Mostrando postagens com marcador Mitologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mitologia. Mostrar todas as postagens

domingo, 27 de abril de 2014

ATENAS: o berço de uma nova filosofia


Antes de falarmos em sofistas, Sócrates, Platão e Aristóteles temos que falar de Atenas e a história da Grécia*. Essa era a cidade-estado modelo das polis gregas. Ela está no norte da Grécia, na península da Ática, recortada, com possibilidades sugestivas de envolver-se com empreitadas marítimas, o que aconteceu. Atenas desenvolve uma importante atividade comercial via marítima.
A sociedade em Atenas ainda é censitária, ou seja, dividida por condições financeiras. Mas sua estrutura é um pouco mais complicada que a de Esparta. No topo temos os eupátridas, ou seja, os latifundiários, grandes proprietários de terras, donos das melhores terras, nas planícies de Atenas. Em seguida temos os ‘demiurgos’, os comerciantes que não possuíam terras. Depois dos eupátridas e demiurgos temos os Georgóis, que eram pequenos proprietários de terras. Em seguida tínhamos os ‘Thetas’, os sem terras e, por fim, os escravos, oriundos de dívidas ou prisioneiros de guerra.
Os Eupátridas estavam nas planícies de Atenas, as melhores terras. Os Demiurgos estavam nos litorais, trabalhando no comércio. Os Georgóis e Thetas viviam nas montanhas, em regiões menos produtivas e com terras mais baratas.
Essa divisão social-cartográfica também foi refletida no pensamento político. Os Eupátridas, que viviam nas planícies, prezavam por conservar as coisas como estavam, afinal, estavam no poder: portanto, conservadores. Os demiurgos, habitantes do litoral ateniense, são moderados. Eles têm dinheiro, fazem parte deu uma elite ‘burguesa’. Apreciam certas mudanças. Já os Georgóis e os Thetas, residentes nas montanhas, evidentemente os menos favorecidos, pleiteavam mudanças radicais em prol de sua melhora de vida.
Evidentemente os escravos não tinham qualquer direito, não faziam qualquer diferença no cenário político ateniense.
Esses três partidos políticos geram discussões e essas aumentam na medida que a população crescia. Atenas passa por uma transição política, começando como uma monarquia, passando a ser uma oligarquia e, por fim, tornando-se uma democracia. No século VII a. C., na transição entre oligarquia e democracia é que esses partidos começam a debater uma reforma legislativa em Atenas.
É importante destacar que a democracia ateniense não surge por meio de uma revolução, mas por uma reforma gradual que levou, paulatinamente, os cidadãos ao processo político. Segundo Chalita, as cidades-Estados baseada na cidadania foram inspiradas “em cidades de regime monárquico da ilha de Chipre e de estados da Fenícia” (CHALITA, p. 16).
Para resumir essa reforma política temos que observa a série de legisladores que haviam. O primeiro legislador de Atenas foi Drácon, no final do século VII a.C., autor do primeiro código de leis escritas, as leis draconianas. Até então as leis atenienses eram faladas, transmitidas oralmente, o que dava a elas um caráter muito volúvel. Como a cidade ia crescendo, a demanda por leis escritas, para dar objetividade ao direito, fez-se necessária e Drácon cumpre esse papel. Era um registro das leis faladas, leis conservadoras, e que foram impostas. Não houve um debate legislativo. Isso não mudou o quadro político e forense de Atenas, mas foi um avanço pelo fato de as leis estarem registradas.
Em 594, início do século VI a.C., temos Sólon, um legislador reformista. Ele altera algumas características importantes em Atenas. Mexeu na estrutura da escravidão por dívidas. Normalmente o Georgol (pequeno proprietário de terras) pegava dinheiro emprestado dos mais ricos. Quando não conseguia pagar, hipotecava suas terras tornando-se um Theta. Como Theta, e ainda endividado, sem ter como pagar suas dívidas, tornava-se um escravo. Sólon proíbe essa escravidão hipotecária.
Como a demanda de escravos continuava, Atenas viu-se obrigada a expandir-se para conquistar prisioneiros e torna-los escravos.
Os Georgóis ficaram contentes com tal inovação política, mas o Eupátridas não e levantam uma revolta em Atenas, desembocando na Tirania ou Ditadura, de 560 a 530 a.C. Os governantes, nesse período, chegavam ao poder por golpes militares, ao invés de eleição. Temos Psístrato, Hípias, Hiparco e, finalmente, o grande tirano Clístenes que, em 512 a. C. começa uma reforma em Atenas que se conclui em 510 a.C.
Essa reforma criada por Clístenes foi a criação de uma nova lei, conhecida como ‘Lei Democrática’. Na nova lei a Polis foi dividida em Demos, ou seja, grupos de pessoas, que teriam participação igualitária na política. Cada Demos elegeria seus representantes que participariam de uma assembleia chamada Eclesia*.
As Demos governam as cidades numa estrutura de ISONOMIA, i. é., igualdade (‘iso’ significa igual, como acontece no triângulo isósceles; nomia, de nomos, é lei; portanto, lei igual para todos). Ou seja, independente da origem e das condições econômicas, todo cidadão seria igual perante a lei. Isso não quer dizer que todos são cidadãos. Crianças, mulheres, estrangeiros (metecos) e escravos não eram considerados cidadãos. Segundo Gabriel Chalita, era “considerado cidadão o homem que possuísse alguma propriedade (uma casa, pelo menos), que tivesse escravos, e que não fosse estrangeiro” (CHALITA, p. 44). Portanto, de 70 a 80 por cento da população ateniense não participava da política*. Entretanto, por sua vez, havia uma participação direta na política por parte dos cidadãos, sem representatividade. Como haviam poucos cidadãos, eles mesmos é quem elaboravam e votavam nas leis*. “As propostas que os cidadãos atenienses defendiam publicamente eram feitas por meio de discursos proferidos na ágora” (CHALITA, p. 45). A ágora era uma espécie de praça pública, centro da vida política e comercial dos cidadãos gregos, onde, além da discussão política, também se praticava o comércio e celebrações religiosas.
No espírito participativo ateniense vemos o espírito do debate, do consenso e da retórica imperando. Era preciso desenvolver bons argumentos, modos de persuasão, para que as ideias fossem assimiladas e aprovadas de modo a gerar o consenso. Antes do consenso a democracia ateniense demandava um debate sobre qualquer assunto ou proposta que apelava por aprovação.
Não sem motivos que a arte mais apreciada na Grécia antiga era justamente o teatro, onde se praticava a arte retórica. Chalita faz uma importante associação entre o teatro, particularmente a tragédia, e a mentalidade filosófica democrática. Primeiro, afirma que a democracia estava imersa na ideia de que “o homem tem soberania sobre seu destino” (CHALITA, p. 44). E logo afirma que “esse gênero dramático [as tragédias] tematizava acontecimentos terríveis, muitas vezes míticos, e tinha a intenção de mostrar as consequências de atos imorais e passionais dos homens. A tragédia também era uma reflexão sobre o conflito entre a liberdade individual e o destino, tema que incomodava os cidadãos da democracia: afinal de contas, até que ponto eles teriam poder sobre suas vidas?*” (CHALITA, p.45). Essa mentalidade está intimamente ligada com as atividades filosóficas do período, como veremos em artigo posterior.

É nesse contexto democrático ateniense que florescem os sofistas.

O PERÍODO CLÁSSICO DA GRÉCIA

Esse período vai do século VI ao século IV a. C. O professor Rodolfo começa explicando o que o termo ‘clássico’ quer dizer. Em história, tal termo refere-se ao que é modelo, arquétipo. Assim, quando nos referimos à civilização antiga na Grécia, se não mencionarmos outro período, estamos nos referindo ao modelo de civilização desenvolvida no período clássico. Muitos consideram esse momento o apogeu da Grécia, embora, para ser mais preciso, é o apogeu ateniense, o período de ouro da filosofia em Atenas. Assim, Rodolfo acha impertinente dizer que esse período é clássico, arquetípico da civilização grega, visto que houve muitos outros momentos importantes, apogeus, noutros momentos, fora de Atenas. Mas essa é a terminologia padrão.
O período clássico tem início e fim com guerra. Uma no início, que representa o apogeu desse modelo grego ateniense; e um no seu fim, que marca o declínio do império grego, com seus conflitos internos que tornaram vulnerável o reino.

