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segunda-feira, 6 de abril de 2015

Diálogos sobre a Homossexualidade


Era um jantar em família. Uma família tradicionalmente cristã - embora fosse só uma confissão nominal -, reúne-se em um restaurante para comemorar a Páscoa. Mais cedo já haviam trocados ovos de chocolate e todos estavam contentes. Dentre as várias pessoas que ali se encontravam, três nobres senhores [e o adjetivo certamente será subtraído a um deles, no decorrer do texto... fica aqui apenas como efeito retórico], com cosmovisões muito distintas, merecem nossa atenção. São parentes. Um é um homossexual, e o chamaremos de Sr. Rosa. Outro é um homofóbico que será denominado de Sr. Vermelho [até porque comunistas não se davam muito bem com homossexuais... mas pensamos na cor mais para simbolizar violência, sangue]. O terceiro e último homem é o Sr. Cristão, e trata-se de um bom cristão reformado (que acredita que os proponentes da Reforma Protestante estavam certos e que realmente remontaram a fé original, bíblica). Também, não haveria como não notá-los. Por 'força do destino', o assunto acabou rumando-se para aquelas questões polêmicas típicas que tumultuam um encontro desses e geralmente não são nada produtivas. O assunto era homossexualidade. O Sr. Rosa, suspeita do Sr. Vermelho e aproveita para, elegantemente, evocar a discussão diante dos presentes, o que lhe conferiria certa segurança e poderia angariar repúdio ao pensamento daquele que tanto lhe quer mal. Em certo sentido, era uma medida preventiva. E lhe doía o desprezo de seu parente, principalmente o que ele insistia em propagar aos demais familiares noutras ocasiões que não estava presente. Além disso, o parente que tinha menos contato, o sr. Cristão, possivelmente devia fazer o mesmo, embora os exemplos de Cristo pudessem torná-lo mais ameno. Seja como for, se ele coadunasse com o Sr. Vermelho, já seriam dois coelhos com uma cajadada só.

