Mostrando postagens com marcador Empirismo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Empirismo. Mostrar todas as postagens

sábado, 14 de junho de 2014

Os Estoicos


[para uma melhor compreensão do estoicismo é bom que se leia este artigo sobre Heráclito]
Estudaremos, agora, uma importante escola filosófica da Antiguidade, o chamado estoicismo. Para isso contaremos principalmente com o capítulo sobre o assunto no livro de Jean-François Pradeau, escrito por Brad Inwood, que nos será guia para o estoicismo como Nash para o Platonismo ou Durant para política em Aristóteles e Platão.
Pois bem, o movimento foi criado por Zenão de Chipre. Mas antes de estudar os estóicos, temos que estudar uma escola que os precedeu, e que muito os influenciou: os cínicos, um movimento filosófico criado por um dos discípulos de Sócrates chamado Antístenes. Antístenes é pra Zenão o que Aristipo é para Epicuro. Gaarder e Chalita reconhecem a influência dos cínicos sobre os estóicos: “Os cínicos foram de grande importância para a filosofia estoica”(GAARDER, p. 148) e “As ideias dos estóicos foram influenciadas por uma corrente de pensamento que se desenvolveu na mesma época de Sócrates: o cinismo. Fundada por Antístenes (445? – 365 a. C.), um ateniense que conheceu o grande filósofo [Sócrates]” (CHALITA, p. 78). Veremos o porquê.
O estoicismo nasce, em Atenas, no final do século IV a. C., o século macedônico da Grécia, com Zenão. Inwood entende que Zenão nasceu em 334 e morreu em 262 a. C. (PRADEAU, p. 80). Chalita suspeita da data 320 a 250 a. C. (CHALITA, p. 76). Ambos, nas mesmas páginas, indicam que ele nasceu em Cítio (ou Cício), na ilha de Chipre.
Chalita nos informa que “Zenão entrou em contato com a filosofia por meio de textos trazidos de Atenas por seu pai, um comerciante” (CHALITA, p. 76). Chalita prossegue dizendo que “Posteriormente, ele se transferiu para Atenas, onde começou a ensinar próximo ao pórtico da cidade” (CHALITA, p. 76), mas isso pula informações importantes, concedidas a nós por Inwood. Antes, Gaarder nos diz que Zenão “se transferiu para Atenas depois de ter sobrevivido a um naufrágio” (GAARDER, p. 148). Quem sabe o naufrágio tenha-o despertado à reflexão sobre a vida. Ou seria um naufrágio no caminho à cidade de Atenas? Seja como for, Brad Inwood nos conta que, antes de começar a ensinar, Zenão foi “seduzido pela leitura das ‘obras socráticas’, ele foi para Atenas a fim de aprofundar seus conhecimentos. Ele sentiu um verdadeiro choque com a leitura pública de algumas partes do livro II das Memórias de Xenofonte (430-355 a. C.) e perguntou onde poderia encontrar homens como o Sócrates (469-399 a. C.) que se acabava de descrever. Crates de Tebas (368/365-288/255 a. C.), filósofo cínico renomado, foi-lhe designado. Levado por seu entusiasmo socrático, Zenão se devotou aos ideais da filosofia cínica: ele tomou a decisão de viver ‘em conformidade com a natureza’ e de repensar as convenções da sociedade civil a partir de seus fundamento” (PRADEAU, p. 80). Isso mesmo! Zenão não apenas estudou o cinismo, como aprendeu filosofia aos pés de um mestre cínico, e chegou a viver como um verdadeiro discípulo de Antístenes. Por isso, antes de continuarmos com os estóicos, temos que fazer uma pequena digressão e estudar os cínicos. Só então poderemos voltar e compreender melhor o estoicismo.

O CINISMO

Antístenes foi um fiel discípulo de Sócrates. Maria Lacerda de Moura parece considera-lo o mais fiel seguidor do sábio de Atenas. “Antístenes, durante o processo de Sócrates e os dias que se seguiram à sua condenação, desesperado diante do inevitável, revoltado, louco de dor, fugiu a toda e qualquer presença, par apenas viver junto de Sócrates até os últimos momentos do filósofo. Depois, fugiu de toda gente, na angústia de uma perturbação irritante contra a maldade, a incompreensão e imbecilidade humana que condenam um Sócrates, cuja pureza ninguém queria ver” (PLATÃO, p. 70-71). Talvez a conturbação tenha-o feito imaginar que a apatia ante as coisas seria a solução para a felicidade. Ele deve ter se lembrado de um evento com Sócrates que certamente fertilizou sua mente, fazendo germinar o ‘cinismo’: “Conta-se que, um dia, Sócrates parou diante de uma tenda do mercado em que estavam expostas diversas mercadorias. Depois de algum tempo, ele exclamou: ‘Vejam quantas coisas o ateniense precisa para viver!’. Naturalmente ele queria dizer com isto que ele próprio não precisava de nada daquilo” (GAARDER, p. 147).
Pois bem, o que Antístenes ensinava? Gaarder esclarece: “Os cínicos diziam que a verdadeira felicidade não depende de fatores externos como o luxo, o poder político e a boa saúde. Para eles, a verdadeira felicidade consistia em se libertar dessas coisas causais e efêmeras. E justamente porque a felicidade não estava nessas coisas ela podia ser alcançada por todos. E, uma vez alcançada, não podia mais ser perdida” (GAARDER, p. 147). É importante destacarmos que, uma vez que a felicidade não dependia de algo que apenas poucos possuíam, como saúde, riquezas e status, antes dependia da competência racional que todos tinham para se tornarem ‘cínicos’, ela era de alcance universal. Aqui percebemos as raízes socráticas do pensamento de Antístenes. Ele credita a felicidade à competência universal dos homens, à razão humana. É, pois, algo de caráter universal. Chalita completa a doutrina: “o pensamento cínico pregava que a maior virtude que um homem podia atingir era a independência frente a todos os acontecimentos da vida. Isso significava libertar-se dos costumes e das normas sociais por meio da satisfação apenas das necessidades absolutamente vitais, como a alimentação e o sono; todas as outras, impostas pelas regras sociais, deveriam ser desprezadas” (CHALITA, p. 78). Para ele, pois, as coisas que nos faziam pensar serem necessárias para a felicidade seriam, na verdade, um construto social, um anseio artificial criado por homens, iludidos, buscando ídolos para satisfazer a ‘irrealização’ presente em seus corações (observem que as inquietações existenciais estão, novamente, presentes em outro filósofo da antiguidade). O anseio por riquezas, status e até saúde são impressos em nossos corações pela cultura em que vivemos, ensinava Antístenes.
Acontece que Chalita ensina que alimentar-se e dormir seriam coisas lícitas de se buscar. E, no final das contas, todas as lutas das pessoas banais não são fruto justamente dessa busca? Querem dormir melhor, mais confortavelmente, e comer bem, bem como garantir esses dois. Seja como for, Gaarder amplia e torna a visão cínica ainda mais radical: “Os cínicos achavam que as pessoas não precisavam se preocupar com a saúde, nem mesmo com o sofrimento e com a morte. E elas também não deveriam se atormentar com o sofrimento dos outros” (GAARDER, p. 148). Ou seja, a paz é alcançada quando não se importa com nada mais além da mera sobrevivência. Essa parece a proposta de Antístenes.
Antístenes, enquanto o mestre ainda vivia, não se deu a ensinar e ter discípulos. Por isso Moura relata que Antístenes dizia: “Quando uma época tem a felicidade de possuir um Sócrates, é só a ele que convém escutar [...] Aprendereis comigo daquele que me ensina; a água é mais fresca e mais sã, quando bebida na fonte” (ANTÍSTENES apud PLATÃO, p. 73) e prossegue: “E Antístenes não teve discípulos enquanto Sócrates viveu. [...] Morava no Pireu. Todas as manhãs andava quarenta estádios para ouvir Sócrates. Platão não foi tão longe...” (PLATÃO, p. 73). Mas é claro, logo tal discípulo comprometido iria angariar discípulos.
Alguém, além de Zenão, viveu ao extremo essa filosofia: “Diógenes (século IVa .C.), o cínico mais famoso, levou esse ideal às últimas consequências, vivendo em absoluta pobreza. Há histórias que afirmam que ele chegou a viver dentro de um barril, nu, e que ridicularizava a todos os cidadãos e seus hábitos com um humor implacável” (CHALITA, p. 78). Talvez zombasse deles, pra lá e pra cá, ávidos em conseguir coisas, mirando objetivos que não eram melhores que as miragens dos viajantes do deserto. Gaarder nos conta uma interessante histórica sobre Diógenes: “Conta-se que ele vivia dentro de um barril e não
possuía mais do que uma túnica, um cajado e um embornal de pão. [...] Um dia, quando estava sentado ao sol junto ao seu barril, recebeu a visita de Alexandre Magno. Alexandre aproximou-se do sábio, perguntou-lhe se ele tinha algum desejo e disse-lhe que, caso tivesse, seu desejo seria imediatamente satisfeito. Ao que Diógenes respondeu: ‘Sim, desejo que te afastes da frente do meu sol’. Com isto Diógenes mostrou que era mais rico e mais feliz que o grande conquistador. Ele tinha tudo o que desejava” (GAARDER, p. 147-148).

A HISTÓRIA DO ESTOICISMO

Inwood diz que, “em seu começo, ele [o estoicismo] se restringiu à atividade filosófica do fundador da escola” (PRADEAU, p. 80), ou seja, entendemos com isso que não havia mestres tão cedo do estoicismo. Talvez seus bons discípulos tenham vindo depois. O certo é que “ele reunia seus ouvintes debaixo de um pórtico. O substantivo estoico vem da palavra grega para ‘pórtico’ (stoa)” (GAARDER, p. 148).
Depois de um tempo como cínico, Zenão continuou a filosofar, e a estudar, e abandonou o ideal de Antístenes, conforme nota Inwood: “Somente muito mais tarde, depois de pesquisas aprofundadas em vários domínios da filosofia, foi que Zenão fundou uma escola que se comprometia na via de uma ciência universal. Essas ciências compreendia a física, aí incluídas a cosmologia e a teologia, a análise dos modos formais de raciocínio e da epistemologia, assim como uma determinada abordagem da ética e da política, onde se sustenta valores civis ao mesmo tempo em que se repensava seu fundamento” (PRADEAU, p. 80). Ou seja, Zenão tinha pretensões de desenvolver uma cosmovisão completa. Ele não poderia ter conceitos tão simplesmente ético-existenciais. Era preciso refletir sobre o mundo, sobre os homens, sobre as relações humanas e sobre os próprios pensamentos.
Inwood prossegue dizendo que “em seu começo a escola era pequena. Na realidade, os primeiros discípulos de Zenão forma chamados mais de ‘zenonitas’ do que ‘estoicos’, enquanto que os discípulos de Epicuro (341-270 a. C.) foram desde o início chamados de ‘epicuristas’” (PRADEAU, p. 81). Mas esse tímido movimento prosseguiu, ganhou caráter próprio e vida além do mestre, como segue informando Inwood: “mas o movimento fundado por Zenão sobreviveu ao seu fundador e adquiriu uma identidade independente. Os filósofo que escolheram seguir Zenão em vida formavam um conjunto heteróclito. Alguns eram, por exemplo, encarregados da tarefa frequentemente ingrata de conselheiros políticos [...] Outros discípulos de Zenão foram menos fiéis aos princípios filosóficos de seu mestre...”” (PRADEAU, p. 81).
Dentre os famosos estoicos, conhecemos aquele que viveram já a partir do primeiro século da era cristã em diante. Sêneca, o escravo Epíteto e o imperador Marco Aurélio são os mais celebrados. Entretanto, segundo Brad Inwood, “os mais célebres discípulos de Zenão foram incontestavelmente Cleanto de Assos (331/330-225/220 a. C.) e Ariston de Quios [nasceu por volta de 300 e não se sabe quando morreu] [...], dois rivais cujas interpretações da herança zenoniana diferiam sensivelmente” (PRADEAU, p.). Percebam, pois, que, já no início a própria ortodoxia zenonita (ou seja, estoica) havia uma disputa. Aliás, a disputa era justamente em definir a ortodoxia.
Quanto a Ariston, Inwood diz: “Como Herillus de Cartago, Ariston pensava que o coração das doutrinas da escola era a ética num sentido muito preciso, quer dizer, uma ética socrática de inspiração cínica” (PRADEAU, p.). Portanto, nesse sentido, o estoicismo não teria necessariamente uma cosmovisão, ou, pelo menos, a teria toda voltada para a ética.
Cleanto, por sua vez, “ao contrário, afirmava que a escola devia considerar a física, a teologia, mas também a epistemologia e a lógica como objetos de estudo da mesma importância da ética. Ele se esforçou para encontrar uma combinação satisfatória entre estes domínios de estudos que iria caracterizar a escola” (PRADEAU, p.) Ou seja, Cleanto seguia a proposta do mestre, como vimos, e buscou formar uma cosmovisão coerente dentro do estoicismo.
Bom, como Cleanto seguiu a proposta do mestre, estava ali a ortodoxia. Sendo assim “não é, portanto, de admirar que Ariston se tenha distanciado da escola estoica para libertar seu próprio ensino. Seus discípulos eram chamados de ‘aristonianos’, mas eles não foram muitos, e a influência da escola de Ariston não durou” (PRADEAU, p.) Entretanto, como veremos adiante, a escola acabou adotando uma postura mais aristoniana no futuro mais distante.
Inwood ainda nos diz que “Cleanto permaneceu à cabeça da escola quando da morte de Zenão em 262/261 a. C., durante trinta e dois anos até sua própria morte em 230/299 a. C.” (PRADEAU, p.). Portanto, a fidelidade aos princípios do mestre garantiu a Cleanto a sequência na administração da casa.
Mas o desenvolvimento da filosofia estoica não estava em Cleanto, mas em seu discípulo Crisipo: “Seu discípulo Crisipo de Soles (281/278-208/205 a. C.) assumiu as teses de Cleanto ([...] a propósito da tradição estoica e as desenvolveu”. Inwood amplia muito nosso conhecimento sobre Crisipo: “Depois de um período em que ele ministrou seu ensino de maneira autônoma, Crisipo reacendeu a chama da Escola. Ele se preocupava em permanecer fora da política, diferentemente dos primeiros estoicos; ele era, por outro lado, vigorosamente contrário à intepretação aristoniana do estoicismo. [...] Ele é conhecido por ter defendido com entusiasmo a concepção zenonista da epistemologia estoica (que mistura uma crença na possibilidade de um saber inabalável com posições materialistas e empiristas) contra a Academia”(PRADEAU, p. 81-82). Portanto, foi não apenas um sistematizador, mas também um apologista do estoicismo.
É aqui, em Crisipo, que temos a resolução máxima do estoicismo. Mais adiante Inwood irá dizer: “Ainda que as doutrinas da escola tenham evoluído consideravelmente durante os quinhentos anos de sua existência, a versão mais acabada e mais influente do estoicismo permanece seguramente aquela de Crisipo e dos seus discípulos” (PRADEAU, p.). Por isso, não achamos interessante prosseguir na exposição que Inwood faz sobre o resto da história. Podemos resumir que no século II a. C. houve uma perversão da doutrina. Mas, foi nesse período, como vimos, que os romanos começam a intervir na Grécia. Isso acabou minando o poder das escolas vigentes, as famosas escolas de Aristóteles e Platão, bem como o Jardim de Epicuro. Nesse tempo, o estoicismo já havia avançado por outros territórios e em breve alcançou o espírito romano. Vincent Cheung nos dá uma pista interessante para explicar como o epicurismo impregnou-se nos romanos: Posidônio, um filósofo estoico que viveu de 130 a 50 a. C., foi o instrutor de Cícero, e este último foi um dos grandes divulgadores da filosofia no império romano (CHEUNG, p. 23). Nos primeiros séculos da era cristã já não temos escolas oficiais, mas há mestres e escritores estoicos. A escola acaba ganhando uma cadeira no império, ao lado das cadeiras do epicurismo, aristotelismo e platonismo. Um imperador chega a ser estoico. Mesmo assim, a escola acaba morrendo no império romano cristão. Arrematemos a seção com Chalita: “O estoicismo teve uma longa duração, estendendo-se até o final do século II da era cristã, quando alguns pensadores romanos ainda cultivavam as ideias dos filósofos estóicos, modificadas conforme os interesses individuais, segundo os diferentes momentos históricos e lugares” (CHALITA, p. 77).

A FILOSOFIA DOS ESTOICOS

Com Inwood seguiremos o desenvolvimento máximo da cosmovisão estoica, encontrado em Crisipo e seus seguidores. Talvez, por isso, encontremos divergências para com outros autores (embora, claro, possa ser apenas incompletude de Inwood). Seja como for, buscaremos formular uma exposição completa da filosofia estoica em forma de cosmovisão.
Antes, é interessante notar as informações que Inwood nos concede sobre a teorização filosófica conforme era concebida por Zenão e demais estoicos. A filosofia era exposta dividida em física (metafísica e teologia inclusas), ética e lógica. “Para Zenão, trata-se na realidade de uma divisão do discurso sobre a filosofia mais do que de uma divisão da própria filosofia; outros filósofos (como Sêneca na Carta 89) afirmam com insistência que a filosofia em seu conjunto é uma, e que a divisão em partes é certamente útil, mas totalmente artificial. Podem existir divergências entre os estoicos quanto à ordem de apreensão destas partes. De acordo com eles, esta ordem é em certa medida o efeito de uma convenção; testemunha disso é a necessidade entrecruzar os temas próprios a cada uma das partes do ensino” (PRADEAU, p.). Na verdade, a sabedoria é uma coisa só, uma única disciplina. Sêneca reconhece que a divisão é útil, didática. Zenão entende que se trata de um discurso e não da própria filosofia. Tanto é que não podemos desassociá-las completamente ao discursar sobre cada uma particularmente.
Entretanto, mesmo concordando na utilidade do discurso filosófico fracionado em disciplinas diferentes, não entram em acordo para com a relação entre as partes da filosofia. Propuseram famosas analogias, como registra Inwood, para elucidar a questão: Sabe-se que os estoicos empregavam muitas analogias para descrever a relação das partes da filosofia entre si e em relação com o todo, e a maioria delas implica uma concepção holista e orgânica da filosofia. A única imagem que tende a fazer de uma parte da filosofia um elemento autônomo é aquela que compara a lógica com um tapume que cerca um campo cultivado, no qual a ética designa os frutos que aí crescem, a física as árvores que os carrega ou a terra que produz a colheita. A partir desta imagem, a física aparece em relação íntima e direta com a ética da qual ela recolhe os benefícios (a física é então a árvore que carrega as olivas, ou, antes, a terra onde cresce o trigo), enquanto que a lógica é o instrumento de proteção que parece separado desses benefícios. [...] Mas, em outras analogias, a lógica em seu papel de proteção é muito mais solidária com aquilo que ela defende: ela é a casca do ovo, ou, antes, os ossos e os tendões do corpo animal” (PRADEAU, p. 83-84).

