bom, 'ser bom' é um conceito difícil. É claro que você pode fazer algo bom. Ninguém duvida disso. Ainda assim teríamos que investigar suas intenções...
ATEU - Justamente! As intenções é que estão em questão...
REFORMADO - Por que alguém deveria fazer o que é certo?
ATEU - Oras, há várias teorias para isso. Gosto bastante daquelas que dizem que devemos fazer o bem para transformar o mundo num lugar melhor...
REFORMADO - Então, no final, é para você mesmo se beneficiar?
ATEU - Não, não. Fazemos porque queremos fazer o bem.
REFORMADO - E se alguém não quiser?
ATEU - Ela estará se prejudicando.
REFORMADO - Sempre?
ATEU - Acho que sim.
REFORMADO - Parece que você está flertando com a ideia de contrato-social, não?
ATEU - Bom, em certa medida, sim, é uma boa justificativa para a ação moral. É racional. Mas esse não é o ponto. Eu faço o bem porque quero e não por qualquer outro interesse.
REFORMADO - Justamente, não é o ponto. O ponto é que vocês não poderiam dizer que alguém que é poderoso o suficiente para ficar impune e que consiga sobreviver por seus poderes tenha que se submeter às regras da sociedade.
ATEU - Claro que tem!
REFORMADO - Por quê?
ATEU - Bom... Ele ficará bem consigo mesmo...
REFORMADO - Então é, novamente, de egoísmo que te acuso.
ATEU - Tudo bem, que seja, qual o problema disso?
REFORMADO - Ser egoísta não é ser mau?
ATEU - Com quais fundamentos afirma isso? Acho que não há problemas ser egoísta...
REFORMADO - Assim como o poderoso impune não vê problemas em fazer as coisas terríveis que faz... A questão é justamente essa. Você move-se sem padrão algum.
ATEU - Movo-me sob o padrão da utilidade!
REFORMADO - E como impedirá o poderoso? 

ATEU - Quer dizer, então, que é correto fazer o bem só para ir para o céu? Ou deixar de fazer o que é mau para não ir para o inferno?
REFORMADO - Bom, em certo sentido, não há problema algum em perseguir o céu...
ATEU - Como não?!
REFORMADO - Pois veja. Existem recompensas naturais e legítimas para um ato, ao passo que existem as contingentes e ilegítimas...
ATEU - Certo.
REFORMADO - Enriquecer-se não é uma recompensa para o amor e se alguém se casa com alguém para enriquecer-se a consideraríamos um mercenário.
ATEU - Sem dúvidas!
REFORMADO - Mas o casamento não é uma recompensa merecida para o amor?
ATEU - Bom, sim... mas...
REFORMADO - Percebo que tal argumento não pareceu convencê-lo, não é mesmo?
ATEU - Não... Bom, veja, é um bom argumento... mas...
REFORMADO - Permita-me completar o raciocínio.
ATEU - Vá em frente.
REFORMADO - Atenta-te para isso. Acreditamos que dentre os anseios e desejos do nosso coração, de nossa alma, está aquele de contemplação da mais pura beleza e do mais sumo bem: Deus. Fomos feitos para adorá-lo. Quando nos convertemos passamos a mirá-lo no horizonte de nossa jornada...
ATEU - Mas o que isso tem que ver com fazer o bem para ir para o céu?
REFORMADO - Aí é que está a grande questão! A fé bíblica é um pouco diferente daquilo que você deve ter ouvido como cristianismo...
ATEU - Como assim?
REFORMADO - Há uma resposta bíblica que muda a perspectiva sobre esse assunto. Paulo, por exemplo, ensina claramente que não iremos para o céu por sermos bonzinhos...
ATEU - Então não importa o que façamos, iremos para o céu?
REFORMADO - Não é isso que estou falando.
ATEU - Ah, então te interrompi. Agora acho que as coisas estão ficando ruins para você... Vou deixar que se enforque. Continue.
REFORMADO - Veremos... Prossigamos. Eu dizia que não é o fato de sermos bonzinhos justamente pelo fato de não podermos ser bonzinhos o suficiente para ir finalmente ser salvo da Ira final de Deus.
ATEU - Ira de Deus? Que conceito antiquado!
REFORMADO - Bom, vamos discutir esse conceito. Mas você não pode continuar me interrompendo, pois levanta uma infinidade de questões às quais não terminei de responder.
ATEU - É que parece que está enrolando...
REFORMADO - Oras, mas de onde tirou que as respostas têm que ser tão rápidas assim?
ATEU- Tudo bem, vá lá, estou tumultuando. Prossiga. É que esse papo de Bíblia me dá náuseas...
REFORMADO - Eu sei que dá. Também tenho imenso desgosto com vários de teus posicionamentos. Mas isso não me impede de discutir contigo, não é mesmo?
ATEU - Mas a maioria dos crentes não é assim...
REFORMADO - Pior para eles. E, por favor, é melhor me identificar como um cristão reformado do que com um 'mero crente', pois o termo já está bem desgastado por essas terras...
ATEU - Como assim?
REFORMADO - Esqueça! Depois conversaremos sobre isso. Por enquanto fiquemos com o assunto soteriológico.
ATEU - 'Soterio' o que?
REFORMADO - Sobre a doutrina bíblica da salvação.
ATEU - Perfeitamente. Siga adiante.
REFORMADO - Bom, eu dizia que não podemos ser bons o suficiente para ir para o céu. Vamos colocar como 'ir para o céu', embora esse conceito também tenha que ser trabalhado.
ATEU - Tudo bem. É o suficiente. Mas, o que quer dizer com 'ser bom o suficiente'? Quanto é o suficiente?
REFORMADO - Ser perfeito.
ATEU - Oras, mas isso é impossível! Deus não poderia exigir uma coisa dessas... isso o torna mau!
REFORMADO - Pelo contrário, meu caro, se ele não exigir algo nesse nível é que ele seria mau. Aliás, isso já irá abarcar aquele assunto sobre a Ira de Deus que falávamos...
ATEU - Meu amigo, isso está muito estranho. Como é que um ser que se Ira e que exige que sejamos perfeitos pode ser bom?
REFORMADO - Verás que concordas comigo. Um ser que é absolutamente bom, justo e santo poderia permitir que o mal fique impune?
ATEU - Como assim? Ele não é misericordioso? Ser misericordioso[2] não é um dos frutos do seu amor, como vocês pregam?
REFORMADO - É mais uma das confusões que vocês fazem, rejeitando um espantalho ao invés da fé cristã.
ATEU - Pois, então, por obséquio, esclareça-me essa questão.
REFORMADO - Com enorme prazer! É bem verdade que Deus é amor e isso o torna misericordioso. Mas para exercer essa misericórdia ele não pode ir contra seus demais atributos. Ele não pode ser mau para ser misericordioso.
ATEU - Hum... acho que começo a compreender. Mas como ele pode ser misericordioso?
REFORMADO - Bom, firmemos, primeiro, que ele é Todo-Bom, correto?
ATEU - Certo. Esse é, pelo menos, o conceito cristão a respeito de Deus.
REFORMADO - Que seja. Acreditamos que toda injustiça e mal cometidos impunemente durante a história da humanidade será, finalmente, julgado no dia do Juízo Final. E lá, pois, Deus não poderá deixar-nos impunes por nossos erros.
ATEU - Tudo bem, vamos ver até onde esse raciocínio dá. Mas já parece estar me enrolando nesse papo de teólogo...
REFORMADO - Ha-ha-ha! Ok, mas vou continuar no papo de teólogo...
ATEU - Siga.
REFORMADO - Bom, uma vez que não podemos, pois, ser bons o suficiente, procuramos uma justiça que não vem de nós. É aí que entra nossa gratidão por Jesus Cristo.
ATEU - Ei! Está me evangelizando?! Queres que eu me torne cristão?
REFORMADO - Oxalá se você se torna-se cristão! É meu desejo declarado desde sempre. Mas, agora, estou expondo minha fé que, em termos filosóficos, é uma exposição da minha cosmovisão no campo da ética e no 'teleológico'.
ATEU - Tudo bem, ouvirei mais um pouco porque você é um cara legal e estudado. No meio de toda essa bobeira deve ter algum conceito interessante...
REFORMADO - ... Bom, vamos lá. Cristo. Ele vai para a cruz para antecipar as punições que teríamos que pagar no Juízo Final, que são, na verdade, altas demais!
ATEU - Hum... certo. Mas aí eu tenho outro problema. Então alguém que é um crápula durante toda a sua vida pode, no final, se arrepender e ir para o céu?
REFORMADO - Sim, mas...
ATEU - Isso é injusto! Deus estaria sendo mau até mesmo sob teus padrões, amigo! Onde está sua ira? O que esse 'malandro-aposentado' perdeu?
REFORMADO - Aí é que está, meu bom amigo! Você não está olhando para o todo. Para começo de conversa, esse homem terá uma grande dor em sua alma pelo que fez. Mesmo que saiba estar perdoado por Deus, sofrerá com as dores na alma pelo resto de sua vida, até que renasça e todas as lágrimas sejam enxugadas.
ATEU - Isso não basta!
REFORMADO - Não mesmo. Você está coberto de razão. É preciso um castigo severo para os seus crimes. Certamente muito mais severo do que nós, com nossas percepções morais míopes, podemos conceber.
ATEU - Claro! Mas, espere, aonde quer chegar? Purgatório?
REFORMADO - Não, não. É certo que não. Essa não é uma doutrina bíblica...
ATEU - Ah, verdade, você não é católico, não é...
REFORMADO - Isso. Reformado. Não se lembra?
ATEU - Ok, mas, e então? Deve esse homem fazer coisas boas para pagar pelas más?
REFORMADO - Que ele deve fazer coisas boas isso não há dúvidas. Que ele deve tentar reparar os erros que cometeu, também não discordo. Mas que as coisas boas cobrem as ruins não há qualquer fundamento bíblico.
ATEU - Não?
REFORMADO - Não. O mau demanda punição e o bem recompensas. Mas a recompensa do bem não é a retirada da punição. Esse conceito é estranho à ontologia moral bíblica. E, instintivamente sabemos disso!
ATEU - Interessante... Mas, o elucide esse 'instintivamente' para mim. Não estou certo de que concordo com isso.
REFORMADO - Bom, embora nosso senso moral possa estar embotado em grande medida, nas faltas mais graves conseguimos perceber com maior clareza o que estou dizendo. Se alguém estuprasse tua mãe, irmã, esposa ou filha você ficaria indignado. Algo muito ruim foi feito. Você sabe que isso demanda punição. Se o estuprador tornar-se um monge não irá satisfazer tua demanda por justiça...
ATEU - É verdade... Mas, então, não estou te entendendo! Esse cara pode ser salvo ou não?
REFORMADO - O que eu disse que foge da sua perspectiva é que há uma punição infinitamente mais severa do que poderíamos imaginar: o próprio Deus resolve encarnar-se, tornar-se homem para sofrer pelos homens.
ATEU - Então o flagelo divino recai sobre Cristo?
REFORMADO - Justamente. E, não, não é um mero flagelo, mas toda a Ira final de Deus contra o pecado! É algo terrível. Muito pior quando consideramos a natureza de quem padece do furor divino: Cristo, o homem-Deus, totalmente santo e justo.
ATEU - Mas não foi injusto que alguém tão bom assim sofresse as injustiças dos outros?
REFORMADO - Certamente seria injusto se ele fosse obrigado a fazer isso. Mas ele voluntariamente resolveu sofrer por nós.
ATEU - Ok, caro amigo reformado. Isso parece fazer sentido. Mas e quanto à questão inicial?
REFORMADO - Bem lembrado! Bom, como eu falava, nós, os autênticos cristãos, definidos assim segundo a própria Bíblia, não fazemos o bem para ir para o céu. Nós já temos por garantido o céu. Nós fazemos o que é certo justamente por sermos cidadãos celestes por antecipação...
ATEU - Como assim? Como é que têm essa certeza? 
REFORMADO - É preciso crer em Cristo...
ATEU - Como assim? É só dizer que se acredita e fim? É como um passe órfico para ser dito no dia do Juízo Final?
REFORMADO - Não mesmo, meu amigo. Jesus disse que naquele dia alguns iriam regozijar-se na sua vinda, mas ele lhes dirá: eu não conheço vocês!
ATEU - Uau! Que pesado...
REFORMADO - Certamente, terrível! Mas na mesma passagem em que isso é dito se diz que Jesus os rejeitará porque, embora o tenham como salvador, não o têm, de fato, como 'Senhor'. Isto é, eles se submetem a Cristo enquanto aquele que os livrará da ira vindoura. Mas não o reconhecem como Senhor e Deus.
ATEU - Então é preciso acreditar que ele é Salvador, Senhor e Deus?
REFORMADO - Basicamente sim.
ATEU - Ok, se eu disser que acredito nisso, então estou garantido?
REFORMADO - Não, não. Isso é uma confissão do fundo do coração.
ATEU - Que, no caso, só Deus vê... Então um crápula, um facínora, pode, no fundo, acreditar nisso...
REFORMADO - Não, cara, você está entendendo errado, mais uma vez...
ATEU - Oras, o que me falta entender?
REFORMADO - Bom, na verdade falta-te muita coisa no que diz respeito à fé cristã, mas para nossos propósitos é importante que compreenda a dinâmica da fé.
ATEU - Ok, termina de explicar isso que tenho que ir.
REFORMADO - Pois bem, fechemos, pois, nisso.
ATEU - Não que tenhas me convencido a tornar-me um cristão. Só está me explicando melhor teu ponto de vista...
REFORMADO - Bom, é uma pena que não, mas, seja como for, exponho-te o que não é meu, mas do próprio Deus conforme ele revelou.
ATEU - Segundo tu crês...
REFORMADO - Pois bem, terminemos... ou então levantaremos outra discussão!
ATEU - Ha-ha-ha. É verdade. Termina-me de explicar, então, como a Bíblia resolve essa questão.
REFORMADO - Pois bem, crer em Cristo significa acreditar em tudo que as Escrituras dizem sobre ele. Isso implica em acreditar na dignidade de sua pessoa, na nossa culpabilidade, e no grande favor feito por Deus na Cruz. Não é possível observar a tudo isso de forma apática. Quem não tiver sua consciência afetada por isso é por não acreditar que Jesus e realmente Deus, e que na cruz ele padeceu infinita dor que cabia a nós por nossos erros. Só aí já se demanda, a partir da crença, um tipo de atitude diferente.
ATEU - Então quem acredita no Jesus da Bíblia...
REFORMADO - Que é o Jesus da História!
ATEU - Tudo bem, mas eu usei 'da Bíblia' para diferenciar dos conceitos errados que as pessoas têm sobre Jesus, conforme você disse.
REFORMADO - Ah, perfeito! Ótimo, perdão. Continue.
ATEU - Bom, então, como eu estava falando, quem acreditar nesse Jesus também terá acreditado que seus erros são tão maus que fizeram com que Jesus tenha morrido.
REFORMADO - Perfeitamente! Mas, como se isso não bastasse, e o pecado (o erro moral) seja um ultraje ao sacrifício de Cristo, reconhece-se, com a divindade de Cristo, que ele é, portanto, Senhor. Isso quer dizer que devemos lhe obedecer se de fato acreditamos em Jesus. E não só isso, como acreditar que sua vontade é boa, perfeita e agradável mesmo quando não a compreendemos como possuindo esses atributos, de modo a sempre buscar obedecê-lo.
ATEU - Bom, então se alguém diz que acredita em Jesus Cristo, mas não tem uma vida correta, então não é cristão coisíssima nenhuma!
REFORMADO - Exatamente.
ATEU - Então muitos cristãos não irão para o céu.
REFORMADO - É o que o próprio Cristo disse copiosamente.
ATEU - Bom, mas isso me faz pensar numa série de outras questões... infelizmente não há mais tempo para mim. Vou seguindo adiante. Foi bom conversar com você! Qualquer dia voltaremos para esses assuntos de teologia e Bíblia. São até interessantes. Quem me dera se todos os cristãos pensassem como você...
REFORMADO - Vá lá, meu amigo. Até a próxima.

