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quinta-feira, 9 de julho de 2015

Prolegômena à Predestinação - uma questão de justiça




"Ora, a excelência, beleza e perfeição de cada ser vivo, objeto inanimado ou ação humana depende exclusivamente da utilidade para que o destinou a natureza ou o artífice" (Platão, Livro X da República).

Prolegômena é aquilo que se discute antecipadamente. É a discussão que deve ser feita - mas geralmente não o é - antes de entrarmos em outros pontos. Supostamente há pontos pacíficos quando se vai discutir vários temas. Acreditamos que aquele com quem estamos a debater assume algumas coisas que nós de antemão achamos óbvias demais para serem discutidas. No entanto, um levantamento de pressupostos que regem as colocações demonstrará que, não raro, há pontos de discordância que impediriam completamente os contendores de chegarem a um acordo.
Com esse pequeno texto, pretendemos explorar alguns itens prolegomenais em relação à discussão sobre a predestinação, eleição e afins, contidos nas doutrinas da graça* conforme expõem os teólogos protestantes reformados - os quais nos parecem mais próximos das Escrituras. Particularmente, estamos interessados em considerar o conceito de justiça que é trazido à baila nessas discussões de forma, amiúde, desorganizada e confusa. Basicamente, questiona-se se seria justo que Deus elegesse algumas pessoas para serem salvas e outras não. Nossa tese é de que é perfeitamente justo que Deus faça tal escolha.

Foi Voltaire quem observou que para discutirmos adequadamente temos que definir os nossos termos, o que já consiste, por si, em uma tarefa prolegomenal. Isso é uma forma de evitar a falácia da equivocação, que consiste em discutir com conotações distintas para um mesmo termo. É marca distinta de um bom pensador e de uma boa discussão que as coisas fiquem de antemão claras. Ao acompanharmos as discussões socráticas veremos da parte do sábio ateniense justamente o desejo de definições precisas para evitar confusão - o que, com frequência, colocava o próprio adversário em confusão, pois esse fora para a discussão sem pensar muito bem nas palavras que usava.
Queremos entender, pois, o que significa 'justiça'. Esse é o termo-chave da discussão. Acreditamos que podemos defini-la como algo nos seguintes termos: 'é ter cada um o que lhe é de direito', ou, 'cada um ter o que é adequadamente seu'. Quem já leu a República sabe como é difícil uma definição precisa, embora 'intuitivamente' arranhemos o conceito. Supomos suficiente definir tal como o fizemos.

A questão que se segue é a de saber o que é devido a cada um, ou seja, o que é de direito. O direito de algo ou alguém é determinado por seu valor ontológico, i. é., o valor intrínseco que a coisa tem segundo seu próprio ser. Entretanto, há algo assim? Valor intrínseco?
O valor de um determinado artefato criado por um homem está determinado por ele ao criar e estabelecer seu objetivo. E mesmo as coisas que ele não cria ganham seu valor segundo os fins para os quais ele percebe. Um homem pode considerar um violão extremamente valoroso na medida em que aprecia a música e, principalmente, aquela produzida pelo violão. Mas um cão ou gato não terá o mesmo apreço pelo instrumento, principalmente se não houver quem o toque - se é que animais podem verdadeiramente apreciar uma música. No máximo, servir-lhes-á para depositar alguma coisa, ou para afiar suas unhas. Portanto, percebemos que o valor das coisas é determinado de forma subjetiva. É preciso um referencial para que haja a determinação do valor.
Pois bem, temos que decidir de antemão se nosso referencial será antropocêntrico ou teocêntrico. Se tomarmos o homem como a medida de todas as coisas, teremos uma avaliação valorativa, e se tomarmos Deus, outra.
Estamos percebendo a que rumo o argumento está levando? Quem é que determina o valor do homem? Se ele é determinado pelo próprio homem, temos uma situação distinta daquela em que Deus é quem o determina. Esse é o ponto nevrálgico. Podemos falar que todas as coisas têm valor segundo o estabelece a subjetividade humana. Mas não seríamos indelicados se perguntássemos sobre o valor do próprio homem. É engraçado ver como naturalistas 'rebolam' para tentar dar algum valor distinto para um conjunto determinado de átomos dispostos de uma forma específica e não de outra. O homem não é mais do que isso nesse tipo de cosmovisão. E o valor que ele dá às coisas é relativo. E daí se as coisas têm esses valores para o homem?
Sem o homem poderíamos pensar no valor das coisas para manter o ecossistema. Mas, e daí? Por que o ecossistema deveria ser mantido? Alguém poderia responder imediatamente que seria para manter a vida na terra. Mas por que manter a vida? Ela nem mesmo é compreendida de forma 'anímica' pelo naturalista. Uma cosmovisão naturalista não pode dar um significado essencial para a realidade. Um cristão que toma o homem como referência para o valor das coisas é um incoerente que anda de mãos dadas com naturalistas. Um protestante, então, nesse caminho, chama para banquetear consigo Pelágio, João Cassiano e toda a corja que se segue.

Agora podemos rumar para a situação oposta. Deus determinando o valor das coisas. Para começar, ele está numa situação singular e muito superior à do homem para determinar o valor das coisas. Antes de mais nada, na cosmovisão cristã, ele é quem cria 'ex nihilo' tudo o que há. Cada parte do que existe além dele é engendrado, formulado, cogitado e executado por seu desejo. Portanto, o valor das coisas é definido segundo os objetivos que Deus tem para com tudo. Aí está o valor absoluto das coisas. Elas têm valor intrínseco por conta de seu lugar na criação.
Segue-se que é de direito que Deus dê ao homem o que lhe é cabível segundo o valor que Deus deu na execução de seus planos para cada coisa. Se o valor das coisas é dado por Deus, cabe a Ele dar a cada um o que bem entender segundo lhe parecer viável.

Não podemos encerrar esse artigo sem uma última formulação. Um ser racional age, na medida em que age racional e inteligentemente, com fins. Ele tem planos. Julgamos a integridade de seus planos e a competência do logos em executar seus planos. Um homem ao fazer algo tem, consciente ou inconscientemente, planos. Na medida em que ele conhece mais a si mesmo, mais consciente de seus objetivos ele está. Na medida em que é mais sábio e bom, objetivos mais nobres e sensatos ele tem, bem como os meios para alcançá-los. Apliquemos o raciocínio a Deus e teremos alguém que age com fins plenamente conscientes e estabelecidos, totalmente nobres e sensatos. Portanto, quando Deus criou cada coisa, inclusive cada homem, tinha uma pauta, um objetivo em mente.
E qual objetivo é esse? Com Charles Hodge aprendemos o que viria a ver novamente em John Piper: que Deus não pode ter outro objetivo que não ele mesmo como alvo final, último, derradeiro para as coisas. Quando ele vai criar só pode haver um objetivo sumamente nobre, santo e justo que é enaltecer aquilo que é mais santo, belo, nobre e bom: ele mesmo. Ele age, pois, em consonância com o que Paulo diz na epístola aos Romanos, para a sua glória, pois 'por ele, para ele e por meio dele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!'.
Na mesma epístola, no nono capítulo, o apóstolo Paulo diz que Deus criou os eleitos para enaltecer sua misericórdia e os ímpios para enaltecer sua santidade, justiça e severidade para com o mal, o que implica ser extremamente bom. Paul Helm, certa feita, notou que se fosse injusto que Deus não salvasse alguns homens, então salvá-los seria questão de dívida, e não de misericórdia. Deus os salva segundo seu propósito final de glorificar a si mesmo em suas várias perfeições.

Portanto, é mais do que justo, nobre e santo que Deus eleja quantos ele quiser para a sua inteira glória, bem como pretira, igualmente, a quantos lhe aprouver. Este é o soberano Deus para quem nos dobramos em reverente adoração!

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* Notar que não iremos discutir as demais doutrinas da graça que são indissociáveis da eleição, como justificação objetiva e subjetiva, chamado externo, regeneração, santificação, adoção, ressurreição e glorificação.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

Afinal, quem REALMENTE são "os evangélicos"?



