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terça-feira, 28 de novembro de 2017
O que pensar sobre a doutrina da Predestinação?
Quer finalmente entender predestinação? E se eu te falasse que em Romanos é possível explicar essa famigerada doutrina bíblica? Isso mesmo, só em Romanos todas as coisas que a Bíblia diz sobre a doutrina da salvação estão expressas. Agora, veja intercâmbio que acabamos de fazer: predestinação - doutrina da salvação. Foi intencional. Não se entende a doutrina da predestinação se ela não é vista à luz de toda a ciência da salvação. É para isso que temos esse conjunto de palestras que PRECISAM ser vistas caso você queira discutir adequadamente esse assunto. Portanto, chega de explicações rápidas demais sobre esses temas complexos. Ouçam essas horinhas de palestras e creia nessas maravilhosas doutrinas que serão evidenciadas.
sábado, 31 de outubro de 2015
Diálogos Sobre a Religião - Ateu e Reformado debatem moral e doutrina da salvação
O seguinte diálogo é inspirado em várias conversas que tivemos ou
debates que vimos. Não se dirige a nenhum de nossos amigos e colegas ateus em
particular, mas aos que têm esses argumentos e que, inclusive, já usaram contra
nós. Foram vários. Então, não se sinta, caso você se lembre de termos
conversado algumas partes desse diálogo, como se estivesse recebendo uma
indireta. As mesmas coisas foram conversadas com outras pessoas.
Outra ressalva importante é explicar a preferência por ‘REFORMADO’ ao
invés de cristão’. Na verdade não pretendemos fazer grandes explicações aqui,
pois já a começamos noutro artigo[1]. Em suma, estamos usando o
termo na presunção de que a fé reformada é a autêntica e mais exata
representação da fé bíblica. Mas é claro que os argumentos – a maioria, pelo
menos, senão todos – aqui esboçados poderia ser usado por outros seguimentos
cristãos.
Numa situação qualquer em que um bom cristão, de confissão reformada, se encontra com um amigo ateu e, por qualquer motivo que levaria a uma discussão sobre religião - e eles existem aos montes - começa-se a seguinte discussão:
ATEU - Sabe, meu amigo, há algo que realmente me incomoda nos religiosos...
REFORMADO - Puxa, eu não responderia pelos 'religiosos', mas, tudo bem, diga-me o que é...
ATEU - Eles se acham melhores do que as demais pessoas por serem religiosas, mas na verdade o fato de serem religiosas as fazem, na verdade, piores...
REFORMADO - Como assim? Refere-te a questões históricas?
ATEU - Não, não! Bom, o que eu quero dizer é que, eu, como ateu, sou melhor do que vocês quando faço algo de bom.
REFORMADO - Sério? Como assim?
ATEU - Quando vocês fazem algo de bom o fazem porque querem ir para o céu. Com
todo respeito, mas isso é ser mercenário. Nós, ateus, fazemos o bem porque isso
é o certo.
REFORMADO - Mas se alguém não quiser fazer o certo ele é mau?
ATEU - Certamente.
REFORMADO - Sob qual critério?
ATEU - oras, ele não estará fazendo o certo.
REFORMADO - E quem falou que ele deve fazer?
ATEU - Mas o que é isso? Está pensando como se fosse um ateu!
REFORMADO - Estou pensando como um ateu mesmo, para mostrar que sua
visão de mundo não comporta essas suas afirmações.
ATEU - Então, quer dizer que só quem é crente pode ser
bom?
REFORMADO - Bom, 'ser bom' é um conceito difícil. É claro que você pode fazer algo
bom. Ninguém duvida disso. Ainda assim teríamos que investigar suas
intenções...
ATEU - Justamente! As intenções é que estão em questão...
REFORMADO - Por que alguém deveria fazer o que é certo?
ATEU - Oras, há várias teorias para isso. Gosto bastante daquelas que
dizem que devemos fazer o bem para transformar o mundo num lugar melhor...
REFORMADO - Então, no final, é para você mesmo se beneficiar?
ATEU - Não, não. Fazemos porque queremos fazer o bem.