Sr. Rosa - Vocês explicam como, para vossos filhos, a respeito da relação entre coelho, ovo e chocolate?
Sr. Vermelho - Não precisamos explicar. Têm apenas que aceitar.
Sr. Rosa - Mas, então acham possível que convivam com essa besteira e não conseguem explicar que duas pessoas do mesmo sexo se amem?
Sr. Cristão - Não acredito que devemos chamar nem a um nem a outro de normal. Nada me obriga. Posso explicar para meus filhos que as coisas não são bem assim.
Sr. Vermelho - Além disso, uma coisa é um mito, uma lenda. É algo imaginativamente possível. Não tem que ver com conduta moral...
Sr. Rosa - O que dizem a vossos filhos sobre mim? - perguntou meio que para quem quisesse responder.
Sr. Vermelho - Que você faz algo muito errado! - respondeu, de prontidão, ainda que tentando se conter.
Sr. Rosa - Só isso? E eles acham que sou uma espécie de criminoso? - insistiu ao suspeitar que o Sr. Vermelho tivesse mais para falar.
Sr. Vermelho - Talvez, mas eu vos ensinei que não adiantaria prendê-los, pois poderiam apreciar o cárcere... - falou diminuindo um pouco o tom por perceber ter dito algo muito ofensivo, mas achava-se no dever de falar o que cria.
Sr. Rosa - E você, sr. Cristão, o que me diz. - disse, contendo-se, por ser educado, após ouvir o que achou uma barbaridade da parte do Sr. Vermelho.
Sr. Cristão - Em partes, penso como o sr. Vermelho. Acho que fazes algo muito errado. Entretanto...
Sr. Rosa - Poderia dizer-me, pois, qual a diferença entre vocês dois? - interrompeu-o abruptamente, já um tanto quanto alterado emocionalmente diante de uma confissão assim, começando a sentir-se, inda que não numa dimensão perfeitamente consciente, malquisto por toda a família. - Afinal, não foi Jesus quem ensinou-vos amar ao próximo? Quando Jesus disse que devemos fazer aos outros o que queremos que nos façam, não inclui igualdade? Responda-me, sr. Cristão, pois sei que és interessado em teologia e vives a conversar sobre essas coisas. Não conheces esses textos?
Sr. Cristão - Bom, sr. Rosa, eu entendo seu estado emocional diante do que ouvistes. Mas quero assegurar-te, antes de mais nada, que não concordo que sejas um criminoso e que mereces algo pior do que o encarceramento...
Sr. Vermelho - Eu não disse 'algo pior'!
Sr. Cristão - Tudo bem, sr. Vermelho. Seja como for, no mínimo pareces dizer que os homossexuais merecem uma punição semelhante ao dos criminosos. Quero que saibam que eu não penso assim e estou persuadido de que não é a posição bíblica a esse respeito.
Sr. Vermelho - Veja que não sou cristão, mas sei que a Bíblia mandava apedrejar (ou algo assim) aos que faziam essas abominações.
Sr. Rosa - Perfeitamente, sr. Cristão. Como respondes a isso? A Bíblia, também, no mesmo momento que condena a homossexualidade - o que há bons intérpretes que discordam, mas não vem ao caso -, recomenda compra de escravos e até o formato da barba e corte de cabelo! Parece que o sr. não é tão coerente assim com esses deveres. Como excluis uns e não outros? E não venhas me dizer que aqueles que rejeita caducaram ao passo que os preceitos que aceita permanecem. Parece-me arbitrário arguir assim.
Sr. Cristão - Bom, temos que nos acalmar aqui. Estamos abrindo muitas pontas soltas e creio que não estão dispostos a me ouvir discursar demoradamente sobre esses temas.
Sr. Vermelho - Se te demoras é porque está nos enrolando.
Sr. Rosa - Não pode nos responder de forma resumida?
Sr. Cristão - Há questões complicadas que demandam explicações mais elaboradas. É a natureza do problema que determina sua complexidade.
Sr. Rosa - Pois tente um resumo, por favor! Quero muito entender-te. Prometo esforçar-me pare entendê-lo. Posso até pesquisar mais sobre. Sei como é não ser compreendido e ter muito a falar...
Sr. Vermelho - ...
Sr. Cristão - Bom. Deixa-me resumir da seguinte maneira. Existem critérios lógicos que os teólogos, no decorrer dos anos, elaboraram para explicar o fenômeno neotestamentário de abraçar algumas leis e rejeitar a outras. Afinal, os apóstolos e a igreja primitiva não andavam em conformidade com todas as prescrições do Pentateuco, i. é., dos livros de Moisés.
Existe uma noção muito popular que divide a 'Lei' (como é, também, chamado o Pentateuco - mas há momentos em que usamos o termo para o decálogo e outras para a lei moral) entre leis cerimoniais, leis civis e leis morais. As cerimônias e as leis civis tinham valores transitórios, para um momento específico da história da humanidade, especialmente voltadas para os judeus. As leis cerimoniais eram leis litúrgicas e não obrigavam a mais ninguém além dos judeus. E num regime teocrático, ou mesmo na monarquia hebreia, haveria uma rigidez muito grande para com as coisas santas...
Sr. Rosa - E nessas 'coisas santas' incluía a morte dos homossexuais?
Sr. Cristão - Sim, certamente. Mas, espere, não me interrompa ou então não compreenderás a questão. Da mesma forma que o homossexualismo era punido com morte, também o era o adultério, o estupro e até mesmo a rebeldia indomável de um jovem que se levanta contra seus pais. Era inadmissível que os valores celestiais não fossem estritamente observados num povo que portaria a descendência do Messias! Bom, essa é uma divisão útil, mas prefiro, ainda, uma outra divisão...
Sr. Rosa - Mas, sr. Cristão, as pessoas nascem homossexuais! Não é uma escolha!
Sr. Cristão - Sr. Rosa, insistes em me interromper. Assim não poderás compreender muito bem meus posicionamentos.
Sr. Rosa - É que não pensei que falavas tão a sério quando dizias que demorarias...
Todos dão algumas gargalhadas, quebrando um pouco da tensão. Algumas mordiscadas na comida que já esfriava e tornaram ao diálogo.
Sr. Rosa - Bom, sr. Cristão, acredito que já entendi o seu ponto. As normas se restringiam a uma determinada situação política ou para um determinado problema específico, como não comer carne de porco por não terem condições assépticas para evitar doenças na época...
Sr. Cristão - Algo nesse sentido.
Sr. Rosa - Mas, e quanto à escravidão?!
Sr. Cristão - É outro assunto que demanda uma dosagem de paciência... Bom, basicamente, os judeus humanizaram a prática social tão comum da antiguidade. Escravos sexuais seriam abomináveis. Os escravos deveriam ser tratados como pessoas, seres humanos que, por eventualidades, acabaram por chegar àquela situação social. Não poderiam trabalhar mais do que um trabalhador qualquer e deveriam ser tratados com amor. Muitos se apegavam à família a quem serviam. Haviam possibilidades múltiplas de alforriar-se mas mesmo assim alguns insistiam em continuar com seus amos. Não te estranhas que os profetas que fizeram tantos discursos sobre desigualdades e injustiças sociais não tenham se compadecido deles? O assunto não lhes era estranho. Eles foram escravos dos egípcios e foram tratados de forma muito ruim. No entanto, o escravo dos hebreus seria, inclusive, circuncidado e levado a cultuar a Deus junto a eles! Isso, para os judeus, era o reconhecimento maior de sua dignidade.
Sr. Vermelho - Não estou tão certo assim de que essa argumentação convence e entendo que naqueles tempos era comum tomar os povos vizinhos, conquistados nas guerras, como escravos...
Sr. Rosa - E achas que isso é certo agora?
Sr. Vermelho - É certo que não!
Sr. Rosa - Então admites que pode haver progresso social?
Sr. Vermelho - Sim. Mas não significa que toda novidade deva ser tomada como progresso.
Sr. Cristão - Perfeitamente, sr. Vermelho. Finalmente deras uma dentro nesta noite!
Sr. Rosa - Mas estou a rejeitar a modernidade, senhores! Por um acaso acreditam que devamos voltar a ter escravos? Devemos suprimir o sufrágio feminino?
Sr. Cristão - De modo algum! Mas você deve entender que apreciarmos uma cultura não implica em abraçarmo-la toda. E ao criticar uma parte não temos que rejeitá-la, igualmente, de forma integral.
Sr. Rosa - Mas não consideras a igualdade entre os homens como um progresso modernos?
Sr. Cristão - Isso depende muito do que queres dizer com igualdade.
Sr. Rosa - A aceitação do homossexualismo é uma expressão de igualdade. Se antes os homens eram bárbaros e agora podem pensar melhor sobre essa questão, então certamente estamos em condições mais adequadas. Ou não acreditas que o fim da discriminação - ao menos oficial - não constituiu progresso.
Sr. Cristão - Acredito! Mas não acredito que a causa gay o seja.
Sr. Rosa - Mas você tem que ver que é apenas um desdobramento natural da cultura que, em grande parte, foram vocês mesmos que construíram. Como, agora, decidem abandonar suas crias?
Sr. Cristão - Estais muito equivocado, sr. Rosa. Lembra-te que o homossexualismo era uma prática comum na sociedade romana, entre os espartanos e noutros momentos e situações históricas antigas. Há quem diga, inclusive, que os professores gregos, na antiguidade, praticavam sexo com seus alunos que não são, exatamente, o que chamaríamos hoje de maiores de idade. Nesse sentido, poderíamos dizer que estamos regredindo e não progredindo. Aliás, para que a prática fosse condenada no livro de levítico temos de concordar que fosse antiga. E por haver uma pontual crítica, na Torá (outro nome para o Pentateuco) aos costumes pagãos antigos, é de se presumir que esse era um costume de povos antigos pagãos.
Sr. Vermelho - Além disso, o homossexualismo é anti-natural! Até a Bíblia fala isso - e corrija-me se eu estiver equivocado, sr. Cristão!
Sr. Cristão - Está correto. Paulo, por exemplo, o diz em sua epístola aos Romanos.
Sr. Rosa - Pois eu já digo que é natural. Aliás, sr. Cristão, você não me respondeu o que fazer com essa questão pois, afinal, é congênito. Como poderíamos, pois, deixar de pecar?
Sr. Vermelho - Natural? Não mesmo!
Sr. Rosa - Isso não constitui uma refutação, sr. Vermelho. Só um esbravejamento, e ética não se elucubra com meras expressões subjetivas. Até, aliás, reformulo o que disse. Eu diria que o termo 'natural' é um tanto quanto polissêmico. O que querem dizer com isso?
Sr. Vermelho - Permita-me, primeiro, sr. Cristão?
Sr. Cristão - Sim, à vontade! Aproveito e como um pouco enquanto vos ouço.
Sr. Vermelho - Muito bem, sr. Rosa. Acredito que não podes negar que há males para a própria preservação da espécie se aceitarmos, como legítimo, o casamento gay, não é mesmo?
Sr. Rosa - Discordo. Se legitimarmos o casamento gay e coisas do tipo não estaremos, com isso, obrigando ou forçando as pessoas a se tornarem homossexual. Acredito, certamente, que muitos sentir-se-ão menos agrilhados e o que chamam por aí de 'sair do armário' tenderá a crescer.
Sr. Vermelho - Então concordas que a liberação acabará por influenciar a sociedade?
Sr. Rosa - Não determinantemente, e nem predominantemente. A maioria das pessoas continuam sendo heterossexuais nos lugares mais permissivos - se é que são mesmo, pois acredito que todos tenham alguma tendência...
Nesse momento o sr. Vermelho fez um movimento brusco e o sr. Rosa viu que exagerou.
Sr. Cristão - Sr. Rosa, se algum cristão o interpelasse dizendo que, no fundo, o senhor sente atração por mulheres, o senhor sentir-se-ia satisfeito?
Sr. Rosa - É evidente que não! Já entendi seu ponto. Perdoem-me. Mas pareces admitir que é congênito...
Sr. Cristão - Protelemos este ponto. Continuem de onde pararam.
Sr. Vermelho - Muito bem. É inegável que a aceitação da sociedade fará com que várias pessoas assumam-se gays. Muito mais do que agora. E muitos o farão, até mesmo, por moda. Isso minorará nossa capacidade procriativa.
Sr. Rosa - Bom, primeiro que, por esse raciocínio, terias de condenar tudo o mais que não procria.
Sr. Vermelho - Como assim?
Sr. Rosa - O celibato também teria de ser condenado, posto que atenta contra a preservação da espécie.
Sr. Vermelho - Talvez. Por que não? Fazes um ad baculum!
Sr. Rosa - Ok. E achas que o baculum não lhe atinge? Pois mostrarei que atinge...
Sr. Cristão - Permitam-me interrompê-los por um breve instante. Preciso salientar que não considero, como parece considerar o sr. Vermelho, a preservação da espécie como o valor supremo pelo qual se julga todas as demais coisas. E é evidente que não recrimino o celibato. Não em si, conforme as Escrituras... Mas, prossigam.
Sr. Rosa - Bom, sr. Vermelho, o senhor compactua com a ideia de que o os homossexuais agem contra a natureza por praticarem sexo que não é para a procriação?
Sr. Vermelho - Até porque não podem, não é mesmo...
Sr. Rosa - Indubitavelmente que não. Mas não vem ao caso. Sei que não és católico também. Por isso, não tomas o sexo como se tivesse esse único fim.
Sr. Cristão - E diante de um católico, o que dirias?
Sr. Rosa - Diria que, se assim fosse, eles teriam de parar com uma série de outras práticas que parecem dar uma utilidade secundária para os vários órgãos que têm. Eles usam a boca para beijar, e ela parece ter sido feita para comer e falar. Usam as mãos para tocar violão, além de servirem para a obtenção de alimento. Além disso, teriam de proibir a masturbação e o sexo oral também.
Sr. Cristão - Argumentação interessante. Mas eles proíbem masturbação. Retires essa parte do argumento...
Sr. Rosa - Hum. Percebo. Enfim, o argumento se segue. Além disso, se corrermos para a ideia de que os órgãos estariam sendo usados para fins inapropriados, ou não naturais, estaríamos incorrendo em grandes dificuldades. Seria como se alguém tivesse pensado neles...
Sr. Vermelho - Já entendi o seu ponto.
Sr. Cristão - Noto que essa argumentação teria poder de convencimento somente sobre aquele que concorda com os teus pressupostos naturalistas. Se Deus existe e criou o homem, é perfeitamente razoável pensar que os órgãos foram criados para fins determinados e que usá-los para outros fins seria errado.
Sr. Rosa - Os olhos foram feitos para ver. Mas isso te impede de dar uma boa piscadela?
Sr. Cristão - Não. Mas as mãos foram feitas para vários fins, conforme a criatividade humana, que é dom de Deus. No entanto, elas podem ser usadas de forma inadequada para matar. E de fato foram.
Sr. Rosa - Mas não são vocês que defendem que existe guerra santa e coisas do tipo? Nesse caso, há um uso legítimo das mãos para causar dano.
Sr. Cristão - Como tu abres pontas, sr. Rosa! É bem possível que eu tenha deixado algum ponto sem responder por não conseguir me lembrar de todos, e não por não ter respostas. Pois bem, percebestes o meu ponto. Há momentos adequados e pessoas certas para usarmos nossos membros, órgãos e afins. E o sexo é destinado aos casais.
Sr. Vermelho - É fácil mostrar que é contra a natureza! Basta olharmos para a maioria esmagadora das pessoas sobre a terra. Logo será notado que é algo anormal.
Sr. Rosa - Irritar-te-ás, mas tenho que refutá-lo novamente. Se as coisas são decididas, assim, por estatística, então ser albino, que é 'anormal', é, também, errado.
Sr. Vermelho - Mas ser albino não é opção ou ação moral!
Sr. Rosa - E quem falou que ser gay o é?!
Sr. Cristão - Parece inevitável que entremos nessa questão, não é mesmo? Bom, para começo de conversa, sr. Rosa, crês que as condições biológica são indelevelmente determinantes?
Sr. Rosa - Bom, às vezes sim, às vezes não. Também acredito e admito no poder educativo. Mas acredito que a força mais determinante é a biológica.
Sr. Vermelho - Então acreditas que um psicopata também não tem escolha?
Sr. Rosa - Não é isso!
Sr. Cristão - Parece-me um corolário do que afirmas e pressupões, senhor Rosa. Aliás, parece-me enredá-lo também, sr. Vermelho.
Sr. Vermelho - E como tu vês isso?
Sr. Cristão - Acredito que existam fatores espirituais determinando as escolhas. Mas há cristãos que acreditam que as escolhas não são eficientemente determinadas, e outros que as vêem fortemente influenciadas. Não vem ao caso entrarmos nessa discussão prolongada da teologia agora, acredito eu.
Sr. Vermelho e Sr. Rosa - Não mesmo!
Sr. Rosa - Muito bem, sr. Cristão, ainda quero tua apreciação. Como é que eu, que sinto atração natural por homens, poderia deixar de pecar?
Sr. Cristão - Na verdade é muito simples, mas como tudo que envolve conselhos sexuais, dado seu poder de nos mover, é difícil de aceitar. O que tens que entender é o seguinte. A Bíblia não condena as tendências homossexuais. A Bíblia condena as práticas homossexuais, e essa distinção é crucial!
Sr. Rosa - Mas seria legar-nos uma vida muito infeliz, sem poder amar!
Sr. Cristão - Na verdade, concebes a felicidade e a santificação de forma pobre, caro sr. Rosa. Para começo de conversa, a santificação demandada pelas Escrituras implica em abdicação da parte de todos. Alguns em maior grau, outros em menor. De alguns exige a castidade. Acredito que o mesmo se dê com os que têm tendências homossexuais. Por exemplo, condenamos a promiscuidade, a fornicação o adultério e demais pecados sexuais, e a prática homossexual está inclusa. Aliás, é possível até mesmo que alguém que não tenha tendências homossexuais resolva 'experimentar', o que seria condenável da mesma forma. Pessoas menos dotadas de beleza ou com alguma deficiência podem querer se rebelar e voltar-se a qualquer tipo de relacionamento que o Senhor desaprove. Entretanto, aquele é o fardo que fora destinado a elas. Podemos e devemos tentar ajudar de todas as formas possíveis, mas não podemos ceder que elas pequem para tentar aliviar suas dores.
Sr. Rosa - Algo ficou pendente! Como sei que essa norma que proíbe o homossexualismo não é mais uma daquelas obsoletas?
Sr. Cristão - Bom, praticamente porque a razão de ser dela não cessou. Não tornou-se natural...
Sr. Rosa - Novamente a questão do 'natural'...
Sr. Cristão - Mas veja que justifico minha teleologia. Além do mais, o fato de um homem e uma mulher conseguirem procriar parece-me, sim, um indício de que são o par natural.
Sr. Rosa - Falas como se fosse uma doença!
Sr. Cristão - Bom, certamente é um 'defeito', fruto do pecado no mundo, e que manifesta-se particularmente causando esse desregulamento.
Sr. Rosa - Se concebes que alguém com tendências naturais para crimes deves conter-se e agora parece falar da mesma forma a respeito do homossexualismo...
Sr. Cristão - Tens, tal como aqueles, que conter teus impulsos. Por mais desagradável que seja, é assim que tem que ser. E é assim para ti e para ele. Tens que admitir que dentro de um quadro teórico que toma os pressupostos bíblicos, as coisas são assim.
Sr. Rosa - Pois prossiga na explicação da Bíblia Sagrada.
Sr. Cristão - Bom, como era uma norma moral, que não cessou as razões para existir, e que é reiterada no Novo Testamento, então é fato de que é bíblico continuar a afirmar que é pecado a prática homossexual.
Sr. Rosa - Mas, então Deus quer que sejamos infelizes?
Sr. Cristão - Não, sr. Rosa. Certamente é possível que ele queira que tenhas vida casta. Mas estaria, apenas, privado de uma alegria, e não de todas, muito menos da principal, que é saciar a sede de tua alma com a água da vida. Além disso, há esperança. Eu mesmo conheço pessoas com tendências fortes ao homossexualismo que acabaram conseguindo superá-las e até namoram! Algumas relatam que perderam toda a atração para com o mesmo sexo! Mas só Deus sabe qual será teu destino. Uma coisa é certa, ele quer que te retraias.
Sr. Rosa - Percebo... mas não acredito no teu Deus!
Sr. Vermelho - Não precisa, retomemos a questão da preservação da espécie...
Sr. Rosa - Essa é fácil de responder, sr. Vermelho. Basta que os gays se reproduzam com barrigas de aluguel, inseminação in vitro e coisas do tipo... Entre os teus argumentos e os do sr. Cristão, é muito mais razoável acompanhá-lo.
Sr. Cristão - De fato, por um viés utilitarista, acho difícil condenar a prática homossexual. Ela parece-me tão ameaçadora quanto aquelas mentirinhas insignificante que as pessoas contam. Mentiras que não prejudicam a ninguém. Aparentemente, se são insignificantes nos resultados que produzem, são também para a moral em si. O problema é que, se existe um Deus, os valores existem objetivamente, e mesmo que as transgressões não produzam algum efeito ruim, elas são más em si. A propósito, uma cosmovisão cristã consistente, inclusive, admitiria que as coisas podem até estarem desequilibradas nesse mundo. Injustiças não são sempre castigadas, por exemplo. Mas isso se dá porque ainda estamos numa realidade de 'Queda'. O mundo não é o que deveria ser por causa de sua contaminação pelo pecado. Talvez seja por isso que as coisas não venham a dar tão errado para várias injustiças.
Sr. Vermelho - E o que respondes às questões a respeito de serem felizes, sr. Cristão? Sei que condenarias minha juventude também, mas estava apenas sendo feliz...
Sr. Cristão - Estaríamos entrando, talvez, para um outro assunto...
Sr. Rosa - Não, de forma alguma. É, ainda, sobre sexualidade.
Sr. Cristão - Bom, o problema é que estão tomando felicidade por hedonismo grosseiro. Nem é preciso ser cristão para saber que isso não traz, necessariamente, felicidade...
Sr. Rosa - Eu não estava encarando as coisas assim. Falava de amar de verdade...
Sr. Cristão - Bom, faríamos um looping eterno aqui, pois eu insistiria que a maior felicidade está em encontrar-se com Cristo e as outras coisas são, embora importantes, adendos.
Sr. Rosa - Ainda acho que furtam nossos direitos ao mesmo tempo que pregam igualdade. Parece, pois, que a Bíblia é incoerente.
Sr. Cristão - Bom, seria interessante salientarmos que os direitos de igualdade conquistados por mulheres e negros devem muito às investidas de cristãos... Mas, detenham-nos no que dissestes. Igualdade é o direito de toda pessoa poder se casar. Mas casamento, essencialmente, é, segundo as Escrituras, algo realizado entre um homem e uma mulher.
Sr. Rosa - Mas isso não limita o conceito de igualdade?
Sr. Cristão - E dirias que o conceito de liberdade é limitado quando eu digo que não podes intentar contra minha vida?
Sr. Rosa - Não mesmo!
Sr. Cristão - Pois bem, acredito que o fazes porque acredita que a liberdade é condicionada e cerceada por princípios. A igualdade também. Todo homem tem o direito a relacionar-se com uma mulher. Toda mulher tem o direito de relacionar-se com um homem. Quando se diz 'ter direitos iguais', queremos dizer que algumas coisas lhe são inerentemente pertencentes. A questão é discutir o que são essas coisas.
Sr. Rosa - Pois digo que é amar e ser amado por quem bem se entende.
Sr. Cristão - Inclui, pois pedofilia?
Sr. Rosa - Claro que não! A criança não pode consentir de forma não viciosa!
Sr. Cristão - Inclui, zoofilia?
Sr. Rosa - Também não!
Sr. Cristão - Com todo o respeito, mas não vejo com quais critérios elimina esses itens. E vou mais além, digo que dizes o que é certo e errado recorrendo a algum padrão absoluto de moralidade.
Sr. Rosa - Aonde queres chegar com isso?
Sr. Cristão - Que se o padrão disser que é errado fazer algo, não importa se as pessoas consentem ou se acreditam ter esses direitos.
Sr. Rosa - Tudo bem, mas e se eu não aceito esse padrão?
Sr. Cristão - Terás de justificar o padrão pelo qual decides...
Sr. Rosa - Combinado, mas deixemos essa discussão para outro momento. Por hora, eu diria que rejeito o teu Deus.
Sr. Cristão - Sim, todos já estão fartos. Eu concluiria que é o único jeito de continuares sustentando teu homossexualismo.
Sr. Vermelho - Bom, boa noite a todos. De ti, sr. Rosa, não quero nem amizade.
Sr. Cristão - Pois faço questão de devotar-lhe carinho e respeito, desde que mantenha o decoro e o pudor na frente de meus filhos e dos filhos dos outros, como demonstrastes hoje pela noite. No mais, serás tratado por mim com a misericórdia que trato meus amigos que vivem vidas desregradas. Entendo que continuas em rebeldia contra Deus e quero demovê-lo desse caminho.
Sr. Rosa - Pois aprecio muito sua postura, sr. Cristão. Espero que estreitemos os laços e tu possas me apresentar esses seus amigos que mudaram de vida para que eu veja com meus próprios olhos e ouça deles mesmos o que lhes aconteceu.
Sr. Cristão - Será um prazer!