FÍSICA, METAFÍSICA E TEOLOGIA

Comecemos a metafísica dos estoicos por Inwood: “A física estoica é profundamente influenciada pelo Timeu de Platão e pela cosmologia de Aristóteles. O cosmos é uno, é um todo finito, composto pelos quatro elementos fundamentais da matéria (a terra, o ar, o fogo e a água) e seus compostos (os estoicos consideram que existem dois princípios nos elementos: um princípio ativo divino e um princípio inerte, sem qualidade e passivo; mas estes dois fatores ou princípios não são jamais separados um do outro nos corpos)” (PRADEAU, p.). O que temos aqui são conceitos da matéria semelhantes aos de, primeiramente, Empédocles e seus quatro elementos; e, em seguida, o conceito próximo (senão idêntico) aos de Aristóteles e Platão, que concebiam a matéria em si algo próximo ao ápeiron de Anaximandro, ou seja, algo sem qualidades, apenas um ente com propriedade de ser. Esse, aliás, seria o ‘princípio passivo’, inerte, a qual Inwood se refere. Mas esse não é todo o quadro. Precisamos prosseguir para compreender como se dá o segundo princípio.
Quando foi dito que os estoicos foram influenciados por Platão, temos uma informação nova sobre o ateniense: “A exemplo de Platão os estoicos pensam que o cosmos é um ser vivo. No entanto, sua alma é incorpórea: ela é feita de pneuma, uma espécie de sopro composto de ar e de fogo (embora sua natureza seja controvertida no seio da escola)” (PRADEAU, p.). Bom, o que Inwood se esquece é de mencionar que os estoicos eram, aqui, influenciados por Heráclito. Sproul admite isso: “Deram ênfase à ideia de Heráclito do fogo seminal que determina todas as coisas, o logos spermatikos” (SPROUL, p. 54). Temos, pois, a alma do cosmos, algo imaterial, a quem nos referiremos por ‘pneuma’. É algo incorpóreo mas, ao mesmo tempo, lembra o fogo. Um ‘fogo espiritual’, talvez. Talvez aqui tenhamos a ideia do fogo, embora não o admitindo como algo deste mundo, algo material, e novamente voltamos a uma espécie de ápeiron (embora, agora, perfeitamente qualificado; estamos nos referindo apenas à ideia de que é algo que não é deste mundo). Difícil determinar. Inwood mesmo diz que é uma ideia controvertida.
Como já meio que antecipamos, esse pneuma ganha ares pessoais, talvez mero antropomorfismo de alguns, e é responsável pela ‘criação’ do mundo. Percebam a doutrina, segundo expõe Inwood: “os estoicos sustentam a ideia de que há ciclos de criação e de e destruição do universo, sob influência de uma entidade ativa divina, Zeus, responsável tanto pelo fim eventual do cosmos numa conflagração ígnea quanto por sua regeneração a partir do fogo, passando por uma zona úmida, até o reaparecimento dos quatro elementos conhecidos do cosmos” (PRADEAU, p. 84-85). Portanto, não só criação, como deterioração do mundo. Esse logos, portanto, é que determina todas as coisas, como apontou Sproul. A própria matéria emana dele, e para ele volta. Nesse sentido, temos mesmo uma espécie de panteísmo nos estoicos. Vincent Cheung, também admitindo a influência de Heráclito, arremata o conceito: “Provavelmente inspirado por Heráclito [...], os estóicos ensinavam que no princípio não havia nada, mas apenas o fogo eterno, do qual emergiram os elementos que construíram o universo. O mundo seria eventualmente consumido numa conflagração universal e retornaria para o fogo, e assim o ciclo da história iria se repetir eternamente” (CHEUNG, p. 23).
O logos é também o responsável pelo desenvolvimento de todas as coisas. Ele é como um princípio teleológico do mundo. Vincent Cheung, observando a ‘história’ da doutrina do logos, claro, chega aos estoicos, e então diz: “o estoicismo considera o logos um princípio da razão divina, e o logos spermatikoi governa, na forma de sementes e lampejos o fogo divino, o desenvolvimento de cada objeto na natureza” (CHEUNG, 2009, p. 63). Em termos semelhantes, deixando claro a responsabilidade pelo movimento do mundo material, temos Chalita: “O universo, por sua vez, teria um elemento que o organizaria racionalmente: o fogo; esse elemento faria aparecer todas as características da matéria nas diferentes coisas, como a luz solar faz uma semente germinar e crescer” (CHALITA, p. 77). O conceito de semente elucida o que Inwood, logo no começo desta seção, quis dizer por ‘princípio ativo’ nos elementos. É como se o logos ‘semeasse’ as qualidades no princípio passivo, conduzindo-o e levando-o às mudanças diversas, e a adquirir os mais diferenciados predicados.
Cheung admite a teleologia implicada pelo conceito do logos “O fogo divino que permeia todo o mundo é um fogo racional, e o logos ou Razão que determina o curso do universo. Algumas pessoas têm a concepção errônea de que pelo fato do Estoicismo afirmar que todos os eventos são determinados pelo Destino, ele nega, portanto, que haja um propósito na história. Contudo, visto que o logos deles é um fogo inteligente, o Estoicismo pode de fato afirmar uma visão teleológica do universo” (CHEUNG, p. 23). Portanto, não se tratava meramente de uma ‘força’, mas de uma força inteligente, (tal como em Anaxágoras), quiçá pessoal*1.
Aqui, antes de continuarmos na exposição da cosmovisão estoica, temos que lidar com um impasse. Ou os diversos intérpretes estão em franca contradição, ou não compreenderam bem o estoicismo, ou ainda não se expressaram muito bem. Pode ser, ainda, que os autores estejam se referindo às concepções de Zenão ou Cleanto, ao passo que estejamos analisando o desenvolvimento da doutrina em Crisipo*2. Percebam, primeiro, um tipo de informação. Sproul se refere, metafisicamente aos estoicos, da seguinte maneira: “Os estóicos desenvolveram uma cosmologia de materialismo” (SPROUL, p. 54). Portanto, para ele, os estóicos são materialistas, tal como Leucipo, Demócrito, Epicuro e Lucrécio. Junto a R. C. Sproul, temos Jostein Gaarder no seu clássico ‘O Mundo de Sofia’ (já antecipando nossa discussão antropológica): “... os estóicos também negavam a oposição entre ‘espírito’ e ‘matéria’. Para eles existia apenas uma natureza. Chamamos tal concepção de monismo” (GAARDER, p. 148). Portanto, evidentemente, os estoicos seriam materialistas e monistas. É Inwood que completa o ‘quadro de acusação’: “O cosmos é de fato um todo físico, onde não há nem vazio no interior (embora o cosmos seja cercado por um espaço vazio infinito), nem entidades causais eficientes incorpóreas” (PRADEAU, p.). Portanto, se não há causas eficientes corpóreas, temos um determinismo materialista à lá Demócrito.
No entanto, é o próprio Inwood quem vai nos falar de realidades incorpóreas: “Existem também os incorpóreos no sistema estoico: o vazio, o espaço, o tempo, os ‘exprimíveis’ (lekta), o conteúdo intelectual do discurso e do pensamento*3” (PRADEAU, p. 85). Não bastassem essas, ele mesmo admite a existência do ‘pneuma’, o deus estoico, que cria e destrói a todas as coisas. Não vimos que ele denomina esse pneuma como uma entidade incorpórea? E não foi estudado que é ele a causa eficiente, material, formal e final de todas as coisas? Talvez Inwood tenha intentado dizer que não há espíritos e deuses permeando o cosmos. Mas, transcendendo-o, semelhante à concepção metafísica de Espinoza, temos uma alma, incorpórea, determinadora de todas as coisas, e de onde todas as coisas surge. O conceito pode ser resumido em Charles Hodge: “O universo, portanto [...], do qual Deus é a alma, e a Natureza, o corpo, é vivo, imortal, racional e perfeito. [...] Deus, como o princípio controlador e operativo em todas as coisas, age segundo leis necessárias, totalmente racionais” (HODGE, p. 184).
Aqui nos deparamos com uma possível controvérsia. Vincent Cheung parece negar a transcendência do logos estoico: Os estóicos eram panteístas, de forma que o logos deles não é transcendente, mas imanente” (CHEUNG, p. 23-24). Entretanto, segundo o que temos visto, parece-nos possível conceber algum grau de transcendência tal como uma alma transcende o corpo, entretanto está intimamente associado a ele. A propósito, essa analogia foi, de fato, usada por Sêneca: “Sêneca explica Zeus ou a existência de Deus ao mesmo tempo que o mundo e a alma do mundo, apontando para o homem que se sente como um ser singular e contudo também como constituído de duas substâncias, corpo e alma” (DOLLINGER apud HODGE, p. 241). A analogia só falha pelo fato de que parece ser do próprio ser do logos que se faz o mundo, e onde ele termina. É como se esse ‘fogo’ misterioso transformasse-se na matéria e, em seguida (?), em tudo mais*4.
Podemos, então, falar de antropologia filosófica. Inwood faz uma intrigante afirmação: “Mas a alma, o espírito e deus são entidades causais que interagem com outros corpos; por conseguinte, eles são de natureza material, quer dizer, feitos do pneuma anteriormente mencionado” (PRADEAU, p. 85). Podemos entender ‘deus’ como o pneuma, e ‘espírito’ como parte da ‘alma’, mas não há qualquer indício de distinção, e, a única saída e recorrer ao conceito platônico que vê ‘espírito’ como uma parte da alma; uma alternativa é ver espírito como ‘pneuma’ – afinal, em grego, é esse o termo para espírito – e ‘deus’ como uma entidade diferente, mas isso iria complicar todo o sistema. Buscando conciliar as coisas, versemos sobre ‘deus’ como o pneuma. Sendo assim, claro, há uma relação causal para com o cosmos. Mas, e a alma humana? É certo que há uma interação entre o homem e a natureza. Então começamos a compreender a antropologia dos zenonitas. Inwood lança mais uma sentença nada clara (aliás, o que é comum no livro de Pradeau): “A alma humana perfeita é indiscernível, tanto física quanto moralmente, do ser divino” (PRADEAU, p. 85). É certo que tudo que existe provém do pneuma, e, talvez, nesse sentido, podemos falar de ‘monismo’ dentro de uma concepção panteísta. Mas, claro, há distinções de propriedades entre ‘alma’ e ‘matéria’. Para começar, a mais essencial de todas: a alma é ‘imaterial’. Ao menos a alma do mundo é. E é bem necessário que a alma dos homens o seja, afinal, nela reside os ‘exprimíveis’ e os conteúdos mentais. Retomando os dizeres de Cheung, o logos divino espalha suas sementes no cosmos, e isso não só originando e dirigindo o ‘movimento’ (no sentido antigo da expressão), mas criando pequenas ‘ramificações’, que são as almas humanas: “Esse logos universal produz sementes ou ‘faíscas’, os logoi spermatikoi, em todas as coisas, de modo que cada pessoa tem em si uma faísca do divino” (SPROUL, p. 54). Com essa concepção em mente podemos entender o conceito ‘cosmopolita’ dos estoicos, conforme aponta Gaarder: “Assim como Heráclito, os estóicos diziam que todas as pessoas eram parte de uma mesma razão universal, ou ‘logos’. Eles consideravam cada pessoa um mundo em miniatura, um ‘microcosmo’, que era reflexo do ‘macrocosmo’” (GAARDER, p. 148). Os homens são ‘micro-pneumas’, como ‘chuviscos ígneos’, faíscas do logos criador de todas as coisas (o que muitos, dentro de um contexto religioso politeísta, referiam-se a Zeus). Isso acabou “levando Epitecto a afirmar que existe uma ‘centelha de divindade’ dentro de todo homem” (CHEUNG, p. 24).
E, não podemos refletir adequadamente sobre antropologia filosófica sem lidar com a questão da imortalidade da alma. Quanto a isso, Vincent Cheung nota que “a visão estoica da história parece excluir a imortalidade individual, ainda que pareça haver visões levemente diferentes neste assunto” (CHEUNG, p. 23). Hodge confirma: “A alma dos homens é da mesma natureza que a alma do mundo, mas como existência individual, deixando de existir quando a vida do corpo cessa” (HODGE, p. 184). De uma forma ou de outra tudo que surge no fogo, termina no fogo, inclusive as almas humanas. Então Cheung prossegue, citando Marvin R. Vincent: “Eles negavam a imortalidade universal e perpétua da alma; alguns supondo que ela era englobada na deidade; outros, que ela sobreviveria apenas até a conflagração final; outros, que a imortalidade era restrita apenas aos sábios e bons” (VINCENT apud CHEUNG, p. 23).
Antes de terminar a metafísica, ainda nos resta refletir sobre o determinismo que o sistema implica. Inwood se expressa da seguinte forma: “No sistema estoico, todo acontecimento é causado e determinado por uma cadeia racional e providencial de causas e efeitos, que se reproduz naturalmente a cada ciclo de criação e destruição do cosmos. Somente os corpos podem ser causas ou efeitos” (PRADEAU, p. 85). Temos, aqui, pois, uma história cíclica. Um conceito provavelmente oriundo das filosofias orientais*5. Gaarder se expressa de maneira mais informal, ou menos técnica: “... os estóicos diziam que todos os processos naturais – por exemplo, a enfermidade e a morte – eram regidos pelas constantes leis da natureza. [...] Nada acontece por acaso, diziam os estóicos. Tudo acontece porque tem de acontecer e de nada adianta alguém lamentar a sorte quando o destino bate à sua porta” (GAARDER, p. 149). Claro, tal conceito irá suscitar críticas de viés ético-existencial que serão usadas pelos adversários do sistema, como Inwood nos conta: “O determinismo causal que caracteriza este sistema físico suscita críticas de seus adversários, mas Crisipo e outros estoicos tiveram sucesso em mostrar que a forma do determinismo que eles defendiam não excluía a responsabilidade moral e a possibilidade de cada um se tornar melhor, como sua própria teoria ética pressupõe” (PRADEAU, p. 85). Com isso, abriremos nossa discussão sobre a ética epicurista. Antes, uma breve exposição epistemológica.

EPISTEMOLOGIA

Os estoicos, tal como Heráclito, os materialistas e Aristóteles, eram empiristas também. Gabriel Chalita apresenta de forma sucinta o conceito: “O conhecimento seria adquirido sempre por meio dos cinco sentidos, que captariam as características dos objetos e dos seres. [...] as ideias e os conceitos sobre qualquer coisa são apenas combinações mentais das informações que o ser humano adquire sensorialmente” (CHALITA, p. 77), ao que Inwood expõe em termos mais formais: “Na medida em que os estoicos acreditam na confiabilidade das percepções sensíveis, e que o conteúdo da percepção pode constituir um fundamento sólido para a formação de conceitos e de inferências, é crucial mostrar a seus adversários (em geral, aos acadêmicos, durante o período cético da escola) que existe pelo menos um tipo de percepção sensível confiável” (PRADEAU, p.). É interessante destacarmos, aqui, um conceito que, posteriormente seria defendido por filósofos como David Hume, e que foi ignorado por Epicuro quando concebeu a existência dos deuses: os conceitos que formulamos são abstrações mentais, junções do que formamos em nossa mente, ou como coloca Chalita, combinações mentais das informações sensíveis. Não são, portanto, necessariamente, realidades concretas (ou quem sabe o sejam, se admitirmos um viés platônico do estoicismo).
Brad Inwood amplia nossa compreensão da epistemologia estoica: “Houve um debate em torno do que se chama de representação compreensível [...] no início do século III a. C., que se prologou até Cícero [..] sem que se possa, porém, reconhecer claramente um vencedor. Os estoicos permaneceram convencidos de que existem percepções sensíveis confiáveis, que contêm seu próprio critério de verdade e que representam as coisas tais como elas são na realidade. [...] A objeção cética consiste sumariamente em afirmar que se pode sempre encontrar e imaginar uma representação errada, indiscernível, de uma representação confiável, de maneira que sua verdade não pode jamais ser asseverada com certeza” (PRADEAU, p. 88). Diferindo-se de Demócrito, e agregados a Epicuro, entendiam que o que nos era informado pelos sentidos de fato, correspondia ao que era a realidade. O que temos na mente é, pois, uma representação do real. Mas os céticos trabalhavam com a questão de que o que é representado em nossa alma ser algo falso. No final das contas, essa discussão não pode ser resolvida apenas na lógica, mas tão somente no campo da disputa das cosmovisões. Tudo dependerá dos pressupostos assumidos e da coerência e abrangência das cosmovisões a que cada conceito é derivado.
Inwood também nos conta que “os estoicos se servem, além disso, da lógica como de um instrumento de defesa nas discussões” (PRADEAU, p.) e, por isso mesmo, ampliaram muito os estudos da lógica, particularmente no que diz respeito à análise de paradoxos e ambiguidades*6. E, por lógica temos todo o conceito do Trivium já organizado pois, como Inwood informa, “ela inclui tanto a retórica quanto a dialética”*7 (PRADEAU, p. 87).