GUERRAS MÉDICAS

Tudo começa com as Guerras Médicas, de cerca de 490 a 470 a. C. Nela temos o conflito (ou uma série de conflitos) da Grécia com o grande império Persa, que tinham uma tradição expansionista desde Ciro I, unificador dos Persas, ou seja, em sua formação.
Os Persas, unificados, vivendo em uma região pobre em recursos hídricos, começa uma expansão rumo ao Rio Tigres e Eufrates. Então Ciro conquista a Mesopotâmia. Em seguida o imperador Cambises conquista o Egito em 525 a. C. Por fim, Dario I parte para a conquista do Mar Egeu, o que inclui a Península Balcânica, e de todo o comércio ali desenvolvido, onde surge o conflito com a Grécia.
Aqui temos de acentuar as diferenças. A Grécia era composta por cidades-estados autônomos e, portanto, não tinha um poder centralizado que pudesse requerer todo o poder militar de toda a nação grega. Já os Persas eram um império organizado, com um exército enorme, centrados na figura do seu Imperador.
No começo do conflito os Persas, certos de seu sucesso, engendram uma estratégia equivocada. Resolvem começar a invasão pelo norte, onde está Atenas, e pela via marítima. Mas como Atenas já tinha uma tradição muito bem estabelecida no comércio marítimo, tiveram vantagem na luta nas águas e conseguiram resistir à invasão. Não eliminaram as forças persas, mas a península Ática, pelo menos, não foi invadida*.
O próximo imperador, Xerxes, resolve marchar com suas tropas mais para o sul, na Península do Peloponeso, onde estavam os Espartanos, que não tinham tradição marítima. Foi aqui que temos a ‘Batalha de Termópilas’, representada no filme 300. Bom, os persas vencem a batalha, apesar da resistência heroica dos espartanos e seus esparciatas, hoplitas guerreiros.
No povo do norte, tal notícia certamente trouxe pavor pois os espartanos, o padrão e o auge do poderio militar, foram derrotados. A frota de tri-remis construída por Temístocles concedeu à Atenas a hegemonia marítima no mediterrâneo oriental. Embora os persas tenham sido derrotados em Salamis, a ameaça de uma outra invasão era sempre corrente. Atenas e as demais cidades-estados do Egeu formaram a Liga de Delos (em 478 a. C, segundo o History Channel). Era um conclave, uma união militar, e não política, entre as cidades gregas, liderada por Atenas, para enfrentar os persas. As cidades livres do norte, portanto, financiavam a formação de um exército (portanto os soldados eram assalariados). A Confederação de Delos alcança êxito, e Atenas sai vitoriosa, derrotando os Persas*.

O SÉCULO DE PÉRICLES

Após a vitória, Atenas não liberta as cidades envolvidas na Confederação de Delos. Cerca de 450 a. C. Atenas era a líder incontestável da Liga de Delos. Ela toma algumas atitudes que podemos considerar, no mínimo, tirânicas. Pra começar, Atenas retira o tesouro que ficava localizado na cidade de Delos e o transfere para si. Depois os impostos de guerra, para financiar o exército, continuam a ser cobrados, mesmo que estivessem em tempos de paz. O exército de Delos passa a ser o exército de Atenas. Detendo todo esse poder, com um imperador chamado Péricles*, temos, de 460 a 430 a. C. o chamado ‘Imperialismo Ateniense’, chamado também de ‘Século de Ouro de Atenas’ ou ‘Século de Péricles’. Nesse período temos a Hegemonia Ateniense, dominando não só a Península Balcânica como todo o Mar Egeu.
Quanto mais expandia seu território, mais prisioneiros conseguia, e mais escravos possuía. A sociedade sofre algumas alterações com tal empreitada. Acontece que, quanto mais escravos haviam, mais tempo livre tinham os cidadãos atenienses, afinal, porque pagariam para um trabalhador se podiam contar com os escravos? Tal tempo livre proporciona aos cidadãos atenienses que se dedicassem com mais atenção à atividade política. Assim, a atividade política tornou-se a principal atividade do cidadão ateniense no período do Imperialismo Ateniense. Um paradoxo interessante é levantado pelo professor Rodolfo: quanto mais Atenas se expandia, conquistando territórios e tirando a liberdade de outros povos, mais liberdade e mais democracia dava a seus cidadãos.
Entretanto, o cidadão que não trabalhava tinha que angariar recursos. Não podia ficar envolvido na atividade política sem qualquer granjear de renda. Então Péricles cria a Mistoforia, ou seja, a remuneração do cidadão para sua atividade política. Assim, todo cidadão ateniense, todo homem livre, nascido em Atenas, maior de dezoito (18) anos, tem condições e exerce uma carreira política.
“Imperialismo e Democracia são duas faces de uma mesma moeda na Atenas do século V a. C.” é uma frase que resume bem o que se deu no ‘Século de Ouro’ de Atenas. Ou seja, o ‘Apogeu’ da Atenas democrática dependia de seu domínio sobre outras cidades.
É interessante notar que nesse período de crescente ócio é que temos o florescer da filosofia clássica de Sócrates e Platão, e Aristóteles no declínio desse período.

A GUERRA DO PELOPONESO

Esse progresso ateniense incomoda as cidades que não compactuam de seu imperialismo e Esparta foi uma dessas*. A cidade se recupera, após as guerras médicas, e também forma uma confederação em 434 a.C., chamada Confederação do Peloponeso. Era um grupo de cidades, uma aliança militar, liderada por Esparta, contrária ao imperialismo ateniense. O conflito entre a Confederação de Delos, liderada por Atenas, e a Confederação do Peloponeso, liderada por Esparta, seguiu-se naturalmente.
Surge a guerra do Peloponeso, de 431 a 404 a. C*. Não era apenas um conflito entre Atenas e Esparta, mas um conflito interno da Grécia entre a Confederação de Delos e a Confederação de Peloponeso. Como conflito interno, a Grécia é a maior prejudicada, ficando enfraquecida.
Em 431 Esparta ataca Atenas e a rodeia por 2 anos. Atenas resiste, mas sucumbe vítima de uma doença, provavelmente oriental, conhecida como ‘A Grande Praga Ateniense’. Péricles, com seus lá para os 60 anos, resistiu à peste, mas estava com a saúde debilitada, bem como a psique, pois, imaginava-se culpado pela queda iminente da cidade. Morre em 429 a. C.
Os Espartanos acabam vencendo o conflito mas a situação apenas foi invertida. Agora é a Confederação do Peloponeso, ou Esparta, que tenta dominar toda a Grécia*. Tebas fica revoltada, faz uma liga tebana e também ataca Esparta. E assim, uma série de conflitos internos na Grécia acaba enfraquecendo-a e tornando-a mais vulnerável à invasão. Não precisamos, para os objetivos que visamos alcançar com essa contextualização, dissertar sobre esses conflitos.
A invasão de fato acontece, começando com o rei Macedônico Felipe II, e termina com seu filho Alexandre, o Grande.
Tal quadro justifica a afirmação de que ‘a Grécia não morreu de um assassinato, mas de suicídio’, pois são os conflitos internos que a destruiu, tornando-a alvo fácil para Felipe II e, posteriormente, Alexandre, o Grande, que inicia o período helenístico.
Paremos por aqui. Já temos o contexto para dissertar sobre os sofistas, Sócrates e Platão.