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A Filosofia Política de Platão


[para uma interpretação mais precisa desse artigo, leia, clicando aqui, o artigo sobre a ética de Platão]
Enquanto, na apresentação da metafísica (que inclui a antropologia e a epistemologia) de Platão seguimos, primordialmente, a Ronald Nash, aqui seguiremos muito a Will Durant. Tal como se deu naquele caso, neste iremos nos valer da complementação de outros títulos que conhecemos, e teceremos alguns comentários buscando elucidar algum ponto que Durant (ou outro comentarista) não nos pareceu claro ou até mesmo tenha sido controverso.
Com este artigo sobre a concepção política de Platão deixaremos o aristocrata de Atenas. Como é de praxe, antecipações de várias filosofias que viriam, às vezes, séculos mais tarde, serão comuns. Não estranhem, pois, Marx e Freud surgirem aqui ou acolá nas entrelinhas. É evidente, lado outro, que diferenças hajam. Chegará o momento de avaliar o que pode haver de bom em cada um desses pensadores. Por hora, conheçamo-los. Mãos à obra.

O PROJETO FILOSÓFICO-POLÍTICO

Para começo de conversa, temos que compreender a proposta de Platão. Gaarder diz que “Platão [...] descreve o Estado ideal, ou seja, ele imagina um Estado-modelo, ou ainda aquilo que chamamos de Estado ‘utópico’” (GAARDER, p. 106). É, pois, uma idealização. Com qual objetivo se teoriza em política? Basicamente é o seguinte: “... [Platão] procurou, de fato, um projeto político no qual o governo da pólis garantisse a felicidade de todos os seus habitantes” (CHALITA, p. 57). Isso é o básico. Evidentemente precisamos nos aprofundar.
Primeiro, temos que observar que a política se relaciona com a antropologia e com a ética. No decorrer da história do pensamento veremos alguns enfocando mais um que outro, mas, basicamente recorrem a concepções sobre o homem e sobre conceitos que concebem sobre o bem e o mal para justificar suas propostas políticas.
Em Platão, o objetivo é tentar formar indivíduos justos e, portanto, felizes, o que é possível particularmente em um plano social. Durant, em momentos diferentes, percebe a questão: “Se, sugere ele, pudermos imaginar um Estado justo, estaremos em melhores condições para descrever um indivíduo justo” (DURANT, p. 36). “Ele deseja discutir não só os problemas da moralidade pessoal, mas também os problemas da reconstrução social e política” (DURANT, p. 37). Aristocles, pois, irá elaborar o conceito de como seria um estado justo.

Agora, para teorizar na política, temos que entender o que está acontecendo na ‘pólis’, a problemática a ser resolvida. Aqui Brisson é extremamente pertinente: “A causa do mal na cidade, quer dizer, a causa de todo conflito, externo ou interno, é a competição (agon) que move a inveja e o ciúme (phthonos) e que chega à cobiça (pleonexia), quer dizer, o desejo de ter cada vez mais. Externamente, isto leva a cidade a querer incessantemente aumentar seu território, fazendo guerras repetidas. Internamente, isto conduz cada cidadão a querer aumentar seu domínio (oikos), usurpando para si os outros ou simplesmente se apoderando dele pela astúcia ou pela violência: daí a guerra civil” (PRADEAU, p. 41). Observem, pois, que o problema básico, para Platão, está no desequilíbrio dos indivíduos. E, ao que tudo indica, Platão concebe o homem como se fosse essencialmente corrupto.
Durant nota a raiz antropológica do problema: “Por trás desses problemas políticos está a natureza do homem [...] o Estado é o que é porque os seus cidadãos são o que são” (DURANT, p. 39). Ou seja, o Estado é mal e corrupto porque o homem é mal e corrupto. É preciso elaborar uma política que lide com isso. Durant instiga nossa reflexão: “A justiça seria uma questão simples, diz Platão, se os homens fossem simples; um comunismo anarquista seria o bastante” (DURANT, p. 37). Diríamos que os homens não só não são simples, como não são bons.
Brisson ressalta o problema e o trabalha um pouco melhor: “Mas, tal como o corpo que ela move, a alma do ser humano pode ser objeto de desregramentos que não lhe convêm: mesmo que ela conheça o bem, ela não chega a se conformar com ele. Estes desregramentos devem, portanto, ter causas exteriores. Estas causas são duas: o mau funcionamento do corpo e as más instituições que trazem como efeito uma má educação” (PRADEAU, p. 39). Há, pois, questões que dizem respeito à própria biologia do homem, e há questões relacionadas à formação do homem no meio. É possível estruturar o meio para que ele não produza desregramentos na alma do homem, ou seja, é possível conceber uma educação mais apropriada de modo que o homem esteja propenso ao bem e até mesmo a lidar com os desregramentos de seu corpo. É o caminho da educação. “A tarefa da educação é conduzir as pessoas da escuridão para a luz, da caverna com suas sombras para o sol do meio dia” (SPROUL, p. 37). Nisso consiste, basicamente, o projeto filosófico de Aristocles, ou seja, Platão.