 PS: As duas imagens no decorrer do texto foram tiradas do facebook da ATEA, para mostrar que são ataques reais feitos à fé cristã, e não coisas da cabeça do autor do diálogo.


[1] Referimos-nos a este artigo: Afinal, quem REALMENTE são os evangélicos?
[2] Para ampliar a discussão sobre esse ponto, veja: Prolegômena à Predestinação: uma questão de justiça

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Diálogos sobre a Homossexualidade


Era um jantar em família. Uma família tradicionalmente cristã - embora fosse só uma confissão nominal -, reúne-se em um restaurante para comemorar a Páscoa. Mais cedo já haviam trocados ovos de chocolate e todos estavam contentes. Dentre as várias pessoas que ali se encontravam, três nobres senhores [e o adjetivo certamente será subtraído a um deles, no decorrer do texto... fica aqui apenas como efeito retórico], com cosmovisões muito distintas, merecem nossa atenção. São parentes. Um é um homossexual, e o chamaremos de Sr. Rosa. Outro é um homofóbico que será denominado de Sr. Vermelho [até porque comunistas não se davam muito bem com homossexuais... mas pensamos na cor mais para simbolizar violência, sangue]. O terceiro e último homem é o Sr. Cristão, e trata-se de um bom cristão reformado (que acredita que os proponentes da Reforma Protestante estavam certos e que realmente remontaram a fé original, bíblica). Também, não haveria como não notá-los. Por 'força do destino', o assunto acabou rumando-se para aquelas questões polêmicas típicas que tumultuam um encontro desses e geralmente não são nada produtivas. O assunto era homossexualidade. O Sr. Rosa, suspeita do Sr. Vermelho e aproveita para, elegantemente, evocar a discussão diante dos presentes, o que lhe conferiria certa segurança e poderia angariar repúdio ao pensamento daquele que tanto lhe quer mal. Em certo sentido, era uma medida preventiva. E lhe doía o desprezo de seu parente, principalmente o que ele insistia em propagar aos demais familiares noutras ocasiões que não estava presente. Além disso, o parente que tinha menos contato, o sr. Cristão, possivelmente devia fazer o mesmo, embora os exemplos de Cristo pudessem torná-lo mais ameno. Seja como for, se ele coadunasse com o Sr. Vermelho, já seriam dois coelhos com uma cajadada só.

