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segunda-feira, 8 de junho de 2015

Afinal, quem REALMENTE são "os evangélicos"?



Alguns estimados amigos e irmãos apreciaram um texto com a graça "Afinal, quem são 'os evangélicos'?", do jornalista Ricardo Alexandre. O título é interessante e, para todo bom cristão, há um desejo muito grande de verem-se apartados, inclusive no 'imaginário popular', de vários charlatões e reconhecidos malfeitores que se valem da religião para promoverem seus interesses e a tornam deplorável para o olhar do mais vil secularizado hedonista. Assustou-nos o fato de o texto estar na Carta Capital, nada afeiçoada à confissão cristã. A junção desses elementos despertou-nos à leitura. Escrita agradável e bem desenvolvida ['muito distante das que se veem nos textos deste humilde escritor que vos fala', destacariam alguns que inclusive vieram nos falar pessoalmente a respeito da
nossa dificuldade de expressão segundo seus respectivos pontos de vista], trouxe lá sua contribuição. Ele pareceu-nos querer atacar, principalmente, a 'generalização' [leia o artigo aqui].
Ok, de fato, a generalização apressada é algo reconhecidamente imprudente. Entretanto, é preciso tomar cuidado para não abrir a definição a ponto dela deixar de ser isso mesmo que pretendia ser: uma definição*¹.O tio Ari poderá nos ajudar (e falamos do bom Ari, ou seja, aquele macedônio, estagirita, da Grécia Antiga, filósofo reconhecido; e não um velho nada douto e sapiente que arroga autoridade de teólogo nos nossos dias ou de um tal boca suja que também intitula-se 'pastor'...)*².
Quando queremos definir algo temos que, primeiro, identificar um gênero (no sentido de 'classe', 'grupo maior') a qual determinado objeto de investigação se encaixa e depois distingui-lo das demais espécies. Façamos o exercício.
'Evangélico', para começo de conversa, é uma religião, e, como tal, acredita em alguma força maior e nalguma relação do home para com tal ser superior. Não é, pois, ateísmo, agnosticismo ou deísmo. Também não é uma ideia política, embora possa implicar em política; não é o nome de uma família ou de uma empresa, embora algumas igrejas têm famílias que parecem comandá-las como se lhes pertencessem, e outras parecem, de fato, empresas... Esse é o primeiro gênero que devemos salientar: é uma religião. Óbvio de ser dito, mas, a título de completude, necessário.
Em seguida, temos que nos lembrar de que há uma pretensão pelos ditos evangélicos de serem seguidores de Cristo, i. é., cristãos. Portanto, supõe-se algum vínculo com a figura histórica de Jesus. Portanto, não é de tradição oriental, embora algumas práticas cheirem a práticas orientais, como, por exemplo, a confissão positiva. Não é de linha muçulmana. Não é budismo. Não é de linha ocultista, mística, tal como as religiões de origem africana, embora algumas que se dizem 'evangélicas' tenham mais elementos dessas religiões do que elementos tradicionalmente cristãos. É, em maior ou menor medida, uma religião vinculada à pessoa de Jesus.
Mas não é qualquer Jesus. Os muçulmanos falam de Jesus como um profeta e nada mais do que isso. Há quem o veja como um grande mestre moral, e tão somente isso. Há ainda aqueles que o encararão como um espírito perfeito, que, meio que por emulação, nos levará à prática do bem. Concepções cada vez mais distantes. Remontando uma tradição 'moderna' (no sentido estrito do termo, i. é., algo pouco depois do Renascimento, ou ali 'encostada'), intitulada de Reforma Protestante - que por sua vez reivindica associação à um movimento mais antigo ainda, i. é., a fé da Igreja Primitiva - a qual reclamava fidelidade última às Escrituras Sagradas, 'evangélicos' seriam aqueles que pautam sua fé sobre Cristo tão somente naquilo que diz a Bíblia sobre ele. Esse é, ao menos em teoria, o discurso. Na prática, sabemos que não é bem assim e, bom, eis um critério para vermos se de fato estamos diante de um evangélico: é sua fé sobre Cristo tal como ensinada na Bíblia? Caso não seja, esse subgênero já teria de excluí-lo daqueles que reivindicam ser evangélicos.
Uma religião cristã fundamentada tão somente nas Escrituras. Se não quisermos nos delongar até às
controvérsias fundamentalistas do início do século XX, e entender quando é, exatamente, que o termo 'evangélico' surge, essa definição que inicia o parágrafo é mais do que suficiente para que façamos a peneira. Se perdermos esse parâmetro para dizer que 'evangélico É tudo', teremos a correta conclusão de que o termo é, o mesmo tempo, 'nada'. E, de fato, quando usamos de 'universais', estamos a alegar que tal expressão nos traga à mente algum conceito. Se o conceito diz respeito a tudo e a nada, não é um conceito, e a palavra torna-se menos significativa do que um arroto ou a emissão de uma flatulência, que ainda comunicam a existência de alguma vida (ou, a depender do odor, algo próximo à morte...) dentro do indivíduo.
É interessante, da parte do autor do artigo, demonstrar que o termo já não evoca mais nenhum conceito. Nesse sentido, ele está corretíssimo. Quando se perde o universal como um gênero que inclui todas as caraterística supracitadas, ele passa a não significar nada, e a incluir no seu conjunto cada vez mais elementos distintos, até que não se possa mais classificar qualquer coisa com aquele termo. É por isso, aliás, que muitos preferem se intitular de forma alternativa, como 'reformados', e.g., ao invés de 'evangélicos', para não serem confundidos com algo que está muito longe de ter algum parentesco com o que acreditam.
Mas não podemos, por conta da confusão gerada pelo termo, abrir mão de qualquer definição precisa que o termo costumava denotar. E nisso o autor peca. É um texto na 'Carta Capital', como já observamos, e, claro, era de se esperar que viesse eivado de vaidade politicamente correta. Sem uma definição, e salientando os vários tipos de pensamentos divergentes no seio da igreja cristã, deu a entender que se pode nomear cristão de forma legítima com as mais variadas crenças e práticas, pois haverá 'uma igreja para você'. Se há alguma intenção boa aí, há também um péssimo conselho. E, para isso, é interessante versarmos também sobre a questão das diferenças de pensamento.
Bons teólogos, sensatos, piedosos e notáveis acadêmicos distintamente cristãos protestantes notaram que há um 'mínimo divisor comum' entre os movimentos verdadeiramente cristãos. Embora haja uma disputa grande a respeito de quais são todos os elementos inegociáveis, há pontos pacíficos, tais como a criação da parte de Deus, i. é., que Deus é o criador do mundo e de tudo que nele há; a perfeição ontológica de Deus (como bom, santo, sábio, justo, todo poderoso, todo conhecedor, presente em todos os lugares e assim por diante). Trindade (incluindo a divindade de Cristo e pessoalidade do Espírito Santo); os méritos da nossa salvação como pertencentes a Cristo por pagar, na Cruz, a pena que cabia ao homem; a ressurreição literal de Cristo e sua segunda vinda visível. Isso é ser cristão bíblico. Há diferenças em várias questões periféricas, mas nenhuma dessas crenças podem ser omitidas ou serem contraditas por alguma outra crença nova. Feito isso, temos que considerar que tal 'particular' está fora do conjunto que poderíamos chamar de 'evangélicos', conforme definimos acima. Em poucas palavras, entre as igrejas e denominações que a partir da própria Bíblia poderíamos considerar cristãs há mais pontos de convergência do que pontos de divergência. E é nesse espírito que se unem para adorar a Deus juntos. Até aí temos 'ecumenismo'. Fora dessas paredes estaremos falando de sincretismo.
Se não fizermos essa distinção, corremos o risco de sermos precipitados, descuidados e tolos. Poderíamos tomar como 'evangélico' aquilo que não é, tal como chamar de pintura tudo e qualquer coisa que alguém fizer diante de uma tela. Se não estabelecermos parâmetros, perderemos as condições para dizer o que é uma produção artística, e o que é apenas uma bagunça diante de um tale em branco, embora para o leigo - há de se confessar - pareça tudo a mesma coisa.
______________
*¹ Para uma melhor compreensão do texto, sugerimos a leitura a partir do subtema 'Os Cânones da
Lógica', que se encontra no seguinte artigo: Introdução à Lógica Aristotélica
*² Para quem realmente não pegou a piada, estamos falando de Aristóteles.

sábado, 30 de agosto de 2014

Sobre filosofia e ser filósofo... (Introdução)

INTRODUÇÃO E RESSALVAS IMPORTANTES

É certo que parece pretencioso o fato de nós, calcando os primeiros passos da formação filosófica, da educação no sentido estrito do termo* (e tomaremos o 'ser filósofo', em parte, como ser 'educado' nesse sentido abordado), sem uma formação acadêmica oficial na área, venhamos a falar sobre o que é a filosofia, o que é ser filósofo e afins. A tarefa torna-se mais audaciosa quando observamos renomados pensadores tupiniquins de nossa época, como o filósofo Francisco Razzo, furtando-se ao título de filósofo, preferindo a alcunha de estudante e professor de filosofia, até que atinja a 'maioridade intelectual'*. Seja como for, podemos nos considerar filósofos ao menos no sentido socrático* (e é esse o sentido complementar que usaremos aqui para ‘filósofo’ - a menos em relação à uma auto-imagem -, o que poderá incluir todo verdadeiro estudante, que não se evade à busca da verdade, como haveremos de explicar), pois estamos mui cientes de nossas limitações intelectuais em vários pontos, em nossa ignorância em outros tantos, e ansiamos por conhecer, por entender, justamente para corresponder à esse anseio pelo conhecimento que, segundo Aristóteles, nos é tão natural*. O que pretendemos com essa série de artigos é externar algumas elucubrações efetuadas por nós e que já trarão alguma luz sobre os temas. É possível que, na medida em que desenvolvamos nossos estudos, venhamos a alterar algumas concepções, o que pretendemos também registrar. De qualquer forma, ainda que alteremos vários pontos, já teremos muito bem definido os assuntos, já teremos começado, e se começa sempre de algum lugar. Feitas essas ressalvas, passemos, pois, ao penoso, porém recompensador, labor.