ÉTICA-EXISTENCIAL

Uma ética adequada, coerente, deve estar calcada nos fundamentos da cosmovisão a que pertence. Nisso o estoicismo dá de dez a zero no epicurismo. Da metafísica e antropologia filosófica implicamos a ética. Lembremo-nos que a “razão do homem é vista como sendo do mesmo tipo do fogo eterno, o qual permeia a ordem do mundo” (BAHNSEN apud CHEUNG, p. 24). Portanto, o logos, aquele fogo que permeia o mundo, dirigindo seus passos, é o que habita em todos os homens. A razão humana é a razão do mundo. O curso da natureza, o destino, pois, é o curso da razão. Compreendido isso podemos entender esta citação de
Inwood: “No domínio da ética, os estoicos sustentam uma forma de eudemonismo: o objetivo da vida humana é a realização do fim (telos) que lhe é próprio [Aristóteles]. Este fim consiste em viver em conformidade com a natureza (a nossa natureza e a natureza do cosmos; compreende-se então a importância da ideia segundo a qual nossa natureza é idêntica à potência divina que estrutura o mundo natural)” (PRADEAU, p.). Portanto, a virtude consiste em olhar para a razão que está em nós e no mundo a fim de lhe seguir. É adequar-se, pois, ao logos, tal como existe em nós e fora de nós. Então tomemos Cheung para ampliar a discussão: “Visto que o homem está sujeito às forças imanentes do mundo, ele deve viver em harmonia com a natureza. Visto que a Razão permeia e governa o mundo, viver em harmonia com a natureza é viver em conformidade com a racionalidade, e a racionalidade é superior às emoções. Tudo que está fora da razão deveria ser visto com indiferença, seja o prazer, o sofrimento, ou mesmo a morte” (CHEUNG, p. 24). Nesse sentido parece que os estoicos consideram as paixões, o prazer e a dor, como efeitos não racionais na alma, que devem ser abandonados, desprezados e erradicados, afinal, “o mais elevado fim da vida é a virtude; e a virtude é viver segundo a razão” (HODGE, p. 184).
Isso nos leva ao conceito de apatia. Como já falamos repetidamente, há variantes na doutrina estoica, de modo que teremos dois tipos, pelo menos, de concepção estoica aqui. Uma, de viés mais cínico, é a que Chalita apresenta: “A felicidade, para os estóicos, era um estado de tranquilidade plena, que só podia ser atingido por meio da prática virtuosa. Por sua vez, a virtude era definida como uma negação constante, que consistia na indiferença dirigida a todas as experiências da vida; o estado que seria atingido com esta prática é descrito pelo termo grego apatheia. Em outras palavras, o homem não deveria se preocupar com questões relacionadas com a morte, não deveria se esforçar pelo enriquecimento material, nem deveria sofrer com o cansaço. O único valor, segundo os estóicos, é a sabedoria, que é alcançada com o cultivo do pensamento, que por sua vez é a única atividade em que vale a pena se empenhar. Em resumo, trata-se de uma indiferença direcionada a toda forma de prazer e de sofrimento. Tanto as experiências dolorosas quanto as prazerosas são irracionais, conforme a doutrina do estoicismo, porque são paixões, ou seja, vícios e, portanto, mal supremo” (CHALITA, p. 76). Aqui, evidentemente, temos um ‘q’ aristotélico quando se fala que a atividade máxima seria o cultivo da sabedoria que, para os estoicos, tal como Platão e Aristóteles tomam como sinônimo para sua própria filosofia, corresponde ao estoicismo. Prazer e dor, seguindo a interpretação também de Cheung, perturbam a alma. Não se deve ser afetado de forma alguma. Como Chalita completa: “Ser indiferente, ou seja, não sofrer nem agir por nenhuma paixão, era para os estóicos ser virtuoso. Dessa forma, o máximo da virtude seria alcançado quando o homem ficasse alheio a tudo, vivendo como numa fortaleza interior, tendo como seu tesouro o pensamento e a sabedoria filosófica” (CHALITA, p. 77). Essa perspectiva torna o perseguidor da tranquilidade um sujeito inerte que, de preferência, vive em reclusão e deixa as coisas rolarem. Entretanto, Inwood nos fala de uma corrente dominante (talvez a de Crisipo e seus discípulos), que concebem a coisa em termos um pouco diferentes: “Na corrente dominante do estoicismo, o ideal de vida é muito mais naturalista e é orientado também tanto para ação quanto para a contemplação. Todos os estoicos estão, no entanto, de acordo em afirmar que a virtude humana designa o estado ideal da alma racional unificada; eles subscrevem nesse sentido o ideal socrático do Protágoras ou do Fédon, mais do que o modelo platônico ou aristotélico da harmonização das ‘partes’ da alma entre si, cada uma tendo uma função própria e se comportando de maneira quase autônoma” (PRADEAU, p. 85-86). Ou seja, descartando a ideia de que a há repartições na alma, como o fizeram Platão e Aristóteles, fica definido que há somente um aspecto do homem que precisa ser realizado, levado a cabo: a razão. Mas o que diferencia essa interpretação é que se segue: “Viver de acordo com a natureza significa, por conseguinte, ter uma vida ativa, ter um ideal moral de autogoverno e se esforçar para alcança-lo” (PRADEAU, p. 86). Diferente da inércia cínica proposta na outra, aqui a conformidade com a natureza inclui atividade, embora atividade racional, consciente e em interação com o curso das coisas. Seja como for, todos concordam que é preciso uma vida de reflexão filosófica, contemplação.
Essa vida contemplativa, filosófica tem insinuações que não exploramos muito bem: “A vida completamente conforme à razão é a única vida virtuosa e feliz, e o melhor guia para levar esta vida perfeita e divina, de acordo com Crisipo, é a compreensão dos acontecimentos que ocorrem na natureza” (PRADEAU, p.). Portanto, a questão não é apenas lidar com o prazer e a dor, e sim lidar com o destino. Viver de acordo com a razão, com o logos, e viver de acordo com o curso racional e fixo que o logos mantém o mundo. “Os estoicos da corrente aristoniana parecem mais socráticos do que platônicos nesse ponto; para praticar a virtude, afirmam eles, o homem não tem necessidade de estabelecer uma teoria física elaborada” (PRADEAU, p. ). Eles entendem que não é, pois, preciso conceitos metafísicos elaborados, bastando seguir a vida em aceitação ao que ela traz. Já outros entendiam que um conhecimento da física e, quiçá, da metafísica, poderiam orientar o homem: “A vontade cínica de seguir a natureza mais do que as convenções se torna, nos estoicos eminentes, o esforço de viver em conformidade com esta ordem própria do cosmos regido pela providência” (PRADEAU, p.). Em todo caso, é impossível não pensarmos em Antístenes aqui.

Deixemos Sproul, resumidamente, resumir o que iremos expor de forma mais ampliada (percebam que ele fala a partir da perspectiva de que o estoicismo era materialista): “A preocupação central do estoicismo foi a filosofia moral. A virtude é encontrada na reação da pessoa ao determinismo materialista. O ser humano não pode determinar seu próprio destino. Ele não tem controle sobre o que lhe acontece. Sua liberdade é restrita à sua reação ou atitude interior ao que lhe sobrevém. O objetivo da vida virtuosa é a ataraxia*8 filosófica” (SPROUL, p. 54). Esse conceito de aceitar seu destino com apatia é muito bem trabalhado por Jostein Gaarder: “... os estóicos diziam que todos os processos naturais – por exemplo, a enfermidade e a morte – eram regidos pelas constantes leis da natureza. Por esta razão, o homem deveria aprender a aceitar o seu destino. Nada acontece por acaso, diziam os estóicos. Tudo acontece porque tem de acontecer e de nada adianta alguém lamentar a sorte quando o destino bate à sua porta. Também as coisa felizes da vida devem ser aceitas pelo homem com grande tranquilidade. Vemos aqui a proximidade dos estóicos com os cínicos, que viam com total indiferença todos esses eventos exteriores. Ainda hoje falamos de uma ‘tranquilidade estóica’ quando queremos nos referir a uma pessoa que não se deixa inflamar por seus sentimentos” (GAARDER, p. 149).
Portanto, a pessoa sábia é aquela que, refletindo, alcança a ciência do curso das coisas, mas também se autoconvence de que não há nada, em muitos casos, a fazer senão aceitar. Por isso Sproul diz: “Os estóicos buscavam a ataraxia pela prática da ‘imperturbabilidade’, a aceitação do destino pessoal com serenidade e coragem. [...] O segredo de uma vida boa e feliz é saber o que está sob o nosso controle e o que não está” (SPROUL, p. 54). A morte e a guerra eram, naqueles tempos, inevitáveis. Por isso, “diante da guerra e da morte inevitável, não há sabedoria a não ser na ataraxia – ‘encarar todas as coisas com serenidade de espírito’” (DURANT, p. 92). Isso mesmo, lutar contra a morte é uma perda de tempo, e só redundará em frustração. Ela, pois, se levanta como o símbolo máximo do que não pode ser evitado e deve ser encarado com naturalidade. Por isso, Durant completa: “... os estóicos achavam que a indiferença filosófica era a única atitude razoável para com a vida na qual a luta pela existência está tão injustamente condenada a uma derrota inevitável. Se a vitória for inteiramente impossível, deve ser desdenhada. O segredo da paz não é tornar nossas realizações iguais aos nossos desejos, mas baixar nossos desejos ao nível de nossas realizações” (DURANT, p. 90).
Máximas muito interessantes, então, surgem. Epiteto, o escravo, diz: “Não posso escapar à morte, mas será que não posso escapar ao medo dela?” (EPICTETO apud SPROUL, p. 54). Durant também se arrisca num aforisma: “Não procure fazer com que as coisas aconteçam segundo a sua preferência, mas prefira que elas aconteçam como têm que acontecer, assim viveras com prosperidade” (DURANT, p. 92). Essa é, pois, a “filosofia da ‘cabeça erguida’, pela qual nada jamais nos abala ou nos faz perder as esperanças” (SPROUL, p. 54). Por isso, “devemos demonstrar autocontrole, autossuficiência e indiferença emocional em meio às situações da vida. Mas se a vida se torna dura demais, o Estoicismo permite o suicídio” (CHEUNG, p. 24). Não estamos certos se essa concessão é, de fato, ortodoxa, visto que o suicídio só pode resultar de uma alma que está completamente afetada pela situação, de modo que está longe da ataraxia. Mas vale a observação de Cheung de que a doutrina implica em autodomínio, autocontrole e autossuficiência.
Fica, clara, pois, a diferença entre estoicos e epicureus, mas Gaarder é pertinente para assinalar e ressaltar a diferença: “O objetivo dos cínicos e dos estóicos era suportar todas as formas de dor, e isto é algo completamente diferente de fazer todo o esforço para tirar do caminho a dor.” (GAARDER, p. 149). Em certo sentido, o estoico também foge da dor, mas não por afastar-se do que traz dor, mas pela apatia.
Subsiste a questão de como educar a alma e alcançar a ataraxia (semelhante a um nirvana). Vamos com Inwood: “Os meios da educação moral que os estoicos conservam parecem estar inspirados em Aristóteles, tornamo-nos corajosos ao realizar ações corajosas, ainda que, à primeira vista, a maioria das ações corajosas não atinja o ideal procurado” (PRADEAU, p. 86). Assim, tal como Aristóteles ensinava que a virtude só pode ser alcançada pela imitação dela mesma, ou seja, na prática da virtude, o estoico dirá que a tranquilidade só pode ser alcançada na busca pela tranquilidade. Esse conceito é importante para livrá-los de uma arapuca que se monta à frente diante do sistema, e que Inwood mesmo nos informa: “Encontramos o mesmo absolutismo paradoxal na psicologia moral dos estoicos: sendo dado que a alma humana é uma (não existe partes irracionais para controlar, trata-se somente de perfazer o exercício de sua razão), a única maneira de preservar sua liberdade contra as perturbações devastadoras e dolorosas que se chamam paixões (pathé) consiste em erradicar pura e simplesmente qualquer erro e qualquer forma de fraqueza moral. Somente o ‘sábio’ pode atingir esse estado; infelizmente os modelos a imitar são, em todo caso, muito pouco numerosos, e Sócrates é a única figura de sábio que não se presta à controvérsia” (PRADEAU, p. 86). Traduzamos o problema da seguinte maneira: a alma só se liberta das perturbações, da dor, quando não é mais afetada pelas paixões. Mas somente a alma já perfeita, da qual não temos muitos exemplos (se é que temos), pode não ser afetada pelas paixões, de modo que todos, no final das contas, estão enredados na situação de afetação e distantes da perfeição. Se você precisa ser perfeito para não ser afetado, como poderá, a partir da situação de suscetível à afetação, tornar-se perfeito se, para isso, é preciso não ser afetado? Podemos colocar ainda de outra forma. A alma só é livre se não houver erros morais, se for apática. Mas só alcança a apatia quem tiver alcançado a perfeição. Portanto, a alma não poderia se erradicar. Como dissemos, o segredo está na busca pela apatia. Através da reflexão a alma irá se tornando cada vez menos afetada até atingir a apatia total, o nirvana estoico. Quanto mais próximo da apatia, mais feliz se é.
Gaarder nos conta que a ideia de que há uma ‘partícula divina’ em todo homem gera a ideia de direito universal e natural: “Isto levou à ideia de um direito universalmente válido, o assim chamado direito natural. O direito natural baseia-se na razão atemporal do homem e do universo e, por isso mesmo, não se modifica no tempo e no espaço. Nesse sentido, os estóicos colocam-se ao lado de Sócrates contra os sofistas. O direito natural vale para todas as pessoas, inclusive para os escravos. Para os estóicos, as legislações dos diferentes Estados não passavam de imitações imperfeitas de um direito cujas bases estavam na própria natureza” (GAARDER, p. 148). Essa é uma implicação muito interessante da doutrina, e não a vimos explorada por outros autores, exceto, talvez, por Franklin Ferreira e Alan Myat: “para os filósofos estóicos, este mesmo princípio cósmico [o logos] permeia todas as coisas e provê o padrão de conduta para o homem racional” (FERREIRA; MYATT, p. 509). Novamente, é possível que seja uma modificação de algum estoico em particular. Seja como for, é perfeitamente adequada. O homem tem valor, naturalmente, por ser, em certo sentido, divino, e, a partir da razão, i. é., da concepção humana do que é bom, deve-se legislar. Lado outro, tudo seria divino num sistema panteísta, talvez, dependendo da interpretação do estoicismo, não tendo uma ‘alma’ semelhante ao logos, mas, certamente, ‘parte’ dele.
Gabriel Chalita e Jostein Gaarder também falam da implicação sociológica do conceito antropológico-filosófico. “Na política, finalmente, há uma única ideia estoica relevante. Eles afirmavam que o homem não pertenceria a um país ou a uma cidade, mas sim que ele seria cidadão do mundo. Essa ideia foi denominada de cosmopolitismo. Assim, afirmou Musônio Rufo, no século I: ‘O mundo é a pátria comum de todos os homens’” (CHALITA, p. 77). Chalita diz que essa seria a única contribuição relevante que fizeram à filosofia política. Gaarder nota que é uma ideia perfeitamente pertinente ao momento imperialista que viviam esses pensadores: “Os estóicos eram marcadamente ‘cosmopolitas’, o que significava que eram filhos legítimos de usa época. Sendo cosmopolitas, eram mais abertos para a cultura contemporânea do que os ‘filósofos de barril’ (os cínicos). Os estóicos chamavam a atenção para a convivência entre as pessoas, interessavam-se por política, e alguns deles chegaram até mesmo a ser estadistas atuantes, como o imperador romano Marco Aurélio (121-180), por exemplo” (GAARDER, p. 148-149).

