quarta-feira, 11 de junho de 2014

O Império Romano

A partir de Otávio [para conhecer a República Romana, clique aqui] temos uma sucessão de imperadores no poder. É óbvio que não podemos trabalhar a vida de todos. Iremos fazer uma seleção dos que nos parecem (ou às nossas fontes) mais importantes ou mais interessantes aos nossos propósitos expositivos. Como temos feito nos textos históricos, seguimos ao professor Rodolfo Neves e ao ‘Construindo um Império: Roma’ do History Channel. Dessa vez Gabriel Chalita é também rico em informações. Quando formos, pois, nos valer de outras fontes, indicaremos. Começaremos indicando as características do império e depois um pouco da vida dos imperadores para, finalmente, versar sobre a queda de Roma e o início da Idade Média.


AS CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS DO ALTO IMPÉRIO ROMANO

A primeira característica que temos que destacar é a militarização da sociedade romana, reflexo dos imperadores, que eram generais.
A estrutura social era a estrutura de uma hierarquia militar. O exército estava dividido entre: ‘imperador’, o chefe do exército, soberano; os generais, que recebiam as ordens do imperador e as distribuía aos demais; os soldados, obedientes aos generais; por fim, os civis, alvo do controle de toda essa estrutura militar. Isso se reflete na sociedade romana. Antigamente, na República, tínhamos os patrícios, logo em seguida os equestres [comerciantes]; os plebeus e clientes, por fim os escravos. Agora temos os ‘Senatoriais’, superiores muitas vezes ligados ao exército; equestres, os comerciantes; e, na base na pirâmide social, os ‘inferiores’, ou seja, os que não detinham poder algum.
Na República Romana havia uma divisão clara e nítida sobre os escravos e o resto da sociedade. No Alto Império, embora existissem escravos, evidentemente, a classe inferior da sociedade era composta de escravos e não-escravos. Portanto, há um enfraquecimento nessa distinção entre homens livres e não-livres.
Roma tornou-se uma sociedade ‘espartana’, ou seja, militarizada. A cultura era influenciada pelo exército, com reflexos nas vestes, cortes de cabelo e costumes sociais. O exército era visto como algo positivo. O exército era a principal instituição romana.
As idéias ali presentes são o embrião do totalitarismo, que confunde o governador com o próprio Estado. Os próprios símbolos romanos davam a entender isso. A vontade do Imperador era a vontade do Estado. Os direitos dos indivíduos estariam submetidos à vontade do governante. Assim, muitos autores defendem que a gênesis da estrutura totalitária estava presente no Império Romano.

Uma segunda característica do Império Romano é a expansão territorial, escravista, colonial. O exército está poderoso e mais guerras que geram conquistas acontecem. Entre o final do século I a. C. e o final do século II d. C., o império romano se expandiu cada vez mais.
Quanto mais se expande, mais colônias tem. Quanto mais colônias, maior a oferta de produtos. Quanto maior a oferta de produtos, menor o preço dos produtos (controle da inflação). E, por fim, tudo isso desemboca em mais comércio existindo (quanto menor a inflação, maior a valorização da moeda, e mais comércio há).
Além disso, quanto maior a expansão, mais prisioneiros de guerra e, consequentemente, mais escravos.
Assim, Roma estava num momento em que nada poderia causar seu declínio a não ser parar de expandir-se. Isso acontece no fim do século II d. C., principalmente a partir do governo do Imperador Marco Aurélio, Roma começa a diminuir o ritmo de expansão até o limite. Isso acontece não por conta de fatores externos, mas por fatores internos: a pax romana.