O ESPÍRITO FILOSÓFICO

Vamos definir filosofia considerando a própria formação do espírito filosófico. Graciliano Ramos, no célebre 'Vidas Secas', nos reporta uma situação cotidiana mui pertinente ao nosso propósito de agora. O livro, em suma, retrata uma família vivendo no sertão, em meio à seca. Descrições triviais sobre a vida dessa família desenvolvem o texto. A família é composta pelo pai, Fabiano; pela mãe, Sinha Vitória; pelo menino mais velho e pelo mais novo. Num dos capítulos, Ramos narra o seguinte e rico evento:

Deu-se aquilo porque Sinha Vitória não conversou um
instante com o menino mais velho. Ele nunca tinha ouvido
falar em inferno. Estranhando a linguagem de Sinha Terta,
pediu informações. Sinha Vitória, distraída, aludiu vagamente
a certo lugar ruim demais, e como o filho exigisse uma
descrição, encolheu os ombros.
O menino foi à sala interrogar o pai, encontrou-o sentado
no chão, com as pernas abertas, desenrolando um meio de sola.
- Bota o pé aqui.
A ordem se cumpriu e Fabiano tomou medida da alpercata :
deu um traço com a ponta da faca atrás do calcanhar, outro
adiante do dedo grande. Riscou em seguida a forma do calçado
e bateu palmas - Arreda.
O pequeno afastou-se um pouco, mas ficou por ali rondando e
timidamente arriscou a pergunta. Não obteve resposta, voltou
à cozinha, foi pendurar-se à saia da mãe: - Como é?
Sinha Vitória falou em espetos quentes e fogueiras.
- A senhora viu?
Aí Sinha Vitória se zangou, achou-o insolente e aplicou-lhe
um cocorote.
O menino saiu indignado com a injustiça, atravessou o
terreiro, escondeu-se debaixo das catingueiras murchas, à
beira da lagoa vazia. (RAMOS, p. 55-56).

E o que tem isso a ver com filosofia? Tudo! Segundo Mortimer Jerome Adler e Charles Van Doren, o filósofo é aquele que leva em consideração as questões das crianças.
"A criança é um questionador natural. Não é o número de perguntas que ela faz, mas sua natureza que a distingue do adulto. Os adultos não perdem a curiosidade que parece um traço inato do ser humano, mas a qualidade dessa curiosidade vai se deteriorando" (ADLER; VAN DOREN, p. 277).
 Notem que o menino mais velho tinha uma questão legítima. E como ele foi tratado? Como os que insistem em questionar o são: hostilizado.
Vejam que essas questões incluem as questões existenciais, típicas, nos ditos populares, dos adolescentes. É uma experiência universal, o que indica ser ela realmente inata ao homem, como observa Jostein Gaarder: "Essas perguntas têm sido feitas pelas pessoas de todas as épocas. Não conhecemos nenhuma cultura que não se tenha perguntado quem é o ser humano e de onde veio o mundo" (GAARDER, p. 25), comprovando a observação aristotélica de que a filosofia nasce do espanto*.O homem começa primeiro compreendendo as questões da linguagem, e as questões básicas da inteligência, e, quando chega à 'idade da razão', começa a considerar as questões existenciais* e filosóficas em geral, como admite o filósofo Thomas Nagel:

"Nossa capacidade analítica geralmente já se encontra bastante desenvolvida antes mesmo que tenhamos aprendido muita coisa sobre o mundo, e por volta dos catorze anos muitos jovens começam a refletir sobre questões filosóficas por si sós - sobre o que realmente existe, se podemos chegar a saber alguma coisa, se existe algo que seja realmente certo ou errado, se a vida tem algum significado, se a morte é o fim de tudo" (NAGEL, p. 1-2).

Todas elas são questões mui espinhosas, delicadas, e que, não sendo consideradas com a máxima precisão, não são resolvidas. Mas considerá-las sem resolvê-las pode ser demasiadamente assustador. Paralisante. É por isso que essas questões são preteridas, deixadas para um depois que nunca chega, a não ser em momentos de crise, ou, na melhor das hipóteses, numa discussão intelectual indiferente.
Aliás, aqui não seria capricho se parássemos um pouco para falar de nossa realidade, de como esse fenômeno do desprezo à filosofia ganha ares culturais (por mais paradoxal que seja) aqui na Terra de Vera Cruz. E, com a palavra, o importante filósofo brasileiro, Olavo de Carvalho, e suas sagazes observações:

"Sim, no Brasil, cultura e inteligência são coisas para depois da aposentadoria. Quando todas as decisões estiverem tomadas, quando a massa de seus feitos tiver se adensado numa torrente irreversível e a existência entrar decisivamente na sua etapa final de declínio, aí o cidadão pensará em adquirir conhecimento - um conhecimento que, a essa altura, só poderá servir para lhe informar o que deveria ter feito e não fez. Antevendo as dores inúteis do arrependimento tardio, ele então fugirá instintivamente do confronto, abstendo-se de julgar sua vida à luz do que agora sabe" (CARVALHO, p. 31-32).

Claro, a citação fornece muitos insights que serão trabalhados adiante. Protelemos. Apenas vejamos onde é que estamos. Filosofia, aqui, é apenas capricho...
Portanto, a primeira característica do verdadeiro pensador, do filósofo, é a coragem e perseverança para lidar com essas questões, certamente já engendradas na sua infância. O que o leva aos estudos é justamente sua curiosidade, seu interesse em ver tais questões resolvidas. Quanto mais estimulante for o cenário em que tal mente vive, mais fácil de ela não abandonar a empresa filosófica a que todos nós, por constituição natural, somos destinados.

Gaarder está de acordo que o melhor jeito de se aproximar da sabedoria é justamente seguindo o espírito da criança, é dar vazão ao espírito inquiridor. Mas esse autor, em particular, levanta novas questões sobre o espírito inquiridor:
"O melhor meio de se aproximar da filosofia é fazer perguntas filosóficas. [...] Basicamente, não há muitas perguntas filosóficas para se fazer. [...] Mas a história nos mostra diferentes respostas para cada uma dessas perguntas que estamos fazendo. É mais fácil, portanto, fazer perguntas filosóficas do que respondê-las" (GAARDER, p. 25).
Quanto a esse último ponto, o de que é mais fácil
Ele diz não haverem muitas questões e que, embora a filosofia seja particularmente principiada pelo inquirimento, esse é apenas o primeiro passo. Vamos explorar essas duas propostas.
Primeiro, em certo sentido, não existem, realmente, infinitas questões filosóficas básicas. Elas basicamente são sintetizadas nas questões que erigem uma cosmovisão*. E James Sire nos tranquiliza observando que, embora assumam roupagens distintas, existem, no fim das contas, um número muito definido de cosmovisões: "O fato é que, embora, a princípio, as cosmovisões pareçam proliferar, elas são constituídas de respostas a questões para as quais há apenas um limitado número de resposta" (SIRE, p. 303).
Mesmo assim, não deixam de ser questões complexas, e muitas propostas foram elaboradas para solucionar cada uma delas. Com isso, tangemos a segunda questão. Elaborar o questionário 'do espanto' é essencial para o filosofar. Mas filosofar não se restringe a isso. De fato, ninguém pode almejar a sabedoria se não souber questionar. Mas saber questionar é o primeiro passo. Para passarmos de polemistas baratos, de irresponsáveis que fazem algo além de levantarem dúvidas sem solucioná-las, como alguém que tem a iniciativa de colocar a comida ao fogo mas não atenta-se para o ponto em que a comida deve ser retirada, temos de prosseguir. E é aqui que encontramos uma série de dificuldades. Precisamos reconhecer o que Craig diz em sua 'Apologética para Questões Difíceis da Vida':

"... sempre me impressiono como fato de que é muito mais fácil levantar questões difíceis do que respondê-las. Estudantes e leigos que têm pouco treinamento filosófico out teológico algumas vezes levantam questões tão difíceis que eles mesmos não conseguem imaginar o grau de complexidade em que elas se encontram" (CRAIG, p. 7). 

Voltaremos, noutra oportunidade, de forma mais demorada, à essa problemática.

Com o artigo de hoje, pretendemos mostrar apenas um ponto que responde à indagação sobre a relevância dos estudos filosóficos, sobre a nobreza de buscar ser um filósofo. Em suma, podemos dizer o seguinte: o engajamento filosófico é a enteléquia do homem. Ser filósofo é seguir os 'instintos' naturais do ser humano. Está de acordo com seu apanágio. É, portanto, algo mui 'natural', em certo sentido. Para qualquer alma desobstruída de ocupações obstruidoras, e com um pingo de decência, nobreza e coragem, a reflexão filosófica é uma demanda inevitável e impreterível do espírito humano.

Parte 2
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* Olavo de Carvalho nota que "educação vem de ex ducere, que significa levar para fora. Pela educação a alma se liberta da prisão subjetiva, do egocentrismo cognitivo próprio da infância, e se abre para a grandeza e a complexidade do real. A meta da educação é a conquista da maturidade. O homem maduro [...] é aquele que tornou sua alma dócil à razão, fazendo da aceitação da realidade o seu estado de ânimo habitual e capacitando-se, por esse meio, a orientar sua comunidade para o bem" (CARVALHO, p. 355-356).
* Razzo, num áudio no youtube, diz que há um acordo entre os cavalheiros graduados em filosofia de se denominarem filósofos apenas após os 60 anos! Bom, é claro que temos muitos antigos filósofos, assim reconhecidos pela maioria, que outorgaram-nos elucubrações excelentes antes desse período, o que parece contestar o professor Razzo. Mesmo assim, quem somos nós, ainda, para discutir. Fica aqui a observação a título de completude.
* Para compreender o sentido socrático do termo, leia este artigo de nossa autoria: http://panaceiateoreferente.blogspot.com.br/2014/05/socrates.html
* Dissertamos sobre isso no seguinte artigo: http://panaceiateoreferente.blogspot.com.br/2014/06/a-etica-em-aristoteles.html. O ponto culminante, para os propósitos dessa nota, encontram-e no subtítulo 'a origem da filosofia'.
* Idem.
* Dissertamos sobre essa questão no seguinte artigo: http://panaceiateoreferente.blogspot.com.br/2013/10/a-crise-existencial-e-resolucao-no.html
* Para certificar-se do que estamos falando, leiam esse artigo, também de nossa autoria: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/10/cosmovisao-parte-1.html

BIBLIOGRAFIA


ADLER, Mortimer J; VAN DOREN, Charles. Como Ler Livros. Tradução de Edward Horst Wolff e Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2010, 432p.

CARVALHO, Olavo de; BRASIL, Felipe Moura (org.). O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de Janeiro: Record, 2013, 616p.

CRAIG, William Lane. Apologética para questões difíceis da vida. Tradução de Heber Carlos de Campos. São Paulo: Vida Nova, 2010, 192p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.

NAGEL, Thomas. Uma breve introdução à filosofia. Tradução de Silvana Vieira. São Paulo: Martins Fontes, 2001, 107p.

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. Rio de Janeiro: Editora Record, 120. ed., 2013, 176p.