REFORMADO - E se alguém não quiser?
ATEU - Ela estará se prejudicando.
REFORMADO - Sempre?
ATEU - Acho que sim.
REFORMADO - Parece que você está flertando com a ideia de
contrato-social, não?
ATEU - Bom, em certa medida, sim, é uma boa justificativa para a ação
moral. É racional. Mas esse não é o ponto. Eu faço o bem porque quero e não por
qualquer outro interesse.
REFORMADO - Justamente, não é o ponto. O ponto é que vocês não poderiam
dizer que alguém que é poderoso o suficiente para ficar impune e que consiga
sobreviver por seus poderes tenha que se submeter às regras da sociedade.
ATEU - Claro que tem!
REFORMADO - Por quê?
ATEU - Bom... Ele ficará bem consigo mesmo...
REFORMADO - Então é, novamente, de egoísmo que te acuso.
ATEU - Tudo bem, que seja, qual o problema disso?
REFORMADO - Ser egoísta não é ser mau?
ATEU - Com quais fundamentos afirma isso? Acho que não há problemas ser
egoísta...
REFORMADO - Assim como o poderoso impune não vê problemas em fazer as
coisas terríveis que faz... A questão é justamente essa. Você move-se sem
padrão algum.
ATEU - Movo-me sob o padrão da utilidade!
REFORMADO - E como impedirá o poderoso?
ATEU - Quer dizer, então, que é correto fazer o bem só para ir para o
céu? Ou deixar de fazer o que é mau para não ir para o inferno?
REFORMADO - Bom, em certo sentido, não há problema algum em perseguir o
céu...
ATEU - Como não?!
REFORMADO - Pois veja. Existem recompensas naturais e legítimas para um
ato, ao passo que existem as contingentes e ilegítimas...
ATEU - Certo.
REFORMADO - Enriquecer-se não é uma recompensa para o amor e se alguém se
casa com alguém para enriquecer-se a consideraríamos um mercenário.
ATEU - Sem dúvidas!
REFORMADO - Mas o casamento não é uma recompensa merecida para o amor?
ATEU - Bom, sim... mas...
REFORMADO - Percebo que tal argumento não pareceu convencê-lo, não é
mesmo?
ATEU - Não... Bom, veja, é um bom argumento... mas...
REFORMADO - Permita-me completar o raciocínio.
ATEU - Vá em frente.
REFORMADO - Atenta-te para isso. Acreditamos que dentre os anseios e
desejos do nosso coração, de nossa alma, está aquele de contemplação da mais
pura beleza e do mais sumo bem: Deus. Fomos feitos para adorá-lo. Quando nos
convertemos passamos a mirá-lo no horizonte de nossa jornada...
ATEU - Mas o que isso tem que ver com fazer o bem para ir para o céu?
REFORMADO - Aí é que está a grande questão! A fé bíblica é um pouco
diferente daquilo que você deve ter ouvido como cristianismo...
ATEU - Como assim?
REFORMADO - Há uma resposta bíblica que muda a perspectiva sobre esse
assunto. Paulo, por exemplo, ensina claramente que não iremos para o céu por
sermos bonzinhos...
ATEU - Então não importa o que façamos, iremos para o céu?
REFORMADO - Não é isso que estou falando.
ATEU - Ah, então te interrompi. Agora acho que as coisas estão ficando
ruins para você... Vou deixar que se enforque. Continue.
REFORMADO - Veremos... Prossigamos. Eu dizia que não é o fato de sermos
bonzinhos justamente pelo fato de não podermos ser bonzinhos o suficiente para
ir finalmente ser salvo da Ira final de Deus.
ATEU - Ira de Deus? Que conceito antiquado!
REFORMADO - Bom, vamos discutir esse conceito. Mas você não pode
continuar me interrompendo, pois levanta uma infinidade de questões às quais
não terminei de responder.
ATEU - É que parece que está enrolando...
REFORMADO - Oras, mas de onde tirou que as respostas têm que ser tão
rápidas assim?
ATEU- Tudo bem, vá lá, estou tumultuando. Prossiga. É que esse papo de
Bíblia me dá náuseas...