Sr. Rosa - Vocês explicam como, para vossos filhos, a respeito da relação entre coelho, ovo e chocolate?
Sr. Vermelho - Não precisamos explicar. Têm apenas que aceitar.
Sr. Rosa - Mas, então acham possível que convivam com essa besteira e não conseguem explicar que duas pessoas do mesmo sexo se amem?
Sr. Cristão - Não acredito que devemos chamar nem a um nem a outro de normal. Nada me obriga. Posso explicar para meus filhos que as coisas não são bem assim.
Sr. Vermelho - Além disso, uma coisa é um mito, uma lenda. É algo imaginativamente possível. Não tem que ver com conduta moral...
Sr. Rosa - O que dizem a vossos filhos sobre mim? - perguntou meio que para quem quisesse responder.
Sr. Vermelho - Que você faz algo muito errado! - respondeu, de prontidão, ainda que tentando se conter.
Sr. Rosa - Só isso? E eles acham que sou uma espécie de criminoso? - insistiu ao suspeitar que o Sr. Vermelho tivesse mais para falar.
Sr. Vermelho - Talvez, mas eu vos ensinei que não adiantaria prendê-los, pois poderiam apreciar o cárcere... - falou diminuindo um pouco o tom por perceber ter dito algo muito ofensivo, mas achava-se no dever de falar o que cria.
Sr. Rosa - E você, sr. Cristão, o que me diz. - disse, contendo-se, por ser educado, após ouvir o que achou uma barbaridade da parte do Sr. Vermelho.
Sr. Cristão - Em partes, penso como o sr. Vermelho. Acho que fazes algo muito errado. Entretanto...
Sr. Rosa - Poderia dizer-me, pois, qual a diferença entre vocês dois? - interrompeu-o abruptamente, já um tanto quanto alterado emocionalmente diante de uma confissão assim, começando a sentir-se, inda que não numa dimensão perfeitamente consciente, malquisto por toda a família. - Afinal, não foi Jesus quem ensinou-vos amar ao próximo? Quando Jesus disse que devemos fazer aos outros o que queremos que nos façam, não inclui igualdade? Responda-me, sr. Cristão, pois sei que és interessado em teologia e vives a conversar sobre essas coisas. Não conheces esses textos?
Sr. Cristão - Bom, sr. Rosa, eu entendo seu estado emocional diante do que ouvistes. Mas quero assegurar-te, antes de mais nada, que não concordo que sejas um criminoso e que mereces algo pior do que o encarceramento...
Sr. Vermelho - Eu não disse 'algo pior'!
Sr. Cristão - Tudo bem, sr. Vermelho. Seja como for, no mínimo pareces dizer que os homossexuais merecem uma punição semelhante ao dos criminosos. Quero que saibam que eu não penso assim e estou persuadido de que não é a posição bíblica a esse respeito.
Sr. Vermelho - Veja que não sou cristão, mas sei que a Bíblia mandava apedrejar (ou algo assim) aos que faziam essas abominações.
Sr. Rosa - Perfeitamente, sr. Cristão. Como respondes a isso? A Bíblia, também, no mesmo momento que condena a homossexualidade - o que há bons intérpretes que discordam, mas não vem ao caso -, recomenda compra de escravos e até o formato da barba e corte de cabelo! Parece que o sr. não é tão coerente assim com esses deveres. Como excluis uns e não outros? E não venhas me dizer que aqueles que rejeita caducaram ao passo que os preceitos que aceita permanecem. Parece-me arbitrário arguir assim.
Sr. Cristão - Bom, temos que nos acalmar aqui. Estamos abrindo muitas pontas soltas e creio que não estão dispostos a me ouvir discursar demoradamente sobre esses temas.
Sr. Vermelho - Se te demoras é porque está nos enrolando.
Sr. Rosa - Não pode nos responder de forma resumida?
Sr. Cristão - Há questões complicadas que demandam explicações mais elaboradas. É a natureza do problema que determina sua complexidade.
Sr. Rosa - Pois tente um resumo, por favor! Quero muito entender-te. Prometo esforçar-me pare entendê-lo. Posso até pesquisar mais sobre. Sei como é não ser compreendido e ter muito a falar...
Sr. Vermelho - ...
Sr. Cristão - Bom. Deixa-me resumir da seguinte maneira. Existem critérios lógicos que os teólogos, no decorrer dos anos, elaboraram para explicar o fenômeno neotestamentário de abraçar algumas leis e rejeitar a outras. Afinal, os apóstolos e a igreja primitiva não andavam em conformidade com todas as prescrições do Pentateuco, i. é., dos livros de Moisés.
Existe uma noção muito popular que divide a 'Lei' (como é, também, chamado o Pentateuco - mas há momentos em que usamos o termo para o decálogo e outras para a lei moral) entre leis cerimoniais, leis civis e leis morais. As cerimônias e as leis civis tinham valores transitórios, para um momento específico da história da humanidade, especialmente voltadas para os judeus. As leis cerimoniais eram leis litúrgicas e não obrigavam a mais ninguém além dos judeus. E num regime teocrático, ou mesmo na monarquia hebreia, haveria uma rigidez muito grande para com as coisas santas...
Sr. Rosa - E nessas 'coisas santas' incluía a morte dos homossexuais?
Sr. Cristão - Sim, certamente. Mas, espere, não me interrompa ou então não compreenderás a questão. Da mesma forma que o homossexualismo era punido com morte, também o era o adultério, o estupro e até mesmo a rebeldia indomável de um jovem que se levanta contra seus pais. Era inadmissível que os valores celestiais não fossem estritamente observados num povo que portaria a descendência do Messias! Bom, essa é uma divisão útil, mas prefiro, ainda, uma outra divisão...
Sr. Rosa - Mas, sr. Cristão, as pessoas nascem homossexuais! Não é uma escolha!
Sr. Cristão - Sr. Rosa, insistes em me interromper. Assim não poderás compreender muito bem meus posicionamentos.
Sr. Rosa - É que não pensei que falavas tão a sério quando dizias que demorarias...
Todos dão algumas gargalhadas, quebrando um pouco da tensão. Algumas mordiscadas na comida que já esfriava e tornaram ao diálogo.
Sr. Rosa - Bom, sr. Cristão, acredito que já entendi o seu ponto. As normas se restringiam a uma determinada situação política ou para um determinado problema específico, como não comer carne de porco por não terem condições assépticas para evitar doenças na época...
Sr. Cristão - Algo nesse sentido.
Sr. Rosa - Mas, e quanto à escravidão?!
Sr. Cristão - É outro assunto que demanda uma dosagem de paciência... Bom, basicamente, os judeus humanizaram a prática social tão comum da antiguidade. Escravos sexuais seriam abomináveis. Os escravos deveriam ser tratados como pessoas, seres humanos que, por eventualidades, acabaram por chegar àquela situação social. Não poderiam trabalhar mais do que um trabalhador qualquer e deveriam ser tratados com amor. Muitos se apegavam à família a quem serviam. Haviam possibilidades múltiplas de alforriar-se mas mesmo assim alguns insistiam em continuar com seus amos. Não te estranhas que os profetas que fizeram tantos discursos sobre desigualdades e injustiças sociais não tenham se compadecido deles? O assunto não lhes era estranho. Eles foram escravos dos egípcios e foram tratados de forma muito ruim. No entanto, o escravo dos hebreus seria, inclusive, circuncidado e levado a cultuar a Deus junto a eles! Isso, para os judeus, era o reconhecimento maior de sua dignidade.
Sr. Vermelho - Não estou tão certo assim de que essa argumentação convence e entendo que naqueles tempos era comum tomar os povos vizinhos, conquistados nas guerras, como escravos...
Sr. Rosa - E achas que isso é certo agora?
Sr. Vermelho - É certo que não!
Sr. Rosa - Então admites que pode haver progresso social?
Sr. Vermelho - Sim. Mas não significa que toda novidade deva ser tomada como progresso.
Sr. Cristão - Perfeitamente, sr. Vermelho. Finalmente deras uma dentro nesta noite!
Sr. Rosa - Mas estou a rejeitar a modernidade, senhores! Por um acaso acreditam que devamos voltar a ter escravos? Devemos suprimir o sufrágio feminino?
Sr. Cristão - De modo algum! Mas você deve entender que apreciarmos uma cultura não implica em abraçarmo-la toda. E ao criticar uma parte não temos que rejeitá-la, igualmente, de forma integral.
Sr. Rosa - Mas não consideras a igualdade entre os homens como um progresso modernos?
Sr. Cristão - Isso depende muito do que queres dizer com igualdade.
Sr. Rosa - A aceitação do homossexualismo é uma expressão de igualdade. Se antes os homens eram bárbaros e agora podem pensar melhor sobre essa questão, então certamente estamos em condições mais adequadas. Ou não acreditas que o fim da discriminação - ao menos oficial - não constituiu progresso.
Sr. Cristão - Acredito! Mas não acredito que a causa gay o seja.
Sr. Rosa - Mas você tem que ver que é apenas um desdobramento natural da cultura que, em grande parte, foram vocês mesmos que construíram. Como, agora, decidem abandonar suas crias?
Sr. Cristão - Estais muito equivocado, sr. Rosa. Lembra-te que o homossexualismo era uma prática comum na sociedade romana, entre os espartanos e noutros momentos e situações históricas antigas. Há quem diga, inclusive, que os professores gregos, na antiguidade, praticavam sexo com seus alunos que não são, exatamente, o que chamaríamos hoje de maiores de idade. Nesse sentido, poderíamos dizer que estamos regredindo e não progredindo. Aliás, para que a prática fosse condenada no livro de levítico temos de concordar que fosse antiga. E por haver uma pontual crítica, na Torá (outro nome para o Pentateuco) aos costumes pagãos antigos, é de se presumir que esse era um costume de povos antigos pagãos.
Sr. Vermelho - Além disso, o homossexualismo é anti-natural! Até a Bíblia fala isso - e corrija-me se eu estiver equivocado, sr. Cristão!
Sr. Cristão - Está correto. Paulo, por exemplo, o diz em sua epístola aos Romanos.
Sr. Rosa - Pois eu já digo que é natural. Aliás, sr. Cristão, você não me respondeu o que fazer com essa questão pois, afinal, é congênito. Como poderíamos, pois, deixar de pecar?
Sr. Vermelho - Natural? Não mesmo!
Sr. Rosa - Isso não constitui uma refutação, sr. Vermelho. Só um esbravejamento, e ética não se elucubra com meras expressões subjetivas. Até, aliás, reformulo o que disse. Eu diria que o termo 'natural' é um tanto quanto polissêmico. O que querem dizer com isso?
Sr. Vermelho - Permita-me, primeiro, sr. Cristão?
Sr. Cristão - Sim, à vontade! Aproveito e como um pouco enquanto vos ouço.
Sr. Vermelho - Muito bem, sr. Rosa. Acredito que não podes negar que há males para a própria preservação da espécie se aceitarmos, como legítimo, o casamento gay, não é mesmo?
Sr. Rosa - Discordo. Se legitimarmos o casamento gay e coisas do tipo não estaremos, com isso, obrigando ou forçando as pessoas a se tornarem homossexual. Acredito, certamente, que muitos sentir-se-ão menos agrilhados e o que chamam por aí de 'sair do armário' tenderá a crescer.
Sr. Vermelho - Então concordas que a liberação acabará por influenciar a sociedade?
Sr. Rosa - Não determinantemente, e nem predominantemente. A maioria das pessoas continuam sendo heterossexuais nos lugares mais permissivos - se é que são mesmo, pois acredito que todos tenham alguma tendência...
Nesse momento o sr. Vermelho fez um movimento brusco e o sr. Rosa viu que exagerou.
Sr. Cristão - Sr. Rosa, se algum cristão o interpelasse dizendo que, no fundo, o senhor sente atração por mulheres, o senhor sentir-se-ia satisfeito?
Sr. Rosa - É evidente que não! Já entendi seu ponto. Perdoem-me. Mas pareces admitir que é congênito...
Sr. Cristão - Protelemos este ponto. Continuem de onde pararam.
Sr. Vermelho - Muito bem. É inegável que a aceitação da sociedade fará com que várias pessoas assumam-se gays. Muito mais do que agora. E muitos o farão, até mesmo, por moda. Isso minorará nossa capacidade procriativa.
Sr. Rosa - Bom, primeiro que, por esse raciocínio, terias de condenar tudo o mais que não procria.
Sr. Vermelho - Como assim?
Sr. Rosa - O celibato também teria de ser condenado, posto que atenta contra a preservação da espécie.
Sr. Vermelho - Talvez. Por que não? Fazes um ad baculum!
Sr. Rosa - Ok. E achas que o baculum não lhe atinge? Pois mostrarei que atinge...
Sr. Cristão - Permitam-me interrompê-los por um breve instante. Preciso salientar que não considero, como parece considerar o sr. Vermelho, a preservação da espécie como o valor supremo pelo qual se julga todas as demais coisas. E é evidente que não recrimino o celibato. Não em si, conforme as Escrituras... Mas, prossigam.
Sr. Rosa - Bom, sr. Vermelho, o senhor compactua com a ideia de que o os homossexuais agem contra a natureza por praticarem sexo que não é para a procriação?
Sr. Vermelho - Até porque não podem, não é mesmo...
Sr. Rosa - Indubitavelmente que não. Mas não vem ao caso. Sei que não és católico também. Por isso, não tomas o sexo como se tivesse esse único fim.
Sr. Cristão - E diante de um católico, o que dirias?
Sr. Rosa - Diria que, se assim fosse, eles teriam de parar com uma série de outras práticas que parecem dar uma utilidade secundária para os vários órgãos que têm. Eles usam a boca para beijar, e ela parece ter sido feita para comer e falar. Usam as mãos para tocar violão, além de servirem para a obtenção de alimento. Além disso, teriam de proibir a masturbação e o sexo oral também.
Sr. Cristão - Argumentação interessante. Mas eles proíbem masturbação. Retires essa parte do argumento...
Sr. Rosa - Hum. Percebo. Enfim, o argumento se segue. Além disso, se corrermos para a ideia de que os órgãos estariam sendo usados para fins inapropriados, ou não naturais, estaríamos incorrendo em grandes dificuldades. Seria como se alguém tivesse pensado neles...
Sr. Vermelho - Já entendi o seu ponto.
Sr. Cristão - Noto que essa argumentação teria poder de convencimento somente sobre aquele que concorda com os teus pressupostos naturalistas. Se Deus existe e criou o homem, é perfeitamente razoável pensar que os órgãos foram criados para fins determinados e que usá-los para outros fins seria errado.
Sr. Rosa - Os olhos foram feitos para ver. Mas isso te impede de dar uma boa piscadela?
Sr. Cristão - Não. Mas as mãos foram feitas para vários fins, conforme a criatividade humana, que é dom de Deus. No entanto, elas podem ser usadas de forma inadequada para matar. E de fato foram.
Sr. Rosa - Mas não são vocês que defendem que existe guerra santa e coisas do tipo? Nesse caso, há um uso legítimo das mãos para causar dano.
Sr. Cristão - Como tu abres pontas, sr. Rosa! É bem possível que eu tenha deixado algum ponto sem responder por não conseguir me lembrar de todos, e não por não ter respostas. Pois bem, percebestes o meu ponto. Há momentos adequados e pessoas certas para usarmos nossos membros, órgãos e afins. E o sexo é destinado aos casais.
Sr. Vermelho - É fácil mostrar que é contra a natureza! Basta olharmos para a maioria esmagadora das pessoas sobre a terra. Logo será notado que é algo anormal.
Sr. Rosa - Irritar-te-ás, mas tenho que refutá-lo novamente. Se as coisas são decididas, assim, por estatística, então ser albino, que é 'anormal', é, também, errado.
Sr. Vermelho - Mas ser albino não é opção ou ação moral!
Sr. Rosa - E quem falou que ser gay o é?!
Sr. Cristão - Parece inevitável que entremos nessa questão, não é mesmo? Bom, para começo de conversa, sr. Rosa, crês que as condições biológica são indelevelmente determinantes?
Sr. Rosa - Bom, às vezes sim, às vezes não. Também acredito e admito no poder educativo. Mas acredito que a força mais determinante é a biológica.
Sr. Vermelho - Então acreditas que um psicopata também não tem escolha?
Sr. Rosa - Não é isso!
Sr. Cristão - Parece-me um corolário do que afirmas e pressupões, senhor Rosa. Aliás, parece-me enredá-lo também, sr. Vermelho.
Sr. Vermelho - E como tu vês isso?
Sr. Cristão - Acredito que existam fatores espirituais determinando as escolhas. Mas há cristãos que acreditam que as escolhas não são eficientemente determinadas, e outros que as vêem fortemente influenciadas. Não vem ao caso entrarmos nessa discussão prolongada da teologia agora, acredito eu.
Sr. Vermelho e Sr. Rosa - Não mesmo!
Sr. Rosa - Muito bem, sr. Cristão, ainda quero tua apreciação. Como é que eu, que sinto atração natural por homens, poderia deixar de pecar?
Sr. Cristão - Na verdade é muito simples, mas como tudo que envolve conselhos sexuais, dado seu poder de nos mover, é difícil de aceitar. O que tens que entender é o seguinte. A Bíblia não condena as tendências homossexuais. A Bíblia condena as práticas homossexuais, e essa distinção é crucial!
Sr. Rosa - Mas seria legar-nos uma vida muito infeliz, sem poder amar!
Sr. Cristão - Na verdade, concebes a felicidade e a santificação de forma pobre, caro sr. Rosa. Para começo de conversa, a santificação demandada pelas Escrituras implica em abdicação da parte de todos. Alguns em maior grau, outros em menor. De alguns exige a castidade. Acredito que o mesmo se dê com os que têm tendências homossexuais. Por exemplo, condenamos a promiscuidade, a fornicação o adultério e demais pecados sexuais, e a prática homossexual está inclusa. Aliás, é possível até mesmo que alguém que não tenha tendências homossexuais resolva 'experimentar', o que seria condenável da mesma forma. Pessoas menos dotadas de beleza ou com alguma deficiência podem querer se rebelar e voltar-se a qualquer tipo de relacionamento que o Senhor desaprove. Entretanto, aquele é o fardo que fora destinado a elas. Podemos e devemos tentar ajudar de todas as formas possíveis, mas não podemos ceder que elas pequem para tentar aliviar suas dores.
Sr. Rosa - Algo ficou pendente! Como sei que essa norma que proíbe o homossexualismo não é mais uma daquelas obsoletas?
Sr. Cristão - Bom, praticamente porque a razão de ser dela não cessou. Não tornou-se natural...
Sr. Rosa - Novamente a questão do 'natural'...
Sr. Cristão - Mas veja que justifico minha teleologia. Além do mais, o fato de um homem e uma mulher conseguirem procriar parece-me, sim, um indício de que são o par natural.
Sr. Rosa - Falas como se fosse uma doença!
Sr. Cristão - Bom, certamente é um 'defeito', fruto do pecado no mundo, e que manifesta-se particularmente causando esse desregulamento.
Sr. Rosa - Se concebes que alguém com tendências naturais para crimes deves conter-se e agora parece falar da mesma forma a respeito do homossexualismo...
Sr. Cristão - Tens, tal como aqueles, que conter teus impulsos. Por mais desagradável que seja, é assim que tem que ser. E é assim para ti e para ele. Tens que admitir que dentro de um quadro teórico que toma os pressupostos bíblicos, as coisas são assim.
Sr. Rosa - Pois prossiga na explicação da Bíblia Sagrada.
Sr. Cristão - Bom, como era uma norma moral, que não cessou as razões para existir, e que é reiterada no Novo Testamento, então é fato de que é bíblico continuar a afirmar que é pecado a prática homossexual.
Sr. Rosa - Mas, então Deus quer que sejamos infelizes?
Sr. Cristão - Não, sr. Rosa. Certamente é possível que ele queira que tenhas vida casta. Mas estaria, apenas, privado de uma alegria, e não de todas, muito menos da principal, que é saciar a sede de tua alma com a água da vida. Além disso, há esperança. Eu mesmo conheço pessoas com tendências fortes ao homossexualismo que acabaram conseguindo superá-las e até namoram! Algumas relatam que perderam toda a atração para com o mesmo sexo! Mas só Deus sabe qual será teu destino. Uma coisa é certa, ele quer que te retraias.
Sr. Rosa - Percebo... mas não acredito no teu Deus!
Sr. Vermelho - Não precisa, retomemos a questão da preservação da espécie...
Sr. Rosa - Essa é fácil de responder, sr. Vermelho. Basta que os gays se reproduzam com barrigas de aluguel, inseminação in vitro e coisas do tipo... Entre os teus argumentos e os do sr. Cristão, é muito mais razoável acompanhá-lo.
Sr. Cristão - De fato, por um viés utilitarista, acho difícil condenar a prática homossexual. Ela parece-me tão ameaçadora quanto aquelas mentirinhas insignificante que as pessoas contam. Mentiras que não prejudicam a ninguém. Aparentemente, se são insignificantes nos resultados que produzem, são também para a moral em si. O problema é que, se existe um Deus, os valores existem objetivamente, e mesmo que as transgressões não produzam algum efeito ruim, elas são más em si. A propósito, uma cosmovisão cristã consistente, inclusive, admitiria que as coisas podem até estarem desequilibradas nesse mundo. Injustiças não são sempre castigadas, por exemplo. Mas isso se dá porque ainda estamos numa realidade de 'Queda'. O mundo não é o que deveria ser por causa de sua contaminação pelo pecado. Talvez seja por isso que as coisas não venham a dar tão errado para várias injustiças.
Sr. Vermelho - E o que respondes às questões a respeito de serem felizes, sr. Cristão? Sei que condenarias minha juventude também, mas estava apenas sendo feliz...
Sr. Cristão - Estaríamos entrando, talvez, para um outro assunto...
Sr. Rosa - Não, de forma alguma. É, ainda, sobre sexualidade.
Sr. Cristão - Bom, o problema é que estão tomando felicidade por hedonismo grosseiro. Nem é preciso ser cristão para saber que isso não traz, necessariamente, felicidade...
Sr. Rosa - Eu não estava encarando as coisas assim. Falava de amar de verdade...
Sr. Cristão - Bom, faríamos um looping eterno aqui, pois eu insistiria que a maior felicidade está em encontrar-se com Cristo e as outras coisas são, embora importantes, adendos.
Sr. Rosa - Ainda acho que furtam nossos direitos ao mesmo tempo que pregam igualdade. Parece, pois, que a Bíblia é incoerente.
Sr. Cristão - Bom, seria interessante salientarmos que os direitos de igualdade conquistados por mulheres e negros devem muito às investidas de cristãos... Mas, detenham-nos no que dissestes. Igualdade é o direito de toda pessoa poder se casar. Mas casamento, essencialmente, é, segundo as Escrituras, algo realizado entre um homem e uma mulher.
Sr. Rosa - Mas isso não limita o conceito de igualdade?
Sr. Cristão - E dirias que o conceito de liberdade é limitado quando eu digo que não podes intentar contra minha vida?
Sr. Rosa - Não mesmo!
Sr. Cristão - Pois bem, acredito que o fazes porque acredita que a liberdade é condicionada e cerceada por princípios. A igualdade também. Todo homem tem o direito a relacionar-se com uma mulher. Toda mulher tem o direito de relacionar-se com um homem. Quando se diz 'ter direitos iguais', queremos dizer que algumas coisas lhe são inerentemente pertencentes. A questão é discutir o que são essas coisas.
Sr. Rosa - Pois digo que é amar e ser amado por quem bem se entende.
Sr. Cristão - Inclui, pois pedofilia?
Sr. Rosa - Claro que não! A criança não pode consentir de forma não viciosa!
Sr. Cristão - Inclui, zoofilia?
Sr. Rosa - Também não!
Sr. Cristão - Com todo o respeito, mas não vejo com quais critérios elimina esses itens. E vou mais além, digo que dizes o que é certo e errado recorrendo a algum padrão absoluto de moralidade.
Sr. Rosa - Aonde queres chegar com isso?
Sr. Cristão - Que se o padrão disser que é errado fazer algo, não importa se as pessoas consentem ou se acreditam ter esses direitos.
Sr. Rosa - Tudo bem, mas e se eu não aceito esse padrão?
Sr. Cristão - Terás de justificar o padrão pelo qual decides...
Sr. Rosa - Combinado, mas deixemos essa discussão para outro momento. Por hora, eu diria que rejeito o teu Deus.
Sr. Cristão - Sim, todos já estão fartos. Eu concluiria que é o único jeito de continuares sustentando teu homossexualismo.
Sr. Vermelho - Bom, boa noite a todos. De ti, sr. Rosa, não quero nem amizade.
Sr. Cristão - Pois faço questão de devotar-lhe carinho e respeito, desde que mantenha o decoro e o pudor na frente de meus filhos e dos filhos dos outros, como demonstrastes hoje pela noite. No mais, serás tratado por mim com a misericórdia que trato meus amigos que vivem vidas desregradas. Entendo que continuas em rebeldia contra Deus e quero demovê-lo desse caminho.
Sr. Rosa - Pois aprecio muito sua postura, sr. Cristão. Espero que estreitemos os laços e tu possas me apresentar esses seus amigos que mudaram de vida para que eu veja com meus próprios olhos e ouça deles mesmos o que lhes aconteceu.
Sr. Cristão - Será um prazer!