CRÍTICA

Como estamos falando de Grécia (mesmo de Roma), estamos falando de confronto aberto e sério de ideias. O estoicismo, pois, seria criticado, e teria de se defender. Principalmente por se tornar uma cosmovisão tão importante e, justamente, por se tornar uma cosmovisão. Olharemos, pois, para algumas objeções históricas a esta visão de mundo e para algumas outras questões que ela suscitou. Outras questões, como o problema epistemológico, já foram abordadas no decorrer do texto. É importante irmos vendo o que já temos e um dos grandes problemas do estoicismo é justamente seu empirismo, sem, ao que nos parece, considerar a possibilidade de haver ideias inatas*9.
Uma primeira crítica óbvia é a dos que, contra o determinismo, acreditam que a inércia é a resposta. É como se, pelo fato de as coisas estarem determinadas, fossemos embargados de fazer algo. Observem o relato de Durant: “Quando Zenon, que não acreditava na escravidão, e estava batendo num escravo seu por causa de algum delito, o escravo alegou como atenuante que, segundo a filosofia de seu senhor, ele tinha sido destinado, por toda a eternidade, a cometer aquela falta; ao que Zenon replicou com a calma de um sábio, que, de acordo com a mesma filosofia, ele, Zenon, tinha sido destinado a bater nele por causa dela” (DURANT, p. 90). Essa é, pois, a perspectiva prática ante o determinismo. De fato, não há coação. Mesmo assim, a relação de causa e efeito é preservada de modo que a concepção sobre o mundo ainda é racional.
Uma das críticas mais mordazes que vimos é do próprio Epicuro, segundo nos informa Durant: “Seu ponto de partida é uma convicção de que a apatia é impossível, e que o prazer – embora não necessariamente o prazer sensual – é a única finalidade concebível, e perfeitamente legítima, da vida e da atividade [...] até mesmo um estoico sente um prazer sutil na renúncia” (DURANT, p. 90-91). A essa objeção achamos impossível o estoico fugir. Ela falha, justamente, em não lidar com um fenômeno óbvio: temos, seja lá o que for, ‘receptores’ de paixão, e isso é muito natural no homem. A alma humana não consiste simplesmente em razão. Negar as afeições é negar a própria natureza humana, o que é impossível. Mesmo que tenhamos o maior estoico como exemplar, saberemos que ele sente-se bem, sente prazer, na sua apatia plena.
Agora, finalmente, temos que lidar com uma questão muito corrente, a saber, a de creditar ao cristianismo algum plágio ao estoicismo. Durant, que faz essas estúpidas comparações, é quem nos servirá de base para a crítica: “Em trechos assim, sentimos a proximidade do cristianismo e seus intrépidos mártires; de fato, não eram a ética cristã da abnegação, o ideal político cristão de uma fraternidade quase comunista do homem, e a escatologia cristã da conflagração final do mundo inteiro, fragmentos da doutrina estoica flutuando na corrente do pensamento?” (DURANT, p. 92).
Primeiramente, ofereçamos uma resposta à questão da abnegação, da autossuficiência que os cristãos martirizados demonstraram, à sua calma estoica ante a morte. Observemos que, embora todos não sejam destinados ao martírio, só consegue ser martirizado os que eram extremamente piedosos e virtuosos, de modo que seu caráter torna-se padrão para o cristianismo. Bom, em primeiro lugar, longe de estarem apáticos, eles aceitavam com alegria seu destino, cientes de que estariam com Cristo. Além disso, consideravam que Deus é quem guiava seus destinos, e, assim, aquela situação estava sob controle.
Seguimos com Cheung. Observando que o estoico poderia ver uma semelhança de seu ensino em Filipenses 4:12, o filósofo observa que a grande diferença está no verso 13: “Tudo posso naquele que me fortalece” e expõe: “O Cristianismo na verdade ensina a autossuficiência espiritual, emocional e social, sem rejeitar a legitimidade da comunidade; contudo, esta autossuficiência é somente relativa a outros seres humanos, mas não para com Deus, de modo que estamos sempre em necessidade dele [...] Os recursos internos do cristão provêm de Deus, que é distinto do próprio cristão, enquanto que os estóicos buscavam alcançar a autossuficiência absoluta, e não a autossuficiência relativa do cristão. Nós vencemos o mundo e cumprimos nosso propósito não por nós mesmos, mas pelo poder de Deus, o qual opera poderosamente em nós (Colossenses 1:29)” (CHEUNG, p. 25). Tal conceito, pois, faz toda a diferença. Nossa suficiência está em Cristo, e tão somente nele!
Claro, há muitas outras dissemelhanças e Cheung menciona mais algumas: “Este Deus não é um fogo racional imanente panteísta que é parte do universo, mas uma mente transcendente racional que é distinta e o criador do universo. [...] Ele é imanente no sentido de que escolhe exercitar seu poder nos assuntos humanos e naturais, mas ele não é parte desta criação, nem está limitado a ela. E ao contrário da filosofia estoica, não importa quão difícil nossa vida se torne, não há justificativa para cometer o suicídio” (CHEUNG, p. 25).
Durant também fala da escatologia cristã, particularmente a doutrina do inferno ou do fim do mundo ter vindo do estoicismo. Bom, é bem possível que a doutrina do purgatório seja influenciada por esta concepção pagã. “Também para os estóicos gregos, o fogo era um princípio elementar e a alma do mundo, e assim eles ensinaram uma renovação do mundo por meio do fogo” (HODGE, p. 1585). Charles Hodge nos conta da doutrina do purgatório (e não a do inferno) surgindo a partir de ideias gregas do fogo como purificador de todas as coisas. Orígenes parece ser o primeiro a defender essa ideia, mas logo Agostinho iria lhe dar formato doutrinário e Gregório Magno consolidaria tal conceito como doutrina oficial da Igreja (HODGE, p. 1586-1587). Mas as semelhanças com o estoicismo terminam aí.
Como já foi observado, a história, para os estoicos, é cíclica. Além disso, não há existência do homem após a morte, senão a mesma existência no término do ciclo e início do mesmo ciclo. A única diferença entre os ciclos é como os encaramos, como lidamos com o que se nos procede. A alma, não material, parece fugir da causalidade inalienável. Mas isso é tudo. Entretanto, isso faz a visão estoica ser completamente distinta da visão bíblica, conforme salienta Hoekema: “A visão da história dos gregos é incompatível com a visão cristã, que vê história como um cumprimento do propósito de Deus, e como movendo-se em direção a um alvo. Para os escritores da Bíblia, história não é uma série de ciclos repetitivos sem sentido, mas um veículo através do qual Deus realiza seus propósitos para o homem e o universo. A ideia de que a história está se movendo para alvos estabelecidos por Deus, e que o futuro é para ser visto como o cumprimento de promessas feitas no passado, é a contribuição singular dos profetas de Israel” (HOEKEMA, p. 31). O fogo que irá consumir o mundo irá, de fato, renová-lo, mas será de uma vez por todas e para sempre. Não há ciclo, mas linearidade.
E há total relevância do que se faz enquanto no presente, determinando o que se passará no futuro. Isso, aliás, alavanca uma pesada crítica que John Marsh faz, de cunho existencialista, a esta cosmovisão: “Além disso, se tudo que pode acontecer é a constante repetição de um ciclo de eventos, não há possibilidade de sentido no ciclo em si. Ele não alcança nada em si próprio e também não pode contribuir para nada fora de si. Os eventos da história são destituídos de significado” (MARSH apud HOEKEMA, p. 30). Afinal, por que a história é cíclica? Por que esse deus estoico não cessa de destruir e reconstruir o mundo, da mesma forma? Qual o objetivo disso tudo? Sem resposta a tal fenômeno, a cosmovisão peca por falta de abrangência.

------------------------------------------------------------------------------
*
Aliás, temos de concebê-la pessoal, afinal, por que é que o mundo surge e é destruído? Seria uma escolha do pneuma?
*2 Nossa suspeita é ampliada por conta de uma afirmação de Durant que, embora mencione algo que só iremos estudar noutra seção, vale a pena ser citada: “Zenon ergueu sua filosofia da apatheia sobre um determinismo que um estóico posterior, Crisipo, achou difícil distinguir do fatalismo oriental” (DURANT, p. 90). Isso, levado em conta que Crisipo desenvolveu a cosmovisão estoica e a defendeu de seus opositores, nos leva a pensar em reformulações posteriores a Zenão.
Hodge afirma categoricamente que o monismo era adotado inicialmente, mas fora abandonado nas formulações posteriores, não dizendo, no entanto, exatamente quando a metafísica foi alterada: “É sobejamente claro que os estóicos posteriores, especialmente entre os latinos, como Sêneca e Marcos Aurélio, consideravam o princípio geral que animava a matéria como tendo todos os atributos da mente” (HODGE, p. 248).
*3 o ‘conteúdo do pensamento’ são as ideias. Será que eles concebiam-nas existindo à parte das coisas, tal como Platão?
*4 É claro, também podemos conceber a matéria eterna sendo apenas fecundada pelo logos de modo a ganhar propriedades. Mas esse não parece ser exatamente o conteúdo dos estóicos, embora não nos espantássemos com alguém alegando tal interpretação. E não é que Charles Hodge assim expõe o estoicismo? Vejam, ele expõe o estoicismo, primeiro, considerando-o, além de panteísta, hilozoísta (i. é., acredita numa ‘força inteligente, viva’ dentro da matéria), de modo que o logos está em todas as coisas: “Há dois princípios constituintes do universo, um ativo e outro passivo. O princípio passivo é a matéria sem forma e sem propriedades, ou seja, inerte. O princípio ativo é a mente, que habita na matéria seu poder formativo organizador, ou seja, Deus. [...] O universo deve, portanto, ser considerado sobre três aspectos: (a) Como o poder formador de tudo [...] (b) o mundo, como formado por esse princípio vivo, interior [...] (c) a identidade dos dois, quando formam um todo” (HODGE, p. 184). Bem adiante, temos uma clara admissão, de um autor citado por Hodge, que pensa-se na matéria eterna e o logos servindo como causa eficiente, formal e final, mas não material: “A deidade em ação, se podemos assim falar, é um certo éter ou fogo ativo, possuindo inteligência. Este deu forma, no princípio, ao caos original, e, formando uma parte essencial do universo, sustenta sua ordem” (BRYANT apud HODGE, p. 1585).
*5 Cf. o capítulo 7 do brilhante livro de James W. Sire denominado ‘O Universo ao Lado’. Hodge diz claramente que o conceito é hindu: “Os estóicos adotaram a doutrina hindu da dissolução de todas as coisas e do redesenvolvimento de Deus no mundo, depois de longos períodos sucessivos” (HODGE, p. 241).
*6 Infelizmente não é possível colocar as contribuições dos estoicos aqui sem causar enfado. Esta é uma exposição dos conceitos essenciais dos estoicos e basta-nos saber que eles apreciava a disciplina de forma geral.
*7 Quanto à semântica, também lograram-nos elucubrações. Entretanto, ficaram um tanto quanto controversas na exposição de Inwood e, por isso, resolvemos exilá-las do corpo do texto, trazendo-as para o rodapé: “Os estoicos desenvolvem uma teoria semântica complexa, fundada no conceito de exprimível (lekton), e são os primeiros a se interessar pelo conteúdo dos enunciados e dos pensamentos enquanto tais (contrariamente a Aristóteles e a Platão, para quem o sentido da proposição reside na predicação de uma propriedade)” (PRADEAU, p. 87). Os estoicos, segundo Inwood, falam do ‘exprimível’, o que parece se referir ao conceito concebível e que pode ser comunicado. Eles ocuparam-se de estudar os conceitos enquanto conceitos apenas, ao passo que Aristóteles e Platão, diz o autor, falavam do sentido de algo enquanto predicação de uma propriedade. Portanto, um conceito teria sentido enquanto fosse as qualidades de algo sendo comunicado em uma proposição. Isso ficou estranho pois nos parece que Platão concebia os conceitos como conceitos mesmo, como ideias.
Sendo assim, Inwood parece falar de conceitos existindo por si, sem conexão com o mundo para terem significado de forma que não precisem ser predicados para ganharem-no. Mas isso demanda uma metafísica plantonista. Lado outro, eram empiristas, e os conceitos seriam abstrações e junções do percebido.
*8 “A palavra grega pode ser traduzida mais ou menos como ‘paz interior’ ou ‘tranquilidade da alma’” (SPROUL, p. 54).
*9 Lembremo-nos, novamente, que tal ponto foi devidamente trabalhado no artigo sobre epistemologia em Platão.

REFERÊNCIAS

CHALITA, Gabriel. Vivendo  Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.

CHEUNG, Vincent. Confrontações Pressuposicionalistas. Tradução de Felipe Sabido de Araújo Neto e Marcelo Herberts. Brasília: Monergismo, 2006, 83 páginas (e-book).

CHEUNG, Vincent. Questões Últimas. Tradução de Marcelo Herberts. Brasília: Monergismo, 2009. 143 p.

DURANT, Will. A História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 4ª ed., 2001, 406p.

FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, 1220p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.

HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo:Editora Hagnos, 2001. 1777p.

HOEKEMA, Anthony A. A Bíblia e o Futuro. Tradução de Karl H. Kepler. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1989, 391 p. (e-book).

INWOOD, Brad. O estoicismo _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução e Apêndice de Maria Lacerda de Moura; Introdução de Alceu Amoroso Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, 88p.

SPROUL, R. C. Filosofia para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208 p.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O Materialismo Antigo - de Anaxágoras a Epicuro

Iremos, agora, dissertar sobre o materialismo filosófico que, salvaguardando as nuances diferenciadoras, pode ser chamado, também, de naturalismo filosófico. Aqui, pois, materialismo deve ser diferenciado de materialismo moral; e naturalismo filosófico deve ser diferenciado da atitude do biólogo e suas pesquisas. Com tais ressalvas, podemos introduzir nosso assunto de forma mais apropriada.
Ronald Nash observa que “antes de Albert Einstein e de outros cientistas responsáveis pela revolução na física que levou à era nuclear, a ciência do século 19 explicava o universo como sendo uma coleção de átomos individuais que, em combinações diversas, inventava tudo o que existia. [...] um tipo similar de atomismo, simplista nos aspectos específicos, existia já na Grécia antiga durante o tempo de Sócrates e Platão, sendo revivido e modificado pela escola de filosofia conhecida como epicurista” (NASH, P. 45).
Exploraremos os pensadores da antiguidade que refletiram em termos materialistas. São, tal como Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito e Parmênides, filósofos da natureza*1. Entretanto, são naturalistas no sentido especial que mencionamos acima. Por isso, Nash assim comenta sobre eles: “A maior parte dos filósofos que vieram antes de Sócrates, Platão e Aristóteles é descrita como naturalista. [...] Tendiam a dizer, comparativamente, pouco sobre temas humanos como conhecimento e ética. Uma das razões pelas quais eram chamados de naturalistas é porque tais pensadores concentravam sua atenção na natureza em vez de coloca-la nas questões humanas. [...] Os antigos pensadores gregos geralmente pensavam que o mundo natural, ou universo físico, era a única realidade existente. Uma das consequências disso foi sua negação da existência de qualquer coisa fora dos limites do universo físico” (NASH, p. 45). A propósito, Durant acredita que a filosofia natural teria de descambar-se em materialismo mesmo, e elabora essas palavras resumindo o histórico da cosmovisão na antiguidade: “A princípio, essa filosofia era física; olhava para o mundo material e perguntava qual era o final e irredutível componente das coisas. O resultado natural dessa linha de pensamento foi o materialismo de Demócrito [...] Esta era uma das principais correntes da especulação grega; ficou subterrânea durante algum tempo, na época de Platão, mas emergiu em Epicuro [...] e tornou-se uma torrente de eloquência em Lucrécio” (DURANT, p. 26).
Por isso, voltaremos, um bocado, no tempo, a começar pela época dos filósofos da natureza, iniciando, pois, em Anaxágoras, e terminaremos em Lucrécio, no último século antes do nascimento e ressurreição de Jesus Cristo e, também, o final da República Romana (contexto que já trabalhamos historicamente). O método será apresentar cada um dos pensadores com as informações que colhemos e, em seguida, suas ideias nos ‘locis’ da filosofia, traçando um desenvolvimento histórico do materialismo, dos precursores até à ideia do atomismo em si, seguido, por fim, de uma avaliação. Vamos, pois, dar as boas-vindas a Anaxágoras, Empédocles, Demócrito, Leucipo, Epicuro e Lucrécio!

ANAXÁGORAS

Sobre este filósofo, Gaarder informa: “O que há de interessante ainda sobre Anaxágoras é o fato de ele ter sido o primeiro filósofo de Atenas, cuja vida conhecemos em parte. Natural da Ásia Menor, aos quarenta anos aproximadamente ele se mudou para Atenas. Ali foi acusado de ateísmo e teve que deixar novamente a cidade” (GAARDER, p. 52). Essa condenação de Anaxágoras, segundo Osborne, se deu no ano de 450 a. C. (PRADEAU, p. 31). Durant e Gaarder nos contam que ele teria nascido em 500 a. C. e morrido em 428 a. C. (DURANT, p. 66; GAARDER, p. 51).
Gaarder ainda nos informa sobre algumas afirmações ‘perigosas’ (para aqueles tempos) que ele fez: “Dentre outras coisas, ele disse que o Sol não era um deus, mas uma massa incandescente, maior do que a península do Peloponeso. Anaxágoras interessava-se muito por astronomia. Ele acreditava que todos os corpos celestes eram feitos da mesma matéria que compunha a Terra. E chegou a esta convicção depois de ter examinado um meteorito. Por isto seria de se pensar que em outros planetas houvesse vida, dizia ele. Além disso, Anaxágoras explicou que a Lua não possuía luz própria, mas que tirava seu brilho de Terra. Finalmente, ele explicou como surgiam os eclipses" (GAARDER, p. 52). Sobre os eclipses Durant também comenta: “Anaxágoras [...] parece ter dado uma explicação correta dos eclipses solar e lunar” (DURANT, p. 67). E, além disso, teria feito pesquisas biológicas também, chegando a opinar na antropologia: “descobriu os processos de respiração nas plantas e nos peixes; e explicou a inteligência do homem, atribuindo-a ao poder de manipulação que veio quando os membros dianteiros ficaram liberados das tarefas de locomoção” (DURANT, p. 67).
Mas o que nos interessa mais são suas elucubrações filosóficas, e são nelas que nos demoraremos um pouco mais.

METAFÍSICA: A ARCHÉ

Na busca pela ‘arché’, Anaxágoras inovou o ‘mercado das ideias’. Ele não optou por um dos elementos que encontramos, como o fizeram Tales e Anaxímenes. Assim, Gaarder está correto ao afirmar: “Ele também não aceitava a ideia de que terra, ar, fogo ou água pudessem se transformar em ossos, pele ou cabelos” (GAARDER, p. 51). Também não optou por algo tão ‘transcendente’ como Anaximandro. “Anaxágoras prestou uma contribuição importante à era pré-socrática com uma única modificação do pluralismo corpóreo. Ele achava que o mundo material é composto de unidades eternas que chamou de ‘sementes’ (spermata)” (SPROUL, p.26). Mas temos que ter cautela. Ele não era exatamente um atomista (no sentido de postular uma partícula mínima indivisível). As ‘spermatas’ eram perfeitamente divisíveis até ao infinito, como nos informa Osborne: “Anaxágoras considerava que os elementos primeiros eram infinitamente divisíveis, de modo que não existe limite para a pequenez de uma gota de água” (PRADEAU, p. 20).
Mas cabia a Anaxágoras, pois, explicar como uma coisa se torna outra, ou seja, explicar as mudanças. Entendemos que ele está propondo que todas as coisas são compostas de partículas minúsculas, podemos chama-las de sementes, mas, como é que essas sementes tornam-se uma coisa ou outra? Gaarder é muito límpido em sua explicação: “Anaxágoras achava que a natureza era composta por uma infinidade de partículas minúsculas, invisíveis a olho nu. Tudo pode ser dividido em partes ainda menores, mas mesmo na menor das partes existe um pouco de tudo. Assim, se pele e cabelo não podem surgir de alguma outra coisa, então eles devem estar presentes também no leite que bebemos e nas comidas que comemos” (GAARDER, p. 51). É isso mesmo que acabamos de ler! Tal como numa célula, que contém todas as informações sobre nosso genótipo, em cada ‘semente’ temos partes de tudo que existe. Isso explicaria, na mente do filósofo, como ocorreriam as mudanças, conforme nos explica Osborne: “Um de seus objetivos [de Anaxágoras] foi claramente dar uma explicação à mudança química que respeite o velho ditado segundo o qual ‘nada vem do nada’. Anaxágoras explica que, em toda mudança aparente, o material de origem, que parece puro, é na realidade uma mistura, de maneira que, no material ao qual a mudança dá lugar, na realidade essa mistura já estava presente [...] Anaxágoras sustenta que tudo, até o depósito calcário deixado no fundo do copo, contém minúsculas combinações de todos os tipos de materiais” (PRADEAU, p. 20). Portanto, parece que Anaxágoras estaria ensinado que tudo que acontece é um rearranjo material. A filosofia deste filósofo, pois, não nos parece muito clara e o que nos resta são especulações.
O conceito claro é que ‘spermatas’, pois, são partículas que têm um pouco de todas as coisas, como conclui Gaarder: “Anaxágoras chamava estas partes minúsculas, que traziam em si um pouco de tudo, de ‘sementes’ ou ‘gérmens’” (GAARDER, p. 52). O que Anaxágoras propõe de inovador, de especial, é a ideia de que, de repente, haveria uma única forma de matéria (nada tão etéreo quanto a proposta de Anaximandro) que comporia todas as coisas.