Alguns estimados amigos e irmãos apreciaram um texto com a graça "Afinal, quem são 'os evangélicos'?", do jornalista Ricardo Alexandre. O título é interessante e, para todo bom cristão, há um desejo muito grande de verem-se apartados, inclusive no 'imaginário popular', de vários charlatões e reconhecidos malfeitores que se valem da religião para promoverem seus interesses e a tornam deplorável para o olhar do mais vil secularizado hedonista. Assustou-nos o fato de o texto estar na Carta Capital, nada afeiçoada à confissão cristã. A junção desses elementos despertou-nos à leitura. Escrita agradável e bem desenvolvida ['muito distante das que se veem nos textos deste humilde escritor que vos fala', destacariam alguns que inclusive vieram nos falar pessoalmente a respeito da
nossa dificuldade de expressão segundo seus respectivos pontos de vista], trouxe lá sua contribuição. Ele pareceu-nos querer atacar, principalmente, a 'generalização' [leia o artigo aqui].
Ok, de fato, a generalização apressada é algo reconhecidamente imprudente. Entretanto, é preciso tomar cuidado para não abrir a definição a ponto dela deixar de ser isso mesmo que pretendia ser: uma definição*¹.O tio Ari poderá nos ajudar (e falamos do bom Ari, ou seja, aquele macedônio, estagirita, da Grécia Antiga, filósofo reconhecido; e não um velho nada douto e sapiente que arroga autoridade de teólogo nos nossos dias ou de um tal boca suja que também intitula-se 'pastor'...)*².
Quando queremos definir algo temos que, primeiro, identificar um gênero (no sentido de 'classe', 'grupo maior') a qual determinado objeto de investigação se encaixa e depois distingui-lo das demais espécies. Façamos o exercício.
'Evangélico', para começo de conversa, é uma religião, e, como tal, acredita em alguma força maior e nalguma relação do home para com tal ser superior. Não é, pois, ateísmo, agnosticismo ou deísmo. Também não é uma ideia política, embora possa implicar em política; não é o nome de uma família ou de uma empresa, embora algumas igrejas têm famílias que parecem comandá-las como se lhes pertencessem, e outras parecem, de fato, empresas... Esse é o primeiro gênero que devemos salientar: é uma religião. Óbvio de ser dito, mas, a título de completude, necessário.
Em seguida, temos que nos lembrar de que há uma pretensão pelos ditos evangélicos de serem seguidores de Cristo, i. é., cristãos. Portanto, supõe-se algum vínculo com a figura histórica de Jesus. Portanto, não é de tradição oriental, embora algumas práticas cheirem a práticas orientais, como, por exemplo, a confissão positiva. Não é de linha muçulmana. Não é budismo. Não é de linha ocultista, mística, tal como as religiões de origem africana, embora algumas que se dizem 'evangélicas' tenham mais elementos dessas religiões do que elementos tradicionalmente cristãos. É, em maior ou menor medida, uma religião vinculada à pessoa de Jesus.
Mas não é qualquer Jesus. Os muçulmanos falam de Jesus como um profeta e nada mais do que isso. Há quem o veja como um grande mestre moral, e tão somente isso. Há ainda aqueles que o encararão como um espírito perfeito, que, meio que por emulação, nos levará à prática do bem. Concepções cada vez mais distantes. Remontando uma tradição 'moderna' (no sentido estrito do termo, i. é., algo pouco depois do Renascimento, ou ali 'encostada'), intitulada de Reforma Protestante - que por sua vez reivindica associação à um movimento mais antigo ainda, i. é., a fé da Igreja Primitiva - a qual reclamava fidelidade última às Escrituras Sagradas, 'evangélicos' seriam aqueles que pautam sua fé sobre Cristo tão somente naquilo que diz a Bíblia sobre ele. Esse é, ao menos em teoria, o discurso. Na prática, sabemos que não é bem assim e, bom, eis um critério para vermos se de fato estamos diante de um evangélico: é sua fé sobre Cristo tal como ensinada na Bíblia? Caso não seja, esse subgênero já teria de excluí-lo daqueles que reivindicam ser evangélicos.
Uma religião cristã fundamentada tão somente nas Escrituras. Se não quisermos nos delongar até às
controvérsias fundamentalistas do início do século XX, e entender quando é, exatamente, que o termo 'evangélico' surge, essa definição que inicia o parágrafo é mais do que suficiente para que façamos a peneira. Se perdermos esse parâmetro para dizer que 'evangélico É tudo', teremos a correta conclusão de que o termo é, o mesmo tempo, 'nada'. E, de fato, quando usamos de 'universais', estamos a alegar que tal expressão nos traga à mente algum conceito. Se o conceito diz respeito a tudo e a nada, não é um conceito, e a palavra torna-se menos significativa do que um arroto ou a emissão de uma flatulência, que ainda comunicam a existência de alguma vida (ou, a depender do odor, algo próximo à morte...) dentro do indivíduo.
É interessante, da parte do autor do artigo, demonstrar que o termo já não evoca mais nenhum conceito. Nesse sentido, ele está corretíssimo. Quando se perde o universal como um gênero que inclui todas as caraterística supracitadas, ele passa a não significar nada, e a incluir no seu conjunto cada vez mais elementos distintos, até que não se possa mais classificar qualquer coisa com aquele termo. É por isso, aliás, que muitos preferem se intitular de forma alternativa, como 'reformados', e.g., ao invés de 'evangélicos', para não serem confundidos com algo que está muito longe de ter algum parentesco com o que acreditam.
Mas não podemos, por conta da confusão gerada pelo termo, abrir mão de qualquer definição precisa que o termo costumava denotar. E nisso o autor peca. É um texto na 'Carta Capital', como já observamos, e, claro, era de se esperar que viesse eivado de vaidade politicamente correta. Sem uma definição, e salientando os vários tipos de pensamentos divergentes no seio da igreja cristã, deu a entender que se pode nomear cristão de forma legítima com as mais variadas crenças e práticas, pois haverá 'uma igreja para você'. Se há alguma intenção boa aí, há também um péssimo conselho. E, para isso, é interessante versarmos também sobre a questão das diferenças de pensamento.
Bons teólogos, sensatos, piedosos e notáveis acadêmicos distintamente cristãos protestantes notaram que há um 'mínimo divisor comum' entre os movimentos verdadeiramente cristãos. Embora haja uma disputa grande a respeito de quais são todos os elementos inegociáveis, há pontos pacíficos, tais como a criação da parte de Deus, i. é., que Deus é o criador do mundo e de tudo que nele há; a perfeição ontológica de Deus (como bom, santo, sábio, justo, todo poderoso, todo conhecedor, presente em todos os lugares e assim por diante). Trindade (incluindo a divindade de Cristo e pessoalidade do Espírito Santo); os méritos da nossa salvação como pertencentes a Cristo por pagar, na Cruz, a pena que cabia ao homem; a ressurreição literal de Cristo e sua segunda vinda visível. Isso é ser cristão bíblico. Há diferenças em várias questões periféricas, mas nenhuma dessas crenças podem ser omitidas ou serem contraditas por alguma outra crença nova. Feito isso, temos que considerar que tal 'particular' está fora do conjunto que poderíamos chamar de 'evangélicos', conforme definimos acima. Em poucas palavras, entre as igrejas e denominações que a partir da própria Bíblia poderíamos considerar cristãs há mais pontos de convergência do que pontos de divergência. E é nesse espírito que se unem para adorar a Deus juntos. Até aí temos 'ecumenismo'. Fora dessas paredes estaremos falando de sincretismo.
Se não fizermos essa distinção, corremos o risco de sermos precipitados, descuidados e tolos. Poderíamos tomar como 'evangélico' aquilo que não é, tal como chamar de pintura tudo e qualquer coisa que alguém fizer diante de uma tela. Se não estabelecermos parâmetros, perderemos as condições para dizer o que é uma produção artística, e o que é apenas uma bagunça diante de um tale em branco, embora para o leigo - há de se confessar - pareça tudo a mesma coisa.
______________
*¹ Para uma melhor compreensão do texto, sugerimos a leitura a partir do subtema 'Os Cânones da
Lógica', que se encontra no seguinte artigo: Introdução à Lógica Aristotélica
*² Para quem realmente não pegou a piada, estamos falando de Aristóteles.

domingo, 25 de maio de 2014

Introdução à Lógica Aristotélica

O ‘SURGIMENTO’ DA LÓGICA

Uma das maiores contribuições de Aristóteles ao pensamento humano é a fundação da ciência denominada lógica. Este texto, pois, é uma exposição da lógica aristotélica. Há, evidentemente, referências à filosofia de Aristóteles, mas, mesmo que se rejeite esta é possível aproveitar muito bem as lições que o Estagirita nos logrou.
Dissemos, propositadamente, ‘fundação da ciência’ e não ‘criação da’, como é mais comum do que pensávamos ao ver, pela primeira vez, a alguns bons anos atrás, essa afirmação de Sproul: “Aristóteles não inventou a lógica, assim como Colombo não ‘inventou’ a América. O que Aristóteles fez foi definir a lógica e descrever seus fundamentos. [... para ele, a lógica era o Órganon ou instrumento de toda a ciência” (SPROUL, p. 43). Evidentemente trata-se de uma ciência muitíssimo complexa, e o enfado que ela traz faz com que muitos dela se desapeguem. Durant diz que “Nada é tão enfadonho quanto a lógica, e nada tão importante" (DURANT, p. 63). Temos que concordar que estudar lógica é inevitável em qualquer disciplina, e R. C. Sproul nos ajuda a reforçar a lição: “Como instrumento, a lógica é a ferramenta suprema, indispensável a todas as outras ciências [...]. A razão disso é que a lógica é essencial ao discurso inteligível. [...] O que é ilógico representa o caos, não o cosmos. E o caos absoluto não pode ser conhecido de maneira ordenada, o que torna o conhecimento ou scientia uma impossibilidade manifesta” (SPROUL, p. 43).
Por isso, aproveitando nossa proposta de expor o pensamento de Aristóteles, propomo-nos a versar, dissertar, um pouco, ao menos os alicerces da lógica.