SIRE, James W. O Universo ao Lado: um catálogo básico sobre cosmovisões. Tradução de Fernando Cristófalo. São Paulo: Hagnos, 4. ed., 2009, 384p.

sábado, 14 de junho de 2014

Os Estoicos


[para uma melhor compreensão do estoicismo é bom que se leia este artigo sobre Heráclito]
Estudaremos, agora, uma importante escola filosófica da Antiguidade, o chamado estoicismo. Para isso contaremos principalmente com o capítulo sobre o assunto no livro de Jean-François Pradeau, escrito por Brad Inwood, que nos será guia para o estoicismo como Nash para o Platonismo ou Durant para política em Aristóteles e Platão.
Pois bem, o movimento foi criado por Zenão de Chipre. Mas antes de estudar os estóicos, temos que estudar uma escola que os precedeu, e que muito os influenciou: os cínicos, um movimento filosófico criado por um dos discípulos de Sócrates chamado Antístenes. Antístenes é pra Zenão o que Aristipo é para Epicuro. Gaarder e Chalita reconhecem a influência dos cínicos sobre os estóicos: “Os cínicos foram de grande importância para a filosofia estoica”(GAARDER, p. 148) e “As ideias dos estóicos foram influenciadas por uma corrente de pensamento que se desenvolveu na mesma época de Sócrates: o cinismo. Fundada por Antístenes (445? – 365 a. C.), um ateniense que conheceu o grande filósofo [Sócrates]” (CHALITA, p. 78). Veremos o porquê.
O estoicismo nasce, em Atenas, no final do século IV a. C., o século macedônico da Grécia, com Zenão. Inwood entende que Zenão nasceu em 334 e morreu em 262 a. C. (PRADEAU, p. 80). Chalita suspeita da data 320 a 250 a. C. (CHALITA, p. 76). Ambos, nas mesmas páginas, indicam que ele nasceu em Cítio (ou Cício), na ilha de Chipre.
Chalita nos informa que “Zenão entrou em contato com a filosofia por meio de textos trazidos de Atenas por seu pai, um comerciante” (CHALITA, p. 76). Chalita prossegue dizendo que “Posteriormente, ele se transferiu para Atenas, onde começou a ensinar próximo ao pórtico da cidade” (CHALITA, p. 76), mas isso pula informações importantes, concedidas a nós por Inwood. Antes, Gaarder nos diz que Zenão “se transferiu para Atenas depois de ter sobrevivido a um naufrágio” (GAARDER, p. 148). Quem sabe o naufrágio tenha-o despertado à reflexão sobre a vida. Ou seria um naufrágio no caminho à cidade de Atenas? Seja como for, Brad Inwood nos conta que, antes de começar a ensinar, Zenão foi “seduzido pela leitura das ‘obras socráticas’, ele foi para Atenas a fim de aprofundar seus conhecimentos. Ele sentiu um verdadeiro choque com a leitura pública de algumas partes do livro II das Memórias de Xenofonte (430-355 a. C.) e perguntou onde poderia encontrar homens como o Sócrates (469-399 a. C.) que se acabava de descrever. Crates de Tebas (368/365-288/255 a. C.), filósofo cínico renomado, foi-lhe designado. Levado por seu entusiasmo socrático, Zenão se devotou aos ideais da filosofia cínica: ele tomou a decisão de viver ‘em conformidade com a natureza’ e de repensar as convenções da sociedade civil a partir de seus fundamento” (PRADEAU, p. 80). Isso mesmo! Zenão não apenas estudou o cinismo, como aprendeu filosofia aos pés de um mestre cínico, e chegou a viver como um verdadeiro discípulo de Antístenes. Por isso, antes de continuarmos com os estóicos, temos que fazer uma pequena digressão e estudar os cínicos. Só então poderemos voltar e compreender melhor o estoicismo.

O CINISMO

Antístenes foi um fiel discípulo de Sócrates. Maria Lacerda de Moura parece considera-lo o mais fiel seguidor do sábio de Atenas. “Antístenes, durante o processo de Sócrates e os dias que se seguiram à sua condenação, desesperado diante do inevitável, revoltado, louco de dor, fugiu a toda e qualquer presença, par apenas viver junto de Sócrates até os últimos momentos do filósofo. Depois, fugiu de toda gente, na angústia de uma perturbação irritante contra a maldade, a incompreensão e imbecilidade humana que condenam um Sócrates, cuja pureza ninguém queria ver” (PLATÃO, p. 70-71). Talvez a conturbação tenha-o feito imaginar que a apatia ante as coisas seria a solução para a felicidade. Ele deve ter se lembrado de um evento com Sócrates que certamente fertilizou sua mente, fazendo germinar o ‘cinismo’: “Conta-se que, um dia, Sócrates parou diante de uma tenda do mercado em que estavam expostas diversas mercadorias. Depois de algum tempo, ele exclamou: ‘Vejam quantas coisas o ateniense precisa para viver!’. Naturalmente ele queria dizer com isto que ele próprio não precisava de nada daquilo” (GAARDER, p. 147).
Pois bem, o que Antístenes ensinava? Gaarder esclarece: “Os cínicos diziam que a verdadeira felicidade não depende de fatores externos como o luxo, o poder político e a boa saúde. Para eles, a verdadeira felicidade consistia em se libertar dessas coisas causais e efêmeras. E justamente porque a felicidade não estava nessas coisas ela podia ser alcançada por todos. E, uma vez alcançada, não podia mais ser perdida” (GAARDER, p. 147). É importante destacarmos que, uma vez que a felicidade não dependia de algo que apenas poucos possuíam, como saúde, riquezas e status, antes dependia da competência racional que todos tinham para se tornarem ‘cínicos’, ela era de alcance universal. Aqui percebemos as raízes socráticas do pensamento de Antístenes. Ele credita a felicidade à competência universal dos homens, à razão humana. É, pois, algo de caráter universal. Chalita completa a doutrina: “o pensamento cínico pregava que a maior virtude que um homem podia atingir era a independência frente a todos os acontecimentos da vida. Isso significava libertar-se dos costumes e das normas sociais por meio da satisfação apenas das necessidades absolutamente vitais, como a alimentação e o sono; todas as outras, impostas pelas regras sociais, deveriam ser desprezadas” (CHALITA, p. 78). Para ele, pois, as coisas que nos faziam pensar serem necessárias para a felicidade seriam, na verdade, um construto social, um anseio artificial criado por homens, iludidos, buscando ídolos para satisfazer a ‘irrealização’ presente em seus corações (observem que as inquietações existenciais estão, novamente, presentes em outro filósofo da antiguidade). O anseio por riquezas, status e até saúde são impressos em nossos corações pela cultura em que vivemos, ensinava Antístenes.
Acontece que Chalita ensina que alimentar-se e dormir seriam coisas lícitas de se buscar. E, no final das contas, todas as lutas das pessoas banais não são fruto justamente dessa busca? Querem dormir melhor, mais confortavelmente, e comer bem, bem como garantir esses dois. Seja como for, Gaarder amplia e torna a visão cínica ainda mais radical: “Os cínicos achavam que as pessoas não precisavam se preocupar com a saúde, nem mesmo com o sofrimento e com a morte. E elas também não deveriam se atormentar com o sofrimento dos outros” (GAARDER, p. 148). Ou seja, a paz é alcançada quando não se importa com nada mais além da mera sobrevivência. Essa parece a proposta de Antístenes.
Antístenes, enquanto o mestre ainda vivia, não se deu a ensinar e ter discípulos. Por isso Moura relata que Antístenes dizia: “Quando uma época tem a felicidade de possuir um Sócrates, é só a ele que convém escutar [...] Aprendereis comigo daquele que me ensina; a água é mais fresca e mais sã, quando bebida na fonte” (ANTÍSTENES apud PLATÃO, p. 73) e prossegue: “E Antístenes não teve discípulos enquanto Sócrates viveu. [...] Morava no Pireu. Todas as manhãs andava quarenta estádios para ouvir Sócrates. Platão não foi tão longe...” (PLATÃO, p. 73). Mas é claro, logo tal discípulo comprometido iria angariar discípulos.
Alguém, além de Zenão, viveu ao extremo essa filosofia: “Diógenes (século IVa .C.), o cínico mais famoso, levou esse ideal às últimas consequências, vivendo em absoluta pobreza. Há histórias que afirmam que ele chegou a viver dentro de um barril, nu, e que ridicularizava a todos os cidadãos e seus hábitos com um humor implacável” (CHALITA, p. 78). Talvez zombasse deles, pra lá e pra cá, ávidos em conseguir coisas, mirando objetivos que não eram melhores que as miragens dos viajantes do deserto. Gaarder nos conta uma interessante histórica sobre Diógenes: “Conta-se que ele vivia dentro de um barril e não
possuía mais do que uma túnica, um cajado e um embornal de pão. [...] Um dia, quando estava sentado ao sol junto ao seu barril, recebeu a visita de Alexandre Magno. Alexandre aproximou-se do sábio, perguntou-lhe se ele tinha algum desejo e disse-lhe que, caso tivesse, seu desejo seria imediatamente satisfeito. Ao que Diógenes respondeu: ‘Sim, desejo que te afastes da frente do meu sol’. Com isto Diógenes mostrou que era mais rico e mais feliz que o grande conquistador. Ele tinha tudo o que desejava” (GAARDER, p. 147-148).