Antes de, pois, discursarmos sobre a formação do cidadão ideal da República (nome da obra que o filósofo escreveu e que representam basicamente as ideias que aqui iremos expor), temos que entender se ele propunha uma democracia ou uma aristocracia; e como ele concebe, primeiramente, as classes sociais da sociedade ideal.

DEMOCRACIA OU ARISTOCRACIA?

O contexto de Platão é o da discussão sofística, oscilante entre a anarquia e a aristocracia, no seio da famosa e arquetípica, para nós, democracia ateniense. Notamos, noutra ocasião, o ódio de Platão à democracia. Sócrates fora sua vítima e ele mesmo, o antigo mestre de Aristocles, teria suspeitado da competência da massa burra. Iremos, sim, encontrar um bom número de reflexões relevantes sobre a questão em Platão. Embora iremos tecer comentários, aqui, basicamente, iremos expor os conceitos de Platão via Will Durant.

Primeiramente, “O que este mundo precisa é de ser governado pelos mais sábios de seus homens” (DURANT, p. 54). É bom nos lembrarmos que os mais sábios, para Platão, são também, necessariamente, virtuosos. Então, um apressado poderia pensar que ele estaria propondo uma mera aristocracia, não é mesmo? Mas não esse o caso. Platão quer erigir uma aristocracia-democrática: “Queremos ser governados pelo que houver de melhor, que é o significado de aristocracia [...]. Mas passamos a pensar que as aristocracias são hereditárias: que se observe com cuidado que essa aristocracia platônica não é desse tipo; seria melhor chama-la de aristocracia democrática. Porque o povo, em vez de eleger cegamente o menor de dois males a ele apresentados como candidatos por facções indicadoras, aqui será, ele próprio, o candidato [...] não há castas [..] não há impedimento para o talento nascido sem recursos [...]. A carreira estará aberta para o talento, onde quer que ele venha a nascer” (DURANT, p. 46).

Alguém poderia, nesse instante, perguntar: porque não apenas uma democracia ou uma aristocracia. Bom, para estes que ainda não captaram a problemática até aqui, ou para quem quer reforçar suas convicções de que nem uma das duas formas de governo parecem perfeitas em si, temos algumas citações de Durant a lhes apresentar. Primeiro, complementando a citação anterior, temos críticas às aristocracias (inclusive as oligarquias): “Toda forma de governo tende a se deteriorar devido ao excesso de seu princípio básico. A aristocracia se arruína por limitar com demasiado rigor o círculo dentro do qual se concentra o poder; a oligarquia se arruína pela irrefletida corrida em busca de riqueza imediata. Em qualquer dos dois casos, o fim é a revolução. Quando a revolução chega, pode parecer ter sido provocada por causas pequenas e caprichos fúteis; mas embora possa nascer por motivos insignificantes, ela é o resultado abrupto de erros graves e acumulados [...] ‘Surge então a democracia: os pobres vencem seus adversários, matando alguns e banindo o resto; e dão ao povo uma quota igual de liberdade e poder’” (DURANT, p. 38).
Platão estaria propondo a democracia pura e simples, como normalmente se concebe? Nem de longe: “Mas até a democracia se arruína por excesso de... democracia. Seu princípio básico é o direito que todos têm de exercer um cargo público e determinar a política do governo. Isso, à primeira vista, é um sistema encantador; ele se torna desastroso porque o povo não está adequadamente preparado, pela educação, para selecionar os melhores governantes e os caminhos mais sensatos [...] para ter um doutrina aceita ou rejeitada, basta que a mandem elogiar ou ridicularizar numa peça popular [..] O desfecho de uma democracia dessas é a tirania ou a autocracia; a massa gosta tanto da lisonja, está com tanta ‘fome de mel’, que por fim o mais astucioso e mais inescrupuloso lisonjeador, intitulando-se ‘protetor do povo’, galga o poder supremo” (DURANT, p. 38). Junte toda essa crítica às de Sócrates, e terás o quadro completo da reserva platônica à democracia.

O que ele propunha, pois, como já antecipamos, seria uma democracia diferenciada, justa. “Democracia significa perfeita igualdade de oportunidade, em especial na educação; não o rodízio de todos os homens comuns nos cargos públicos” (DURANT, p. 45).
O objetivo, claramente, é colocar os melhores, os mais competentes no governo. É, de certa forma, uma aristocracia, sem o problema normalmente associado a ela, como nota Pondé: “...noção de aristocracia [...] que a filosofia, já em Platão, separou da noção de ‘aristocracia de sangue’ para defini-la como ‘o governo dos mais virtuosos’” (PONDÉ, p. 29). Em duas citações Durant sintetiza o projeto aristocrático-democrático de Platão: “podemos impor restrições à ocupação de um cargo e, assim, garantir aquela mistura de democracia e aristocracia que Platão parece ter em mente [...] os estadistas deveriam ser treinados tão específica e completamente quanto os médicos” (DURANT, p. 54) e “Poderíamos até, tornar elegível para um cargo todo aquele que tivesse sido treinado para ele e, com isso, eliminar por completo o complexo sistema de indicações no qual tem sua sede a corrupção de nossa democracia; que o eleitorado escolhesse qualquer homem que, devidamente treinado e qualificado, se anunciasse como candidato” (DURANT, p. 55). Como isso seria possível? Prossigamos em conhecer o projeto desse instigante ateniense.

‘O CORPO’ DO ESTADO

A analogia entre a constituição humana, ou as três funções da alma, e o Estado explica a divisão social em Platão. Gaarder escancara o conceito: “Platão imagina um Estado constituído exatamente como o ser humano. Assim como o corpo possui ‘cabeça’, ‘peito’ e ‘baixo-ventre’, também o Estado possui governantes, sentinelas (ou soldados) e trabalhadores (dentre os quais se incluem, além dos comerciantes, também os artesãos e os camponeses)” (GAARDER, p. 106). Mas é Chalita que faz a exposição mais volumosa do assunto. Representando a cabeça, ou a razão, teríamos filósofos: “A política, conforme Platão a concebia, deve ser organizada de maneira análoga [...]. Platão imaginou a pólis como modelo de vida em grupo. Na cidade, os filósofos, tendo conhecido a verdade através da contemplação do mundo das ideias, teriam o dever de tomar as rédeas da administração da cidade. Essa ‘obrigação’ consequência do fato de que, por conhecer o bem, somente poderiam desejar que esse bem se estendesse à vida de todos os homens [...]. Os filósofos, dessa forma, seriam como a parte racional da alma” (CHALITA, p. 57-58).
Para representar as emoções, obedientes aos filósofos regentes, estariam os guerreiros, os soldados, o poder militar da pólis: “Nessa pólis, haveria também grupos de guerreiros ou soldados, que se caracterizam por sua força, integridade e seu grande amor aos sentimentos que Platão considera os mais nobres, como a fidelidade, a bravura e a aversão à torpeza. Esses homens correspondem à parte emocional da alma, e colaborariam obedientemente aos filósofos governantes” (CHALITA, p. 58).
Por fim, representando o ‘apetite’ do Estado, temos a classe basilar: “...homens que, por meio de seus diferentes trabalhos garantiriam o sustento da sociedade: os agricultores, pastores, artesãos, construtores, tecelões. Esse grupo estaria relacionado à parte sensual da alma, por ser movido por ambição do lucro e não pelo desejo do bem. Embora necessário para a sobrevivência material de todas as pessoas, precisaria ser controlado pelos guardiães da cidade, segundo as ordens dos dirigentes filósofos, que ditariam as normas de comportamento, a distribuição dos alimentos e a realização de melhorias urbanas” (CHALITA, p. 58).

Essa divisão é ideal. Não é bom que pessoas ‘destinadas’ a serem guerreiras ou camponeses assumam o governo. Portanto, a primeira proposta objetiva de Platão para curar os males do Estado é estabelecer filósofos como seus regentes: “A ruína chega quando o negociante, cujo coração se anima com a riqueza, torna-se o governante” (PLATÃO apud DURANT, p. 40) “quando o general usa seu exército para instalar uma ditadura militar” (DURANT, p. 40). “Enquanto os filósofos não forem reis, ou os reis e príncipes deste mundo não tiverem o espírito e o poder da filosofia, e a sabedoria e a liderança política não encontrarem no mesmo homem, (...) as cidades jamais deixarão de sofrer de seus males, o mesmo acontecendo com a ração humana” (PLATÃO apud DURANT, p. 40).
Podemos dizer que, para Platão, há uma meritocracia, ou seja, não outro critério a não ser o mérito para colocar uma pessoa nessa ou naquela situação: “a divisão do trabalho deve ser por aptidão e capacidade, não por sexo; se uma mulher se mostra capaz de exercer administração política, que ela governe; se um homem se mostrar capaz apenas para lavar pratos, que exerça a função para a qual a Providência o destinou” (DURANT, p. 48). Assim, pelo menos, deve ser uma sociedade justa.
É interessante notar, a essa altura, que Platão concebe a mulher tão capaz quanto o homem. Veremos que, em sua opinião, seria o estado das coisas, a organização social, que embargam as mulheres de usarem suas habilidades. Protelemos, por hora, esse assunto. O importante, pois, para Platão, é que todos tivessem as mesmas oportunidades educacionais, de formação, para que se definissem as posições no Estado Ideal. Portanto, a República propõe “igualdade de oportunidade educacional que abrisse para todos os homens e mulheres, independentemente das condições financeiras dos pais, o caminho da instrução universitária e do progresso político” (DURANT, p. 55). É sobre a educação que versaremos agora.

Antes, reforcemos o conceito. Tomemos consciência da analogia do Estado com o homem e concebamos o seguinte: “Ora, assim como a ação individual eficiente dá a entender que o desejo, embora aquecido pela emoção, é guiado pelo conhecimento, no Estado perfeito as forças industriais iriam produzir, mas não governar; as forças militares iriam proteger, mas não governar; as forças do conhecimento, da ciência e da filosofia seriam alimentadas e protegidas, e iriam governar” (DURANT, p. 39).