LÓGICA COMO CIÊNCIA? DO QUE SE TRATA ESSA DISCIPLINA?

Primeiramente temos que definir, afinal de contas, o que queremos dizer por ‘lógica’. Durant é breve: "Lógica significa, simplesmente, a arte e o método do pensamento correto” (DURANT, p. 63). Sproul é um pouco mais demorado, e com sua concisão peculiar, já irá antecipar alguns assuntos e termos que trabalharemos melhor no decorrer de nossa dissertação: “A lógica mede ou analisa as relações entre as declarações ou proposições. Ela pode mostrar se a conclusão de um silogismo é válida ou não; ela não determina a veracidade de uma conclusão ou argumento. [...] As declarações podem ser verdadeiras ou falas, mas a relação lógica de uma declaração com outra é válida ou inválida” (SPROUL, p. 43). A definição de Gabriel Chalita é ainda mais precisa: “...ela analisa o modo como o pensamento é estruturado, indicando por isso a maneira correta de pensar. Desde que um determinado raciocínio seja conduzido adequadamente – isto é, segundo os preceitos da lógica –, garante-se que a conclusão a que ele chega será verdadeira. Segundo o filósofo, a lógica estuda o raciocínio por meio da análise das proposições, quer dizer, das afirmações que são proferidas, escritas ou simplesmente pensadas pelo indivíduo que estuda uma determinada ciência ou procura a verdade sobre algum fenômeno” (CHALITA, p. 66-67). Em suma, retenhamos, por hora, a ideia de que a lógica seria aquela ciência que estuda as relações entre as frases e averigua se há uma relação correta entre as frases e conclusões num argumento.
Em seguida queremos devotar algumas palavras a uma disputa. Usamos o termo ‘ciência’ também de forma intencional para alavancar uma importante discussão para a história da filosofia, a saber, se a lógica pode ser enquadrada como uma ciência. Favoravelmente à esta classificação temos Will Durant, que não só a chama de ciência como de arte: “É uma ciência porque, numa proporção muitíssimo elevada, os processos de pensamento correto podem ser reduzidos a regras [...] e ensinados a qualquer inteligência normal; é uma arte, porque ela prática dá ao pensamento, afinal, aquela precisão inconsciente e imediata que guia os dedos do pianista sobre o seu instrumento para extrair harmonias sem esforço” (DURANT, p. 63). Sendo uma ciência, que tipo de ciência é essa? Sproul nos ajuda: “A lógica em si não tem conteúdo material e, nesse sentido, pode ser vista como ciência formal, como a matemática, que sob alguns aspectos, é uma forma de lógica simbólica” (SPROUL, p. 43). As ciências naturais têm conteúdos ‘materiais’, se assim podemos dizer, que são os objetos de seus estudos. Já a lógica, não. Por isso Chalita complementa a discussão trazendo uma possível antítese: “O estagirita afirmava que a lógica não entra em nenhuma das classificações nas quais ele dividiu as ciências (técnicas, teoréticas e práticas); ela seria um pré-requisito para o estudo de todas as ciências” (CHALITA, p. 66).
Entretanto ela ainda pode ser definida como ciência porque, segundo Sproul, lida com formas, ideias, e tanto Durant quanto o próprio Chalita observam que ela considera sobre regras e conceitos que podem ser registrados, compreendidos e ensinados. Portanto, num sentido mais amplo, a lógica pode, perfeitamente, ser considerada como uma ciência. Portanto, se queremos avaliar um argumento precisamos saber como o fazer. A partir dos ensinos de Aristóteles a filosofia nunca mais seria a mesma e a fundação desta ciência é, sem dúvida, um dos responsáveis: "a inteligência grega era indisciplinada e caótica até que as fórmulas implacáveis de Aristóteles proporcionaram um método rápido para o teste e a correção do pensamento” (DURANT, p. 63).
Resumamos essa seção com Gaarder que sintetiza bem o que discutimos até aqui: “Aristóteles foi um organizador, um homem extremamente meticuloso, que queria pôr ordem nos conceitos dos homens. De fato, ele também fundou a ciência da lógica, e estabeleceu uma série de normas rígidas para que conclusões ou provas pudessem ser consideradas logicamente válidas” (GAARDER, p. 128).
Mas aqui fica o alerta de Durant: “O próprio Aristóteles, como iremos ver, violava profusamente seus próprios cânones; mas acontece que ele era o produto de eu passado, não do futuro que seu pensamento iria construir” (DURANT, p. 63). Se o próprio sistematizador cometeu erros lógicos, o que se dirá de nós. Faz-se necessário que estejamos sempre a investigarmo-nos, bem como a dialogar e disputar com outras pessoas, versadas em lógica, de preferência, para que não incorramos em ilogismo. Aprendamos, pois, todos a ciência da lógica!

SILOGISMO E ARGUMENTO

Dissemos que a lógica analisa os argumentos. Mas, ora raios, temos que ter bem definido o que é um argumento, embora, em alguma medida, todos saibam o que é. Chalita é quem nos responde. “Quando se aplica o pensamento para chegar a um novo conhecimento ou compreensão, as proposições são encadeadas de modo que delas seja possível extrair uma nova, denominada conclusão, que contém uma ideia que antes não estava expressa claramente, ou era mesmo desconhecida. Esse encadeamento de proposições recebe o nome de argumento” (CHALITA, p. 67). Aqui precisamos destacar que Chalita abrange tanto o argumento dedutivo (‘contém uma ideia que antes não estava expressa claramente’) quanto o argumento indutivo (‘contém uma ideia que era desconhecida’). Protelemos, por enquanto, esse assunto. Contentemos, por hora, com a familiarização das expressões e termos. Já sabemos o que é a lógica e o que é um argumento. Ouvimos falar de argumentos dedutivos e indutivos.
Ouvimos falar de outro termo. Sproul menciona, alhures, o que só agora podemos explorar um melhor, a saber, o silogismo. Novamente temos Chalita: “O silogismo é para Aristóteles a forma mais adequada de estrutura lógica de pensamento: é o encadeamento e duas premissas (uma geral e outra particular) que levam a uma conclusão particular. As qualificações geral e particular referem-se à ‘amplitude’ da proposição. Ela é geral quando diz algo sobre todos os representantes individuais de um determinado conjunto. [...] A proposição particular é aquela que afirma alguma coisa sobre apenas um ou alguns seres ou objetos” (CHALITA, p. 67). Só há um erro nessa definição. Não é necessário resumir o argumento a duas premissas. Há argumentos mais complexos com um encadeamento bem mais longo de premissas para que se chegue a uma conclusão.
Em suma, temos algumas afirmações e uma conclusão. A lógica irá observar se a conclusão realmente pertence a essas afirmações precedentes que supostamente levam à proposição final.

OS CÂNONES DA LÓGICA

Aristóteles elaborou um profundo tratado de lógica. Para analisarmos proposições, frases, que montam argumentos, é preciso compreender alguns conceitos primeiro. A análise lógica envolve algumas regras bem estabelecidas. Já sabemos do se trata a lógica. Sabemos que ela serve para analisar argumentos e pensamentos. Sabemos que um argumento é composto por proposições. Iremos observar que podemos analisar proposições pelos cânones da lógica.

