domingo, 25 de maio de 2014

Introdução à Lógica Aristotélica

O ‘SURGIMENTO’ DA LÓGICA

Uma das maiores contribuições de Aristóteles ao pensamento humano é a fundação da ciência denominada lógica. Este texto, pois, é uma exposição da lógica aristotélica. Há, evidentemente, referências à filosofia de Aristóteles, mas, mesmo que se rejeite esta é possível aproveitar muito bem as lições que o Estagirita nos logrou.
Dissemos, propositadamente, ‘fundação da ciência’ e não ‘criação da’, como é mais comum do que pensávamos ao ver, pela primeira vez, a alguns bons anos atrás, essa afirmação de Sproul: “Aristóteles não inventou a lógica, assim como Colombo não ‘inventou’ a América. O que Aristóteles fez foi definir a lógica e descrever seus fundamentos. [... para ele, a lógica era o Órganon ou instrumento de toda a ciência” (SPROUL, p. 43). Evidentemente trata-se de uma ciência muitíssimo complexa, e o enfado que ela traz faz com que muitos dela se desapeguem. Durant diz que “Nada é tão enfadonho quanto a lógica, e nada tão importante" (DURANT, p. 63). Temos que concordar que estudar lógica é inevitável em qualquer disciplina, e R. C. Sproul nos ajuda a reforçar a lição: “Como instrumento, a lógica é a ferramenta suprema, indispensável a todas as outras ciências [...]. A razão disso é que a lógica é essencial ao discurso inteligível. [...] O que é ilógico representa o caos, não o cosmos. E o caos absoluto não pode ser conhecido de maneira ordenada, o que torna o conhecimento ou scientia uma impossibilidade manifesta” (SPROUL, p. 43).
Por isso, aproveitando nossa proposta de expor o pensamento de Aristóteles, propomo-nos a versar, dissertar, um pouco, ao menos os alicerces da lógica.

LÓGICA COMO CIÊNCIA? DO QUE SE TRATA ESSA DISCIPLINA?

Primeiramente temos que definir, afinal de contas, o que queremos dizer por ‘lógica’. Durant é breve: "Lógica significa, simplesmente, a arte e o método do pensamento correto” (DURANT, p. 63). Sproul é um pouco mais demorado, e com sua concisão peculiar, já irá antecipar alguns assuntos e termos que trabalharemos melhor no decorrer de nossa dissertação: “A lógica mede ou analisa as relações entre as declarações ou proposições. Ela pode mostrar se a conclusão de um silogismo é válida ou não; ela não determina a veracidade de uma conclusão ou argumento. [...] As declarações podem ser verdadeiras ou falas, mas a relação lógica de uma declaração com outra é válida ou inválida” (SPROUL, p. 43). A definição de Gabriel Chalita é ainda mais precisa: “...ela analisa o modo como o pensamento é estruturado, indicando por isso a maneira correta de pensar. Desde que um determinado raciocínio seja conduzido adequadamente – isto é, segundo os preceitos da lógica –, garante-se que a conclusão a que ele chega será verdadeira. Segundo o filósofo, a lógica estuda o raciocínio por meio da análise das proposições, quer dizer, das afirmações que são proferidas, escritas ou simplesmente pensadas pelo indivíduo que estuda uma determinada ciência ou procura a verdade sobre algum fenômeno” (CHALITA, p. 66-67). Em suma, retenhamos, por hora, a ideia de que a lógica seria aquela ciência que estuda as relações entre as frases e averigua se há uma relação correta entre as frases e conclusões num argumento.
Em seguida queremos devotar algumas palavras a uma disputa. Usamos o termo ‘ciência’ também de forma intencional para alavancar uma importante discussão para a história da filosofia, a saber, se a lógica pode ser enquadrada como uma ciência. Favoravelmente à esta classificação temos Will Durant, que não só a chama de ciência como de arte: “É uma ciência porque, numa proporção muitíssimo elevada, os processos de pensamento correto podem ser reduzidos a regras [...] e ensinados a qualquer inteligência normal; é uma arte, porque ela prática dá ao pensamento, afinal, aquela precisão inconsciente e imediata que guia os dedos do pianista sobre o seu instrumento para extrair harmonias sem esforço” (DURANT, p. 63). Sendo uma ciência, que tipo de ciência é essa? Sproul nos ajuda: “A lógica em si não tem conteúdo material e, nesse sentido, pode ser vista como ciência formal, como a matemática, que sob alguns aspectos, é uma forma de lógica simbólica” (SPROUL, p. 43). As ciências naturais têm conteúdos ‘materiais’, se assim podemos dizer, que são os objetos de seus estudos. Já a lógica, não. Por isso Chalita complementa a discussão trazendo uma possível antítese: “O estagirita afirmava que a lógica não entra em nenhuma das classificações nas quais ele dividiu as ciências (técnicas, teoréticas e práticas); ela seria um pré-requisito para o estudo de todas as ciências” (CHALITA, p. 66).
Entretanto ela ainda pode ser definida como ciência porque, segundo Sproul, lida com formas, ideias, e tanto Durant quanto o próprio Chalita observam que ela considera sobre regras e conceitos que podem ser registrados, compreendidos e ensinados. Portanto, num sentido mais amplo, a lógica pode, perfeitamente, ser considerada como uma ciência. Portanto, se queremos avaliar um argumento precisamos saber como o fazer. A partir dos ensinos de Aristóteles a filosofia nunca mais seria a mesma e a fundação desta ciência é, sem dúvida, um dos responsáveis: "a inteligência grega era indisciplinada e caótica até que as fórmulas implacáveis de Aristóteles proporcionaram um método rápido para o teste e a correção do pensamento” (DURANT, p. 63).
Resumamos essa seção com Gaarder que sintetiza bem o que discutimos até aqui: “Aristóteles foi um organizador, um homem extremamente meticuloso, que queria pôr ordem nos conceitos dos homens. De fato, ele também fundou a ciência da lógica, e estabeleceu uma série de normas rígidas para que conclusões ou provas pudessem ser consideradas logicamente válidas” (GAARDER, p. 128).
Mas aqui fica o alerta de Durant: “O próprio Aristóteles, como iremos ver, violava profusamente seus próprios cânones; mas acontece que ele era o produto de eu passado, não do futuro que seu pensamento iria construir” (DURANT, p. 63). Se o próprio sistematizador cometeu erros lógicos, o que se dirá de nós. Faz-se necessário que estejamos sempre a investigarmo-nos, bem como a dialogar e disputar com outras pessoas, versadas em lógica, de preferência, para que não incorramos em ilogismo. Aprendamos, pois, todos a ciência da lógica!

SILOGISMO E ARGUMENTO

Dissemos que a lógica analisa os argumentos. Mas, ora raios, temos que ter bem definido o que é um argumento, embora, em alguma medida, todos saibam o que é. Chalita é quem nos responde. “Quando se aplica o pensamento para chegar a um novo conhecimento ou compreensão, as proposições são encadeadas de modo que delas seja possível extrair uma nova, denominada conclusão, que contém uma ideia que antes não estava expressa claramente, ou era mesmo desconhecida. Esse encadeamento de proposições recebe o nome de argumento” (CHALITA, p. 67). Aqui precisamos destacar que Chalita abrange tanto o argumento dedutivo (‘contém uma ideia que antes não estava expressa claramente’) quanto o argumento indutivo (‘contém uma ideia que era desconhecida’). Protelemos, por enquanto, esse assunto. Contentemos, por hora, com a familiarização das expressões e termos. Já sabemos o que é a lógica e o que é um argumento. Ouvimos falar de argumentos dedutivos e indutivos.
Ouvimos falar de outro termo. Sproul menciona, alhures, o que só agora podemos explorar um melhor, a saber, o silogismo. Novamente temos Chalita: “O silogismo é para Aristóteles a forma mais adequada de estrutura lógica de pensamento: é o encadeamento e duas premissas (uma geral e outra particular) que levam a uma conclusão particular. As qualificações geral e particular referem-se à ‘amplitude’ da proposição. Ela é geral quando diz algo sobre todos os representantes individuais de um determinado conjunto. [...] A proposição particular é aquela que afirma alguma coisa sobre apenas um ou alguns seres ou objetos” (CHALITA, p. 67). Só há um erro nessa definição. Não é necessário resumir o argumento a duas premissas. Há argumentos mais complexos com um encadeamento bem mais longo de premissas para que se chegue a uma conclusão.
Em suma, temos algumas afirmações e uma conclusão. A lógica irá observar se a conclusão realmente pertence a essas afirmações precedentes que supostamente levam à proposição final.

OS CÂNONES DA LÓGICA

Aristóteles elaborou um profundo tratado de lógica. Para analisarmos proposições, frases, que montam argumentos, é preciso compreender alguns conceitos primeiro. A análise lógica envolve algumas regras bem estabelecidas. Já sabemos do se trata a lógica. Sabemos que ela serve para analisar argumentos e pensamentos. Sabemos que um argumento é composto por proposições. Iremos observar que podemos analisar proposições pelos cânones da lógica.