-------------------------------------------------------------------------
* Nossa exposição segue as informações obtidas nas aulas ‘Atenas Clássica’ e ‘Civilização Grega – Período Clássico’ do professor Rodolfo Neves, e no documentário ‘Construindo um Império: Grécia’, do History Channel. No mais, complementamos com as introduções à história da filosofia que temos em mãos.
* “...dos quatrocentos mil habitantes de Atenas 250 mil eram escravos, sem diretos políticos de qualquer espécie, e dos 150 mil homens livres ou cidadãos, só um pequeno número comparecia à Eclésia, ou assembleia geral, onde eram discutidas e determinadas as diretrizes do Estado. No entanto, a democracia que tinham era tão completa como nenhuma outra desde então. A assembleia geral era o poder supremo; e o mais alto órgão oficial, o Dicastério, ou suprema corte, consistia de mais de mil membros (a fim de tornar caro o suborno), selecionados maquinalmente, em ordem alfabética, da lista de todos os cidadãos” (DURANT, p. 27).
* Alguns poderiam replicar que isso, portanto, não seria uma democracia. Mas o professor Rodolfo adverte-nos que a Democracia Grega não significava um governo de todos, mas um governo do cidadão. Assim, não importa quantos cidadãos hajam, apenas que todo cidadão tenha o mesmo direito. Esse conceito de democracia é um pouco diferente do atual conceito, oriundo do final do século XVIII, um conceito iluminista, que chegou à Revolução Francesa e trabalha com a ‘Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão’, que, por sua vez, afirma que todo homem nasce livre e igual, o que não era afirmado na democracia ateniense.
* Evidentemente isso seria impossível numa democracia como a do Brasil, com proporções enormes de pessoas. Representantes se fazem necessários. Eles são eleitos e os votos dos cidadãos são como contratos que fazem com o político para representa-los.
* Gaarder nos fornece um contexto muito bom para essa discussão. Acontece que a crença no destino traçado era típica dos gregos. Particularmente um oráculo, aquele tipo de oficial religioso que podia ver o futuro, era consultado: o Oráculo de Delfos, devoto de Apolo. Apolo “falava através de sua sacerdotisa, Pítia, que ficava sentada num banquinho colocado sobre uma fenda na terra. Dessa fenda subiam vapores inebriantes, que colocavam Pítia numa espécie de transe. E isto era necessário para que ela se tornasse o meio pelo qual Apolo falava” (GAARDER, p. 66-67).
Mesmo que a mitologia tenha sofrido um baque enorme, a religião não fora extinta da Grécia. Muitos ainda criam e consultavam o Oráculo de Delfos. Ela tinha sacerdotes que intermediavam suas profecias e o povo. Ela geralmente falava de modo misterioso, enigmático, e os sacerdotes geralmente interpretavam suas palavras.
No templo havia uma inscrição célebre: ‘conhece-te a ti mesmo’, para que o homem reconhece-se como mortal e que não podia fugir de seu destino. As tragédias, pois, refletiam essa mentalidade oriunda de Delfos, com histórias em que as pessoas, mesmo tentando fugir de seus destinos, acabavam correndo para abraça-los. Tanto Gaarder quanto Chalita nos recomendam Édipo Rei, de Sófocles (497-406 a. C.).
Gaarder nos informa que a naturalização (ou, alguns contemporâneos poderiam sugerir ‘secularização’ como termo mais apropriado) proposta pelos pré-socráticos chegava, também, à negação do papel dos deuses não só na história dos indivíduos mas na história da humanidade. Os gregos “achavam que todo o desenrolar da história do mundo também era determinado pelo destino. Assim, os gregos acreditavam, por exemplo, que o desfecho de uma guerra deveria ser atribuído a uma intervenção divina” (GAARDER, p.67). Mas a mentalidade naturalista fez com que, aos poucos, formasse “uma ciência da história, cujo objetivo também era encontrar causas naturais para o curso da história universal. O fato de um Estado perder uma guerra não mais era atribuído ao desejo de vingança dos deuses” (GAARDER, p. 68).
Novamente, tal crítica, a despeito do que Gaarder propõe, não atinge de modo algum a teologia cristã reformada. Primeiramente, a crítica era ao desenrolar da história segundo caprichos dos deuses. Depois, ignoravam a causalidade dos fenômenos naturais, o que a teologia cristã não faz. Entretanto, Deus está intimamente ligado com as decisões e até com a competência dos guerreiros, comandantes e príncipes de todas as épocas. Noutra oportunidade, discursando sobre a providência, tangeremos o assunto com mais cautela.
* Aqui vale a pena relatarmos a importante história de Temístocles, segundo consta no documentário do History Channel denominado: “construindo um império: Grécia”. O documentário, após a introdução, nos situa em Setembro de 480 a. C., em plena Guerras Médicas, que vão de 490 a. C. a 470 a. C., na ilha de Salamis, uma ilha próxima à Atenas. Seria o palco de uma sangrenta e decisiva batalha contra a Pérsia.
A Pérsia era a superpotência da época. Extremamente rica e autoconfiante. Foi o maior império multicultural e multiétnico já visto.
700 navios com 150 mil guerreiros estavam ao horizonte, prontos para anexarem a Grécia aos domínios do império Persa. Themistocles, um grego, entretanto, os aguardava. Era um almirante e político ateniense, que se preparava para resistir aos persas. Entretanto, a batalha não parecia nada animadora. A ‘desvantagem da marinha grega era de um para dois’. Além disso, tinha um grupo de soldados desorientados, provavelmente temendo os persas pelo grande número de seus exércitos.
As cidades-estados eram tanto um avanço quanto um problema para a Grécia diante dessa batalha. Eram cidades superdesenvolvidas. Eram como países independentes e autossuficientes dentro da própria Grécia, unidos apenas pelas raízes e pela cultura. Mas não havia um poder centralizado que unisse a todos os exércitos dessas cidades-estados. Elas, cada uma por si, se importavam apenas com suas próprias agendas e não tinham relações umas com as outras, a não ser alguns estranhamentos.
Temístocles tinha que organizar esse exército sobre o comando de uma só voz. Ele não veio da aristocracia, e não se envergonhava de que soubessem disso. Não sabia cantar ou afinar uma lira, mas dizia que sabia ter uma cidade grande e livre. Já havia enfrentado os persas em sua primeira invasão, com um exército menor, em 490 a. C., ou seja, 10 anos atrás, na cidade de Maratona. Ele levaria sua experiência para Salamis e concentraria suas forças na fraqueza que identificara nos Persas: a marinha. Temístocles demandou a construção de um projeto marítimo ousado. 200 tri-remis, o navio mais mortal do mundo antigo, seriam construídos imediatamente.
O tri-reme era um barco com 40 metros e que movia-se muito rápido, contendo uma quantidade enorme de remadores (uns 170!).
Temístocles engendrou o seguinte plano. Ele guiou os persas para o Estreito de Salamis para que fossem afunilados e tivessem menos vantagens. Ele sabia que os persas gostavam de vencer batalhas intimidando e por traidores. Então Temístocles envia alguém aos exércitos persas supostamente para trair os gregos, dizendo que estavam desorganizados e que deveriam ‘levantar velas’ de noite para surpreendê-los pela manhã. Os persas morderam a isca. Para a sua surpresa, as frotas gregas não estavam em fuga, mas em formação de batalha. Os 200 tri-remes colocaram-se em linha para impedir a manobra das embarcações persas para nos estreitos. Durante todo o dia os tri-remes cercavam os navios persas e os atacavam com as vigas dianteiras. Foi uma batalha confusa, apavorante, e ao fim do dia os gregos nem mesmo estavam certos se venceram, mas viram milhares de cadáveres inimigos nas praias de Salamis e jugaram que venceram. Algumas fontes dizem que os persas perderam 200 navios, ao passo que os gregos perderam apenas 40. Os persas que não se afogaram eram mortos pelos soldados gregos que esperavam na praia.
Um dos historiadores do documentário observa que, se os gregos não tivessem vencido a batalha de Salamis, a Grécia antiga, e, consequentemente os valores que temos hoje, a nossa estrutura social, não existiriam.
Após a gloriosa vitória em Salamis, Temístocles foi considerado um herói. Entretanto suas ambições pessoais geraram ódio em seus inimigos políticos. Em pouco tempo a cólera da Assembléia, a Eclesia, foi derramada. Os gregos faziam um debate anual sobre a impopularidade, votando no político mais perigoso para o progresso de Atenas, e o exilavam por 10 anos. Chamavam isso de ‘ostracismo’. Assim, em 471 a. C., 9 anos após sua vitória em Salamis, foi vítima do ostracismo. Ironicamente foi pedir abrigo aos persas, e nunca mais viu Atenas. Terminou sua vida falando persa, trabalhando como administrador para o rei persa, ajudando-o a cuidar da Ásia Menor.
Temístocles, ao vencer a batalha da ilha de Salamis não salvou apenas uma cidade, mas salvou a democracia, que nascera a cerca de 25 anos antes da batalha (portanto, c. 505 a. C, segundo o documentário, mas 510 a. C., segundo o professor Rodolfo).
* Durant, aqui, é muito pertinente em suas observações. Ele notará como Atenas, após o término das Guerras Médicas, conseguiu alavancar sua economia, ao passo que Esparta regrediu. Permitam-nos citar todo o parágrafo: “De 490 a 470 a. C., Esparta e Atenas, esquecendo os ciúmes e unindo forças, combateram e derrotaram os esforços dos persas, sob Dario e Xerxes, de transformar a Grécia numa colônia do império asiático. Nessa luta da jovem Europa contra o senil Oriente, Esparta forneceu o exército, e Atenas, a marinha. Terminada a guerra, Esparta desmobilizou suas tropas e sofreu as perturbações econômicas típicas desse processo; enquanto que Atenas transformou sua marinha de guerra numa frota mercante e se tornou uma das maiores cidades comerciais do mundo antigo. Esparta voltou a cair no isolamento agrícola e na estagnação, enquanto Atenas se tornava um movimentado mercado e porto, o local de encontro de muitas raças de homens e de diversos cultos e costumes, cujo contato e cuja rivalidade geraram comparações, análise e reflexão” (DURANT, p. 25-26). Esse intercâmbio cultural, para Durant, como já fora notado no artigo sobre o contexto histórico do surgimento da filosofia (nota 1), favoreceu o florescimento da filosofia em Atenas.
* O documentário do History Channel também tece detalhes interessantes sobre Péricles que achamos por bem aqui registrar: Péricles levaria a promissora Atenas a seus anos de glória. Péricles era um intelectual democrata que apoiava as artes. Veio da aristocracia ateniense, e, portanto, uma carreira política ou militar era esperada. Ele levou Atenas ao auge por meios não muito nobres, como suborno, ameaças e força bruta.
Quando jovem foi eleito a estrategos, um chefe de exército que determinava a política externa. Como um político nato e bom orador, logo se tornou o estadista mais poderoso de Atenas. Em 461 a. C. tornou-se o líder de Atenas (portanto, as Guerras Médicas já havia terminado a poucos anos atrás, c. 470 a. C.).  A liga de Delos detinha muito dinheiro, e Péricles o usou criando obras magníficas para demonstrar o poder que detinha.
O Acrópole é um exemplo. Reza a lenda que Poseidon e Atenas foram ao Acrópole para competir quem seria o patrono da cidade, o que seria decidido pelo voto das pessoas. Poseidon golpeou o chão e saiu água. Atenas fez o mesmo e saiu uma oliveira, que significava não apenas sustento para os gregos, mas possibilidade de um produto para comercialização, e Atenas caiu nas graças do povo. No decorrer dos séculos muitos templos foram construídos para Atenas. Muitos foram destruídos. Mas Péricles deu a Atenas o maior monumento de arquitetura grega do mundo antigo: o Parthenon. Ele resolveu reconstruir o Partenon na Acrópole de Atenas (a parte mais alta da cidade). Custou mais que qualquer outro edifício construído pelos gregos: 30 milhões de dracmas, equivalente a bilhões de dólares. Era um empreendimento estatal. Começou em 447 a. C. A principal função do Partenon era dar abrigo â monumental Estátua de Atena.
Embora toda a glória do Partenon, alguns o desprezavam, achando-o horrível e um monumento à própria glória de Péricles. Platão, e.g., não gostava dos templos. Muitos achavam que as inovações rompiam com o passado.
Os murmúrios em Atenas não se restringiram ao Partenon. Péricles continuava a expandir o império ateniense, e seus rivais e opositores começavam a conspirar contra ele. Em breve começaram a atacar seus aliados, dentre as quais, no topo da lista, estava Aspásia, uma mulher bonita e culta, importante oradora (Inclusive influenciadora de Sócrates!), membra da elite da casta hetera. Heteras eram cortesãs da alta corte, comparadas às gueixas da cultura japonesa. Circulavam na alta sociedade e em ambientes de extrema cultura grega. Numa sociedade em que as mulheres deviam submeter-se ao domínio dos homens, Aspásia era exceção à regra. Péricles a tratava como igual, e até a beijava em público, para o escândalo ateniense. Essas demonstrações públicas de afeto não eram esperadas em Atenas.
O Partenon foi finalizado em 432 a. C., após quase 15 anos de construção. Tal homenagem a Atenas surtiu o efeito que Péricles almejou: divulgar o poder de Atenas para o mundo. Mas, ironicamente, a supremacia simbolizada pelo Partenon estava em declínio, como veremos na história.
* Notem que o século V a. C. foi um período de muitos conflitos na Grécia, a começar pelas Guerras Médicas e seguir com a Guerra do Peloponeso.
* A introdução à história da filosofia de Sproul, não muito rica em detalhes históricos, aponta os impostos cobrados por Péricles como o motivo da insatisfação que gerou a Guerra do Peloponeso: “Os anos dourados de Atenas, no entanto, duraram pouco. O brilho do dourado foi sendo ofuscado pelo peso dos impostos arrecadados por Péricles. E isso causou a guerra do Peloponeso em 431, que terminou em 404 com a derrota de Atenas” (SPROUL, p. 29).
* Aqui acreditamos ser pertinente relatar alguns conflitos políticos que pairavam sobre aquele momento, o que Durant é excelente para elucidar. Primeiro, ele nos informa que haviam sofistas que defendiam ser a aristocracia a forma de governo mais sábia e mais natural. Então afirma “Sem dúvida, esse ataque à democracia refletia a ascensão de uma minoria rica em Atenas, que se intitulava Partido Oligárquico e denunciava a democracia como sendo uma impostura incompetente” (DURANT, p. 27). Durante a Guerra do Peloponeso (que será vista no decorrer do texto), o Partido Oligárquico, do discípulo de Sócrates e tio de Platão, Crítias, aproveitou o momento de tensão para defender o abandono à democracia, com o argumento de que era incompetente para a guerra, ao passo que cortejava a aristocracia espartana. “Muitos líderes oligárquicos foram exilados, mas quando finalmente Atenas se rendeu, uma das condições para a paz imposta por Esparta foi a chamada volta daqueles aristocratas exilados. Mal haviam retornado, eles, com Crítias à frente, declararam uma revolução dos ricos contra o partido ‘democrático’ que havia governado durante a desastrosa guerra. A revolução fracassou, e Críticas morreu no campo de batalha” (DURANT, p. 27). Portanto, a democracia prevaleceu em Atenas.