Aqui Aristóteles segue uma linha provavelmente aprendida na Academia, e, mais particularmente, oriunda de Sócrates, que é a demanda por definições. Nesse sentido, a lógica já havia nascido a alguns anos atrás, como aponta Durant: "Havia vestígios dessa nova ciência na enfurecedora insistência de Sócrates com relação a definições, e no constante refinamento de cada conceito por parte de Platão. O pequeno tratado de Aristóteles sobre Definições mostra como a sua lógica se alimentava naquela fonte. 'Se quiser conversar comigo', dizia Voltaire, 'defina seus termos'.[...] O alfa e o ômega da lógica, seu coração e sua alma, estão em que termo importante num discurso sério deve ser submetido, com o maior rigor, ao escrutínio e à definição. É difícil, e representa um teste impiedoso para a mente" (DURANT, p. 63).
Esse assunto é estritamente ligado à da análise dos argumentos e precisa ser abordado por nós aqui, caso queiramos pretender que esse texto sirva como uma introdução básica à lógica. A discussão leva ao conceito de substância, que será observado posteriormente, na exposição da metafísica de Aristóteles. É indispensável que saibamos o básico da predicação para conseguirmos analisar uma proposição. Durant e Sproul nos explicam como Aristóteles propõe a definição. Primeiro, com Durant, temos os seguintes dizeres: "De que modo iremos definir um objeto ou um termo? Aristóteles responde que toda boa definição tem duas partes, afirma-se sobre dois sólidos pés: primeiro encaixa o objeto em questão numa classe ou grupo cujas características gerais são também as dele [...]; segundo, indica os pontos em que o objeto difere de todos os outros membros de sua classe" (DURANT, p. 63-64). Sproul é ainda mais completo, e nota que a discussão está presente no primeiro livro da editoração atual do Órganon, denominado Categorias: “Ao definir como pensamos sobre as coisas, Aristóteles desenvolveu o conceito das categorias. Esse conceito é vital à compreensão da linguagem e do conhecimento. O conhecimento implica certa percepção dos objetos da realidade. Atribuímos nomes a esses objetos ou usamos as palavras para descrevê-los. Ideias envolvem palavras. [...] Esse processo de classificação leva em consideração duas coisas: semelhanças e diferenças. [...] O conhecimento depende da linguagem para ser inteligível. Todas as palavras que detêm sentido apresentam as propriedades de semelhança e diferença. Uma palavra que significa tudo na verdade não diz nada. Para ter sentido, uma palavra precisa ao mesmo tempo afirmar algo e negar algo. Ela tem de fazer referência ao que é e não fazer referência ao que não é. [...] Quanto mais complexo e discriminado for o conhecimento, mais exata tem de ser a ciência” (SPROUL, p. 45-46).
Nas Categorias Aristóteles observa conceitos para facilitar nossa compreensão da realidade por meio da linguagem, que é crucial no processo de cognição. Ao conhecermos, percebemos objetos. Atribuímos-lhes nomes e usamos palavras para descrevê-los. Para discernirmos algo, valemo-nos da definição que, por sua vez, envolve o assemelhar e o diferenciar. Portanto, para que algo faça sentido, é preciso que a definamos afirmando algo e negando algo, ou, em outros termos, dizendo que ela é ‘B’ e não ‘não-B’. Para dar um exemplo, iremos antecipar um pouco a filosofia de Aristóteles. Ao dizer o que é um homem, primeiro, Aristóteles vai dizer que ele é um ‘animal’ (A é B). Sendo assim, tudo que for ‘não-B’, ou seja, tudo que for ‘não-animal’, como seres inanimados, plantas, energias e seres puramente espirituais, são distinguidos dos homens. Ao dizer que o homem é um animal, Aristóteles está destacando semelhanças: o homem, tal como o animal, se locomove, se reproduz, cresce e morre. Mas o homem não é um mero animal. Ele é racional. A racionalidade, pois, é um fator de diferenciação dentro do grupo maior.
Podemos nos aprofundar um pouquinho mais no estudo das Categorias a título de angariarmos competência na tarefa da definição. As categorias são ideias que podem ser atribuídas a um sujeito, que é um ser, uma substância. São todos os predicados possíveis de serem atribuídos aos sujeito: “Essas nove categorias, de acordo com Aristóteles, referem-se a todos os predicados possível de uma coisa [...]. Para Aristóteles a décima (ou primeira) categoria é a substância em si. [...] Toda realidade tem de ter uma substância, ou não seria nada. Sua substância é a essência de sua realidade. [...] Quem argumenta contra a lei da não-contradição também tem de negar a realidade substantiva” (SPROUL, p. 46-47). Ronald Nash, com outras palavras, coloca o conteúdo de uma forma que pode ser luminosa: “Normalmente referimo-nos às coisas por meio de predicados. Em qualquer das proposições categóricas da forma S e P, temos um objeto S e um predicado P ligados por um verbo. [...] eles poderão ser agrupados em dez categorias básicas de predicados. [...] Uma categoria é uma maneira fundamental de pensar sobre qualquer coisa que tenha ser ou que exista” (NASH, p. 109-110). Suas palavras são muito bem colocadas. Quando pensamos em algo pensamos, sempre, em termos de uma das Categorias que ele elenca.
Por conseguinte, temos dez categorias, dez classes de predicados possíveis para elaborarmos qualquer definição. “Essas categorias são [além da categoria ‘substância’] quantidade, qualidade, relação, lugar, data, posição, posse, ação e passividade” (SPROUL, p. 46). Berti completa: “Estes dez gêneros supremos são chamados de ‘categorias’, quer dizer, tipos de predicados” (PRADEAU, p. 46).
Percebam que “a categoria principal de uma coisa é sua substância, a essência de sua natureza” (SPROUL, p. 47). Ou seja, a categoria ‘substância’ é a predicação que define a essência do próprio ser. Toda substância, i. é., todo ser, para ser definido, apresenta predicados contendo suas propriedades. Sendo assim, Nash é particularmente elucidativo: “Substância possui dois tipos de propriedade: essencial e acidental. Uma propriedade acidental é uma característica não-essencial, como tamanho ou cor. Uma propriedade não-essencial de alguma coisa é a característica que pode ser perdida ou mudada sem alterar a essência ou natureza da coisa em questão. Tudo tem também propriedades essenciais; uma propriedade essencial é aquela que, se perdida, significa que a coisa deixou de existir como determinado tipo de coisa” (NASH, p. 107). Assim, a categoria ‘substância’ representa a categoria das propriedades essenciais. Todas as demais são ‘acidentes’*1.
Berti é ricamente informativo aqui. Ele nos traz o seguinte: “Entre as substâncias, Aristóteles distingue em seguida as ‘substâncias primeiras’, que são objetos individuais, por exemplo, um homem dado, das ‘substâncias segundas’, que são as espécies universais de que fazem parte estas espécies, como por exemplo, o animal. As espécies e os gêneros são os ‘predicados’ dos indivíduos, no sentido de que eles indicam suas características gerais. As substâncias primeiras são a condição da existência de todas as coisas, quer se trate de substâncias segundas ou de acidentes” (PRADEAU, p. 46). Portanto, o ser, especificamente, é chamado, por Aristóteles, de ‘substância primeira’. Já a abstração essencial, aquele grupo de seres a qual está expresso na categoria ‘substância’ é chamado de ‘substância segunda’. Isso é importante para que não confundamos as coisas quando estivermos falando de substância enquanto ser e substância enquanto categoria. Quando a coisa ficar confusa, basta fazermos esta distinção.
Berti nos concede outra importante informação: “Na categoria dos acidentes há também os indivíduos (por exemplo, um determinado branco) e os universais (por exemplo, o branco em geral ou a cor)” (PRADEAU, p. 46). Em outras palavras, há ‘brancos e brancos’. Há o universal da categoria e os sues respectivos particulares.
Aproveitando que estamos falando da exposição que Berti faz de Aristóteles, ele começa falando das Categorias em termos que já compreendemos: “Como sua primeira obra, o tratado das Categorias distingue as realidades que existem em si mesmas, por exemplo, o homem daquelas que existem em outras realidades, como o branco; ele chama as primeiras de ‘substâncias’ e as segundas de ‘acidentes’” (PRADEAU, p. 46). Mas notem o que ele diz: há realidades que existem em si mesmas e outras que existem em outras realidades, como parasitas. Os predicados são essas realidades que existem em outros seres. Aqui, claro, ele está se distinguindo de Platão, pois, para este, os predicados existem à parte, no mundo das ideias, enquanto que, para aquele, só existem nas próprias coisas. Nash é particularmente elucidativo nesse ponto: “Existe uma importante diferença entre a primeira categoria, substância, e as outras. A razão para isso é que as outras nove categorias são sempre dependentes de uma substância existente. [...] As últimas nove categorias têm de ter uma substância anterior para qualificar ou modificar. A menos que a substância exista primeiro, as demais categorias não existiriam nessa instância em particular” (NASH, p. 110-111). É basicamente o que dissemos, e é uma ampliação do que disse Berti.
Nash é, ainda, sagaz o suficiente para observar uma série de diferenças entre a substância e as propriedades: “A distinção entre substâncias e suas propriedades desempenha um papel central na filosofia de Aristóteles. [... substância é uma coisa em particular [...] dizer que uma propriedade é universal significa [...] que pode pertencer a mais de uma coisa ao mesmo tempo. [...] uma propriedade é imutável. As cores vermelha e verde jamais podem mudar. Mas as substâncias às quais as cores, algumas vezes, pertencem, podem mudar. [...] propriedades jamais podem existir por elas mesmas, mas somente como propriedades de uma substância particular [...] já estas existem por elas mesmas, substâncias não são tidas jamais por outras coisas ou existem em outras coisas. [...] substâncias têm poderes causais. Substâncias podem agir como causas eficientes [...] Mas propriedades não podem atuar dessa maneira” (NASH, p. 113).
Com esses conceitos bem esclarecidos em mente (e com a nota 1 também certificada) podemos compreender perfeitamente esta colocação de Sproul: “Aristóteles aceitava a distinção entre a substância de uma entidade e seus acidentes, mas jamais a separação deles [...]. Ele afirmava que os acidentes de uma coisa são gerados por sua substância ou fluem dela [...] a substância de uma coisa gera seus acidentes” SPROUL, p. 48). Podemos falar de substância primeira e das categorias. Mas não podemos falar de uma substância primeira sem qualquer categoria, incluindo a substância segunda, ou seja, a categoria ‘substância’, ou, ainda, se preferirem, as propriedades essenciais de algo.