Aqui Aristóteles segue uma linha provavelmente aprendida na Academia, e, mais particularmente, oriunda de Sócrates, que é a demanda por definições. Nesse sentido, a lógica já havia nascido a alguns anos atrás, como aponta Durant: "Havia vestígios dessa nova ciência na enfurecedora insistência de Sócrates com relação a definições, e no constante refinamento de cada conceito por parte de Platão. O pequeno tratado de Aristóteles sobre Definições mostra como a sua lógica se alimentava naquela fonte. 'Se quiser conversar comigo', dizia Voltaire, 'defina seus termos'.[...] O alfa e o ômega da lógica, seu coração e sua alma, estão em que termo importante num discurso sério deve ser submetido, com o maior rigor, ao escrutínio e à definição. É difícil, e representa um teste impiedoso para a mente" (DURANT, p. 63).
Esse assunto é estritamente ligado à da análise dos argumentos e precisa ser abordado por nós aqui, caso queiramos pretender que esse texto sirva como uma introdução básica à lógica. A discussão leva ao conceito de substância, que será observado posteriormente, na exposição da metafísica de Aristóteles. É indispensável que saibamos o básico da predicação para conseguirmos analisar uma proposição. Durant e Sproul nos explicam como Aristóteles propõe a definição. Primeiro, com Durant, temos os seguintes dizeres: "De que modo iremos definir um objeto ou um termo? Aristóteles responde que toda boa definição tem duas partes, afirma-se sobre dois sólidos pés: primeiro encaixa o objeto em questão numa classe ou grupo cujas características gerais são também as dele [...]; segundo, indica os pontos em que o objeto difere de todos os outros membros de sua classe" (DURANT, p. 63-64). Sproul é ainda mais completo, e nota que a discussão está presente no primeiro livro da editoração atual do Órganon, denominado Categorias: “Ao definir como pensamos sobre as coisas, Aristóteles desenvolveu o conceito das categorias. Esse conceito é vital à compreensão da linguagem e do conhecimento. O conhecimento implica certa percepção dos objetos da realidade. Atribuímos nomes a esses objetos ou usamos as palavras para descrevê-los. Ideias envolvem palavras. [...] Esse processo de classificação leva em consideração duas coisas: semelhanças e diferenças. [...] O conhecimento depende da linguagem para ser inteligível. Todas as palavras que detêm sentido apresentam as propriedades de semelhança e diferença. Uma palavra que significa tudo na verdade não diz nada. Para ter sentido, uma palavra precisa ao mesmo tempo afirmar algo e negar algo. Ela tem de fazer referência ao que é e não fazer referência ao que não é. [...] Quanto mais complexo e discriminado for o conhecimento, mais exata tem de ser a ciência” (SPROUL, p. 45-46).
Nas Categorias Aristóteles observa conceitos para facilitar nossa compreensão da realidade por meio da linguagem, que é crucial no processo de cognição. Ao conhecermos, percebemos objetos. Atribuímos-lhes nomes e usamos palavras para descrevê-los. Para discernirmos algo, valemo-nos da definição que, por sua vez, envolve o assemelhar e o diferenciar. Portanto, para que algo faça sentido, é preciso que a definamos afirmando algo e negando algo, ou, em outros termos, dizendo que ela é ‘B’ e não ‘não-B’. Para dar um exemplo, iremos antecipar um pouco a filosofia de Aristóteles. Ao dizer o que é um homem, primeiro, Aristóteles vai dizer que ele é um ‘animal’ (A é B). Sendo assim, tudo que for ‘não-B’, ou seja, tudo que for ‘não-animal’, como seres inanimados, plantas, energias e seres puramente espirituais, são distinguidos dos homens. Ao dizer que o homem é um animal, Aristóteles está destacando semelhanças: o homem, tal como o animal, se locomove, se reproduz, cresce e morre. Mas o homem não é um mero animal. Ele é racional. A racionalidade, pois, é um fator de diferenciação dentro do grupo maior.
Podemos nos aprofundar um pouquinho mais no estudo das Categorias a título de angariarmos competência na tarefa da definição. As categorias são ideias que podem ser atribuídas a um sujeito, que é um ser, uma substância. São todos os predicados possíveis de serem atribuídos aos sujeito: “Essas nove categorias, de acordo com Aristóteles, referem-se a todos os predicados possível de uma coisa [...]. Para Aristóteles a décima (ou primeira) categoria é a substância em si. [...] Toda realidade tem de ter uma substância, ou não seria nada. Sua substância é a essência de sua realidade. [...] Quem argumenta contra a lei da não-contradição também tem de negar a realidade substantiva” (SPROUL, p. 46-47). Ronald Nash, com outras palavras, coloca o conteúdo de uma forma que pode ser luminosa: “Normalmente referimo-nos às coisas por meio de predicados. Em qualquer das proposições categóricas da forma S e P, temos um objeto S e um predicado P ligados por um verbo. [...] eles poderão ser agrupados em dez categorias básicas de predicados. [...] Uma categoria é uma maneira fundamental de pensar sobre qualquer coisa que tenha ser ou que exista” (NASH, p. 109-110). Suas palavras são muito bem colocadas. Quando pensamos em algo pensamos, sempre, em termos de uma das Categorias que ele elenca.
Por conseguinte, temos dez categorias, dez classes de predicados possíveis para elaborarmos qualquer definição. “Essas categorias são [além da categoria ‘substância’] quantidade, qualidade, relação, lugar, data, posição, posse, ação e passividade” (SPROUL, p. 46). Berti completa: “Estes dez gêneros supremos são chamados de ‘categorias’, quer dizer, tipos de predicados” (PRADEAU, p. 46).
Percebam que “a categoria principal de uma coisa é sua substância, a essência de sua natureza” (SPROUL, p. 47). Ou seja, a categoria ‘substância’ é a predicação que define a essência do próprio ser. Toda substância, i. é., todo ser, para ser definido, apresenta predicados contendo suas propriedades. Sendo assim, Nash é particularmente elucidativo: “Substância possui dois tipos de propriedade: essencial e acidental. Uma propriedade acidental é uma característica não-essencial, como tamanho ou cor. Uma propriedade não-essencial de alguma coisa é a característica que pode ser perdida ou mudada sem alterar a essência ou natureza da coisa em questão. Tudo tem também propriedades essenciais; uma propriedade essencial é aquela que, se perdida, significa que a coisa deixou de existir como determinado tipo de coisa” (NASH, p. 107). Assim, a categoria ‘substância’ representa a categoria das propriedades essenciais. Todas as demais são ‘acidentes’*1.
Berti é ricamente informativo aqui. Ele nos traz o seguinte: “Entre as substâncias, Aristóteles distingue em seguida as ‘substâncias primeiras’, que são objetos individuais, por exemplo, um homem dado, das ‘substâncias segundas’, que são as espécies universais de que fazem parte estas espécies, como por exemplo, o animal. As espécies e os gêneros são os ‘predicados’ dos indivíduos, no sentido de que eles indicam suas características gerais. As substâncias primeiras são a condição da existência de todas as coisas, quer se trate de substâncias segundas ou de acidentes” (PRADEAU, p. 46). Portanto, o ser, especificamente, é chamado, por Aristóteles, de ‘substância primeira’. Já a abstração essencial, aquele grupo de seres a qual está expresso na categoria ‘substância’ é chamado de ‘substância segunda’. Isso é importante para que não confundamos as coisas quando estivermos falando de substância enquanto ser e substância enquanto categoria. Quando a coisa ficar confusa, basta fazermos esta distinção.
Berti nos concede outra importante informação: “Na categoria dos acidentes há também os indivíduos (por exemplo, um determinado branco) e os universais (por exemplo, o branco em geral ou a cor)” (PRADEAU, p. 46). Em outras palavras, há ‘brancos e brancos’. Há o universal da categoria e os sues respectivos particulares.
Aproveitando que estamos falando da exposição que Berti faz de Aristóteles, ele começa falando das Categorias em termos que já compreendemos: “Como sua primeira obra, o tratado das Categorias distingue as realidades que existem em si mesmas, por exemplo, o homem daquelas que existem em outras realidades, como o branco; ele chama as primeiras de ‘substâncias’ e as segundas de ‘acidentes’” (PRADEAU, p. 46). Mas notem o que ele diz: há realidades que existem em si mesmas e outras que existem em outras realidades, como parasitas. Os predicados são essas realidades que existem em outros seres. Aqui, claro, ele está se distinguindo de Platão, pois, para este, os predicados existem à parte, no mundo das ideias, enquanto que, para aquele, só existem nas próprias coisas. Nash é particularmente elucidativo nesse ponto: “Existe uma importante diferença entre a primeira categoria, substância, e as outras. A razão para isso é que as outras nove categorias são sempre dependentes de uma substância existente. [...] As últimas nove categorias têm de ter uma substância anterior para qualificar ou modificar. A menos que a substância exista primeiro, as demais categorias não existiriam nessa instância em particular” (NASH, p. 110-111). É basicamente o que dissemos, e é uma ampliação do que disse Berti.
Nash é, ainda, sagaz o suficiente para observar uma série de diferenças entre a substância e as propriedades: “A distinção entre substâncias e suas propriedades desempenha um papel central na filosofia de Aristóteles. [... substância é uma coisa em particular [...] dizer que uma propriedade é universal significa [...] que pode pertencer a mais de uma coisa ao mesmo tempo. [...] uma propriedade é imutável. As cores vermelha e verde jamais podem mudar. Mas as substâncias às quais as cores, algumas vezes, pertencem, podem mudar. [...] propriedades jamais podem existir por elas mesmas, mas somente como propriedades de uma substância particular [...] já estas existem por elas mesmas, substâncias não são tidas jamais por outras coisas ou existem em outras coisas. [...] substâncias têm poderes causais. Substâncias podem agir como causas eficientes [...] Mas propriedades não podem atuar dessa maneira” (NASH, p. 113).
Com esses conceitos bem esclarecidos em mente (e com a nota 1 também certificada) podemos compreender perfeitamente esta colocação de Sproul: “Aristóteles aceitava a distinção entre a substância de uma entidade e seus acidentes, mas jamais a separação deles [...]. Ele afirmava que os acidentes de uma coisa são gerados por sua substância ou fluem dela [...] a substância de uma coisa gera seus acidentes” SPROUL, p. 48). Podemos falar de substância primeira e das categorias. Mas não podemos falar de uma substância primeira sem qualquer categoria, incluindo a substância segunda, ou seja, a categoria ‘substância’, ou, ainda, se preferirem, as propriedades essenciais de algo.


Temos ainda outra grande contribuição de Aristóteles na análise do pensamento. Sproul encabeçará a discussão: “Aristóteles escreveu sobre as leis fundamentais da lógica, entre as quais está a lei da ‘não-contradição’. O princípio supremo da lógica é a lei da não-contradição: alguma coisa não pode ser o que é e não ser o que é ao mesmo tempo e no mesmo sentido ou relação” (SPROUL, p. 43-44). Achamos Berti exímio ao buscar enunciar esses princípios lógicos: “A afirmação e a negação do mesmo predicado a propósito do mesmo sujeito constituem uma contradição: ambas ao mesmo tempo não podem ser verdadeiras (princípio de não contradição), mas é necessário que uma das duas seja verdadeira e a outra falsa (princípio do terceiro excluído)” (PRADEAU, p. 46). Ou seja, sintaticamente, um sujeito não pode ter um predicado A e não-A ao mesmo tempo e no mesmo sentido. Ou seja, na análise de proposições concatenadas, se identificarmos uma contradição, já podemos descartar o argumento, reconhecendo-o como falso.
Um exemplo para ilustrar a questão. Não podemos dizer que somos ‘pai’ e ‘filho’ de alguém no mesmo sentido e ao mesmo tempo. Coloquemos as frases em paralelo:
Fulano é pai de Ciclano.
Fulano é filho de Ciclano.
Se Fulano é pai de Ciclano, ele não pode ser filho, a não ser que a filiação em questão seja metafórica em alguma das frases. Por exemplo, poderíamos dizer que Fulano é filho espiritual de Ciclano, no sentido de Ciclano, o filho biológico de Fulano, ter-lhe pregado o Evangelho e ele ter se convertido.
Um exemplo conforme a análise sintática de Berti:
Jesus é Deus (B).
Jesus não é Deus (não-B).
Há duas predicações contrárias atribuídas ao mesmo sujeito. Isso não pode ser possível. Se ‘X’ é ‘B’, tudo que não é B está excluído do ser de X. Se Jesus é Deus, tudo que implica em ‘não ser Deus’ está incluído em ‘não-B’.
Aqui pedimos licença para citar, apud Nash, um dos maiores filósofos do século XX, Gordon Clark: “Se declarações contraditórias são verdadeiras em relação ao mesmo objeto e ao mesmo tempo, evidentemente todas as coisas serão a mesma coisa. Sócrates será um navio, uma casa, tanto quanto um homem. Mas, se precisamente os mesmos atributos atribuídos a Crito são os mesmos atributos a Sócrates, segue-se que Sócrates é Crito. Não somente isso, mas o navio no porto, uma vez que ele tem a mesma lista de atributos, também será identificado com a pessoa Sócrates-Crito. De fato, todas as coisas serão a mesma coisa. Todas as diferenças entre as coisas se desvanecerão e tudo será um” (CLARK apud NASH, p. 211).
Em suma, subverter a lei da não contradição é cair na mais plena loucura. Se A pode ser B e não-B ao mesmo tempo, A tem tanto os seus atributos, as características que o distinguem e definem, sua essência, como tem o que não o distingue, exatamente o que não lhe é predicado, o que pode ser qualquer outra coisa. Se ele é ‘imortal’ (B) e, ao mesmo tempo e no mesmo sentido imortal (não-B), então ‘B’ não quer dizer nada! A lei do terceiro excluído é justamente dizer que não se pode, aí, haver um intermediário entre imortal (B) e mortal (não-B). Ou é um ou é outro.
Notem que notamos contradições na relação de proposições, ou mesmo em um mesmo período. Portanto, a peneira da contradição envolve proposições isoladas ou argumentos completos que têm premissas contraditórias.

AVALIAÇÃO DOS ARGUMENTOS

Aproveitando que já tocamos no assunto sobre a avaliação de argumentos, o Estagirita nos outorga lições bem pontuais. Para saber se um argumento é correto Aristóteles nos ensina, no Órganon, dois modos de avaliação para negar uma conclusão: acusa-la de sofisma ou de falácia.