METAFÍSICA: O MOVIMENTO

Já sabemos como Anaxágoras pensa em relação à realidade. Mas falta uma explicação para o movimento. Porque as coisas mudam e se movimentam? O que as faz agregarem-se ou separarem-se? Ele também faz, pois, aqui, suas contribuições. Gaarder, como lhe é peculiar, é muito claro na exposição: “Anaxágoras também imaginou um tipo de força que seria responsável, por assim dizer, pela ordem e pela criação de homens, animais, flores e árvores. A esta força ele deu o nome de inteligência” (GAARDER, p. 52). Ou seja, relacionado à criação de todas as coisas, ou melhor, à causa que fez as coisas surgirem de uma primeira mistura (portanto, presume-se, como é natural dos filósofos da natureza, a eternidade da matéria) ou ainda, em termos aristotélicos, a causa eficiente e formal do mundo, está um princípio imaterial, não composto. É Osborne quem nos esclarece: “A fim de explicar como o mundo nasceu de uma primeira mistura, Anaxágoras a denomina o ‘Intelecto’, uma forma de inteligência ordenadora que é a única realidade que não pode ser um composto. O ‘Intelecto’ parece igualmente designar a inteligência inerente a cada coisa viva” (PRADEAU, p. 20).
Temos, no entanto, que ponderar bem sobre esse conceito. Ele é inovador, em certo sentido (podendo ser visto de alguma forma análoga em Heráclito), mas não chega a ascender a ideias teístas, como nota Sproul: “Singular em Anaxágoras foi sua ideia de que a realidade compõe-se não apenas de matéria mas também de mente. Na busca de um princípio racional que organizasse e harmonizasse as sementes do mundo material, ele desenvolveu seu conceito de nous. [...] Contudo, Anaxágoras não preencheu seu conceito de nous com a ideia de um criador ou regente pessoal do universo. Seu conceito era mais abstrato, de um poder ou força impessoal que é o princípio teleológico (proposital) da realidade” (SPROUL, p. 26-27).

EMPÉDOCLES

Ele nasceu em “Arigento, cidade localizada na Sicília, ilha hoje pertencente ao território italiano” (CHALITA, p. 41). A data de seu nascimento é discutida. Gaarder nos fala de 494-434 a. C. (GAARDER, p. 49); Durant nos diz que ele teria falecido em 445 a. C. (DURANT, p. 67) e Chalita ainda arrisca 490-430 a. C. (CHALITA, p. 41). O fato é que foi um contemporâneo de Anaxágoras. Tal como os demais filósofos antigos, contribuiu para as ciências políticas e naturais. Chalita nos informa que Empédocles “destacou-se na política como defensor da democracia” (CHALITA, p.41). E Osborne nos fala de contribuições científicas e até existenciais e morais (religiosas): “As obras de Empédocles reúnem análises científicas (sobre a sensação e a respiração, por exemplo) e explicações profundamente religiosas (sobre nosso lugar no mundo e os meios de obter nossa salvação)” (PRADEAU, p. 29). É Durant, no entanto, quem mais nos informará sobre suas contribuições científicas, encontrando nele o precursor da ideia de seleção natural, futuramente defendida por Darwin: “Empédocles (fl. 445 a. C. na Sicília) levou a um estágio mais avançado a ideia da evolução. Os órgão não surgem intencionalmente, mas de uma seleção. A natureza faz muitas tentativas e experimentos com organismos, combinando órgãos de várias formas; quando a combinação atende às necessidades ambientais, o organismo sobrevive e perpetua suas características; quando a combinação fracassa, o organismo é eliminado; à medida que o tempo passa, os organismos se adaptam, de forma cada vez mais enredade e com um sucesso cada vez maior, ao seu ambiente” (DURANT, p. 67).
Seu modo de produção é a poesia, tal como o fez Parmênides, e. g.: “Assim como Parmênides, Empédocles deixou suas ideias registradas na forma de poemas, um denominado obre a natureza, e outro, Purificações” (CHALITA, p. 41).
Quanto a seu projeto filosófico, Gaarder o aponta como o herói que pensador que ficaria encarregado de quebrar a corrente cética que se segue ao impasse entre Heráclito e Parmênides: “Fica a cargo de Empédocles (c. 494-434 a. C.) apontar o caminho que tiraria a filosofia do impasse a que ela tinha chegado. Ele achava que tanto Parmênides quanto Heráclito tinham razão numa de suas afirmações, mas estavam totalmente enganados quanto à outra” (GAARDER, p. 49). Em seus próprios termos, temos a exposição de Chalita de que “no primeiro [poema, ‘Sobre a Natureza’] Empédocles diz pretender alcançar não uma verdade absoluta, mas uma verdade (alétheia) proporcional à dimensão humana. Dentro dessa perspectiva, não se pretendia mais o intelecto puro, mas uma razão clara, capaz de interpretar as informações recebidas pelos sentidos” (CHALITA, p. 41). Portanto, em certo sentido, ele irá concordar com Heráclito sobre a importância do conhecimento obtido pelos sentidos. Mas não quer ignorar a razão, embora não vá ficar com uma mera abstração teórica. Ele quer as duas coisas, razão e sensação, conciliadas de alguma forma. Não podemos nos furtar à observação de que sua afirmação de que produziria uma ‘verdade proporcional à dimensão humana cheira a Protágoras e seu ‘homo mensura’. Quem sabe ele tenha inspirado o futuro sofista?

METAFÍSICA

Gabriel Chalita coloca Empédocles em consonância com a busca metafísica dos filósofos naturais: “De forma semelhante aos primeiros pré-socráticos, vários dos quais ele conhecia, Empédocles buscava uma resposta que explicasse o princípio de todas as coisas” (CHALITA, p. 41).
Mas Empédocles, conforme observa Gaarder, parte de pressupostos diferentes. Ele nota, justamente, que os impasses a que chegou a filosofia era devido aos seus predecessores terem argumentado sob pressupostos equivocados: “Para Empédocles, a grande discordância estava no fato de que ambos os filósofos [Parmênides e Heráclito] tinham assumido como ponto de partida o fato quase inquestionável de que haveria apena um elemento básico. Se isto fosse verdade, o abismo entre o que a razão nos diz e o que nossos sentidos percebem seria intransponível” (GAARDER, p. 49). Portanto, Empédocles propõe uma mudança de paradigmas, tomando por certo que “a água não pode se transformar num peixe, ou numa borboleta. A água em si não pode se transformar” (GAARDER, p. 49). Empédocles não deixa, com isso, de reconhecer os créditos dos que lhe antecederam, particularmente de Parmênides e Heráclito: [...] Sob esse aspecto, Parmênides tinha razão quando afirmava que nada se transforava. Ao mesmo tempo, Empédocles concordava com Heráclito quando este dizia que devemos confiar no que dizem os nosso sentidos. Precisamos acreditar no que vemos, e o que vemos é justamente o fato de que a natureza está em constante transformação” (GAARDER, p. 49).
Na sua elaboração doutrinária não podemos deixar de notar as influências de Tales, Anaxímenes também. Chalita nos esclarece: “Segundo ele [Empédocles], o universo seria composto pelas quatro substâncias, mais tarde chamadas de elementos: ar, água, fogo e terra. Nenhum deles seria mais importante do que os demais. Cada coisa seria definida de acordo com a proporção em que cada um dos quatro estivesse presente em sua composição” (CHALITA, p. 41). A essas substâncias (termo que, como informa-nos Chalita, posteriormente foi substituído por ‘elementos’) Empédocles também deu outro nome, conforme nos indica Gaarder: “Empédocles acreditava que a natureza possuía ao todo quatro elementos básicos, também chamados por ele de ‘raízes’” (GAARDER, p. 49).
Podemos reforçar o que Chalita disse. Tudo que existe é composto desses quatro elementos, e as diferenças estão na quantidade e disposição que cada um se encontra: “Todas as transformações da natureza seriam resultado da combinação desses quatro elementos, que, depois novamente se separavam um do outro. Pois tudo consiste em terra, ar, fogo e água, só que em diferentes proporções de mistura. Quando uma flor ou um animal morrem, esses quatro elementos volta a se separar. Essas transformações podem ser percebidas por nós a olho nu [...]. O que acontece é que esses quatro elementos diferentes simplesmente se combinam e depois voltam a se separar para então se combinarem novamente” (GAARDER, p. 49-50). Aqui temos, pois, uma perspectiva inovadora, que desembocaria no atomismo. Tudo é composto de partículas dos quatro elementos em proporções diferentes. É na mistura desses elementos que as coisas diferentes surgem. Realmente fantástico! Assim, Empédocles salvaria os fenômenos, afirmando que, de fato, as coisas mudam e transformam-se em outras coisas. Mas, com isso, ele não precisaria lidar com o problema da transformação apontado por Parmênides pois, de fato, as coisas em si não mudavam. Havia algo eterno e imutável que eram as partículas dos quatro elementos que compunham os objetos.
O mesmo Jostein Gaarder nos dá uma ilustração brilhante: “Talvez possamos fazer aqui uma comparação com o trabalho de um pintor. Se ele tiver á sua disposição apenas uma cor – o vermelho, por exemplo –, não poderá pintar árvores verdes. Mas se ele estiver amarelo, vermelho, azul e preto, então poderá criar centenas de cores diferentes, porque poderá combinar as cores em diferentes proporções. Um exemplo do que ocorre na cozinha nos mostra a mesma coisa. Se eu tiver apenas farinha, terei de ser mágico para fazer dela um bolo. Mas se eu tiver ovos, farinha, leite e açúcar, poderei assar diferentes bolos a partir desses quatro elementos básicos” (GAARDER, p. 50).
Gabriel Chalita nos lembra que essa ideia irá perpassar os séculos e será plenamente contestada apenas na modernidade: “[Empédocles] propôs a doutrina das substâncias indestrutíveis que mais tarde se tornaria conhecida como a teoria dos quatro elementos, aceita até o século XVIII quando o cientista francês Lavoisier (1743-1794) demonstrou a existência dos elementos químicos, tal como são admitidos atualmente” (CHALITA, p. 41). Portanto, em termos empedóclicos é que muitos filósofos irão raciocinar (e.g. na Antiguidade: Platão e Aristóteles).

MOVIMENTO

Empédocles, claro, também teria de lidar com a questão do movimento. Afinal, o que proporcionaria as mudanças nas coisas? Qual seria a causa eficiente (e formal) que tiraria o cosmos da inércia? Sproul nos informa que “isso levou pensadores posteriores a procurar por um quinto elemento, uma ‘quinta essência’ que unisse aos quatro, o que deu origem à palavra quintessência” (SPROUL, p. 26). Mas não é essa, exatamente, a proposta de Empédocles.
Gaarder simplifica a questão: “o que faz com que os elementos se combinem para dar origem a uma nova vida? E o que é responsável pelo fato de uma mistura – uma flor, por exemplo – voltar a se desintegrar? Empédocles dizia que na natureza atuavam duas forças, por ele chamadas de amor e de disputa. O que une as coisas é o amor; o que as separa é a disputa. Empédocles diferencia, portanto, elemento e força” (GAARDER, p. 50). Outros pensadores chamam a força desagregadora de ódio. Chalita complementa o entendimento de Empédocles sobre ela: “A reunião e a separação dos elementos se daria através do amor e do ódio, forças em ação no movimento cósmico formador de tudo o que existe. O amor agiria na reunião e harmonização dos elementos, e o ódio os colocaria em desacordo, e esse processo seria interminável, ora predominando uma força, ora a outra” (CHALITA, p. 42). Elas, pois, criam tudo que existe (particularmente o amor). É por isso que Sproul diz: “O princípio que governa a harmonia é o amor, que ‘faz o mundo andar’” (SPROUL, p. 26). Além disso, o fazem num processo interminável, incessante. É fácil, pois, ver como ele logo concebeu a seleção natural.
Catherine Osborne fala de implicações éticas por detrás desse conceito metafísico, incluindo uma descrição espiritual negligenciada pelos demais comentaristas: “ A alternância do ‘amor’ e do ‘ódio’ não é somente uma metáfora. Em Empédocles, os ‘elementos’ são também deuses ou espíritos (daimones), que experimentam a atração e a repulsão uns pelos outros, ou seja, que amam ou odeiam. Uma passagem célebre descreve os espíritos exilados longe do deus e condenados a errar pelo mundo, encarnados em diferentes meios elementares, durante trinta mil temporadas. Esse exílio é a punição de um crime, talvez o assassinato. Esso está de acordo com a maneira pela qual Empédocles condena o sacrifício e o consumo de carne, considerados como pecados, porque os animais são reencarnação de entes queridos” (PRADEAU, p. 28). Portanto, parece que Empédocles concebia a atração e repulsa nos elementos graças aos enredos e dramas espirituais. Nesse sentido, sente-se, ainda, o aroma mitológico em suas cogitações.
Mas, como foi dito, mais uma de suas contribuições excepcionais para o pensamento é a distinção (análoga à feita por Anaxágoras) entre os elementos e as forças naturais que atuam sobre eles. Gaarder nota a atualidade do conceito: “Até hoje a ciência estabelece uma diferença entre elemento básico e forças naturais. A ciência moderna acredita poder explicar todos os processos da natureza através de uma interação entre os diferentes elementos básicos e algumas poucas forças naturais” (GAARDER, p. 51).

EPISTEMOLOGIA

Jostein Gaarder, com uma completude admirável, ainda nota reflexões de cunho epistemológico: “Empédocles também refletiu um pouco sobre a questão de saber o que ocorre quando percebemos alguma coisa. [...] Empédocles acreditava que, como todas as outras coisas da natureza, também nossos olhos são compostos de terra, ar, fogo e água. Assim, a terra contida em meus olhos perceberia o componente terra no objeto visto; o ar, o componente ar; o fogo, o componente fogo; e a água, o componente água. Se faltasse aos olhos um desses elementos, eu não poderia enxergar a natureza em sua totalidade” (GAARDER, p. 51). É interessante que se note, a seguir, a semelhança desse postulado com as concepções epistêmicas de Epicuro.

ATOMISTAS

Finalmente nos encontraremos com os atomistas propriamente ditos. Aqui, Morel nos faz notar que se trata de uma cosmovisão completa: “Um e outro sustentam que os componentes últimos da matéria são corpúsculos indivisíveis, em movimento num vazio infinito. [...] Tomado literalmente, o atomismo é, portanto, em primeiro lugar, uma doutrina física. No entanto, seus defensores desenvolvem também teses relativas à teoria do conhecimento e à ética. A teoria dos átomos e do vazio é, por conseguinte, o núcleo de um pensamento que tem como vocação dar conta de todos os aspectos do real e da existência humana” (PRADEAU, p. 74). Ou seja, inicialmente pode versar sobre física e metafísica, mas há implicações éticas e epistemológicas sendo discutidas e, portanto, temos, nesses pensadores, todo um sistema conceitual que fundamentará muitos pensadores em suas cosmovisões ateístas.

LEUCIPO E DEMÓCRITO

Gaarder considera Demócrito “o último grande filósofo da natureza” (GAARDER, p. 57). Em certo sentido, podemos concordar com ele, visto que Epicuro irá desenvolver preponderantes reflexões ético-existenciais. Mas, como veremos, Epicuro também elaborou reflexões físicas que lhe poderiam outorgar o título supra referido. Segundo Gaarder, Demócrito teria vivido mais ou menos entre 460-370 (data que Chalita, Durant e Nash concordam) e, portanto, era um contemporâneo de Sócrates e Platão! Gaarder nos informa que Demócrito “era natural da cidade portuária de Abdera, na costa norte do mar Egeu” (GAARDER, p. 57). Durant ainda completa a informação dizendo-nos que se tratava da Trácia (DURANT, p. 67).
Mas não podemos nos esquecer de outro pensador que precedeu Demócrito, pois Nash associa os dois como baluartes do atomismo antigo: “Os dois nomes associados ao atomismo grego antigo são os de Leucipo (490-430 a. C.) e Demócrito” (NASH, p. 46). Vejam o que Pierre-Marie Morel diz sobre Leucipo: “Demócrito de Abdera encarnou o primeiro atomismo, a quem é preciso associar também Leucipo [...] que foi provavelmente seu mestre, mas cuja contribuição doutrinária é difícil de circunscrever” (PRADEAU, p. 74). Isso mesmo, talvez seja Leucipo que tenha começado com todo o projeto atomista. Entretanto, não conhecemos muito sobre seus escritos. A propósito, nisso também Morel nos é útil: “Conhecemos a filosofia dos primeiros atomistas a partir de testemunhos antigos, dentre os quais alguns resgatam alguns fragmentos que, na maioria das vezes, dizem respeito à moral” (PRADEAU, p. 74).
Bom, embora seja Demócrito o responsabilizado por conceber o atomismo, ele não foi muito considerado em sua época e, aparentemente nem mesmo reconhecido pelos seus devedores: “Os princípios da filosofia natural epicurista decorrem diretamente do atomismo abderiano. Sob a inspiração de Epicuro [...] o atomismo, tal como o tinha definido Demócrito, gozou de uma sorte tanto mais inesperada, que Platão (428-348 a. C.) não cita Demócrito em lugar nenhum e Aristóteles (384-322 a. C.) formula contra ele críticas radicais. Epicuro dirige, por sua vez, fortes objeções contra o Abderiano, mas conserva o essencial de sua teoria dos átomos” (PRADEAU, p. 74). Portanto, Demócrito fora ignorado por Platão, que viveu mais ou menos na mesma época que ele, e foi ser lembrado de modo não muito agradável por Aristóteles e Epicuro. De certo, um pensador negligenciado, não?

