Abaixo iremos atualizando o índice na medida que formos escrevendo e postando os artigos:
Panorama Histórico da Aurora da Filosofia
O que pensar sobre os mitos?
Pensam diferente em Mileto
As Figuras de Mileto
Parmênides e a encrenca de Sproul
A cosmovisão problemática de Parmênides
Gafes (pra lá de comuns) na tentativa de refutar o argumento cosmológico
Heráclito
Atenas: o berço da nova filosofia
Os Sofistas
Sócrates
Biografia de Platão
Metafísica, Antropologia e Epistemologia em Platão
A ética em Platão
A Filosofia Política de Platão
O período helênico
A vida de Aristóteles
Introdução à Lógica Aristotélica
Metafísica, Antropologia e Epistemologia em Aristóteles
A ética em Aristóteles
A filosofia política de Aristóteles
Roma - das origens à queda da República
O Materialismo Antigo
Império Romano
Os Estoicos
Plotino e o Neoplatonismo
quarta-feira, 23 de abril de 2014
Heráclito
Em Éfeso, cidade da
Jônia, na Ásia Menor, famosa entre os cristãos por ter uma epístola paulina
dirigida a ela, e uma carta do apóstolo João, em Apocalipse, surge outro pensador
pré-socrático, próximo ao fim do segundo sexto século antes de Cristo*. Seu nome
é Heráclito. Sobre sua vida, a única informação que conhecemos é uma oriunda de
Durant: “deixou a riqueza e suas preocupações para levar uma vida de pobreza e
estudo à sombra dos pórticos dos templos em Éfeso, desviou a ciência da
astronomia para preocupações mais terrenas” (DURANT, p. 67). Portanto, parece
que ele não segue a tradição dos filósofos que o precederam, os famosos
filósofos de Mileto, que não deixavam de ser astrônomos. Provavelmente, pois,
tratava-se de um ‘homem livre’ da sociedade grega.
Chalita nos diz que
há muitos filósofos que consideram Heráclito o mais importante pré-socrático
(CHALITA, p. 35). A característica de seus escritos é a obscuridade porque ele
resolve “apresentar seu pensamento por meio de aforismos, com um estilo propositadamente
enigmático” (CHALITA, p. 35). Osborne expõe um pouco mais. Ela diz que o estilo
de Heráclito “é feito de sentenças misteriosas, das quais muitas são sem dúvida
voluntariamente ambíguas” e completa “Do livro de Heráclito, conservamos uma
grande quantidade de extratos truncados, principalmente sob a forma de uma
única frase, algumas vezes desprovida de qualquer verbo. Nada se assemelhando a
um argumento construído” (PRADEAU, p. 23).
O FLUXO UNIVERSAL
A ideia mais
fundamental de Heráclito é a do fluxo universal. Ele acredita “Todas as coisas
fluem e se alteram sempre, disse ele; mesmo na mais imóvel existe um invisível
fluxo e movimento” (DURANT, p. 67). Diferentes autores conservaram sua
ilustração principal, a ilustração do rio. Osborne as apresenta. Vamos
reproduzir as duas menores, suficientes para nossa instrução: “Sobre aqueles
que entram nos mesmos rios escoam sempre outras novas águas” e “Entramos e não
entramos nos mesmos rios. Somos e não somos” (PRADEAU, p. 25). Gaarder
sintetiza: “quando entro pela segunda vez no rio, tanto eu quanto ele já
estamos mudados” (GAARDER, p. 47). Sproul é ainda mais claro nessa parte quando
expõe a ilustração do rio: “Suas margens, numa erosão imperceptível, terão
mudado, e você mesmo terá mudado – se de nenhuma outra forma, pelo menos no
fato de ter ficado alguns segundos mais velho” (SPROUL, p. 21).
Osborne observa que
Heráclito não estava pensando apenas no fluxo permanente das águas dos rios
mas, sim, na própria essência ontológica, a natureza das coisas (PRADEAU, p.
25). Por isso, Chalita está certo ao observar que a ideia de Heráclito é a de
que “o mundo não é um lugar estático, mas um fluxo, uma mudança permanente de
todas as coisas, um constante vir-a-ser. Para Heráclito, nada permanece o
mesmo, nem por um instante” (CHALITA, p. 35). Acreditamos que Sproul é, mais
uma vez, hábil com as palavras na exposição: “De acordo com Heráclito, tudo
está fluindo sempre e em todo lugar. Introduzindo aqui um conceito filosófico
importante, isso significa que todas as coisas encontram-se no estado de vir a
ser, em oposição ao estado de ser” (SPROUL, p.21). Em suma, nada é, antes, está
constantemente vindo a ser, se transformando, mudando.
De onde Heráclito
teria tirado essa ideia? Obviamente ele, ao contrário de Parmênides, acreditava
piamente nos sentidos, como observado por Gaarder (GAARDER, p. 47). Por onde
quer que ele andasse veria que as coisas estão em constante transformação, e
constante mudança. Nada ‘para no seu lugar’. Tudo se altera de alguma forma.
Heráclito deve ter observado isso e abstraído que, de repente, a essência do
‘ser’ é justamente o ‘vir-a-ser’.
Há, claro, uma
constante em toda essa metafísica da mudança: a lei. A lei da mudança é algo
que não muda. Durant também percebe isso: “Essa ordem, a mesma para todas as
coisas, não foi feita por nenhum dos deuses e dos homens; mas sempre existiu,
existe e existirá” (DURANT, p. 67).
A ARCHÉ EM HERÁCLITO
Heráclito não fugiu
da moda filosófica de sua época, e também refletiu sobre o elemento fundamental
da natureza. Como o fato de tudo fluir era a proposição pivô, mestra, de sua
filosofia, ele elege o próprio ‘fogo’ como o elemento básico da natureza.
“Heráclito via o fogo como o elemento básico das coisas, pois está sempre
fluindo. O fogo tem de ser constantemente alimentado, mas ele também sempre
está emitindo algo: fumaça, calor ou cinza. Ele está sempre ‘em atividade’, em
constante transformação” (SPROUL, p. 21). Por isso, é o candidato perfeito para
a arché.
TELEOLOGIA COSMOLÓGICA
Ao falar do fogo
temos que partir para a teleologia cosmológica de Heráclito. Parece-nos que ele
é o primeiro a propor, no ocidente, uma história cíclica. Para ele o mundo
começaria no fogo e para ele voltaria, como nota Chalita citando Clemente de
Alexandria expondo Heráclito: “Este mundo, o mesmo de todos os seres, nenhum
deus, nenhum homem o fez, mas era, é e será um fogo sempre vivo, acendendo-se
em medidas e apagando-se em medidas” (CLEMENTE apud CHALITA, p. 35). É isso
mesmo que Durant nota: “A história cósmica segue em ciclos repetitivos, cada
qual começando e terminando em fogo (eis aqui uma fonte da doutrina estóica e
cristã do juízo final e do inferno*)” (DURANT, p. 67). Os estoicos, no futuro,
vão se apropriar dessa ideia.
A UNIDADE DOS CONTRÁRIOS E A
ORDEM SUBJACENTE À MUDANÇA
Antes de expor essa
doutrina de Heráclito, é bom estarmos cientes das dificuldades. Heráclito expõe
algumas sentenças que sugerem tal doutrina. “Cada uma dessas sentenças indica
como os contrários estão ligados, sem que, no entanto, possamos discernir
claramente o que determina ou estrutura o conjunto desses contrários. Desse
modo, conservamos mais de uma centena de sentenças obscuras que não seguem nem
análises nem explicações elaboradas, de modo que é difícil reconstituir com
certeza a doutrina de Heráclito” (PRADEAU, p. 26).
Para esta última
parte, talvez a mais complicada de todos os pré-socráticos, teremos de retomar
dois assuntos já abordados previamente: a da lei, a constante da mudança; e a
da arché de Heráclito, o fogo. Esses dois elementos parecem estar intimamente
ligados na filosofia de Heráclito.
Voltemos, também, ao
rio de Heráclito. Ao entrarmos novamente no rio, entramos e não entramos no
mesmo rio. Osborne alavanca tal discussão: “é falso dizer que elas são ‘as
mesmas’ quanto admitir que o ‘mesmo’ não implique a mesma constituição física”
(PRADEAU, p. 25). Ou seja, em um sentido aquelas não são as mesmas águas. Mas
existe uma realidade adjacente, a qual chamamos de ‘rio’, que constitui-se de
um fluxo de águas por uma via. Esse predicado, ainda que não ignore a ontologia
fluida de Heráclito, ainda assim pode referir-se a uma coisa fixa ao nos
referirmos ao rio. “...um rio exige um fluxo constante de novas águas. É isso
que significa um rio. E se isso é igualmente verdadeiro para a natureza, então
o ‘mundo’ será um meio dinâmico no seio do qual as coisas têm lugar” (PRADEAU,
p. 25).