SOFISMA

O quinto livro (conforme a atual edição) do Órganon, denominado ‘Tópicos’ é destinado à análise de silogismos endoxais, como nos informa Berti: “Nos Tópicos, Aristóteles ilustra um outro tipo de silogismo que ele chama de silogismo dialético; suas premissas são ‘endoxais’ (endoxa), quer dizer, admitidas por todos, ou pela maioria, ou pelos especialistas, ou pela maior parte deles. Estas premissas não são verdadeiras em todos os casos, mas na maioria deles” (PRADEAU, p. 47). Tomemos as palavras iniciais do próprio Aristóteles: “O propósito deste tratado é descobrir um método que nos capacite a raciocinar, a partir de opiniões de aceitação geral, acerca de qualquer problema que se apresente diante de nós e nos habilite, na sustentação de um argumento a nos esquivar da enunciação de qualquer coisa que o contrarie” (ARISTÓTELES, p. 347).
Acontece que os sofistas, como já vimos, eram ótimos enganadores. Ao que parece, segundo Berti, eles valiam-se de premissas com aparência de verdade, pretensos endoxais, para ludibriar a mente dos ouvintes e enganar. É por isso que Aristóteles lança seu último tratado: “Enfim, nas Refutações sofísticas, Aristóteles ensina a desmascarar as refutações aparentemente justas (visando em particular aquelas que não se apoiam nos silogismos dialéticos, mas nos silogismos erísticos ou sofísticos, quer dizer, que parecem derivar de premissas endoxais ou que têm a aparência de silogismo), quando na realidade admitem apenas um artifício” (PRADEAU, p. 48). Parece-nos que o termo ‘sofisma’ vem justamente daqui.
O sofisma é quando o argumento se vale de premissas falsas. Ele pode até ter validade lógica, mas suas premissas são falsas. Adler, embora estivesse preocupado com a avaliação das ideias em um livro, nos ensina, como excelente aristotélico que era, como desmascarar sofismas. Há basicamente duas formas: a primeira é identificando desinformação: “Dizer que [...] está desinformado é o mesmo que dizer que nele estão ausentes conhecimentos relevantes sobre o problema que tenta resolver. Observe que essa crítica só faz sentido se for relevante o conhecimento que falta [...] Para que a crítica faça sentido, você deve ser capaz de declarar precisamente o conhecimento que falta [...], mostrando a sua relevância para as conclusões do problema e do raciocínio” (ADLER, p. 167).
Notem o seguinte silogismo:
1) Todo teísta cristão é burro.
2) Tudo que um burro crê é motivo de suspeita.
3) Logo a crença teísta cristã é uma crença suspeita.
Há várias maneiras de criticar esse argumento. Agora, particularmente, queremos apenas observar o sofisma da primeira premissa. Talvez alguém que enuncie tal argumento (e há muitos neo-ateus que assim pensam!) argumentem pelo fato de que só conhecem seus parentes, simples, o pastor irresponsável que não passa de um charlatão ou, quando bem intencionado, é um negligente para com seus estudos. Portanto, como todo crente que tal pessoa conhece é burro, e pessoas burras creem em tolices, o inocente julga que a crença teísta, das pessoas simples, incapaz de defenderem-na, é provavelmente um atraso para a humanidade, uma crença retrógrada, idiota...
Mas essa nada nobre criatura está, como é de praxe, muitíssimo desinformada. É óbvio que ela não conhece nada da história do pensamento ocidental, e muito menos do cenário atual*2. Uma pequena lista, feita às pressas, faria tal aberração intelectual vaporizar-se: Apóstolo Paulo, Orígenes, Ambrósio, Atanásio, Agostinho, Boécio, Erígena, Anselmo, Abelardo, Alberto Magno, Aquino, Escoto, Roger Bacon, Ockham, Savonarola, Lutero, Calvino, Johannes Kepler, Francis Bacon, Bucer, Ursino, Zuínglio, Melanchton, Descartes, Pascal, Turretini, Newton, Leibniz, Locke, Berkeley, Reid, Kierkegaard, Charles Hodge, A. Kuyper, W. James, Chesterton, C. S. Lewis, Dooyeweerd, F. Schaeffer, G. Clark, C. van Til, Greg Bahnsen, John Frame, R. J. Rushdoony, Douglas Wilson, V. Cheung, Ronald Nash, James W. Sire, Alvin Plantinga, W. Alston, N. Wolterstorff, Kelly James Clark,  Nancy Pearcey, R. C. Sproul, W. Lane Craig, J. P. Moreland, Francis Collins, John Polkinghorne, Alister McGrath, Stephen Meyer, Charles B. Thaxton, Mortimer Jerome Adler, Olavo de Carvalho, Davi Charles Gomes, Fabiano Almeida de Oliveira, Jonas Madureira, Guilherme de Carvalho, Franklin Ferreira... etc (!). Acreditamos já ter oferecido material suficiente para constranger o ‘sofista’ (pejorativamente falando) e denunciar a primeira premissa como um sofisma. Quem afirma-la está completamente desinformado. 


A segunda forma é identificando mal informação: “Dizer que [...] está mal informado é o mesmo que dizer que ele afirma algo que não corresponde à realidade. A falha pode resultar de alguma falta de conhecimento, mas não se trata apenas disso. A despeito da causa, o erro consiste em afirmar coisa contrárias aos fatos [...]. esse tipo de falha só deve ser apontado quando a questão for relevante às conclusões[...]. a falha não deve apenas ser apontada, deve ser refutada mostrando a verdade (ou a maior probabilidade) de seu ponto de vista” (ADLER, p. 158). Aqui não se trata apenas de estar mal informado. No primeiro caso poderíamos pegar alguém que mal leu alguma coisa na vida, ou que apenas repete a opinião dos gurus ateus como verdades absolutas, incontestáveis. Aqui temos alguém ostentando alguma informação, entretanto se trata de uma informação ruim. O caso de se informar por fontes não confiáveis, talvez erigir a opinião pelos gurus neo-ateístas, como supramencionado, valha-lhe o título de mal informado. Engendremos um argumento deste tipo.
1) Alguém que cria um movimento que reforça ideias malignas é mal.
2) Calvino reforçou a ideia de que o rei era uma figura digna de devoção absoluta.
3) Devoção absoluta ao rei é algo prejudicial.
4) Logo, Calvino era mal.
Bom, novamente, como no outro caso, o argumento está recheado de pontos para contestação. Iremos nos ater à segunda premissa. Suponhamos que, cientes do que Calvino ensinou, questionemos o argumentador a provar sua segunda premissa. Então ele cita Luisa Simonutti dizendo: “No século XVI, por volta de 1530, no momento em que a Reforma calvinista começa a afirmar sua presença no território francês, este movimento deve se enraizar num reino onde os habitantes estão convencidos de ser um povo cristão, gozando de uma proteção divina particular e cujo soberano é qualificado como Rei ’Muito Cristão’. O rei da França tem de fato o direito de tirar proveito desse título [...] [pois houve] rituais de sacralização que asseguram a ele não somente uma devoção absoluta, mas também poderes taumatúrgicos” (PRADEAU, p. 218). O que podemos fazer? Bom, depois de rir primeiro e, logo após lamentar a gafe num texto que pode ser influente, demonstrar que nessa época é provável que Calvino nem mesmo tenha se convertido. A própria Simonutti sabe a data do nascimento de Calvino: 1509 (PRADEAU, p. 212). Portanto, nosso pobre adversário está não só desinformado por não ter as informações corretas sobre Calvino e a Reforma, como mal informado por ter seguido Simonutti*3. Ele não sabe, por exemplo, que Carlos Magno, no século VIII, fora imbuído de poderes pelo papado e que, portanto, o prestígio devotado ao rei que os franceses tinham era de origem católica e não ‘protestante’. Falta-lhe, pois, não apenas conhecimento filosófico ou científico, mas mesmo de história geral!
Mal informado ou desinformado, o sofisma deve ser identificado e o argumento descartado. Pode-se ser bonzinho, caso disponha-se de tempo e queira treinar a lógica, prosseguir no argumento. “É interessante, mas não tão importante, descobrir sua falta de coerência ao raciocinar com base em premissas falsas ou a partir de evidências inadequadas” (ADLER, p. 170). O intuito, talvez, seria destruir completamente o argumento. Entretanto, identificando um sofisma, já podemos tê-lo como desacreditado, refutado.

FALÁCIA

Mortimer Jerome Adler, novamente, é nosso tutor aqui: “Dizer que [...] é ilógico é o mesmo que dizer que ele foi falacioso ao raciocinar. Em geral, há dois tipos de falácias. Há os non sequitur, ou seja, a conclusão não guarda relação necessária com as razões oferecidas. E há as inconsistências, isto é, quando o autor afirma duas coisas que são incompatíveis entre si. [...] Só devemos nos ocupar dessas falhas à medida que elas afetem as conclusões principais” (ADLER, p. 169). Em suma, a falácia ocorre quando a conclusão não procede das premissas. Há uma infinidade de falácias catalogadas. Arthur Schopenhauer destaca e denomina uma porção imensa em um livro chamado ‘Como Vencer Um Debate Sem Precisar Ter Razão’ que foi escrito e deve ser lido com o intuito, claro, justamente de não ser vencido, e não de vencer como um sofista.
Podemos brincar com um exemplo que já experimentamos em nossos duelos. Debatíamos com um neo-ateu e identificamos o seguinte raciocínio: “Usava-se a técnica do ‘Deus das lacunas’ para defender o teísmo.
Descobriu-se ser essa uma falácia.
Logo, o teísmo não é algo sério (ou algo verdadeiro).
Non sequitur! O fato de uma falácia ter sido usada para defender algo não prova que tal é falso. Outro esquema silogístico será útil para entendermos o erro:
X usou o argumento y para defender z.
Y é um argumento inválido.
Logo Z é falso” (OLIVEIRA).
Dentre os vários problemas do argumento, identificados no próprio debate, que a conclusão não se segue às premissas. Podemos muito bem usar um argumento falso no labor de defender algo que é verdade. A falsidade de nossa argumentação não prova a falsidade do que queremos provar.
Acreditamos que já seja o suficiente para ilustrar o caso. Queríamos mais tempo para demonstrar outras falácias, mas o espaço não é apropriado. Quem quiser mais exemplos, leia o debate.

FORMAS DE ARGUMENTO

Até aqui vimos que a lógica é uma ciência que analisa os argumentos, e vimos, em suma, o que é um argumento. Também sabemos que, para negar uma conclusão temos que acusar o argumento de sofismado ou falacioso. Vejamos, agora, os dois tipos de argumentos que existem: argumentos dedutivos e argumentos indutivos.

ARGUMENTO DEDUTIVO

William Lane Craig, exímio debatedor, nos expõe do que se trata o argumento dedutivo de forma muito breve: “Num argumento dedutivo correto, a conclusão decorre inevitavelmente das premissas. Os dois pré-requisitos de um argumento dedutivo correto são que as premissas sejam verdadeiras e que a lógica seja válida. [...] um argumento pode ser logicamente válido, mas mesmo assim defeituoso, se apresentar premissas falsas” (CRAIG, p. 37). O importante a ser destacado é que a conclusão deriva-se por necessidade, obrigatoriamente, da premissas. Averiguado que não há sofismas, e que a processão é lógica, há de se admitir a conclusão.
Quando Durant vai explicar o silogismo, na verdade, acaba expondo o argumento dedutivo em forma silógica: “Há um forte traço disso na mais característica e original das contribuições de Aristóteles para a filosofia – a doutrina do silogismo. Um silogismo é um trio de proposições das quais a terceira (a conclusão) segue-se da verdade admitida das outras duas (as premissas ‘maior’ e ‘menor’). [...] O leitor que goste de matemática perceberá, de imediato, que a estrutura do silogismo assemelha-se à proposição de que duas coisas iguais à mesma coisa são iguais entre si. Se A é B, e C é A, então C é B.” (DURANT, p. 65). Claro, como já observamos, não se restringe a três passos, ou duas premissas e uma conclusão. Mas para ficar mais fácil, tomemos essa estrutura.
A é B.
C é A.
Logo, C é B.
O exemplo clássico da filosofia é o sobre a mortalidade de Sócrates. Querendo provar que Sócrates é mortal podemos argumentar, dedutivamente, da seguinte forma:
Todo homem (A) é mortal (B).
Sócrates (C) é homem (A).
Logo, Sócrates (C) é mortal (B).
Berti faz uma interessante observação quando comenta o assunto: “Nas Primeiras analíticas, Aristóteles expõe a famosa descoberta do ‘silogismo’ (dedução) [...] Vê-se que as duas premissas têm um termo em comum, qualificado de ‘meio’, que ocupa [...] a função de predicado na premissa maior e a função de sujeito na premissa menor. Os dois outros termos, qualificados de ‘extremos’, constituem a conclusão” (PRADEAU, p. 47). Primeiro, tal como Durant, ele relaciona o silogismo praticamente de forma exclusiva à dedução. Mas o que queremos destacar é a análise sintática de Berti. Entretanto, conforme está anunciado, Berti troca as bolas. Na verdade o termo denominado ‘meio’ é sujeito na premissa maior e predicado na menor, ao passo que os ‘extremos’ fazem parte da conclusão.
Todo homem (meio) é mortal (extremo).
Sócrates (extremo) é homem (meio).
Logo, Sócrates (extremo) é mortal (extremo.
Temos pois:
(Meio) (extremo’).
(Extremo’’) (meio).
Logo (extremo’’) (extremo’).

Quando mencionamos, alhures, na exposição de Chalita, que dizia que ao elaborarmos um argumento lógico veremos que ele ‘contém uma ideia que antes não estava expressa claramente’, relacionamos a proposição ao argumento dedutivo. Gaarder é da mesma ideia: “A lógica de Aristóteles trata da relação entre conceitos [...]. Mesmo que tenhamos que concordar com Aristóteles em que a conclusão tirada é cem por cento correta, temos de admitir que ele não nos diz nada de novo. [...] Mas nem sempre a relação entre grupos ou coisas nos parece tão evidente. De vem em quando pode ser necessário pôr certa ordem em nossos conceitos. [...] A resposta já estava dentro de nós, só que precisávamos primeiro pensar um pouco” (GAARDER, p. 129). Isso, evidentemente, nos lembra muito a maiêutica socrática, e contrasta com a conclusão de Durant: “Parece, porém, que o silogismo não é tanto um mecanismo para a descoberta da verdade quanto para a clareza de exposição e de pensamento” (DURANT, p. 65)*4.