METAFÍSICA

Como materialista, pois, Demócrito acredita que tudo que existe, em suma, é a matéria, ou melhor, os átomos. Gaarder, com sua exímia habilidade didática, sintetiza o assunto nas seguintes palavras: “Demócrito concordava com seus antecessores num ponto: as transformações que se podiam observar na natureza não significavam que algo realmente ‘se transformava’. Ele presumiu, então, que todas as coisas eram constituídas por uma infinidade de pedrinhas minúsculas, invisíveis, cada uma delas sendo eterna e imutável. A estas unidades mínimas Demócrito deu o nome de átomos. A palavra ‘átomo’ significa ‘indivisível’. Para Demócrito era muito importante estabelecer que as unidades constituintes de todas as coisas não podiam ser divididas em unidades ainda menores. Isto porque se os átomos também fossem passíveis de desintegração e pudessem ser divididos em unidades ainda menores, a natureza acabaria por se diluir totalmente” (GAARDER, p. 57). Portanto aqui já temos seu distanciamento de Anaxágoras. Portanto, o átomo, além de “fisicamente indivisível, [...] é sem partes separáveis” (PRADEAU, p. 75).
Mas a realidade não se restringe a átomos. Há espaços entre os átomos, onde, pois, não há ‘matéria’ ou melhor, onde não há ‘ser’. Assim, Morel nota que Demócrito está subvertendo Parmênides: “Contra o monismo de Parmênides [...] e dos eleatas em geral, Demócrito quer dar conta do movimento, o que o leva a colocar a existência do vazio [...], intervalo ilimitado necessário ao movimento dos átomos. Assim, o ser dos átomos ou ‘algo’ [...] se opõe ao vazio entendido como não ser ou ‘não algo’” (PRADEAU, p. 75). Portanto, parece-nos que Demócrito está propondo uma diferença ontológica entre ‘nada’ e ‘não-ser’, ou melhor, entre vazio e ‘não-ser’. Podemos até concordar que ‘não-ser’ é algo inconcebível, mas o vazio é uma ideia perfeitamente compreensível.
Não o coloquemos, entretanto, como um inimigo de Parmênides pois, como nota Gaarder, sua doutrina é condizente com proposições do eleata: “... as ‘pedrinhas’ constituintes da natureza tinham que ser eternas, pois nada pode surgir do nada. Neste ponto, Demócrito concordava com Parmênides e com os eleatas. Para ele, os átomos eram unidades firmes e sólidas” (GAARDER, p. 57). Portanto, tal como acontece com Empédocles, concorda-se tanto com Parmênides, no sentido de que as coisas não mudam de fato, quanto com Heráclito, no sentido de que as coisas realmente mudam (quando tudo que está havendo é uma recombinação dos átomos).
Em suma, “segundo Demócrito, a verdade sobre o universo físico pode ser resumida em duas palavras: átomos e vazio. Tudo no universo é resultado de átomos qualitativamente indistintos, movendo-se ao redor do universo, colidindo com outros átomos, unindo-se brevemente com outros átomos” (NASH, p. 47). Esse é o mundo materialista de Demócrito. Vamos explorá-lo um pouco melhor.
Primeiro, discutamos mais alguns detalhes dos átomos. Já sabemos que são indivisíveis e sem partes, além de eternos e imutáveis. Gaarder amplia dizendo que “só não podiam ser iguais, pois se todos os átomos fossem iguais não haveria explicação para o fato de eles se combinarem para formar de papoulas a oliveiras, do pelo de um bode ao cabelo humano. Demócrito achava que existia na natureza uma infinidade de átomos diferentes: alguns arredondados e lisos, outros irregulares e retorcidos [...] combinados para dar origem a corpos os mais diversos” (GAARDER, p. 57). Portanto, acrescentamos que os átomos são de uma infinidade muito grande de formas. Logo, somado aos movimentos diversos esse fenômeno iria produzir todo tipo de coisa que existe, como vai reforçar Morel: “A partir desse par de princípios, os átomos e o vazio, os atomistas tinham em vista uma combinação ilimitada, capaz de dar conta de todas as modificações dos corpos compostos. Seus princípios são muitos simples: os átomos são ilimitados em número e se movem incessantemente e em todos os sentidos no vazio; eles possuem um número ilimitado de formas; eles constituem os corpos compostos por simples agregação e as diferenças das formas atômicas determinam as propriedades dos compostos” (PRADEAU, p. 75).

Há espaço para reflexões cosmológicas nas elucubrações democritianas. Em suma, “Existe, ou existiu, ou existirá um número infinito de mundos; a todo instante, há planetas colidindo e morrendo, e novos mundos estão surgindo do caos, graças à agregação seletiva de átomos de tamanho e forma semelhantes. Não há um plano; o universo é uma máquina” (DURANT, p. 67). Esse é o conceito básico. Mas Gaarder, Osborne e Morel fazem mais alguns comentários.
Quanto a não haver plano algum no mundo, Gaarder amplia: “Demócrito não acreditava numa ‘força’ ou numa ‘inteligência’ que pudessem intervir nos processos naturais. As únicas coisas que existem são os átomos e o vácuo, dizia ele. E como ele só acreditava no ‘material’, nós o chamamos de materialista. Por detrás do movimento dos átomos, portanto, não havia determinada ‘intenção’. Mas isto não significa que tudo o que acontece é um ‘acaso’, pois tudo é regido pelas inalteráveis leis da natureza. Demócrito acreditava que tudo o que acontece tem uma causa natural” (GAARDER, p. 59). Essas ‘causas naturais’ que movem o mundo são chamadas por Morel de Necessidades.
Observemos que as movimentações atômicas, causadas por leis naturais, constroem e diluem das menores coisas às maiores no universo. Portanto, de uma formiga a planetas, temos a causa oriunda das movimentações atômicas. Morel, pois, nos diz que, segundo Demócrito, “os mundos são em número ilimitado e nascem ou morrem sob o efeito unicamente dos movimentos atômicos. No plano cosmogônico e cosmológico, os atomistas pleiteiam, portanto, uma imanência radical: nenhuma inteligência organizadora, nenhuma providência é convocada para justificar a existência dos mundos. Demócrito julga que um único princípio está na origem de todas as coisas: a Necessidade” (PRADEAU, p. 75-76).
Osborne nos conta que, para Demócrito, “um turbilhão faz com que estruturas cósmicas se formem em alguns lugares do espaço: não simplesmente para formar esse mundo aqui, mas uma multidão de mundos possíveis. Algumas dessas proposições foram retomadas pelos epicuristas na época helenística e inspiraram tanto cientistas quanto filósofos no início da Modernidade” (PRADEAU, p. 20). Há, portanto, numa agremiação enorme de átomos, um turbilhão que cria os mundos nos espaços vazios. Eis a doutrina da ‘criação’ conforme a concebe os atomistas. Tudo não passa de um rearranjo dos átomos, mediante leis naturais.

Na antropologia filosófica Demócrito também fornece sua contribuição (que, aliás, será tão bem utilizada por Epicuro), conforme nos notifica Gaarder: “Mas o que acontece com a consciência? Está aí uma coisa que não pode ser composta de átomos, quer dizer, de ‘coisa’ materiais, certo? Errado. Demócrito acreditava que a alma era composta por alguns átomos particularmente arredondados e lisos, os ‘átomos da alma’. Quando uma pessoa morre, os átomos de sua alma espalham-se para todas as direções e podem se agregar a outra alma, no momento mesmo em que esta é formada. Isto significa que o homem não possui uma alma imortal. E este é um pensamento compartilhado por muitas pessoas em nossos dias. Como Demócrito, elas acreditam eu a alma está intimamente relacionada ao cérebro e que não podemos possuir qualquer forma de consciência quando o cérebro deixa de funcionar e degenera” (GAARDER, p. 59). Aquilo a que denominamos alma, pois, não passaria de fenômenos mentais completamente dependentes e causados pelo cérebro. Sem cérebro, sem ‘alma’*2.

Gaarder é, ainda, sagaz ao observar que em essência a doutrina de Demócrito ainda rege a pesquisa científica contemporânea: “Hoje em dia podemos dizer que a teoria atômica de Demócrito estava quase perfeita. De fato, a natureza é composta de diferentes átomos, que se ligam a outros para depois se separarem novamente. Um átomo de hidrogênio presente numa célula da pontinha do meu nariz pode ter pertencido um dia à tromba de um elefante. [...] Hoje em dia, porém, a ciência descobriu que os átomos podem ser divididos em partículas ainda menores, as ‘partículas elementares’. São elas os prótons, nêutrons e elétrons. E talvez estas partículas também possam ser dividas em outras, menores ainda. Mas os físicos são unânimes em achar que em alguma parte deve haver um limite para esta divisão. Deve haver as chamadas partículas mínimas, a partir das quais toda a natureza se constrói. Demócrito não teve acesso aos aparelhos eletrônicos de nossa época. Na verdade, sua única ferramenta foi a sua razão” (GAARDER, p. 58-59).

EPISTEMOLOGIA

Talvez a divergência mais gritante entre Demócrito e Epicuro esteja no campo da epistemologia. O conceito básico não difere muito, e podemos ver algo de Empédocles presente. Durant, de modo rápido, explica a ideia da seguinte forma: “A percepção se deve à expulsão de átomos do objeto para o órgão dos sentidos” (DURANT, p. 67), ao passo que Gaarder amplia dizendo que, “para Demócrito, a teoria atômica explicava também nossas percepções sensoriais. Quando percebemos alguma coisa, isto se deve ao movimento dos átomos no espaço. Quando vejo a Lua, isto acontece porque os ‘átomos da Lua’ tocam os meus olhos” (GAARDER, p. 59). Mas, aqui cessam-se as semelhanças.
De forma resumida, peguemos as seguintes palavras de Morel: “Demócrito afirma, de fato, que somente existem realmente, ou como verdade, os átomos e o vazio, tudo mais – e principalmente as propriedades perceptíveis dos compostos – é apenas o produto das nossas crenças ou das nossas convenções” (PRADEAU, p. 76-77), ou seja, em outras palavras, “toda qualidade é uma ilusão; é a maneira como certas configurações quantitativamente diferentes de átomos parecem para nós” (NASH, p. 47).
Bom, porque isso acontece? “Demócrito distinguia entre o mundo como os humanos o percebem e o mundo como realmente é. Para Demócrito, qualquer coisa que percebemos é uma ilusão. Para cada observador, há uma aparência diferente” (NASH, p. 52). Ou seja, uma coisa é o que vemos, outra é o que o mundo realmente é. E o que o mundo realmente é? Como já fora observado, ‘átomos e vazio’. E é justamente na concepção dos átomos que se encontra a distinção entre o que percebemos e o que realmente é. Ainda Nash nos informa que “os átomos, é preciso entender, não teriam propriedades como cor, gosto ou odor; não seriam, também, frios, azedos ou doces. [...] Os atomistas explicavam tais propriedades como sendo as maneiras das coisas parecerem a nós como resultado de ligações ocorridas ao acaso entre átomos que possuiriam tais propriedades. Os antigos ensinaram que os átomos diferiam apenas em termos quantitativos, tais como tamanho e forma, jamais em qualidade” (NASH, p. 46).
É então que chegamos às problemáticas epistemológicas. Pierre-Marie Morel nota que, “enquanto este último [tipo de conhecimento, o pela via das sensações] é necessário às atividades humanas em geral, mas também, no domínio filosófico e científico, ao conhecimento dos fenômenos naturais, unicamente a razão tem acesso aos princípios – os átomos e o vazio – que, de fato, são imperceptíveis. Ao juízo racional e ‘legítimo’ que os compreende, opõe-se o juízo ‘ilegítimo’ do pseudoconhecimento sensível. Alguns fragmentos do abderiano extraem desse paradoxo uma consequência extrema, uma forma de pré-ceticismo que não poupa nem os sentidos nem a razão [...]” (PRADEAU, p. 77). Ou seja, em outras palavras, os sentidos nos diriam que de fato as coisas mudam. As coisas, claro, existem. A partir dessas duas informações oriundas das sensações abstraímos, ensina Demócrito, a existência dos átomos e do vazio. Mas, claro, a razão torna-se, pois, refém de informantes não muito confiáveis e, portanto, acaba minando a confiança em si mesma. Afinal, é como fazer análises políticas sob uma infinidade de dados inexistentes ou alterados.
Entretanto, parece que Demócrito pressupõe a razão como um fenômeno psicológico à parte dos átomos e que, portanto, seria perfeitamente confiável. Doravante notaremos que esse é o tendão de Aquiles da cosmovisão naturalista.
Antes de encerrar, notemos a contribuição de Osborne para o tema. Segundo ela, “ele [Demócrito] estima que o conhecimento racional prevaleça sobre a percepção sensorial, explicando que a experiência dos sentidos permanece subjetiva e tributária do estado do corpo e de seu meio ambiente. Ele reconhece, entretanto, que essa crítica dos sentidos se condena a si mesma, já que a razão tem necessidade do apoio dos sentidos para afirmar que eles não são confiáveis” (PRADEAU, p. 27). O grande lance dessa citação é que Demócrito reconhece que a razão, para conceber que os sentidos não são confiáveis, depende dos sentidos para assim concluir, parecendo presumir que eles são, sim confiáveis. Mas o ceticismo epistemológico poderia muito bem ser mantido se entendêssemos que o fato de alguma impressão pôde ter vindo defeituosa, o que foi comprovado por experiências posteriores, nos faz pensar que não temos um critério muito fixo para acreditar nas impressões que recebemos e impressões ad hoc poderiam sempre ‘corrigir’ as anteriores.

EPICURO E LUCRÉCIO


Tanto Chalita quanto Gaarder concordam que Epicuro nasceu em 341 e morreu em 270. Portanto, podemos dizer que ele vem após Aristóteles. Chalita nos informa que se tratava de “um cidadão descendente de família nobre de Atenas” (CHALITA, p. 79). Suas influências filosóficas abertas e patentes são Demócrito e Aristipo (este último conheceremos doravante), como aponta Gaarder: “Ele desenvolveu ainda mais a ética do prazer de Aristipo e a combinou com a teoria do átomo de Demócrito” (GAARDER, p. 149-150).
Gaarder também nos notifica que “conta-se que os epicureus reuniam-se num jardim. Por esta razão, também, eram chamados de ‘filósofos do jardim’. Dizem também que sobre o portão de entrada do jardim havia a seguinte inscrição: ‘Forasteiro, aqui te sentirás bem. Aqui, o bem supremo é o prazer’” (GAARDER, p. 150). Chalita completa as informações dando data e um ‘epiteto’ para a ‘Academia’ de Epicuro: “Em 306 a. C., ele fundou sua escola no jardim de uma grande casa, local que ficou conhecido como Jardim de Epicuro” (CHALITA, p. 79). É interessante a descrição de uma citação que Durant faz de Anatole France: “[Epicuro] comprou um belo jardim, que ele mesmo cultivava. Foi lá que instalou sua escola, e ali vivia uma vida tranquila e agradável com seus discípulos, aos quais ensinava enquanto andava e trabalhava. (...) Era delicado e afável para com todos os homens...” (FRANCE apud DURANT, p. 90).
Conhecemos suas doutrinas por meio de epístolas que ele nos deixou, mas o grande divulgador de suas ideias foi o filósofo romano Lucrécio, como nos informa Morel: “Epicuro resumiu o essencial de sua filosofia em cartas e sentenças, que nos foram conservadas. Depois dele, a doutrina não sofrerá uma evolução maior. Ela será, no entanto, enriquecida, principalmente com o epicurismo romano, do qual Lucrécio (século I a. C.), autor do longo poema Sobre a natureza das coisas (De rerum natura), é a principal figura” (PRADEAU, p. 74-75). Na verdade, Lucrécio não produziu ‘upgrades’ significativos no sistema de Epicuro, não desenvolvendo conteúdo nas lacunas, como nota Nash: “Se sua obra fosse avaliada apenas em termos de ideias novas, Lucrécio teria sido insignificante na história das ideias. Contudo, seu poema apresentou o epicurismo quase que de forma épica, sobretudo, escrito em latim, tornando acessíveis aos romanos as ideais do atomismo grego. [...] Lucrécio presumiu, mas jamais provou, a uniformidade da natureza. Pouco disse, ou quase nada, sobre as aparentes irregularidades na natureza” (NASH, p. 51). Portanto, Lucrécio é um célebre divulgador, para a posteridade, de Epicuro e do atomismo antigo. Podemos ainda aproveitar a comicidade da descrição e dados biográficos fornecidos por Durant: “Lucrécio [...] concluiu sua vigorosa pregação do prazer cometendo suicídio. Sua nobre epopeia, Sobre a Natureza as Coisas, acompanha Epicuro em condenar o prazer ao elogiá-lo sem entusiasmo. Quase contemporâneo de César e Pompéia, ele viveu em meio a torvelinhos e alarmes; sua pena nervosa está eternamente compondo orações à tranquilidade e à paz. Nós o imaginamos como uma alma tímida cuja juventude havia sido obscurecida por temores religiosos; porque ele nunca se cansa de dizer a seus leitores que não existe inferno, exceto aqui, e que não existem deuses, exceto deuses cavalheirescos, que vivem em um jardim de Epicuro nas nuvens e nunca se intrometem nos negócios dos homens” (DURANT, p. 91). Em Epicuro e Lucrécio, pois, temos o último desenvolvimento do atomismo na Antiguidade.
Antes de estudarmos a filosofia epicurista, é bom dizermos que, “contrariamente aos estóicos, os epicureus quase não se interessavam pela política e pela sociedade. ‘Vive em reclusão!’ era o conselho de Epicuro. Talvez passamos comparar o seu jardim com as comunidades de nossos dias. Nesta época em que vivemos, muitas pessoas buscam uma ilha, um ‘porto seguro’ em meio ao turbilhão da sociedade” (GAARDER, p. 151). Isso retrata bem o conceito da época que já não via a pólis e a vida social como pré-requisito para a felicidade, embora a boa e verdadeira amizade, como veremos, não seja negligenciada, antes, pelo contrário.