Nesse sentido,
parece que o locos, o mundo, é um ente fixo. O espaço, onde as mudanças
acontecem, parece fixo. Entretanto, se observarmos que o fogo logo consumirá
tudo, talvez pensemos na extinção e ressurgimento do próprio espaço. Aqui
começamos a nos aproximar da discussão em torno do big bang, e preferimos
deixar isso para outro momento.
O fato é que, em
certo sentido, observamos que as mudanças seguem algumas vias, algumas normas,
algumas leis. Osborne nota exatamente isso: “No entanto, esses acontecimentos
não teriam lugar ao acaso nem de maneira caótica: tudo, assim como a água do
rio, obedece a regras, escoando em um sentido e mudando de curso segundo certa
medida” (PRADEAU, p. 25). No entanto, é legítimo questionar a origem dessa lei,
dessa norma. O que faz as coisas seguirem determinado fluxo e não outro? O que
faz com que as coisas não movam-se de forma caótica? Chamemos Sproul para a
conversa: “A realidade não é uma diversidade pura; há uma unidade permanente.
[...] Para Heráclito, o processo de mudança não é caótico, mas orquestrado por
‘Deus’. Coloquei Deus entre aspas porque, para Heráclito, ‘Deus’ não é um ser
pessoal, porém mais parecido com uma força impessoal. O movimento é produto de
uma razão universal a que Heráclito chamava de logos. [...]” (SPROUL, p.
21-22).
Percebamos, então,
que Deus, ou o logos, é algum tipo de ente, uma força impessoal que produz as
mudanças, que leva os seres ao eterno vir a ser. Ele é o motor do mundo. É o
logos que guia as mudanças de modo que não sejam aleatórias, caóticas.
Mas espere um pouco.
O que o ‘fogo’, o arché de Heráclito, tem a ver com isso? Como ele participa do
processo? Bom, parece que ‘logos’, ‘lei’, ‘Deus’, e ‘fogo’ estão em uma relação
simbiótica. Sproul mesmo, no parágrafo seguinte ao que mencionamos acima
menciona o fogo relacionado à ordenação do cosmos: “Heráclito estava à procura
de um princípio do telos, de uma teleologia ou propósito que desse ordem e
harmonia às coisas em movimento, que desse unidade à diversidade. Para ele, o
logos é a lei universal imanente em todas as coisas. Em última análise, é o
Fogo com ‘f’ maiúsculo. Seu sistema é, em última análise, uma espécie de
panteísmo” (SPROUL, p. 22).
Portanto, o fogo,
esse Deus incandescente de Heráclito, gera o mundo, permeia a todas as coisas,
e as leva à constante mudança. Esse fogo que permeia a todas as coisas é a
razão, o logos divino que a tudo dá direção.
Mas o sistema não
para aqui. E é nesse momento que a parte mais confusa, mais controversa,
mencionada por Osborne alhures, surge. É a questão dos opostos. Comecemos por
Gaarder: “Deus é dia e noite, inverno e verão, guerra e paz, satisfação e
forme’, dizia ele. Ele emprega nesta passagem a palavra ‘Deus’, mas é claro que
com isto não se refere aos desses de que falavam os mitos.Para Heráclito, Deus
– ou o elemento divino – é algo que abrange o mundo inteiro. Para ele, Deus
se manifesta na natureza em constante transformação e crivada de opostos.
No lugar da palavra ‘Deus’ ele emprega com frequência a palavra grega logos,
que significa razão” (GAARDER, p. 48, itálico nosso).
Parece que o logos
manifesta-se, pois, na natureza, por meio da transformação que, por sua vez,
reflete o conflito de opostos. Nos opostos, pois, parece que temos a lei
divina, a atuação do logos, produzindo movimento, transformação e criação. Isso
estaria em consonância com a sugestão de Osborne: “O logos pode igualmente ser
a ligação entre os contrários” (PRADEAU, p. 26). O mundo, pois, seria formado
de antíteses ontológicas, como se o logos criasse tudo aos pares opostos,
antagônicos. À luz dessa consideração a citação de Durant é iluminada: “‘Através
da luta’, diz Heráclito, ‘todas as coisas nascem e se extinguem. (...) A guerra
é o pai e o rei de todos: alguns, ela tornou deuses; outros, homens; alguns,
escravos, e outros, livres.’ Onde não há luta, há deterioração: ‘a mistura que
não é sacudida se decompõe’” (DURANT, p. 67).
Entretanto, a
doutrina ainda permanece misteriosa. Parece que do conflito, da síntese do
conflito, o logos cria. Talvez seja uma alusão à transformação por meio da
síntese de opostos. É possível que o fluxo cosmológico siga a linha mestra dos
conflitos e o logos seja o condutor dessa ‘história’ até que “todos os
conflitos no fim são resolvidos no fogo que paria sobre tudo, ou no logos das
coisas” (SPROUL, p. 22).
Gaarder tenta trazer
perspicuidade à questão: “Heráclito também nos chama a atenção para o fato de
que o mundo está impregnado por constantes opostos. Se nunca ficássemos
doentes, não saberíamos o que significa a saúde. Se nunca tivéssemos fome, não
experimentaríamos a agradável sensação de saciá-la depois de uma refeição. Se
nunca houvesse guerras, não saberíamos o valor da paz, e se nunca houvesse
inverno, não poderíamos assistir à chegada da primavera. Tanto o bem quanto o
mal são necessários ao todo, dizia Heráclito. Sem a constante interação dos
opostos o mundo deixaria de existir” (GAARDER, p. 48). Temos, pois, o conflito
de opostos fazendo parte da realidade, uma dualidade necessária, essencial ao
que existe. Não conseguimos, entretanto, perceber a necessidade da dualidade,
dos opostos, para que o logos crie a realidade. Suspeitamos que esteja na
concepção de que o fogo queima e, disso, de alguma maneira, Heráclito tenha
deduzido que a realidade deve ser produzida (no sentido do eterno devir) pelo
conflito. Ao observar a realidade por esse prisma, realmente parece que as coisas
estão em pares conflituosos.
Vejamos Chalita
tentar expressar o mesmo: “A vida se transforma em morte, a morte em vida; o
úmido seca, o seco umedece; a noite torna-se dia, o dia torna-se noite; a
vigília cede ao sono, o sono cede à vigília; o jovem torna-se velho, o velho se
faz criança [ok, também pareceu-nos meio forçado essa última]. O mundo é um
perpétuo renascer e morrer, rejuvenescer e envelhecer” (CHALITA, p. 35). Aqui
pareceu que o mundo experimenta ‘micro-ciclos’ do que acontece de forma global,
macro, com todo o cosmos. No final das contas, o próprio cosmos está vivendo na
antítese entre o nascer e o morrer.
EPISTEMOLOGIA HERACLITIANA
Epistemologicamente
Heráclito parece entender que o verdadeiro filósofo que busca o logos o
encontra e, então, começa a compreender a realidade e entende os seres que,
apesar do vir a ser eterno que nos impede de reportarmo-nos a eles, têm uma
constante no logos*. Percebamos Osborne dissertando sobre: “Existem meios pelos
quais reconhecemos os ‘mesmos’ objetos: essas leis são determinantes para
compreender o mundo. Tal é o sistema (ou logo) que, segundo Heráclito, aparece
claramente àqueles que o procuram, mas permanece ignorado para aqueles que
estão demasiado adormecidos para percebê-lo” (PRADEAU, p. 25-26).
Gaarder também
explora questões epistemológicas em Heráclito: “Mesmo quando nós, homens, não
pensamos da mesma forma ou não possuímos a mesma razão, deve haver – segundo
Heráclito – uma espécie de ‘razão universal’, que dirige todos os fenômenos da
natureza. Esta razão universal – ou ‘lei universal’ – é a mesma para todos; é a
partir dela que todos se orientam. E não obstante, a maioria das pessoas vive
segundo sua própria razão, dizia Heráclito. Ele não considerava muito as
pessoas que o cercavam. Para ele, a opinião da maioria delas não passava de
‘brincadeira de criança’” (GAARDER, p. 48).