ARGUMENTO INDUTIVO

Dissertaremos agora sobre o complicado e polêmico argumento indutivo. Tomemos Berti para nos dizer do que se trata esse tipo de argumento: “Quando as premissas são particulares e a conclusão geral, não se trata mais de uma dedução, mas de uma indução (epagogé); no entanto, nesse caso, a conclusão não decorre necessariamente das premissas” (PRADEAU, p. 47). Não se trata exatamente de um non sequitur. Trata-se de um argumento que se pretende por provável. Craig consegue ser muito elucidativo em sua explanação: “Argumento indutivo é aquele em que é possível que as premissas sejam verdadeiras e as inferências lógicas sejam válidas, mas a conclusão mesmo assim é falsa. Nesse raciocínio, diz-se que as evidências e regras da inferência ‘minam’ a conclusão, ou seja, tornam a conclusão plausível ou provável, mas não garantem sua veracidade” (CRAIG, p. 37-38). Chalita nos conta que Aristóteles não deu muita atenção a esse tipo de raciocínio, e reforça seu conceito uma terceira vez: “Até aqui estudamos somente o raciocínio dedutivo, que constitui a principal forma de articulação lógica, segundo Aristóteles. De fato, a partir de premissas verdadeiras e de um silogismo válido, obtém-se sempre uma conclusão verdadeira. Entretanto, há uma outra forma de raciocínio, o indutivo, que também era reconhecido por Aristóteles mas que não recebeu a mesma atenção do filósofo. Uma dedução, representada pelo silogismo, sempre chega a uma conclusão ‘menos geral’ que a premissa inicial: ela é sempre uma afirmação sobre um ou alguns elementos pertencentes a uma classe maior [...]. Um raciocínio indutivo, ao contrário, sempre chega a conclusões ‘mais gerais’ que as proposições de onde partiu” (CHALITA, p. 69-70).
Lembremo-nos, pois, que na dedução começávamos com uma premissa geral, chamada de premissa menor, olhávamos para uma premissa particular, chamada de premissa menor, para chegarmos à uma demonstração. Aqui já saímos de premissas particulares para uma conclusão geral. Percebam:
Todo homem é mortal. [Uma afirmação geral, que diz respeito a todos os homens].
Sócrates é homem. [Sócrates é uma figura isolada, um exemplar dentre os homens].
Logo, Sócrates é mortal [Uma outra afirmação particular é deduzida].
Agora, num argumento indutivo teríamos um raciocínio diferente. Gostamos do exemplo que Luiz Sayão dá em seu livretinho:
“... o cobre, o ferro, o bronze são metais [um particular];
o cobre, o ferro, o bronze são bons condutores de calor [outro particular];
conclui-se que os metais são bons condutores de calor [uma generalização]” (SAYÃO, p. 13).
O grande problema é justamente a falta de segurança peremptória, conforme ressalta Chalita: “Embora a indução permita atingir proposições mais gerais, ela não garante que a conclusão seja verdadeira, mesmo que todas as proposições iniciais sejam verdadeiras” (CHALITA, p. 70).

Antes de expormos um filósofo que é completamente cético ao argumento indutivo, exploremo-lo um pouco mais com o mestre Craig: “Apesar de o raciocínio indutivo ser parte normal da vida diária, a descrição desse raciocínio é motivo de controvérsia entre os filósofos. Alguns propõe que utilizemos o modelo hipotético-dedutivo de raciocínio indutivo: formulamos uma hipótese que explique os fatos, e depois deduzimos da hipótese predições que, se verdadeiras, provariam que a hipótese é falsa; depois testamos essas predições e, se elas não se cumprem, nossa hipótese fica comprovada. Outros filósofos defendem o que chamam de inferência da melhor explicação: diante de certas evidências, inferimos qual explicação, se fosse verdadeira, forneceria a melhor explicação para aquelas evidências. Discute-se muito quais qualidades fariam uma explicação ser a melhor (simplicidade, poder de explanação, etc., mas no mínimo essa explicação precisa levar em conta todos os fatos da experiência e ter coerência lógica” (CRAIG, p. 38).
Tanto as ciências naturais quanto a história são ciências completamente dependentes do método indutivo. Por isso, é caro ao aristotélico evadir-se dela, e barato para o platônico rejeitar toda e qualquer indução.
Bom, vamos parafrasear pra tentar elucidar os pontos. Pensemos numa pesquisa histórica. Temos um campo de pesquisa. Encontramos vestígios de ossadas aos montes, de adultos e crianças, espalhados por um território europeu, digamos que italiano. Encontramos uma coluna encravada com determinado dialeto e mais nada. Bom, usando o método hipotético-dedutivo, temos de formular uma hipótese primeiro. Pelas inscrições na coluna, presumimos que se trata de um povo de origem ligada à língua encontrada na coluna. Digamos, hebraico. Fazemos então predições. Logo são associados à diáspora decorrente da perseguição romana. Mas não havia vestígio de plantação ou de construção de casas. E como eles teriam morrido? O raciocínio teria sido: 1) Há rumores de povos judeus vivendo por essas terras naquela época. 2) Os judeus fugiam dos romanos. 3) Temos aqui uma inscrição hebraica relacionando o povo aos judeus. 4) Portanto, eram judeus fugidos. De repente, escavações posteriores notam que havia armaduras de soldados romanos no local. Amplia-se a hipótese presumindo que houve um conflito entre judeus e soldados romanos. Não se refutou a hipótese. Entretanto, não se encontrando casas ou vestígios de utilização do solo, fica difícil dizer com certeza que os judeus foram morar naquela região. Prediz-se que não se encontrará vestígio de moradia ou qualquer outro apetrecho que prove ter havido judeus ali. Pode ser um outro povo rebelde aos romanos que, por um acaso, se encontravam próximas a uma coluna com inscrições hebraicas. A predição estando correta falsificaria a hipótese, ou pelo menos a colocaria em descrédito. Mas suponhamos que se encontre alguns itens típicos do judaísmo, como uma menorah (um candelabro de sete braços), e, quiçá, um manuscrito do Antigo Testamento. Suponhamos que se encontre, também, bases para residências e moedas de inscrições romanas, confirmando a época e a moradia do povo judeu. A hipótese foi ‘confirmada’. Percebam que não é uma conclusão definitiva. É apenas provável.
Acreditamos que a segunda forma de indução seja excelente, ao menos na pesquisa histórica, para confirmar ou desacreditar as conclusões da primeira forma de indução. Formula-se outra hipótese. Qualquer uma. Por exemplo, aqueles eram soldados judeus que voltavam de uma caçada a judeus, tendo confiscado alguns bens e encontraram uma aldeia de rebeldes bárbaros, vindo a assalta-los, enquanto eram resistidos. Os objetos hebraicos ficaram ali. O problema dessa hipótese é que não explica a coluna com inscrições hebraicas. Pensar numa inscrição posterior carece de explicações (embora não seja impossível). Logo, presume-se, finalmente, que judeus fugidos realmente foram para lá morar*5.

Por fim, como prometido, e tomando como exemplo um filósofo de viés platônico, embora certamente ele não gostaria do rótulo, temos Vincent Cheung soltando os cachorros contra a indução. Ele nota que não se pode aferir essa probabilidade demandada na conclusão. Probabilidade é “a razão do número de resultados num conjunto exaustivo de resultados igualmente prováveis que produz um dado evento para o número total de possíveis resultados” (CHEUNG, p.41-42); e prossegue: “Mesmo se admitirmos que os métodos empíricos e indutivos podem descobrir o numerador da fração [...], determinar o denominador requer conhecimento de um universal, e a onisciência é frequentemente necessária para isso” (CHEUNG, p.42). Finalmente conclui: “Visto que probabilidade consiste de um numerador e um denominador, uma vez que o denominador é um universal e os métodos empíricos e indutivos não podem conhecer universais, é absurdo dizer que a indução pode alcançar um conhecimento ‘provável’” (CHEUNG, p.42). Em outras palavras, Cheung diria que existe uma quantidade de hipóteses contrárias ou dados faltantes para averiguação do provável que não podemos calcular. Podemos falar de uma probabilidade segundo o que temos em mãos. Mas jamais teremos certeza de que temos um número suficiente em mãos para legislar. Novos dados podem ser descobertos. Tudo pode ter acontecido. Na ciência, novas tecnologias podem abrir espaço para pensarmos em novas causas... etc*6.

Seja como for, a indução é um tipo de raciocínio muitíssimo comum e bem presente nas disputas e pesquisas. Não podemos ignorá-lo. Ainda que sejamos pragmáticas, instrumentalistas, em relação à ciência e até mesmo à história.

LÓGICA, VERDADE E REALIDADE

Já sabemos do se trata a lógica. Sabemos que ela serve para analisar argumentos e pensamentos. Sabemos que um argumento é composto por proposições, e que podemos analisar proposições pelos cânones da lógica. Sabemos que os argumentos, dispostos de forma silogística, podem ser dedutivos ou indutivos, e que, para serem recusados precisam ser acusados de sofisma ou falácia. Temos, praticamente, um conceito bem formado da ciência da lógica. Mas Aristóteles é ainda mais profundo. Ele tinha um compromisso praticamente religioso para com a verdade. Isso, mais uma vez, deve ter vindo de Sócrates através da Academia de Platão. Adler nos lega uma citação deveras preciosa: “É preferível e é mesmo nosso dever destruir o que mais de perto nos toca a fim de salvaguardar a verdade, especialmente por sermos filósofos ou amantes da sabedoria; porque, embora ambos nos sejam caros, a piedade exige que honremos a verdade acima de nossos amigos” (ARISTÓTELES apud ADLER, p. 157).
Sabemos que a lógica versa sobre o que pensamos. Mas não era apenas disso que se trata a lógica, segundo a concepção de Aristóteles, conforme nos informa Sproul: “Para Aristóteles, a lei da não-contradição não é meramente uma lei do pensamento, mas também uma lei do ser. Na verdade, é uma lei do pensamento exatamente porque é primeiro uma lei do ser. Alguém pode dizer que o número cinco é par e ímpar, mas o número cinco não pode ser par e ímpar” (SPROUL, p. 45).
Sobre a relação entre o ser e o pensamento Aristóteles antecipa Saussure na filosofia da linguagem, conforme nos informa Berti: “No tratado Sobre a enunciação (De interpretatione), Aristóteles afirma que as palavras que formam a linguagem, são signos convencionais dos conceitos, ou, mais geralmente, eles são os conteúdos do espírito, sendo estes, por sua vez, as imagens das coisas: entre a linguagem, o pensamento e a realidade há, portanto, uma relação de significação” (PRADEAU, p. 46). Nós conhecemos a parte do Órganon a que Berti se refere: “Os sons emitidos pela fala são símbolos das paixões da alma, [ao passo que os caracteres escritos [formando palavras] são os símbolos dos sons emitidos pela fala. Como a escrita, também a fala não é a mesma em toda parte [para todas as raças humanas]. Entretanto, as paixões da alma, elas mesmas, das quais esses sons falados e caracteres escritos (palavras) são originalmente signos, são as mesmas em toda parte [para toda a humanidade], como o são também os objetos dos quais essas paixões são representações ou imagens” (ARISTÓTELES, p. 81).
O pensamento formula conceitos sobre a realidade e os expressam por palavras. As palavras são signos dos conceitos. Os conceitos são o conteúdo do espírito. O que se passa no espírito são imagens das realidades. Assim, o que pensamos é o que existe, e o que falamos é o que pensamos. São símbolos para evocar os conceitos que, por sua vez, evocam a realidade*7.
Sproul, novamente e de forma notória, define a questão: “... ao formular as leis da lógica, Aristóteles não estava preocupado apenas em pensar sobre certas coisas mas também com a existência das coisas sobre as quais pensamos. Apesar de acabar rejeitando a filosofia de Platão, ele certamente refletia sobre a relação entre pensamento e realidade. [..] Sua preocupação com a verdade era também uma preocupação com a realidade, pois as duas estão relacionadas de modo inseparável. [..] Segundo Aristóteles, as leis da lógica se aplicam a todas as ciências, por serem válidas para toda a realidade. Isso não quer dizer que tudo o que é racional seja real. [...] Tudo o que é real, porém, é racional. O que é ilógico não pode existir na realidade” (SPROUL, p. 44). Portanto, a realidade e a lógica estão estritamente ligadas. Compreender adequadamente a realidade demanda compreender a lógica. Não é apenas um capricho intelectual. É questão de se localizar. Sejamos, pois, sempre bons estudantes de lógica, seja lá qual área nos devotemos a atuar.