METAFÍSICA

Expor a metafísica de Epicuro, entendida a de Demócrito, será tarefa mais fácil. O que ele faz é modificar um pouco a filosofia de seu predecessor e é Pierre-Marie Morel quem nos guiará nessas adaptações.
Primeiramente, Demócrito cria que os átomos não possuíam partes, não eram ‘compostos’. “Os epicuristas, por sua vez, afirmam a existência de partes últimas do átomo [...] que equivalem às suas unidades de medida. Elas são, no entanto, inseparáveis do átomo e, por causa disso, incapazes de produzir por si mesmas o movimentos e as agregações” (PRADEAU, p. 75). Essa é uma mudança importante, e nos parece que foi reivindicada para explicar os formatos diferentes dos átomos.
Segundo Morel, Epicuro muda o foco de suas análises físicas: “os epicuristas classificam os átomos e os compostos unicamente na categoria do ‘corpo’: Entre os corpos, uns são os compostos, outros aquilo de que os compostos são feitos. A diferença entre átomos e compostos não é mais uma distinção ontológica, mas uma diferença funcional no interior de uma mesma categoria física. Lucrécio insiste, por outro lado, na função imediatamente produtora do átomo: os átomos não são somente a ‘matéria’ [...] de que as coisas são feitas; elas são também os ‘princípios primeiros das coisas’ [...], os corpos primeiros’ [...], as ‘sementes das coisas’ [...], ou os princípios geradores’ [...]. Nesse sentido, para o atomista epicurista, a categoria fundamental da filosofia natural não é mais o átomo, e sim o corpo” (PRADEAU, p.76-77). Esse é um ponto importante. A análise das coisas sobe da análise atômica abstrata, podendo elevar-se para a ciência que podiam desenvolver com a tecnologia que tinham. As qualidades dos corpos são reais, e não ilusórias. São propriedades oriundas dos próprios átomos. As implicações epistemológicas serão notadas.
Morel continua: “Epicuro e Lucrécio, ainda que retomem o essencial da teoria abderiana dos átomos e do vazio, corrigem-na em dois pontos importantes. Por um lado, as formas e as grandezas de átomos não são em número absolutamente ilimitado; por outro lado, o movimento atômico deve ser explicado mais precisamente. Para Epicuro, o peso próprio do átomo é a causa de seu movimento para baixo, os choques apenas modificam a trajetória. Além disso, os epicuristas pretendem justificar ao mesmo tempo a potência organizadora da natureza e a liberdade de agir. Para fazer isso, eles introduzem um princípio de variação e de indeterminação no movimento atômico, princípio que tem como efeito suscitar choques de átomos e, por intermédio disso, as agregações, mas também subtrair os movimentos deliberados à hegemonia da Necessidade, quer dizer, ao determinismo. Assim, Lucrécio – como talvez Epicuro antes dele – supõe que a queda dos átomos é acompanhada de um desvio [...] ínfimo. Este explica, por um lado, a gênese espontânea das combinações corporais e, por outro lado, a possibilidade do ato livre” (PRADEAU, p. 76). Ao que parece, uma certa aleatoriedade é acrescentada ao movimento atômico, de modo que o determinismo abderiano pode ser abandonado. Mas algo importante foi mencionado, e Nash trará seu devido destaque: “Epicuro acrescentou o peso como uma propriedade dos átomos, o que, ele pensava, levaria o átomo a decair em uma linha reta e na mesma velocidade. [...] imagine um número infinito de átomos decaindo em linha reta no espaço infinito. Temos aí uma nova questão para a qual não há resposta: como os átomos de Epicuro colidem e entram em novas combinações? A resposta conveniente de Epicuro tem sido chamada de declinação do átomo. Ocasionalmente, de modo imprevisível e inexplicável, os átomos desviam a direção de sua rota decadente. Tal desvio produz colisões e vórtices, finalmente alguns desse vórtices se transformam em um mundo” (NASH, p. 49). Portanto, até mesmo na cosmologia temos uma força aleatória declinando os átomos até que um ‘vórtice’ adequado surge e um mundo é criado.
O interesse no indeterminismo, como veremos, é de cunho ético-existencial. Se as coisas não acontecem por necessidade absoluta, podem acontecer por ‘escolha’, presume Epicuro. Pode haver um fator ‘determinante’ que não seja mecânico, natural. A associação entre ato livre e movimento atômico quase nos faz pensar que ele apoiaria Anaxágoras e a ‘inteligência’ movendo os átomos. Mas ele é basicamente um materialista atomista e, portanto, poderíamos estar ‘forçando a barra’ com isso. Adiemos as discussões antropológicas para sua ética. Antes, passemos pela epistemologia e teologia epicurista.

EPISTEMOLOGIA

Bom, como dissemos, a epistemologia epicurista difere em muitíssimos pontos da epistemologia abderiana. Para começar, eles devolvem às sensações o status de confiabilidade justamente crendo que as qualidade recebidas dos átomos de fato lhes pertenciam, conforme Morel ensina: “os epicuristas modificam essencialmente a maneira de conceber a relação entre átomos e os compostos. Estes últimos não são mais, como em Demócrito, substratos precários de qualidades sensíveis ilusórias, mas existentes de pleno direito” (PRADEAU, p. 76). Portanto, quando sentimos o gosto de algum composto, aquilo corresponde ao gosto que aquela combinação de átomos realmente têm. É uma soma de qualidades atômicas que nos é percebida. Não se trata de uma ilusão.
Ronald Nash nos lembra que se trata de um empirista, e, como Demócrito, segue a proposta de Empédocles: “Todo conhecimento depende unicamente da sensação; não há espaço para ideias inatas ou intuições intelectuais na cosmovisão atomista. Todo o conhecimento humano tem seu ponto de partida na experiência sensorial. O que vale a pena comentar é a maneira pela qual os atomistas explicam as informações sensíveis. No caso óbvio do odor e da visão, nenhum contato direto é aparente. Epicuro presume partículas passando do objeto sentido à pessoa que o percebe” (NASH, p. 52).
Mas é Morel quem lida de forma mais completa sobre a epistemologia epicurista. “Para Epicuro, sensação, longe de ser fonte de erro ou de ilusão, é nosso primeiro critério de conhecimento e o primeiro critério de verdade, porque os outros conhecimentos derivam dela. Toda sensação é por si mesma portadora de uma verdade irredutível, sendo ela a única que pode expressá-la*3. [...] Quanto à razão, ela é extraída da sensação e não pode, portanto, refutá-la, pois ela se destruiria ao pretender refutar sua própria origem. É preciso admitir que o erro provém de um outro movimento psíquico, distinto da sensação. Se vejo como redonda, ao longe, uma torre quadrada, não é a própria sensação que me engana, mas a opinião que formo na ocasião da sensação. É preciso que nós, para compreendermos isto, retornemos à física. Cada corpo composto emite finas películas, simulacros, que reproduzem a forma e a tornam perceptível. Porém, pode ser que os simulacros da torre quadrada que eu vejo ao longe me tragam a imagem de uma torre redonda por causa da erosão que seu fluxo sofre atravessando o ar numa longa distância. Não obstante, a imagem finalmente recebida é uma imagem real: ela é a presença efetiva daquilo que emana do objeto visado. A sensação em si mesma não é, portanto, falsa, pois é verdade, quando percebo a torre redonda, que eu a percebo redonda, ainda que ela seja em si mesma de forma cúbica” (PRADEAU, p. 77-78). Trocando em miúdos, o que acontece é que, na percepção, recebemos, das coisas sensíveis, simulacros que nos permitem percebê-las. Mas, no decorrer do caminho, tais átomos podem sofrer erosões de modo que os recebemos em formas distintas. Mas o que é recebido é real. Veio, de fato, daquele objeto. A sensação não é falsa pois é verdade que as coisas percebidas são de fato percebidas e nos parecem de tal e tal forma.
Lucrécio também tentou fazer, lá, sua contribuição à epistemologia empirista: “Assim, Lucrécio defendeu a infalibilidade dos sentidos, mostrando que nenhuma sensação particular, como a visão ou o olfato, pode ser refutada por uma outra sensação particular; a visão não pode ser corrigida pela audição, a audição pelo tato, o tato pelo gosto, pois cada sentido tem um poder particular e separado” (PRADEAU, p. 77). Portanto, se sentimos algo mas não vemos nada, temos de presumir que ali há algo, embora seja invisível, já que uma sensação não poderia refutar a outra. Pelo menos, é isso que ensina Lucrécio.

TEOLOGIA

Seguindo a epistemologia epicurista de que tudo que está na mente é, na verdade, oriundo do que está na realidade (o que Hume contestaria com autenticidade alguns séculos mais tarde), Epicuro concebe a existência dos deuses: “Conforme Epicuro, os deuses do Olimpo existem porque os seres humanos têm retratos mentais deles, especialmente quando dormem. Na crença de Epicuro, é básica a presunção de que todas as formas de consciência são causadas por átomos passando de um objeto para um órgão sensorial. As figuras dos deuses eram explicadas em termos de imagens brotando dos corpos dos deuses. As figuras mentais de tais seres seriam tão fortes e claras que jamais sofreriam distorção no curso dos átomos” (NASH, p. 51-52).
Demócrito, como já vimos, acreditava na criação de vários mundos pelo movimento atômico. Epicuro também. E nos intervalos entre esses mundos, ali estavam os deuses, como nos conta Chalita: “Além disso, a doutrina epicurista afirmava que existiam diversos mundos e, no espaço entre eles, os intermundos, o lugar onde os deuses viviam, completamente desinteressados pelos homens. Já que as divindades desprezavam a vida humana, não influenciado em nada a existência das pessoas, não seria adequado preocupar-se com a ação dos deuses em suas vidas” (CHALITA, p. 80). Nash amplia, nos informando que “Epicuro cria que os deuses, também composto de átomos, habitassem em perfeita felicidade no espaço vazio entre os mundos” (NASH, p. 52). Portanto, eles estavam muito bem e não davam a mínima para nós. Aqui, talvez, ele tenha seguido a Aristóteles e seu ‘deus-monarca-inglês’.
Já Lucrécio, alguns bons anos mais tarde, não tinha interesse no panteão grego e sentia-se, de certa forma, livre para declarar seu ateísmo aberto e completo, como o mesmo Nash nos indica: “Enquanto Epicuro tornava os deuses preeminentes em seu sistema, Lucrécio queria eliminá-los do mundo. Três dos desenvolvimentos mais infelizes na vida humana, pensava ele, seriam a crença nos deuses, na imortalidade e na punição. [...] Uma das razões para a atitude negativa de Lucrécio em relação aos deuses era sua crença de que a possibilidade de punição divina para os atos humanos poderia causar dor aos homens em termos de medo e preocupação” (NASH, p. 52). Como não há ateus que o acompanharam nessa equivocada reflexão, não é mesmo?

ÉTICA

A coroa da filosofia de Epicuro é sua ética-existencial. Ele mesmo o admite. Morel nos informa que “Epicuro, ao afirmar a necessidade de conhecer os princípios da física, coloca em questão a utilidade das ciências positivas particulares, considerando que elas não são necessárias à ausência de perturbação (ataraxia), o único estado da alma que leva à felicidade” (PRADEAU, p. 75-76). Portanto, o que realmente importa, para o filósofo, correspondendo ao que de novo se pensava em sua época, conota à reflexão de cunho ético e existencial o pódio*4.
Como dissemos, ao passo que na metafísica ele ‘bebe’ em Demócrito, na ética ele colhe no canteiro de Aristipo, e vai plantar no Jardim de Epicuro. “Sócrates também teve um aluno chamado Aristipo, que, segundo Cheung, viveu de 435 a 356 a. C. (CHEUNG, p. 22). Para Aristipo, o objetivo da vida seria obter dos sentidos o máximo possível de satisfação. Aristipo dizia que o prazer era o bem supremo, e a dor, o mal supremo. Assim, seu objetivo maior era desenvolver uma filosofia de vida capaz de afastar toda e qualquer forma de dor e sofrimento. (O objetivo dos cínicos e dos estóicos [como iremos ver] era suportar todas as formas de dor, e isto é algo completamente diferente de fazer todo o esforço para tirar do caminho a dor.)” (GAARDER, p. 149). Aristipo, portanto, é o que podemos chamar de hedonista, ou seja, em termos práticos, aquele que coloca ‘bem’ e ‘prazer’ como sinônimos, bem como ‘mal’ e ‘dor’. O hedonismo de Aristipo foi, também, chamado de “Cirenaísmo, que defendia a prática de prazeres corporais, vivendo pela máxima: ‘Comamos, bebamos e casemos, pois amanhã poderemos morrer’” (CHEUNG, p. 22).
Gabriel Chalita resume a doutrina para, em seguida, ampliarmo-la: “Em suma, o epicurismo afirmava que a finalidade da vida é o prazer. Não um prazer obtido simplesmente, por meio dos instintos e das paixões; e sim pela razão: o verdadeiro prazer estaria em superar todos os desejos, não ter necessidade de nada. [...] A doutrina epicurista afirmava ainda que valores como a amizade, o pensamento, a apreciação das belezas naturais e das artes são formas de obter essa satisfação. A felicidade – a paz espiritual – seria alcançada quando o homem atingisse o autodomínio, isto é, se libertasse de todos os medos e desejos, agindo somente segundo sua vontade” (CHALITA, p. 80).
Ronald Nash é, dessa vez, quem resume a parte do ensino de Epicuro que queremos explorar: “Um dos pressupostos da ética epicurista era o hedonismo, a crença de que o prazer seja o bem maior. [...] o hedonismo de Epicuro era diferente do hedonismo austero e sensual, como o promovido por pré-socráticos. Um deles, Aristipo, instava seus seguidores a buscar o maior prazer físico que se pudesse obter no momento, enquanto Epicuro persuadia as pessoas a considerar as consequências em longo prazo” (NASH, p. 55). Portanto, contra o hedonismo grosseiro, conforme expõe Sproul, Epicuro ensinava um ‘hedonismo refinado’: “Os epicuristas buscavam a ataraxia pelo que eu chamo de ‘hedonismo refinado’, em contraste com formas rudes ou grosseiras de hedonismo. O hedonismo refinado define o bem como obtenção de prazer e ausência de sofrimento. Os antigos cireneus eram um exemplo de hedonismo grosseiro. Eles eram glutões, buscando o prazer físico no grau máximo. [...] Diferente dos cireneus, os epicureus buscavam um gozo refinado e sofisticado do prazer, portando-se com moderação. [...] Eles entendiam que há diferentes tipos de prazer: há os prazeres da mente, além dos prazeres do corpo. Alguns prazeres são intensos, mas de curta duração. A preocupação com o prazer intenso e apenas físico leva inevitavelmente a duas coisas que se quer evitar: infelicidade e sofrimento” (SPROUL, p. 55). Para compreender como o hedonismo grosseiro pode levar ao sofrimento, Jostein Gaarder é particularmente elucidativo: “Epicuro ensinava que o resultado prazeroso de uma ação sempre deve ser ponderado em relação a seus eventuais efeitos colaterais. Se você já comeu chocolate demais, então você entende o que digo [...]. Epicuro também achava que o resultado prazeroso de curto prazo devia ser ponderado em relação a um prazer maior, mais duradouro e mais intenso, a ser obtido a longo prazo. [...] Diferente dos animais, o homem tem a possibilidade de planejar a sua vida. Ele possui a capacidade de ‘calcular o seu prazer’” (GAARDER, p. 150). Ao fenômeno, pois, do ‘efeito colateral’ do empanturrar-se de chocolate, Sproul denomina de ‘paradoxo do hedonismo’: “Os epicureus procuravam escapar do ‘paradoxo hedonista’: a busca do prazer acaba apenas em frustação (quando o objetivo não é alcançado) ou em tédio (quando se atinge o objetivo). [...] Por isso, os epicureus buscavam não o prazer máximo, mas o prazer ótimo. Eles concluíram que a dieta de pão e água de um sábio tem mais chances de lhe trazer felicidade do que a comida excelente de um glutão” (SPROUL, p. 55-56). Portanto, tanto o prazer maior, a longo prazo, como os efeitos colaterais, devem ser medidos antes de se tomar alguma atitude (quem conhece Jeremy Bentham perceberá o plágio). Morel completa a exortação de Epicuro: “Somente se aprecia, no entanto, os verdadeiros prazeres quando se sabe julgar com prudência [...] que prazeres e que desprazeres podem resultar desta ou daquela ação. A felicidade epicurista é, portanto, uma questão de disciplina, de cálculo e de razão. Ela não se encontra no puro impulso afetivo ou na satisfação imediata de qualquer desejo” (PRADEAU, p. 78). Portanto, a primeira correção é a de que se deve buscar o prazer de forma irresponsável, sem calcular, sem ponderar.
Mas não é apenas isso que Epicuro acrescenta. Ele observa, o que já fora antecipado, que há coisas mais prazerosas que outras, ou, pelo menos que, no cálculo final, tendem a resultar em maior benefício. Gaarder explica da seguinte maneira: “Epicuro faz questão de enfatizar, porém, que ‘prazer’ não significa necessariamente satisfação dos sentidos [...]. A amizade ou a sensação vivenciada ao se admirar uma obra de arte também podem ser muito prazerosas. Além disso, outros pressupostos para o prazer da vida são os velhos ideais gregos do autocontrole, da temperança e da serenidade. Isto porque o desejo precisa ser controlado. Assim, a serenidade também nos ajuda a suportar a dor” (GAARDER, p. 150). Ou seja, não muito distante do que Aristóteles já havia ensinado, Epicuro está a defender que há prazeres mentais e sociais superiores aos prazeres ‘carnais’ (daqui para o cinismo filosófico é um passo, não é mesmo?). Pierre-Marie Morel dá um passo a mais na reflexão (aproximando Epicuro ainda mais de Antístenes e seu cinismo, bem como de Aristóteles): “Somente participam diretamente da felicidade os desejos naturais e necessários, como a filosofia e a amizade, em oposição aos desejos vãos, como o desejo de fazer crescer suas próprias riquezas. Não é surpreendente, portanto, que a ética epicurista seja uma ética erudita, instruída particularmente pelas lições de filosofia natural. Eis aí um ponto que os fragmentos éticos de Demócrito, que dão relevância à alegria que busca a tranquilidade ou o equilíbrio da alma [...] apenas fazem sugerir” (PRADEAU, p. 78-79). Portanto, segundo Epicuro, na exposição de Morel, as perturbações da alma acontecem por conta de desejos artificiais que lhe são imprimidos (Epicuro e Antístenes iriam morrer do coração ao verem o apelo do marketing em nossos dias). Os prazeres que demandam satisfação em prol da felicidade são os prazeres essenciais da alma humana: a demanda por conhecimento, por apreciação estética, por relações sociais, amizades e, por que não acrescentar, de um relacionamento afetivo, um namoro e um casamento.
Cheung, aqui, é sagaz ao notar que não podemos cair na tentação (ou no engano) de conceber esses prazeres ‘mentais’ como distintos, ontologicamente, dos físicos: “visto que a mente não é distinguida do corpo, estamos meramente nos referindo a diferentes tipos de sensações, e não a prazeres mentais como distintos dos físicos” (CHEUNG, p. 22).
Morel ainda nos concede outra reflexão importante: “A ausência de perturbação não é outra coisa senão o outro lado do próprio prazer. Este é, portanto, o fim da vida feliz, nosso bem primeiro e ‘conatural’” (PRADEAU, p. 78). São dois lados da mesma moeda, que é a felicidade. Ter a alma em paz, sem demandas não satisfeitas, é também condição para a felicidade, e satisfazer suas demandas é ‘desperturbá-la’. Em suma, como aponta Morel: “De fato, a palavra-chave de Epicuro é que ‘o prazer é o princípio e o fim da vida feliz’. Os homens procuram naturalmente a vida feliz, que tem por finalidade ‘a saúde do corpo e a ausência de perturbação (ataraxia) na alma” (PRADEAU, p. 78).
Gaarder nos diz que, “depois de Epicuro, muitos epicureus evoluíram sua reflexão no sentido de uma busca unilateral do prazer. Sua palavra de ordem era: ‘Viver o momento!’. A palavra ‘epicurista’ é frequentemente usada em nossos dias de forma pejorativa, para designar alguém que só vive pelo prazer” (GAARDER, p. 151). Ou seja, ao invés de evoluírem, parece-nos que regrediram e caíram nos erros dos hedonistas grosseiros.