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Sobre filosofia e ser filósofo... (Parte 2 - A Filosofia da Religião)



Uma vez estabelecido que a dúvida, oriunda do espanto, é o fundamento e a semeadora da filosofia [se ainda não leu a primeira parte, clique aqui], há ainda passos a lidar em relação à compreensão do que é a filosofia e o que é um filósofo. A resposta, pois, girará em torno de lidar com a inquietação, em encarar o deslumbramento, não raro aterrorizante, que envolve a experiência humana. E dentre as inquietações, talvez haja uma que seja a primordial. Afirmamos que se trata da questão sobre Deus e seu corolário, a religião.

Agostinho de Hipona, na provável primeira auto-biografia da história, começa, no primeiro livro de suas 'Confissões', questionando o que seria Deus: "Que és, portanto, ó meu Deus?" (Livro I, Capítulo IV). Junto a essas questões ele faz uma série de outras questões. As questões parecem remontar seus tempos de juventude e havia algum grau de não-sofisticação nelas, pois parecem refletir uma concepção filosófica equivocada não digna de um pensador dessa envergadura. Aliás, no decorrer da própria obra podemos perceber que ele mesmo toma ciência dessas questões e suas soluções. Mas é interessante que, tanto ali, antes de sua conversão, quanto após ela, continuam a surgir dúvidas sobre Deus. Não mais, necessariamente, sobre sua existência, mas sobre sua natureza e sua relação com o mundo e com os homens. Portanto, mesmo uma vez experimentado, ainda surgem questões sobre Deus, o que moveria a todos a pensar sobre o assunto. Sendo assim, Deus torna-se objeto de indagação constante e, portanto, uma 'fonte de pensamento filosófico'.
De fato, segundo Ronald Nash, realmente todos pensam sobre Deus. Ele coloca as questões sobre Deus como basilares, i. é, fundamentais para toda a compreensão de mundo. Fazem parte das questões últimas da vida que, pois, compõem o sistema de pensamento, ou seja, a cosmovisão*, E 'cosmovisão' todo mundo tem, ainda que não saiba. Sendo assim, todos pensam sobre Deus.
Pensar o que sobre Deus? Nash nos dá uma lista de perguntas que nos surgem naturalmente: "Deus existe? Qual é a natureza de Deus? Há mais de um Deus? É Deus um ser pessoal, ou seja, é ele o tipo de ser que pode conhecer, amar e agir? Ou é Deus uma força ou poder impessoal?" (NASH, p. 15). Todos nós, sendo assim, temos alguma resposta, ainda que rudimentar, à essas questões.

Mas como é próprio da maioria das pessoas, nem todas concebem respostas refletidas sobre esses temas. É próprio do filósofo lidar com as questões relacionadas à cosmovisão. Demorar-se um pouco mais nessas questões basilares. E a questão sobre Deus é primordial. Nesse sentido, Nash afirma que "O elemento crucial de qualquer cosmovisão é aquilo que ela diz ou não sobre Deus" (NASH, p. 15). Até mesmo os ateus admitem isso. Por exemplo, Lee Strobel nos conta sobre sua entrevista com Charles Templeton, que era pastor e passou a ser ateu, e a figura, ao ser questionada sobre Jesus, o julga mal pensador por não ter lidado com a questão mais importante de todas. Melhor olhar em suas próprias palavras. Em determinada parte da entrevista, Strobel pergunta: " _ E os ensinamentos dele; o senhor admirava o que ele ensinou? _ Bem, ele não era um pregador muito bom. O que ele disse era simples demais*. Ele não havia refletido sobre o que dizia. Não havia meditado sobre a maior pergunta que se pode fazer. _ Que é... _ Existe um Deus? [...]" (STROBEL, p.22).
Collin McGinn é ainda mais explícito, e afirma justamente o que estamos tentando mostrar nesse artigo: "Seria somente uma questão de fé cega ou a existência de Deus podia ser provada? E a formulação dessa pergunta rapidamente leva a toda a questão do que ´uma justificativa afinal, assim como questões sobre conhecimento, certeza, livre-arbítrio e a origem do universo. Deus pode ser ou não um filósofo, mas certamente é responsável por muita filosofia" (MCGINN, p. 20). Ou seja, a questão sobre Deus é tão fundamental que suscita reflexões em várias outras áreas e, além disso, implica em tudo o mais. Se Deus existe, e dependendo de como ele é, então a metafísica, a ética, a antropologia filosófica, a escatologia, a reflexão existencial e a própria epistemologia é concebida de forma diferente*. A questão chega ao ponto em que há autores que afirmem ser a religião a progenitora da filosofia, como Alessandro Rocha: "Sem incorrer em nenhum equívoco, podemos dizer que na origem mesmo da filosofia está a experiência tipicamente religioso do espanto acerca da realidade e do esforço por nomear suas origens" (ROCHA, p. 9).
Olavo é ainda mais ousado, e afirma que a filosofia, como inicialmente concebida nos projetos clássicos, abrangendo Sócrates, Platão e Aristóteles, implicavam na busca pelo Supremo Bem, o que seria, que seja de uma forma genérica, uma busca por Deus: "Tanto em Platão quanto em Aristóteles ou em toda a filosofia escolástica, o Supremo Bem não é um 'valor', muito menos uma 'criação cultural', mas a realidade suprema, o ens realissimum, fundamento primeiro e objeto último de todo conhecimento" (CARVALHO, p. 38).
É interessante e pertinente notarmos, agora, que os autores do famoso livro 'O Livro das Religiões', que conta com a coautoria de Jostein Gaarder, menciona as questões fundamentais, 'parteiras' da filosofia, como bases da religião. "Quem sou eu? Como foi que o mundo passou a existir? Que forças governam a história? Deus existe? O que acontece conosco quando morremos? [...] Muitas questões existenciais são bastante gerais e surgem em todas as culturas. Embora nem sempre sejam expressas de maneira tão sucinta, elas forma a base de todas as religiões" (GAARDER, HELLERN, NOTAKER, p. 11). Aqui, pois, é possível perceber como a questão sobre Deus afeta toda a reflexão dos indivíduos. A resposta irá interferir no conceito sobre o homem, a origem (ou ausência de início) do mundo, o destino do homem e assim por diante, como já observamos, alhures, em outros termos.
E é tão evidente que a questão sobre Deus influencia todos os setores, repartições, da vida, que "qualquer pergunta sobre a cultura, a política, as artes, a economia, as ideologias pode muito bem ser argumentada tomando por base a presença e a influência da religião" (ROCHA, p. 9). Gaarder, Hellern e Notaker afirmam algo muito semelhante: "Um rápido olhar para o mundo ao redor mostra que a religião desempenha um papel bastante significativo na vida social e política de todas as partes do globo. [...] É difícil adquirir uma compreensão adequada da política internacional sem que se esteja consciente do fator religião" (GAARDER, HELLERN, NOTAKER, p. 16).

Mas mesmo que não se admita a origem religiosa da reflexão filosófica, ainda sim não podemos negar que a religião, e, portanto, o assunto 'Deus', é tema constante das elucubrações dos filósofos, bem como as questões mais imediatas que daí decorrem, como a relação do homem com Deus e afins: "Dos longínquos tempos anteriores a Sócrates até os fluidos dias de nossa cultura pós-moderna, a religião nunca saiu da pauta da filosofia. Ora como rainha, ora como vassala, sempre esteve ali impondo sua desejada* ou incômoda presença" (ROCHA, p. 9).

E a questão, claro, é tão fundamental que envolve alto comprometimento psicológico, tanto para o teísta quanto para o ateísta, como demonstra muito eloquentemente R. C. Sproul: "Os dois lados do debate precisam ver que todos os envolvidos na discussão sobre a existência de Deus trazem bagagem psicológica à mesa. Aqueles que negam a Deus, por exemplo, tem um interesse enorme em sua negação porque, colocando de forma simples, se o Deus bíblico existe, então abre-se um infinito obstáculo entre eles e sua própria autonomia" (SPROUL, p. 144). Em outras palavras, quem nega a Deus tem algum interesse em fazê-lo. Se o Deus da Bíblia existe, por exemplo, então tudo deve ser revisto, inclusive como vivemos nossas vidas e haveremos de prestar contas de nossos atos e pensamentos. Para alguém envolvido, apaixonadamente, em determinado tipo de atividade, como a dissolução, vida boêmia, adultério e afins, a existência do Deus da Bíblia pode ser um enorme incômodo*. Sproul continua: "Enquanto cristãos, cada fibra de nosso ser quer que Deus exista, e cada fibra de nosso ser igualmente repele o pensamento de que a soma de todas as nossa vidas é a 'paixão inútil' de Sartre. [...] A mesma pressão psicológica para o ateu negar a existência de Deus é a do teísta para assumir sua existência. [...] Sabemos o que está em jogo se fizermos isso [cremos no Deus da Bíblia]; entendemos que estaremos em apuros se conhecermos a existência de um Deus soberano" (SPROUL, p. 144) e mais adiante um pouco: "Não podemos arriscar expor essa nudez. Não podemos estar sob a luz da revelação de Deus. Nosso ambiente de conforto é a escuridão. Preferimos a escuridão porque e oculta nossa perversidade. Então, por natureza, suprimimos a luz da revelação de Deus. Fazemos isso porque consideramos que é necessário nos proteger da dor da exposição*" (SPROUL, p. 146). Assim, ao mesmo tempo em que o teísta quer que Deus exista, o ateu quer que ele não exista. Destaque para a palavra QUER. Isso deve ser colocado à mesa caso se queira refletir sério sobre o tema. Envolve, aqui, pois, as questões existenciais, éticas e a própria orientação da cosmovisão do indivíduo*.

Se Deus e filosofia têm alguma coisa a ver? Parece-nos inseparáveis e, portanto, não nos é concebível filósofo e filosofia responsável que não considere Deus como assunto e não lhe logre devida atenção.