REFERÊNCIAS

CHALITA, Gabriel. Vivendo  Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.

DURANT, Will. A História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 4ª ed., 2001, 406p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.
HISTORY CHANNEL. Construindo um Império: Grécia. Acessado em 05/04/2014 em:

NEVES, Rodolfo. Atenas Clássica. Acessado em 05/04/2014 em: https://www.youtube.com/watch?v=b83vPhrIBkI

NEVES, Rodolfo. Civilização Grega – Período Clássico. Acessado em 05/04/2014 em: 


SPROUL, R. C. Filosofia para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208 p.

sábado, 12 de abril de 2014

O que pensar sobre os mitos?

O CONTEXTO HISTÓRICO

Certa feita estávamos a debater com um meliant...quer dizer, militante ateu, e o sapientíssimo ser confundiu os significados de místico e mítico. Já era uma gritante declaração de que ele não havia gastado muito tempo considerando o assunto, não lendo nada sobre. A evidência era a falta de familiaridade com os termos. Mas a evidência máxima foi querer considerar a crença em Deus, particularmente no Deus cristão (aliás, evidentemente, era um neo-ateu, embora nem isso soubesse), uma crença mítica. No final, o nada erudito adversário escancara sua idiotice ao considerar toda informação não empírica como mítica. Na verdade, para ele, toda crença, todo ‘ato de fé’, era encerrar-se em um mito, no sentido pejorativo do termo. 
Pois bem, nada melhor do que a boa e velha instrução para resolver esse tipo de confusão. Vamos, pois, no que se segue adiante, explicar o que é o mito, sua relação com o surgimento da filosofia, e sua relação à religião. 


IDENTIFICANDO OS TERMOS: MÍSTICO OU MÍTICO?

Primeiro, para o leitor que também não está muito inteirado sobre o assunto e vive a confundir algo místico com algo mítico, traremos um esclarecimento básico sobre o que é algo místico. A seguir, abaixo, teremos uma exposição sobre o que é o mito e, consequentemente, o que é algo ‘mítico’.
Charles Hodge, de forma magnífica, nos esclarece sobre os usos do termo ‘místico’. Seguiremos, em suma, a ele: ‘Misticismo’ é um termo controverso e amplo. Etimologicamente refere-se a alguém que aprendia os mistérios por revelação especial, segredos. O místico vê e sabe mistérios que outras pessoas não sabem, seja por intuição imediata ou revelação interior (p. 46).
Na filosofia o termo é usado para os que ensinam a unidade do humano com o divino, ou para os que ensinam a intuição imediata do infinito. Conhece-se Deus face a face, sem intermediação. Aquiescência ao sentimento despertado pelo infinito. Veremos, ao expor Plotino e o neo-platonismo, a exposição dessa perspectiva filosófica (HODGE, p. 46-47).
Um outro uso do termo é o que torna o sentimento a fonte do conhecimento, e os eleva acima de toda outra fonte. É dar mais importância às emoções do que ao intelecto. O místico desconfia da razão e dos sentidos. Um tipo de misticismo vê nas emoções a fonte da verdade outra considera que Deus testifica as verdades por meio das emoções (HODGE, p. 48-49).
Bom, seja como for, não é ao misticismo que iremos dissertar abaixo. O texto versará sobre o mito, o mítico, e não sobre o místico. É bom que não se confunda.

O MITO NA ANTIGUIDADE

“A fim de entendermos o pensamento dos primeiros filósofos, precisamos entender primeiro o que significa ter uma visão mitológica do mundo” (GAARDER, p.35).