REFORMADO - Eu sei que dá. Também tenho imenso desgosto com vários de
teus posicionamentos. Mas isso não me impede de discutir contigo, não é mesmo?
ATEU - Mas a maioria dos crentes não é assim...
REFORMADO - Pior para eles. E, por favor, é melhor me identificar como
um cristão reformado do que com um 'mero crente', pois o termo já está bem
desgastado por essas terras...
ATEU - Como assim?
REFORMADO - Esqueça! Depois conversaremos sobre isso. Por enquanto
fiquemos com o assunto soteriológico.
ATEU - 'Soterio' o que?
REFORMADO - Sobre a doutrina bíblica da salvação.
ATEU - Perfeitamente. Siga adiante.
REFORMADO - Bom, eu dizia que não podemos ser bons o suficiente para ir
para o céu. Vamos colocar como 'ir para o céu', embora esse conceito também
tenha que ser trabalhado.
ATEU - Tudo bem. É o suficiente. Mas, o que quer dizer com 'ser bom o
suficiente'? Quanto é o suficiente?
REFORMADO - Ser perfeito.
ATEU - Oras, mas isso é impossível! Deus não poderia exigir uma coisa
dessas... isso o torna mau!
REFORMADO - Pelo contrário, meu caro, se ele não exigir algo nesse nível
é que ele seria mau. Aliás, isso já irá abarcar aquele assunto sobre a Ira de
Deus que falávamos...
ATEU - Meu amigo, isso está muito estranho. Como é que um ser que se Ira
e que exige que sejamos perfeitos pode ser bom?
REFORMADO - Verás que concordas comigo. Um ser que é absolutamente bom,
justo e santo poderia permitir que o mal fique impune?
ATEU - Como assim? Ele não é misericordioso? Ser misericordioso[2] não é um dos frutos do seu
amor, como vocês pregam?
REFORMADO - É mais uma das confusões que vocês fazem, rejeitando um
espantalho ao invés da fé cristã.
ATEU - Pois, então, por obséquio, esclareça-me essa questão.
REFORMADO - Com enorme prazer! É bem verdade que Deus é amor e isso o
torna misericordioso. Mas para exercer essa misericórdia ele não pode ir contra
seus demais atributos. Ele não pode ser mau para ser misericordioso.
ATEU - Hum... acho que começo a compreender. Mas como ele pode ser
misericordioso?
REFORMADO - Bom, firmemos, primeiro, que ele é Todo-Bom, correto?
ATEU - Certo. Esse é, pelo menos, o conceito cristão a respeito de Deus.
REFORMADO - Que seja. Acreditamos que toda injustiça e mal cometidos
impunemente durante a história da humanidade será, finalmente, julgado no dia
do Juízo Final. E lá, pois, Deus não poderá deixar-nos impunes por nossos
erros.
ATEU - Tudo bem, vamos ver até onde esse raciocínio dá. Mas já parece
estar me enrolando nesse papo de teólogo...
REFORMADO - Ha-ha-ha! Ok, mas vou continuar no papo de teólogo...
ATEU - Siga.
REFORMADO - Bom, uma vez que não podemos, pois, ser bons o suficiente,
procuramos uma justiça que não vem de nós. É aí que entra nossa gratidão por
Jesus Cristo.
ATEU - Ei! Está me evangelizando?! Queres que eu me torne cristão?
REFORMADO - Oxalá se você se torna-se cristão! É meu desejo declarado
desde sempre. Mas, agora, estou expondo minha fé que, em termos filosóficos, é
uma exposição da minha cosmovisão no campo da ética e no 'teleológico'.
ATEU - Tudo bem, ouvirei mais um pouco porque você é um cara legal e
estudado. No meio de toda essa bobeira deve ter algum conceito interessante...
REFORMADO - ... Bom, vamos lá. Cristo. Ele vai para a cruz para
antecipar as punições que teríamos que pagar no Juízo Final, que são, na
verdade, altas demais!
ATEU - Hum... certo. Mas aí eu tenho outro problema. Então alguém que é
um crápula durante toda a sua vida pode, no final, se arrepender e ir para o
céu?