Parte 3

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*Se algum leitor ainda não domina o conceito de 'cosmovisão', sugerimos os artigos que escrevemos sobre, bastando a leitura da parte 1 e da parte 2:
Parte 1
Parte 2
*Caso algum leitor também pense assim podemos sugerir o magnífico artigo de Douglas Groothuis que lida justamente com o tema: http://liberdadeepensar.blogspot.com.br/2007/11/jesus-o-filsofo-e-apologista-por.html.
Peter Kreeft também tém um livro inteiro observando as habilidades filosóficas de Jesus: http://www.thomasnelson.com.br/livro/jesus-o-maior-filosofo-que-ja-existiu/ (tudo bem que foi publicado pela Thomas Nelson, e que o gênero indicado seja 'auto-ajuda' - o que é um engano -, mas é Kreeft. É bom!).
*Claro, a formulação da existência de Deus pode elevar-se a partir de um desses pontos filosóficos. Mas a questão de que há um intercâmbio entre os vários braços da filosofia ainda permanece e, uma vez decidida a questão sobre Deus, tudo o mais é também influenciado.
*Para uma lista de filósofos teístas organizados mais ou menos de forma cronológica elaboramos uma lista quando ilustrávamos o conceito de sofisma no artigo que pode ser conferido clicando aqui.
*Embora não seja tema das reflexões de agora, é bom salientar que a fé cristã não é ascetista tanto quanto o epicurismo, no que concerne à sua ética, não o é.
*Não é o que parece estar sugerido no trecho de João 3:19-21.
*Para uma abordagem um pouco mais extensa do que Sproul chama de 'Psicologia do Ateísmo', vejam: https://www.youtube.com/watch?v=HQgMoKIXV6M
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BIBLIOGRAFIA



AGOSTINHO. Confissões. Tradução de Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2008, 439p.
CARVALHO, Olavo de. A Filosofia e seu Inverso: e outros estudos. Campinas: Vide Editorial, 2012, 264p.
GAARDER, Jostein; HELLERN, Victor; NOTAKER, Henry. O Livro das Religiões. Tradução de Isa Mara lando; revisao técnica e apêndice de Antônio Flávio Pierucci. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, 335p.
MCGINN, Collin. A Construção de Um Filósofo. Tradução de Luiz Paulo Guanabara. Rio de Janeiro: Record, 2004, 268p.
NASH, Ronald H. Questões Últimas da vida: uma introdução à filosofia. Tradução de Wadislau Martins Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 448 p.
ROCHA, Alessandro. Introdução à Filosofia da Religião: um olhar da fé cristã sobre a relação entre a filosofia e a religião na história do pensamento ocidental. São Paulo: Editora Vida, 2010, 184p.
SPROUL, R. C. Defendendo sua Fé. Tradução de Patrícia Merlim. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, 192p.
STROBEL, Lee. Em Defesa da Fé:  jornalista ex-ateu investiga as mais contundentes objeções ao cristianismo. Tradução de Alderi S. de Matos. São Paulo: Editora Vida, 2002, 368p.

domingo, 25 de maio de 2014

Introdução à Lógica Aristotélica

O ‘SURGIMENTO’ DA LÓGICA

Uma das maiores contribuições de Aristóteles ao pensamento humano é a fundação da ciência denominada lógica. Este texto, pois, é uma exposição da lógica aristotélica. Há, evidentemente, referências à filosofia de Aristóteles, mas, mesmo que se rejeite esta é possível aproveitar muito bem as lições que o Estagirita nos logrou.
Dissemos, propositadamente, ‘fundação da ciência’ e não ‘criação da’, como é mais comum do que pensávamos ao ver, pela primeira vez, a alguns bons anos atrás, essa afirmação de Sproul: “Aristóteles não inventou a lógica, assim como Colombo não ‘inventou’ a América. O que Aristóteles fez foi definir a lógica e descrever seus fundamentos. [... para ele, a lógica era o Órganon ou instrumento de toda a ciência” (SPROUL, p. 43). Evidentemente trata-se de uma ciência muitíssimo complexa, e o enfado que ela traz faz com que muitos dela se desapeguem. Durant diz que “Nada é tão enfadonho quanto a lógica, e nada tão importante" (DURANT, p. 63). Temos que concordar que estudar lógica é inevitável em qualquer disciplina, e R. C. Sproul nos ajuda a reforçar a lição: “Como instrumento, a lógica é a ferramenta suprema, indispensável a todas as outras ciências [...]. A razão disso é que a lógica é essencial ao discurso inteligível. [...] O que é ilógico representa o caos, não o cosmos. E o caos absoluto não pode ser conhecido de maneira ordenada, o que torna o conhecimento ou scientia uma impossibilidade manifesta” (SPROUL, p. 43).
Por isso, aproveitando nossa proposta de expor o pensamento de Aristóteles, propomo-nos a versar, dissertar, um pouco, ao menos os alicerces da lógica.

LÓGICA COMO CIÊNCIA? DO QUE SE TRATA ESSA DISCIPLINA?

Primeiramente temos que definir, afinal de contas, o que queremos dizer por ‘lógica’. Durant é breve: "Lógica significa, simplesmente, a arte e o método do pensamento correto” (DURANT, p. 63). Sproul é um pouco mais demorado, e com sua concisão peculiar, já irá antecipar alguns assuntos e termos que trabalharemos melhor no decorrer de nossa dissertação: “A lógica mede ou analisa as relações entre as declarações ou proposições. Ela pode mostrar se a conclusão de um silogismo é válida ou não; ela não determina a veracidade de uma conclusão ou argumento. [...] As declarações podem ser verdadeiras ou falas, mas a relação lógica de uma declaração com outra é válida ou inválida” (SPROUL, p. 43). A definição de Gabriel Chalita é ainda mais precisa: “...ela analisa o modo como o pensamento é estruturado, indicando por isso a maneira correta de pensar. Desde que um determinado raciocínio seja conduzido adequadamente – isto é, segundo os preceitos da lógica –, garante-se que a conclusão a que ele chega será verdadeira. Segundo o filósofo, a lógica estuda o raciocínio por meio da análise das proposições, quer dizer, das afirmações que são proferidas, escritas ou simplesmente pensadas pelo indivíduo que estuda uma determinada ciência ou procura a verdade sobre algum fenômeno” (CHALITA, p. 66-67). Em suma, retenhamos, por hora, a ideia de que a lógica seria aquela ciência que estuda as relações entre as frases e averigua se há uma relação correta entre as frases e conclusões num argumento.
Em seguida queremos devotar algumas palavras a uma disputa. Usamos o termo ‘ciência’ também de forma intencional para alavancar uma importante discussão para a história da filosofia, a saber, se a lógica pode ser enquadrada como uma ciência. Favoravelmente à esta classificação temos Will Durant, que não só a chama de ciência como de arte: “É uma ciência porque, numa proporção muitíssimo elevada, os processos de pensamento correto podem ser reduzidos a regras [...] e ensinados a qualquer inteligência normal; é uma arte, porque ela prática dá ao pensamento, afinal, aquela precisão inconsciente e imediata que guia os dedos do pianista sobre o seu instrumento para extrair harmonias sem esforço” (DURANT, p. 63). Sendo uma ciência, que tipo de ciência é essa? Sproul nos ajuda: “A lógica em si não tem conteúdo material e, nesse sentido, pode ser vista como ciência formal, como a matemática, que sob alguns aspectos, é uma forma de lógica simbólica” (SPROUL, p. 43). As ciências naturais têm conteúdos ‘materiais’, se assim podemos dizer, que são os objetos de seus estudos. Já a lógica, não. Por isso Chalita complementa a discussão trazendo uma possível antítese: “O estagirita afirmava que a lógica não entra em nenhuma das classificações nas quais ele dividiu as ciências (técnicas, teoréticas e práticas); ela seria um pré-requisito para o estudo de todas as ciências” (CHALITA, p. 66).
Entretanto ela ainda pode ser definida como ciência porque, segundo Sproul, lida com formas, ideias, e tanto Durant quanto o próprio Chalita observam que ela considera sobre regras e conceitos que podem ser registrados, compreendidos e ensinados. Portanto, num sentido mais amplo, a lógica pode, perfeitamente, ser considerada como uma ciência. Portanto, se queremos avaliar um argumento precisamos saber como o fazer. A partir dos ensinos de Aristóteles a filosofia nunca mais seria a mesma e a fundação desta ciência é, sem dúvida, um dos responsáveis: "a inteligência grega era indisciplinada e caótica até que as fórmulas implacáveis de Aristóteles proporcionaram um método rápido para o teste e a correção do pensamento” (DURANT, p. 63).
Resumamos essa seção com Gaarder que sintetiza bem o que discutimos até aqui: “Aristóteles foi um organizador, um homem extremamente meticuloso, que queria pôr ordem nos conceitos dos homens. De fato, ele também fundou a ciência da lógica, e estabeleceu uma série de normas rígidas para que conclusões ou provas pudessem ser consideradas logicamente válidas” (GAARDER, p. 128).
Mas aqui fica o alerta de Durant: “O próprio Aristóteles, como iremos ver, violava profusamente seus próprios cânones; mas acontece que ele era o produto de eu passado, não do futuro que seu pensamento iria construir” (DURANT, p. 63). Se o próprio sistematizador cometeu erros lógicos, o que se dirá de nós. Faz-se necessário que estejamos sempre a investigarmo-nos, bem como a dialogar e disputar com outras pessoas, versadas em lógica, de preferência, para que não incorramos em ilogismo. Aprendamos, pois, todos a ciência da lógica!

SILOGISMO E ARGUMENTO

Dissemos que a lógica analisa os argumentos. Mas, ora raios, temos que ter bem definido o que é um argumento, embora, em alguma medida, todos saibam o que é. Chalita é quem nos responde. “Quando se aplica o pensamento para chegar a um novo conhecimento ou compreensão, as proposições são encadeadas de modo que delas seja possível extrair uma nova, denominada conclusão, que contém uma ideia que antes não estava expressa claramente, ou era mesmo desconhecida. Esse encadeamento de proposições recebe o nome de argumento” (CHALITA, p. 67). Aqui precisamos destacar que Chalita abrange tanto o argumento dedutivo (‘contém uma ideia que antes não estava expressa claramente’) quanto o argumento indutivo (‘contém uma ideia que era desconhecida’). Protelemos, por enquanto, esse assunto. Contentemos, por hora, com a familiarização das expressões e termos. Já sabemos o que é a lógica e o que é um argumento. Ouvimos falar de argumentos dedutivos e indutivos.
Ouvimos falar de outro termo. Sproul menciona, alhures, o que só agora podemos explorar um melhor, a saber, o silogismo. Novamente temos Chalita: “O silogismo é para Aristóteles a forma mais adequada de estrutura lógica de pensamento: é o encadeamento e duas premissas (uma geral e outra particular) que levam a uma conclusão particular. As qualificações geral e particular referem-se à ‘amplitude’ da proposição. Ela é geral quando diz algo sobre todos os representantes individuais de um determinado conjunto. [...] A proposição particular é aquela que afirma alguma coisa sobre apenas um ou alguns seres ou objetos” (CHALITA, p. 67). Só há um erro nessa definição. Não é necessário resumir o argumento a duas premissas. Há argumentos mais complexos com um encadeamento bem mais longo de premissas para que se chegue a uma conclusão.
Em suma, temos algumas afirmações e uma conclusão. A lógica irá observar se a conclusão realmente pertence a essas afirmações precedentes que supostamente levam à proposição final.

OS CÂNONES DA LÓGICA

Aristóteles elaborou um profundo tratado de lógica. Para analisarmos proposições, frases, que montam argumentos, é preciso compreender alguns conceitos primeiro. A análise lógica envolve algumas regras bem estabelecidas. Já sabemos do se trata a lógica. Sabemos que ela serve para analisar argumentos e pensamentos. Sabemos que um argumento é composto por proposições. Iremos observar que podemos analisar proposições pelos cânones da lógica.