O homem estava diante de muitos fenômenos naturais desconhecidos, não-interpretados, hostis à sua sobrevivência. Que era, afinal, esses lampejos celestiais que emanam feixes de luz até o solo trazendo morte? Que é toda essa ventania que surgiu ‘do nada’, com muita água, inundando e derrubando tudo? Esses e outros eram os fenômenos, os ‘fatos’ tal como se davam aos sentidos. E essas eram as questões. Foi, como observa Chalita, o espanto, o medo e o assombro (CHALITA, p.22), que fizeram o homem antigo ‘parir’ o mito*1.
Segundo Chalita, o mito é oriundo do próprio animismo. Chalita observa que o homem antigo fez a seguinte analogia (perceba como uma hipótese foi levantada e, como ela fazia sentido e, aparentemente explicava os fenômenos, viabilizando, inclusive, um modo supostamente eficaz de lidar com eles e suas reais ameaças): “Da mesma forma que imaginamos as circunstâncias que levam uma pessoa a ter uma explosão de raiva inexplicável, os homens tentavam entender os fenômenos ‘explosivos’ da natureza*2. ‘Por que esta tempestade? Alguma coisa desagradou a natureza. Fizemos algo errado, ou deixamos de fazer alguma coisa que deveria ter sido feita. A partir do momento em que a natureza ou cada uma das suas manifestações passaram a ser consideradas entidades superiores e temperamentais, que podiam de uma hora para outra irromper em fúria, surgem, primeiro na forma de boatos, depois como expressão da verdade, histórias sobre a personalidade e os feitos, as alianças e as inimizades dessas entidades [...]. E uma vez que os fenômenos naturais são associados aos deuses*3 e esses são interpretados como personagens semelhantes aos homens*4 – já que têm personalidade e manifestam emoções*5 –, a única coisa a fazer é tentar agradar a eles*6” (CHALITA, p. 20-22). Essa é a aurora do animismo, do mito e das religiões antigas e, quiçá, das atuais*7. Aos poucos foram-se acrescentando detalhes, segundo imaginavam, e em épocas e lugares diferentes as lendas foram se desenvolvendo*8. Supostamente alterações dialéticas teriam produzido as religiões posteriores*9.
Logo as histórias sobre as entidades por detrás dos elementos, convertidos em histórias sobre ‘homens imortais e superpoderosos’, deuses, encerraram históricas cosmogônicas também. “São histórias que nossos ancestrais transmitiam de geração a geração e que descrevem como o universo foi criado por uma ou mais entidades sobrenaturais, as chamadas divindades” (ROCHA, p.37).
Tudo bem, sabemos como os homens criaram os mitos, e até como do animismo eles tornaram-se histórias, tramas complexas, segundo a imaginação dos homens. Mas não era apenas para compreensão dos fenômenos que os mitos serviam. “Essas histórias fazem parte da tradição oral dos povos e visam sempre reafirmar os seus valores morais, religiosos ou éticos” (ROCHA, p.37). Chalita observa que os mitos não eram apenas narrativas sobre a origem das coisas (homem, natureza, mundo), mas “também falam sobre aspectos da condição humana, como o fato de ser mortal e sexuado, de viver em sociedade e ter de trabalhar para sobreviver, da necessidade de regras de convivência...” e adiante complementa sobre a utilidade deles: “... um papel importantíssimo, transmitindo o conhecimento de pais para filhos, garantindo a segurança dos indivíduos e a continuidade dos valores sociais, unindo as pessoas de um mesmo grupo” (p. 23).
Vale lembrar que os gregos acreditavam, também, que as habilidades humanas eram dádivas divinas, ou emanavam deles. Parece-nos que Platão iria ver nisso um insight para o ‘mito dos metais’, o que veremos noutra oportunidade.
Portanto, os mitos faziam parte de toda a cosmovisão dos antigos. Eles fundamentavam a metafísica (versando sobre a origem e o funcionamento do mundo), a ética (incluindo a reflexão existencial, teleológica e sociológica) e a antropologia*10. Toda a vida dos antigos estava comprometida e influenciada pelos mitos.




O MITO E NÓS, HOJE

Chalita afirma, sem muitas explicações, que os mitos ainda têm valor: “Em todos os povos, o mito sempre teve (e ainda tem, em muitas culturas) um papel importantíssimo...” (p. 23, itálico nosso). Talvez ele queira se referir, de forma pejorativa, às nações ‘atrasadas’, que ainda abraçam mitos. Seja como for, isso forneceu um insight para que pensemos em como os mitos poderiam nos abençoar. Acreditamos que o filósofo Olavo de Carvalho pôde iluminar-nos quanto a isso em seu artigo ‘Do Mito à Ideologia’.
Em suma, Olavo de Carvalho defende que devemos compreender o mito fundador de nossa sociedade para podermos compreendê-la com exatidão e não cairmos em ideologia. Segundo o professor Daniel Gomes, para a sociologia marxista, ‘ideologia’ é sinônimo de ‘falsa consciência’, discurso enganoso que leva-nos a ver as coisas não como elas são, mas de maneira invertida*11.
Por mito-fundador, portanto, Olavo não quer dizer “uma ilusão coletiva inventada por espertalhões de classe dominante para colocar os homens a seu serviço” (p. 407-408), que, a propósito, é a concepção dos críticos da religião, como se toda religião não passasse de um instrumento de domínio social*12.
O mito fundador seria “uma narrativa simbólica de fatos que efetivamente sucederam, fatos tão essenciais e significativos que acabam por transferir parte do seu padrão de significado para tudo o que venha a acontecer em seguida numa determinada área civilizacional” (OLAVO, p. 408). Assim, como observa pouco antes disso, os mito-fundadores não eram produtos culturais uma vez que foram a partir deles e da abstração das lições que trouxeram que as culturas se desenvolvem.
Adiante Olavo vai defender que a Bíblia seria o mito fundador do ocidente. Temos algumas reservas quanto a essa perspectiva, pois não acreditamos ser necessário entender as narrativas bíblicas como simbólicas. Falaremos disso em outro momento. Mas, o que interessa aqui é tentar perceber como essa proposta do professor Olavo poderia nos ajudar a apreciar, hodiernamente, os mitos antigos. Talvez a proposta seja justamente pelo fato de que eles fornecem os alicerces significativos que fundamentaram o desenvolvimento filosófico do Ocidente e lhe estruturou o pensamento. Nesse sentido, como veremos adiante, parecem fugir da ideia de ‘narrativas de fatos que aconteceram’. Mas ainda assim são os alicerces do pensamento ocidental.

MITO E RELIGIÃO

Seria viável inventar Deus?
Para começo de conversa, temos de encarar (e refutar, ou pelo menos refutar a ideia de que isso fundamenta a descrença de alguma forma) a concepção de que a religião (ou melhor, toda e qualquer religião, inclusive a cristã) é apenas um progresso do animismo ao mito, e do mito à fé religiosa. Essa proposição é refutada por dois pensadores cristãos de maneira muito interessante. Primeiro, R. C. Sproul. Percebemos que tipo de raciocínio é usado pelo ateu para valer-se do mito como argumento para sua descrença. Agora, Sproul faz observações, no mínimo, capciosas. Aliás, ele joga uma questão no ar, uma provocação, que, a não ser que seja respondida, encerra a conversa reduzindo o ‘meliante’ à ignorância: “A tese básica de Freud é que o ser humano inventou a religião a partir do medo da natureza. Para diminuir esse medo, ele personaliza a natureza. Depois a sacraliza, mas ela nunca se torna pessoalmente santa. De acordo com a Bíblia, existe algo ainda mais ameaçador, mais traumático, para a psique humana do que as forças impessoais da natureza. Se a natureza não é pessoal nem santa, precisamos temer apenas o seu poder. Todavia, se Deus é pessoa e santo, temos de temer não apenas seu poder, mas também seu juízo [...]. Se inventamos Deus somente para afastar a ameaça da natureza, por que inventar alguém infinitamente mais ameaçador que a própria natureza?” (p. 190, itálico nosso).

Falácia Genética
Agora, o óbvio, a falácia genética. Ainda que concedêssemos ao ateu que a religião se desenvolveu a partir do animismo, isso provaria o quê?  Norman Geisler deixa-nos compreender perfeitamente do que se trata a falácia genética com a seguinte ilustração: “De fato, posso herdar uma queda para a matemática e aprender a tabuada com minha mãe, mas as leis da matemática existem independentemente de como eu venha a conhecê-las” (GEISLER; TUREK, p. 194). Talvez seja por isso que Abraham Kuyper diz isto dos que propõem a origem na religião como oriunda do animismo: “...tem confundido o canhão que dispara a bala com a bala em si.” (KUYPER, p. 38). Na melhor das hipóteses a ideia de que a crença em Deus originou-se no animismo pode provar como os homens vieram a crer em Deus, mas não prova que essa crença é falsa. Colocando de outra maneira, seria a forma que viemos a descobrir a Deus, e não a iventá-lo. Dizer que é evidência de que ele foi inventado é extrapolar as premissas e cair em falácia.