A HISTÓRIA DO ESTOICISMO

Inwood diz que, “em seu começo, ele [o estoicismo] se restringiu à atividade filosófica do fundador da escola” (PRADEAU, p. 80), ou seja, entendemos com isso que não havia mestres tão cedo do estoicismo. Talvez seus bons discípulos tenham vindo depois. O certo é que “ele reunia seus ouvintes debaixo de um pórtico. O substantivo estoico vem da palavra grega para ‘pórtico’ (stoa)” (GAARDER, p. 148).
Depois de um tempo como cínico, Zenão continuou a filosofar, e a estudar, e abandonou o ideal de Antístenes, conforme nota Inwood: “Somente muito mais tarde, depois de pesquisas aprofundadas em vários domínios da filosofia, foi que Zenão fundou uma escola que se comprometia na via de uma ciência universal. Essas ciências compreendia a física, aí incluídas a cosmologia e a teologia, a análise dos modos formais de raciocínio e da epistemologia, assim como uma determinada abordagem da ética e da política, onde se sustenta valores civis ao mesmo tempo em que se repensava seu fundamento” (PRADEAU, p. 80). Ou seja, Zenão tinha pretensões de desenvolver uma cosmovisão completa. Ele não poderia ter conceitos tão simplesmente ético-existenciais. Era preciso refletir sobre o mundo, sobre os homens, sobre as relações humanas e sobre os próprios pensamentos.
Inwood prossegue dizendo que “em seu começo a escola era pequena. Na realidade, os primeiros discípulos de Zenão forma chamados mais de ‘zenonitas’ do que ‘estoicos’, enquanto que os discípulos de Epicuro (341-270 a. C.) foram desde o início chamados de ‘epicuristas’” (PRADEAU, p. 81). Mas esse tímido movimento prosseguiu, ganhou caráter próprio e vida além do mestre, como segue informando Inwood: “mas o movimento fundado por Zenão sobreviveu ao seu fundador e adquiriu uma identidade independente. Os filósofo que escolheram seguir Zenão em vida formavam um conjunto heteróclito. Alguns eram, por exemplo, encarregados da tarefa frequentemente ingrata de conselheiros políticos [...] Outros discípulos de Zenão foram menos fiéis aos princípios filosóficos de seu mestre...”” (PRADEAU, p. 81).
Dentre os famosos estoicos, conhecemos aquele que viveram já a partir do primeiro século da era cristã em diante. Sêneca, o escravo Epíteto e o imperador Marco Aurélio são os mais celebrados. Entretanto, segundo Brad Inwood, “os mais célebres discípulos de Zenão foram incontestavelmente Cleanto de Assos (331/330-225/220 a. C.) e Ariston de Quios [nasceu por volta de 300 e não se sabe quando morreu] [...], dois rivais cujas interpretações da herança zenoniana diferiam sensivelmente” (PRADEAU, p.). Percebam, pois, que, já no início a própria ortodoxia zenonita (ou seja, estoica) havia uma disputa. Aliás, a disputa era justamente em definir a ortodoxia.
Quanto a Ariston, Inwood diz: “Como Herillus de Cartago, Ariston pensava que o coração das doutrinas da escola era a ética num sentido muito preciso, quer dizer, uma ética socrática de inspiração cínica” (PRADEAU, p.). Portanto, nesse sentido, o estoicismo não teria necessariamente uma cosmovisão, ou, pelo menos, a teria toda voltada para a ética.
Cleanto, por sua vez, “ao contrário, afirmava que a escola devia considerar a física, a teologia, mas também a epistemologia e a lógica como objetos de estudo da mesma importância da ética. Ele se esforçou para encontrar uma combinação satisfatória entre estes domínios de estudos que iria caracterizar a escola” (PRADEAU, p.) Ou seja, Cleanto seguia a proposta do mestre, como vimos, e buscou formar uma cosmovisão coerente dentro do estoicismo.
Bom, como Cleanto seguiu a proposta do mestre, estava ali a ortodoxia. Sendo assim “não é, portanto, de admirar que Ariston se tenha distanciado da escola estoica para libertar seu próprio ensino. Seus discípulos eram chamados de ‘aristonianos’, mas eles não foram muitos, e a influência da escola de Ariston não durou” (PRADEAU, p.) Entretanto, como veremos adiante, a escola acabou adotando uma postura mais aristoniana no futuro mais distante.
Inwood ainda nos diz que “Cleanto permaneceu à cabeça da escola quando da morte de Zenão em 262/261 a. C., durante trinta e dois anos até sua própria morte em 230/299 a. C.” (PRADEAU, p.). Portanto, a fidelidade aos princípios do mestre garantiu a Cleanto a sequência na administração da casa.
Mas o desenvolvimento da filosofia estoica não estava em Cleanto, mas em seu discípulo Crisipo: “Seu discípulo Crisipo de Soles (281/278-208/205 a. C.) assumiu as teses de Cleanto ([...] a propósito da tradição estoica e as desenvolveu”. Inwood amplia muito nosso conhecimento sobre Crisipo: “Depois de um período em que ele ministrou seu ensino de maneira autônoma, Crisipo reacendeu a chama da Escola. Ele se preocupava em permanecer fora da política, diferentemente dos primeiros estoicos; ele era, por outro lado, vigorosamente contrário à intepretação aristoniana do estoicismo. [...] Ele é conhecido por ter defendido com entusiasmo a concepção zenonista da epistemologia estoica (que mistura uma crença na possibilidade de um saber inabalável com posições materialistas e empiristas) contra a Academia”(PRADEAU, p. 81-82). Portanto, foi não apenas um sistematizador, mas também um apologista do estoicismo.
É aqui, em Crisipo, que temos a resolução máxima do estoicismo. Mais adiante Inwood irá dizer: “Ainda que as doutrinas da escola tenham evoluído consideravelmente durante os quinhentos anos de sua existência, a versão mais acabada e mais influente do estoicismo permanece seguramente aquela de Crisipo e dos seus discípulos” (PRADEAU, p.). Por isso, não achamos interessante prosseguir na exposição que Inwood faz sobre o resto da história. Podemos resumir que no século II a. C. houve uma perversão da doutrina. Mas, foi nesse período, como vimos, que os romanos começam a intervir na Grécia. Isso acabou minando o poder das escolas vigentes, as famosas escolas de Aristóteles e Platão, bem como o Jardim de Epicuro. Nesse tempo, o estoicismo já havia avançado por outros territórios e em breve alcançou o espírito romano. Vincent Cheung nos dá uma pista interessante para explicar como o epicurismo impregnou-se nos romanos: Posidônio, um filósofo estoico que viveu de 130 a 50 a. C., foi o instrutor de Cícero, e este último foi um dos grandes divulgadores da filosofia no império romano (CHEUNG, p. 23). Nos primeiros séculos da era cristã já não temos escolas oficiais, mas há mestres e escritores estoicos. A escola acaba ganhando uma cadeira no império, ao lado das cadeiras do epicurismo, aristotelismo e platonismo. Um imperador chega a ser estoico. Mesmo assim, a escola acaba morrendo no império romano cristão. Arrematemos a seção com Chalita: “O estoicismo teve uma longa duração, estendendo-se até o final do século II da era cristã, quando alguns pensadores romanos ainda cultivavam as ideias dos filósofos estóicos, modificadas conforme os interesses individuais, segundo os diferentes momentos históricos e lugares” (CHALITA, p. 77).

A FILOSOFIA DOS ESTOICOS

Com Inwood seguiremos o desenvolvimento máximo da cosmovisão estoica, encontrado em Crisipo e seus seguidores. Talvez, por isso, encontremos divergências para com outros autores (embora, claro, possa ser apenas incompletude de Inwood). Seja como for, buscaremos formular uma exposição completa da filosofia estoica em forma de cosmovisão.
Antes, é interessante notar as informações que Inwood nos concede sobre a teorização filosófica conforme era concebida por Zenão e demais estoicos. A filosofia era exposta dividida em física (metafísica e teologia inclusas), ética e lógica. “Para Zenão, trata-se na realidade de uma divisão do discurso sobre a filosofia mais do que de uma divisão da própria filosofia; outros filósofos (como Sêneca na Carta 89) afirmam com insistência que a filosofia em seu conjunto é uma, e que a divisão em partes é certamente útil, mas totalmente artificial. Podem existir divergências entre os estoicos quanto à ordem de apreensão destas partes. De acordo com eles, esta ordem é em certa medida o efeito de uma convenção; testemunha disso é a necessidade entrecruzar os temas próprios a cada uma das partes do ensino” (PRADEAU, p.). Na verdade, a sabedoria é uma coisa só, uma única disciplina. Sêneca reconhece que a divisão é útil, didática. Zenão entende que se trata de um discurso e não da própria filosofia. Tanto é que não podemos desassociá-las completamente ao discursar sobre cada uma particularmente.
Entretanto, mesmo concordando na utilidade do discurso filosófico fracionado em disciplinas diferentes, não entram em acordo para com a relação entre as partes da filosofia. Propuseram famosas analogias, como registra Inwood, para elucidar a questão: Sabe-se que os estoicos empregavam muitas analogias para descrever a relação das partes da filosofia entre si e em relação com o todo, e a maioria delas implica uma concepção holista e orgânica da filosofia. A única imagem que tende a fazer de uma parte da filosofia um elemento autônomo é aquela que compara a lógica com um tapume que cerca um campo cultivado, no qual a ética designa os frutos que aí crescem, a física as árvores que os carrega ou a terra que produz a colheita. A partir desta imagem, a física aparece em relação íntima e direta com a ética da qual ela recolhe os benefícios (a física é então a árvore que carrega as olivas, ou, antes, a terra onde cresce o trigo), enquanto que a lógica é o instrumento de proteção que parece separado desses benefícios. [...] Mas, em outras analogias, a lógica em seu papel de proteção é muito mais solidária com aquilo que ela defende: ela é a casca do ovo, ou, antes, os ossos e os tendões do corpo animal” (PRADEAU, p. 83-84).