Esta é a terceira característica do Império Romano: a pax romana. Roma decide começar a diminuir o ritmo de expansão. Acontece que os generais tinham mais terras que podiam ocupar. As guerras eram bancadas pelos generais (e não pelo Império, pois o imperador apenas dava a ordem), afinal as guerras eram investimentos (o general pagava soldados para vencer as guerras e angariar mais terras, mais escravos e, por fim, mais dinheiro). Mas é bom lembrarmo-nos que Roma não era capitalista, portanto não tinha o interesse de reproduzir o capital continuamente. Assim, em algum momento os generais afirmam que não valia mais a pena expandir. É o processo da ‘pax romana’. De fato, havia uma hegemonia romana. Ninguém podia lidar com eles. Mas tal mentalidade marca o princípio do declínio de Roma. Gabriel Chalita comenta o fenômeno: “O exército romano, concentrado na defesa de fronteiras e imerso em disputas internas pelo poder, abandonou as campanhas de conquistas territoriais, principal fonte de obtenção de escravos. A escassez de mão-de-obra escrava e a consequente diminuição da produtividade agrícola afetaram durante as cidades, sobretudo Roma” (CHALITA, p. 94). É o que veremos no baixo império. A estagnação irá causar, a Roma, sua queda.

A quarta característica do Alto Império é o problema por conta do surgimento do Cristianismo. Com o ministério de Cristo, uma série de características de suas pregações começam a chocar-se com as idéias do império romano. Primeiramente temos o monoteísmo, ao passo que Roma era politeísta.
Outra característica da pregação de Cristo é o questionamento da divindade do imperador. Jesus diz que somente seu Pai é Deus, e ele é o Filho Unigênito de Deus*
Cristo fala de seu pai no reino dos céus, com seus valores, em contradição com os valores do império romano. O paganismo romano era materialista (e.g., acreditavam que se uma pessoa era rica em vida, pela eternidade, após sua morte, seria rica também). Cristo já prega valores mais espirituais, e diz que os que sofriam aqui iriam para o céu, para uma vida verdadeira, repleta de gozo*. O professor Rodolfo Neves diz que a pregação de Cristo é uma nítida influência da filosofia platônica que diz que o mundo das ideias é perfeito, e que o mundo material é imperfeito, ou até, posteriormente, uma influência plotina que diz que o mundo da luz é perfeito, e o mundo material, das trevas, é imperfeito*. Assim, o Cristianismo ensinaria que o mundo material é negativo, e que o mundo das ideias era positivo. Neves ainda faz questão de dizer que não seria um plágio descarado que ele estaria anunciando, mas um discurso influenciado pelo meio já que essas ideias circulavam em Roma. Podemos nos lembrar que a gula, a luxúria, o ócio, a ira e outros valores eram positivos para Roma, ao passo que eram condenados pelo cristianismo. A gula e a luxúria eram praticadas nos bacanais; a ira era exaltada no exército; e, por fim, os escravos proporcionavam o tempo livre para os Romanos fazerem nada, portanto, uma valorização do ócio.
Roma, pois, passa a perseguir os cristãos. Entretanto, quanto mais os matavam, mais o cristianismo se expandia. E a morte não era encarada como algo negativo, para o cristão, e sim positivo: sua promoção ao estado de salvação.

Uma última característica do Alto Império era o ‘pão e circo’. Roma está rica, e tem muitos escravos, o que gera menos empregos aos plebeus, os homens livres. A solução de Roma foi ampliar a política de ‘pão e circo’ (idealizada já por Júlio César, antes do império). Roma, pois, promovia grandes eventos no Coliseu; promovia muitos feriados; e dava pão e vinho aos que iam ao Coliseu. O ‘pão e circo’ era uma política de controle social pois oferecia diversão, comida, vinho e o que mais fosse preciso para os desempregados, dissuadindo-os de se revoltarem. Eram, pois, medidas que diminuíam a sensação de pobreza, mas não dissolvia a origem dos problemas da pobreza, antes era a manutenção desse problema. Os mais pobres, pois, tornavam-se dependentes do Estado. Era, pois, uma medida populista e paternalista.