A nós parece que os
dois autores entendem que o conhecimento da realidade, em Heráclito, longe de
um empirismo rudimentar, como nos é normalmente ensinado, inclui a abstração
que deduz o logos. Os homens devem crer no sistema para compreender o mundo. O
sistema inclui a crença no logos que organiza, cria, destrói e recria o mundo
(claro, o sistema também inclui a pressuposição na confiabilidade dos sentidos).
Aí, então, teremos uma percepção correta sobre o mundo.
Antes de terminarmos
essa seção epistemológica, não podemos deixar de observar o que Chalita diz:
“Conhecer qualquer coisa só é possível porque existe o seu contrário; sabemos o
que é a alegria porque experimentamos a tristeza, e vice-versa. O mesmo,
segundo Heráclito, aconteceria com as qualidades de tudo o que existe, sempre
aos pares. Por exemplo, a guerra e a paz, o quente e o frio, o amor e o ódio”
(CHALITA, p. 36). Assim, a questão dos conflitos subjazem à própria
epistemologia segundo Heráclito. O logos, que criou (cria e criará) as coisas
aos pares opostos, também viabiliza o conhecimento nos homens por meio dos
opostos. Assim, se não ficássemos tristes, não saberíamos o que é a alegria e,
se ficássemos alegres, não haveria a tristeza. Tal conceito não nos parece
muito preciso, e suspeitamos que ele ignore alguns estados neutros entre as
coisas. Por exemplo, acreditamos que exista um estado normal, sem a euforia da
alegria, e sem o torpor da tristeza. Ou será que, na verdade, a alegria seria a
ausência de tristeza apenas? Poderíamos dizer que a tristeza é apenas ausência
de alegria? Será que não poderíamos imaginar um homem, num mundo utópico, que
não experimentasse tristeza alguma, antes, doses menores ou maiores de alegria?
Esse tal não poderia saber o que é a alegria pelo fato de nunca ter
experimentado a tristeza? Parece que Heráclito diria não. Permita-nos citar
Gaarder novamente: “Se nunca ficássemos doentes, não saberíamos o que significa
a saúde. Se nunca tivéssemos fome, não experimentaríamos a agradável sensação
de saciá-la depois de uma refeição. Se nunca houvesse guerras, não saberíamos o
valor da paz, e se nunca houvesse inverno, não poderíamos assistir à chegada da
primavera” (GAARDER, p. 48). Não estamos certos de que concordamos com
Heráclito.
OS PROBLEMA DA COERÊNCIA E DA
ABRANGÊNCIA NA COSMOVISÃO DE HERÁCLITO
Afora algumas
críticas, alguns questões levantadas, que fizemos, temos ainda alguns problemas
não resolvidos com Heráclito. A questão fundamental está na exposição, da parte
de Sproul, de Parmênides quanto ao ser. Tudo o que é, é, dizia o filósofo de
Eléia. “Não pode ser e não ser ao mesmo tempo e da mesma maneira. Se está se tornando, não pode estar
sendo. Se não está sendo, não é nada” (SPROUL, p. 23). A questão é que, se algo
constantemente está se tornando, nunca é. Mas, se não é, então não possui ser,
não existe. Sem uma base fixa para o ser as coisas não podem existir. Assim, as
coisas têm de ser antes de virem a ser. A única saída para Heráclito seria
dizer que o ser das coisas está no logos e encerrar o sistema num panteísmo.
Mas parece-nos que a ontologia das coisas está, mesmo, com o predicado de ser
essencialmente mutante.
E, afinal, o que é o
homem nesse processo todo? Porque ele existe num estado diferente? De onde vem
sua pessoalidade, sendo que o próprio logos é impessoal? Porque o homem é um
ser racional, que pode perceber e acessar o logos para compreender a realidade?
A antropologia filosófica de Heráclito se mostra a nós como o tendão de Aquiles
na cosmovisão de Heráclito.
Ainda nos incomoda a
questão teleológica. Porque esse fogo cria e consome todas as coisas? A própria
criação do cosmos por meio do fogo nos parece muito misteriosa. A razão
suficiente de Leibniz também parece lançar suspeitas ao sistema. Porque o logos
cria as coisas de um jeito e não de outro? Quando ele cria, as coisas são
sempre criadas da mesma forma?
Temos, ainda, que
observar os pressupostos de Heráclito. A falta de abrangência que não deixa o
sistema tanger suficientemente à antropologia filosófica faz com que
suspeitemos de como um heraclitiano defenderia a pressuposição de que os
sentidos são confiáveis.
O comprometimento de
Heráclito com o projeto filosófico de sua época, o Zeitgeist pré-socrático,
fê-lo pensar na arché, a qual ele identifica como o fogo. O fogo ganhar ares
‘racionais’, tornar-se ‘logos’, parece-nos o raciocínio seguinte para toda a
coerência do sistema. Não podemos deixar de considera-lo um pensador
formidável, entretanto, não poderíamos abraçar sua cosmovisão.
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* Gaarder diz
540-480 a. C., mas Durant diz 530-470 a. C. Osborne não dá data alguma. Antes,
informa-nos sobre a polêmica relacionada a essa questão. Ao observar que
Parmênides escrevia de forma argumentativa, e Heráclito por aforismos, e que
Parmênides teria influenciado a posteridade à argumentação, sugere, pois, que
aquele teria vivido antes do que este. Há quem conteste dizendo que Heráclito
não desejou expor suas ideias da forma que Parmênides, ou seja, não estava
querendo fundamentar sua filosofia pelo critério de provas e argumentos, mas,
antes, nos mostrar um modo de ver as coisas, uma hipótese explicativa do mundo.
Ao que parece, segundo Osborne, Heráclito já pensava em termos de cosmovisão,
embora tal ideia pudesse não estar estruturada (PRADEAU, p.23).
* Quando formos
estudar os estóicos, que se apropriam dessa ideia de Heráclito, mostraremos
como Durant, e tantos outros, estão equivocados ao alegarem algum tipo de
plágio, da doutrina judaico-cristã, aos estóicos ou, sendo mais elementar, a
Heráclito.
* Estamos muito
cientes do quão próximo a Platão tal ideia está. É como se houvesse uma ideia
da coisa, embora as entidades materiais em si estivessem sempre tornando-se,
não sendo algo nunca.
uma extensão da filosofia de Heráclito se encontra nos Estoicos, que pode ser conferida clicando aqui!
uma extensão da filosofia de Heráclito se encontra nos Estoicos, que pode ser conferida clicando aqui!
REFERÊNCIAS
CHALITA, Gabriel. Vivendo
Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.
DURANT, Will. A
História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva.
Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 4ª ed., 2001, 406p.
GAARDER, Jostein. O
mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha
Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.
OSBORNE, Catherine. O
nascimento da filosofia _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução
de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio
de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.
SPROUL, R. C. Filosofia
para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002,
208 p.
terça-feira, 22 de abril de 2014
Gafes (pra lá de comuns) na tentativa de refutar o argumento cosmológico
(artigo anterior sobre Parmênides)
Já escrevemos, noutra ocasião, sobre o argumento cosmológico*1. Mesmo que tenhamos migrado para outro método apologético, a saber, o pressuposicionalismo, ainda, confessamos, guardamos alguns afetos para com o tomismo, particularmente o argumento cosmológico. No decorrer dos anos e das páginas lidas, temos visto alguns equívocos comuns na tentativa de refutar esses argumentos. Como um dos objetivos do blog é justamente poupar-nos o tempo de ter que repetir os mesmos argumentos todas as vezes (no sentido de redigitá-los), preferimos registrar algumas refutações aqui e apresenta-las quando as objeções que tangem surgirem.
Já escrevemos, noutra ocasião, sobre o argumento cosmológico*1. Mesmo que tenhamos migrado para outro método apologético, a saber, o pressuposicionalismo, ainda, confessamos, guardamos alguns afetos para com o tomismo, particularmente o argumento cosmológico. No decorrer dos anos e das páginas lidas, temos visto alguns equívocos comuns na tentativa de refutar esses argumentos. Como um dos objetivos do blog é justamente poupar-nos o tempo de ter que repetir os mesmos argumentos todas as vezes (no sentido de redigitá-los), preferimos registrar algumas refutações aqui e apresenta-las quando as objeções que tangem surgirem.
Vamos aproveitar nossos
estudos sobre Parmênides e nosso contato com Gaarder e notaremos dois erros. Ao
texto, pois.