FÍSICA, METAFÍSICA E TEOLOGIA

Comecemos a metafísica dos estoicos por Inwood: “A física estoica é profundamente influenciada pelo Timeu de Platão e pela cosmologia de Aristóteles. O cosmos é uno, é um todo finito, composto pelos quatro elementos fundamentais da matéria (a terra, o ar, o fogo e a água) e seus compostos (os estoicos consideram que existem dois princípios nos elementos: um princípio ativo divino e um princípio inerte, sem qualidade e passivo; mas estes dois fatores ou princípios não são jamais separados um do outro nos corpos)” (PRADEAU, p.). O que temos aqui são conceitos da matéria semelhantes aos de, primeiramente, Empédocles e seus quatro elementos; e, em seguida, o conceito próximo (senão idêntico) aos de Aristóteles e Platão, que concebiam a matéria em si algo próximo ao ápeiron de Anaximandro, ou seja, algo sem qualidades, apenas um ente com propriedade de ser. Esse, aliás, seria o ‘princípio passivo’, inerte, a qual Inwood se refere. Mas esse não é todo o quadro. Precisamos prosseguir para compreender como se dá o segundo princípio.
Quando foi dito que os estoicos foram influenciados por Platão, temos uma informação nova sobre o ateniense: “A exemplo de Platão os estoicos pensam que o cosmos é um ser vivo. No entanto, sua alma é incorpórea: ela é feita de pneuma, uma espécie de sopro composto de ar e de fogo (embora sua natureza seja controvertida no seio da escola)” (PRADEAU, p.). Bom, o que Inwood se esquece é de mencionar que os estoicos eram, aqui, influenciados por Heráclito. Sproul admite isso: “Deram ênfase à ideia de Heráclito do fogo seminal que determina todas as coisas, o logos spermatikos” (SPROUL, p. 54). Temos, pois, a alma do cosmos, algo imaterial, a quem nos referiremos por ‘pneuma’. É algo incorpóreo mas, ao mesmo tempo, lembra o fogo. Um ‘fogo espiritual’, talvez. Talvez aqui tenhamos a ideia do fogo, embora não o admitindo como algo deste mundo, algo material, e novamente voltamos a uma espécie de ápeiron (embora, agora, perfeitamente qualificado; estamos nos referindo apenas à ideia de que é algo que não é deste mundo). Difícil determinar. Inwood mesmo diz que é uma ideia controvertida.
Como já meio que antecipamos, esse pneuma ganha ares pessoais, talvez mero antropomorfismo de alguns, e é responsável pela ‘criação’ do mundo. Percebam a doutrina, segundo expõe Inwood: “os estoicos sustentam a ideia de que há ciclos de criação e de e destruição do universo, sob influência de uma entidade ativa divina, Zeus, responsável tanto pelo fim eventual do cosmos numa conflagração ígnea quanto por sua regeneração a partir do fogo, passando por uma zona úmida, até o reaparecimento dos quatro elementos conhecidos do cosmos” (PRADEAU, p. 84-85). Portanto, não só criação, como deterioração do mundo. Esse logos, portanto, é que determina todas as coisas, como apontou Sproul. A própria matéria emana dele, e para ele volta. Nesse sentido, temos mesmo uma espécie de panteísmo nos estoicos. Vincent Cheung, também admitindo a influência de Heráclito, arremata o conceito: “Provavelmente inspirado por Heráclito [...], os estóicos ensinavam que no princípio não havia nada, mas apenas o fogo eterno, do qual emergiram os elementos que construíram o universo. O mundo seria eventualmente consumido numa conflagração universal e retornaria para o fogo, e assim o ciclo da história iria se repetir eternamente” (CHEUNG, p. 23).
O logos é também o responsável pelo desenvolvimento de todas as coisas. Ele é como um princípio teleológico do mundo. Vincent Cheung, observando a ‘história’ da doutrina do logos, claro, chega aos estoicos, e então diz: “o estoicismo considera o logos um princípio da razão divina, e o logos spermatikoi governa, na forma de sementes e lampejos o fogo divino, o desenvolvimento de cada objeto na natureza” (CHEUNG, 2009, p. 63). Em termos semelhantes, deixando claro a responsabilidade pelo movimento do mundo material, temos Chalita: “O universo, por sua vez, teria um elemento que o organizaria racionalmente: o fogo; esse elemento faria aparecer todas as características da matéria nas diferentes coisas, como a luz solar faz uma semente germinar e crescer” (CHALITA, p. 77). O conceito de semente elucida o que Inwood, logo no começo desta seção, quis dizer por ‘princípio ativo’ nos elementos. É como se o logos ‘semeasse’ as qualidades no princípio passivo, conduzindo-o e levando-o às mudanças diversas, e a adquirir os mais diferenciados predicados.
Cheung admite a teleologia implicada pelo conceito do logos “O fogo divino que permeia todo o mundo é um fogo racional, e o logos ou Razão que determina o curso do universo. Algumas pessoas têm a concepção errônea de que pelo fato do Estoicismo afirmar que todos os eventos são determinados pelo Destino, ele nega, portanto, que haja um propósito na história. Contudo, visto que o logos deles é um fogo inteligente, o Estoicismo pode de fato afirmar uma visão teleológica do universo” (CHEUNG, p. 23). Portanto, não se tratava meramente de uma ‘força’, mas de uma força inteligente, (tal como em Anaxágoras), quiçá pessoal*1.
Aqui, antes de continuarmos na exposição da cosmovisão estoica, temos que lidar com um impasse. Ou os diversos intérpretes estão em franca contradição, ou não compreenderam bem o estoicismo, ou ainda não se expressaram muito bem. Pode ser, ainda, que os autores estejam se referindo às concepções de Zenão ou Cleanto, ao passo que estejamos analisando o desenvolvimento da doutrina em Crisipo*2. Percebam, primeiro, um tipo de informação. Sproul se refere, metafisicamente aos estoicos, da seguinte maneira: “Os estóicos desenvolveram uma cosmologia de materialismo” (SPROUL, p. 54). Portanto, para ele, os estóicos são materialistas, tal como Leucipo, Demócrito, Epicuro e Lucrécio. Junto a R. C. Sproul, temos Jostein Gaarder no seu clássico ‘O Mundo de Sofia’ (já antecipando nossa discussão antropológica): “... os estóicos também negavam a oposição entre ‘espírito’ e ‘matéria’. Para eles existia apenas uma natureza. Chamamos tal concepção de monismo” (GAARDER, p. 148). Portanto, evidentemente, os estoicos seriam materialistas e monistas. É Inwood que completa o ‘quadro de acusação’: “O cosmos é de fato um todo físico, onde não há nem vazio no interior (embora o cosmos seja cercado por um espaço vazio infinito), nem entidades causais eficientes incorpóreas” (PRADEAU, p.). Portanto, se não há causas eficientes corpóreas, temos um determinismo materialista à lá Demócrito.
No entanto, é o próprio Inwood quem vai nos falar de realidades incorpóreas: “Existem também os incorpóreos no sistema estoico: o vazio, o espaço, o tempo, os ‘exprimíveis’ (lekta), o conteúdo intelectual do discurso e do pensamento*3” (PRADEAU, p. 85). Não bastassem essas, ele mesmo admite a existência do ‘pneuma’, o deus estoico, que cria e destrói a todas as coisas. Não vimos que ele denomina esse pneuma como uma entidade incorpórea? E não foi estudado que é ele a causa eficiente, material, formal e final de todas as coisas? Talvez Inwood tenha intentado dizer que não há espíritos e deuses permeando o cosmos. Mas, transcendendo-o, semelhante à concepção metafísica de Espinoza, temos uma alma, incorpórea, determinadora de todas as coisas, e de onde todas as coisas surge. O conceito pode ser resumido em Charles Hodge: “O universo, portanto [...], do qual Deus é a alma, e a Natureza, o corpo, é vivo, imortal, racional e perfeito. [...] Deus, como o princípio controlador e operativo em todas as coisas, age segundo leis necessárias, totalmente racionais” (HODGE, p. 184).
Aqui nos deparamos com uma possível controvérsia. Vincent Cheung parece negar a transcendência do logos estoico: Os estóicos eram panteístas, de forma que o logos deles não é transcendente, mas imanente” (CHEUNG, p. 23-24). Entretanto, segundo o que temos visto, parece-nos possível conceber algum grau de transcendência tal como uma alma transcende o corpo, entretanto está intimamente associado a ele. A propósito, essa analogia foi, de fato, usada por Sêneca: “Sêneca explica Zeus ou a existência de Deus ao mesmo tempo que o mundo e a alma do mundo, apontando para o homem que se sente como um ser singular e contudo também como constituído de duas substâncias, corpo e alma” (DOLLINGER apud HODGE, p. 241). A analogia só falha pelo fato de que parece ser do próprio ser do logos que se faz o mundo, e onde ele termina. É como se esse ‘fogo’ misterioso transformasse-se na matéria e, em seguida (?), em tudo mais*4.
Podemos, então, falar de antropologia filosófica. Inwood faz uma intrigante afirmação: “Mas a alma, o espírito e deus são entidades causais que interagem com outros corpos; por conseguinte, eles são de natureza material, quer dizer, feitos do pneuma anteriormente mencionado” (PRADEAU, p. 85). Podemos entender ‘deus’ como o pneuma, e ‘espírito’ como parte da ‘alma’, mas não há qualquer indício de distinção, e, a única saída e recorrer ao conceito platônico que vê ‘espírito’ como uma parte da alma; uma alternativa é ver espírito como ‘pneuma’ – afinal, em grego, é esse o termo para espírito – e ‘deus’ como uma entidade diferente, mas isso iria complicar todo o sistema. Buscando conciliar as coisas, versemos sobre ‘deus’ como o pneuma. Sendo assim, claro, há uma relação causal para com o cosmos. Mas, e a alma humana? É certo que há uma interação entre o homem e a natureza. Então começamos a compreender a antropologia dos zenonitas. Inwood lança mais uma sentença nada clara (aliás, o que é comum no livro de Pradeau): “A alma humana perfeita é indiscernível, tanto física quanto moralmente, do ser divino” (PRADEAU, p. 85). É certo que tudo que existe provém do pneuma, e, talvez, nesse sentido, podemos falar de ‘monismo’ dentro de uma concepção panteísta. Mas, claro, há distinções de propriedades entre ‘alma’ e ‘matéria’. Para começar, a mais essencial de todas: a alma é ‘imaterial’. Ao menos a alma do mundo é. E é bem necessário que a alma dos homens o seja, afinal, nela reside os ‘exprimíveis’ e os conteúdos mentais. Retomando os dizeres de Cheung, o logos divino espalha suas sementes no cosmos, e isso não só originando e dirigindo o ‘movimento’ (no sentido antigo da expressão), mas criando pequenas ‘ramificações’, que são as almas humanas: “Esse logos universal produz sementes ou ‘faíscas’, os logoi spermatikoi, em todas as coisas, de modo que cada pessoa tem em si uma faísca do divino” (SPROUL, p. 54). Com essa concepção em mente podemos entender o conceito ‘cosmopolita’ dos estoicos, conforme aponta Gaarder: “Assim como Heráclito, os estóicos diziam que todas as pessoas eram parte de uma mesma razão universal, ou ‘logos’. Eles consideravam cada pessoa um mundo em miniatura, um ‘microcosmo’, que era reflexo do ‘macrocosmo’” (GAARDER, p. 148). Os homens são ‘micro-pneumas’, como ‘chuviscos ígneos’, faíscas do logos criador de todas as coisas (o que muitos, dentro de um contexto religioso politeísta, referiam-se a Zeus). Isso acabou “levando Epitecto a afirmar que existe uma ‘centelha de divindade’ dentro de todo homem” (CHEUNG, p. 24).
E, não podemos refletir adequadamente sobre antropologia filosófica sem lidar com a questão da imortalidade da alma. Quanto a isso, Vincent Cheung nota que “a visão estoica da história parece excluir a imortalidade individual, ainda que pareça haver visões levemente diferentes neste assunto” (CHEUNG, p. 23). Hodge confirma: “A alma dos homens é da mesma natureza que a alma do mundo, mas como existência individual, deixando de existir quando a vida do corpo cessa” (HODGE, p. 184). De uma forma ou de outra tudo que surge no fogo, termina no fogo, inclusive as almas humanas. Então Cheung prossegue, citando Marvin R. Vincent: “Eles negavam a imortalidade universal e perpétua da alma; alguns supondo que ela era englobada na deidade; outros, que ela sobreviveria apenas até a conflagração final; outros, que a imortalidade era restrita apenas aos sábios e bons” (VINCENT apud CHEUNG, p. 23).
Antes de terminar a metafísica, ainda nos resta refletir sobre o determinismo que o sistema implica. Inwood se expressa da seguinte forma: “No sistema estoico, todo acontecimento é causado e determinado por uma cadeia racional e providencial de causas e efeitos, que se reproduz naturalmente a cada ciclo de criação e destruição do cosmos. Somente os corpos podem ser causas ou efeitos” (PRADEAU, p. 85). Temos, aqui, pois, uma história cíclica. Um conceito provavelmente oriundo das filosofias orientais*5. Gaarder se expressa de maneira mais informal, ou menos técnica: “... os estóicos diziam que todos os processos naturais – por exemplo, a enfermidade e a morte – eram regidos pelas constantes leis da natureza. [...] Nada acontece por acaso, diziam os estóicos. Tudo acontece porque tem de acontecer e de nada adianta alguém lamentar a sorte quando o destino bate à sua porta” (GAARDER, p. 149). Claro, tal conceito irá suscitar críticas de viés ético-existencial que serão usadas pelos adversários do sistema, como Inwood nos conta: “O determinismo causal que caracteriza este sistema físico suscita críticas de seus adversários, mas Crisipo e outros estoicos tiveram sucesso em mostrar que a forma do determinismo que eles defendiam não excluía a responsabilidade moral e a possibilidade de cada um se tornar melhor, como sua própria teoria ética pressupõe” (PRADEAU, p. 85). Com isso, abriremos nossa discussão sobre a ética epicurista. Antes, uma breve exposição epistemológica.