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1 Aqui é preciso, particularmente, muita cautela na terminologia. Sproul usa o termo ‘acidente’ incluindo a categoria substância, o que pode gerar uma enorme confusão: “Segundo Aristóteles, uma entidade é composta de suas substâncias e seus predicados, ou o que ele chamava de acidentes” (SPROUL, p.).
*2 Recomendamos dois artigos muitíssimo interessantes nesse sentido. O primeiro é do grande filósofo William Lane Craig, e se chama: ‘Deus ainda não está morto’, e pode ser encontrado neste endereço: http://www.reasonablefaith.org/portuguese/deus-naeo-esta-morto-ainda
O segundo é do historiador, teólogo e cientista Alister McGrath, intitulado ‘Thank God for the New Atheism‘ e que pode ser encontrado no seguinte endereço: http://www.abc.net.au/religion/articles/2011/01/31/3125641.htm.
O vídeo de Vince Vitale também é apropriado de ser visto: https://www.youtube.com/watch?v=25nvoycJ0hw.
*3 Outro erro comum, de mesmo teor, é considerar o Calvinismo a luz de Max Weber e o que o alemão passou aos livros didáticos da posteridade. Para duas ótimas refutações, veja um artigo de Franklin Ferreira: http://www.mackenzie.br/fileadmin/Mantenedora/CPAJ/revista/VOLUME_V__2000__2/Franklin.pdf; e um de Antônio Máspoli de Araújo Gomes.: http://cpaj.mackenzie.br/fidesreformata/visualizar/102.
*4 O mesmo Durant, ao expor um possível problema com o argumento dedutivo acaba valendo-se do que parece uma indução e, principalmente, da inferência a partir da abstração da espécie, do tipo de coisa a que o que está em questão pertence: “Por exemplo, o homem é um animal racional; mas Sócrates é homem; portanto, Sócrates é um animal racional. [...]A dificuldade, como salientaram os lógicos da época de Pirro até a de Stuart Mill, está em que a principal premissa do silogismo aceita como ponto pacífico precisamente o detalhe a ser provado; porque se Sócrates não for racional (e ninguém questiona o fato de ele ser homem), não será universalmente verdadeiro que o homem é um animal racional. Aristóteles retrucaria, sem dúvida, que quando se verifica que um indivíduo possui um grande número de qualidades características de uma classe [...], cria-se uma forte presunção de que o indivíduo possui as outras qualidades características dessa classe” (DURANT, p. 65). Adiante esse pensamento poderá ser melhor compreendido.
*5 Esse método é usado na investigação criminal, como demonstram séries como Cold Case ou CSI. Craig, nesse mesmo livro, usa o método para provar, indutivamente, a ressurreição de Jesus Cristo.
*6 Charles Hodge ainda estaria legitimado em sua Teologia Sistemática, no primeiro capítulo, quando propõe o método indutivo para a teorização teológica. Segundo a teologia reformada, e o próprio Hodge, adiante, no mesmo capítulo, temos como determinar o denominador na inferência teológica ou, pelo menos, temos tudo o que Deus planejou que soubéssemos. Temos ali todos os dados possíveis, particulares, e deles inferirmos uma generalização, uma doutrina. É assim que deve-se prosseguir na dogmática.
*7 Noutro artigo sobre linguística exploraremos melhor a questão.

REFERÊNCIAS

ADLER, Mortimer J; VAN DOREN, Charles. Como Ler Livros. Tradução de Edward Horst Wolff e Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2010, 432p.

ARISTÓTELES. Organon. Tradução, textos adicionais e notas de Edson Bini. São Paulo: EDIPRO, 2ª ed., 2010, 608p.

BERTI, Enrico. Aristóteles _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.

CHALITA, Gabriel. Vivendo  Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.

DURANT, Will. A História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 4ª ed., 2001, 406p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.

HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo:Editora Hagnos, 2001. 1777p.

NASH, Ronald H. Questões Últimas da vida: uma introdução à filosofia. Tradução de Wadislau Martins Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 448 p.

OLIVEIRA, Lucio Antônio. Debate: Justificativa para o Ateísmo e para o Teísmo (Parte 8). Acessado no dia 08/05/2014 em: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2013/07/debate-justificativa-para-o-ateismo-e.html

SCHOPENAUER, Arthur. Como Vencer um debate sem precisar ter razão: em 38 estratagemas (dialética erística) Tradução de Olavo de Carvalho e Daniela Caldas; introdução, notas e comentários de Olavo de Carvalho. Rio de Janeiro: Topbooks, 1977, 258p.

SIMONUTTI, Luisa. As Reformas _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.


SPROUL, R. C. Filosofia para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208 p.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

A vida de Aristóteles


DADOS BIOGRÁFICOS BÁSICOS

[para conhecer o contexto em que viveu Aristóteles, clique aqui]

Aristóteles nasceu em Estagira. Reunindo as informações que colhemos sobre essa cidade temos o seguinte. Sproul diz que localiza-se na Trácia (SPROUL, p. 41). Edson Bini fala sobre Estagira ser uma colônia da Macedônia: “Estagira, cidade grega e então colônia da Macedônia, no litoral noroeste da península da Calcídica, cerca de trezentos quilômetros ao norte de Atenas” (ARISTÓTELES, p. 9). Durant diz trezentos e vinte quilômetros ao norte de Atenas (DURANT, p. 57).
Já sabemos que a Macedônia era uma nação grega, embora os gregos, mesmo, o negassem, chamando-os de bárbaros. O irônico é que da Macedônia viria Alexandre e Aristóteles, duas das maiores figuras da antiguidade. Bom, mas bem antes de a Macedônia entrar em contato com a Grécia propriamente dita, em 384 a. C., data praticamente unânime*1, nascia o Estagirita. Nash é perspicaz para observar que Aristóteles nasceu “quinze anos depois da morte de Sócrates e três anos depois da fundação da Academia de Platão” (NASH, p. 103).
Sproul notifica, de forma sumária, que “seu pai era o médico pessoal do rei da Macedônia” (SPROUL, p. 41). Podemos explorar um pouco mais a informação. Durant complementa dizendo que ele não era apenas um médico desse rei da Macedônia, como era também seu amigo, e identifica-lhe: Seu pai era amigo e médico de Amyntas, rei da Macedônia e avô de Alexandre” (DURANT, p . 57). Essa é uma informação muito preciosa, historiograficamente falando*2. Amyntas era o avô de Alexandre o grande. Os vínculos do Estagirita com Alexandre precedia o próprio encontro dessas duas nobres almas! Berti complementa a informação e nos diz que se trata de Amintas III, dando a data de seu reinado: “Seu pai, Nicômaco, era médico de Amintas III, rei da Macedônia (389-369 a. C.)” (PRADEAU, p. 44).
Notem que Berti também nos revela o nome do pai de Aristóteles. Nesse momento Beni nos ilumina com informações ricas como, para começar, o nome tanto do pai quanto da mãe de Aristóteles, bem como o fato de seu pai, Nicômaco, estar associado a uma importante fraternidade médica: “Filho de Nicômaco e Féstias, seu pai era médico e membro da fraternidade ou corporação dos Asclepíades ([...] filhos ou descendentes de Asclépios, deus da medicina). [...] Nicômaco morreu quando Aristóteles tinha apenas sete anos, tendo o menino sido educado, desde então, por seu tio Proxeno” (ARISTÓTELES, p. 9). Beni continua a abençoar-nos com mais informações: “Presume-se que durante o brevíssimo período de convivência com o pai, este o tenha levado a Pela, capital da Macedônia ao norte da Grécia, e tenha sido iniciado nos rudimentos da medicina pelo pai e o tio” (ARISTÓTELES, p. 9).
Gabriel Chalita nos diz que ele não era apenas filho de médico famoso, pertencente a uma fraternidade importante de médicos, mas pertencia a uma tradicional família de médicos: “Seu pai era médico e pertencia a uma família em que os homens, ao longo das gerações, tradicionalmente professavam a medicina” (CHALITA, p. 60).
O fato de seu pai ser médico é, para muitos, o que levou Aristóteles a tornar-se praticamente o pai da ciência, embora, como já observamos, desde Tales de Mileto já se praticar algo nesse sentido. Assim, temos Gaarder a afirmar: “Seu pai era um médico de renome; um cientista da natureza, portanto. Este pano de fundo já diz alguma coisa sobre o projeto filosófico de Aristóteles. Seu maior interesse estava justamente na natureza viva. Ele não foi apenas o último grande filósofo grego; foi também o primeiro grande biólogo da Europa” (GAARDER, p. 121). Claro, deveria ser um médico de destaque para ser o médico pessoal do rei! Vejam como Durant é igualmente impressionante em suas afirmações: “O próprio Aristóteles parece ter se tornado membro da grande fraternidade médica de Asclepíades. Foi criado no odor da medicina, assim como muitos filósofos posteriores foram criados no odor da santidade; teve todas as oportunidades e todos os estímulos para desenvolver uma mentalidade científica; foi preparado, desde o início, para se tornar o fundador da ciência” (DURANT, p. 57). Que Aristóteles chegou a ser médico somente Durant cogita. Mas não seria de se estranhar, dado o background e o que se produziu depois.

ARISTÓTELES NA ACADEMIA

O fato é que chegou um momento que Aristóteles mudou-se. “Com dezessete anos de idade Aristóteles foi para Atenas. Matriculou-se na Academia de Platão e estudou ali por vinte anos” (SPROUL, p. 41)* 3. Ronald Nash nos informa que tal mobilidade era comum entre os ricos gregos, ou seja, levar seus jovens para estudar em Atenas, palco de célebres sábios: “Não era incomum que os filhos de gregos abastados, vivendo em colônias gregas afastadas, retornassem a Atenas para obter educação” (NASH, p. 104).
E como será que foi Aristóteles na Academia? Adler afirma, categoricamente que ele era o melhor aluno de Platão: “Aristóteles foi o melhor aluno de Platão; estudou com ele por vinte anos. Diz-se que também escreveu diálogos, mas nenhum deles sobreviveu integralmente” (ADLER, p. 287). Apesar do destaque, Aristóteles não conseguiu os cargos de proeminência, como nota Sproul: “Ele se distinguiu sob a tutela de Platão, mas é provável que tenha despertado ciúmes e hostilidade nos outros alunos. Apesar de ser o aluno mais festejado da Academia, Aristóteles foi preterido duas vezes na escolha do sucessor de Platão, o que fez dele possivelmente a primeira vítima da politicagem acadêmica” (SPROUL, p. 41).
Berti também notifica-nos de algo que pode ter passado despercebido na citação que fizemos de Adler: “Estes foram os anos durante os quais ele escrever os diálogos (hoje perdidos), baseados no modelo dos diálogos platônicos” (PRADEAU, p. 44). Esse assunto é algo que exploraremos quando falarmos sobre as obras de Aristóteles, mas é bom destacar que ele, como autêntico aluno da Academia, dialogava também.
Como aluno de destaque, Aristóteles, segundo Berti, teria, inclusive, dado aulas na Academia: “É provável que Aristóteles tenha dado, na Academia, cursos de retórica e de dialética, dos quais encontramos vestígios nas partes mais antigas das obras conservadas” (PRADEAU, p. 44).
Will Durant nos informa sobre os possíveis conflitos que ocorreram entre Platão e Aristóteles enquanto conviveram na Academia: “Gostaríamos de imaginar que aqueles anos foram muito felizes; um discípulo brilhante orientado por um incomparável professor, caminhando como amantes gregos nos jardins da filosofia. Mas os dois eram gênios; e é notório que os gênios combinam entre si com a mesma harmonia com que a dinamite combina com o fogo. Quase meio século os separava; era difícil o entendimento cobrir o fosso da diferença de idade e anular a incompatibilidade de almas. Platão reconhecia a grandeza daquele estranho novo discípulo do norte supostamente bárbaro e se referiu a ele, certa vez, como o Nous da Academia [...]. Parece que nosso ambicioso jovem passou a ter um ‘complexo de Édipo’ em relação a seu pai espiritual, pelos favores e afeição da filosofia, e começou a dar a entender que a sabedoria não iria morrer com Platão enquanto o velho sábio se referia a seu discípulo como um potro que escoiceia a mãe depois de beber-lhe todo o leite” (DURANT, p. 57-58).
Pois bem, tudo leva a entender que houve um período indubitável em que os dois gênios eram bons amigos, o mais velho como mestre do mais novo. Aristóteles se destacava. Era um promissor pupilo. Alguns alunos invejavam-no. Esse, em suma, era o quadro que se pintava. Agora, parece que, pelos últimos dizeres que Durant nos narra, que havia alguma tensão entre eles. Por isso, Bini notifica-nos, seguindo Diógenes Laércio, que eles podem ter se desentendido feio antes mesmo da morte de Platão: “frequentou a Academia de Platão, deixando-a somente após a morte do mestre em 347 a. C., embora Diógenes Laércio (o maior biógrafo de Aristóteles) afirme que ele a deixou enquanto Platão ainda era vivo” (ARISTÓTELES, p. 9-10). Talvez Aristóteles tenha se ensoberbecido. Talvez já tenha elaborado parte de suas oposições a Platão. Há indícios, pois, de que Aristóteles tenha saído da Academia antes da morte de Aristocles.
Todavia, a história tradicional é que, assim que Platão morreu, Aristóteles tenha se retirado. É provável que seja por conta de sua irritação para com sua preterição aos cargos acadêmicos. Bini entende que a proposta do então presidente, Euspesito, tenha-o desagradado: “Não há dúvidas que Aristóteles desenvolveu laços de amizade com seu mestre e foi um de seus discípulos favoritos, mas foi Espeusipo que herdou a direção da Academia. [...] Espeusipo, inspirado no último e mais extenso diálogo de Platão (As Leis), conferi à Academia um norteamento filosófico profundamente marcado pelo orfismo pitagórico, o que resultou na rápida transformação da Academia platônica em um estabelecimento em que predominavam o estudo e o ensino das matemáticas, trabalhando-se mais elementos de reflexão e princípios pitagóricos do que propriamente platônicos. Divergindo frontalmente dessa orientação matematizante e mística da filosofia, Aristóteles abandonou a Academia...” (ARISTÓTELES, p. 10).