Aqui Aristóteles segue uma linha provavelmente aprendida na Academia, e, mais particularmente, oriunda de Sócrates, que é a demanda por definições. Nesse sentido, a lógica já havia nascido a alguns anos atrás, como aponta Durant: "Havia vestígios dessa nova ciência na enfurecedora insistência de Sócrates com relação a definições, e no constante refinamento de cada conceito por parte de Platão. O pequeno tratado de Aristóteles sobre Definições mostra como a sua lógica se alimentava naquela fonte. 'Se quiser conversar comigo', dizia Voltaire, 'defina seus termos'.[...] O alfa e o ômega da lógica, seu coração e sua alma, estão em que termo importante num discurso sério deve ser submetido, com o maior rigor, ao escrutínio e à definição. É difícil, e representa um teste impiedoso para a mente" (DURANT, p. 63).
Esse assunto é estritamente ligado à da análise dos argumentos e precisa ser abordado por nós aqui, caso queiramos pretender que esse texto sirva como uma introdução básica à lógica. A discussão leva ao conceito de substância, que será observado posteriormente, na exposição da metafísica de Aristóteles. É indispensável que saibamos o básico da predicação para conseguirmos analisar uma proposição. Durant e Sproul nos explicam como Aristóteles propõe a definição. Primeiro, com Durant, temos os seguintes dizeres: "De que modo iremos definir um objeto ou um termo? Aristóteles responde que toda boa definição tem duas partes, afirma-se sobre dois sólidos pés: primeiro encaixa o objeto em questão numa classe ou grupo cujas características gerais são também as dele [...]; segundo, indica os pontos em que o objeto difere de todos os outros membros de sua classe" (DURANT, p. 63-64). Sproul é ainda mais completo, e nota que a discussão está presente no primeiro livro da editoração atual do Órganon, denominado Categorias: “Ao definir como pensamos sobre as coisas, Aristóteles desenvolveu o conceito das categorias. Esse conceito é vital à compreensão da linguagem e do conhecimento. O conhecimento implica certa percepção dos objetos da realidade. Atribuímos nomes a esses objetos ou usamos as palavras para descrevê-los. Ideias envolvem palavras. [...] Esse processo de classificação leva em consideração duas coisas: semelhanças e diferenças. [...] O conhecimento depende da linguagem para ser inteligível. Todas as palavras que detêm sentido apresentam as propriedades de semelhança e diferença. Uma palavra que significa tudo na verdade não diz nada. Para ter sentido, uma palavra precisa ao mesmo tempo afirmar algo e negar algo. Ela tem de fazer referência ao que é e não fazer referência ao que não é. [...] Quanto mais complexo e discriminado for o conhecimento, mais exata tem de ser a ciência” (SPROUL, p. 45-46).
Nas Categorias Aristóteles observa conceitos para facilitar nossa compreensão da realidade por meio da linguagem, que é crucial no processo de cognição. Ao conhecermos, percebemos objetos. Atribuímos-lhes nomes e usamos palavras para descrevê-los. Para discernirmos algo, valemo-nos da definição que, por sua vez, envolve o assemelhar e o diferenciar. Portanto, para que algo faça sentido, é preciso que a definamos afirmando algo e negando algo, ou, em outros termos, dizendo que ela é ‘B’ e não ‘não-B’. Para dar um exemplo, iremos antecipar um pouco a filosofia de Aristóteles. Ao dizer o que é um homem, primeiro, Aristóteles vai dizer que ele é um ‘animal’ (A é B). Sendo assim, tudo que for ‘não-B’, ou seja, tudo que for ‘não-animal’, como seres inanimados, plantas, energias e seres puramente espirituais, são distinguidos dos homens. Ao dizer que o homem é um animal, Aristóteles está destacando semelhanças: o homem, tal como o animal, se locomove, se reproduz, cresce e morre. Mas o homem não é um mero animal. Ele é racional. A racionalidade, pois, é um fator de diferenciação dentro do grupo maior.
Podemos nos aprofundar um pouquinho mais no estudo das Categorias a título de angariarmos competência na tarefa da definição. As categorias são ideias que podem ser atribuídas a um sujeito, que é um ser, uma substância. São todos os predicados possíveis de serem atribuídos aos sujeito: “Essas nove categorias, de acordo com Aristóteles, referem-se a todos os predicados possível de uma coisa [...]. Para Aristóteles a décima (ou primeira) categoria é a substância em si. [...] Toda realidade tem de ter uma substância, ou não seria nada. Sua substância é a essência de sua realidade. [...] Quem argumenta contra a lei da não-contradição também tem de negar a realidade substantiva” (SPROUL, p. 46-47). Ronald Nash, com outras palavras, coloca o conteúdo de uma forma que pode ser luminosa: “Normalmente referimo-nos às coisas por meio de predicados. Em qualquer das proposições categóricas da forma S e P, temos um objeto S e um predicado P ligados por um verbo. [...] eles poderão ser agrupados em dez categorias básicas de predicados. [...] Uma categoria é uma maneira fundamental de pensar sobre qualquer coisa que tenha ser ou que exista” (NASH, p. 109-110). Suas palavras são muito bem colocadas. Quando pensamos em algo pensamos, sempre, em termos de uma das Categorias que ele elenca.
Por conseguinte, temos dez categorias, dez classes de predicados possíveis para elaborarmos qualquer definição. “Essas categorias são [além da categoria ‘substância’] quantidade, qualidade, relação, lugar, data, posição, posse, ação e passividade” (SPROUL, p. 46). Berti completa: “Estes dez gêneros supremos são chamados de ‘categorias’, quer dizer, tipos de predicados” (PRADEAU, p. 46).
Percebam que “a categoria principal de uma coisa é sua substância, a essência de sua natureza” (SPROUL, p. 47). Ou seja, a categoria ‘substância’ é a predicação que define a essência do próprio ser. Toda substância, i. é., todo ser, para ser definido, apresenta predicados contendo suas propriedades. Sendo assim, Nash é particularmente elucidativo: “Substância possui dois tipos de propriedade: essencial e acidental. Uma propriedade acidental é uma característica não-essencial, como tamanho ou cor. Uma propriedade não-essencial de alguma coisa é a característica que pode ser perdida ou mudada sem alterar a essência ou natureza da coisa em questão. Tudo tem também propriedades essenciais; uma propriedade essencial é aquela que, se perdida, significa que a coisa deixou de existir como determinado tipo de coisa” (NASH, p. 107). Assim, a categoria ‘substância’ representa a categoria das propriedades essenciais. Todas as demais são ‘acidentes’*1.
Berti é ricamente informativo aqui. Ele nos traz o seguinte: “Entre as substâncias, Aristóteles distingue em seguida as ‘substâncias primeiras’, que são objetos individuais, por exemplo, um homem dado, das ‘substâncias segundas’, que são as espécies universais de que fazem parte estas espécies, como por exemplo, o animal. As espécies e os gêneros são os ‘predicados’ dos indivíduos, no sentido de que eles indicam suas características gerais. As substâncias primeiras são a condição da existência de todas as coisas, quer se trate de substâncias segundas ou de acidentes” (PRADEAU, p. 46). Portanto, o ser, especificamente, é chamado, por Aristóteles, de ‘substância primeira’. Já a abstração essencial, aquele grupo de seres a qual está expresso na categoria ‘substância’ é chamado de ‘substância segunda’. Isso é importante para que não confundamos as coisas quando estivermos falando de substância enquanto ser e substância enquanto categoria. Quando a coisa ficar confusa, basta fazermos esta distinção.
Berti nos concede outra importante informação: “Na categoria dos acidentes há também os indivíduos (por exemplo, um determinado branco) e os universais (por exemplo, o branco em geral ou a cor)” (PRADEAU, p. 46). Em outras palavras, há ‘brancos e brancos’. Há o universal da categoria e os sues respectivos particulares.
Aproveitando que estamos falando da exposição que Berti faz de Aristóteles, ele começa falando das Categorias em termos que já compreendemos: “Como sua primeira obra, o tratado das Categorias distingue as realidades que existem em si mesmas, por exemplo, o homem daquelas que existem em outras realidades, como o branco; ele chama as primeiras de ‘substâncias’ e as segundas de ‘acidentes’” (PRADEAU, p. 46). Mas notem o que ele diz: há realidades que existem em si mesmas e outras que existem em outras realidades, como parasitas. Os predicados são essas realidades que existem em outros seres. Aqui, claro, ele está se distinguindo de Platão, pois, para este, os predicados existem à parte, no mundo das ideias, enquanto que, para aquele, só existem nas próprias coisas. Nash é particularmente elucidativo nesse ponto: “Existe uma importante diferença entre a primeira categoria, substância, e as outras. A razão para isso é que as outras nove categorias são sempre dependentes de uma substância existente. [...] As últimas nove categorias têm de ter uma substância anterior para qualificar ou modificar. A menos que a substância exista primeiro, as demais categorias não existiriam nessa instância em particular” (NASH, p. 110-111). É basicamente o que dissemos, e é uma ampliação do que disse Berti.
Nash é, ainda, sagaz o suficiente para observar uma série de diferenças entre a substância e as propriedades: “A distinção entre substâncias e suas propriedades desempenha um papel central na filosofia de Aristóteles. [... substância é uma coisa em particular [...] dizer que uma propriedade é universal significa [...] que pode pertencer a mais de uma coisa ao mesmo tempo. [...] uma propriedade é imutável. As cores vermelha e verde jamais podem mudar. Mas as substâncias às quais as cores, algumas vezes, pertencem, podem mudar. [...] propriedades jamais podem existir por elas mesmas, mas somente como propriedades de uma substância particular [...] já estas existem por elas mesmas, substâncias não são tidas jamais por outras coisas ou existem em outras coisas. [...] substâncias têm poderes causais. Substâncias podem agir como causas eficientes [...] Mas propriedades não podem atuar dessa maneira” (NASH, p. 113).
Com esses conceitos bem esclarecidos em mente (e com a nota 1 também certificada) podemos compreender perfeitamente esta colocação de Sproul: “Aristóteles aceitava a distinção entre a substância de uma entidade e seus acidentes, mas jamais a separação deles [...]. Ele afirmava que os acidentes de uma coisa são gerados por sua substância ou fluem dela [...] a substância de uma coisa gera seus acidentes” SPROUL, p. 48). Podemos falar de substância primeira e das categorias. Mas não podemos falar de uma substância primeira sem qualquer categoria, incluindo a substância segunda, ou seja, a categoria ‘substância’, ou, ainda, se preferirem, as propriedades essenciais de algo.


Temos ainda outra grande contribuição de Aristóteles na análise do pensamento. Sproul encabeçará a discussão: “Aristóteles escreveu sobre as leis fundamentais da lógica, entre as quais está a lei da ‘não-contradição’. O princípio supremo da lógica é a lei da não-contradição: alguma coisa não pode ser o que é e não ser o que é ao mesmo tempo e no mesmo sentido ou relação” (SPROUL, p. 43-44). Achamos Berti exímio ao buscar enunciar esses princípios lógicos: “A afirmação e a negação do mesmo predicado a propósito do mesmo sujeito constituem uma contradição: ambas ao mesmo tempo não podem ser verdadeiras (princípio de não contradição), mas é necessário que uma das duas seja verdadeira e a outra falsa (princípio do terceiro excluído)” (PRADEAU, p. 46). Ou seja, sintaticamente, um sujeito não pode ter um predicado A e não-A ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Ou seja, na análise de proposições concatenadas, se identificarmos uma contradição, já podemos descartar o argumento, reconhecendo-o como falso.
Um exemplo para ilustrar a questão. Não podemos dizer que somos ‘pai’ e ‘filho’ de alguém no mesmo sentido e ao mesmo tempo. Coloquemos as frases em paralelo:
Fulano é pai de Ciclano.
Fulano é filho de Ciclano.
Se Fulano é pai de Ciclano, ele não pode ser filho, a não ser que a filiação em questão seja metafórica em alguma das frases. Por exemplo, poderíamos dizer que Fulano é filho espiritual de Ciclano, no sentido de Ciclano, o filho biológico de Fulano, ter-lhe pregado o Evangelho e ele ter se convertido.
Um exemplo conforme a análise sintática de Berti:
Jesus é Deus (B).
Jesus não é Deus (não-B).
Há duas predicações contrárias atribuídas ao mesmo sujeito. Isso não pode ser possível. Se ‘X’ é ‘B’, tudo que não é B está excluído do ser de X. Se Jesus é Deus, tudo que implica em ‘não ser Deus’ está incluído em ‘não-B’.
Aqui pedimos licença para citar, apud Nash, um dos maiores filósofos do século XX, Gordon Clark: “Se declarações contraditórias são verdadeiras em relação ao mesmo objeto e ao mesmo tempo, evidentemente todas as coisas serão a mesma coisa. Sócrates será um navio, uma casa, tanto quanto um homem. Mas, se precisamente os mesmos atributos atribuídos a Crito são os mesmos atributos a Sócrates, segue-se que Sócrates é Crito. Não somente isso, mas o navio no porto, uma vez que ele tem a mesma lista de atributos, também será identificado com a pessoa Sócrates-Crito. De fato, todas as coisas serão a mesma coisa. Todas as diferenças entre as coisas se desvanecerão e tudo será um” (CLARK apud NASH, p. 211).
Em suma, subverter a lei da não contradição é cair na mais plena loucura. Se A pode ser B e não-B ao mesmo tempo, A tem tanto os seus atributos, as características que o distinguem e definem, sua essência, como tem o que não o distingue, exatamente o que não lhe é predicado, o que pode ser qualquer outra coisa. Se ele é ‘imortal’ (B) e, ao mesmo tempo e no mesmo sentido imortal (não-B), então ‘B’ não quer dizer nada! A lei do terceiro excluído é justamente dizer que não se pode, aí, haver um intermediário entre imortal (B) e mortal (não-B). Ou é um ou é outro.
Notem que notamos contradições na relação de proposições, ou mesmo em um mesmo período. Portanto, a peneira da contradição envolve proposições isoladas ou argumentos completos que têm premissas contraditórias.

AVALIAÇÃO DOS ARGUMENTOS

Aproveitando que já tocamos no assunto sobre a avaliação de argumentos, o Estagirita nos outorga lições bem pontuais. Para saber se um argumento é correto Aristóteles nos ensina, no Órganon, dois modos de avaliação para negar uma conclusão: acusa-la de sofisma ou de falácia.

SOFISMA

O quinto livro (conforme a atual edição) do Órganon, denominado ‘Tópicos’ é destinado à análise de silogismos endoxais, como nos informa Berti: “Nos Tópicos, Aristóteles ilustra um outro tipo de silogismo que ele chama de silogismo dialético; suas premissas são ‘endoxais’ (endoxa), quer dizer, admitidas por todos, ou pela maioria, ou pelos especialistas, ou pela maior parte deles. Estas premissas não são verdadeiras em todos os casos, mas na maioria deles” (PRADEAU, p. 47). Tomemos as palavras iniciais do próprio Aristóteles: “O propósito deste tratado é descobrir um método que nos capacite a raciocinar, a partir de opiniões de aceitação geral, acerca de qualquer problema que se apresente diante de nós e nos habilite, na sustentação de um argumento a nos esquivar da enunciação de qualquer coisa que o contrarie” (ARISTÓTELES, p. 347).
Acontece que os sofistas, como já vimos, eram ótimos enganadores. Ao que parece, segundo Berti, eles valiam-se de premissas com aparência de verdade, pretensos endoxais, para ludibriar a mente dos ouvintes e enganar. É por isso que Aristóteles lança seu último tratado: “Enfim, nas Refutações sofísticas, Aristóteles ensina a desmascarar as refutações aparentemente justas (visando em particular aquelas que não se apoiam nos silogismos dialéticos, mas nos silogismos erísticos ou sofísticos, quer dizer, que parecem derivar de premissas endoxais ou que têm a aparência de silogismo), quando na realidade admitem apenas um artifício” (PRADEAU, p. 48). Parece-nos que o termo ‘sofisma’ vem justamente daqui.
O sofisma é quando o argumento se vale de premissas falsas. Ele pode até ter validade lógica, mas suas premissas são falsas. Adler, embora estivesse preocupado com a avaliação das ideias em um livro, nos ensina, como excelente aristotélico que era, como desmascarar sofismas. Há basicamente duas formas: a primeira é identificando desinformação: “Dizer que [...] está desinformado é o mesmo que dizer que nele estão ausentes conhecimentos relevantes sobre o problema que tenta resolver. Observe que essa crítica só faz sentido se for relevante o conhecimento que falta [...] Para que a crítica faça sentido, você deve ser capaz de declarar precisamente o conhecimento que falta [...], mostrando a sua relevância para as conclusões do problema e do raciocínio” (ADLER, p. 167).
Notem o seguinte silogismo:
1) Todo teísta cristão é burro.
2) Tudo que um burro crê é motivo de suspeita.
3) Logo a crença teísta cristã é uma crença suspeita.
Há várias maneiras de criticar esse argumento. Agora, particularmente, queremos apenas observar o sofisma da primeira premissa. Talvez alguém que enuncie tal argumento (e há muitos neo-ateus que assim pensam!) argumentem pelo fato de que só conhecem seus parentes, simples, o pastor irresponsável que não passa de um charlatão ou, quando bem intencionado, é um negligente para com seus estudos. Portanto, como todo crente que tal pessoa conhece é burro, e pessoas burras creem em tolices, o inocente julga que a crença teísta, das pessoas simples, incapaz de defenderem-na, é provavelmente um atraso para a humanidade, uma crença retrógrada, idiota...
Mas essa nada nobre criatura está, como é de praxe, muitíssimo desinformada. É óbvio que ela não conhece nada da história do pensamento ocidental, e muito menos do cenário atual*2. Uma pequena lista, feita às pressas, faria tal aberração intelectual vaporizar-se: Apóstolo Paulo, Orígenes, Ambrósio, Atanásio, Agostinho, Boécio, Erígena, Anselmo, Abelardo, Alberto Magno, Aquino, Escoto, Roger Bacon, Ockham, Savonarola, Lutero, Calvino, Johannes Kepler, Francis Bacon, Bucer, Ursino, Zuínglio, Melanchton, Descartes, Pascal, Turretini, Newton, Leibniz, Locke, Berkeley, Reid, Kierkegaard, Charles Hodge, A. Kuyper, W. James, Chesterton, C. S. Lewis, Dooyeweerd, F. Schaeffer, G. Clark, C. van Til, Greg Bahnsen, John Frame, R. J. Rushdoony, Douglas Wilson, V. Cheung, Ronald Nash, James W. Sire, Alvin Plantinga, W. Alston, N. Wolterstorff, Kelly James Clark,  Nancy Pearcey, R. C. Sproul, W. Lane Craig, J. P. Moreland, Francis Collins, John Polkinghorne, Alister McGrath, Stephen Meyer, Charles B. Thaxton, Mortimer Jerome Adler, Olavo de Carvalho, Davi Charles Gomes, Fabiano Almeida de Oliveira, Jonas Madureira, Guilherme de Carvalho, Franklin Ferreira... etc (!). Acreditamos já ter oferecido material suficiente para constranger o ‘sofista’ (pejorativamente falando) e denunciar a primeira premissa como um sofisma. Quem afirma-la está completamente desinformado. 