Temos ainda outra grande contribuição de Aristóteles na análise do pensamento. Sproul encabeçará a discussão: “Aristóteles escreveu sobre as leis fundamentais da lógica, entre as quais está a lei da ‘não-contradição’. O princípio supremo da lógica é a lei da não-contradição: alguma coisa não pode ser o que é e não ser o que é ao mesmo tempo e no mesmo sentido ou relação” (SPROUL, p. 43-44). Achamos Berti exímio ao buscar enunciar esses princípios lógicos: “A afirmação e a negação do mesmo predicado a propósito do mesmo sujeito constituem uma contradição: ambas ao mesmo tempo não podem ser verdadeiras (princípio de não contradição), mas é necessário que uma das duas seja verdadeira e a outra falsa (princípio do terceiro excluído)” (PRADEAU, p. 46). Ou seja, sintaticamente, um sujeito não pode ter um predicado A e não-A ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Ou seja, na análise de proposições concatenadas, se identificarmos uma contradição, já podemos descartar o argumento, reconhecendo-o como falso.
Um exemplo para ilustrar a questão. Não podemos dizer que somos ‘pai’ e ‘filho’ de alguém no mesmo sentido e ao mesmo tempo. Coloquemos as frases em paralelo:
Fulano é pai de Ciclano.
Fulano é filho de Ciclano.
Se Fulano é pai de Ciclano, ele não pode ser filho, a não ser que a filiação em questão seja metafórica em alguma das frases. Por exemplo, poderíamos dizer que Fulano é filho espiritual de Ciclano, no sentido de Ciclano, o filho biológico de Fulano, ter-lhe pregado o Evangelho e ele ter se convertido.
Um exemplo conforme a análise sintática de Berti:
Jesus é Deus (B).
Jesus não é Deus (não-B).
Há duas predicações contrárias atribuídas ao mesmo sujeito. Isso não pode ser possível. Se ‘X’ é ‘B’, tudo que não é B está excluído do ser de X. Se Jesus é Deus, tudo que implica em ‘não ser Deus’ está incluído em ‘não-B’.
Aqui pedimos licença para citar, apud Nash, um dos maiores filósofos do século XX, Gordon Clark: “Se declarações contraditórias são verdadeiras em relação ao mesmo objeto e ao mesmo tempo, evidentemente todas as coisas serão a mesma coisa. Sócrates será um navio, uma casa, tanto quanto um homem. Mas, se precisamente os mesmos atributos atribuídos a Crito são os mesmos atributos a Sócrates, segue-se que Sócrates é Crito. Não somente isso, mas o navio no porto, uma vez que ele tem a mesma lista de atributos, também será identificado com a pessoa Sócrates-Crito. De fato, todas as coisas serão a mesma coisa. Todas as diferenças entre as coisas se desvanecerão e tudo será um” (CLARK apud NASH, p. 211).
Em suma, subverter a lei da não contradição é cair na mais plena loucura. Se A pode ser B e não-B ao mesmo tempo, A tem tanto os seus atributos, as características que o distinguem e definem, sua essência, como tem o que não o distingue, exatamente o que não lhe é predicado, o que pode ser qualquer outra coisa. Se ele é ‘imortal’ (B) e, ao mesmo tempo e no mesmo sentido imortal (não-B), então ‘B’ não quer dizer nada! A lei do terceiro excluído é justamente dizer que não se pode, aí, haver um intermediário entre imortal (B) e mortal (não-B). Ou é um ou é outro.
Notem que notamos contradições na relação de proposições, ou mesmo em um mesmo período. Portanto, a peneira da contradição envolve proposições isoladas ou argumentos completos que têm premissas contraditórias.

AVALIAÇÃO DOS ARGUMENTOS

Aproveitando que já tocamos no assunto sobre a avaliação de argumentos, o Estagirita nos outorga lições bem pontuais. Para saber se um argumento é correto Aristóteles nos ensina, no Órganon, dois modos de avaliação para negar uma conclusão: acusa-la de sofisma ou de falácia.

SOFISMA

O quinto livro (conforme a atual edição) do Órganon, denominado ‘Tópicos’ é destinado à análise de silogismos endoxais, como nos informa Berti: “Nos Tópicos, Aristóteles ilustra um outro tipo de silogismo que ele chama de silogismo dialético; suas premissas são ‘endoxais’ (endoxa), quer dizer, admitidas por todos, ou pela maioria, ou pelos especialistas, ou pela maior parte deles. Estas premissas não são verdadeiras em todos os casos, mas na maioria deles” (PRADEAU, p. 47). Tomemos as palavras iniciais do próprio Aristóteles: “O propósito deste tratado é descobrir um método que nos capacite a raciocinar, a partir de opiniões de aceitação geral, acerca de qualquer problema que se apresente diante de nós e nos habilite, na sustentação de um argumento a nos esquivar da enunciação de qualquer coisa que o contrarie” (ARISTÓTELES, p. 347).
Acontece que os sofistas, como já vimos, eram ótimos enganadores. Ao que parece, segundo Berti, eles valiam-se de premissas com aparência de verdade, pretensos endoxais, para ludibriar a mente dos ouvintes e enganar. É por isso que Aristóteles lança seu último tratado: “Enfim, nas Refutações sofísticas, Aristóteles ensina a desmascarar as refutações aparentemente justas (visando em particular aquelas que não se apoiam nos silogismos dialéticos, mas nos silogismos erísticos ou sofísticos, quer dizer, que parecem derivar de premissas endoxais ou que têm a aparência de silogismo), quando na realidade admitem apenas um artifício” (PRADEAU, p. 48). Parece-nos que o termo ‘sofisma’ vem justamente daqui.
O sofisma é quando o argumento se vale de premissas falsas. Ele pode até ter validade lógica, mas suas premissas são falsas. Adler, embora estivesse preocupado com a avaliação das ideias em um livro, nos ensina, como excelente aristotélico que era, como desmascarar sofismas. Há basicamente duas formas: a primeira é identificando desinformação: “Dizer que [...] está desinformado é o mesmo que dizer que nele estão ausentes conhecimentos relevantes sobre o problema que tenta resolver. Observe que essa crítica só faz sentido se for relevante o conhecimento que falta [...] Para que a crítica faça sentido, você deve ser capaz de declarar precisamente o conhecimento que falta [...], mostrando a sua relevância para as conclusões do problema e do raciocínio” (ADLER, p. 167).
Notem o seguinte silogismo:
1) Todo teísta cristão é burro.
2) Tudo que um burro crê é motivo de suspeita.
3) Logo a crença teísta cristã é uma crença suspeita.
Há várias maneiras de criticar esse argumento. Agora, particularmente, queremos apenas observar o sofisma da primeira premissa. Talvez alguém que enuncie tal argumento (e há muitos neo-ateus que assim pensam!) argumentem pelo fato de que só conhecem seus parentes, simples, o pastor irresponsável que não passa de um charlatão ou, quando bem intencionado, é um negligente para com seus estudos. Portanto, como todo crente que tal pessoa conhece é burro, e pessoas burras creem em tolices, o inocente julga que a crença teísta, das pessoas simples, incapaz de defenderem-na, é provavelmente um atraso para a humanidade, uma crença retrógrada, idiota...
Mas essa nada nobre criatura está, como é de praxe, muitíssimo desinformada. É óbvio que ela não conhece nada da história do pensamento ocidental, e muito menos do cenário atual*2. Uma pequena lista, feita às pressas, faria tal aberração intelectual vaporizar-se: Apóstolo Paulo, Orígenes, Ambrósio, Atanásio, Agostinho, Boécio, Erígena, Anselmo, Abelardo, Alberto Magno, Aquino, Escoto, Roger Bacon, Ockham, Savonarola, Lutero, Calvino, Johannes Kepler, Francis Bacon, Bucer, Ursino, Zuínglio, Melanchton, Descartes, Pascal, Turretini, Newton, Leibniz, Locke, Berkeley, Reid, Kierkegaard, Charles Hodge, A. Kuyper, W. James, Chesterton, C. S. Lewis, Dooyeweerd, F. Schaeffer, G. Clark, C. van Til, Greg Bahnsen, John Frame, R. J. Rushdoony, Douglas Wilson, V. Cheung, Ronald Nash, James W. Sire, Alvin Plantinga, W. Alston, N. Wolterstorff, Kelly James Clark,  Nancy Pearcey, R. C. Sproul, W. Lane Craig, J. P. Moreland, Francis Collins, John Polkinghorne, Alister McGrath, Stephen Meyer, Charles B. Thaxton, Mortimer Jerome Adler, Olavo de Carvalho, Davi Charles Gomes, Fabiano Almeida de Oliveira, Jonas Madureira, Guilherme de Carvalho, Franklin Ferreira... etc (!). Acreditamos já ter oferecido material suficiente para constranger o ‘sofista’ (pejorativamente falando) e denunciar a primeira premissa como um sofisma. Quem afirma-la está completamente desinformado. 