A FORMAÇÃO DO CIDADÃO IDEAL

Essa, talvez, seja a parte mais chocante da filosofia de Platão. A proposta cheira (ou melhor, fede) muito a Marx, como todos poderão testemunhar. Temos que ter em mente que o projeto filosófico tem uma agenda muito bem definida e Durant reforçará o conceito do projeto de Platão: “Criar um método de impedir que a incompetência e a velhacaria ocupem um cargo público e de selecionar e preparar os melhores para governarem para o bem comum – este é o problema de filosofia política” (DURANT, p. 38). Will Durant, aliás, é a nossa principal informação aqui, e basicamente citaremos as partes mais importantes de seu texto.

Aqui Platão tem um plano, e Pondé e Moura o sintetizam em poucas palavras: “Na República a escola deveria selecionar os melhores para cuidar da cidade” (PONDÉ, p. 38) ou “O problema político de Platão é educar e selecionar os melhores para governar” (PLATÃO, p. 73). Vejamos.

Pois bem, a proposta se inicia no berço. Já observamos que Platão era aristocrata de nascença, e estes tendiam à apreciação dos espartanos nesse quesito. Pois bem, é possível que Platão tenha aprendido as seguintes propostas da observação, quiçá diálogo, com espartanos, que praticavam a eugenia: “se nós conseguimos resultados tão bons na criação de gado de forma selecionada para obter as qualidades desejadas, e de reprodução apenas dos melhores de cada geração, por que não aplicar princípios semelhantes ao acasalamento da humanidade? [...] Nenhum homem ou nenhuma mulher deve procriar, a menos que goze de perfeita saúde [...] Os homens só poderão reproduzir-se quando tiverem mais de 30 e menos de 45 anos; as mulheres só quando tiverem mais de 20 e menos de 40 [...]. Os filhos nascidos de uniões não autorizadas, ou deformados, devem ser abandonados, e deve-se deixar que morram. Antes e depois das idades especificadas para procriação, as uniões serão livres, sob a condição de o feto ser abortado [...] O casamento entre parentes está proibido, por induzir à degeneração [...] Nossa juventude mais brava e melhor, além de suas outras honrarias e recompensas, deve ter permissão para ter maior variedade de parceiros, porque pais assim devem ter tantos filhos quanto for possível” (DURANT, p. 48)*1. Maria Lacerda de Moura coloca isso da seguinte forma: “A solução é tirar as crianças do seu meio pervertido: leva-las para o campo. Esperar o desabrochar dos talentos, educação generalizada, igual para todos” (PLATÃO, p. 73).

Tudo bem, garantindo que pessoas ‘normais’ e saudáveis componham a população da República temo que pensar em sua educação. Para começo de conversa, quem educaria essas crianças não seriam os pais, e sim o Estado. Na implantação desse regime, a primeira medida é separar os futuros cidadãos da perfeita sociedade dos já educados de forma equivocada, bem como confiscar suas crianças: “Devemos começar ‘mandando para o interior todos os habitantes da cidade que tiverem mais de dez anos de idade e apossando-nos das crianças, que, assim, ficarão protegidas dos hábitos de seus pais’ (540). Não podemos construir a Utopia com os jovens corrompidos, a cada instante, pelo exemplo dos mais velhos [...] Seja como for, temos que dar a cada criança, e desde o início, plena igualdade de oportunidade educacional, não há como dizer onde surgirá a luz do talento ou do gênio” (DURANT, p. 40). Lembremo-nos da proposta aristocrático-democrática. Aqui ela começa a se fundamentar. O objetivo é dar à todas as pessoas as mesmas condições.
Enquanto ainda temos crianças, o procedimento é o seguinte: “Nos primeiros dez anos de vida, a educação será predominantemente física [...] na primeira década haverá formação de uma tal reserva de saúde, que tornará desnecessária toda a medicina” (DURANT, p. 40). Em suma, Platão acredita que as doenças são causadas, em geral, pelo sedentarismo. Crianças fisicamente saudáveis, pois, serão criadas por meio dessa proposta.

A próxima etapa é formar jovens não só saudáveis como corajosos, harmoniosos. Ou seja, investir-se-á na formação do caráter, do ‘Espírito’, da ‘Vontade’ do cidadão. E como Platão propõe isso? É a música que Platão concebe como o preceptor do homem: “Como iremos descobrir uma natureza delicada que também tenha uma grande coragem? Porque as duas parecem incompatíveis” (PLATÃO apud DURANT, p. 41). “Não queremos uma nação de lutadores de boxe e levantadores de peso. Talvez a música resolva o nosso problema: através da música, a alma aprende harmonia e ritmo e, até, uma propensão à justiça, afinal, ‘poderá aquele que é harmoniosamente constituído vir a ser injusto[?]’” (DURANT, p. 41). Os adolescentes, agora, aprenderão música. Isso formará um espírito sensível neles.
Para Platão o poder da música sobre a alma humana é tão poderoso que ele acreditava que “A música modela o caráter e, portanto, participa da determinação de questões sociais e políticas. [...] quando mudam os estilos de música, as leis fundamentais do Estado mudam com eles” (DURANT, p. 41). É como se a música, a harmonia musical, ditasse a própria moralidade da sociedade! Parece-nos um conceito muito forçado. Entretanto, temos de admitir o poder da música sobre nosso espírito.
Podemos falar até mesmo de musicoterapia em Platão: “A música é valiosa não apenas porque cria requinte de sentimentos e caráter, mas também porque preserva e restaura a saúde. Há doenças que só podem ser tratadas através da mente [...]. As fontes inconscientes do pensamento humano são tocadas e acalmadas por esses métodos; e é nesses substratos de comportamento e sentimento que o gênio planta suas raízes” (DURANT, p. 41)*2.
A música (quiçá poderíamos incluir a ‘arte’), tem ainda outra função. Tampouco a música deve ser apenas música; ela deve ser usada para proporcionar formas atrativas ao conteúdo às vezes nada apetitosos da matemática, da história e da ciência” (DURANT, p. 42). Ou seja, para os jovens a música pode tornar assuntos áridos coisas mais agradáveis. Assim, ela tem um sentido pedagógico.
Tudo isso coaduna com a proposta pedagógico-didática de Platão. Ele propõe que a educação deve ser livremente buscada. O conhecimento não pode ser adquirido sob coação. Por isso, a educação inicial deve ser mais divertida (DURANT, p. 42).
Matemática, história e ciências, ao que parece, são disciplinas que vão sendo introduzidas aos poucos, provavelmente com o lúdico, inicialmente, e segue-se durante a vida, tornando-se cada vez mais sólidas, conforme o ofício que os cidadãos operarão na sociedade. Prossigamos para compreender melhor.

Chega um momento em que a adolescência termina e não se pode ficar pra sempre aprendendo música. Tal como acontece com o esporte, a música deve ter limites. Platão a propõe até os 16 anos, segundo Durant (p. 42).
Aos vinte anos o cidadão da República irá passar por um teste. Um exame tanto prático quanto teórico. “Cada tipo de habilidade terá uma chance de se mostrar, e toda sorte de estupidez será exposta. Os que não passarem serão designados para o trabalho econômico da nação” (DURANT, p. 43). Acreditamos que os testes irão não só fazer a primeira peneira, como designarão as aptidões que cada um tem, sua vocação na base econômica da sociedade.
“O teste será imparcial e impessoal; se o indivíduo vai ser fazendeiro ou filósofo, isso será determinado não pela oportunidade monopolizada ou pelo favoritismo nepótico; as seleções serão mais democráticas que a democracia” (DURANT, p. 43).

Os remanescentes da primeira peneira irão estudar mais 10 anos. Após esse tempo, será aplicado um novo teste, ainda mais rigoroso. Os fracassados nesse teste serão os militares. Aqui Platão pode ter sido influenciado pelos espartanos*3.
Aqui é preciso cautela para lidar com esses eliminados, pois como dominarão a força do Estado, precisam estar perfeitamente persuadidos de seu destino, ou então poderão, facilmente, tomar o poder. “Nesse caso, a religião e a fé serão nossa única salvação; diremos a esses jovens que as divisões nas quais eles foram classificados são determinadas por Deus e irrevogáveis” (DURANT, p. 43)* 4.
Falando em religião, Platão é da posição de que é preciso haver uma religião para que uma sociedade perfeita subsista. Se não existe Deus, ele concorda, tudo é permitido. A crença em Deus, portanto, se faz necessária, pois, “já que os homens são, por natureza, gananciosos, ciumentos combativos e eróticos, como iremos persuadi-los a se comportarem? Com o onipresente cassetete da polícia? [...] Há um meio melhor, que é o de dar às exigências morais da comunidade a sanção de uma autoridade sobrenatural. Temos que ter uma religião. Platão acredita que uma nação não pode ser forte, a menos que acredite em Deus. Uma simples força cósmica [...] que não seja uma pessoa, mal poderia inspirar esperança, devoção ou sacrifício [...]. Mas um Deus vivo pode fazer tudo isso e incitar ou obrigar, pelo medo, o individualista a moderar um pouco a sua ganância, a controlar um pouco sua paixão. Ainda mais se à crença em Deus se acrescentar a crença na imortalidade pessoal” (DURANT, p. 42).

Os remanescentes finais, agora, poderão aprender filosofia. Filosofia na boca de jovens é um convite muito sedutor à vaidade. “Esse caro deleito, a filosofia, significa duas coisas principais: pensar com clareza, que é metafísica; e governar com inteligência, que é política” (DURANT, p. 43-44). Para atingir a habilidade de pensar com clareza o filósofo estuda a teoria do mundo das ideias.
“Sem essas Ideias – essas generalizações, regularidades e ideias – o mundo seria, para nós, o que deve parecer aos olhos da criança que se abriram pela primeira vez, uma massa de pormenores não-classificados e sem significado de sensação [...] Portanto, a essência de uma educação mais elevada é a busca de Ideias: de generalizações, leis de sequência e ideais de desenvolvimento; por trás das coisas, temos que descobrir sua relação e seu significado, seu modo e sua lei de funcionamento, a função e o ideal a que elas servem ou que elas prenunciam; temos que classificar e coordenar a nossa experiência dos sentidos em termos de lei e de propósito” (DURANT, p. 45). Durant parece dizer que logo o filósofo aprenderia a aplicar o princípio de identificar as leis do comportamento humano.

Aos trinta e cinco anos, ou seja, após cinco anos de treinamento filosófico, passamos para uma nova e última etapa. “Generalizações e abstrações de nada valem se não forem testadas por este mundo concreto” (DURANT, p. 45).