REFORMADO - Sim, mas...
ATEU - Isso é injusto! Deus estaria sendo mau até mesmo sob teus
padrões, amigo! Onde está sua ira? O que esse 'malandro-aposentado' perdeu?
REFORMADO - Aí é que está, meu bom amigo! Você não está olhando para o
todo. Para começo de conversa, esse homem terá uma grande dor em sua alma pelo
que fez. Mesmo que saiba estar perdoado por Deus, sofrerá com as dores na alma
pelo resto de sua vida, até que renasça e todas as lágrimas sejam enxugadas.
ATEU - Isso não basta!
REFORMADO - Não mesmo. Você está coberto de razão. É preciso um castigo
severo para os seus crimes. Certamente muito mais severo do que nós, com nossas
percepções morais míopes, podemos conceber.
ATEU - Claro! Mas, espere, aonde quer chegar? Purgatório?
REFORMADO - Não, não. É certo que não. Essa não é uma doutrina
bíblica...
ATEU - Ah, verdade, você não é católico, não é...
REFORMADO - Isso. Reformado. Não se lembra?
ATEU - Ok, mas, e então? Deve esse homem fazer coisas boas para pagar
pelas más?
REFORMADO - Que ele deve fazer coisas boas isso não há dúvidas. Que ele
deve tentar reparar os erros que cometeu, também não discordo. Mas que as
coisas boas cobrem as ruins não há qualquer fundamento bíblico.
ATEU - Não?
REFORMADO - Não. O mau demanda punição e o bem recompensas. Mas a
recompensa do bem não é a retirada da punição. Esse conceito é estranho à
ontologia moral bíblica. E, instintivamente sabemos disso!
ATEU - Interessante... Mas, o elucide esse 'instintivamente' para mim.
Não estou certo de que concordo com isso.
REFORMADO - Bom, embora nosso senso moral possa estar embotado em grande
medida, nas faltas mais graves conseguimos perceber com maior clareza o que
estou dizendo. Se alguém estuprasse tua mãe, irmã, esposa ou filha você ficaria
indignado. Algo muito ruim foi feito. Você sabe que isso demanda punição. Se o
estuprador tornar-se um monge não irá satisfazer tua demanda por justiça...
ATEU - É verdade... Mas, então, não estou te entendendo! Esse cara pode
ser salvo ou não?
REFORMADO - O que eu disse que foge da sua perspectiva é que há uma
punição infinitamente mais severa do que poderíamos imaginar: o próprio Deus
resolve encarnar-se, tornar-se homem para sofrer pelos homens.
ATEU - Então o flagelo divino recai sobre Cristo?
REFORMADO - Justamente. E, não, não é um mero flagelo, mas toda a Ira
final de Deus contra o pecado! É algo terrível. Muito pior quando consideramos
a natureza de quem padece do furor divino: Cristo, o homem-Deus, totalmente
santo e justo.
ATEU - Mas não foi injusto que alguém tão bom assim sofresse as
injustiças dos outros?
REFORMADO - Certamente seria injusto se ele fosse obrigado a fazer isso.
Mas ele voluntariamente resolveu sofrer por nós.
ATEU - Ok, caro amigo reformado. Isso parece fazer sentido. Mas e quanto
à questão inicial?
REFORMADO - Bem lembrado! Bom, como eu falava, nós, os autênticos
cristãos, definidos assim segundo a própria Bíblia, não fazemos o bem para ir
para o céu. Nós já temos por garantido o céu. Nós fazemos o que é certo
justamente por sermos cidadãos celestes por antecipação...
ATEU - Como assim? Como é que têm essa certeza?
REFORMADO - É preciso crer em Cristo...
ATEU - Como assim? É só dizer que se acredita e fim? É como um passe
órfico para ser dito no dia do Juízo Final?
REFORMADO - Não mesmo, meu amigo. Jesus disse que naquele dia alguns
iriam regozijar-se na sua vinda, mas ele lhes dirá: eu não conheço vocês!
ATEU - Uau! Que pesado...