A segunda forma é identificando mal informação: “Dizer que [...] está mal informado é o mesmo que dizer que ele afirma algo que não corresponde à realidade. A falha pode resultar de alguma falta de conhecimento, mas não se trata apenas disso. A despeito da causa, o erro consiste em afirmar coisa contrárias aos fatos [...]. esse tipo de falha só deve ser apontado quando a questão for relevante às conclusões[...]. a falha não deve apenas ser apontada, deve ser refutada mostrando a verdade (ou a maior probabilidade) de seu ponto de vista” (ADLER, p. 158). Aqui não se trata apenas de estar mal informado. No primeiro caso poderíamos pegar alguém que mal leu alguma coisa na vida, ou que apenas repete a opinião dos gurus ateus como verdades absolutas, incontestáveis. Aqui temos alguém ostentando alguma informação, entretanto se trata de uma informação ruim. O caso de se informar por fontes não confiáveis, talvez erigir a opinião pelos gurus neo-ateístas, como supramencionado, valha-lhe o título de mal informado. Engendremos um argumento deste tipo.
1) Alguém que cria um movimento que reforça ideias malignas é mal.
2) Calvino reforçou a ideia de que o rei era uma figura digna de devoção absoluta.
3) Devoção absoluta ao rei é algo prejudicial.
4) Logo, Calvino era mal.
Bom, novamente, como no outro caso, o argumento está recheado de pontos para contestação. Iremos nos ater à segunda premissa. Suponhamos que, cientes do que Calvino ensinou, questionemos o argumentador a provar sua segunda premissa. Então ele cita Luisa Simonutti dizendo: “No século XVI, por volta de 1530, no momento em que a Reforma calvinista começa a afirmar sua presença no território francês, este movimento deve se enraizar num reino onde os habitantes estão convencidos de ser um povo cristão, gozando de uma proteção divina particular e cujo soberano é qualificado como Rei ’Muito Cristão’. O rei da França tem de fato o direito de tirar proveito desse título [...] [pois houve] rituais de sacralização que asseguram a ele não somente uma devoção absoluta, mas também poderes taumatúrgicos” (PRADEAU, p. 218). O que podemos fazer? Bom, depois de rir primeiro e, logo após lamentar a gafe num texto que pode ser influente, demonstrar que nessa época é provável que Calvino nem mesmo tenha se convertido. A própria Simonutti sabe a data do nascimento de Calvino: 1509 (PRADEAU, p. 212). Portanto, nosso pobre adversário está não só desinformado por não ter as informações corretas sobre Calvino e a Reforma, como mal informado por ter seguido Simonutti*3. Ele não sabe, por exemplo, que Carlos Magno, no século VIII, fora imbuído de poderes pelo papado e que, portanto, o prestígio devotado ao rei que os franceses tinham era de origem católica e não ‘protestante’. Falta-lhe, pois, não apenas conhecimento filosófico ou científico, mas mesmo de história geral!
Mal informado ou desinformado, o sofisma deve ser identificado e o argumento descartado. Pode-se ser bonzinho, caso disponha-se de tempo e queira treinar a lógica, prosseguir no argumento. “É interessante, mas não tão importante, descobrir sua falta de coerência ao raciocinar com base em premissas falsas ou a partir de evidências inadequadas” (ADLER, p. 170). O intuito, talvez, seria destruir completamente o argumento. Entretanto, identificando um sofisma, já podemos tê-lo como desacreditado, refutado.

FALÁCIA

Mortimer Jerome Adler, novamente, é nosso tutor aqui: “Dizer que [...] é ilógico é o mesmo que dizer que ele foi falacioso ao raciocinar. Em geral, há dois tipos de falácias. Há os non sequitur, ou seja, a conclusão não guarda relação necessária com as razões oferecidas. E há as inconsistências, isto é, quando o autor afirma duas coisas que são incompatíveis entre si. [...] Só devemos nos ocupar dessas falhas à medida que elas afetem as conclusões principais” (ADLER, p. 169). Em suma, a falácia ocorre quando a conclusão não procede das premissas. Há uma infinidade de falácias catalogadas. Arthur Schopenhauer destaca e denomina uma porção imensa em um livro chamado ‘Como Vencer Um Debate Sem Precisar Ter Razão’ que foi escrito e deve ser lido com o intuito, claro, justamente de não ser vencido, e não de vencer como um sofista.
Podemos brincar com um exemplo que já experimentamos em nossos duelos. Debatíamos com um neo-ateu e identificamos o seguinte raciocínio: “Usava-se a técnica do ‘Deus das lacunas’ para defender o teísmo.
Descobriu-se ser essa uma falácia.
Logo, o teísmo não é algo sério (ou algo verdadeiro).
Non sequitur! O fato de uma falácia ter sido usada para defender algo não prova que tal é falso. Outro esquema silogístico será útil para entendermos o erro:
X usou o argumento y para defender z.
Y é um argumento inválido.
Logo Z é falso” (OLIVEIRA).
Dentre os vários problemas do argumento, identificados no próprio debate, que a conclusão não se segue às premissas. Podemos muito bem usar um argumento falso no labor de defender algo que é verdade. A falsidade de nossa argumentação não prova a falsidade do que queremos provar.
Acreditamos que já seja o suficiente para ilustrar o caso. Queríamos mais tempo para demonstrar outras falácias, mas o espaço não é apropriado. Quem quiser mais exemplos, leia o debate.

FORMAS DE ARGUMENTO

Até aqui vimos que a lógica é uma ciência que analisa os argumentos, e vimos, em suma, o que é um argumento. Também sabemos que, para negar uma conclusão temos que acusar o argumento de sofismado ou falacioso. Vejamos, agora, os dois tipos de argumentos que existem: argumentos dedutivos e argumentos indutivos.

ARGUMENTO DEDUTIVO

William Lane Craig, exímio debatedor, nos expõe do que se trata o argumento dedutivo de forma muito breve: “Num argumento dedutivo correto, a conclusão decorre inevitavelmente das premissas. Os dois pré-requisitos de um argumento dedutivo correto são que as premissas sejam verdadeiras e que a lógica seja válida. [...] um argumento pode ser logicamente válido, mas mesmo assim defeituoso, se apresentar premissas falsas” (CRAIG, p. 37). O importante a ser destacado é que a conclusão deriva-se por necessidade, obrigatoriamente, da premissas. Averiguado que não há sofismas, e que a processão é lógica, há de se admitir a conclusão.
Quando Durant vai explicar o silogismo, na verdade, acaba expondo o argumento dedutivo em forma silógica: “Há um forte traço disso na mais característica e original das contribuições de Aristóteles para a filosofia – a doutrina do silogismo. Um silogismo é um trio de proposições das quais a terceira (a conclusão) segue-se da verdade admitida das outras duas (as premissas ‘maior’ e ‘menor’). [...] O leitor que goste de matemática perceberá, de imediato, que a estrutura do silogismo assemelha-se à proposição de que duas coisas iguais à mesma coisa são iguais entre si. Se A é B, e C é A, então C é B.” (DURANT, p. 65). Claro, como já observamos, não se restringe a três passos, ou duas premissas e uma conclusão. Mas para ficar mais fácil, tomemos essa estrutura.
A é B.
C é A.
Logo, C é B.
O exemplo clássico da filosofia é o sobre a mortalidade de Sócrates. Querendo provar que Sócrates é mortal podemos argumentar, dedutivamente, da seguinte forma:
Todo homem (A) é mortal (B).
Sócrates (C) é homem (A).
Logo, Sócrates (C) é mortal (B).
Berti faz uma interessante observação quando comenta o assunto: “Nas Primeiras analíticas, Aristóteles expõe a famosa descoberta do ‘silogismo’ (dedução) [...] Vê-se que as duas premissas têm um termo em comum, qualificado de ‘meio’, que ocupa [...] a função de predicado na premissa maior e a função de sujeito na premissa menor. Os dois outros termos, qualificados de ‘extremos’, constituem a conclusão” (PRADEAU, p. 47). Primeiro, tal como Durant, ele relaciona o silogismo praticamente de forma exclusiva à dedução. Mas o que queremos destacar é a análise sintática de Berti. Entretanto, conforme está anunciado, Berti troca as bolas. Na verdade o termo denominado ‘meio’ é sujeito na premissa maior e predicado na menor, ao passo que os ‘extremos’ fazem parte da conclusão.
Todo homem (meio) é mortal (extremo).
Sócrates (extremo) é homem (meio).
Logo, Sócrates (extremo) é mortal (extremo.
Temos pois:
(Meio) (extremo’).
(Extremo’’) (meio).
Logo (extremo’’) (extremo’).

Quando mencionamos, alhures, na exposição de Chalita, que dizia que ao elaborarmos um argumento lógico veremos que ele ‘contém uma ideia que antes não estava expressa claramente’, relacionamos a proposição ao argumento dedutivo. Gaarder é da mesma ideia: “A lógica de Aristóteles trata da relação entre conceitos [...]. Mesmo que tenhamos que concordar com Aristóteles em que a conclusão tirada é cem por cento correta, temos de admitir que ele não nos diz nada de novo. [...] Mas nem sempre a relação entre grupos ou coisas nos parece tão evidente. De vem em quando pode ser necessário pôr certa ordem em nossos conceitos. [...] A resposta já estava dentro de nós, só que precisávamos primeiro pensar um pouco” (GAARDER, p. 129). Isso, evidentemente, nos lembra muito a maiêutica socrática, e contrasta com a conclusão de Durant: “Parece, porém, que o silogismo não é tanto um mecanismo para a descoberta da verdade quanto para a clareza de exposição e de pensamento” (DURANT, p. 65)*4.

ARGUMENTO INDUTIVO

Dissertaremos agora sobre o complicado e polêmico argumento indutivo. Tomemos Berti para nos dizer do que se trata esse tipo de argumento: “Quando as premissas são particulares e a conclusão geral, não se trata mais de uma dedução, mas de uma indução (epagogé); no entanto, nesse caso, a conclusão não decorre necessariamente das premissas” (PRADEAU, p. 47). Não se trata exatamente de um non sequitur. Trata-se de um argumento que se pretende por provável. Craig consegue ser muito elucidativo em sua explanação: “Argumento indutivo é aquele em que é possível que as premissas sejam verdadeiras e as inferências lógicas sejam válidas, mas a conclusão mesmo assim é falsa. Nesse raciocínio, diz-se que as evidências e regras da inferência ‘minam’ a conclusão, ou seja, tornam a conclusão plausível ou provável, mas não garantem sua veracidade” (CRAIG, p. 37-38). Chalita nos conta que Aristóteles não deu muita atenção a esse tipo de raciocínio, e reforça seu conceito uma terceira vez: “Até aqui estudamos somente o raciocínio dedutivo, que constitui a principal forma de articulação lógica, segundo Aristóteles. De fato, a partir de premissas verdadeiras e de um silogismo válido, obtém-se sempre uma conclusão verdadeira. Entretanto, há uma outra forma de raciocínio, o indutivo, que também era reconhecido por Aristóteles mas que não recebeu a mesma atenção do filósofo. Uma dedução, representada pelo silogismo, sempre chega a uma conclusão ‘menos geral’ que a premissa inicial: ela é sempre uma afirmação sobre um ou alguns elementos pertencentes a uma classe maior [...]. Um raciocínio indutivo, ao contrário, sempre chega a conclusões ‘mais gerais’ que as proposições de onde partiu” (CHALITA, p. 69-70).
Lembremo-nos, pois, que na dedução começávamos com uma premissa geral, chamada de premissa menor, olhávamos para uma premissa particular, chamada de premissa menor, para chegarmos à uma demonstração. Aqui já saímos de premissas particulares para uma conclusão geral. Percebam:
Todo homem é mortal. [Uma afirmação geral, que diz respeito a todos os homens].
Sócrates é homem. [Sócrates é uma figura isolada, um exemplar dentre os homens].
Logo, Sócrates é mortal [Uma outra afirmação particular é deduzida].
Agora, num argumento indutivo teríamos um raciocínio diferente. Gostamos do exemplo que Luiz Sayão dá em seu livretinho:
“... o cobre, o ferro, o bronze são metais [um particular];
o cobre, o ferro, o bronze são bons condutores de calor [outro particular];
conclui-se que os metais são bons condutores de calor [uma generalização]” (SAYÃO, p. 13).
O grande problema é justamente a falta de segurança peremptória, conforme ressalta Chalita: “Embora a indução permita atingir proposições mais gerais, ela não garante que a conclusão seja verdadeira, mesmo que todas as proposições iniciais sejam verdadeiras” (CHALITA, p. 70).