Então os filósofos serão ‘jogados’ à sociedade para viver, sem qualquer favorecimento. Por quinze anos, informa-nos Durant, esses filósofos irão viver entre os homens. “Aqueles que sobreviverem, com cicatrizes e aos cinquenta anos, de juízo assentado e com confiança em si mesmos, despojados da vaidade escolástica pelo implacável atrito da vida, e armados agora com toda sabedoria que a tradição e a experiência, a cultura e o conflito podem cooperar para dar – esses homens irão tonar-se automaticamente, afinal, os governantes do Estado” (DURANT, p. 45).

OS FILÓSOFOS REIS

Platão diz o seguinte: “Enquanto os filósofos não forem reis ou os reis e príncipes deste mundo não tiverem o valor e o poder da filosofia, e a sabedoria e aptidão para governar não se encontrarem reunidas no mesmo homem... não terminarão os males das cidades nem da raça humana” (PLATÃO, p. 73). Já vimos que essa é a proposta para os cargos mais altos na República de Platão.

Alguém poderia pensar que Platão teorizou de modo que privilegiasse a si mesmo. Afinal, era o parteiro da filosofia magna, e, portanto, certamente iria tornar-se um rei ao ver seus ideais entrarem em voga. Entretanto, conforme nos informa Chalita, “Platão [...] nunca tentou chegar ao poder em Atenas” (CHALITA, p. 58). Portanto, se o cargo traz algum benefício, não foi ele quem o desfrutou.
Mas será que era um cargo tão almejado assim? Lembremo-nos que o rei de Siracusa entrou em conflitos com Platão e acabou escravizando-o! Veremos, agora, o porquê.

Primeiro, reforcemos o conceito. Dionísio deve ter tentado dialogar com Platão sobre alternar o fato de o rei precisar ser filósofo. Se o fez, recebeu explicações como essas: “Do mesmo modo como um indivíduo saudável e harmônico mostra equilíbrio e moderação, um Estado justo se caracteriza pelo fato de cada um conhecer o seu lugar no todo [...] Decisivo para a criação de um bom Estado é que ele seja dirigido pela razão. Do mesmo modo como a cabeça comanda o corpo, os filósofos devem indicar à sociedade o caminho por onde ela deve ir” (GAARDER, p. 106-107).

Pois bem, mas, e como é que esses reis vivem? O que ele fazem? Quais são seus ofícios?
Primeiramente, esses reis filósofos, chamados também de ‘guardiães’, não farão qualquer outra atividade a não ser governar para o bem do povo. Assim, “pondo de lado todas as outras atividades, os guardiães irão dedicar-se inteiramente à manutenção da liberdade no Estado, fazendo disso o seu ofício e não se dedicando a atividade alguma que não vise a esse fim” (PLATÃO apud DURANT, p. 46).

Contra a inércia dos filósofos, que poderiam reclusar-se em suas torres de marfim, Platão diz estar prevenido. Os reis serão homens de ação. “Por filosofia Platão entende uma cultura ativa, sabedoria que se mistura com a atividade concreta da vida, não entende um metafísico de gabinete e sem utilidade” (DURANT, p. 46). Afinal, eles passaram muitos anos entre o povo. Não podem deixar de pensar neles. São, além de tudo, virtuosos, e, portanto, bondosos e caridosos. Afinal, ‘viram’ o próprio bem. Não podem deixar de imitá-lo.

Competirá aos reis, também, organizar a economia da pólis: “O comércio e a indústria serão regulados pelos guardiães, para evitar uma excessiva riqueza ou pobreza individual; todo aquele que adquirir mais de quatro vezes a posse média dos cidadãos terá que ceder o excesso ao Estado” (DURANT, p. 49).

Para prevenir os governadores filósofos da ganância, Platão propõe um comunismo entre eles: “...nenhum deles deve ter qualquer bem além do que for absolutamente necessário; tampouco deverão ter casa própria, com barras e trancas, fechadas para qualquer pessoa que pretenda entrar; suas providências deverão ser apenas as exigidas por guerreiros treinados, que são homens de moderação e coragem; concordarão em receber dos cidadãos uma quota fixa a título ordenado, suficiente para cobrir as despesas durante o ano, e nada mais; e terão refeições comuns e viverão juntos [...] E isso será a sua salvação, e a salvação do Estado. Mas se eles adquirem casas, terras ou capital próprio, irão tonar-se donos de casa e agricultores em vez de guardiães; inimigos e tiranos, em vez de aliados dos outros cidadãos...” (PLATÃO apud DURANT, p. 47).
Acreditamos que esse tenha sido o principal ponto de discórdia entre Platão e Dionísio, o rei de Siracusa. Afinal, ser rei lhe conferiria a perda de seus privilégios e regalias. Era uma República completa e verdadeira. O Estado é para o povo e não para os seus líderes. Quem quer reinar assim? Somente pessoas muito virtuosas!

“Os guardiães não terão esposas. O comunismo deles será tanto de mulheres como de bens. Eles deverão estar livres não apenas do egoísmo próprio, como do egoísmo da família [...] serão dedicados não a uma mulher, mas à comunidade. Nem mesmo seus filhos serão específica e distinguivelmente seus; todos os filhos de guardiães serão tirados de suas mães ao nascerem e criados em comum; sua paternidade se perderá na confusão [...] Todas as mães-guardiães tomarão conta de todos os filhos-guardiães [...] todo menino será irmão de todos os outros meninos, toda menina será irmã, todo homem será pai, e toda mulher será mãe” (DURANT, p. 47-48)* 5.
Como foi observado, pessoas boas devem procriar o máximo que possível. E as mulheres com que os guardiães deverão relacionar-se são de qualquer classe.

É bom lembrar, também, que mulheres poderiam tornar-se guardiãs. “Platão tinha uma visão positiva das mulheres – pelo menos para sua época. No diálogo O banquete é uma mulher, Diotima, que abre a Sócrates as portas da filosofia” (GAARDER, p. 108).
Como dissemos outrora, para ele, parece que são as condições sociais da sociedade patriarcal que inibe, embarga, as mulheres de serem igualmente competentes, fazendo voz de feminista já naquela época. Veja essa outra citação de Gaarder comentando o assunto e perceba a dissolução da família observada alhures: “E é bom lembrar que ele achava que as mulheres eram tão capacitadas quanto os homens para governar. Isto porque os governantes deveriam dirigir a cidade-Estado com a razão. Platão acreditava que as mulheres tinham a mesma razão que os homens, bastando para isto que recebessem a mesma formação que os homens e fossem liberadas do serviço de casa e da guarda das crianças. (E Platão queria abolir a vida familiar e a propriedade privada dos governantes do Estado e de seus sentinelas.). A educação infantil era importante demais para ser deixada a cargo do indivíduo” (GAARDER, p. 107).
Portanto, na República, o modelo tradicional de família onde as mães cuidam de seus filhos é banido. Parece-lhe prejudicial.


LEIS?

Os guardiães deterão os três poderes: executivo, judiciário e legislativo. Na verdade, não é bem ‘leis’ que serão feitas. Parece que Platão não estava muito interessado no registro de leis que, aliás, deram origem à democracia.
Chalita observa o seguinte: “Platão compara o governante de uma pólis ao capitão de um navio (piloto) que, para conduzir adequadamente sua tripulação, não se guia por um ‘manual’ ou regras escritas, usa os conhecimento que somente ele possui. [...] o bom governante pode fazer tudo, até mesmo descartar as leis escritas, desde que estabeleça um governo perfeitamente baseado na justiça” (CHALITA, p. 19). Isso parece coadunar com o que Nash diz sobre as leis e a teoria ética de Platão: “A ética de Platão nada tem a ver com mandamentos tal como os temos no judaísmo e no cristianismo. Platão ignora mandamentos e coloca toda ênfase sobre a importância da virtude ou excelência, crendo que se os seres humanos possuírem um caráter virtuoso, sua conduta será moralmente aceitável [...]. Uma pessoa propriamente virtuosa se comportará em obediência aos mandamentos de Deus” (NASH, p. 94).
Bom, os filósofos são aqueles que contemplaram as virtudes e o bem. São, pois, pessoas justas e boas. Suas decisões serão sábias e sensatas. Eles governarão com justiça.

Aliás, como Platão aprendera com Sócrates, há palavras (bem como muitos outros termos) difíceis de se definir. “Para a justiça, porém, Platão arrisca uma definição. ‘Justiça’, diz ele, ‘é ter e fazer o que nos compete’” (DURANT, p. 50). É possível explicar, tendo em mente tudo que foi explicado até aqui: “cada homem irá receber equivalente àquilo que produz e irá exercer a função para a qual esteja mais bem preparado. Um homem justo é aquele colocado justa no lugar certo, fazendo o que lhe for possível e dando o pleno equivalente daquilo que recebe [...] Justiça é coordenação eficiente” (DURANT, p. 50).
Refutando àquela noção nietzschiana que relaciona justiça às imposições violentas do super-homem, “...justiça não é força pura e simples, mas força harmoniosa; justiça não e o direito do mais forte, mas a efetiva harmonia do todo” (DURANT, p. 50).
Assim, compete aos guardiães manter uma sociedade de acordo com a proposta da República de Platão. Eles devem harmonizar as partes, fazendo com que cada um exerça a função para a qual Deus o vocacionou, e tenham o que lhes compete. Para tal, parece que Platão não acredita ser necessária uma legislação. Basta educação.

DISCUSSÃO POLÍTICA: AS CRÍTICAS A PLATÃO E O SEU PROJETO POLÍTICO

Várias críticas têm sido feitas à filosofia política de Platão. Algumas estudaremos no momento em que formos expor os demais filósofos. Podemos, entretanto, abordar várias coisas nesta oportunidade que temos pela frente.

É evidente que Platão propõe um Estado Totalitário. Esse Estado legisla até mesmo sobre se devemos ou não ficar os filhos que tivermos. Ele propõe, (ainda que Platão vá tentar fazer uma ressalva salvadora do sistema, como veremos adiante), a dissolução da família como um ideal. Gaarder reconhece tal impressão totalitária: “Hoje em dia talvez chamássemos o Estado de Platão de totalitário. E exatamente por causa disso muitos filósofos criticam duramente Platão. Mas não podemos nos esquecer de que ele viveu numa época completamente diferente da nossa” (GAARDER, p. 107). Bom, continua totalitário. O Estado se intromete completamente na vida das pessoas, inclusive destituindo-as de suas famílias.