O certo é que o Coliseu, além de embotar as fomentações de revoltas, dava aos cidadãos romanos um sentimento de superioridade pois quem estava lutando lá embaixo eram os inferiores, e esses diziam respeito aos estrangeiros. Assim, o povo romano pensava ser um povo superior. No Coliseu a plebe decidia quem vivia e quem morria, onde esse sentimento era enaltecido*.
E, em falando da vida cotidiana, temos que observar um dos vários feitos de engenharia que o documentário do History Channel observa. No século I d. C., Roma era a única superpotência europeia e, enquanto expandiam o império, também olhavam para dentro e usavam seus conhecimentos técnicos para melhorar a qualidade de vida na capital e, o feito que mais alterou a vida diária em Roma foi a água corrente, um sistema de distribuição de água, diferente de tudo que já houvera. Os aquedutos, distantes da capital, levavam água das montanhas às cidades. Isso revolucionou o cotidiano dos romanos. Havia muita água disponível. Quase um milhão de pessoas viviam com limpeza e conforto na capital. E esse era outro motivo para se considerarem superiores: eram mais limpos que os demais.

CARACTERÍSTICAS PRINCIPAIS DO BAIXO IMPÉRIO ROMANO

O Baixo Império é um período de crise do Império Romano, que vai do século III ao século V d. C. Quanto às suas características, a primeira e talvez a mais importante é a anarquia militar, i. é., aquela estrutura hierárquica militarista começa a se diluir. Os generais, agora grandes proprietários de terras, começam a questionar a própria autoridade do Imperador. A consequência desses conflitos foram a fragmentação do exército e a parada de sua expansão. Para piorar a situação, muitos generais, contrariando as ordens do imperador, tiram seus soldados das fronteiras e os levam para dentro de suas terras, e, dividindo-as em pequenas propriedades, as oferecem a eles para protege-las e produzirem nelas em troca da fidelidade militar.
Pois bem, com as fronteiras desprotegidas, muitos ‘bárbaros’ começam a adentrar no império. Territórios, pois, eram perdidos, ou seja, havia uma baixa nas colônias. E, quanto menos colônias existem, menor a oferta de produtos e maior a inflação, ou seja, preços maiores. Com isso, menor é o poder de compra da moeda romana. Consequentemente, as trocas baseadas em moedas, o que chamamos de ‘comércio’, entram em declínio, e em grande escala volta-se às práticas das trocas naturais (escambo, troca de produtos). Ou seja, com o declínio do comércio, aumenta-se a cultura de subsistência. Essas características ficarão evidentes no feudalismo. Tudo isso por conta da falta de produtos e do aumento da inflação.
Assim, o primeiro grande problema enfrentado pelo Baixo Império Romano foi a Inflação. Diocleciano, um imperado, em 287 d. C., para controlar a inflação, cria o Édito Máximo, que configurava-se em uma tabela de preços*. A medida, pois, não funcionou, e o uso da moeda, ou seja, o comércio, entra em declínio cada vez maior, ao passo que, inversamente proporcional, aumenta-se a agricultura de subsistência.

Um segundo problema do Baixo Império era a falta de escravos, como já mencionamos. Eles iam diminuindo. Na medida em que perdia-se território, perdia-se escravos. Para resolver esse problema, adotaram duas medidas. A primeira foi que os pequenos proprietários poderiam trabalhar nas grandes propriedades desde que pagassem impostos: patrocínio. A segunda opção foi o ‘colonato’, onde eram oferecidos empregos, remunerados com parte da produção, nas fazendas aos moradores das cidades, o que resultou no êxodo urbano. Assim, tanto pequenos proprietários como moradores da cidade, até mesmo escravos, eram instigados a trabalharem para os generais e grandes proprietários em troca de proteção e do uso da terra, com impostos, claro. Chalita lança luzes sobre o assunto: “Na agricultura, para suprir a falta de mão-de-obra escrava, adotou-se o regime de colonato, isto é, o arrendamento de terras a plebeus e homens livres que fugiam das cidades à procura de trabalho e segurança, assustados pelo alto custo de vida e pela violência. Por meio desse sistema, o colono cultivava um pedaço de terra para a sua subsistência, sob a condição de entregar uma parcela da produção ao proprietário e de trabalhar gratuitamente em suas terras. Estabeleciam-se assim as raízes da servidão e do feudo medievais, bases de um novo sistema econômico de caráter eminentemente agrário, que conferia às propriedades rurais uma grande autonomia, e que tornaria os feudos pequenos centos de poder” (CHALITA, p. 95). Assim, tal ‘colonato’ serviu para criar a ‘servidão’ característica do período feudal. Quando não mais existir Roma, esse sistema subsistirá. Roma, pois, estava vivendo uma ‘ruralização’ da economia e da sociedade.