A Bíblia ensina que surgiu primeiro o politeísmo ou o monismo?
Bom, primeiramente, temos que entender o seguinte. Há um fato real, algo que realmente aconteceu no passado. Formulamos hipóteses que tentam explicar da maneira mais abrangente (que abarca a maior parte dos ‘dados’) e lógica o que aconteceu*13. Sabemos, pois, que povos antigos nutriam várias religiões e cultos. Parece-nos, de fato, que vieram a crer em deuses por detrás do mundo de maneira natural. Mas essa não é toda a história.
À luz das Escrituras podemos ampliar nossa compreensão sobre os fenômenos que ocorreram. Primeiramente o homem sabia que existe apenas um Deus. Mas houve a Queda. Daí em diante o homem foi entregue a si mesmo, e foi abandonado por Deus, na medida que ele mesmo recusava-se a se-lhe submeter. O coração caído, pois, acabou por criar todo tipo de deuses falsos, não só para lidar com o mundo hostil que viviam, mas por serem homens criados com o desejo de buscar a Deus. O homem, pois, é um ser ‘religioso’ por natureza.
Observemos essa ideia claramente exposta no texto bíblico escrito por Paulo:
“A ira de Deus se revela do céu contra toda a impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou.
Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das cousas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato.
Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis.” (Romanos 1:18-25).
Não iremos, por questão de espaço, expor toda a porção destacada. Mas algumas partes têm de ser apenas destacadas, brevemente, a título de uma instrução inicial. O texto, claramente, diz que alguma espécie de conhecimento já está presente no homem. Acreditamos que se trata da ideia inata sobre Deus. Mas esse conhecimento, por conta do amor do homem ao pecado, foi pervertido. O homem preferiu seguir seus próprios caminhos. Tudo isso fê-lo enredar-se em obscuridade, em insanidade, na ‘criação’ de seus próprios deuses. Portanto, toda religão além da Bíblica seria uma perversão humana da verdadeira religião. Deus mesmo teve que se revelar para corrigir todas as falsas impressões que o homem tinha e conceder-lhe informações que jamais teria se não se lhe fossem contadas.
Outro texto que queremos, de forma bem rápida e suscinta, trazer à tona para breve consideração é o de Gênesis 4:26: “A Sete nasceu-lhe também um filho, ao qual pôs o nome de Enos; daí se começou a invocar o nome do SENHOR”. Que os exegetas do Antigo Testamento nos corrijam, mas parece que após a Queda do homem, após a morte de Sete, não se invocou a Deus até que Enos nascesse. Talvez nesse período tenha-se florescido o animismo, os mitos e coisas do gênero, ou até mesmo um período de ateísmo.

Religião para o homem?
Mas Kuyper, mui sagaz, acrescenta observações preciosas que precisamos registrar. Para ele, a religião oriunda do animismo, ainda que desenboque no monoteísmo, ainda assim é uma religião distinta da bíblica, da revelada na Palavra de Deus. Em suma: “Em todas estas diferentes formas ela é e continua sendo uma religião promovida por causa do homem, visando sua salvação, sua liberdade, sua elevação, e em parte também seu triunfo sobre a morte. E mesmo quando uma religião deste tipo tem se desenvolvido em monoteísmo, o deus que ela adora invariavelmente permanece um deus que existe para ajudar o homem, para assegurar a boa ordem e a tranqüilidade do Estado, para fornecer assistência e livramento em tempos de necessidade, ou para fortalecer o mais nobre e alto impulso do coração humano em sua incessante luta contra a influência degradante do pecado” (p. 38-39, itálico nosso). O destaque em itálico acentua um grande contraste entre a religião ‘natural’ e a religião bíblica, ou seja, segundo aquela a religião existe, conforme os propósitos para que veio, para assistir ao homem, para lhe beneficiar, para ajudá-lo a viver; ao passo que esta entende que o tudo que existe, o homem e o mundo, o faz para a glória do Deus Triuno: “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as cousas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém.” (Apóstolo Paulo em sua Epístola aos Romanos, capítulo 11, verso 36).
Precisamos, ao comentar isso, nos precaver do erro de negar que a religião pode beneficiar o homem, de fato, trazendo-lhe bonanças subjetivas. Mas não é por isso que a religião existe. Ela existe porque está dentro dos propósitos de Deus para o louvor de sua glória. Kuyper, mas uma vez, expressa-se com maestria: “A posição do Calvinismo [termo tomado pelo autor como representação plena da teologia bíblica] é diametralmente oposta a tudo isto. Ele não nega que a religião tem igualmente seu lado humano e subjetivo; não discute o fato de que a religião é promovida, encorajada e fortalecida por nossa disposição de buscar ajuda em tempo de necessidade e consagração espiritual diante de paixões sensuais; porém, sustenta que isto inverte a própria ordem das coisas para buscar, nestes motivos acidentais, a essência e o verdadeiro propósito da religião. O Calvinismo valoriza tudo isto como frutos que são produzidos pela religião, ou como âncoras que lhe dão apoio, mas rejeita honrá-los como a razão de sua existência. Certamente, a religião, como tal, produz também uma bênção para o homem, mas ela não existe por causa do homem. Não é Deus quem existe por causa de sua criação; a criação existe por causa de Deus. Pois, como diz a Escritura, ele tem criado todas as coisas para si mesmo” (p. 39).
Kuyper ainda é perspicaz o suficiente para observar que a religião egoísta, que tem como fim a busca da satisfação do homem, em tempos de bonança e prosperidade é preterida, e esse foi o seu fim em terras não cristãs (p. 39).

Religião x Ciência?* 14
Basicamente a questão é a seguinte. O animismo vê na própria natureza a existência de entidades espirituais. Para compreender a natureza e lidar com os fenômenos, pois, era preciso lidar com essas entidades. Já na teologia judaico-cristã a concepção é muito diferente. Compreende-se a natureza, primeiro, pelos pressupostos corretos, e, em seguida, pela investigação científica. Isso é versar sobre os fenômenos, as relações fenomenais, e afins. Mas não é dizer respeito a questões metafísicas, assuntos da filosofia e da teologia.

Metafísica x Física
Além disso, a própria teologia tem perspectivas muito distintas. Se o que marca a mitologia é a busca pela compreensão dos fenômenos naturais, a teologia já não tem essa pretensão. Antes, ela coloca as coisas nos lugares. Deus é quem estabeleceu as leis, pressuposto necessário para busca-las. Encontra-as pelo método científico e pela imaginação racional. Já Deus está relacionado aos fundamentos metafísicos da existência do mundo, do cosmos e tudo o mais, bem ao sabor da proposta filosófica inicial, como veremos doravante. A discussão existencial e moral também lhe ‘traz’ à baila. Mas as discussões fenomenais em si já não são matérias de discussão de um filósofo, com exceção dos filósofos da ciência (e, sendo ainda mais específico, os filósofos ‘internos’ da ciência).