ARISTÓTELES FORA DA ACADEMIA E FORA DE ATENAS

Aristóteles, discordando do sobrinho de Platão, sai a viajar pelo mundo, como nos informa Nash: “Depois da morte de Platão, em 347 a. C., seu testamento legou a direção da Academia ao seu sobrinho Espêusipo. Aristóteles decidiu que aquela era uma boa hora para deixar Atenas. Viajou pela Ásia Menor, onde se casou.” (NASH, p. 104). Mas Sproul é ainda mais preciso em suas informações, e sumarizará nossa discussão: “Aristóteles deixou Atenas e mudou para Assos, perto de Tróia. Ali passou três anos na corte do rei, tendo se casado com a filha adotiva deste. Logo depois que voltou com sua esposa para Atenas, ela morreu. Então ele uniu-se a uma mulher de nome Herfílis, que lhe de um filho, Nicômaco (em homenagem a quem Aristóteles escreveu a Ética a Nicômaco)” (SPROUL, p. 41).
Ok, sabemos que ele foi para Assos, que fica perto de Tróia, e é na Ásia Menor.  Mas Sproul vai muito à frente. Antes de voltar para Atenas, temos mais coisas a observar. Vejamos o que nos informa Berti: “Com a morte de Platão, ele deixou a Academia e se dirigiu para Assos, cidade grega da Ásia Menor, onde foi hóspede de Hermias, senhor de Aterneus, e se casou com a sobrinha Pítias, em honra de quem ele redigiu o Hino à virtude. Dois anos mais tarde, ele se dirigiu para Mytilene, na ilha de Lesbos, onde se dedicou, com seu discípulo Teofrasto (372-287 a. C.), a pesquisas sobre os animais” (PRADEAU, p. 44). São informações valiosas. Percebamos que, primeiro, enquanto Sproul chama a mulher de Aristóteles de filha adotiva do rei de Assos, Berti diz que era a sobrinha de Hermias, senhor de Aterneus, e lhe denomina Pítias. Temos que conciliar as informações para que se coincidam.  Hérmias, pois, parece ser o rei de Assos a que Sproul se refere. E, há uma controvérsia em saber se era uma filha adotiva ou sobrinha de Hérmias. Ampliemos a questão com Bini.
Após a saída de Aristóteles da Academia há, também, disputas biográficas. Ao relatá-las Bini lançará luzes sobre algumas questões levantadas: “Alguns autores pretendem que, logo após ter deixado a Academia, Aristóteles abriu uma Escola de retórica com o intuito de concorrer com a famosa Escola de retórica de Isócrates. Entre os discípulos do Estagirita estaria o abastado Hérmias, que pouco tempo depois se tornaria tirano de Atarneu (ou Aterna), cidade-Estado grega na região da Eólida. Outros autores, como o próprio Diógenes Laércio, preferem ignorar a hipótese da existência de tal Escola e não entrar em minúcias quanto às circunstâncias do início do relacionamento entre Aristóteles e Hérmias. Diógenes Laércio limita-se a afirmar que alguns supunham que o eunuco Hérmias era um favorito de Aristóteles, e outros, diferentemente, sustentam que o relacionamento e o parentesco criados entre eles foram devidos ao casamento de Aristóteles com Pítia – filha adotiva, irmã ou sobrinha de Hérmias, não se sabe ao certo. Um terceiro partido opta por omitir tal Escola e associa o encontro de Aristóteles com Hérmias indiretamente a dois discípulos de Platão e amigos do Estagirita, a saber, Erasmo e Corisco, que haviam redigido uma Constituição para Hérmias e recebido apoio deste para fundar uma escola platônica em Assos, junto a Atarneu. O fato incontestável é que nosso filósofo (Aristóteles) conheceu o rico Hérmias, ensinou durante três anos na Escola Platônica de Assos (patrocinada por ele) e, em 344 a. C., desposou Pítia. Nessa Escola Aristóteles conheceu Teofrasto, que se tornaria o maior de seus discípulos” (ARISTÓTELES, p. 10-11)*4.
Bom, primeiramente Bini reconhece a disputa em torno da relação de parentesco entre Pítias e Hérmias. O fato é que os vínculos afetivos entre Aristóteles e esse abastado varão foram reforçados com o casamento.
Berti dá a entender que, assim que Aristóteles se mudou para Assos ele se casou com Pítias e, dois anos depois, rumou para Mytilene com Teofrasto. Bini e Sproul, por sua vez, sugerem que ele tenha ficado três anos em Assos, sob auspícios de Hérmias, ensinando em uma escola antes de partir. A questão é sobre ser dois ou três anos em Assos. Seja qual for a opção correta sobre essa escola e o que ele tenha ensinado, ele deu aulas em Assos e conheceu seu discípulo favorito, Teofrasto. Teofrasto saiu com o mestre para Mytilene.
Porque saíram de Assos? Berti indica que foram fazer pesquisas biológicas, zoológicas, botânicas, na ilha de Lesbos. Bini nos indica um ataque persa: “Após a invasão de Atarneu pelos persas e o assassinato de Hérmias, ocasião em que, segundo alguns autores, Aristóteles salvou a vida de Pítia providenciando sua fuga, dirigiu-se ele a Mitilene, na ilha de Lesbos” (ARISTÓTELES, p. 11). Podem ser as duas coisas: interesse como cientista e segurança. O fato é que passaram pouco tempo ali. Logo Aristóteles, já com certa fama, receberia uma honrosa convocação.

ALEXANDRE O GRANDE

Relembrando o que já vimos no artigo sobre o período helenístico, ouçamos Sproul: “Em 342, Aristóteles foi chamado à Macedônia pelo rei Filipe II e indicado tutor pessoal do filho do rei, Alexandre. Esse relacionamento haveria de ter um impacto tremendo, não só sobre o mundo mediterrâneo no futuro imediato, mas também sobre a civilização ocidental pelo resto da história. O discípulo mais destacado de Aristóteles iria distinguir-se não como filósofo, mas como líder militar. Alexandre, o Grande, adquiriu do seu mentor a paixão pela unidade. Suas conquistas militares foram motivadas em grande medida por seu desejo de criar uma cultura unificada no mundo antigo, uma cultura unida por uma língua comum, o grego. Como esse projeto de helenização estendeu-se até a Palestina, o Novo Testamento foi escrito em grego e não em hebraico ou latim” (SPROUL, p. 42).
Sim, tal convite (ou convocação) era um reconhecimento de quão grande estava Aristóteles, já lá pelos seus quarenta anos, embora tenhamos de nos lembrar que o pai de Aristóteles, sr. Nicômaco, era o médico pessoal e amigo de Amintas III, avô de Alexandre. Um ano na ilha de Lesbos e fora chamado, como notifica-nos Durant: “Apenas um ano depois, Filipe, rei da Macedônia, chamou Aristóteles para sua corte em Pela, a fim de encarregar-se da educação de Alexandre. É uma confirmação da crescente reputação de nosso filósofo o fato de o maior monarca da época, ao procurar o melhor dos professores, destacar Aristóteles para ser o tutor do futuro senhor do mundo” (DURANT, p. 58).
Bini nos informa de um importante trabalho que Aristóteles teria iniciado nesse momento. Tomemos nota, por questão de exposição cronológica, para posterior elucidação: “Nosso filósofo teria iniciado, também nesse período, a colossal Constituições, contendo a descrição e o estudo de 158 ou 125 formas de governo em prática em toda a Grécia (desse alentadíssimo trabalho só restou para a posteridade a Constituição de Atenas)” (ARISTÓTELES, p. 11).
Berti, além de nos dizer que Platão escreveu diálogos, que se perderam, para Alexandre, credita uma estátua de Aristóteles a favores estatais obtidos enquanto preceptor de Alexandre: “É provável que ele tenha obtido, dos reis da Macedônia, privilégios em favor da cidade de Atenas; foi por isso que os atenienses erigiram, mais tarde, uma coluna em sua honra” (PRADEAU, p. 44).
O fato é que, pouco tempo depois, Filipe II iria morrer e Aristóteles assumiria o trono.

DE VOLTA A ATENAS

Berti nos informa o seguinte: “Com a morte de Felipe, quando Alexandre decidiu sua expedição contra Pérsia, que lhe valeu o título de Alexandre o Grande, Aristóteles retornou a Atenas (334 a. C.)” (PRADEAU, p. 45). Bini informa de forma muito semelhante, embora discorde levemente na data: “... o Estagirita prosseguiu como educador de Alexandre até a morte de Felipe e o início do reinado de Alexandre (335 a. C.)” (ARISTÓTELES, p. 11). O fato é que, morrendo Filipe e assumindo Alexandre, indo, inclusive, rumar à Pérsia, não haveria mais motivos para estar ali. Além do mais, como já vimos, Atenas tinha um governo favorável a Alexandre, e Alexandre tinha seu mestre em altíssima estima.
Em 334 ou 335 a. C., Aristóteles retorna a Atenas para fundar sua escola de filosofia. Já haviam se passado cerca de 4 anos que Alexandre finalmente vencera Atenas e Tebas na batalha em Queronéia. Ali Aristóteles vestia a camisa de Alexandre, como Durant deixa-nos informado: “Quando Aristóteles, depois de outro período viajando, voltou a Atenas no ano de 334 a. C., muito naturalmente associou-se àquele grupo macedônico e não se preocupou em esconder a sua aprovação ao governo unificador de Alexandre” (DURANT, p. 59). O Estagirita também mantinha-se sempre informado sobre a situação de Alexandre, conforme nos informa Bini: “A despeito de estar em Atenas, Aristóteles permanecia informado das manobras político-militares de Alexandre através do chanceler macedônio e amigo Antipater” (ARISTÓTELES, p. 12).

Sproul, alhures, comentando sobre a volta de Aristóteles para Atenas, nos informa sobre Pítias ter morrido e ele ter contraído novas núpcias. Esse é o momento para ampliar a informação, com Edson Beni: “Aristóteles foi casado uma segunda vez (Pítia encontrar a morte pouco depois do assassinato de seu protetor, o tirano Hérmias), com Hérpile, uma jovem, como ele, de Estagira, e que lhe deu uma filha e o filho Nicômaco” (ARISTÓTELES, p. 14).

O LICEU

“Aristóteles retornou a Atenas em 334 a. C. e fundou sua própria escola, o Liceu, a qual funcionou somente durante os últimos doze anos de sua vida” (NASH, p. 104). Sproul diz treze anos, mas já temos visto que pequenas variações são comuns: “Aristóteles presidiu o Liceu por treze anos, ocupado com estudos científicos e escritos – sua produção literária foi imensa” (SPROUL, p. 42). Quanto à produção literária de Aristóteles, deixemos para o final. Gabriel Chalita nos informa que o Liceu ficava “na parte oriental da cidade” (CHALITA, p. 60) e Bini nos informa com precisão sua localização, acrescentando uma descrição muito interessante: “Retornou então a Atenas e fundou nesse mesmo ano sua Escola no [...] Liceu [...], um ginásio localizado na região nordeste de Atenas, junto ao templo de Apolo Lício [...] literalmente o destruidor de lobos. O Liceu (já que o lugar emprestou seu nome à Escola de Aristóteles) situava-se em meio a um bosque [...] e era formado por um prédio, um jardim e uma alameda adequada ao passeio de pessoas que costumavam realizar uma conversação caminhando” (ARISTÓTELES, p. 11-12). Portanto, num bosque onde o templo a Apolo Lício se localizava estava o Liceu.
Essa alameda referida era muito famosa. Sproul relata que “o campus era ornamentado por uma alameda chamada peripatos. Aristóteles costumava passear por essa alameda, fazendo palestras aos alunos que o seguiam de perto. Isso conferiu ao Liceu o título de ‘escola peripatética’” (SPROUL, p. 42). Não só a escola era reconhecida como peripatética, como os alunos, como nos informa Chalita, acabaram sendo similarmente cunhados: “Devido ao hábito de [Aristóteles] ensinar enquanto caminhava pelos jardins da escola, os seguidores do grande filósofo ficaram conhecidos como peripatéticos, ou ‘os que caminham ao redor’” (CHALITA, p. 60)*5.
Esses peripatéticos não só seguiam o mestre como engajavam-se em discussões pela peripatos: “(literalmente, lugar de andar). Muito do ensino ocorria enquanto os membros da escola passeavam pelos agradáveis arredores, engajados em discussões filosóficas” (NASH, p. 104). Tais discussões parecem refletir a proposta socrática aplicada à Academia.