Outro problema do baixo império era a expansão do Cristianismo. Roma está quebrada. E o cristianismo era uma religião em que existiam muitos pobres, ou seja, plebeus, ou seja, soldados. Assim, grande parte do exército para de acreditar na autoridade divina do Imperador.
Para controlar seu exército, o Imperador teria que lidar com essa situação. Então, Constantino, em 315 d. C., cria o Édito de Milão, permitindo a liberdade de culto ao Cristianismo, visando angariar apoio do exército. Assim, permitiu-se uma grande estrutura que viabilizou o estabelecimento do cristianismo entre os romanos. Alguns anos depois (no fim do século IV, o imperador Teodósio cria o Édito Tessalônico, tornando o cristianismo a religião do império, e, criando, oficialmente, a Igreja Católica Apostólica Romana. O professor Rodolfo observa que havia, ali naquele momento, um atrito entre o cristianismo e o catolicismo. O cristianismo eram os grupos que criam que Jesus era o Messias, ao passo que o Catolicismo era a religião oficial do império, particularmente de Roma.
O Catolicismo tira toda a visão divina do imperador, mas Teodósio teve uma grande sacada. Ele seria não apenas o imperador, contando com o apoio do exército, mas seria o Papa, o chefe da Igreja. Temos, pois, o ‘cesaropapismo’.

Em suma, o que temos em Roma nesse período: a quebra da estrutura militar; o aumento da inflação; o fim do expansionismo; a redução de escravos. As soluções foram, primeiro, o Édito Máximo, para controlar a inflação com o tabelamento de preços, o que não deu certo. Em seguida temos a substituição da mão de obra escrava pela mão de obra servil, e essa medida surtiu efeito, mas declinou ainda mais o comércio, expandindo a característica de agricultura de subsistência, e à ruralização da sociedade romana. Por fim, temos a adoção do cristianismo como a religião do Estado.
Gabriel Chalita faz da desqualificação dos exércitos. “Entre os anos 235 e 285 o governo de Roma esteve entregue aos desmandos de uma aristocracia militar que o conduziu ao caos. O exército se enfraqueceu enquanto instituição, pois passara a admitir mercenários desqualificados e inescrupulosos, que se valiam da condição de soldados para praticar o banditismo. Em decorrência, o Império ficou cada vez mais vulnerável nas fronteiras, alvo das pressões dos germânicos, povos que há muito ameaçavam os domínios romanos, à procura de terras férteis e de clima ameno” (CHALITA, p. 94). Ou seja, para Chalita foi o banditismo oriundo do contrato de mercenários que enfraqueceu o exército e cedeu as fronteiras, ao passo que, para Rodolfo Neves é o fato de o exército estar desfragmentado por conta da autonomia dos generais e por estes estarem cuidando de seus próprios interesses, não mais guardando os limiares do Império. O fato é que não parece haver um consenso (pelo menos não entre nossas fontes) sobre qual teria sido causa exata para a queda de Roma
O certo é que as fronteiras estavam fragilizadas. Então os bárbaros que migravam do leste para o oeste, i. é., do Oriente para o Ocidente, os hunos, forçaram os bárbaros germânicos a invadirem Roma. Parte dos bárbaros germanos se aliam ao exército e até lutam juntos contra os hunos. O imperador até tenta usá-los como soldados, mas tal empreitada não surtiu efeito e finalmente acontece a grande invasão bárbara. Antes de mencioná-la, voltemos um pouco e perpassemos essa história destacando, dessa vez, os grandes vultos que a permearam.