REFORMADO - Certamente, terrível! Mas na mesma passagem em que isso é
dito se diz que Jesus os rejeitará porque, embora o tenham como salvador, não o
têm, de fato, como 'Senhor'. Isto é, eles se submetem a Cristo enquanto aquele
que os livrará da ira vindoura. Mas não o reconhecem como Senhor e Deus.
ATEU - Então é preciso acreditar que ele é Salvador, Senhor e Deus?
REFORMADO - Basicamente sim.
ATEU - Ok, se eu disser que acredito nisso, então estou garantido?
REFORMADO - Não, não. Isso é uma confissão do fundo do coração.
ATEU - Que, no caso, só Deus vê... Então um crápula, um facínora, pode,
no fundo, acreditar nisso...
REFORMADO - Não, cara, você está entendendo errado, mais uma vez...
ATEU - Oras, o que me falta entender?
REFORMADO - Bom, na verdade falta-te muita coisa no que diz respeito à
fé cristã, mas para nossos propósitos é importante que compreenda a dinâmica da
fé.
ATEU - Ok, termina de explicar isso que tenho que ir.
REFORMADO - Pois bem, fechemos, pois, nisso.
ATEU - Não que tenhas me convencido a tornar-me um cristão. Só está me
explicando melhor teu ponto de vista...
REFORMADO - Bom, é uma pena que não, mas, seja como for, exponho-te o
que não é meu, mas do próprio Deus conforme ele revelou.
ATEU - Segundo tu crês...
REFORMADO - Pois bem, terminemos... ou então levantaremos outra
discussão!
ATEU - Ha-ha-ha. É verdade. Termina-me de explicar, então, como a Bíblia
resolve essa questão.
REFORMADO - Pois bem, crer em Cristo significa acreditar em tudo que as
Escrituras dizem sobre ele. Isso implica em acreditar na dignidade de sua
pessoa, na nossa culpabilidade, e no grande favor feito por Deus na Cruz. Não é
possível observar a tudo isso de forma apática. Quem não tiver sua consciência
afetada por isso é por não acreditar que Jesus e realmente Deus, e que na cruz
ele padeceu infinita dor que cabia a nós por nossos erros. Só aí já se demanda,
a partir da crença, um tipo de atitude diferente.
ATEU - Então quem acredita no Jesus da Bíblia...
REFORMADO - Que é o Jesus da História!
ATEU - Tudo bem, mas eu usei 'da Bíblia' para diferenciar dos conceitos
errados que as pessoas têm sobre Jesus, conforme você disse.
REFORMADO - Ah, perfeito! Ótimo, perdão. Continue.
ATEU - Bom, então, como eu estava falando, quem acreditar nesse Jesus
também terá acreditado que seus erros são tão maus que fizeram com que Jesus
tenha morrido.
REFORMADO - Perfeitamente! Mas, como se isso não bastasse, e o pecado (o
erro moral) seja um ultraje ao sacrifício de Cristo, reconhece-se, com a
divindade de Cristo, que ele é, portanto, Senhor. Isso quer dizer que devemos
lhe obedecer se de fato acreditamos em Jesus. E não só isso, como acreditar que
sua vontade é boa, perfeita e agradável mesmo quando não a compreendemos como
possuindo esses atributos, de modo a sempre buscar obedecê-lo.
ATEU - Bom, então se alguém diz que acredita em Jesus Cristo, mas não
tem uma vida correta, então não é cristão coisíssima nenhuma!
REFORMADO - Exatamente.
ATEU - Então muitos cristãos não irão para o céu.
REFORMADO - É o que o próprio Cristo disse copiosamente.
ATEU - Bom, mas isso me faz pensar numa série de outras questões...
infelizmente não há mais tempo para mim. Vou seguindo adiante. Foi bom
conversar com você! Qualquer dia voltaremos para esses assuntos de teologia e
Bíblia. São até interessantes. Quem me dera se todos os cristãos pensassem como
você...
REFORMADO - Vá lá, meu amigo. Até a próxima.
[1] Referimos-nos a este artigo: Afinal, quem REALMENTE são os evangélicos?