Sobre o que se ensinava no Liceu, Berti é sumário: “Em sua escola, Aristóteles deu cursos de dialética, de física, de filosofia primeira, de ciência política, de retórica e de poética; é preciso também acrescentar que ele esteve na origem de uma compilação de 158 constituições e de obras que reuniam outros materiais” (PRADEAU, p. 45). Notem que Berti discorda de Bini quanto ao momento em que se originou as pesquisas à colossal obra sobre as constituições. Parece-nos que nesse período temos um momento mais propício para tal tarefa, mas não é difícil imaginar que Aristóteles tenha tido apoio de Felipe, em Pela, para erigir tal monumento.
Bini é ainda melhor ao explicar o que se passava, em termos de conhecimento, no Liceu, notando que haviam dois tipos distintos, qualitativamente, de estudantes: “O período do Liceu (335-323 a. C.) foi, sem dúvida, o mais produtivo e fecundo na vida do filósofo de Estagira [...]. Durante a manhã Aristóteles ministrava aulas restritas aos discípulos mais avançados, os chamados cursos esotéricos [...] os quais versavam geralmente sobre temas mais complexos e profundos de lógica, matemática, física e metafísica. Nos períodos vespertino e noturno, Aristóteles dava cursos abertos, acessíveis ao grande público (exotéricos)[...], via de regra de dialética e retórica. Teofrasto e Eudemo, seus principais, discípulos, atuavam como assistentes e monitores, reforçando a explicação das lições aos discípulos e anotando-as para que posteriormente o mestre redigisse suas obras, com base nelas. A distinção entre cursos esotéricos e exotéricos e a consequente separação dos discípulos não eram motivadas por qualquer diferença entre um ensino secreto místico, reservado apenas a iniciados, e um ensino meramente religioso, ministrado aos profanos nos moldes, por exemplo, das instituições dos pitagóricos. Essa distinção era puramente pragmática, no sentido de organizar os cursos por nível de dificuldade (didática) e, sobretudo, restringir os cursos exotéricos àquilo que despertava o interesse da maioria dos atenienses, a saber, a dialética e a retórica” (ARISTÓTELES, p. 12).

Se alguém está em dúvida quanto ao sucesso da escola, Durant é muito perspicaz: “Não foi difícil o instrutor do rei dos reis conseguir alunos, mesmo na hostil cidade de Atenas. Quando, aos 53 anos, Aristóteles fundou sua escola, o Liceu, foram tantos os alunos que acorreram que se tornou necessário estabelecer regras complicadas para manter a ordem. Os próprios estudantes determinaram as regras e elegiam, a cada dez dias, um deles para supervisionar a Escola. Mas não devemos pensar que ela fosse um lugar de disciplina rígida; ao contrário, o retrato que chega até nós são de estudantes fazendo refeições em comum com o mestre e aprendendo com ele enquanto passeavam de uma ponta a outra da Alameda que acompanhava o campo de atletismo” (DURANT, p. 59-60).

Temos de nos lembrar que, naquele momento, a Academia ainda estava em pleno vigor em Atenas. Seria, o Liceu, pois, um concorrente? Will Durant acredita que não: “A nova Escola não era uma simples réplica daquela que Platão havia deixado. A Academia se dedicava, acima de tudo, à matemática e à filosofia especulativa e política; o Liceu tinha, mais um tendência para a biologia e as ciências naturais” (DURANT, p. 60). Como já dissemos, Aristóteles é praticamente o pai da ciência.
Durant nota que “certa vez, ele [Aristóteles] teve à sua disposição mil homens espalhados pela Grécia e pela Ásia, recolhendo para ele espécimes da fauna e da flora de todos os países. Com essa abundância de material, ele pôde criar o primeiro grande jardim zoológico que o mundo até então já vira. Nunca é demais salientar a influência dessa coleção sobre a sua ciência e sua filosofia” (DURANT, p. 60). Acreditamos que o bosque em que o Liceu se localizava tenha sido muito propício para tais propósitos. Além disso, essa informação ratifica a ideia de que tenha sido esse o memento da compilação das Constituições. Notemos, por fim, que esse empreendimento de coleta de dados já havia sido empreendido por Aristóteles na ilha de Lesbos, junto a seu discípulo Teofrasto.
Percebamos que ciência custa caro. É preciso viajar, pesquisar, conseguir materiais, contratar ‘pesquisadores’. É por isso que Durant levanta a questão: “Onde Aristóteles conseguia os fundos para financiar tais empreendimentos? Ele mesmo, àquela altura, era um homem de vultosos rendimentos; e pelo casamento passara a partilhar da fortuna de um dos mais poderosos homens públicos da Grécia. Ateneu (sem dúvida que com um certo exagero) relata que Alexandre deu a Aristóteles, para equipamentos e pesquisas físicas e biológicas, a soma de oitocentos talentos (em poder aquisitivo atual, cerca de quatro milhões de dólares) [...]. Trabalhos como o digesto de 158 constituições políticas, preparado para Aristóteles, indicam um considerável corpo de auxiliares e secretários. Em suma, temos o primeiro exemplo, na história europeia, do financiamento em larga escala da ciência pelo erário público” (DURANT, p. 60). Sproul não fica atrás em matéria de notar tal fato: “Alexandre também se interessava pela aquisição de conhecimento. Há quem diga que a expedição científica mais ricamente financiada por um governo antes do moderno programa espacial americano foi a que acompanhou as expedições militares de Alexandre. Praticamente um exército de cientistas marchou com seus soldados com o propósito expresso de coletar, classificar e estudar espécimes da flora e da fauna” (SPROUL, p. 42).

A importância do Liceu é tão grande que Bini nota o seguinte: “...o curriculum para o aprendizado fixado por Aristóteles nessa época para o Liceu foi a base para o curriculum das Universidade europeias por mais de dois mil anos, ou seja, até o século XIX” (ARISTÓTELES, p. 13). Não é, pois, exagero dizer que Aristóteles é um dos homens mais influentes da história da humanidade.

A OBRA DE ARISTÓTELES

Primeiramente, Aristóteles tem de ser louvado pela vasta gama de assuntos que escreveu, e de forma relevante, inclusive. Nash reconhece: “Aristóteles foi o primeiro pensador cosmopolita. Estava interessado em quase tudo. Ele dividia o conhecimento humano em suas categorias básicas e escreveu sistematicamente sobre a maioria delas” (NASH, p. 103). Adler e Durant também versam sobre a vastidão da produção de Aristóteles: “Os assuntos discutidos por Aristóteles em seus tratados e os vários estilos adotados por ele na apresentação de suas descobertas também ajudaram a estabelecer os ramos e as abordagens da filosofia nos séculos posteriores. Há, antes de tudo, as chamadas obras populares – sobretudo diálogos, dos quais nos chegaram apenas fragmentos. Depois, há as coleções de documentos. A maior que conhecemos teria sido uma coleção de 158 Constituições de Estados gregos. Apenas uma delas sobreviveu, a Constituição de Atenas, que foi encontrada em um papiro em 1890. Por fim, há os grandes tratados, alguns dos quais [...] são obras puramente filosóficas, teóricas ou normativas, algumas delas [...] são misturas de teoria filosófica e investigação científica primitiva; outros, como os tratados biológicos, são sobretudo obras científicas da área de história natural” (ADLER, p. 288) e “Os trabalhos escritos de Aristóteles chegam às centenas [...]. O que resta é apenas uma parte, constituindo, no entanto, uma biblioteca completa – imaginem a amplitude e a grandeza do todo. Primeiro, vêm os trabalhos sobre a lógica [...]; eles foram reunidos e editados mais tarde pelos peripatéticos sob o título geral de ‘Organon’ de Aristóteles – isto é, o órgão ou o instrumento para o pensamento correto. Depois vêm os trabalhos científicos [...]. Em terceiro, vêm os trabalhos relativos à estética [..]. Em quarto, os trabalhos mais estritamente filosóficos [...]. Temos aqui, evidentemente, a Encyclopedia Britannica da Grécia: todos os problemas abaixo e ao redor do sol têm um lugar nela; não admira que existam mais erros e absurdos em Aristóteles do que em qualquer outro filósofo que tenha escrito alguma coisa” (DURANT, p. 61).

Sim, Aristóteles, por tanto falar, estava mais sujeito a errar. O que, evidentemente, é matéria de muito erro são seus postulados científicos. Várias afirmações que ele fez são hoje ampla e seguramente contestadas. Entretanto, ouçamos, mais uma vez, a Will Durant: “... iríamos cometer uma injustiça para com Aristóteles se fôssemos ignorar as limitações quase fatais do equipamento que acompanhava aqueles recursos e facilidades sem precedentes” (DURANT, p. 60). Na verdade, era um problema da própria Grécia e seu sistema social a inabilidade tecnológica, afirma Durant: “foi na invenção industrial e técnica que a Grécia ficou muito atrás do padrão geral de suas realizações sem paralelo. O desdém grego pelo trabalho manual impedia que todos, exceto o escravo indiferente, tivessem um conhecimento direto do processo de produção, aquele estimulante contato com a maquinaria que revela defeitos e prefigura possibilidades; a invenção técnica só era possível para aqueles que não se interessavam por ela e não podiam obter dela qualquer recompensa material [... E assim, enquanto o comércio grego conquistava o mar Mediterrâneo e a filosofia grega conquistava a mente mediterrânea, a ciência grega estava perdida e a indústria grega continuava quase que no ponto em que a indústria egéia estivera quando os gregos invasores havia caído sobre ela em Cnosso, Tirinto e Micenas, mil anos antes*6. [...] Apesar de tudo, a imensa quantidade de dados reunidos por ele e seus assistentes tornou-se a base do progresso da ciência, o livro didático do conhecimento durante dois mil anos; uma das maravilhas do trabalho do homem” (DURANT, p. 61).

Bom, o ‘espírito científico’ refletia em sua forma de exposição que fazia com que ele diferisse de seu antigo e célebre mestre: “Enquanto Platão era poeta e criador de mitos, os escritos de Aristóteles são sóbrios e pormenorizados como os verbetes de uma enciclopédia. Em compensação, muito do que ele escreveu estava baseado em estudos naturais realizados com extrema diligência” (GAARDER, p. 121-122).
Para delírio dos filósofos da linguagem, Aristóteles desenvolveu uma série de termos importantíssimos para nossa reflexão acadêmica. Gaarder reconhece: “A importância de Aristóteles para a cultura europeia está também no fato de ele ter criado uma linguagem técnica usada ainda hoje pelas mais diversas ciências. Ele foi o grande sistematizador, o homem que fundou e ordenou as várias ciências” (GAARDER, p. 122) e Durant é ainda mais específico: “Em vez de dar termos à literatura, como fez Platão, ele construiu a terminologia da ciência e da filosofia; praticamente não podemos falar de qualquer ciência, hoje, sem empregar termos que ele inventou; eles jazem como fósseis no substrato de nossa linguagem: faculdade, média, máxima (que significa, em Aristóteles, a principal premissa de um silogismo), categoria, energia, realidade, motivo, fim, princípio, forma – estas indispensáveis moedas do pensamento filosófico foram cunhadas em sua mente” (DURANT, p. 62).