GRANDES VULTOS DO IMPÉRIO ROMANO

CALÍGULA

Além de Otávio, temos de mencionar, pouco tempo depois, o terrível e sanguinário Calígula, que governou de 37 a 41 d. C. Alguns julgam que tenha sido um dos piores, senão o pior
homem a tomar o poder, e sem dúvida, um dos mais vis seres humanos que já pisou na terra*. João Calvino, no volume 1 das Institutas da Religião Cristã, chega a dizer o seguinte: “Em parte alguma se lê de ter existido um desprezo mais incontido ou desenfreado pela divindade do que em Caio Calígula. Entretanto, ninguém tremeu mais miseravelmente sempre que se patenteava alguma manifestação da ira divina. Desse modo, malgrado seu, fremia de pavor diante de Deus, a quem publicamente profiava por desprezar. Isso, aqui e ali, se sobrevém também aos que lhe fazem páreo; portanto, quem é mais petulante em desprezar a Deus, de fato também, ao mero ruído de uma folha que cai, desmedidamente se perturba [Levíticos 26:36]” (CALVINO, p. 45). Pois bem, acabou sendo assassinado. Seu sucessor foi Cláudio, seu tio.

CLÁUDIO

Os aquedutos foram construídos ao longo de vários séculos! Mas o Imperador Cláudio, um homem desfigurado que sofria de gagueira, que mais contribuiu para isso. Antes de subir ao poder, era motivo de risos, e era considerado inválido. Tinha vários problemas, como salivação, manias e afins. Apesar disso, foi esperto o bastante para tomar o poder quando teve oportunidade. No ano de 41, a maior parte da família real fora assassinada para vingar o reinado sangrento do sobrinho de Cláudio, Calígula. Cláudio foi poupado e conseguiu subornar os guardas pretorianos para declararem-no imperador, o que mudaria os rumos da história romana. Quando governou, governou bem. Durante seu reinado, o Império progrediu de várias formas: na fronteira, seus exércitos conquistaram a Britânia, o que nem Júlio César havia conseguido fazer. Em Roma, construiu dois grandes aquedutos. Ao chegar à cidade, os aquedutos desembocavam em três tanques de contenção: um para os banhos públicos; um para as fontes públicas de água potável; e um terceiro reservado para o imperador e outros nobres. Havia água pra todos, o que é impressionante pois, nem mesmo na Idade Média encontramos tal fartura. Assim, pois, Cláudio, que reinou de 41 a 54 d. C., revitalizou o sistema de distribuição de águas. Governou, pois, Cláudio, muito bem, mas suas escolhas na vida pessoal acabaram por derrubá-lo, pois era muito voltado às mulheres, e era subserviente às suas esposas. Casou-se com sua sobrinha, a irmã de Calígula, chamada de Agripina, chocando o império. Era uma mulher orgulhosa e ambiciosa, e dominou Cláudio, tornou-se imperatriz e buscou garantir que seu filho tornasse-se o seguinte imperador. Em 50 d. C., Agripina convenceu Cláudio a nomear seu filho, de um casamento anterior, como seu herdeiro ao invés do próprio filho biológico do imperador. Quatro anos depois estava morto, envenenado por Agripina. O novo imperador era Nero, talvez o único que se equipare a Calígula.