GAARDER E
A CONFUSÃO TÍPICA
Sofia, a personagem principal
do romance de Gaarder, mal começa a filosofar e, aparentemente, já percebe o
erro do argumento cosmológico. Percebam a reflexão de Sofia (aliás, ao que
parece, a do próprio Gaarder): “Nas aulas de religião ensinavam a ela [Sofia]
que Deus tinha criado o mundo, e agora Sofia tentava se consolar com o fato de
que, apesar de tudo, esta talvez fosse a melhor solução para o problema*2. Mas
logo começou a pensar novamente. Ela até poderia se contentar com o fato de
Deus ter criado o mundo. Mas e o próprio Deus? Teria ele próprio se criado a
partir do nada absoluto? De novo, alguma coisa protestava dentro dela contra
essa ideia. Embora não restasse dúvida de que Deus fosse capaz de criar todas
as coisas possíveis, dificilmente ele poderia ter criado a si mesmo, sem antes
possuir um ‘si mesmo’ através do qual pudesse criar. E então só restava uma
possibilidade: Deus sempre existiu. Mas esta possibilidade ela já tinha
rejeitado. Tudo o que existia tinha que ter tido um começo” (GAARDER, p. 19). A
premissa aqui aparece pouco atrás, quando ela refletia sobre a possibilidade da
existência eterna do mundo: “Tudo o que existe tem que ter um começo” (GAARDER,
p. 19).
O grande problema aqui é o
enunciar equivocado do argumento cosmológico. Ele não diz que ‘tudo que existe
tem que ter um começo’, mas que ‘tudo aquilo que tem um começo tem uma causa’*3,
o que é redondamente diferente. Desafiamos Gaarder e a qualquer um a provar a
premissa de Gaarder. De onde se conclui que tudo que existe tem,
obrigatoriamente, por necessidade lógica, que ter um começo? É absolutamente
racional, a priori, pensar tanto na eternidade do mundo quanto na eternidade de
Deus. A questão, pois, no argumento cosmológico, reside, agora, no debate em
torno da premissa de que o universo teria surgido, sido criado. Se ele foi
criado, deve haver uma causa, e por aí vai...
PARMÊNIDES
E AS IMPLICAÇÕES PARA O ARGUMENTO COSMOLÓGICO
Parmênides, ao discutir a
questão da transformação, notou que não seria possível que algo pudesse vir do
nada. Para ele, para que algo se transformasse teria de deixar de ser,
tornando-se não-ser, para então tornar-se ser de novo. Como ‘não-ser’ é nada,
então isso não poderia acontecer. Sproul tenta ilustrar: “Se existe mesmo
alguma coisa, então tem de haver o ser, porque sem ser nada pode ser. Ao mesmo
tempo, Parmênides compreendeu o princípio ex nihilo, nihil fit (‘nada vem do
nada’). Parmênides considerou corretamente absurda a ideia de que alguma coisa
pode vir do nada ou de que o nada pode dar origem a algo. Realmente, se houve
um tempo em que não havia nada, então não haveria nada agora” (SPROUL, 2002,
p.23).
Sproul, noutra obra, deixa
claro o problema de algo vir do nada, e aplica a questão à cosmologia,
criticando a proposta de que o universo teria se autocriado: “Para que algo se
crie ou para ser seu próprio efeito assim como sua própria causa, deve existir
antes de existir. O universo, para ser autocriado, deverá existir antes de
existir. Colocando nos termos da não-contradição o universo teria que existir e
não-existir ao mesmo tempo e no mesmo sentido” (SPROUL, 2007, p. 96).
Vamos sintetizar as
propostas. Dizer que algo vem do nada é creditar algum poder de ação ao nada.
Mas ‘nada’ é um ‘não-ser’, e não pode ser agente de ação nenhuma, pois não
existe. A autocriação proclama que algo é nada e, ao mesmo tempo, se cria. É a
mesma burrice.
Mas há quem vá aplicar
Parmênides à própria ideia da criação. Veja o próprio Sproul nos advertindo:
“Contudo, é importante observar que Parmênides aparentemente não estava
atacando apenas a noção absurda da autocriação, mas também qualquer ideia de
criação, o que, por implicação, inclui a noção cristã de criação” (SPROUL,
2002, p. 23).
Mas eis que surge nosso mui
amado teólogo de Princeton (da antiga Princeton) para resolver o problema. A
citação é longa, mas vale muito a pena registrá-la: “Em todos os tempos, uma
objeção à doutrina da criação tem sido que ela é inconsistente com este axioma:
ex nihilo nihil fit. Esse aforismo pode, não obstante, ter dois sentidos. Pode
significar que não há efeito sem causa – que nada pode produzir nada. Nesse
sentido, ele expressa uma verdade auto-evidente com a qual a doutrina da
criação é perfeitamente consistente. Essa doutrina não pressupõe que o mundo
existe sem uma causa, o que vem do nada. Ela atribui uma causa perfeitamente
adequada para sua existência na vontade de um Ser Onipotente e inteligente. No
outro sentido da frase, significa que uma criação ex nihilo é impossível, que
Deus não pode fazer a matéria ou alguma outra coisa começar a existir. Neste
sentido, ela não é uma verdade auto-evidente, mas uma pretensão arbitrária, e
consequentemente carece de força ou autoridade” (HODGE, p. 419).
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*1 Aqui: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2010/10/crenca-ateista-parte-4.html
E aqui: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2010/11/o-universo-comeca-existir-e-o-ateismo.html
*2 O problema ao qual o
narrador se refere é o meditado anteriormente. Ela pensou na possibilidade da
existência eterna do mundo, mas a rejeitou pela premissa que destacamos acima.
Então começou a pensar num regresso causal que a levou a concluir que algo
deveria surgir do nada. Talvez Gaarder estivesse pensando na questão, de
Parmênides, que iremos expor adiante (exceto na última interrogação) quando
escreveu: “Afinal de contas, algum dia alguma coisa tinha de ter surgido do
nada. Mas será que isto era possível? Esta ideia não é tão absurda quanto a
noção de que o mundo sempre existiu?” (GAARDER, p. 19).
*3 Para ser mais exato, o
argumento pode ser traduzido de forma lógica ao princípio da causalidade: todo
efeito deve ter uma causa. Para definir a proposição Sproul é muito competente:
“Observando cuidadosamente a definição desta lei (‘todo efeito deve ter uma
causa’) como podemos definir ‘efeito’? Ele não tem uma definição óbvia? Um
efeito é ‘aquilo que foi causado’. Um efeito, por definição, é algo que foi
causado por outra coisa. A palavra ‘causa’ é outra definida de forma evidente,
por isto, por definição, traz algum tipo de resultado, ou ‘efeito’. Não podemos
ter uma causa sem um efeito.” (SPROUL, 2007, p.45). Pouco à frente o mesmo
filósofo responde a um filósofo, crítico ao conceito supracitado: “Você
escreveu em sua revisão que um dos principais problemas com meu livro era que
eu não admitia um efeito sem causa. Mea culpa. Você está absolutamente certo.
Mas pensei que minha recusa rígida de não aceitar efeitos sem causa fosse uma
virtude – não uma imperfeição. Entretanto, ficaria mais feliz em que retratar
se você fizesse a gentileza de me escrever pelo menos um exemplo, em qualquer
lugar do universo, de um efeito sem causa” (SPROUL, 2007, p. 46). E Sproul
ainda aguarda o tal exemplo. Ele não existe justamente por conta da causalidade
ser uma verdade por definição, um postulado lógico.
REFERÊNCIAS
GAARDER, Jostein. O
mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha
Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.
HODGE, Charles. Teologia
Sistemática. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo:Editora Hagnos,
2001. 1777p.
SPROUL, R. C. Defendendo
sua fé: uma introdução à apologética. Tradução de Patrícia Merlim. Rio de
Janeiro: CPAD, 2007, 192p.
SPROUL, R. C. Filosofia
para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002,
208 p.
domingo, 20 de abril de 2014
A cosmovisão problemática de Parmênides
Já vimos, noutro artigo (leia-o aqui), uma
iniciativa para compreender Parmênides. Sabemos, pois, que pelo livro “Sobre a
Natureza” Parmênides expressou-se e expôs poeticamente suas ideias. Conhecemos
a via da verdade. Linguisticamente concordamos com Parmênides. Entretanto, esse
pensador levará aquela ideia a conclusões complicadas e enredará a filosofia em
campos misteriosos, confusos, quiçá ilógicos. Veremos isso.