EPISTEMOLOGIA

Os estoicos, tal como Heráclito, os materialistas e Aristóteles, eram empiristas também. Gabriel Chalita apresenta de forma sucinta o conceito: “O conhecimento seria adquirido sempre por meio dos cinco sentidos, que captariam as características dos objetos e dos seres. [...] as ideias e os conceitos sobre qualquer coisa são apenas combinações mentais das informações que o ser humano adquire sensorialmente” (CHALITA, p. 77), ao que Inwood expõe em termos mais formais: “Na medida em que os estoicos acreditam na confiabilidade das percepções sensíveis, e que o conteúdo da percepção pode constituir um fundamento sólido para a formação de conceitos e de inferências, é crucial mostrar a seus adversários (em geral, aos acadêmicos, durante o período cético da escola) que existe pelo menos um tipo de percepção sensível confiável” (PRADEAU, p.). É interessante destacarmos, aqui, um conceito que, posteriormente seria defendido por filósofos como David Hume, e que foi ignorado por Epicuro quando concebeu a existência dos deuses: os conceitos que formulamos são abstrações mentais, junções do que formamos em nossa mente, ou como coloca Chalita, combinações mentais das informações sensíveis. Não são, portanto, necessariamente, realidades concretas (ou quem sabe o sejam, se admitirmos um viés platônico do estoicismo).
Brad Inwood amplia nossa compreensão da epistemologia estoica: “Houve um debate em torno do que se chama de representação compreensível [...] no início do século III a. C., que se prologou até Cícero [..] sem que se possa, porém, reconhecer claramente um vencedor. Os estoicos permaneceram convencidos de que existem percepções sensíveis confiáveis, que contêm seu próprio critério de verdade e que representam as coisas tais como elas são na realidade. [...] A objeção cética consiste sumariamente em afirmar que se pode sempre encontrar e imaginar uma representação errada, indiscernível, de uma representação confiável, de maneira que sua verdade não pode jamais ser asseverada com certeza” (PRADEAU, p. 88). Diferindo-se de Demócrito, e agregados a Epicuro, entendiam que o que nos era informado pelos sentidos de fato, correspondia ao que era a realidade. O que temos na mente é, pois, uma representação do real. Mas os céticos trabalhavam com a questão de que o que é representado em nossa alma ser algo falso. No final das contas, essa discussão não pode ser resolvida apenas na lógica, mas tão somente no campo da disputa das cosmovisões. Tudo dependerá dos pressupostos assumidos e da coerência e abrangência das cosmovisões a que cada conceito é derivado.
Inwood também nos conta que “os estoicos se servem, além disso, da lógica como de um instrumento de defesa nas discussões” (PRADEAU, p.) e, por isso mesmo, ampliaram muito os estudos da lógica, particularmente no que diz respeito à análise de paradoxos e ambiguidades*6. E, por lógica temos todo o conceito do Trivium já organizado pois, como Inwood informa, “ela inclui tanto a retórica quanto a dialética”*7 (PRADEAU, p. 87).

ÉTICA-EXISTENCIAL

Uma ética adequada, coerente, deve estar calcada nos fundamentos da cosmovisão a que pertence. Nisso o estoicismo dá de dez a zero no epicurismo. Da metafísica e antropologia filosófica implicamos a ética. Lembremo-nos que a “razão do homem é vista como sendo do mesmo tipo do fogo eterno, o qual permeia a ordem do mundo” (BAHNSEN apud CHEUNG, p. 24). Portanto, o logos, aquele fogo que permeia o mundo, dirigindo seus passos, é o que habita em todos os homens. A razão humana é a razão do mundo. O curso da natureza, o destino, pois, é o curso da razão. Compreendido isso podemos entender esta citação de
Inwood: “No domínio da ética, os estoicos sustentam uma forma de eudemonismo: o objetivo da vida humana é a realização do fim (telos) que lhe é próprio [Aristóteles]. Este fim consiste em viver em conformidade com a natureza (a nossa natureza e a natureza do cosmos; compreende-se então a importância da ideia segundo a qual nossa natureza é idêntica à potência divina que estrutura o mundo natural)” (PRADEAU, p.). Portanto, a virtude consiste em olhar para a razão que está em nós e no mundo a fim de lhe seguir. É adequar-se, pois, ao logos, tal como existe em nós e fora de nós. Então tomemos Cheung para ampliar a discussão: “Visto que o homem está sujeito às forças imanentes do mundo, ele deve viver em harmonia com a natureza. Visto que a Razão permeia e governa o mundo, viver em harmonia com a natureza é viver em conformidade com a racionalidade, e a racionalidade é superior às emoções. Tudo que está fora da razão deveria ser visto com indiferença, seja o prazer, o sofrimento, ou mesmo a morte” (CHEUNG, p. 24). Nesse sentido parece que os estoicos consideram as paixões, o prazer e a dor, como efeitos não racionais na alma, que devem ser abandonados, desprezados e erradicados, afinal, “o mais elevado fim da vida é a virtude; e a virtude é viver segundo a razão” (HODGE, p. 184).
Isso nos leva ao conceito de apatia. Como já falamos repetidamente, há variantes na doutrina estoica, de modo que teremos dois tipos, pelo menos, de concepção estoica aqui. Uma, de viés mais cínico, é a que Chalita apresenta: “A felicidade, para os estóicos, era um estado de tranquilidade plena, que só podia ser atingido por meio da prática virtuosa. Por sua vez, a virtude era definida como uma negação constante, que consistia na indiferença dirigida a todas as experiências da vida; o estado que seria atingido com esta prática é descrito pelo termo grego apatheia. Em outras palavras, o homem não deveria se preocupar com questões relacionadas com a morte, não deveria se esforçar pelo enriquecimento material, nem deveria sofrer com o cansaço. O único valor, segundo os estóicos, é a sabedoria, que é alcançada com o cultivo do pensamento, que por sua vez é a única atividade em que vale a pena se empenhar. Em resumo, trata-se de uma indiferença direcionada a toda forma de prazer e de sofrimento. Tanto as experiências dolorosas quanto as prazerosas são irracionais, conforme a doutrina do estoicismo, porque são paixões, ou seja, vícios e, portanto, mal supremo” (CHALITA, p. 76). Aqui, evidentemente, temos um ‘q’ aristotélico quando se fala que a atividade máxima seria o cultivo da sabedoria que, para os estoicos, tal como Platão e Aristóteles tomam como sinônimo para sua própria filosofia, corresponde ao estoicismo. Prazer e dor, seguindo a interpretação também de Cheung, perturbam a alma. Não se deve ser afetado de forma alguma. Como Chalita completa: “Ser indiferente, ou seja, não sofrer nem agir por nenhuma paixão, era para os estóicos ser virtuoso. Dessa forma, o máximo da virtude seria alcançado quando o homem ficasse alheio a tudo, vivendo como numa fortaleza interior, tendo como seu tesouro o pensamento e a sabedoria filosófica” (CHALITA, p. 77). Essa perspectiva torna o perseguidor da tranquilidade um sujeito inerte que, de preferência, vive em reclusão e deixa as coisas rolarem. Entretanto, Inwood nos fala de uma corrente dominante (talvez a de Crisipo e seus discípulos), que concebem a coisa em termos um pouco diferentes: “Na corrente dominante do estoicismo, o ideal de vida é muito mais naturalista e é orientado também tanto para ação quanto para a contemplação. Todos os estoicos estão, no entanto, de acordo em afirmar que a virtude humana designa o estado ideal da alma racional unificada; eles subscrevem nesse sentido o ideal socrático do Protágoras ou do Fédon, mais do que o modelo platônico ou aristotélico da harmonização das ‘partes’ da alma entre si, cada uma tendo uma função própria e se comportando de maneira quase autônoma” (PRADEAU, p. 85-86). Ou seja, descartando a ideia de que a há repartições na alma, como o fizeram Platão e Aristóteles, fica definido que há somente um aspecto do homem que precisa ser realizado, levado a cabo: a razão. Mas o que diferencia essa interpretação é que se segue: “Viver de acordo com a natureza significa, por conseguinte, ter uma vida ativa, ter um ideal moral de autogoverno e se esforçar para alcança-lo” (PRADEAU, p. 86). Diferente da inércia cínica proposta na outra, aqui a conformidade com a natureza inclui atividade, embora atividade racional, consciente e em interação com o curso das coisas. Seja como for, todos concordam que é preciso uma vida de reflexão filosófica, contemplação.
Essa vida contemplativa, filosófica tem insinuações que não exploramos muito bem: “A vida completamente conforme à razão é a única vida virtuosa e feliz, e o melhor guia para levar esta vida perfeita e divina, de acordo com Crisipo, é a compreensão dos acontecimentos que ocorrem na natureza” (PRADEAU, p.). Portanto, a questão não é apenas lidar com o prazer e a dor, e sim lidar com o destino. Viver de acordo com a razão, com o logos, e viver de acordo com o curso racional e fixo que o logos mantém o mundo. “Os estoicos da corrente aristoniana parecem mais socráticos do que platônicos nesse ponto; para praticar a virtude, afirmam eles, o homem não tem necessidade de estabelecer uma teoria física elaborada” (PRADEAU, p. ). Eles entendem que não é, pois, preciso conceitos metafísicos elaborados, bastando seguir a vida em aceitação ao que ela traz. Já outros entendiam que um conhecimento da física e, quiçá, da metafísica, poderiam orientar o homem: “A vontade cínica de seguir a natureza mais do que as convenções se torna, nos estoicos eminentes, o esforço de viver em conformidade com esta ordem própria do cosmos regido pela providência” (PRADEAU, p.). Em todo caso, é impossível não pensarmos em Antístenes aqui.