NERO

Nero tinha 16 anos de idade. Seria um futuro tirano e destruiria a cidade. Em 64 d. C. um pequeno incêndio se alastra e reduz boa parte da cidade de Roma a cinzas, deixando milhares de desabrigados. Nero, que governou de 54 a 68 a. C., foi o maior suspeito de ter provocado o incêndio. Foi supostamente visto tocando sua lira no topo de uma torre próxima.
Após o incêndio, confiscou um terço da cidade como propriedade particular e construiu um extravagante complexo de palácios ocupando 80 hectares do centro de Roma. Tal atitude o incriminou mais ainda, pois os boatos eram que ele começou o incêndio para limpar a cidade para que pudesse construir o palácio. Nero culpou os cristãos, e centenas deles foram queimados e enforcados nas ruas de Roma. E Nero cometeu muitas outras excentricidades abomináveis. Deu de presente a cabeça da ex-esposa para sua nova esposa. Doravante, matou-a a chutes quando ela estava grávida. A maioria dos atos que cometeu o fez após o mais hediondo de todos: matar sua própria mãe, Agripina, que havia matado seu marido Cláudio, antigo imperador, para que ele entrasse no poder. Tentou matá-la várias vezes. Dizem que na última tentativa, quando guardas foram enviados para assassiná-la, ela pediu para que a golpeassem no útero, de onde Nero viera. Reza a lenda que Nero foi assombrado pelo fantasma da mãe pelo resto da vida, e, cada vez mais solitário, terminou completamente louco. Num de seus delírios, quis construir um imenso palácio no centro da cidade e desapossou pessoas ricas para tal, inclusive matando-as, e usando dinheiro público para tal empreendimento. O ‘Palácio Dourado’ foi construído pelos escravos.
A cada três pessoas em Roma, uma era escrava. De fato, Roma não existiria sem a contribuição dos escravos. O trabalho escravo gerava os lucros necessários para manter e expandir o império. O trabalho escravo também foi importante para a construção dos grandes projetos.
Com a construção do grande palácio, no centro da cidade, o Palácio de Ouro, com áreas para animais selvagens e tudo [palácio que subjaz, em parte, sob a Roma moderna], Nero acabou de demonstrar sua soberba e egocentrismo. Não governava para o povo. Tudo era para ele e somente a ele visava agradar. Suas ações estavam para além do que o povo e o senado achavam aceitáveis e ele pagou o preço. Em 68 d. C., pouco depois de mudar-se para o Palácio Dourado, foi derrubado por um golpe da oposição e declarado inimigo público, sendo caçado como um fugitivo pelos próprios guardas, acabando por se matar, com a ajuda de um leal escravo. Nero se via mais como um astro, um ator, do que como um imperador, e tal o declarou no momento de sua morte.

VESPASIANO

Após a morte de Nero, os romanos enterraram qualquer vestígio de suas lembranças, de seu reinado opressor. Em 104 d. C. sua ‘casa dourada’ foi recoberta com pedra e cascalho e ‘se tornaria um complexo de banhos construído ali mesmo pelo imperador Trajano’. Permaneceu enterrada e esquecida sob a cidade por cerca de 1300 anos. No século XVI uma depressão fez com que exploradores redescobrissem a antiga construção. Ali houve artistas renascentistas que se inspiraram no ‘grotesco’, i. é., em ‘criaturas estranhas’.
Após a morte do imperador Nero, havia um novo problema. Sempre houve uma linhagem real, mas, após a morte de Nero, o trono estava vago. Ninguém sabia o que aconteceria, a não ser que haveria conflitos e que só haveria paz quando terminassem. Os generais do exército começam a lutar entre si em busca do poder. O vencedor é Vespasiano, que comandou as tropas romanas na Judéia. Ele reina de 69 a 79 d. C. Vespasiano era um ‘anti-nero’, alguém completamente diferente de seu predecessor. Era simples, direto e prático. E, ao invés de explorar os engenheiros para fins pessoais, colocou-os a serviço do povo. Ele drenou as águas do lago artificial do Palácio de Ouro de Nero e construiu o Coliseu ali, para divertir o povo.
Já havia muito tempo que os gladiadores derramavam sangue nas arenas. Mas o povo romano ansiava por espetáculos mais ousados. O Coliseu daria aos gladiadores esse campo de batalha permanente, com carnificina sem precedentes. O Coliseu foi construído por volta de 72 d. C., e foi financiado pelo saque de relíquias do templo judeu no ataque a Jerusalém [70 d. C.]. Dessa campanha, 12 mil judeus foram levados para trabalhar na construção do anfiteatro (o Coliseu). Em 8 anos atingiu 50 metros de altura. O Coliseu era a mais alta estrutura da Roma Antiga. Para saber quem era a cidade de Roma bastava descrevê-la como a maior cidade, a mais rica, mais poderosa de todas, o que o Coliseu, como um símbolo, atestava. Em 80 d. C. já estava pronto, mas Vespasiano não viveu para vê-lo, morrendo de causas naturais um ano antes (portanto, 79 d. C.).