A segunda forma é identificando mal informação: “Dizer que [...] está mal informado é o mesmo que dizer que ele afirma algo que não corresponde à realidade. A falha pode resultar de alguma falta de conhecimento, mas não se trata apenas disso. A despeito da causa, o erro consiste em afirmar coisa contrárias aos fatos [...]. esse tipo de falha só deve ser apontado quando a questão for relevante às conclusões[...]. a falha não deve apenas ser apontada, deve ser refutada mostrando a verdade (ou a maior probabilidade) de seu ponto de vista” (ADLER, p. 158). Aqui não se trata apenas de estar mal informado. No primeiro caso poderíamos pegar alguém que mal leu alguma coisa na vida, ou que apenas repete a opinião dos gurus ateus como verdades absolutas, incontestáveis. Aqui temos alguém ostentando alguma informação, entretanto se trata de uma informação ruim. O caso de se informar por fontes não confiáveis, talvez erigir a opinião pelos gurus neo-ateístas, como supramencionado, valha-lhe o título de mal informado. Engendremos um argumento deste tipo.
1) Alguém que cria um movimento que reforça ideias malignas é mal.
2) Calvino reforçou a ideia de que o rei era uma figura digna de devoção absoluta.
3) Devoção absoluta ao rei é algo prejudicial.
4) Logo, Calvino era mal.
Bom, novamente, como no outro caso, o argumento está recheado de pontos para contestação. Iremos nos ater à segunda premissa. Suponhamos que, cientes do que Calvino ensinou, questionemos o argumentador a provar sua segunda premissa. Então ele cita Luisa Simonutti dizendo: “No século XVI, por volta de 1530, no momento em que a Reforma calvinista começa a afirmar sua presença no território francês, este movimento deve se enraizar num reino onde os habitantes estão convencidos de ser um povo cristão, gozando de uma proteção divina particular e cujo soberano é qualificado como Rei ’Muito Cristão’. O rei da França tem de fato o direito de tirar proveito desse título [...] [pois houve] rituais de sacralização que asseguram a ele não somente uma devoção absoluta, mas também poderes taumatúrgicos” (PRADEAU, p. 218). O que podemos fazer? Bom, depois de rir primeiro e, logo após lamentar a gafe num texto que pode ser influente, demonstrar que nessa época é provável que Calvino nem mesmo tenha se convertido. A própria Simonutti sabe a data do nascimento de Calvino: 1509 (PRADEAU, p. 212). Portanto, nosso pobre adversário está não só desinformado por não ter as informações corretas sobre Calvino e a Reforma, como mal informado por ter seguido Simonutti*3. Ele não sabe, por exemplo, que Carlos Magno, no século VIII, fora imbuído de poderes pelo papado e que, portanto, o prestígio devotado ao rei que os franceses tinham era de origem católica e não ‘protestante’. Falta-lhe, pois, não apenas conhecimento filosófico ou científico, mas mesmo de história geral!
Mal informado ou desinformado, o sofisma deve ser identificado e o argumento descartado. Pode-se ser bonzinho, caso disponha-se de tempo e queira treinar a lógica, prosseguir no argumento. “É interessante, mas não tão importante, descobrir sua falta de coerência ao raciocinar com base em premissas falsas ou a partir de evidências inadequadas” (ADLER, p. 170). O intuito, talvez, seria destruir completamente o argumento. Entretanto, identificando um sofisma, já podemos tê-lo como desacreditado, refutado.

FALÁCIA

Mortimer Jerome Adler, novamente, é nosso tutor aqui: “Dizer que [...] é ilógico é o mesmo que dizer que ele foi falacioso ao raciocinar. Em geral, há dois tipos de falácias. Há os non sequitur, ou seja, a conclusão não guarda relação necessária com as razões oferecidas. E há as inconsistências, isto é, quando o autor afirma duas coisas que são incompatíveis entre si. [...] Só devemos nos ocupar dessas falhas à medida que elas afetem as conclusões principais” (ADLER, p. 169). Em suma, a falácia ocorre quando a conclusão não procede das premissas. Há uma infinidade de falácias catalogadas. Arthur Schopenhauer destaca e denomina uma porção imensa em um livro chamado ‘Como Vencer Um Debate Sem Precisar Ter Razão’ que foi escrito e deve ser lido com o intuito, claro, justamente de não ser vencido, e não de vencer como um sofista.
Podemos brincar com um exemplo que já experimentamos em nossos duelos. Debatíamos com um neo-ateu e identificamos o seguinte raciocínio: “Usava-se a técnica do ‘Deus das lacunas’ para defender o teísmo.
Descobriu-se ser essa uma falácia.
Logo, o teísmo não é algo sério (ou algo verdadeiro).
Non sequitur! O fato de uma falácia ter sido usada para defender algo não prova que tal é falso. Outro esquema silogístico será útil para entendermos o erro:
X usou o argumento y para defender z.
Y é um argumento inválido.
Logo Z é falso” (OLIVEIRA).
Dentre os vários problemas do argumento, identificados no próprio debate, que a conclusão não se segue às premissas. Podemos muito bem usar um argumento falso no labor de defender algo que é verdade. A falsidade de nossa argumentação não prova a falsidade do que queremos provar.
Acreditamos que já seja o suficiente para ilustrar o caso. Queríamos mais tempo para demonstrar outras falácias, mas o espaço não é apropriado. Quem quiser mais exemplos, leia o debate.

FORMAS DE ARGUMENTO

Até aqui vimos que a lógica é uma ciência que analisa os argumentos, e vimos, em suma, o que é um argumento. Também sabemos que, para negar uma conclusão temos que acusar o argumento de sofismado ou falacioso. Vejamos, agora, os dois tipos de argumentos que existem: argumentos dedutivos e argumentos indutivos.

ARGUMENTO DEDUTIVO

William Lane Craig, exímio debatedor, nos expõe do que se trata o argumento dedutivo de forma muito breve: “Num argumento dedutivo correto, a conclusão decorre inevitavelmente das premissas. Os dois pré-requisitos de um argumento dedutivo correto são que as premissas sejam verdadeiras e que a lógica seja válida. [...] um argumento pode ser logicamente válido, mas mesmo assim defeituoso, se apresentar premissas falsas” (CRAIG, p. 37). O importante a ser destacado é que a conclusão deriva-se por necessidade, obrigatoriamente, da premissas. Averiguado que não há sofismas, e que a processão é lógica, há de se admitir a conclusão.
Quando Durant vai explicar o silogismo, na verdade, acaba expondo o argumento dedutivo em forma silógica: “Há um forte traço disso na mais característica e original das contribuições de Aristóteles para a filosofia – a doutrina do silogismo. Um silogismo é um trio de proposições das quais a terceira (a conclusão) segue-se da verdade admitida das outras duas (as premissas ‘maior’ e ‘menor’). [...] O leitor que goste de matemática perceberá, de imediato, que a estrutura do silogismo assemelha-se à proposição de que duas coisas iguais à mesma coisa são iguais entre si. Se A é B, e C é A, então C é B.” (DURANT, p. 65). Claro, como já observamos, não se restringe a três passos, ou duas premissas e uma conclusão. Mas para ficar mais fácil, tomemos essa estrutura.
A é B.
C é A.
Logo, C é B.
O exemplo clássico da filosofia é o sobre a mortalidade de Sócrates. Querendo provar que Sócrates é mortal podemos argumentar, dedutivamente, da seguinte forma:
Todo homem (A) é mortal (B).
Sócrates (C) é homem (A).
Logo, Sócrates (C) é mortal (B).
Berti faz uma interessante observação quando comenta o assunto: “Nas Primeiras analíticas, Aristóteles expõe a famosa descoberta do ‘silogismo’ (dedução) [...] Vê-se que as duas premissas têm um termo em comum, qualificado de ‘meio’, que ocupa [...] a função de predicado na premissa maior e a função de sujeito na premissa menor. Os dois outros termos, qualificados de ‘extremos’, constituem a conclusão” (PRADEAU, p. 47). Primeiro, tal como Durant, ele relaciona o silogismo praticamente de forma exclusiva à dedução. Mas o que queremos destacar é a análise sintática de Berti. Entretanto, conforme está anunciado, Berti troca as bolas. Na verdade o termo denominado ‘meio’ é sujeito na premissa maior e predicado na menor, ao passo que os ‘extremos’ fazem parte da conclusão.
Todo homem (meio) é mortal (extremo).
Sócrates (extremo) é homem (meio).
Logo, Sócrates (extremo) é mortal (extremo.
Temos pois:
(Meio) (extremo’).
(Extremo’’) (meio).
Logo (extremo’’) (extremo’).