[2] Para ampliar a discussão sobre esse ponto, veja: Prolegômena à Predestinação: uma questão de justiça
quinta-feira, 9 de julho de 2015
Prolegômena à Predestinação - uma questão de justiça
"Ora, a excelência, beleza e perfeição de cada ser vivo, objeto inanimado ou ação humana depende exclusivamente da utilidade para que o destinou a natureza ou o artífice" (Platão, Livro X da República).
Prolegômena é aquilo que se discute antecipadamente. É a discussão que deve ser feita - mas geralmente não o é - antes de entrarmos em outros pontos. Supostamente há pontos pacíficos quando se vai discutir vários temas. Acreditamos que aquele com quem estamos a debater assume algumas coisas que nós de antemão achamos óbvias demais para serem discutidas. No entanto, um levantamento de pressupostos que regem as colocações demonstrará que, não raro, há pontos de discordância que impediriam completamente os contendores de chegarem a um acordo.
Com esse pequeno texto, pretendemos explorar alguns itens prolegomenais em relação à discussão sobre a predestinação, eleição e afins, contidos nas doutrinas da graça* conforme expõem os teólogos protestantes reformados - os quais nos parecem mais próximos das Escrituras. Particularmente, estamos interessados em considerar o conceito de justiça que é trazido à baila nessas discussões de forma, amiúde, desorganizada e confusa. Basicamente, questiona-se se seria justo que Deus elegesse algumas pessoas para serem salvas e outras não. Nossa tese é de que é perfeitamente justo que Deus faça tal escolha.
Foi Voltaire quem observou que para discutirmos adequadamente temos que definir os nossos termos, o que já consiste, por si, em uma tarefa prolegomenal. Isso é uma forma de evitar a falácia da equivocação, que consiste em discutir com conotações distintas para um mesmo termo. É marca distinta de um bom pensador e de uma boa discussão que as coisas fiquem de antemão claras. Ao acompanharmos as discussões socráticas veremos da parte do sábio ateniense justamente o desejo de definições precisas para evitar confusão - o que, com frequência, colocava o próprio adversário em confusão, pois esse fora para a discussão sem pensar muito bem nas palavras que usava.
Queremos entender, pois, o que significa 'justiça'. Esse é o termo-chave da discussão. Acreditamos que podemos defini-la como algo nos seguintes termos: 'é ter cada um o que lhe é de direito', ou, 'cada um ter o que é adequadamente seu'. Quem já leu a República sabe como é difícil uma definição precisa, embora 'intuitivamente' arranhemos o conceito. Supomos suficiente definir tal como o fizemos.
A questão que se segue é a de saber o que é devido a cada um, ou seja, o que é de direito. O direito de algo ou alguém é determinado por seu valor ontológico, i. é., o valor intrínseco que a coisa tem segundo seu próprio ser. Entretanto, há algo assim? Valor intrínseco?
O valor de um determinado artefato criado por um homem está determinado por ele ao criar e estabelecer seu objetivo. E mesmo as coisas que ele não cria ganham seu valor segundo os fins para os quais ele percebe. Um homem pode considerar um violão extremamente valoroso na medida em que aprecia a música e, principalmente, aquela produzida pelo violão. Mas um cão ou gato não terá o mesmo apreço pelo instrumento, principalmente se não houver quem o toque - se é que animais podem verdadeiramente apreciar uma música. No máximo, servir-lhes-á para depositar alguma coisa, ou para afiar suas unhas. Portanto, percebemos que o valor das coisas é determinado de forma subjetiva. É preciso um referencial para que haja a determinação do valor.
Pois bem, temos que decidir de antemão se nosso referencial será antropocêntrico ou teocêntrico. Se tomarmos o homem como a medida de todas as coisas, teremos uma avaliação valorativa, e se tomarmos Deus, outra.