Deixemos Sproul, resumidamente, resumir o que iremos expor de forma mais ampliada (percebam que ele fala a partir da perspectiva de que o estoicismo era materialista): “A preocupação central do estoicismo foi a filosofia moral. A virtude é encontrada na reação da pessoa ao determinismo materialista. O ser humano não pode determinar seu próprio destino. Ele não tem controle sobre o que lhe acontece. Sua liberdade é restrita à sua reação ou atitude interior ao que lhe sobrevém. O objetivo da vida virtuosa é a ataraxia*8 filosófica” (SPROUL, p. 54). Esse conceito de aceitar seu destino com apatia é muito bem trabalhado por Jostein Gaarder: “... os estóicos diziam que todos os processos naturais – por exemplo, a enfermidade e a morte – eram regidos pelas constantes leis da natureza. Por esta razão, o homem deveria aprender a aceitar o seu destino. Nada acontece por acaso, diziam os estóicos. Tudo acontece porque tem de acontecer e de nada adianta alguém lamentar a sorte quando o destino bate à sua porta. Também as coisa felizes da vida devem ser aceitas pelo homem com grande tranquilidade. Vemos aqui a proximidade dos estóicos com os cínicos, que viam com total indiferença todos esses eventos exteriores. Ainda hoje falamos de uma ‘tranquilidade estóica’ quando queremos nos referir a uma pessoa que não se deixa inflamar por seus sentimentos” (GAARDER, p. 149).
Portanto, a pessoa sábia é aquela que, refletindo, alcança a ciência do curso das coisas, mas também se autoconvence de que não há nada, em muitos casos, a fazer senão aceitar. Por isso Sproul diz: “Os estóicos buscavam a ataraxia pela prática da ‘imperturbabilidade’, a aceitação do destino pessoal com serenidade e coragem. [...] O segredo de uma vida boa e feliz é saber o que está sob o nosso controle e o que não está” (SPROUL, p. 54). A morte e a guerra eram, naqueles tempos, inevitáveis. Por isso, “diante da guerra e da morte inevitável, não há sabedoria a não ser na ataraxia – ‘encarar todas as coisas com serenidade de espírito’” (DURANT, p. 92). Isso mesmo, lutar contra a morte é uma perda de tempo, e só redundará em frustração. Ela, pois, se levanta como o símbolo máximo do que não pode ser evitado e deve ser encarado com naturalidade. Por isso, Durant completa: “... os estóicos achavam que a indiferença filosófica era a única atitude razoável para com a vida na qual a luta pela existência está tão injustamente condenada a uma derrota inevitável. Se a vitória for inteiramente impossível, deve ser desdenhada. O segredo da paz não é tornar nossas realizações iguais aos nossos desejos, mas baixar nossos desejos ao nível de nossas realizações” (DURANT, p. 90).
Máximas muito interessantes, então, surgem. Epiteto, o escravo, diz: “Não posso escapar à morte, mas será que não posso escapar ao medo dela?” (EPICTETO apud SPROUL, p. 54). Durant também se arrisca num aforisma: “Não procure fazer com que as coisas aconteçam segundo a sua preferência, mas prefira que elas aconteçam como têm que acontecer, assim viveras com prosperidade” (DURANT, p. 92). Essa é, pois, a “filosofia da ‘cabeça erguida’, pela qual nada jamais nos abala ou nos faz perder as esperanças” (SPROUL, p. 54). Por isso, “devemos demonstrar autocontrole, autossuficiência e indiferença emocional em meio às situações da vida. Mas se a vida se torna dura demais, o Estoicismo permite o suicídio” (CHEUNG, p. 24). Não estamos certos se essa concessão é, de fato, ortodoxa, visto que o suicídio só pode resultar de uma alma que está completamente afetada pela situação, de modo que está longe da ataraxia. Mas vale a observação de Cheung de que a doutrina implica em autodomínio, autocontrole e autossuficiência.
Fica, clara, pois, a diferença entre estoicos e epicureus, mas Gaarder é pertinente para assinalar e ressaltar a diferença: “O objetivo dos cínicos e dos estóicos era suportar todas as formas de dor, e isto é algo completamente diferente de fazer todo o esforço para tirar do caminho a dor.” (GAARDER, p. 149). Em certo sentido, o estoico também foge da dor, mas não por afastar-se do que traz dor, mas pela apatia.
Subsiste a questão de como educar a alma e alcançar a ataraxia (semelhante a um nirvana). Vamos com Inwood: “Os meios da educação moral que os estoicos conservam parecem estar inspirados em Aristóteles, tornamo-nos corajosos ao realizar ações corajosas, ainda que, à primeira vista, a maioria das ações corajosas não atinja o ideal procurado” (PRADEAU, p. 86). Assim, tal como Aristóteles ensinava que a virtude só pode ser alcançada pela imitação dela mesma, ou seja, na prática da virtude, o estoico dirá que a tranquilidade só pode ser alcançada na busca pela tranquilidade. Esse conceito é importante para livrá-los de uma arapuca que se monta à frente diante do sistema, e que Inwood mesmo nos informa: “Encontramos o mesmo absolutismo paradoxal na psicologia moral dos estoicos: sendo dado que a alma humana é uma (não existe partes irracionais para controlar, trata-se somente de perfazer o exercício de sua razão), a única maneira de preservar sua liberdade contra as perturbações devastadoras e dolorosas que se chamam paixões (pathé) consiste em erradicar pura e simplesmente qualquer erro e qualquer forma de fraqueza moral. Somente o ‘sábio’ pode atingir esse estado; infelizmente os modelos a imitar são, em todo caso, muito pouco numerosos, e Sócrates é a única figura de sábio que não se presta à controvérsia” (PRADEAU, p. 86). Traduzamos o problema da seguinte maneira: a alma só se liberta das perturbações, da dor, quando não é mais afetada pelas paixões. Mas somente a alma já perfeita, da qual não temos muitos exemplos (se é que temos), pode não ser afetada pelas paixões, de modo que todos, no final das contas, estão enredados na situação de afetação e distantes da perfeição. Se você precisa ser perfeito para não ser afetado, como poderá, a partir da situação de suscetível à afetação, tornar-se perfeito se, para isso, é preciso não ser afetado? Podemos colocar ainda de outra forma. A alma só é livre se não houver erros morais, se for apática. Mas só alcança a apatia quem tiver alcançado a perfeição. Portanto, a alma não poderia se erradicar. Como dissemos, o segredo está na busca pela apatia. Através da reflexão a alma irá se tornando cada vez menos afetada até atingir a apatia total, o nirvana estoico. Quanto mais próximo da apatia, mais feliz se é.
Gaarder nos conta que a ideia de que há uma ‘partícula divina’ em todo homem gera a ideia de direito universal e natural: “Isto levou à ideia de um direito universalmente válido, o assim chamado direito natural. O direito natural baseia-se na razão atemporal do homem e do universo e, por isso mesmo, não se modifica no tempo e no espaço. Nesse sentido, os estóicos colocam-se ao lado de Sócrates contra os sofistas. O direito natural vale para todas as pessoas, inclusive para os escravos. Para os estóicos, as legislações dos diferentes Estados não passavam de imitações imperfeitas de um direito cujas bases estavam na própria natureza” (GAARDER, p. 148). Essa é uma implicação muito interessante da doutrina, e não a vimos explorada por outros autores, exceto, talvez, por Franklin Ferreira e Alan Myat: “para os filósofos estóicos, este mesmo princípio cósmico [o logos] permeia todas as coisas e provê o padrão de conduta para o homem racional” (FERREIRA; MYATT, p. 509). Novamente, é possível que seja uma modificação de algum estoico em particular. Seja como for, é perfeitamente adequada. O homem tem valor, naturalmente, por ser, em certo sentido, divino, e, a partir da razão, i. é., da concepção humana do que é bom, deve-se legislar. Lado outro, tudo seria divino num sistema panteísta, talvez, dependendo da interpretação do estoicismo, não tendo uma ‘alma’ semelhante ao logos, mas, certamente, ‘parte’ dele.
Gabriel Chalita e Jostein Gaarder também falam da implicação sociológica do conceito antropológico-filosófico. “Na política, finalmente, há uma única ideia estoica relevante. Eles afirmavam que o homem não pertenceria a um país ou a uma cidade, mas sim que ele seria cidadão do mundo. Essa ideia foi denominada de cosmopolitismo. Assim, afirmou Musônio Rufo, no século I: ‘O mundo é a pátria comum de todos os homens’” (CHALITA, p. 77). Chalita diz que essa seria a única contribuição relevante que fizeram à filosofia política. Gaarder nota que é uma ideia perfeitamente pertinente ao momento imperialista que viviam esses pensadores: “Os estóicos eram marcadamente ‘cosmopolitas’, o que significava que eram filhos legítimos de usa época. Sendo cosmopolitas, eram mais abertos para a cultura contemporânea do que os ‘filósofos de barril’ (os cínicos). Os estóicos chamavam a atenção para a convivência entre as pessoas, interessavam-se por política, e alguns deles chegaram até mesmo a ser estadistas atuantes, como o imperador romano Marco Aurélio (121-180), por exemplo” (GAARDER, p. 148-149).