Quando mencionamos, alhures, na exposição de Chalita, que dizia que ao elaborarmos um argumento lógico veremos que ele ‘contém uma ideia que antes não estava expressa claramente’, relacionamos a proposição ao argumento dedutivo. Gaarder é da mesma ideia: “A lógica de Aristóteles trata da relação entre conceitos [...]. Mesmo que tenhamos que concordar com Aristóteles em que a conclusão tirada é cem por cento correta, temos de admitir que ele não nos diz nada de novo. [...] Mas nem sempre a relação entre grupos ou coisas nos parece tão evidente. De vem em quando pode ser necessário pôr certa ordem em nossos conceitos. [...] A resposta já estava dentro de nós, só que precisávamos primeiro pensar um pouco” (GAARDER, p. 129). Isso, evidentemente, nos lembra muito a maiêutica socrática, e contrasta com a conclusão de Durant: “Parece, porém, que o silogismo não é tanto um mecanismo para a descoberta da verdade quanto para a clareza de exposição e de pensamento” (DURANT, p. 65)*4.

ARGUMENTO INDUTIVO

Dissertaremos agora sobre o complicado e polêmico argumento indutivo. Tomemos Berti para nos dizer do que se trata esse tipo de argumento: “Quando as premissas são particulares e a conclusão geral, não se trata mais de uma dedução, mas de uma indução (epagogé); no entanto, nesse caso, a conclusão não decorre necessariamente das premissas” (PRADEAU, p. 47). Não se trata exatamente de um non sequitur. Trata-se de um argumento que se pretende por provável. Craig consegue ser muito elucidativo em sua explanação: “Argumento indutivo é aquele em que é possível que as premissas sejam verdadeiras e as inferências lógicas sejam válidas, mas a conclusão mesmo assim é falsa. Nesse raciocínio, diz-se que as evidências e regras da inferência ‘minam’ a conclusão, ou seja, tornam a conclusão plausível ou provável, mas não garantem sua veracidade” (CRAIG, p. 37-38). Chalita nos conta que Aristóteles não deu muita atenção a esse tipo de raciocínio, e reforça seu conceito uma terceira vez: “Até aqui estudamos somente o raciocínio dedutivo, que constitui a principal forma de articulação lógica, segundo Aristóteles. De fato, a partir de premissas verdadeiras e de um silogismo válido, obtém-se sempre uma conclusão verdadeira. Entretanto, há uma outra forma de raciocínio, o indutivo, que também era reconhecido por Aristóteles mas que não recebeu a mesma atenção do filósofo. Uma dedução, representada pelo silogismo, sempre chega a uma conclusão ‘menos geral’ que a premissa inicial: ela é sempre uma afirmação sobre um ou alguns elementos pertencentes a uma classe maior [...]. Um raciocínio indutivo, ao contrário, sempre chega a conclusões ‘mais gerais’ que as proposições de onde partiu” (CHALITA, p. 69-70).
Lembremo-nos, pois, que na dedução começávamos com uma premissa geral, chamada de premissa menor, olhávamos para uma premissa particular, chamada de premissa menor, para chegarmos à uma demonstração. Aqui já saímos de premissas particulares para uma conclusão geral. Percebam:
Todo homem é mortal. [Uma afirmação geral, que diz respeito a todos os homens].
Sócrates é homem. [Sócrates é uma figura isolada, um exemplar dentre os homens].
Logo, Sócrates é mortal [Uma outra afirmação particular é deduzida].
Agora, num argumento indutivo teríamos um raciocínio diferente. Gostamos do exemplo que Luiz Sayão dá em seu livretinho:
“... o cobre, o ferro, o bronze são metais [um particular];
o cobre, o ferro, o bronze são bons condutores de calor [outro particular];
conclui-se que os metais são bons condutores de calor [uma generalização]” (SAYÃO, p. 13).
O grande problema é justamente a falta de segurança peremptória, conforme ressalta Chalita: “Embora a indução permita atingir proposições mais gerais, ela não garante que a conclusão seja verdadeira, mesmo que todas as proposições iniciais sejam verdadeiras” (CHALITA, p. 70).

Antes de expormos um filósofo que é completamente cético ao argumento indutivo, exploremo-lo um pouco mais com o mestre Craig: “Apesar de o raciocínio indutivo ser parte normal da vida diária, a descrição desse raciocínio é motivo de controvérsia entre os filósofos. Alguns propõe que utilizemos o modelo hipotético-dedutivo de raciocínio indutivo: formulamos uma hipótese que explique os fatos, e depois deduzimos da hipótese predições que, se verdadeiras, provariam que a hipótese é falsa; depois testamos essas predições e, se elas não se cumprem, nossa hipótese fica comprovada. Outros filósofos defendem o que chamam de inferência da melhor explicação: diante de certas evidências, inferimos qual explicação, se fosse verdadeira, forneceria a melhor explicação para aquelas evidências. Discute-se muito quais qualidades fariam uma explicação ser a melhor (simplicidade, poder de explanação, etc., mas no mínimo essa explicação precisa levar em conta todos os fatos da experiência e ter coerência lógica” (CRAIG, p. 38).
Tanto as ciências naturais quanto a história são ciências completamente dependentes do método indutivo. Por isso, é caro ao aristotélico evadir-se dela, e barato para o platônico rejeitar toda e qualquer indução.
Bom, vamos parafrasear pra tentar elucidar os pontos. Pensemos numa pesquisa histórica. Temos um campo de pesquisa. Encontramos vestígios de ossadas aos montes, de adultos e crianças, espalhados por um território europeu, digamos que italiano. Encontramos uma coluna encravada com determinado dialeto e mais nada. Bom, usando o método hipotético-dedutivo, temos de formular uma hipótese primeiro. Pelas inscrições na coluna, presumimos que se trata de um povo de origem ligada à língua encontrada na coluna. Digamos, hebraico. Fazemos então predições. Logo são associados à diáspora decorrente da perseguição romana. Mas não havia vestígio de plantação ou de construção de casas. E como eles teriam morrido? O raciocínio teria sido: 1) Há rumores de povos judeus vivendo por essas terras naquela época. 2) Os judeus fugiam dos romanos. 3) Temos aqui uma inscrição hebraica relacionando o povo aos judeus. 4) Portanto, eram judeus fugidos. De repente, escavações posteriores notam que havia armaduras de soldados romanos no local. Amplia-se a hipótese presumindo que houve um conflito entre judeus e soldados romanos. Não se refutou a hipótese. Entretanto, não se encontrando casas ou vestígios de utilização do solo, fica difícil dizer com certeza que os judeus foram morar naquela região. Prediz-se que não se encontrará vestígio de moradia ou qualquer outro apetrecho que prove ter havido judeus ali. Pode ser um outro povo rebelde aos romanos que, por um acaso, se encontravam próximas a uma coluna com inscrições hebraicas. A predição estando correta falsificaria a hipótese, ou pelo menos a colocaria em descrédito. Mas suponhamos que se encontre alguns itens típicos do judaísmo, como uma menorah (um candelabro de sete braços), e, quiçá, um manuscrito do Antigo Testamento. Suponhamos que se encontre, também, bases para residências e moedas de inscrições romanas, confirmando a época e a moradia do povo judeu. A hipótese foi ‘confirmada’. Percebam que não é uma conclusão definitiva. É apenas provável.
Acreditamos que a segunda forma de indução seja excelente, ao menos na pesquisa histórica, para confirmar ou desacreditar as conclusões da primeira forma de indução. Formula-se outra hipótese. Qualquer uma. Por exemplo, aqueles eram soldados judeus que voltavam de uma caçada a judeus, tendo confiscado alguns bens e encontraram uma aldeia de rebeldes bárbaros, vindo a assalta-los, enquanto eram resistidos. Os objetos hebraicos ficaram ali. O problema dessa hipótese é que não explica a coluna com inscrições hebraicas. Pensar numa inscrição posterior carece de explicações (embora não seja impossível). Logo, presume-se, finalmente, que judeus fugidos realmente foram para lá morar*5.

Por fim, como prometido, e tomando como exemplo um filósofo de viés platônico, embora certamente ele não gostaria do rótulo, temos Vincent Cheung soltando os cachorros contra a indução. Ele nota que não se pode aferir essa probabilidade demandada na conclusão. Probabilidade é “a razão do número de resultados num conjunto exaustivo de resultados igualmente prováveis que produz um dado evento para o número total de possíveis resultados” (CHEUNG, p.41-42); e prossegue: “Mesmo se admitirmos que os métodos empíricos e indutivos podem descobrir o numerador da fração [...], determinar o denominador requer conhecimento de um universal, e a onisciência é frequentemente necessária para isso” (CHEUNG, p.42). Finalmente conclui: “Visto que probabilidade consiste de um numerador e um denominador, uma vez que o denominador é um universal e os métodos empíricos e indutivos não podem conhecer universais, é absurdo dizer que a indução pode alcançar um conhecimento ‘provável’” (CHEUNG, p.42). Em outras palavras, Cheung diria que existe uma quantidade de hipóteses contrárias ou dados faltantes para averiguação do provável que não podemos calcular. Podemos falar de uma probabilidade segundo o que temos em mãos. Mas jamais teremos certeza de que temos um número suficiente em mãos para legislar. Novos dados podem ser descobertos. Tudo pode ter acontecido. Na ciência, novas tecnologias podem abrir espaço para pensarmos em novas causas... etc*6.