Estamos percebendo a que rumo o argumento está levando? Quem é que determina o valor do homem? Se ele é determinado pelo próprio homem, temos uma situação distinta daquela em que Deus é quem o determina. Esse é o ponto nevrálgico. Podemos falar que todas as coisas têm valor segundo o estabelece a subjetividade humana. Mas não seríamos indelicados se perguntássemos sobre o valor do próprio homem. É engraçado ver como naturalistas 'rebolam' para tentar dar algum valor distinto para um conjunto determinado de átomos dispostos de uma forma específica e não de outra. O homem não é mais do que isso nesse tipo de cosmovisão. E o valor que ele dá às coisas é relativo. E daí se as coisas têm esses valores para o homem?
Sem o homem poderíamos pensar no valor das coisas para manter o ecossistema. Mas, e daí? Por que o ecossistema deveria ser mantido? Alguém poderia responder imediatamente que seria para manter a vida na terra. Mas por que manter a vida? Ela nem mesmo é compreendida de forma 'anímica' pelo naturalista. Uma cosmovisão naturalista não pode dar um significado essencial para a realidade. Um cristão que toma o homem como referência para o valor das coisas é um incoerente que anda de mãos dadas com naturalistas. Um protestante, então, nesse caminho, chama para banquetear consigo Pelágio, João Cassiano e toda a corja que se segue.
Agora podemos rumar para a situação oposta. Deus determinando o valor das coisas. Para começar, ele está numa situação singular e muito superior à do homem para determinar o valor das coisas. Antes de mais nada, na cosmovisão cristã, ele é quem cria 'ex nihilo' tudo o que há. Cada parte do que existe além dele é engendrado, formulado, cogitado e executado por seu desejo. Portanto, o valor das coisas é definido segundo os objetivos que Deus tem para com tudo. Aí está o valor absoluto das coisas. Elas têm valor intrínseco por conta de seu lugar na criação.
Segue-se que é de direito que Deus dê ao homem o que lhe é cabível segundo o valor que Deus deu na execução de seus planos para cada coisa. Se o valor das coisas é dado por Deus, cabe a Ele dar a cada um o que bem entender segundo lhe parecer viável.
Não podemos encerrar esse artigo sem uma última formulação. Um ser racional age, na medida em que age racional e inteligentemente, com fins. Ele tem planos. Julgamos a integridade de seus planos e a competência do logos em executar seus planos. Um homem ao fazer algo tem, consciente ou inconscientemente, planos. Na medida em que ele conhece mais a si mesmo, mais consciente de seus objetivos ele está. Na medida em que é mais sábio e bom, objetivos mais nobres e sensatos ele tem, bem como os meios para alcançá-los. Apliquemos o raciocínio a Deus e teremos alguém que age com fins plenamente conscientes e estabelecidos, totalmente nobres e sensatos. Portanto, quando Deus criou cada coisa, inclusive cada homem, tinha uma pauta, um objetivo em mente.
E qual objetivo é esse? Com Charles Hodge aprendemos o que viria a ver novamente em John Piper: que Deus não pode ter outro objetivo que não ele mesmo como alvo final, último, derradeiro para as coisas. Quando ele vai criar só pode haver um objetivo sumamente nobre, santo e justo que é enaltecer aquilo que é mais santo, belo, nobre e bom: ele mesmo. Ele age, pois, em consonância com o que Paulo diz na epístola aos Romanos, para a sua glória, pois 'por ele, para ele e por meio dele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!'.
Na mesma epístola, no nono capítulo, o apóstolo Paulo diz que Deus criou os eleitos para enaltecer sua misericórdia e os ímpios para enaltecer sua santidade, justiça e severidade para com o mal, o que implica ser extremamente bom. Paul Helm, certa feita, notou que se fosse injusto que Deus não salvasse alguns homens, então salvá-los seria questão de dívida, e não de misericórdia. Deus os salva segundo seu propósito final de glorificar a si mesmo em suas várias perfeições.
Portanto, é mais do que justo, nobre e santo que Deus eleja quantos ele quiser para a sua inteira glória, bem como pretira, igualmente, a quantos lhe aprouver. Este é o soberano Deus para quem nos dobramos em reverente adoração!
____________
* Notar que não iremos discutir as demais doutrinas da graça que são indissociáveis da eleição, como justificação objetiva e subjetiva, chamado externo, regeneração, santificação, adoção, ressurreição e glorificação.
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