TITO

A cerimônia de inauguração veio de seu filho e sucessor, Tito. Os romanos lotaram o Coliseu por 100 dias seguidos para ver todo tipo de carnificina imaginável. A batalha dos gladiadores eram uma das programações principais do dia, eram um espetáculo e competiam popularidade com as batalhas navais que ocorriam dentro do próprio Coliseu! Seriam usados, possivelmente, os canais de água para o lago artificial que Nero havia construído. Embora as batalhas navais tenham sido um triunfo da engenharia, em 10 anos perderam espaço por conta de uma reforma no coliseu que iria revolucionar os jogos: uma substrutura de dois andares abaixo da arena chamada ‘hipogeu’, onde um sistema de elevadores e alçapões faziam surgir, repentinamente do solo, animais e homens armados para atacar indivíduos distraídos. Era o apogeu do poder Romano. As próximas gerações usariam esse poder para criar coisas ainda mais ousadas.
Foi Tito quem deu cabo a uma empreitada de seu pai e, quando ainda general, destruiu Jerusalém em 70 d.C., como havia profetizado Jesus (Mateus 23:37-38; Marcos 13:14). Chalita, com brilhante lucidez, expõe a problemática geral que levou Roma a atacar os judeus: “Apesar da tolerância de Roma às práticas religiosas e às tradições culturais dos povos conquistados, nem todos aceitaram pacificamente a dominação. A região da Judéia, entre o mar Mediterrâneo e o deserto da Jordânia, anexada como protetorado nos tempos de Augusto, se destacaria pela resistência ao domínio romano. Era habitada pelos hebreus havia mais de mil anos, que a consideravam sua ‘terra prometida’, pois, segundo a tradição desse povo, Jeová (de Yahweh, ‘Deus, em hebraico) teria designado a Abraão, um dos patriarcas bíblicos, aquela região como a terra sagrada onde estabeleceria seu reino. Povo monoteísta, fortemente arraigado a tradições religiosas, os judeus esperavam o Messias, o libertador e salvador de Israel apontado por Jeová, convicção difundida pelas revelações de seus profetas na Bíblia” (CHALITA, p. 90)*.