Antes de expormos um filósofo que é completamente cético ao argumento indutivo, exploremo-lo um pouco mais com o mestre Craig: “Apesar de o raciocínio indutivo ser parte normal da vida diária, a descrição desse raciocínio é motivo de controvérsia entre os filósofos. Alguns propõe que utilizemos o modelo hipotético-dedutivo de raciocínio indutivo: formulamos uma hipótese que explique os fatos, e depois deduzimos da hipótese predições que, se verdadeiras, provariam que a hipótese é falsa; depois testamos essas predições e, se elas não se cumprem, nossa hipótese fica comprovada. Outros filósofos defendem o que chamam de inferência da melhor explicação: diante de certas evidências, inferimos qual explicação, se fosse verdadeira, forneceria a melhor explicação para aquelas evidências. Discute-se muito quais qualidades fariam uma explicação ser a melhor (simplicidade, poder de explanação, etc., mas no mínimo essa explicação precisa levar em conta todos os fatos da experiência e ter coerência lógica” (CRAIG, p. 38).
Tanto as ciências naturais quanto a história são ciências completamente dependentes do método indutivo. Por isso, é caro ao aristotélico evadir-se dela, e barato para o platônico rejeitar toda e qualquer indução.
Bom, vamos parafrasear pra tentar elucidar os pontos. Pensemos numa pesquisa histórica. Temos um campo de pesquisa. Encontramos vestígios de ossadas aos montes, de adultos e crianças, espalhados por um território europeu, digamos que italiano. Encontramos uma coluna encravada com determinado dialeto e mais nada. Bom, usando o método hipotético-dedutivo, temos de formular uma hipótese primeiro. Pelas inscrições na coluna, presumimos que se trata de um povo de origem ligada à língua encontrada na coluna. Digamos, hebraico. Fazemos então predições. Logo são associados à diáspora decorrente da perseguição romana. Mas não havia vestígio de plantação ou de construção de casas. E como eles teriam morrido? O raciocínio teria sido: 1) Há rumores de povos judeus vivendo por essas terras naquela época. 2) Os judeus fugiam dos romanos. 3) Temos aqui uma inscrição hebraica relacionando o povo aos judeus. 4) Portanto, eram judeus fugidos. De repente, escavações posteriores notam que havia armaduras de soldados romanos no local. Amplia-se a hipótese presumindo que houve um conflito entre judeus e soldados romanos. Não se refutou a hipótese. Entretanto, não se encontrando casas ou vestígios de utilização do solo, fica difícil dizer com certeza que os judeus foram morar naquela região. Prediz-se que não se encontrará vestígio de moradia ou qualquer outro apetrecho que prove ter havido judeus ali. Pode ser um outro povo rebelde aos romanos que, por um acaso, se encontravam próximas a uma coluna com inscrições hebraicas. A predição estando correta falsificaria a hipótese, ou pelo menos a colocaria em descrédito. Mas suponhamos que se encontre alguns itens típicos do judaísmo, como uma menorah (um candelabro de sete braços), e, quiçá, um manuscrito do Antigo Testamento. Suponhamos que se encontre, também, bases para residências e moedas de inscrições romanas, confirmando a época e a moradia do povo judeu. A hipótese foi ‘confirmada’. Percebam que não é uma conclusão definitiva. É apenas provável.
Acreditamos que a segunda forma de indução seja excelente, ao menos na pesquisa histórica, para confirmar ou desacreditar as conclusões da primeira forma de indução. Formula-se outra hipótese. Qualquer uma. Por exemplo, aqueles eram soldados judeus que voltavam de uma caçada a judeus, tendo confiscado alguns bens e encontraram uma aldeia de rebeldes bárbaros, vindo a assalta-los, enquanto eram resistidos. Os objetos hebraicos ficaram ali. O problema dessa hipótese é que não explica a coluna com inscrições hebraicas. Pensar numa inscrição posterior carece de explicações (embora não seja impossível). Logo, presume-se, finalmente, que judeus fugidos realmente foram para lá morar*5.

Por fim, como prometido, e tomando como exemplo um filósofo de viés platônico, embora certamente ele não gostaria do rótulo, temos Vincent Cheung soltando os cachorros contra a indução. Ele nota que não se pode aferir essa probabilidade demandada na conclusão. Probabilidade é “a razão do número de resultados num conjunto exaustivo de resultados igualmente prováveis que produz um dado evento para o número total de possíveis resultados” (CHEUNG, p.41-42); e prossegue: “Mesmo se admitirmos que os métodos empíricos e indutivos podem descobrir o numerador da fração [...], determinar o denominador requer conhecimento de um universal, e a onisciência é frequentemente necessária para isso” (CHEUNG, p.42). Finalmente conclui: “Visto que probabilidade consiste de um numerador e um denominador, uma vez que o denominador é um universal e os métodos empíricos e indutivos não podem conhecer universais, é absurdo dizer que a indução pode alcançar um conhecimento ‘provável’” (CHEUNG, p.42). Em outras palavras, Cheung diria que existe uma quantidade de hipóteses contrárias ou dados faltantes para averiguação do provável que não podemos calcular. Podemos falar de uma probabilidade segundo o que temos em mãos. Mas jamais teremos certeza de que temos um número suficiente em mãos para legislar. Novos dados podem ser descobertos. Tudo pode ter acontecido. Na ciência, novas tecnologias podem abrir espaço para pensarmos em novas causas... etc*6.

Seja como for, a indução é um tipo de raciocínio muitíssimo comum e bem presente nas disputas e pesquisas. Não podemos ignorá-lo. Ainda que sejamos pragmáticas, instrumentalistas, em relação à ciência e até mesmo à história.

LÓGICA, VERDADE E REALIDADE

Já sabemos do se trata a lógica. Sabemos que ela serve para analisar argumentos e pensamentos. Sabemos que um argumento é composto por proposições, e que podemos analisar proposições pelos cânones da lógica. Sabemos que os argumentos, dispostos de forma silogística, podem ser dedutivos ou indutivos, e que, para serem recusados precisam ser acusados de sofisma ou falácia. Temos, praticamente, um conceito bem formado da ciência da lógica. Mas Aristóteles é ainda mais profundo. Ele tinha um compromisso praticamente religioso para com a verdade. Isso, mais uma vez, deve ter vindo de Sócrates através da Academia de Platão. Adler nos lega uma citação deveras preciosa: “É preferível e é mesmo nosso dever destruir o que mais de perto nos toca a fim de salvaguardar a verdade, especialmente por sermos filósofos ou amantes da sabedoria; porque, embora ambos nos sejam caros, a piedade exige que honremos a verdade acima de nossos amigos” (ARISTÓTELES apud ADLER, p. 157).
Sabemos que a lógica versa sobre o que pensamos. Mas não era apenas disso que se trata a lógica, segundo a concepção de Aristóteles, conforme nos informa Sproul: “Para Aristóteles, a lei da não-contradição não é meramente uma lei do pensamento, mas também uma lei do ser. Na verdade, é uma lei do pensamento exatamente porque é primeiro uma lei do ser. Alguém pode dizer que o número cinco é par e ímpar, mas o número cinco não pode ser par e ímpar” (SPROUL, p. 45).
Sobre a relação entre o ser e o pensamento Aristóteles antecipa Saussure na filosofia da linguagem, conforme nos informa Berti: “No tratado Sobre a enunciação (De interpretatione), Aristóteles afirma que as palavras que formam a linguagem, são signos convencionais dos conceitos, ou, mais geralmente, eles são os conteúdos do espírito, sendo estes, por sua vez, as imagens das coisas: entre a linguagem, o pensamento e a realidade há, portanto, uma relação de significação” (PRADEAU, p. 46). Nós conhecemos a parte do Órganon a que Berti se refere: “Os sons emitidos pela fala são símbolos das paixões da alma, [ao passo que os caracteres escritos [formando palavras] são os símbolos dos sons emitidos pela fala. Como a escrita, também a fala não é a mesma em toda parte [para todas as raças humanas]. Entretanto, as paixões da alma, elas mesmas, das quais esses sons falados e caracteres escritos (palavras) são originalmente signos, são as mesmas em toda parte [para toda a humanidade], como o são também os objetos dos quais essas paixões são representações ou imagens” (ARISTÓTELES, p. 81).
O pensamento formula conceitos sobre a realidade e os expressam por palavras. As palavras são signos dos conceitos. Os conceitos são o conteúdo do espírito. O que se passa no espírito são imagens das realidades. Assim, o que pensamos é o que existe, e o que falamos é o que pensamos. São símbolos para evocar os conceitos que, por sua vez, evocam a realidade*7.
Sproul, novamente e de forma notória, define a questão: “... ao formular as leis da lógica, Aristóteles não estava preocupado apenas em pensar sobre certas coisas mas também com a existência das coisas sobre as quais pensamos. Apesar de acabar rejeitando a filosofia de Platão, ele certamente refletia sobre a relação entre pensamento e realidade. [..] Sua preocupação com a verdade era também uma preocupação com a realidade, pois as duas estão relacionadas de modo inseparável. [..] Segundo Aristóteles, as leis da lógica se aplicam a todas as ciências, por serem válidas para toda a realidade. Isso não quer dizer que tudo o que é racional seja real. [...] Tudo o que é real, porém, é racional. O que é ilógico não pode existir na realidade” (SPROUL, p. 44). Portanto, a realidade e a lógica estão estritamente ligadas. Compreender adequadamente a realidade demanda compreender a lógica. Não é apenas um capricho intelectual. É questão de se localizar. Sejamos, pois, sempre bons estudantes de lógica, seja lá qual área nos devotemos a atuar.

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1 Aqui é preciso, particularmente, muita cautela na terminologia. Sproul usa o termo ‘acidente’ incluindo a categoria substância, o que pode gerar uma enorme confusão: “Segundo Aristóteles, uma entidade é composta de suas substâncias e seus predicados, ou o que ele chamava de acidentes” (SPROUL, p.).
*2 Recomendamos dois artigos muitíssimo interessantes nesse sentido. O primeiro é do grande filósofo William Lane Craig, e se chama: ‘Deus ainda não está morto’, e pode ser encontrado neste endereço: http://www.reasonablefaith.org/portuguese/deus-naeo-esta-morto-ainda
O segundo é do historiador, teólogo e cientista Alister McGrath, intitulado ‘Thank God for the New Atheism‘ e que pode ser encontrado no seguinte endereço: http://www.abc.net.au/religion/articles/2011/01/31/3125641.htm.
O vídeo de Vince Vitale também é apropriado de ser visto: https://www.youtube.com/watch?v=25nvoycJ0hw.
*3 Outro erro comum, de mesmo teor, é considerar o Calvinismo a luz de Max Weber e o que o alemão passou aos livros didáticos da posteridade. Para duas ótimas refutações, veja um artigo de Franklin Ferreira: http://www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_V__2000__2/Franklin.pdf; e um de Antônio Máspoli de Araújo Gomes.: http://cpaj.mackenzie.br/fidesreformata/visualizar/102.
*4 O mesmo Durant, ao expor um possível problema com o argumento dedutivo acaba valendo-se do que parece uma indução e, principalmente, da inferência a partir da abstração da espécie, do tipo de coisa a que o que está em questão pertence: “Por exemplo, o homem é um animal racional; mas Sócrates é homem; portanto, Sócrates é um animal racional. [...]A dificuldade, como salientaram os lógicos da época de Pirro até a de Stuart Mill, está em que a principal premissa do silogismo aceita como ponto pacífico precisamente o detalhe a ser provado; porque se Sócrates não for racional (e ninguém questiona o fato de ele ser homem), não será universalmente verdadeiro que o homem é um animal racional. Aristóteles retrucaria, sem dúvida, que quando se verifica que um indivíduo possui um grande número de qualidades características de uma classe [...], cria-se uma forte presunção de que o indivíduo possui as outras qualidades características dessa classe” (DURANT, p. 65). Adiante esse pensamento poderá ser melhor compreendido.
*5 Esse método é usado na investigação criminal, como demonstram séries como Cold Case ou CSI. Craig, nesse mesmo livro, usa o método para provar, indutivamente, a ressurreição de Jesus Cristo.
*6 Charles Hodge ainda estaria legitimado em sua Teologia Sistemática, no primeiro capítulo, quando propõe o método indutivo para a teorização teológica. Segundo a teologia reformada, e o próprio Hodge, adiante, no mesmo capítulo, temos como determinar o denominador na inferência teológica ou, pelo menos, temos tudo o que Deus planejou que soubéssemos. Temos ali todos os dados possíveis, particulares, e deles inferirmos uma generalização, uma doutrina. É assim que deve-se prosseguir na dogmática.
*7 Noutro artigo sobre linguística exploraremos melhor a questão.

REFERÊNCIAS

ADLER, Mortimer J; VAN DOREN, Charles. Como Ler Livros. Tradução de Edward Horst Wolff e Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2010, 432p.

ARISTÓTELES. Organon. Tradução, textos adicionais e notas de Edson Bini. São Paulo: EDIPRO, 2ª ed., 2010, 608p.

BERTI, Enrico. Aristóteles _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.

CHALITA, Gabriel. Vivendo  Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.

DURANT, Will. A História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 4ª ed., 2001, 406p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.

HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo:Editora Hagnos, 2001. 1777p.

NASH, Ronald H. Questões Últimas da vida: uma introdução à filosofia. Tradução de Wadislau Martins Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 448 p.

OLIVEIRA, Lucio Antônio. Debate: Justificativa para o Ateísmo e para o Teísmo (Parte 8). Acessado no dia 08/05/2014 em: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2013/07/debate-justificativa-para-o-ateismo-e.html

SCHOPENAUER, Arthur. Como Vencer um debate sem precisar ter razão: em 38 estratagemas (dialética erística) Tradução de Olavo de Carvalho e Daniela Caldas; introdução, notas e comentários de Olavo de Carvalho. Rio de Janeiro: Topbooks, 1977, 258p.

SIMONUTTI, Luisa. As Reformas _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.


SPROUL, R. C. Filosofia para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208 p.