Valores ontológicos da criação segundo a Bíblia diferem dos do animismo
Ferreira e Myatt ainda tecem observações para demonstrar a diferença entre os mitos e a religião bíblica, o teísmo judaico-cristão: “Em termos que deveriam soar escandalosos aos ouvidos do mundo antigo, o autor do livro de Gênesis lança um ataque frontal contra os conceitos de divindade comuns naquela época. Em vez de serem objetos dignos de louvor e temor, os céus, as estrelas, o sol, a lua, os animais e demais objetos da criação são descritos como apenas objetos criados. Eles não têm sinal algum de poder divino – mana – no seu ser. Pelo contrário, apontam para o poder e a divindade superior do Criador, que é totalmente distinto da criação. Além disso, o ser humano é descrito como o ápice da criação. De forma alguma deve se colocar sob as forças da criação e dos animais para venerá-los e servi-los. À luz do ensino bíblico, então, é preciso rejeitar a postura das religiões alicerçadas no animismo. Primeiro, a tendência ao panteísmo tem de ser repudiada. A criação não é permeada por uma força divina e espiritual*15. Quaisquer forças que existam na criação forma criadas por Deus e não tomam parte em sua natureza [...]. A Bíblia, ao proibir a veneração dos elementos da criação, também nega que representem a habitação e domínio de deuses ou outros seres espirituais. Mesmo entidades espirituais que existem são criaturas de Deus, tal como o ser humano, e não devem ser objetos de devoção ou temor [os autores, em nota, observam que pode, sim, haver relação a poderes demoníacos com questões animistas, mas esse é assunto para outro texto, e eles também o protelam para outra parte da Sistemática]” (p. 75).
---------
*1 Pondé faz uma observação interessante sobre o assunto e, para demonstrar um pouco da relevância deste estudo, resolvemos abrir essa nota. Para demonstrar a ingenuidade dos ‘politicamente corretos’ para com a natureza (daquele tipo de adoradores modernos da vida natural, da natureza, a despeito do progresso tecnológico e dos avanços da humanidade, como se devêssemos tornarmo-nos como os índios para resolver todos os problemas da raça humana), Luiz Felipe Pondé observa: “Nossos ancestrais facilmente cultuavam a natureza porque ela os fazia sentir pequenos, dependentes e protegidos e/ou destruídos por ela. Qualquer relação adulta com a natureza implica saber que ela gera e destrói, e, nesse sentido, nossos ancestrais eram mais adultos do que os retardados contemporâneos, pois cultuavam a natureza não porque viam nela uma pureza santinha, mas porque enxergavam o poder dos deuses ancestrais: beleza e crueldade. Os idiotas românticos de hoje em dia esquecem que câncer é tão natural quanto os passarinhos, e pensam que a natureza seja apenas os passarinhos” (p. 73).
*2 Percebamos que Sproul expõe Freud com proposições muitíssimos semelhantes às de Chalita, como vimos acima, quanto ao início da religião:  “A explicação mais comum para o fenômeno global da religião é que ela tem suas raízes em uma profunda necessidade psicológica ou projeção intencional [...]. Ele [Freud] concluiu que a principal tarefa, a raison d’etre, da civilização era nos proteger e defender da natureza. A natureza manifesta elementos que parecem zombar do controle humano [...]. Para criar uma defesa contra as forças da natureza, diz Freud, é preciso personaliza-las. Poderes impessoais são remotos; não é possível achegar-se a eles com segurança [...]. Temos experiência de como lidar com pessoas que nos ameaçam [...]. Assim, o primeiro passo para escapar das ameaças da natureza é humanizar e personalizar a natureza [...]. O segundo passo é sacralizar a natureza [...]. Como organismos, a religião começa simples e avança para formas mais complexas [...] Para Freud, o animismo constitui o primeiro estágio do desenvolvimento religioso [...]. A religião, no fim, desenvolve-se até chegar ao monoteísmo complexo que afirma uma Providência benevolente” (SPROUL, p. 187-189).
*3 Voltaire acredita, diferente de muitos estudiosos, que originalmente havia a crença num só Deus para, então, “a fraqueza humana ter concebido vários” (p. 190). Ele vê os homens deparando-se com fenômenos naturais, estupefazendo-se e conotando algum poder superior a eles. Vejamos o relato em suas palavras: “É natural que os habitantes de uma pequena povoação, aterrados pelo trovão, afligidos pela perda das suas searas, maltratados pela povoação vizinha, em toda a parte sentindo um poder invisível, tenham logo asseverado: ‘Há algo superior a nós que nos traz o bem e o mal’” e “Nas aldeias, ter-se-ão limitado a comentar: ‘Há um poder que troveja, que neva sobre nós, que faz morrer os nossos filhos: apaziguemo-lo; mas como apaziguá-lo? Já observamos que graças a pequenos presentes, pudemos acalmar a cólera de gentes irritadas; vamos pois dar pequenos presentes a esse poder. Temos também de lhe dar um nome” (p. 190-191). Até aqui tudo conforme os demais. Entretanto, Voltaire questiona: porque mais de uma divindade? Porque os povos iriam supor várias e não uma? Talvez por conta de presumir que cada tipo de fenômeno da natureza comportava um espírito diferente, alguém poderia responder. Mas para Voltaire isso aconteceu depois: “É natural que com o exaltar-se a imaginação dos homens e havendo o seu espírito adquirido conhecimentos confusos, a breve trecho multiplicassem os deuses e assinalassem protetores aos elementos, aos mares, às florestas, às fontes, aos campos [...]. Como não adorar o sol, quando se adora a divindade de um riacho? Dado o primeiro passo, em breve a terra se cobriu de deuses e, por fim, desce-se dos astros aos gatos e às cebolas” (p. 191).
Outra coisa que ficou sugerida no verbete é o contato com outros povos que poderia ter favorecido a crença em vários deuses, afinal, cada aldeia, cada tribo, tinham o seu deus diferente.
Para argumentar em prol do monoteísmo da religião natural Voltaire entende que havia uma associação daquele poder maior à uma autoridade, e esses povos primitivos viviam sob auspícios de uma única autoridade. Tal fato teriam os feito reproduzir essa analogia na divindade.
Quem sabe? Mas Voltaire, pelo menos, é um dos nomes que contesta a ideia vigente de que a religião teria surgido em forma de politeísmo para, então migrar para o monoteísmo.
Para completar sua exposição, ele entende que cada povo adorava um deus único, concernente aos fenômenos climáticos, ou de alguma outra natureza, da região. Se fossem filósofos adorariam ao Deus da natureza, e não a um deus de uma aldeia. Mas o tempo trouxe esclarecimento ao homem, e voltaram a sair da ignorância politeísta para o monoteísmo novamente.
*4 Gaarder nos dá um exemplo da mitologia nórdica e como ela supostamente explicaria os fenômenos. Trata-se de Thor em Midgard. Thor percorre os céus, e o agitar de seu martelo produzia raios e trovões. Os nórdicos imaginavam o mundo habitado como uma ilha, ameaçada por elementos externos. Essa é Midgard. Em Midgard havia Asgard, a morada dos deuses. Lá também estava Freyja, a deusa da fertilidade.
Pois bem, as chuvas e a fertilidade, da terra e das mulheres, estavam ligadas a Asgard. Freyja tinha de lá permanecer. Thor defendia o local com seu martelo.
Acontece que havia, fora de Midgard, trolls, inimigos dos deuses e dos homens, que buscavam destruir Asgard. Havia uma trama conhecida onde o martelo de Thor era roubado. Há toda uma historinha que é desenvolvida para que Thor vá ao reino dos trolls, Jotunheim, e recupere o martelo. O importante é como essa lenda poderia ajuda-los a compreender os fenômenos. Veja como Gaarder cogita algumas aplicações: “Quando a seca assolava uma região, as pessoas precisavam de uma explicação para a total ausência de chuva. Não seria porque os trolls tinham roubado o martelo Thor? Podemos imaginar, também que este mito tenta explicar a alternância das estações do ano: no inverno a natureza está morta,, porque o martelo de Thor está em Jotunheim. Mas na primavera Thor consegue reavê-lo” (p.38).
Evidentemente as pessoas não queriam apenas esperar as tramas acontecerem. Nos mitos nórdicos imaginava-se que os sacrifícios, rituais e cerimônias iriam fortalecer os deuses, e, assim, poderiam acelerar o processo de recuperação do martelo de Thor, por exemplo.
Entretanto todos os ritos não podem ser entendidos como os nórdicos. Não visavam, necessariamente ‘fortalecer os deuses’. Oriundos do animismo, antes, visavam acalmá-los, aplacar sua ira e, com isso, pender a natureza para um ímpeto benéfico à sobrevivência. Além disso, “os rituais, além de servir para obter a boa-vontade das entidades divinas ou míticas, são uma maneira de celebrar o mito ou divindade, atualizando-os na memória das pessoas da comunidade...” (CHALITA, p. 22).
*5 “... os deuses, para os gregos, também tinham características muito especiais: eram antropomórficos, isto é, semelhantes aos seres humanos. Eram imortais e tinham grandes poderes, é verdade, mas em todo o resto eram como os homens. Nasciam, apaixonavam-se, tinham relações sexuais, cultivavam amizades, ódio, sentiam alegria, fúria, faziam intrigas e alianças entre si, e assim por diante. Também se relacionavam com os seres humanos” (CHALITA, p. 25).
*6 Voltaire, que chama os mitos de ‘fábulas’, diz que as antigas são prestigiosas e pinturas, alegorias, analogias sobre a natureza. Mas o mesmo filósofo condena o desenvolvimento dos mitos como perversões: “A maioria das outras fábulas são a corrupção de antigas histórias ou resultado dos caprichos da imaginação [...]. As fábulas dos povos primitivos, os quais possuíam qualidades inventivas, foram mais tarde grosseiramente imitadas por povos rudes e sem imaginação [...]. Os povos bárbaros, que nelas ouviram falar confusamente, introduziram-nas na sua mitologia selvagem; e, a seguir, atreveram-se a dizer: ‘Fomos nós que as inventamos’” (VOLTAIRE; DIDEROT, p.97-98).
*7 Franklin Ferreira e Alan Myatt podem muito contribuir para ampliar nossa compreensão sobre as religiões antigas: “Podem ser percebidas duas maneiras pelas quais o divino era visto na criação, tanto nas religiões tribais dos povos primitivos quanto nas religiões antigas das sociedades mais desenvolvidas. Primeiro, o divino era entendido como uma força ou energia que permeava todas as coisas. Os antropólogos adotaram a palavra ‘mana’, do idioma da Melanésia, para descrever essa força, que é vista como um poder oculto que existe em todas as coisas. [...] Mana é capaz de ser transmitida das coisas para as pessoas e vice-versa. É uma forma de energia que pode dar poderes extraordinários às pessoas que conseguem obtê-la. Nesse sentido, Eliade disse que não é correto entender mana como uma força impessoal, porque não funciona fora do contexto dos eventos e pessoas nas quais está operando. Mas ela não está automaticamente presente nas pessoas também. Para obter a energia oculta nas coisas, as religiões desenvolveram vários sistemas de ritos e magia.
A segunda maneira que as religiões antigas entenderam o divino na criação foi feita pela identificação dos deuses com a própria criação [e aqui está a gênesis dos mitos como temos estudado]. As religiões antigas interpretavam vários aspectos da criação como deuses e as forças da criação como as atividades dos deuses [...]. É importante entender que não é a natureza física em si que é o objeto de culto, mas sim a criação permeada pela presença do divino. [...].
O que podemos observar em nossa descrição dessas religiões é a ideia de dois tipos de poderes sagrados na criação: a força ou energia que permeia todas as coisas e a existência de seres espirituais. A distinção entre a força ou energia e as pessoas não é sempre óbvia. Existe uma interação íntima entre os dois. Animismo é o nome empregado para descrever as religiões tradicionais que trabalham com essas entidades. Van Rheenen nos oferece a seguinte definição: ‘[animismo é] a crença que entidades pessoais espirituais e forças pessoais espirituais têm poder sobre os negócios humanos e, consequentemente, que os seres humanos devem descobrir quais forças os influenciam, para que eles possam determinar a ação futura e, frequentemente, manipular seus poderes’.
O alvo do animismo é a manipulação dos poderes. Isso pode ser feito para conseguir sucesso na vida, amaldiçoar os inimigos, prever o futuro, curar doenças ou descobrir a fonte de calamidade e os problemas da vida” (FERREIRA/MYATT, p. 54-55).
*8 Será interessante ressaltar que o mito diferirá do teísmo propriamente dito, para começar, por sua origem e, consequentemente, proposta epistêmico-metafísica. Protelemos.
*9 “Os mitos formavam, para os gregos daquele tempo, um sistema complexo, que explicava praticamente todos os elementos de sua cultura. Eles estavam organizados num conjunto coerente, lógico; em termos amplos, era uma maneira de ver o mundo, de explica-lo e compreendê-lo” (CHALITA, p. 26). Ou seja, como observamos, formavam uma cosmovisão. Dissertarmos sobre cosmovisão nos seguintes endereços: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/10/cosmovisao-parte-1.html
Embora vários autores não usem o termo, podemos perceber que a ideia está presente. Observem como François Pradeau, que lemos após ter escrito esses dois artigos, menciona a temática sem valer-se do termo: “A filosofia nunca disse a mesma coisa, certamente, mas ela fala sempre da mesma coisa: da realidade e do conhecimento que podemos dela ter; do sentido de nossa existência e da maneira como podemos conduzi-la” (p.12). Outra abordagem interessante, que fomos conhecer após os dois artigos, é a do Franklin Ferreira e Alan Myatt, que podem ser conferidas nas páginas 3-15 da Teologia Sistemática desses autores.
*10 Abraham Kuyper faz uma síntese excelente dessa mentalidade, saindo o animismo até uma concepção meio que Nova Era da acepção do divino consistindo no próprio ser pensante, no próprio indivíduo: “A atenção é chamada, e muito propriamente, ao contraste entre o homem e o poder esmagador do cosmos que o cerca; e a nova religião é introduzida como energia mística, tentando fortalecê-lo contra este poder imenso do cosmos que lhe causa um medo mortal. Estando consciente do domínio que sua alma invisível exerce sobre seu próprio corpo material, ele naturalmente infere que a Natureza também deve ser movida pelo impulso de algum poder espiritual oculto. Animisticamente, portanto, primeiro ele explica os movimentos da natureza como o resultado da habitação de um exército de espíritos, e tenta pegá-los, invocá-los e subjugá-los em sua vantagem. Então, subindo desta idéia atomística para uma concepção mais compreensiva, ele começa a crer na existência de deuses pessoais, esperando destes seres divinos, que permanecem acima da natureza, assistência eficaz contra o poder demoníaco da Natureza. E, finalmente, entendendo o contraste entre o espiritual e o material, ele homenageia ao Espírito Supremo como estando em contraste com tudo que é visível, até, no fim, tendo abandonado sua fé em um tal Espírito extramundano como um ser pessoal e, encantado pela altivez de seu próprio espírito humano, prostra-se diante de algum ideal impessoal, do qual em auto-adoração supõe ser ele mesmo a venerável encarnação.” (p. 38).