O SER É IMUTÁVEL
Já sabemos que o não-ser, ou
o ‘nada’, não pode nem mesmo ser pensado. Portanto, toda proposição racional
tem de ser enunciada em termos de ‘ser’ para que faça algum sentido. Mas
Parmênides extrapola tal conclusão para o campo da realidade, para além da
linguagem. Parmênides não afirma apenas que ‘o que é, é’, mas completa com ‘e o
que é não pode deixar de ser’. Osborne capta o passo dado por Parmênides de uma
maneira concisa: “Afirmando que não podemos nem pensar o que não é, nem dele
falar, e que ‘nada’ não pode nunca existir, a deusa de Parmênides sugere que a
realidade é algo imutável, sem início nem fim, sem passado nem futuro”
(PRADEAU, p.24). Que o mundo sempre existiu era um pressuposto dos gregos. Com
isso não havia problemas para a aceitação de Parmênides. Mas ele vai mais
longe, como aponta Osborne, e propõe que tudo sempre existiu do mesmo jeito!
Gaarder deixa a mensagem clara: “Parmênides acreditava que tudo o que existe
sempre existiu. Este era um pensamento muito corrente entre os gregos, para
quem era praticamente evidente que tudo o que existe no mundo sempre existiu. Nada
pode surgir do nada, dizia Parmênides. E nada que existe pode se transformar em
nada. Mas Parmênides foi mais longe do que a maioria dos outros. Ele
considerava totalmente impossível qualquer transformação real das coisas. Nada
pode se transformar em algo diferente do que já é” (GAARDER, p.46-47).
Em outras palavras, o ser é
imutável. Chalita explica: “o ser é imutável e eterno, porque, se sofresse uma
transformação qualquer, teria de deixar de ser (isto é, tornar-se não ser) para
tornar-se outra coisa (isto é, de não-ser, tornar-se ser). Mas isso seria
impossível, pois nada pode surgir do não-ser” (CHALITA, p. 39). Como tudo que
existe é, então tudo que existe sempre existiu e não pode sofrer qualquer
alteração. Sproul é outro que tenta elucidar o problema: “Para Parmênides, tudo
o que existe de modo absoluto, não pode mudar (‘tudo o que é, é’). Não pode ser
e não ser ao mesmo tempo e da mesma maneira. Se está se tornando não pode estar
sendo. Se não está sendo, não é nada. Tem de ser absolutamente ou não ser”
(SPROUL, p. 23).
Vamos tentar deixar tudo
isso o mais simples possível. Bom, temos um determinado ente, um ser. Ele é
isso ou aquilo, portanto, ao dizermos o que ele é enunciamo-lo com seus devidos
predicados. Se fôssemos pensar em algo transformando-se ele, primeiro, teria de
deixar de ser o que é para, então, tornar-se outra coisa. Nesse processo, o
que, num instante, é algo, noutro já não-é. Nesse instante Parmênides entende
que a coisa perde o próprio ser e torna-se nada. Ilustremos da seguinte maneira.
Um círculo é algo com a propriedade de ser circular, arredondado. Para um
círculo tornar-se um quadrado ele tem que deixar de ser círculo e, então,
tornar-se quadrado. Neste ínterim, quando ele não é mais círculo mas ainda não
é quadrado, o que ele é? Parmênides diria: ele não seria nada. No ato de
tornar-se ainda não se é. Uma coisa que será outra não é nada ainda.
Ficamos, em nossa pequenez,
nos perguntando algumas coisas. Questionamos se algo, ao transformar-se,
precisaria passar por um instante de perda total de qualquer predicado. Um novo
predicado não poderia ser creditado ao ente no mesmo instante? Ele precisaria
deixar de existir? Será que o predicado da existência não poderia ser mantido
enquanto outros fossem alterados? Ainda assim permanece a questão sobre como e
porque as coisas se alteram. Os próximos filósofos terão de lidar com essa
questão. Antes, vamos terminar de ver o que mais o eleata mais célebre de todos
tem a nos ensinar, ou, pelo menos, a nos instigar.
A MUDANÇA É ILUSÓRIA
Embora as coisas não mudem,
de fato, aparentemente mudam. As transformações são patentes aos nossos
sentidos. São empiricamente comprovadas. Ninguém nega isso. Mas essa via, esse
modo de conhecer, não nos conduz à verdade. Chalita expõe: “Através dos sentidos,
os homens percebem os mais diversos fenômenos naturais, constatam mudanças nas
pessoas e nos seres vivos em geral: em resumos, testemunham um mundo que está
em constante transformação. Segundo Parmênides, entretanto, o que é percebido
pelos sentidos não permite que o homem conheça realmente a verdade, o ser
verdadeiro e universal (CHALITA, p. 39).
O que está sendo disputado
aqui é a primazia da razão ou das sensações. Chamemos Gaarder para esclarecer:
““É claro que Parmênides sabia das constantes transformações que ocorrem na
natureza. Mas ele não conseguia harmonizar isto com aquilo que sua razão lhe
dizia. E quando era forçado a decidir se confiava nos sentidos ou na razão,
decidia-se pela razão. Todos nós conhecemos a frase ‘Só acredito vendo’. Mas Parmênides
não acreditava nem quando via. Ele dizia que os sentidos nos fornecem uma visão
enganosa do mundo; uma visão que não está em conformidade com o que nos diz a
razão” (GAARDER, p. 47). Portanto, em suma, “a mudança, para Parmênides, é
ilusão” (SPROUL, p. 23).
Mas Osborne nos informa que
a deusa ordenara a Parmênides que se notificasse das opiniões dos homens: “Como
resultado deste monismo incontestável, a terceira parte do poema (‘Caminho da
Opinião’) tem algo de espantoso. A deusa ‘concluiu, diz ela, sua explicação
digna de confiança da verdade’, e o jovem deve doravante descobrir a opinião
dos mortais. Mas por quê? [...] Trata-se da melhor explicação possível do mundo
da sensação?” (PRADEAU, p. 24). Seja qual for o motivo, segundo Gaarder, a
tarefa do filósofo, para Parmênides, era desmentir as sensações: “Como
filósofo, ele achava que sua tarefa consistia em desvendar todas as formas de
‘ilusão dos sentidos’” (GAARDER, p. 47).
A EPISTEMOLOGIA PROBLEMÁTICA
Ainda temos que explorar,
brevemente, a questão da opinião, a última via de seu poema Sobre a Natureza.
Todo conhecimento não racional, o conhecimento empírico, é ilusório. A “opinião
é designada, em grego, pela palavra doxa, e Parmênides a considerava algo
desprezível, como um ponto de vista qualquer, individual e que nunca poderia
corresponder à verdade” (CHALITA, p. 39).
Portanto, quando notamos
alguma mudança, algum movimento, alguma transformação, estamos apenas
percebendo as coisas de uma forma, de um modo, de um ponto de vista. Mas isso
não corresponde à realidade. É uma opinião, diz Parmênides. Chalita, mais uma
vez, torna isso claro: “A doxa diz respeito ao modo como cada um exprime suas
preferências, seus gostos, interesses, sentimentos, variando de pessoa para
pessoa” (CHALITA, p.40). Segundo Chalita, pois, para Parmênides toda impressão
pessoal, todo conhecimento subjetivo, é opinião. Ou melhor, todo conhecimento
não racional é subjetivo.
Ainda acompanhando Chalita,
para Parmênides somente as opiniões são passíveis de se tornarem vítimas da
retórica: “Vencerá aquele que melhor souber persuadir e conquistar a opinião
alheia, e não a melhor ideia. As opiniões mudam, ora afirmando ora negando a
mesma coisa; são instáveis e não nos permitem, realmente, saber o que as coisas
são” (CHALITA, p. 40). Portanto a opinião pode assumir o status de
verossimilhança, no máximo, mas nunca de verdade. E, de fato, os dados
empíricos são muito verossímeis, mas a razão, para o eleata, impede-nos de
dizer que são verdadeiros.
Mas então começam os
problemas. Chalita diz que “A opinião seria mera aparência e, assim, faria
parte do não-ser” e, apesar de a opinião ser mera ilusão, “os mortais tendem a
tomar o não-ser pelo ser, uma vez que guiavam seu pensamento pela opinião”
(CHALITA, p. 40). Pode ser que simplesmente não tenhamos compreendido
Parmênides, e o leitor, nobre, que venha nos notificar (seremos muito gratos),
mas parece-nos que aqui temos uma contradição visível.
Na exposição de Chalita,
Parmênides acredita que as opiniões, como aparências, fazem parte do não-ser.