EPISTEMOLOGIA MORAL

Pierre-Marie Morel ainda nos é solícito em oferecer a compreensão de como se dá, com mais detalhes, o ato da prudência nos atos: “Os outros critérios estão diretamente ligados à sensação. Diógenes Laércio [...] acrescenta que, de acordo com o Cânone de Epicuro, os critérios da verdade são as sensações e as afecções (pathos). Estas revelam o prazer e a dor [...]. As afecções não são somente os indicadores das nossas disposições internas – indicadores pelos quais sentimos que sofremos ou que experimentamos prazer –, mas também critérios de ação, quer dizer, signos evidentes daquilo de que se deve fugir ou perseguir. Elas desempenham, portanto, um papel central na ética epicurista” (PRADEAU, p. 78). Há, pois, na natureza humana, na alma, afecções que nos informam sobre o benefício ou malefício que algo ou alguma ação exerce sobre nós. E a partir dessas afecções que devemos refletir, abstrair, ponderar e calcular o que pode nos fazer bem ou mal.

MEDO DA MORTE

“Segundo o epicurismo, a filosofia deve servir para libertar o homem do medo do destino, da morte, das divindades” (CHALITA, p. 79). Já vimos como ele faz isso para com as divindades, dizendo que elas mal se interessam pelos assuntos humanos. Lucrécio, por sua vez, prefere simplesmente negar sua existência. Vejamos, agora, como é que Epicuro propõe que abandonemos o medo da morte. E é Chalita, novamente, quem vai nos esclarecer o conceito: “Epicuro afirmava que a alma seria composta de partículas imateriais, muito leves e imperceptíveis, isto é, de átomos, conceito que o filósofo herdou de Demócrito. Com a morte, os átomos se dispersavam e a alma se desfazia; portanto, Epicuro sustentava que não existia vida após a morte e, por isso, não havia motivo para se preocupar com o que podia acontecer no além, pois tudo acabaria ao morrermos” (CHALITA, p. 79-80). Uma boa explicação do espírito que se queria evocar está em Nash: “Pessoas racionais não se afligem por causa dos séculos que se passaram antes que suas vidas começassem; por que então deveríamos nos afligir por causa dos séculos que passarão depois que tivermos deixado de existir?” (NASH, p. 48). É por isso que as pessoas, temerosas ante o discurso escatológico condenatório das religiões, corriam para o Jardim de Epicuro, conforme nos conta Gaarder (e é interessante que a citação enfatiza o fato, mencionado por Chalita, de que Demócrito é novamente aproveitado): “Com frequência, pessoas acometidas por temores de origem religiosa procuravam o jardim de Epicuro. Nesse caso, a teoria do átomo de Demócrito era extremamente útil contra a religião e a superstição. Para viver uma boa vida também era importante se libertar do medo da morte. Nesta questão, Epicuro retomava a teoria de Demócrito sobre os ‘átomos da alma’. Talvez você ainda lembre que Demócrito não acreditava na vida depois da morte, já que após a morte os ‘átomos da alma’ se dispersavam para todos os lados” (GAARDER, p. 150-151). Em suma, “eles eram hostis à religião, porque acreditavam que ela gera um temor supersticioso e debilitante. Entendiam que a filosofia liberta de um modo humano as pessoas da sua escravidão a religião” (SPROUL, p. 55).

Morel já menciona o fenômeno em termos de limites do que compete ao homem discernir, deixando transparecer, intencionalmente ou não, o princípio (e pressuposto) de Protágoras de que o homem é a medida de todas as coisas: “Para Epicuro, a filosofia natural demarca os limites do que nos pertence, ensinando que está para além não deve ser temido. O caso da morte mostra isso muito bem: a alma é corpórea, composta de átomos, de maneira que suas funções dependem da proporção desses átomos no agregado que ela forma com o corpo. Ela não sobrevive, portanto, à morte do corpo e não experimentamos mais qualquer sensação, uma vez ultrapassado este limite. [...] não vivenciamos dela qualquer dor; logo, ela não deve mais ser temida. Assim, conhecendo a natureza – mortal – da alma e sabendo, por outro lado, que os deuses não se preocupam absolutamente com os assuntos do mundo, libertamo-nos da perturbação que engendra o medo da morte dos castigos infernais” (PRADEAU, p. 79). Em suma, para delírio (nem que seja de jocosidade) de Albert Camus e Jean-Paul Sartre, o fato de não haver imortalidade e, com isso, muito menos punições eternas, é aquilo que finalmente trará alívio à alma humana. O mais interessante é que isso não foi feito para justificar um tipo de rebeldia explicitamente carnal para com Deus. Foi feito para que possa-se viver uma vida particularmente moral, correta, em certo sentido, mas que não precise render-se a Deus de forma alguma, não lhe rendendo graças e nem os louvores devidos.

INDETERMINISMO

Um último quesito mencionado que não pode ser negligenciado é o indeterminismo, conceito, já mencionado e um pouco trabalhado, tão caro à ética de Epicuro. “Os epicureus, por sua vez, rejeitavam o determinismo materialista e afirmavam um âmbito muito mais amplo da liberdade humana” (SPROUL, p. 55). Nash é quem salienta a importância do conceito para Epicuro: “Ainda que negasse um propósito (teleologia) no mundo, o sistema materialista atomista mecanicistas de Epicuro não era totalmente mecânico. Epicuro pensava ser importante libertar o homem do determinismo mecanicista, o qual considerava como uma ameaça para a felicidade humana. [...] ele teve de achar um meio para introduzir o indeterminismo no movimento dos átomos. Afinal, os seres humanos são feitos de átomos. Portanto, para que os seres humanos fossem livres, o movimento dos átomos teria de ser indeterminado – pelo menos, em alguns casos” (NASH, p. 49). Ele concebia que ações mecanicamente realizadas fariam do homem mera vítima do destino. Esse era um conceito retrógrado que Epicuro queria deixar nas tragédias antigas, no teatro grego. Os estóicos que vivessem com esse conceito, mas Epicuro não! A felicidade consiste justamente em escolhermos certo o que irá nos trazer mais felicidade e menos (ou nenhum, se possível) dano. Tal escolha calculada não faz sentido num sistema determinista, mecânico. É por isso que Epicuro o rejeita e precisa elaborar toda aquela conversa que vimos na metafísica.

UM RESUMO DO EPICURISMO

Vincent Cheung, intentando mesmo resumir o que pensavam os epicuristas, nos oferece uma concisa exposição do que vimos até aqui, e achamos que vale a pena para que o conteúdo fique bem fixado: “A principal motivação para a filosofia de Epicuro é a de libertar o homem do seu medo da morte e dos deuses. Embora os epicureus formalmente afirmem as deidades gregas tradicionais, elas são vistas como parte do universo materialista e atômico, e irrelevantes para os assuntos humanos. Porque os deuses não estavam interessados nos assuntos humanos, a crença na providência divina era considerada supersticiosa, e os rituais religiosos inúteis. Nós podemos chamá-los de deístas; os estóicos os consideravam ateístas, e eles realmente o eram no sentido prático” (CHEUNG, p. 21).

CRÍTICA

Finalmente iremos lançar nosso ceticismo sobre as teses materialistas. Algumas coisas não serão ditas, visto que, na exposição de outros pensadores, iremos trabalha-las futuramente. Uma delas, por exemplo, é como Hume descartaria os deuses de Epicuro, deduzidos de sua epistemologia. Quanto às críticas que faremos, seguiremos, basicamente, a Ronald Nash.
Primeiramente, Nash observa algumas questões que são simplesmente pressupostas “Por que existe alguma coisa (átomos) em vez de nada? Por que os átomos se movem em vez de permanecerem imóveis? Se você for um atomista, eis em que você tem de crer” (NASH, p. 46). Isso mesmo. O atomista deve partir desses pressupostos. É uma questão de fé. Eis os axiomas da cosmovisão naturalista. Não que isso seja particularmente um problema. Só o é para o ignorante que presume ser sua cosmovisão isenta de crenças.
O problema está justamente na falta de bases epistemológicas para explicar alguns fenômenos*5. E Nash está recheado de exemplos céticos sobre a cosmovisão naturalista.
Peguemos dois casos: “Epicuro então apresenta outra questão que não tem resposta: por que os átomos desviam? Não há razão, exceto que, de outra maneira, nada existiria. No espaço infinito –devemos observar – as palavras alto e baixo não têm sentido. Contudo, Epicuro usou a palavra cair, e implicou que os átomos estivessem decaindo. Caindo para onde? É mais polido não perguntar” (NASH, p. 50). É, pois, totalmente arbitrária a suposição de que os átomos declinariam levemente. Nash reclama de forma peremptória: “Os atomistas se orgulhavam de sua habilidade para explicar tudo em termos plenamente mecânicos. Infelizmente, qualquer evento espontâneo e arbitrário (não-causado), como, até mesmo, um único desvio, é um evento para o qual não há explicação possível” (NASH, p. 51). Explicar implica, justamente, em definir as causas, e dizer que algo simplesmente acontece, de forma arbitrária, sem nem mesmo tentar esquivar-se para a possibilidade de uma vontade oriunda de uma inteligência (aliás, a única coisa que pode ter vontade é alguma coisa em algum sentido ‘viva’).
Nash não para por aqui: “Os antigos atomistas tinham outro problema. Seu universo era uma máquina, destituída de propósito e de projeto. Mas o universo em que vivemos está repleto de ordem. [...] Os atomistas não só têm dificuldades para explicar por que existem átomos ou por que os átomos se movem de maneira tão conveniente, mas parecem não ter também meios para explicar a natureza regrada e ordenada do universo” (NASH, p. 47). A não ser que digam que somos nós, humanos, que imaginamos ‘ordem’ no universo, estarão em maus lençóis. Sua cosmovisão já falhará em explicar um aspecto crucial e será reprovada no teste da abrangência.
Mas caso eles fujam para onde apontamos, só terão mordido a isca para serem pegos em um problema ainda maior. “Têm os atomistas o direito de usar palavras como perceptivo, observador ou eu/nós? Seu uso ilegítimo desses termos faz seu sistema parecer mais plausível do que realmente é?” (NASH, p. 53). Quando eles falam sobre ‘nós’, estão presumindo uma entidade mental transcendente, algo que não é meramente moção atômica. Então, Bailey questiona: “Pode o movimento de partículas insensíveis produzir ou ser levado em conta como consciência?” (BAILEY apud NASH, p. 53).
Cheung, embora não intente, como ele mesmo declara, no livro em questão lidar com cada ponto do epicurismo, nos oferece um ponto, em resumo, que deve ser mencionado: “na ética, sua [dos epicureus] teoria não pode ser formulada com base em sua epistemologia, e não há razão autoritativa para pensar que o prazer é o bem maior” (CHEUNG, p. 23). De fato, Epicuro parece estar apenas seguindo Aristipo e Aristóteles sem qualquer justificativa em sua cosmovisão. Como é que ele tem certeza de que o prazer é o bem maior? Aliás, o que seria mesmo um ‘bem maior’ nesse materialismo radical? Tudo o que temos são amontoados de átomos? Como se beneficia um aglomerado de átomos? É melhor mantê-los unidos que soltos? Por que mantê-los unidos é bom? Essas e outras questões afins podem ser formuladas de modo que o materialista terá sérios problemas.
E, finalmente, no ataque arrasador de Nash ao materialismo filosófico, está o problema epistemológico. “Conquanto os atomistas tenham usado a lei da não-contradição, as leis da lógica não podem ser reduzidas ou equiparadas com as mecânicas leis do movimento. [...] Processos puramente mecânicos não produzem nem podem produzir inferências válidas. Processos mentais não podem ser reduzidos a relações mecânicas de causa e efeito. Conexões lógicas são não-mecânicas” (NASH, p. 53-54). Nash faz duas citações de C. S. Lewis que simplesmente pulverizam a epistemologia epicurista: “Todo conhecimento possível... depende da validade do raciocínio. Se o sentimento de certeza que emitimos com expressões como tem de, portanto e uma vez que, é uma real percepção de como a coisa fora de nossas mentes realmente tem de ser, muito bem. Mas se tal certeza é meramente um sentimento em nossas mentes e não uma genuína percepção das realidades além delas – se meramente representa as maneiras como nossas mentes ocorrem operar – então nem sequer temos conhecimento” (LEWIS apud NASH, p. 56). Para explicar um pouco melhor o que Lewis queria dizer, outra citação: “Nenhum exame do universo [...] pode ser verdadeiro a menos que tal exame deixe aberta a possibilidade de que nosso pensamento seja uma percepção verdadeira. [...] A menos que nossa conclusão seja a lógica consequente de nossa base, não terá valor e seria realmente, apenas um engano” (LEWIS apud NASH, p. 57). Para o materialista, cada pensamento nosso, ou seja, cada proposição de um silogismo, não passa de uma moção bioquímica cerebral. Portanto, a conclusão não se segue necessariamente das premissas mas, antes, não passa de outra moção cerebral sem sentido e sem propósito*6.
Embora iremos abordar a questão quando lidarmos com os existencialistas, temos de antecipá-los para dizer que Epicuro e Lucrécio não nos tiram nossos medos. Antes, nos colocam em completo desespero: “Ao tentar eliminar nossos medos cósmicos, dizendo-os ilusórios, Epicuro e Lucrécio deveriam ter ido além e dito que nossas escolhas e esperanças seriam igualmente ilusões. A vida em tal mundo não pode ter significado” (NASH, p. 55). Tanto no cosmos abderiano, com seu mecanicismo cego, quando no cosmo epicureus, com suas ações aleatórias, sem explicação ou nexo algum, não há como postular sentido, significado e coisas do gênero*7.
Por fim, embora Nash nem nenhuma outra fonte que consultamos mencione, mas o espírito apolítico dos epicureus é um tiro no pé. Talvez seja fruto da sensação de impotência oriunda do imperialismo alexandrino, mas o fato é que o não envolvimento político acabará fazendo seus efeitos baterem às portas do Jardim de Epicuro, podendo causar-lhe desconfortos que lhe furtem o tempo dedicado aos prazeres da vida, ou mesmo as condições básicas de subsistência.

------------------------------------------------------------------------
*2 Não é, portanto, que temos, em suma, o que os ateus acreditam aqui? O mundo é explicado pela interação entre matéria e leis naturais (sabe-se lá porque as coisas são do jeito que são). Alguns, diante dos problemas criados por argumentos teístas, ainda advogam multiversos, o que as teorias de Demócrito, no mínimo, nos fazem lembrar. Somente, talvez, na epistemologia, como veremos a seguir, que tenhamos alguns estranhamentos. Além disso, temos a ideia de que todo fenômeno mental não passa de fenômenos bioquímicos cerebrais. Protelemos uma avaliação para a crítica final.
*3 De fato, toda sensação oferece uma verdade irredutível, a saber, a de que ‘nos parece’ ter visto, ouvido, sentido, cheirado ou experimentado o gosto de algo. Nash explica melhor a questão: “Proposições incorrigíveis são declarações nas quais relatamos fielmente aquilo que está presente em nossa consciência. A maneira de transformar qualquer proposição duvidosa sobre o mundo (com: ‘Estou agora no Monument Velley’) em uma proposição incorrigível é por meio de prefacia-la com a expressão ‘parece-me’” (NASH, p. 303).
*4 Osborne chega a sugerir que Epicuro teria desenvolvido sua filosofia ética também de Demócrito. Ela fala de fragmentos que seriam de Demócrito: “Esses textos definem a vida boa como um estado de quietude da alma, cuja realidade é material, afetada por átomos que a circundam. Demócrito antecipa desse modo a pesquisa sobre ‘tranquilidade’, a partir de prazeres moderados, que reencontraremos entre os atomistas posteriores da escola de Epicuro. Alguns intérpretes localizam aqui uma semelhança entre Demócrito e Sócrates, notadamente porque ambos sustentam que é vantajoso ser bom, mas são argumentos que resta alusivos em Demócrito, talvez porque nossas fontes permanecem fragmentárias” (PRADEAU, p. 30).
*5 Veja mais sobre como criticar uma cosmovisão pelo teste da abrangência aqui:  http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/12/cosmovisoes-parte-4-segundo-teste.html
*6 Iremos trabalhar com um artigo argumentando exclusivamente nesse sentido, ampliando esse argumento da mente contra o naturalismo filosófico.

REFERÊNCIAS

CHALITA, Gabriel. Vivendo  Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.

CHEUNG, Vincent. Confrontações Pressuposicionalistas. Tradução de Felipe Sabido de Araújo Neto e Marcelo Herberts. Brasília: Monergismo, 2006, 83 páginas (e-book).

DURANT, Will. A História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 4ª ed., 2001, 406p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.

MOREL, Pierre-Marie. O atomismo antigo _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.

NASH, Ronald H. Questões Últimas da vida: uma introdução à filosofia. Tradução de Wadislau Martins Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 448 p.

OSBORNE, Catherine. O nascimento da filosofia _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.

SPROUL, R. C. Filosofia para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208 p.