ÚLTIMOS ANOS E CONFLITOS POLÍTICOS

Os dias felizes no Liceu haviam de terminar. “Depois que Alexandre, o Grande, morreu, em 323 a. C., surgiu uma forte onda de sentimento antimacedônio na Grécia, que apanhou Aristóteles em seu refluxo por causa da sua ligação com Alexandre” (SPROUL, p. 42). Nash nos informa que buscavam vingança contra os aliados do rei: “Amargurados com os sofrimentos suportados durante o reinado de Alexandre, muitos atenienses buscaram vingança contra as pessoas mais próximas do rei” (NASH, p. 104). Durant nos descreve o cenário político da cidade: “Atenas delirou de júbilo patriótico; o partido macedônio foi derrubado, e a independência ateniense proclamada” (DURANT, p. 88).
Bini retrata a problemática, o terreno minado que Aristóteles pisava, de maneira espetacular: “A morte prematura de Alexandre em 323 a. C. trouxe à baila, novamente, como trouxera em 338 a. C., na derrota de Queroneia, um forte ânimo patriótico em Atenas, encabeçado por Demóstenes [...] Isso, naturalmente, gerou um acentuado e ardente sentimento antimacedônico [...]. Nosso filósofo viu-se, então, em uma situação bastante delicada, pois não apenas residira em Pela durante anos, cuidando da educação do futuro senhor do Império, como conservara uma correspondência regular om Antipater (braço direito de Alexandre) [...]. As constantes e generosas contribuições de Alexandre ao acervo do Liceu (biblioteca e museu) haviam passado a ser observadas com desconfiança, bem como a amizade ‘suspeita’ do aristocrático e conservador filósofo, que nunca ocultara sua antipatia pela democracia ateniense” (ARISTÓTELES, p. 13).
Não bastasse as divergências políticas, o próprio Liceu pode ter sido atrativo de problemas por conta da ‘concorrência’, conforme amplia Edson Bini: “Se somarmos ainda a esse campo minado sob os pés do Estairita o fato de o Liceu ser rivalizado pela nacionalista Academia de Espeusipo e a democrática Escola de retórica de Isócrates, não nos espantaremos ao constatar que muito depressa os cidadãos atenienses começaram a alimentar em seus corações a suspeita de que Aristóteles era um traidor” (ARISTÓTELES, p. 13-14).
Berti ainda amplia o quadro informando que “Aristóteles foi acusado de insultar as crenças religiosas” (PRADEAU, p. 45). Sproul nota a mesma questão: “A exemplo de Sócrates antes dele, Aristóteles foi acusado de impiedade” (SPROUL, p. 42). Durant amplia: “Eurimedon, um sumo sacerdote, apresentou uma acusação contra Aristóteles, de que ele ensinara que orações e sacrifícios de nada adiantavam” (DURANT, p. 88).

Aristóteles resolve abandonar, mal sabia que era pela última vez, Atenas. Nash nos informa que ele estava bem ciente do caso de Sócrates e declarava a analogia: “Aristóteles deixou Atenas pela última vez, e justificou sua partida repentina dizendo que queria poupar Atenas do embaraço de pecar outra vez contra a filosofia, isto é, tendo matado o grande filósofo, Sócrates e, agora, atentando contra ele” (NASH, p.104). Durant o justifica: “Não havia covardia neste ato; uma pessoa acusada, em Atenas, tinha sempre a opção de preferir o exílio” (DURANT, p. 88)*7.

Deixemos com Beni, aquele que mais informações nos dá sobre o Estagirita, o relato de como se deu o fim desse nobríssimo filósofo: “Abandonou seu querido Liceu e Atenas em 322 ou 321 a. C., transferindo-se para Cálcis, na Eubeia, terra de sua mãe, onde vivera pouquíssimo. Morreu no mesmo ano, aos sessenta e três anos, provavelmente vitimado por uma enfermidade gástrica de que sofria há muito tempo. Diógenes Laércio supõe, diferentemente, que Aristóteles teria se suicida tomando cicuta, exatamente o que Sócrates tivera que ingerir após sua condenação à morte” (ARISTÓTELES, p. 14). Durant nos informa que Diógenes Laércio supõe que Aristóteles tenha se suicidado justamente por conta da decepção que passara: “o velho filósofo, decepcionadíssimo com o fato de tudo ter se voltado contra ele, cometeu suicídio bebendo cicuta” (DURANT, p. 88).

A TRANSMISSÃO DE ARISTÓTELES

Berti nos informa que as publicações que temos não foram engendradas por Aristóteles: “Aristóteles não publicou, ele próprio, os textos de seus cursos; eles só foram editados mais tarde, na segunda metade do século I. a. C., por Andronicus de Rhodes, provavelmente em Roma” (PRADEAU, p. 45). Podemos nos aprofundar nessas informações.
Nash é precioso em informações a esse respeito: “Depois da morte de Aristóteles, sua biblioteca, incluindo manuscritos de seus próprios escritos*8, foi passada ao seu sucessor, Teofrasto. Quando Teofrasto morreu, a biblioteca foi escondida em uma caverna em algum lugar da atual Turquia. A localização da biblioteca enterrada pare ter sido esquecida até que, cerca de cem anos depois, foi, redescoberta. Durante esse período, os manuscritos sofreram muito dano. A manipulação incompetente produziu ainda mais estragos. Finalmente Andrônico de Rodes, trabalhando em Roma, assumiu a tarefa de colocar os manuscritos em ordem. Foram então publicados no ano 70 d. C.” (NASH, p. 104).
Nash nos informa que essas muitas edições do material aristotélico tornaram seus escritos muito difíceis de serem lidos: “O que sobreviveu, além de pequenos fragmentos de seus diálogos, foram as obras técnicas de Aristóteles que refletem o material ensinado no Liceu [..] Elas foram bastante editadas por Andrônico e por posteriores redatores; material de uma variedade de fontes e manuscritos foi combinado, editado e sintetizado. Quer a culpa caiba quer não totalmente a Andrõnico, o produto dos cortes e divisões pouco fez para facilitar o entendimento do pensamento de Aristóteles” (NASH, p. 104-105).
Tal dificuldade nos textos levanta suspeitas de sua autoria, como aponta Adler: “Sobreviveram, porém, ensaios ou tratados curiosamente difíceis a respeito de diversos assuntos. Obviamente, Aristóteles era um pensador claro, mas a dificuldade das obras que sobreviveram levou os estudiosos a sugerir que eram originalmente notas para aulas ou para livros – feitas pelo próprio Aristóteles ou por um aluno que assistira às aulas do mestre. Talvez nunca descubramos a verdade. De qualquer modo, o tratado aristotélico criou um novo estilo filosófico” (ADLER, p. 287-288).
Entretanto, antes que alguém venha a desprezar os escritos, ignorando sua genialidade e a possibilidade de serem realmente desta grande alma, Durant arremata a questão: “é possível que os escritos atribuídos a Aristóteles não fossem seus, mas em grande parte, compilações de estudantes e seguidores que embalsamaram nas anotações que fizeram a substância sem artifícios de suas palestras. Parece que Aristóteles não publicou, enquanto vivo, quaisquer trabalhos técnicos, exceto os relativos à lógica e à retórica; e que a forma atual dos tratados de lógica se deve a uma editoria posterior [...]. Em todo caso, podemos estar certos de que Aristóteles é o autor espiritual de todos esses livros que trazem seu nome: de que a mão poderá ser, em certos casos, de outra pessoa, mas a cabeça e o coração são seus” (DURANT, p. 62).

Bini apresenta o motivo de talvez termos perdido ainda mais textos aristotélicos: “É quase certo que boa parte da perda irreparável da obra aristotélica tenha sido causada pelo criminoso incêndio da Biblioteca de Alexandria, ocorrido por volta do ano 200 (d. C.)” (ARISTÓTELES, p. 18). Gaarder nos diz o que temos, afirma a hipótese (não como hipótese) de os escritos serem apontamentos feitos para as lições no Liceu, e elenca mais um motivo de possivelmente não termos melhores textos, encerrando esta exposição da pessoa de Aristóteles: “Registros da Antiguidade dão conta de não menos que cento e setenta títulos assinados por Aristóteles. Destes, quarenta e sete chegaram até nossos dias. Não se tratava de livros completos. A maior parte dos escritos de Aristóteles compõe-se de apontamentos feitos para suas aulas. Também na época de Aristóteles, a filosofia era essencialmente uma atividade oral” (GAARDER, p. 122).

[comece a estudar a filosofia de Aristóteles por aqui]

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*1 Bini é o único que sugeriu alguma dúvida: “O ano de seu nascimento é duvidoso, estima-se que tenha sido em 385 a. C., ou, mais provavelmente, 384 a. C.” (ARISTÓTELES, p. 9).
*2 Nash dá a mesma informação: “A vida de Aristóteles começou na colônia grega de Estagira. Seu pai era médico na corte do rei da Macedônia, o qual foi o avô do homem que seria conhecido como Alexandre, o Grande” (NASH, p. 103).
*3 Há controvérsias sobre quando, exatamente, Aristóteles teria se mudado para Atenas. Ronald Nash aponta Aristóteles indo à cidade da democracia aos 14 anos (NASH, p. 104). Bini também aponta uma certa dúvida: “O fato indiscutível e relevante é que aos dezessete ou dezoito anos o jovem Estagirita transferiu-se para Atenas e, durante cerca de dezenove anos, frequentou a Academia de Platão”. Porém, é Durant que nos informa sobre questões mais dúbias em relação a este período de juventude do Estagirita. “Temos várias opções quanto à história de sua juventude. Uma narrativa o apresenta jogando fora o seu patrimônio numa vida agitada, entrando para o exército para evitar a fome, voltado a Estagira para praticar a medicina e indo para Atenas aos trinta anos de idade para estudar filosofia com Platão. Uma história mais digna o leva a Atenas aos dezoito anos e o coloca logo sob a tutela do grande Mestre; mas mesmo nessa descrição mais provável existem sinais suficientes de um jovem imprudente e irregular, vivendo uma vida agitada. O leitor escandalizado poderá consolar-se ao observar que em ambas as histórias o nosso filósofo lança âncoras, finalmente, nas tranquilas alamedas da Academia. Com Platão ele estudou oito – ou vinte – anos; e, de fato, o penetrante platonismo das especulações de Aristóteles, - mesmo daquelas mais antiplatônicas – sugere o período mais longo” (DURANT, p. 57).
*4 A versão de Durant diz o seguinte: “Aristóteles fundou uma escola de oratória para rivalizar com Isócrates; e que teve entre os seus discípulos nessa escola o rico Hérmias, que pouco depois iria se tornar autocrata da cidade-estado de Aterneus. Depois de atingir aquela eminência, Hérmias convidou Aristóteles para sua corte; e no ano de 344 a. C., recompensou seu professor por favores prestados dando-lhe uma irmã (ou sobrinha) em casamento. [...] Aristóteles, apesar de seu gênio, viveu bem feliz com a mulher e se referiu a ela em termos muitíssimo afetuosos em seu testamento” (DURANT, p. 58).
*5 A título de completude, resolvemos expor Berti falando coisas muito semelhantes aos demais: “onde fundou uma escola instalada no jardim consagrado a Apolo Lício e que por isso se chamou Liceu; nesses lugares se encontrava também um espaço onde deambular, que se chamava peripatos, o que permitiu mais tarde empregar a denominação de escola ‘peripatética’” (PRADEAU, p. 45).
*6 Essa informação de Durant é estranha quando vemos os documentários do Discovery Channel sobre a Grécia e descobrimos seus grandiosíssimos feitos de engenharia. Talvez Durant esteja falando que os gregos não empregavam essas técnicas para a produção de ferramentas científicas; ou esteja dizendo que na filosofia avançaram muito mais do que na ciência. O fato é que é indubitável, entretanto, que eram bem avançados, e suas grandes e magníficas construções testemunham, coadunam, a favor dessa afirmação.
*7 Observem que no capítulo 26 da Apologia de Sócrates parece ter surgido essa proposta para o grande mestre de Atenas.
*8 Parece que, já na época em que estudou na Academia, Aristóteles possuía um grande acervo, conforme nos informa Will Durant: “Aristóteles havia gasto dinheiro a rodo na coleção de livros (isto é, naquela época sem tipografia, manuscritos); foi o primeiro, depois de Eurípedes, a organizar uma biblioteca; e a fundação dos princípios de classificação bibliográfica esteve entre suas muitas contribuições para a cultura” (DURANT, p. 57).


REFERÊNCIA

ADLER, Mortimer J; VAN DOREN, Charles. Como Ler Livros. Tradução de Edward Horst Wolff e Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2010, 432p.

ARISTÓTELES. Retórica. Tradução, textos adicionais e notas de Edson Bini. São Paulo: EDIPRO, 2011, 272p.

BERTI, Enrico. Aristóteles _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.

CHALITA, Gabriel. Vivendo  Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.

DURANT, Will. A História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 4ª ed., 2001, 406p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.

NASH, Ronald H. Questões Últimas da vida: uma introdução à filosofia. Tradução de Wadislau Martins Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 448 p.

PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução e Apêndice de Maria Lacerda de Moura; Introdução de Alceu Amoroso Lima. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011, 88p.


SPROUL, R. C. Filosofia para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208 p.