Ou seja, percebemos as transformações. Essa percepção é um dado mental, algo
que está em nossa mente. Vimos algo mudar, transformar-se. Essa visão é um
ente, algo existente em nossa mente. Mas é mera ilusão. É aparência. Como é
aparência, na verdade, segundo Chalita, é um não-ser. Mas já vimos que o
‘não-ser’ não pode, nem mesmo, ser pensado. Portanto, se a opinião é não-ser
ela não poderia ser pensada. Então as opiniões jamais chegariam às nossas
mentes porque, afinal, elas nem mesmo existem. Ou Parmênides, ou Chalita, estão
em sérios apuros aqui.
Chalita complica-se ainda
mais: “Ser, pensar e dizer seriam a mesma coisa. Não-ser, perceber, opinar
teriam o significado oposto, nada representando perante o pensamento” (CHALITA,
p.40). Aqui parece que Parmênides, segundo Chalita, está identificando o ato de
pensar de modo unívoco ao ser. Se penso, o que quer dizer que penso
racionalmente, que concluo segundo a razão, sou. Pensar é ser. Isso levaria a
filosofia de Parmênides para o solipsismo.
Outra interpretação das
palavras de Chalita é que ao pensarmos estamos identificando o ser, ao passo
que ao percebermos, identificamos o não-ser. Entretanto, estaríamos captando
mentalmente o não-ser, o que é, repetimos, impossível e, no panorama do
sistema, contraditório.
Ainda temos uma última
crítica. Parmênides pressupõe a validade da razão, mas não parece considerar
dois problemas. Primeiro, quem falou que nossa razão é garantida? Outro modo de
dizer isso é: por que acreditar na razão*?
Outro ponto é o fato de que,
ainda que admitamos a razão e sua infalibilidade, ainda podemos cometer erros
lógicos. Podemos raciocinar de forma equivocada, errar no raciocínio. Isso não
parece ser considerado por Parmênides.
Outras críticas ao
racionalismo puro serão feitas no devido momento. Por hora, fiquemos com apenas
isso.
A FALTA DE ABRANGÊNCIA E DE PRATICABILIDADE DA COSMOVISÃO DE
PARMÊNIDES
Ronald Nash propõe três vias
de teste para a disputa entre as cosmovisões: o teste da razão, onde se disputa
sobre a coerência interna na cosmovisão, observando se há alguma contradição e,
ao identifica-la, já se descarta aquela cosmovisão, ou então é preciso
modifica-la; o teste da abrangência, onde disputa-se o quão competente é a
cosmovisão para explicar a realidade e todo tipo de fenômeno conhecido de modo
que a cosmovisão que não abarca alguns dados da realidade é uma cosmovisão
incompleta e, portanto, ruim; por fim, o teste da prática que observa a
possibilidade de se viver determinada cosmovisão (NASH, p. 26-29) *. É com essa
perspectiva que preferimos rejeitar a proposta de Parmênides. Fizemos algumas
questões, acima, ao seu sistema. Mas gostaríamos de complementar o quadro de
indagações na perspectiva do teste da abrangência e da prática.
O que é o mundo? Por que,
pois, ele existe de um modo e não de outro (Leibniz)? Por que as pessoas são
iludidas? Quem as ilude? Qual a diferença entre um homem e qualquer outro ente
no mundo? Não seria a ilusão uma própria mudança na mente dos homens? Se tudo é
e não muda, e a mudança é uma ilusão, não seria tolice fazer qualquer coisa?
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* Escrevemos sobre isso
aqui: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/10/sobre-ciencia-e-fe-5.html
* Confira nossos artigos
sobre o assunto aqui: teste da razão: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/12/cosmovisoes-parte-3-primeiro-teste.html; teste da abrangência; teste da prática: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/12/cosmovisoes-parte-4-segundo-teste.html.
REFERÊNCIAS
CHALITA, Gabriel. Vivendo
Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.
GAARDER, Jostein. O
mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha
Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.
NASH, Ronald H. Questões Últimas da vida: uma introdução
à filosofia. Tradução de Wadislau Martins Gomes. São Paulo: Cultura Cristã,
2008. 448 p.
OSBORNE, Catherine. O
nascimento da filosofia _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução
de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio
de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.
SPROUL, R. C. Filosofia
para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002,
208 p.
sexta-feira, 18 de abril de 2014
As figuras de Mileto
Em Mileto temos três grandes
proponentes da filosofia natural: Tales, Anaximandro e Anaxímenes. Vamos
explorá-los, brevemente, buscando compreendê-los e identificar suas
contribuições para o pensamento filosófico.
TALES
A Tales de Mileto (640-550
a. C.) *, século VII a. C., portanto, foi ‘dada’ a tarefa de dar à luz a
filosofia. Ele engendrou algumas reflexões sobre a natureza nos moldes que
observamos no artigo sobre a filosofia dos pré-socráticos. Mas antes de vê-lo
como filósofo cosmológico, temos de observar que esse pensador envolveu-se em
várias outras áreas do saber humano. Como observamos no artigo anterior, o
interesse deles extrapolavam o que chamamos hoje de filosofia.
Will Durant diz que ele,
antes de filósofo, era um astrônomo, e nessa condição já desafiava a religião
grega: “Tales (640-550 a. C.), o ‘Pai da Filosofia’, era primordialmente um
astrônomo, que assombrava os nativos de Mileto informando-os de que o Sol e as
estrelas (que eles costumavam adorar como deuses) não passavam de bolas de
fogo” (DURANT, p. 66). Ainda na qualidade de astrônomo “ele teria previsto um
eclipse solar que aconteceu em 585 a. C.*” (CHALITA, p. 32). Segundo Osborne,
essa informação é oriunda de Heródoto, e ele teria advertido os Jônios (onde
Mileto localizava-se) “sobre o risco de um eclipse solar antes de uma batalha”
(PRADEAU, p. 17).
Falando nos Jônios, seu
povo, Tales atuou politicamente em sua sociedade e Osborne nos diz que ele era
conhecido por sua sabedoria política (PRADEAU, p. 17). Assim Chalita nos informa
que “além de se dedicar à filosofia, atuava também na política, trabalhando
para que as cidades da Jônia se unissem em defesa de seus interesses comuns”
(CHALITA, p. 32).
Era um também um competente
matemático tendo realizado feitos de engenharia (“realizou, entre outros,
projetos para desviar o curso de rios, para favorecer a irrigação e a
navegação” CHALITA, p. 32); e “dizem que certa vez, no Egito, ele calculou a
altura de uma pirâmide medindo a sombra da pirâmide no exato momento em que sua
própria sombra tinha a mesma medida de sua altura (GAARDER, p. 45). Osborne
ainda nos informa que “os geômetras ulteriores lhe atribuíram a paternidade de
cinco teoremas, dos quais ele fez talvez uso para fins práticos, por exemplo,
para calcular a distância entre os navios no mar” (PRADEAU, p.17). Sproul
complementa Osborne dizendo que Tales “desenvolveu técnicas de navegação
seguindo as estrelas e criou um instrumento para medir distâncias marítimas”
(SPROUL, p. 17).
Outra informação,
compartilhada tanto por Gaarder (p. 45) quanto Chalita (p.33) biográfica
importante de ser feita é que ele era um ávido viajante. Tal fato fazia-o,
segundo a hipótese explorada no artigo sobre a aurora histórica da filosofia,
nota 1, estar nas condições ideias para tornar-se um filósofo: além do
intelecto aguçado, a curiosidade, o contato com diversas culturas.
Por fim, sumariamente, temos
que lembrar que ele reflete “sobre a natureza da vida ou da alma” bem como era
conhecido “pela habilidade de investimentos fundados sobre a previsão de um
excelente ano de colheita de azeitonas” (PRAEDAU, p. 17-18). Era, pois, um
pensador que investigava e refletia numa vasta gama de assuntos.
Mas temos que destacar suas reflexões físicas
e metafísicas. Para Tales ‘tudo é água’, ou seja, a arché procurada na
filosofia antiga é a própria água. Assim, podemos classifica-lo como monista
corpóreo.
Parece-nos, hoje, um
postulado tosco, rudimentar, ingênuo. Mas Sproul nos adverte que “antes de
despachar Tales para a terra das lendas e da mitologia, no entanto, temos de
conceder-lhe o direito de uma segunda avaliação” (p 17). Ao buscar a arché, e
ao pressupor que ela estava em um único elemento, a água era, de fato, uma boa
opção. Como não temos seus argumentos, os filósofos têm conjecturado e elaborado
alguns argumentos.