CRÍTICA

Como estamos falando de Grécia (mesmo de Roma), estamos falando de confronto aberto e sério de ideias. O estoicismo, pois, seria criticado, e teria de se defender. Principalmente por se tornar uma cosmovisão tão importante e, justamente, por se tornar uma cosmovisão. Olharemos, pois, para algumas objeções históricas a esta visão de mundo e para algumas outras questões que ela suscitou. Outras questões, como o problema epistemológico, já foram abordadas no decorrer do texto. É importante irmos vendo o que já temos e um dos grandes problemas do estoicismo é justamente seu empirismo, sem, ao que nos parece, considerar a possibilidade de haver ideias inatas*9.
Uma primeira crítica óbvia é a dos que, contra o determinismo, acreditam que a inércia é a resposta. É como se, pelo fato de as coisas estarem determinadas, fossemos embargados de fazer algo. Observem o relato de Durant: “Quando Zenon, que não acreditava na escravidão, e estava batendo num escravo seu por causa de algum delito, o escravo alegou como atenuante que, segundo a filosofia de seu senhor, ele tinha sido destinado, por toda a eternidade, a cometer aquela falta; ao que Zenon replicou com a calma de um sábio, que, de acordo com a mesma filosofia, ele, Zenon, tinha sido destinado a bater nele por causa dela” (DURANT, p. 90). Essa é, pois, a perspectiva prática ante o determinismo. De fato, não há coação. Mesmo assim, a relação de causa e efeito é preservada de modo que a concepção sobre o mundo ainda é racional.
Uma das críticas mais mordazes que vimos é do próprio Epicuro, segundo nos informa Durant: “Seu ponto de partida é uma convicção de que a apatia é impossível, e que o prazer – embora não necessariamente o prazer sensual – é a única finalidade concebível, e perfeitamente legítima, da vida e da atividade [...] até mesmo um estoico sente um prazer sutil na renúncia” (DURANT, p. 90-91). A essa objeção achamos impossível o estoico fugir. Ela falha, justamente, em não lidar com um fenômeno óbvio: temos, seja lá o que for, ‘receptores’ de paixão, e isso é muito natural no homem. A alma humana não consiste simplesmente em razão. Negar as afeições é negar a própria natureza humana, o que é impossível. Mesmo que tenhamos o maior estoico como exemplar, saberemos que ele sente-se bem, sente prazer, na sua apatia plena.
Agora, finalmente, temos que lidar com uma questão muito corrente, a saber, a de creditar ao cristianismo algum plágio ao estoicismo. Durant, que faz essas estúpidas comparações, é quem nos servirá de base para a crítica: “Em trechos assim, sentimos a proximidade do cristianismo e seus intrépidos mártires; de fato, não eram a ética cristã da abnegação, o ideal político cristão de uma fraternidade quase comunista do homem, e a escatologia cristã da conflagração final do mundo inteiro, fragmentos da doutrina estoica flutuando na corrente do pensamento?” (DURANT, p. 92).
Primeiramente, ofereçamos uma resposta à questão da abnegação, da autossuficiência que os cristãos martirizados demonstraram, à sua calma estoica ante a morte. Observemos que, embora todos não sejam destinados ao martírio, só consegue ser martirizado os que eram extremamente piedosos e virtuosos, de modo que seu caráter torna-se padrão para o cristianismo. Bom, em primeiro lugar, longe de estarem apáticos, eles aceitavam com alegria seu destino, cientes de que estariam com Cristo. Além disso, consideravam que Deus é quem guiava seus destinos, e, assim, aquela situação estava sob controle.
Seguimos com Cheung. Observando que o estoico poderia ver uma semelhança de seu ensino em Filipenses 4:12, o filósofo observa que a grande diferença está no verso 13: “Tudo posso naquele que me fortalece” e expõe: “O Cristianismo na verdade ensina a autossuficiência espiritual, emocional e social, sem rejeitar a legitimidade da comunidade; contudo, esta autossuficiência é somente relativa a outros seres humanos, mas não para com Deus, de modo que estamos sempre em necessidade dele [...] Os recursos internos do cristão provêm de Deus, que é distinto do próprio cristão, enquanto que os estóicos buscavam alcançar a autossuficiência absoluta, e não a autossuficiência relativa do cristão. Nós vencemos o mundo e cumprimos nosso propósito não por nós mesmos, mas pelo poder de Deus, o qual opera poderosamente em nós (Colossenses 1:29)” (CHEUNG, p. 25). Tal conceito, pois, faz toda a diferença. Nossa suficiência está em Cristo, e tão somente nele!
Claro, há muitas outras dissemelhanças e Cheung menciona mais algumas: “Este Deus não é um fogo racional imanente panteísta que é parte do universo, mas uma mente transcendente racional que é distinta e o criador do universo. [...] Ele é imanente no sentido de que escolhe exercitar seu poder nos assuntos humanos e naturais, mas ele não é parte desta criação, nem está limitado a ela. E ao contrário da filosofia estoica, não importa quão difícil nossa vida se torne, não há justificativa para cometer o suicídio” (CHEUNG, p. 25).
Durant também fala da escatologia cristã, particularmente a doutrina do inferno ou do fim do mundo ter vindo do estoicismo. Bom, é bem possível que a doutrina do purgatório seja influenciada por esta concepção pagã. “Também para os estóicos gregos, o fogo era um princípio elementar e a alma do mundo, e assim eles ensinaram uma renovação do mundo por meio do fogo” (HODGE, p. 1585). Charles Hodge nos conta da doutrina do purgatório (e não a do inferno) surgindo a partir de ideias gregas do fogo como purificador de todas as coisas. Orígenes parece ser o primeiro a defender essa ideia, mas logo Agostinho iria lhe dar formato doutrinário e Gregório Magno consolidaria tal conceito como doutrina oficial da Igreja (HODGE, p. 1586-1587). Mas as semelhanças com o estoicismo terminam aí.
Como já foi observado, a história, para os estoicos, é cíclica. Além disso, não há existência do homem após a morte, senão a mesma existência no término do ciclo e início do mesmo ciclo. A única diferença entre os ciclos é como os encaramos, como lidamos com o que se nos procede. A alma, não material, parece fugir da causalidade inalienável. Mas isso é tudo. Entretanto, isso faz a visão estoica ser completamente distinta da visão bíblica, conforme salienta Hoekema: “A visão da história dos gregos é incompatível com a visão cristã, que vê história como um cumprimento do propósito de Deus, e como movendo-se em direção a um alvo. Para os escritores da Bíblia, história não é uma série de ciclos repetitivos sem sentido, mas um veículo através do qual Deus realiza seus propósitos para o homem e o universo. A ideia de que a história está se movendo para alvos estabelecidos por Deus, e que o futuro é para ser visto como o cumprimento de promessas feitas no passado, é a contribuição singular dos profetas de Israel” (HOEKEMA, p. 31). O fogo que irá consumir o mundo irá, de fato, renová-lo, mas será de uma vez por todas e para sempre. Não há ciclo, mas linearidade.
E há total relevância do que se faz enquanto no presente, determinando o que se passará no futuro. Isso, aliás, alavanca uma pesada crítica que John Marsh faz, de cunho existencialista, a esta cosmovisão: “Além disso, se tudo que pode acontecer é a constante repetição de um ciclo de eventos, não há possibilidade de sentido no ciclo em si. Ele não alcança nada em si próprio e também não pode contribuir para nada fora de si. Os eventos da história são destituídos de significado” (MARSH apud HOEKEMA, p. 30). Afinal, por que a história é cíclica? Por que esse deus estoico não cessa de destruir e reconstruir o mundo, da mesma forma? Qual o objetivo disso tudo? Sem resposta a tal fenômeno, a cosmovisão peca por falta de abrangência.

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Aliás, temos de concebê-la pessoal, afinal, por que é que o mundo surge e é destruído? Seria uma escolha do pneuma?
*2 Nossa suspeita é ampliada por conta de uma afirmação de Durant que, embora mencione algo que só iremos estudar noutra seção, vale a pena ser citada: “Zenon ergueu sua filosofia da apatheia sobre um determinismo que um estóico posterior, Crisipo, achou difícil distinguir do fatalismo oriental” (DURANT, p. 90). Isso, levado em conta que Crisipo desenvolveu a cosmovisão estoica e a defendeu de seus opositores, nos leva a pensar em reformulações posteriores a Zenão.
Hodge afirma categoricamente que o monismo era adotado inicialmente, mas fora abandonado nas formulações posteriores, não dizendo, no entanto, exatamente quando a metafísica foi alterada: “É sobejamente claro que os estóicos posteriores, especialmente entre os latinos, como Sêneca e Marcos Aurélio, consideravam o princípio geral que animava a matéria como tendo todos os atributos da mente” (HODGE, p. 248).
*3 o ‘conteúdo do pensamento’ são as ideias. Será que eles concebiam-nas existindo à parte das coisas, tal como Platão?
*4 É claro, também podemos conceber a matéria eterna sendo apenas fecundada pelo logos de modo a ganhar propriedades. Mas esse não parece ser exatamente o conteúdo dos estóicos, embora não nos espantássemos com alguém alegando tal interpretação. E não é que Charles Hodge assim expõe o estoicismo? Vejam, ele expõe o estoicismo, primeiro, considerando-o, além de panteísta, hilozoísta (i. é., acredita numa ‘força inteligente, viva’ dentro da matéria), de modo que o logos está em todas as coisas: “Há dois princípios constituintes do universo, um ativo e outro passivo. O princípio passivo é a matéria sem forma e sem propriedades, ou seja, inerte. O princípio ativo é a mente, que habita na matéria seu poder formativo organizador, ou seja, Deus. [...] O universo deve, portanto, ser considerado sobre três aspectos: (a) Como o poder formador de tudo [...] (b) o mundo, como formado por esse princípio vivo, interior [...] (c) a identidade dos dois, quando formam um todo” (HODGE, p. 184). Bem adiante, temos uma clara admissão, de um autor citado por Hodge, que pensa-se na matéria eterna e o logos servindo como causa eficiente, formal e final, mas não material: “A deidade em ação, se podemos assim falar, é um certo éter ou fogo ativo, possuindo inteligência. Este deu forma, no princípio, ao caos original, e, formando uma parte essencial do universo, sustenta sua ordem” (BRYANT apud HODGE, p. 1585).
*5 Cf. o capítulo 7 do brilhante livro de James W. Sire denominado ‘O Universo ao Lado’. Hodge diz claramente que o conceito é hindu: “Os estóicos adotaram a doutrina hindu da dissolução de todas as coisas e do redesenvolvimento de Deus no mundo, depois de longos períodos sucessivos” (HODGE, p. 241).
*6 Infelizmente não é possível colocar as contribuições dos estoicos aqui sem causar enfado. Esta é uma exposição dos conceitos essenciais dos estoicos e basta-nos saber que eles apreciava a disciplina de forma geral.
*7 Quanto à semântica, também lograram-nos elucubrações. Entretanto, ficaram um tanto quanto controversas na exposição de Inwood e, por isso, resolvemos exilá-las do corpo do texto, trazendo-as para o rodapé: “Os estoicos desenvolvem uma teoria semântica complexa, fundada no conceito de exprimível (lekton), e são os primeiros a se interessar pelo conteúdo dos enunciados e dos pensamentos enquanto tais (contrariamente a Aristóteles e a Platão, para quem o sentido da proposição reside na predicação de uma propriedade)” (PRADEAU, p. 87). Os estoicos, segundo Inwood, falam do ‘exprimível’, o que parece se referir ao conceito concebível e que pode ser comunicado. Eles ocuparam-se de estudar os conceitos enquanto conceitos apenas, ao passo que Aristóteles e Platão, diz o autor, falavam do sentido de algo enquanto predicação de uma propriedade. Portanto, um conceito teria sentido enquanto fosse as qualidades de algo sendo comunicado em uma proposição. Isso ficou estranho pois nos parece que Platão concebia os conceitos como conceitos mesmo, como ideias.
Sendo assim, Inwood parece falar de conceitos existindo por si, sem conexão com o mundo para terem significado de forma que não precisem ser predicados para ganharem-no. Mas isso demanda uma metafísica plantonista. Lado outro, eram empiristas, e os conceitos seriam abstrações e junções do percebido.
*8 “A palavra grega pode ser traduzida mais ou menos como ‘paz interior’ ou ‘tranquilidade da alma’” (SPROUL, p. 54).
*9 Lembremo-nos, novamente, que tal ponto foi devidamente trabalhado no artigo sobre epistemologia em Platão.

REFERÊNCIAS

CHALITA, Gabriel. Vivendo  Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.

CHEUNG, Vincent. Confrontações Pressuposicionalistas. Tradução de Felipe Sabido de Araújo Neto e Marcelo Herberts. Brasília: Monergismo, 2006, 83 páginas (e-book).

CHEUNG, Vincent. Questões Últimas. Tradução de Marcelo Herberts. Brasília: Monergismo, 2009. 143 p.

DURANT, Will. A História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 4ª ed., 2001, 406p.

FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, 1220p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.

HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo:Editora Hagnos, 2001. 1777p.

HOEKEMA, Anthony A. A Bíblia e o Futuro. Tradução de Karl H. Kepler. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1989, 391 p. (e-book).

INWOOD, Brad. O estoicismo _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução e Apêndice de Maria Lacerda de Moura; Introdução de Alceu Amoroso Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, 88p.

SPROUL, R. C. Filosofia para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208 p.