Seja como for, a indução é um tipo de raciocínio muitíssimo comum e bem presente nas disputas e pesquisas. Não podemos ignorá-lo. Ainda que sejamos pragmáticas, instrumentalistas, em relação à ciência e até mesmo à história.

LÓGICA, VERDADE E REALIDADE

Já sabemos do se trata a lógica. Sabemos que ela serve para analisar argumentos e pensamentos. Sabemos que um argumento é composto por proposições, e que podemos analisar proposições pelos cânones da lógica. Sabemos que os argumentos, dispostos de forma silogística, podem ser dedutivos ou indutivos, e que, para serem recusados precisam ser acusados de sofisma ou falácia. Temos, praticamente, um conceito bem formado da ciência da lógica. Mas Aristóteles é ainda mais profundo. Ele tinha um compromisso praticamente religioso para com a verdade. Isso, mais uma vez, deve ter vindo de Sócrates através da Academia de Platão. Adler nos lega uma citação deveras preciosa: “É preferível e é mesmo nosso dever destruir o que mais de perto nos toca a fim de salvaguardar a verdade, especialmente por sermos filósofos ou amantes da sabedoria; porque, embora ambos nos sejam caros, a piedade exige que honremos a verdade acima de nossos amigos” (ARISTÓTELES apud ADLER, p. 157).
Sabemos que a lógica versa sobre o que pensamos. Mas não era apenas disso que se trata a lógica, segundo a concepção de Aristóteles, conforme nos informa Sproul: “Para Aristóteles, a lei da não-contradição não é meramente uma lei do pensamento, mas também uma lei do ser. Na verdade, é uma lei do pensamento exatamente porque é primeiro uma lei do ser. Alguém pode dizer que o número cinco é par e ímpar, mas o número cinco não pode ser par e ímpar” (SPROUL, p. 45).
Sobre a relação entre o ser e o pensamento Aristóteles antecipa Saussure na filosofia da linguagem, conforme nos informa Berti: “No tratado Sobre a enunciação (De interpretatione), Aristóteles afirma que as palavras que formam a linguagem, são signos convencionais dos conceitos, ou, mais geralmente, eles são os conteúdos do espírito, sendo estes, por sua vez, as imagens das coisas: entre a linguagem, o pensamento e a realidade há, portanto, uma relação de significação” (PRADEAU, p. 46). Nós conhecemos a parte do Órganon a que Berti se refere: “Os sons emitidos pela fala são símbolos das paixões da alma, [ao passo que os caracteres escritos [formando palavras] são os símbolos dos sons emitidos pela fala. Como a escrita, também a fala não é a mesma em toda parte [para todas as raças humanas]. Entretanto, as paixões da alma, elas mesmas, das quais esses sons falados e caracteres escritos (palavras) são originalmente signos, são as mesmas em toda parte [para toda a humanidade], como o são também os objetos dos quais essas paixões são representações ou imagens” (ARISTÓTELES, p. 81).
O pensamento formula conceitos sobre a realidade e os expressam por palavras. As palavras são signos dos conceitos. Os conceitos são o conteúdo do espírito. O que se passa no espírito são imagens das realidades. Assim, o que pensamos é o que existe, e o que falamos é o que pensamos. São símbolos para evocar os conceitos que, por sua vez, evocam a realidade*7.
Sproul, novamente e de forma notória, define a questão: “... ao formular as leis da lógica, Aristóteles não estava preocupado apenas em pensar sobre certas coisas mas também com a existência das coisas sobre as quais pensamos. Apesar de acabar rejeitando a filosofia de Platão, ele certamente refletia sobre a relação entre pensamento e realidade. [..] Sua preocupação com a verdade era também uma preocupação com a realidade, pois as duas estão relacionadas de modo inseparável. [..] Segundo Aristóteles, as leis da lógica se aplicam a todas as ciências, por serem válidas para toda a realidade. Isso não quer dizer que tudo o que é racional seja real. [...] Tudo o que é real, porém, é racional. O que é ilógico não pode existir na realidade” (SPROUL, p. 44). Portanto, a realidade e a lógica estão estritamente ligadas. Compreender adequadamente a realidade demanda compreender a lógica. Não é apenas um capricho intelectual. É questão de se localizar. Sejamos, pois, sempre bons estudantes de lógica, seja lá qual área nos devotemos a atuar.

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1 Aqui é preciso, particularmente, muita cautela na terminologia. Sproul usa o termo ‘acidente’ incluindo a categoria substância, o que pode gerar uma enorme confusão: “Segundo Aristóteles, uma entidade é composta de suas substâncias e seus predicados, ou o que ele chamava de acidentes” (SPROUL, p.).
*2 Recomendamos dois artigos muitíssimo interessantes nesse sentido. O primeiro é do grande filósofo William Lane Craig, e se chama: ‘Deus ainda não está morto’, e pode ser encontrado neste endereço: http://www.reasonablefaith.org/portuguese/deus-naeo-esta-morto-ainda
O segundo é do historiador, teólogo e cientista Alister McGrath, intitulado ‘Thank God for the New Atheism‘ e que pode ser encontrado no seguinte endereço: http://www.abc.net.au/religion/articles/2011/01/31/3125641.htm.
O vídeo de Vince Vitale também é apropriado de ser visto: https://www.youtube.com/watch?v=25nvoycJ0hw.
*3 Outro erro comum, de mesmo teor, é considerar o Calvinismo a luz de Max Weber e o que o alemão passou aos livros didáticos da posteridade. Para duas ótimas refutações, veja um artigo de Franklin Ferreira: http://www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_V__2000__2/Franklin.pdf; e um de Antônio Máspoli de Araújo Gomes.: http://cpaj.mackenzie.br/fidesreformata/visualizar/102.
*4 O mesmo Durant, ao expor um possível problema com o argumento dedutivo acaba valendo-se do que parece uma indução e, principalmente, da inferência a partir da abstração da espécie, do tipo de coisa a que o que está em questão pertence: “Por exemplo, o homem é um animal racional; mas Sócrates é homem; portanto, Sócrates é um animal racional. [...]A dificuldade, como salientaram os lógicos da época de Pirro até a de Stuart Mill, está em que a principal premissa do silogismo aceita como ponto pacífico precisamente o detalhe a ser provado; porque se Sócrates não for racional (e ninguém questiona o fato de ele ser homem), não será universalmente verdadeiro que o homem é um animal racional. Aristóteles retrucaria, sem dúvida, que quando se verifica que um indivíduo possui um grande número de qualidades características de uma classe [...], cria-se uma forte presunção de que o indivíduo possui as outras qualidades características dessa classe” (DURANT, p. 65). Adiante esse pensamento poderá ser melhor compreendido.
*5 Esse método é usado na investigação criminal, como demonstram séries como Cold Case ou CSI. Craig, nesse mesmo livro, usa o método para provar, indutivamente, a ressurreição de Jesus Cristo.
*6 Charles Hodge ainda estaria legitimado em sua Teologia Sistemática, no primeiro capítulo, quando propõe o método indutivo para a teorização teológica. Segundo a teologia reformada, e o próprio Hodge, adiante, no mesmo capítulo, temos como determinar o denominador na inferência teológica ou, pelo menos, temos tudo o que Deus planejou que soubéssemos. Temos ali todos os dados possíveis, particulares, e deles inferirmos uma generalização, uma doutrina. É assim que deve-se prosseguir na dogmática.
*7 Noutro artigo sobre linguística exploraremos melhor a questão.

REFERÊNCIAS

ADLER, Mortimer J; VAN DOREN, Charles. Como Ler Livros. Tradução de Edward Horst Wolff e Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2010, 432p.

ARISTÓTELES. Organon. Tradução, textos adicionais e notas de Edson Bini. São Paulo: EDIPRO, 2ª ed., 2010, 608p.

BERTI, Enrico. Aristóteles _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.

CHALITA, Gabriel. Vivendo  Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.

DURANT, Will. A História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 4ª ed., 2001, 406p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.

HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo:Editora Hagnos, 2001. 1777p.

NASH, Ronald H. Questões Últimas da vida: uma introdução à filosofia. Tradução de Wadislau Martins Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 448 p.

OLIVEIRA, Lucio Antônio. Debate: Justificativa para o Ateísmo e para o Teísmo (Parte 8). Acessado no dia 08/05/2014 em: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2013/07/debate-justificativa-para-o-ateismo-e.html

SCHOPENAUER, Arthur. Como Vencer um debate sem precisar ter razão: em 38 estratagemas (dialética erística) Tradução de Olavo de Carvalho e Daniela Caldas; introdução, notas e comentários de Olavo de Carvalho. Rio de Janeiro: Topbooks, 1977, 258p.

SIMONUTTI, Luisa. As Reformas _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.


SPROUL, R. C. Filosofia para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208 p.