Chalita diz que Tales pode
ter pensado que a umidade estava relacionada à vida ao notar que “o quente vive
com o úmido, as coisas mortas ressecam-se, as sementes de todas as coisas são úmidas e o alimento é
suculento” (CHALITA, p. 33).
Mas os argumentos
relacionados à vida não param por aí. Tanto Gaarder quanto Chalita observam que
as viagens ao Egito podem tê-lo feito imaginar que a água trazia vida. O que
aconteceu: “o filósofo observou as cheias do Nilo: a terra, que era seca e desértica
antes das enchentes, tornava-se fértil depois delas” (CHALITA, p.33). Além
desse argumento Gaarder pensa em outro: “É possível que ele tenha observado
também que, depois da chuva, apareciam rãs e minhocas” (GAARDER, p. 45). Sproul
complementa a perspectiva: “Tales podia ver facilmente que as coisas vivas
dependem da água. Ele sabia que não podia viver muito tempo sem ela. E se
quisesse fazer crescer plantas a partir de sementes, ele sabia que tinha de
regar as sementes. Os povos antigos ligavam sua sobrevivência à presença de
chuva e ausência da seca” (SPROUL, p.18). Daí para relacionar a água com a vida
era um passo.
Só que as especulações não
param por aí. Se ficássemos apenas com esse argumento teríamos apenas a
primeira hipótese de Gaarder para concluir: “Talvez ele quisesse dizer que toda
forma de vida surge na água e a ela retorna quando se desfaz” (GAARDER, p. 45).
Mas isso não diz respeito, exatamente, à arché.
A filosofia nasce não
preocupada apenas com a origem da vida. Antes disso, ela tinha interesses
cosmológicos, como assinala Osborne: “Admitimos comumente que a filosofia
começa com questões cosmológicas relativas à origem da vida e à composição
material do mundo, assim como a seu funcionamento” (PRADEAU, p.17). Então,
surge Tales: “É a Tales que devemos a famosa iniciativa de ter assim começado
afirmando que a água era o princípio elementar de todas as coisas, e que a
Terra flutuava sobre a água” (PRADEAU, p. 17). Portanto, não se tratava apenas
de ser a água a origem da vida. Trata-se da água ser a origem de todas as
coisas!
Novamente Tales não deve ser
desprezado ou tido como idiota ao fazer tal asseveração. Com base no
pressuposto da ‘arché’, ele “percebeu que todas as coisas que ele observou
nesse mundo apresentam-se em tamanhos, formas e cores incontáveis, e que todas
se mostram em um de três estados possíveis: líquido, gasoso ou sólido. Para
reduzir a realidade a um único elemento, Tales procurou um que se apresentasse
nos três estados. A escolha óbvia é a água...” (SPROUL, p.18). Gaarder também
nota isso, embora de forma muito breve: “Além disso, é muito provável que Tales
tenha se perguntado como a água podia se transformar em gelo e em vapor, para
depois voltar a ser água” (GAARDER, p. 45). Foi assim que, talvez, Tales tenha
imaginado que a água podia tornar-se qualquer coisa, como aponta Chalita:
“Portanto, Tales poderia ter concluído que ela [a água] pode se transformar
ilimitadamente” (CHALITA, p. 33).
Sproul, quem fala de forma
mais completa sobre Tales, ainda elenca mais um argumento em favor da opção de
Tales. A água poderia explicar, também, o movimento: “Ele [Tales] precisava de
algo que pode mover a si mesmo sem sofrer a ação de alguma outra coisa. Vendo a
correnteza dos rios e o movimento constante das marés, novamente a água era um
grande candidato” (SPROUL, p19).
Assim, não era nada ‘non
sense’ o postulado de Tales. Claro que era altamente especulativo, e a
imaginação teria que dar uma ajuda magistral quando tentássemos pensar na água
transformando-se nos demais elementos. Mas há alguma coerência no argumento.
Quando Tales teria dito que
tudo está cheio de deuses resta-nos, também, especular. Para Gaarder Tales pode
ter pensado o seguinte: “Talvez ele tenha chegado à conclusão de que a terra
escura era a origem de tudo, de flores e sementes até abelhas e baratas. E é
possível, então, que ele tenha imaginado a terra cheia de pequenos e invisíveis
‘gérmens da vida’. De qualquer forma, é certo que com esta afirmação ele não
esteja pensando nos deuses de Homero” (GAARDER, p. 45). Mas, ao passo que
Gaarder entende que, para Tales, a água estava com gérmens de vida, para
Chalita o pai da filosofia estava equivalendo a água à própria vida, e à
própria divindade: “Tales considerava que a água era como uma divindade, como
se fosse a própria vida. A água estaria presente em todas as coisas e,
portanto, todas as coisas estariam cheias de vida, de deuses” (CHALITA p. 33).
A concepção sobre este postulado de Tales está, pois, ligada à compreensão do
que ele quer dizer com ‘tudo é água’.
ANAXIMANDRO:
o visionário da ciência
Anaximandro, discípulo de
Tales, também angariou respeitabilidade como ‘cientista’, segundo Durant: “Seu
[de Tales] discípulo Anaximandro (610-540 a. C.), o primeiro grego a fazer
mapas astronômicos e geográficos” (DURANT, p. 66). Anaximandro, com suas teorias,
antecipa Darwin e algumas teorias cosmológicas modernas: “ [acreditava] que a Terra era mantida no espaço por um equilíbrio
de impulsões internas (como o burro de Buridan); que todos os nossos planetas
tinham sido, a princípio, fluidos, mas haviam sido desidratados pelo Sol; que a
vida se formara, a princípio, no mar, mas que havia sido levada para a terra
pela baixa do nível da água; que dentre os animais assim encalhados, alguns
haviam desenvolvido a capacidade de respirar o ar e, assim, se tornaram os
progenitores de toda a vida posterior sobre a terra; que o homem não podia, no
início, ter sido o que era agora, pois se, ao aparecer pela primeira vez,
tivesse ficado tão desamparado ao nascer e exigido uma adolescência tão longa,
como nessa fase anterior, não teria tido condições de sobreviver” (DURANT, p.
66).
Osborne também nos informa
sobre perspectivas científicas inovadoras em Anaximandro. É, também, uma
citação longa, mas acreditamos que vale muito a pena reproduzi-la: “A Terra é
sempre plana [para os antigos], no centro do universo, mas ela é agora [com
Anaximandro] um pequeno cilindro espesso, dotado de suas superfícies achatadas:
nosso lado não é o único ‘topo’. Com uma cúpula do céu em cada extremidade, ela
forma uma esfera no centro de todas que transportam o céu em cada extremidade,
ela forma uma esfera no centro de todas que transportam o Sol, a Lua e as
estrelas. Em vez de se perguntar sobre o que sustenta a Terra, Anaximandro
observa que aquilo que se encontra a igual distância de seu entorno não tem
razão alguma de se deslocar para um lado ou para outro, de modo que a questão
‘Por que ela não cai?’ está mal colocada. O equilíbrio é a chave da física, bem
como da química. Em torno da Terra, os círculos concêntricos são como rodas de
carroça. Dos jatos de fogo que surgem dos orifícios dos cilindros escuros
aparecem o Sol, a Lua e as estrelas. [...] Anaximandro adota o princípio
científico segundo o qual a natureza tem uma significação matemática, de modo
que as teorias cosmológicas são demonstradas pelas matemáticas e não pela
observação” (PRADEAU, p. 18-19).
Mas, como acontece com
Tales, Anaximandro não é considerado um filósofo da natureza apenas por
especular cientificamente, se podemos assim dizer. Ele também busca a ‘arché’,
e discorda de seu mestre. Durant aponta que Anaximandro “acreditava que o
universo havia começado como uma massa indiscriminada, da qual haviam surgido
todas as coisas devido à separação dos propostos” (DURANT, p. 66), portanto, um
monista incorpóreo. Para Anaximandro, segundo Sproul, o universo não poderia
ser “reduzida a um elemento específico” e, por isso “procurou algo ainda mais
fundamental, que se ergue ou transcende o campo desse mundo, um mundo com
limites cronológicos e espaciais” (SPROUL, p.19). Gaarder tenta simplificar,
esclarecer: “Talvez ele quisesse dizer que aquilo a partir do qual tudo surge é
algo completamente diferente do que é criado. E como tudo que é criado é também
finito, o que está antes e depois deste finito tem de ser infinito. É claro que,
nesse sentido, a substância básica não poderia ser algo tão trivial quanto a
água” (GAARDER, p.46).