Durant observa ainda algumas outras críticas que são feitas e como, talvez, Platão lidaria com elas. Por exemplo, “É muito bonito planejar uma sociedade em que todos os homens sejam irmãos; mas estender esse termo a todos os nossos contemporâneos do sexo masculino é tirar dele todo o calor e significado. O mesmo acontece com a propriedade comum: significaria uma diluição da responsabilidade; quando tudo pertence a todos, ninguém cuidará de coisa alguma [...] não deixaria espaço algum para a privacidade ou individualidade; e iria presumir a existência de virtudes como a paciência e a cooperação, que só uma minoria santa possui. ‘Não devemos presumir um padrão de virtude que esteja acima das pessoas comuns [...]’” (DURANT, p. 52). Ou seja, Platão está ciente dessa dificuldade.
Mas as críticas não param por aí. Durant compila mais algumas reivindicações, particularmente, de ‘cor’ direita, conversadora: “Platão não deu o devido valor, segundo nos disseram, à força do hábito acumulado na instituição da monogamia e no código moral associado a esta instituição; subestimou o possessivo ciúme dos elementos do sexto masculino, ao supor que um homem iria contentar-se em possuir apenas uma parte de uma esposa; minimizou o instinto maternal ao supor que as mães iriam concordar em ter filhos levados para longe delas e criados em um anonimato cruel. E acima de tudo, esqueceu-se de que ao abolir a família estava destruindo a grande zeladora da moral e da principal fonte dos hábitos cooperativos e comunistas que teriam que ser a base psicológica de seu Estado” (DURANT, p. 53).

Entretanto é o mesmo Durant que sai a defesa de Platão, buscando concatenar as respostas que o filósofo de Atenas iria dar a essas críticas: “Platão isenta, explicitamente, a maioria de seu plano comunista; reconhece com nitidez que só uns poucos são capazes da renúncia material que ele propõe para a sua classe dirigente; só os guardiães irão chamar cada guardião de irmão ou irmã; só os guardiões não terão ouro ou bens. A imensa maioria irá manter todas as instituições respeitáveis [...] No que se refere ao instinto maternal, ele não é forte antes do nascimento, ou mesmo do crescimento, da criança. A mãe comum aceita o recém-nascido mais com resignação do que com alegria; o amor por ele é um sentimento que se desenvolve, não um milagre repentino, e aumenta à medida que a criança cresce” (DURANT, p. 53).
É evidente que as respostas não podem ser aceitas tão facilmente. Primeiramente, o senso de família é uma criação cultural? Eis a questão. Será que a educação, principiada na infância, fora do alcance dos pais, não irá tornar o cidadão da República apático à sua família? Essa educação não é universal? Então, quando é que o cidadão irá voltar à sua família? E como é que ele vai vincular-se a ela?
Além do mais, é difícil concordar com a ideia de que uma mãe não ama seu filho até que o tempo passe. Platão teria que ter o testemunho de todas as mulheres que existem, ou pelo menos a maioria, para averiguar tal fato. Se um grupo significante de mulheres disserem que amam seus filhos já ao conceberem, ainda, quem sabe, no ventre materno, então o mais célebre aluno de Sócrates tem um problemão pela frente. Não seria violento, cruel, mal, tirar essas crianças à força dos braços de suas mães? E, não fazendo isso, subverte-se todo o projeto.

E quanto à guerra? Idealmente não há conflitos internos na República, mas ela precisa, assim mesmo, de soldados para proteger-se de ataques externos. Vejamos Durant a comentar: A República é um Estado pacífico. Mas deve estar preparado para o combate. “os estados vizinhos, não administrados da mesma maneira, bem poderiam considerar a ordenada prosperidade de nossa Utopia um convite ao ataque e à pilhagem” (DURANT, p. 49). Assim, é preciso manter um exército. “Ao mesmo tempo, deverão ser tomadas todas as precauções para evitar os motivos para uma guerra. O motivo primordial é o excesso de população [...], o segundo é o comércio exterior, com as inevitáveis disputas que o interrompem [...] o comércio competitivo é realmente uma forma de guerra [...] Será bom, portanto, situar o nosso Estado ideal bem no interior, a fim de que fique isolado de qualquer grande desenvolvimento do comércio exterior” (DURANT, p. 49). Portanto, a República não mantém relações externas. Ela é uma cidade autossuficiente, tais como eram basicamente as pólis da época de Platão. Entretanto, pensar em coisas do gênero a título de Estados e não apenas cidade-estado podem gerar mais dificuldades. Não há como ‘se isolar’ ou ‘ir para o centro. É preciso proteger os limites, as fronteiras. A aplicação desse projeto de isolamento, principalmente em nosso mundo, parece-nos bem longe da realidade. Todavia, certamente a disputa mercadológica é uma guerra. Se for possível evadir-se dela, melhor. Lado outro, há uma perda na comunicação com outras culturas e nos benefícios que tal comunicação traria. Já imaginaram cada nação ter que fazer todas os avanços tecnológicos feitos pela humanidade, no decorrer dos séculos, por si só?

Durant ainda desencadeia uma série de raciocínios ‘conspiratórios’ contra a ideia da divisão de classes, precipuamente a classe dos ‘filósofos-reis’: “A república de Platão, segundo se alega, denuncia a divisão de toda cidade em duas outras, e depois nos oferece uma cidade dividida em três. A resposta é que a divisão no primeiro caso é pelo conflito econômico; no Estado de Platão, as classes guardiã e auxiliar estão especificamente excluídas da participação nessa concorrência em busca do outro e de bens. Mas, nesse caso, os guardiões teriam poder sem responsabilidade; e será que isso não levaria à tirania? Em absoluto; eles têm poder e comando político, mas nenhum poder econômico ou riqueza; a classe econômica, ficando descontente com o modo de governar dos guardiães, poderia suspender o fornecimento de alimentos, tal como os parlamentos controlam os executivos ao conterem o orçamento. Mas então se os guardiães detêm o poder político, mas não o econômico, como poderão manter o seu domínio? [...] A dependência econômica dos guardiães de Platão em relação à classe econômica iria reduzi-los, muito em breve, a controlados executivos políticos daquela classe [...]. Para Platão só restaria uma coisa: que muito embora as políticas econômicas devam ser determinadas pelo grupo economicamente dominante, é melhor que elas sejam administradas por funcionários especialmente preparados para essa finalidade do que por homens que passam, desajeitados, do comércio ou da indústria para a função política sem qualquer treinamento nas artes do estadismo” (DURANT, p. 53-54). Ok, vamos por parte. Primeiramente, acreditamos que Platão tenha resposta para a primeira pergunta. Os guardiães não seriam tiranos justamente por serem pessoas de virtude elevadíssima por conta de seu contato com as virtudes e com o bem.
A segunda questão é, realmente, espinhosa. Os filósofos são garantidos como pessoas de virtude. Mas e as ‘classes inferiores’? O que garantiria que os militares ou a classe da subsistência não se revoltasse e cortasse o fornecimento de recursos às classes superiores? Os homens são maus e poderiam, simplesmente, subverter todo o plano, toda a estrutura, por ignorância, pela negligência em ‘fazer sua parte’. A solução de Durant pode implicar em problemas. Por exemplo, a questão abordada atrás. As classes inferiores poderiam muito bem almejar o comércio exterior. Parece-nos, pois, uma questão não muito bem resolvida.

Durant observa, não sabemos se exatamente expondo Platão, que “Alterações na distribuição da riqueza produzem alterações políticas” (DURANT, p. 38). Se é assim, é muito possível que o dedo de não-sábios na economia vá alterá-la a ponto de trazer implicações políticas para a pólis. A única solução é que os próprios filósofos-reis comandem o plano econômico e o Estado intervenha completamente na economia. Será que seria possível aos homens comuns contentarem-se com isso?

“Porque um paraíso simples como o que ele descreveu nunca chega? Por que essas Utopias nunca aparecem no mapa? Ele responde: devido a ganância e o luxo. Os homens não se contentam com uma vida simples: são gananciosos, ambiciosos, competitivos e invejosos; logo se cansam do que possuem e anseiam por aquilo que não têm; e raramente desejam qualquer coisa, a menos que ela pertença a terceiros. O resultado é a invasão de um grupo sobre um território de outro, a rivalidade de grupos pelos recursos do solo, e depois a guerra. O comércio e as finanças se desenvolvem e trazem novas divisões de classes. ‘Qualquer cidade comum representa, na verdade, duas cidades, uma dos pobres e a outra dos ricos, cada qual em guerra com a outra...” (DURANT, p. 37). Em suma, há pobres e ricos nas pólis. Uma classe que alcançou o poder e outra que almeja tirá-lo. Platão concebe, pois, algo como uma luta entre os opressores e oprimidos. É importante notar que aqui Platão fica muito distante, e acreditamos até mesmo que refute a Marx. As utopias propostas não são possíveis porque o homem não se contenta. Ele sempre quer mais. É evidente que o problema da sociedade está na própria corrupção do indivíduo, e não é a sociedade opressora que o torna mal, e sim ele, mal, que cria uma sociedade opressora, reflexo de seu caráter. O melhor a ser feito é, para Platão, agir conforme seu projeto e tentar educar os homens o melhor possível para que a pólis aproxime-se o máximo possível de seu ideal.

E, sim, Platão estava ciente de que, de repente, sua República não passasse de uma utopia, um ideal a ser perseguido, mas, talvez, impossível de ser alcançado justamente por conta da corrupção humana. Os ‘não-filósofos’ poderiam, mesmo sob ‘ameaça religiosa’, mesmo sabendo de suas ‘posições sociais conforme a providência divina’, por não terem contemplado a verdade, sempre estar a cobiçar o que não lhes pertence. Na cosmovisão platônica diríamos que seria um direcionamento equivocado do Eros. Na linguagem teológica diríamos que é um ídolo*6. Bom, Durant é quem nos relata da confissão e Platão: “Por fim, é justo acrescentar que Platão compreende que a sua Utopia não se encaixa bem no terreno das coisas exequíveis. Ele admite que descreveu um ideal difícil de ser atingido [...] a importância do homem está em que ele pode imaginar um mundo melhor e querer transformar pelo menos uma parte dele em realidade [...] ‘Olhamos para trás e para a frente e ansiamos por aquilo que não existe.’ E nem tudo deixa de produzir resultados” (DURANT, p. 55).

Platão acaba, inclusive, concebendo um outro Estado Ideal. Na verdade, seria o segundo melhor, como nos informa Gaarder: “Depois de passar por várias e pesadas decepções políticas*7, Platão escreveu o diálogo As leis. Nele, Platão descreve o ‘Estado legal’ como o segundo melhor tipo de Estado e reintroduz as noções de propriedade privada e laços familiares. Desse modo, a liberdade das mulheres é restringida. Mas ele também diz que um Estado e que não forma nem educa suas mulheres é como um homem que treina apenas o braço direito” (GAARDER, p. 107).