*11 Confira a aula em que ele fala isso aqui: https://www.youtube.com/watch?v=VraQwmvpBGo
*12 Confira esse excelente artigo que lida com essa acusação ao cristianismo, a saber, que ele não passa de uma forma de domínio social: http://projetoquebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2012/09/26/tecnica-cristianismo-foi-inventado-para-dominacao-social/
*13 Pretendemos, noutra oportunidade, dissertar sobre epistemologia relacionada à história.
*14 “Esse foi o caso com o Paganismo, que em sua forma mais geral é conhecido pelo fato que supõe, assume e adora a Deus na criatura. Isto aplica-se ao mais baixo Animismo, bem como ao mais alto Budismo. O Paganismo não eleva para a concepção da existência independente de Deus, além e acima da criatura.” (KUYPER, p. 18).
*15 Os dois subtópicos a seguir abordarão assuntos que serão melhor elaborados em outros artigos mas que, por questão de completude, não poderiam deixar de ser mencionados sumariamente aqui. Eles também dependem do conhecimento dos leitores a respeito dos pressupostos das ciências naturais, sobre os quais escrevemos no seguinte endereço (siga toda a série de artigos): http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/09/sobre-ciencia-e-fe-1.html

REFERÊNCIAS
.
A BÍBLIA Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. 2 ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. 1334 p.

CARVALHO, Olavo de; BRASIL, Felipe Moura (org.). O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de Janeiro: Record, 2013, 616p.

CHALITA, Gabriel. Vivendo  Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.

FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, 1220p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.

GEISLER, Norman L.; TUREK, Frank. Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu. Tradução de Emirson Justino. São Paulo: Editora Vida, 2006 424p.

GOMES, Daniel. Aula 1 – O que é ideologia?. Acessado em 11/04/2014 em: https://www.youtube.com/watch?v=VraQwmvpBGo

HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo:Editora Hagnos, 2001. 1777p.

KUYPER, Abraham. Calvinismo. Tradução de Ricardo Gouveia e Paulo Arantes. Sao Paulo: Cultura Cristã. 2003, 208 p.

OLIVEIRA, Lucio Antônio. Cosmovisão (Parte 1). Acessado em 11/04/2014 em: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/10/cosmovisao-parte-1.html.

OLIVEIRA, Lucio Antônio. Cosmovisão (Parte 2). Acessado em 11/04/2014 em: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/12/cosmovisao-parte-2.html

OLIVEIRA, Lucio Antõnio. Sobre Ciência e Fé (Parte 1). Acessado em 11/04/2014 em: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/09/sobre-ciencia-e-fe-1.html

PONDÉ, Luiz Felipe. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia: ensaio de ironia. São Paulo: Leya, 2012, 232 p.

PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.

ROCHA, José Fernando (org.). Origens e Evolução das Ideias da Física. Salvador: EDUFBA, 2002, 372p.

SNOWBALL. Técnica: Cristianismo foi inventado para dominação social. Acessado em 11/04/2014, em: http://projetoquebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2012/09/26/tecnica-cristianismo-foi-inventado-para-dominacao-social/

SPROUL, R. C. Filosofia para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208 p.

VOLTAIRE, DIDEROT. Os Pensadores. Tradução de Bruno da Ponte, João Lopes Alves e Marilena de Souza Chauí. São Paulo: Nova Cultura,