Para Anaximandro, pois, “o
princípio do universo é o ápeiron, ou princípio indeterminado, sem fim e em
movimento perpétuo” (CHALITA, p.34). Esse ‘ente indeterminado’, diferenciado de
tudo, transcendente, pelo ‘movimento’ fez surgir “os elementos visíveis e as
primeiras qualidades – ‘quente’ e ‘frio’ –, dando origem ao fogo e ao ar. Em
segundo viriam as qualidades ‘seco’ e ‘úmido’, originando a terra e a água. Os
seres vivos teriam nascido da evaporação da água submetida à luz e ao calor do
sol” (CHALITA, p. 34).
Evidentemente ele
enveredou-se por caminhos espinhosos, misteriosos. Afinal, o que é esse
‘movimento’? E parece que ao não querer identificar o ápeiron com qualquer
elemento, o que faz sentido, ele retira qualquer predicado do ápeiron, a não
ser a via da negação que lhe furta qualquer analogia com algo natural,
tornando-o algo tão misterioso que pode não servir pra nada, principalmente
quando se questiona sobre o que seria o movimento que teria originado os
elementos. Sproul, ao falar de Anaxímenes, nosso próximo filósofo, diz que esse
teria ficado “insatisfeito com a idéia vaga de um lugar misterioso ‘sem
limites’” (SPROUL, p. 19). E é justamente isso: uma ideia vaga incapaz de
solucionar os mistérios do cosmos.
Por fim Durant parece dizer
que Anaximandro acreditava numa história cíclica: “[Anaximandro acreditava] que
a história astronômica se repetia periodicamente na evolução e na dissolução de
um número infinito de mundos” (DURANT, p.66).
Mas Anaximandro não é de se
jogar fora. Chalita observa muito adequadamente: “a principal contribuição de
Anaximandro foi ter desenvolvido um processo de abstração, ou seja, imaginou um
princípio gerador do universo que não estivesse visivelmente presente no mundo
visível” (CHALITA, p. 34).
ANAXÍMENES
Anaxímenes é o último
filósofo desse princípio em Mileto. Durant diz que ele ‘floresceu em 450 a. C.
(DURANT, p. 66), mas Chalita dá a data dúbia de 585-525 a. C. (CHALITA, p. 34).
Sproul diz que Anaxímenes era um amigo mais novo de Anaximandro (SPROUL, p. 19)
de modo que somos levados a optar pela data de Chalita, se a primeira data de
Durant, com relação a Anaximandro, estiver certa, pois somente vivendo no século
VI a. C. é que Anaxímenes poderia ter tido amizade com Anaximandro.
Osborne é o único a nos
informar sobre suas empreitadas científicas, bem mais discreta que de seus
predecessores: “sua terra é um disco, mas dotado de um único ‘topo’, o nosso,
recoberto pela cúpula do céu. O Sol e as estrelas percorrem a cúpula do céu
girando a seu redor, mas eles não passam por baixo do solo. Ele recusa a tese
de Anaximandro segundo a qual a Terra se manteria sem qualquer suporte, para
afirmar que ela ‘flutua no ar’, pois é plana. Trata-se de uma ingenuidade?
Talvez não, se compreendermos que ‘flutuar no ar’ (epocheisthai) significa que,
se uma corrente de ar vem de baixo, o disco plano que é a Terra não poderá
contrariar o vento. Além disso, a corrente de ar que circunda as extremidades
da Terra muda de posição os outros discos, aqueles do Sol, da Lua e dos astros,
projetando-os através da cúpula celeste como as folhas voa ao vento” (OSBORNE,
p. 19).
Como dissemos, Anaxímenes
rejeita a ideia vaga do ápeiron de Anaximandro, e busca “trazer a filosofia de
volta à terra” (SPROUL, p. 19). Mas ele não ‘embarca’ com Tales, antes, prefere
voar. Para Anaxímenes ‘tudo é ar’.
“O ar tem muitas das
vantagens da água: tem estados diferentes de rarefação e condensação, é essencial
à vida, e parece ter o poder de mover a si mesmo, quando o vento sopra”
(SPROUL, p19-20). Esse é o sumário da compreensão de Anaxímenes. Mas vamos
explorar um pouco mais essas proposições.
Por meio da rarefação e da
condensação do ar, pois, os elementos surgiriam. Chalita, citando Simplício,
elucida dizendo que o ar “rarefazendo-se, torna-se fogo, condensando-se, vento,
depois, nuvem, e ainda mais água, depois terra, depois pedras, e as demais
coisas provêm dessas” (SIMPLÍCIO apud CHALITA, p. 34). Ele localiza, pois, o ar
‘antes da água’, como observa Gaarder: “Para Anaxímenes a água era o ar
condensado*. Podemos observar que, quando chove, o ar se comprime até virar
água. Anaxímenes achava que se a água fosse ainda mais comprimida ela se
transformaria em terra. Talvez ele tenha visto que depois do degelo aparecem a
terra e a areia. Para ele, o fogo era o ar rarefeito. Na visão de Anaxímenes,
portanto, terra, água e fogo surgiam do ar” (GAARDER, p. 46)*.
O eterno ‘movimento’ “pelo
qual se dá a transformação” (CHALITA, p. 34) é explicado por Osborne da
seguinte forma: “As mudanças de densidade resultam do aquecimento ou do
resfriamento físicos, sem que nenhum outro elemento além do ar seja exigido”
(PRADEAU, p. 19).
Algumas dúvidas naturalmente
surgem aqui. A primeira é perguntar o porquê de acontecer o movimento e não a
inércia. Logo também perguntamos a razão de o ar se movimentar de uma forma e
não de outra. Novamente, o mistério é trazido à baila, sorrateiramente, na
filosofia pré-socrática.
Osborne ainda nos informa
que aparentemente Anaxímenes “sustenta em apoio à sua teoria que podemos
expirar um sopro fio através dos lábios pressionados, e um sopro quente através
da boca aberta” e observa que “Encontramos aqui elementos de observação
científica apoiando sua hipótese, bem como um recurso a efeitos suscetíveis de
observação” (PRADEAU, p.19). Com isso, tanto em Tales quanto em Anaxímenes
temos a gênesis do pensamento científico.
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* Chalita diz (624-546? a.
C.). As datas de Durant parecem aproximadas. Entretanto ele é um historiador e
preferimos reproduzir a data dele.
* 28 de maio de 585 a. C.,
segundo Sproul (SPROUL, p. 17).
* É complicado dizer, com a
admissão desses pressupostos, quem teria razão quanto à primazia elementar:
Tales ou Anaxímenes. É perfeitamente imaginável e razoável que o ar se torne
água, ou que a água se torne ar.
* As explicações de Osborne
e Durant não diferem muito, mas como são muito parecidas preferimos
reproduzi-las aqui em baixo: “Para Anaxímenes, o ar é o elemento primeiro. Os
outros materiais são, segundo ele, formas de ar de diferentes densidades.
Quando o ar se condensa, ele produz inicialmente neblina, em seguida a água, a
terra e as pedras sólidas. O ar rarefeito origina o fogo. Do ponto de vista
metafísico, trata-se de uma doutrina econômica. Os sólidos, os líquidos e os
gases só se distinguem em densidade, ou seja, do ponto de vista físico e não
pela composição química” (PRADEAU, p. 19). Agora, Durant: “descreveu a condição
primitiva das coisas como uma massa muito rarefeita, condensando-se
gradativamente em vento, nuvem, água, terra e pedra; os três estados da matéria
– gasoso, líquido e sólido – eram estágios progressivos da condensação; o calor
e o frio eram simples rarefação e condensação; os terremotos eram devidos à
solidificação de uma terra originalmente fluida; a vida e a alma eram uma coisa
só, uma força animadora e expansiva que estava presente em todas as coisas para
toda parte” (DURANT, p. 66-67).
Podemos notar que Osborne
não notou que tal ‘economia metafísica’ também se aplica à água em Tales.
REFERÊNCIAS
CHALITA, Gabriel. Vivendo
Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.
DURANT,
Will. A História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do
Nascimento Silva. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 4ª ed., 2001, 406p
GAARDER, Jostein. O
mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha
Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.
OSBORNE, Catherine. O
nascimento da filosofia _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução
de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio
de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.
SPROUL, R. C. Filosofia
para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002,
208 p.
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