NOSSAS IMPRESSÕES

O projeto de Platão é, deveras, engenhoso. Não podemos nos furtar de elogiá-lo. Entretanto, parece-nos, em muitos aspectos, pífio, principalmente pelo fato de a cosmovisão não estar completa e apresentar sérios problemas. Há, no entanto, que se reter algumas coisas. Consideramos digno de aproveitamento os seguintes pontos.
Primeiramente, de fato, quanto mais sábios forem nossos governantes, melhor. Não é que o conhecimento seja suficiente para termos bons governantes. Entretanto, evidentemente bons governantes, no mínimo, serão beneficiados com a instrução. A instrução não poderá prejudica-los e, possivelmente, os tornará melhor. Por que não, pois, demandar que nossos governantes sejam pessoas de extrema competência?
Parece-nos, igualmente necessário, principalmente numa República, demandar que nossos governantes sejam pessoas de bom caráter e patriotas. Exigir que vivam na pobreza e miséria seria demais. Mas é certo que, não sendo boas pessoas, irão corromper-se e tornar o Estado uma escada para o próprio bem, perdendo o ideal republicano, evadindo-se de pensar no povo.
Platão nos ensina, também, que, primeiro, evidentemente, nem todos são iguais. Isso é óbvio*8. Mas o governo deve buscar, na medida do exequível, proporcionar condições semelhantes para todos os cidadãos de modo a maximizar o desenvolvimento de seus dons. O investimento na educação é, pois, algo de sumo valor.
É óbvio, também, que uma população que envolve-se com esportes e atividades físicas são menos suscetíveis à várias doenças. Claro que nem todas as doenças podem se evitar com meros hábitos saudáveis. Mas investir e incentivar a prática esportiva é algo que o governo bem poderia fazer.
Também achamos válido o controle do Estado na máxima renda. Parece-nos legal que haja um máximo de riqueza que alguém possa ter. Não somos especialistas em filosofia política, mas essa parece-nos uma boa ideia.
Talvez, realmente, falte à população uma formação artística mais adequada. É claro que não acreditamos no poder moralizador da música. Mas suspeitamos que ela possa trazer, sim, algum progresso civilizatório.

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1 Como se não bastasse nosso respeitado filósofo antecipar Marx, ele também antecipa Darwin na pior e mais negligenciada consequência de sua proposta filosófica, como observa o grande filósofo brasileiro da atualidade, Olavo de Carvalho, no artigo ‘Por que não sou fã de Charles Darwin’. Vamos extrair uma citação do próprio Darwin que ali aparece e rogamos para que percebam as semelhanças: “Entre os selvagens, os fracos de corpo ou mente são logo eliminados; e os sobreviventes geralmente exibem um vigoroso estado de saúde. Nós, civilizados, por nosso lado, fazemos o melhor que podemos para deter o processo de eliminação: construímos asilos para os imbecis, os aleijados e os doentes; instituímos leis para proteger os pobres; e nossos médicos empenham o máximo da sua habilidade para salvar a vida de cada um até o último momento... Assim os membros fracos da sociedade civilizada propagam a sua espécie. Ninguém que tenha observado a criação de aniamis domésticos porá em dúvida que isso deve ser altamente prejudicial à raça humana. É surpreendente ver o quão rapidamente a falta de cuidados, ou os cuidados erroneamente conduzidos, levam à degenerescência de uma raça doméstica; mas, exceto no caso do próprio ser humano, ninguém jamais foi ignorante ao ponto de permitir que seus piores animais se reproduzissem” (DARWIN apud CARVALHO, p. 400).
*2 Aqui pedimos licença ao leitor para observar mais uma antecipação genial de Platão. Dessa vez ele antecipa a Freud ao conceber, nos sonhos, um ‘homem’ desembargado pelas pressões socioculturais: “Certos prazeres e instintos desnecessários são considerados ilegais, todo homem parece tê-los, mas em certas pessoas eles são submetidos ao controle da lei e da razão [...], e com os desejos melhores predominando sobre eles, são inteiramente suprimentos [...] enquanto que em outras pessoas são mais fortes e mais abundantes. Refiro-me, em particular, aos desejos que estão despertos quando poder de raciocínio, de subjugar e governar [...] da personalidade está adormecido; o animal selvagem que há em nossa natureza, empanturrado de carne e bebidas, levanta-se e sai andando por aí nu e se sacia à vontade [...] Mas quando o pulso de um homem é saudável e comedido, e ele vai dormir frio e racional, (...) depois de saciar seus apetites sem exageros para mais ou  para menos, mas o suficiente para deixa-los adormecidos (...), ele passa a ser, então, o menos sujeito a ser um joguete de visões fantasiosas e licenciosas. (...) Em todos nós, mesmo nos homens bons, existe latente essa natureza de animal selvagem, que espreita durante o sono” (PLATÃO apud DURANT, p. 41).
*3 Quanto às informações dos espartanos, basicamente as temos oriundas de um vídeo do professor Rodolfo Neves, intitulado ‘Antiguidade Clássica – Esparta’. Façamos uma breve exposição dos pontos relevantes para nossa instrução aqui. Ou seja, só tocaremos os pontos pertinentes à proposta da nota, a saber, compreender a nossa sugestão de influência espartana na proposta de Platão.
Quanto à sociedade, estamental, era dividida em três camadas. A primeira era composta por esparciatas: latifundiários, militares e, inclusive, descendentes dos Dórios. Temos, também, nessa camada, os ‘hoplitas’, ou seja, os soldados cidadãos.
Na segunda camada temos os periecos, ou seja, creto-micênicos que não resistiram à invasão dos Dórios. Eram os homens livres. Ou desenvolviam trabalhos ligados aos esparciatas ou comércios. Eram homens sem posse de terra. Eram pobres e não tinham direito à cidadania, ou seja, não eram ‘hoplitas’.
Na última camada social temos os ‘hilotas’, ou seja, aqueles creto-micênicos que tentaram lutar contra a invasão dos Dórios e que acabaram sendo capturados e feitos servos, escravos. O professor Rodolfo cita uma controvérsia relacionada ao assunto. Alguns entendem que os hilotas eram prisioneiros de guerra e convertidos em escravos, outros entendem que eram prisioneiros da cidade, servos da cidade que ficavam circunscritos a determinados lotes de terra. Assim, quando um esparciata precisava de mão de obra, podia solicitar hilotas à cidade, embora não pudesse vende-los.
Ainda segundo o professor Rodolfo Neves, a educação espartana, chamada de Ágogue, começava aos sete anos e ia até os trinta. Os filhos dos esparciatas (a educação não se estendia aos periecos e hilotas) eram tirados de suas famílias aos sete anos e era colocada em um quartel militar para serem educadas. Lá ela perdia o contato com sua família e suas afeições eram dirigidas à cidade de Esparta. Desde então há um intenso treinamento militar até que aos dezoito anos o jovem esparciata é submetido a uma prova para averiguar se o jovem poderia tornar-se um militar. A prova consistia em matar hilotas. Os que passavam nessa prova iam para a segunda etapa da educação militar que ia até os trinta anos! Somente aos trinta anos o soldado recebe o título de hoplita: soldado cidadão. Então ele recebia terra, hoplitas para trabalhar para ele e angariava o direito de casar-se e ter família.
A semelhança que encontramos está, além do fato de a educação começar na infância, distante da família, no fato de haver um teste na juventude que garante o progresso na educação para identificar os verdadeiros militares e, por fim, aos trinta anos termos militares formados. Entretanto, para os de Esparta, a educação terminaria ali. Para a República de Platão seriam os ‘fracassados’ no teste que tornar-se-iam militares.
*4 Aqui Durant entra (ou parece entrar) em desacordo com o que temos aprendido sobre a complicada teologia de Platão. Já notamos que não é possível identificar a divindade de Platão. Temos o ‘bem’ e o ‘demiurgo’ como candidatos. Entretanto ele também fala dos ‘deuses’ do panteão. Seja como for, o demiurgo é uma figura complementar ao sistema, portanto, precisa ser elencado para que o sistema busque se completar. Já o ‘bem’ é um ser necessário, deduzido do sistema. Não poderia, pois, coadunar com o que Durant afirma sobre Platão: “Admite-se que nenhuma das crenças pode ser demonstrada; que Deus pode, afinal de contas, ser apenas o ideal personificado do nosso amor e da nossa esperança, e que a alma é como a música da lira e morre como o instrumento que lhe deu forma; no entanto, sem dúvida [...] que não nos fará mal algum o fato de acreditarmos, e é possível que faça um bem incalculável a nós e a nossos filhos” (DURANT, p. 42). Evidentemente, inevitável pensar na Aposta de Pascal. Mas quando se fala do ‘bem’ Platão não parece falar de uma mera aposta. É possível que aqui esteja mais uma das contradições no sistema do sábio.
*5 Aqui parece-nos haver outra contradição em Platão. Primeiro ele ensina que não propõe, como diz Pondé, uma aristocracia de sangue, e sim de competência. Portanto, não quer que se distinga entre filhos de guardiães ou filhos de camponeses. Do filho de um camponês pode sair alguém com competência para ser um rei ou um militar. Do filho de um rei pode sair alguém com a competência para ser um camponês ou militar. Não é pelo sangue que se decidem as funções na sociedade.
Por outro lado, ensina-se que os mais competentes, os reis, devem ter mais mulheres pois seus filhos provavelmente serão mais saudáveis. Ora, isso soa muito contraditório!
*6 Falaremos disso noutra oportunidade. É provável que o mencionemos em Agostinho e em outro artigo especificamente sobre o assunto.
*7 Maria Lacerda de Moura, sagaz, comenta: “Depois disso [do impasse em Siracusa], Platão escreve as Leis, livro quase oposto à República, conservador, autoritário, reacionário. Seria sua experiência de Siracusa?...” (PLATÃO, p. 73).
*8 Iremos desenvolver melhor essa ideia num futuro artigo sobre Formas de Governo.

REFERÊNCIAS

BRISSON, Luc. Platão_ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.

CARVALHO, Olavo de; BRASIL, Felipe Moura (org.). O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de Janeiro: Record, 2013, 616p.

CHALITA, Gabriel. Vivendo  Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.

DURANT, Will. A História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 4ª ed., 2001, 406p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução e Apêndice de Maria Lacerda de Moura; Introdução de Alceu Amoroso Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, 88p.

PONDÉ, Luiz Felipe. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia: ensaio de ironia. São Paulo: Leya, 2012, 232 p.

NEVES, Rodolfo. Antiguidade Clássica – Esparta. Acessado dia 05/05/2014 em: https://www.youtube.com/watch?v=AdkgZdz-TJQ.


SPROUL, R. C. Filosofia para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208 p.