TRAJANO

No final do século I AD, o império romano se estendia, horizontalmente, de Portugal à Pérsia e, verticalmente, das Ilhas Britânicas ao Egito. 50 milhões de pessoas de culturas diferentes eram leais a um imperador, que sempre fora italiano, até o ano de 98 d. C., quando um estrangeiro assumiu o governo do império. Seu nome, Trajano (98 – 117 d. C.). Trajano era um guerreiro ambicioso, da província espanhola que, por suas conquistas militares, despertou a atenção do imperador, de saúde decadente, Nerva. Sem descendentes, Nerva adotou Trajano como filho e herdeiro. Para provar lealdade ao povo da capital, precisava recorrer ao seu senso de supremacia. Os romanos pensavam alto, grande, longe. O tamanho do império, dos monumentos criados, as ambições de seus governantes... pensar alto era uma característica tipicamente romana. Trajano, então, começou a trabalhar em obras, dentre as quais estão um dos últimos aquedutos; a reparação de estradas; e criou novos banhos públicos sobre as fundações da casa de Nero. Tudo isso, evidentemente, demandava muito dinheiro, o que, em termos romanos, significava que teria de obter mais conquistas. Decidira, pois, cerca de 100 d. C., conquistar a Dácia (região que hoje engloba a Romênia e a Hungria), que se defender dos romanos a séculos. 7 anos depois (107 d. C.), os dácios se renderam. Muito ouro foi saqueado da nova província. Trajano foi quem mais estendeu o tamanho do império Romano, conseguindo, com isso, mais espólios que qualquer outro e, portanto, tendo muito dinheiro à disposição.
O Fórum era o centro de encontro do povo, onde se discutia política, se vendiam coisas, se reunia [semelhante, talvez, à Ágora dos gregos], onde acontecia a vida pública. Era, pois, muitíssimo movimentada. A cada tempo, como Roma era a capital do mundo, a cidade crescia mais e mais. Trajano resolveu construir o maior fórum de todos os tempos. O engenheiro responsável era ‘Apolodoro de Damasco’, um arquiteto grego que havia projetado pontes para Trajano durante as batalhas contra a Dácia. Tinha que lidar com o desafio da falta de terreno para abrigar a ambição de Trajano. Em 112 d. C. o Fórum de Trajano estava pronto, com bibliotecas, e uma basílica para as atividades forenses. Este Fórum ficou de pé por 700 anos e a maior parte sucumbiu a um terremoto no século IX. Sobreviveu um mercado, de seis andares, na encosta da colina, com mais de 150 lojas com calçados e objetos de arte sendo vendidos. É possível que vendessem artigos de várias culturas do império e, quiçá, até de fora dele.
As proezas na engenharia e suas conquistas militares fizeram com que Trajano tornasse-se um dos mais populares imperadores da história de Roma.

ADRIANO

Entretanto, o próximo imperador teria a árdua tarefa de proteger tão vasto território conquistado. Para tal fim, construiu uma barricada enorme para separar o império romano dos bárbaros. Após sua morte, em 117 d. C., o controle do império passou a seu filho adotivo, Adriano, já que não tinha filhos biológicos. Adriano reinou de 117 a 138 d. C.
Adriano, como Trajano, era um habilidoso guerreiro. Adriano percebeu que o império não conseguiria manter por muito tempo seus limites, suas fronteiras. Quanto mais fossem estendidas, menos dinheiro haveria para defende-las. Assim, ele não buscou conquistar mais territórios, mas manter o que já tinham. Um exemplo dessa política de Adriano pode ser visto no norte da Britânia, onde bárbaros residiam. Havia a ideia de que era preciso haver soldados disciplinados em toda parte, o que garantiria o império e, para isso, era preciso combater a ociosidade nos soldados. Adriano, pois, colocou seus soldados num empreendimento. Construiriam um muro de defesa de mais de 100 km! Hoje temos apenas as fundações da muralha de Cláudio. Mas a muralha tinha quatro metros e parapeitos que adicionavam mais dois metros, rodeada por um poço de 3 metros! Assim, os invasores teriam de escalar 9 metros! E, se passassem pela muralha e pelos soldados, ainda teriam que passar a vala, um poso de trinta e seis metros que corria de fora a fora. Eram necessários de 15 a 25 mil homens para o trabalho. A cada um quilômetro e meio havia um forte que abrigava 60 soldados.  Entre os fortes haviam duas torres menores onde os sentinelas vigiavam constantemente. Ao longo da muralha haviam 17 superfortes, que abrigavam até 1000 soldados. O forte continha casas, pátios, locais de banho e afins, e logo cidades surgiram próximas para atender à demanda dos soldados por suprimentos e demais artigos. Em 5 anos a barreira estava completa. Mas o verdadeiro poder da muralha era psicológico. A fachada imponente e interminável indicava o poder do império Romano. Um dos historiadores do documentário compara a muralha de Adriano com o muro de Berlim pois buscava controlar a mistura das pessoas, que tornaria a situação incontrolável.
Em 126 d. C. Adriano volta à Roma e cria mais uma das maravilhas da engenharia romana. Ele queria deixar sua marca em Roma. 150 anos atrás Augustus Otávio tinha transformado a cidade de alvenaria numa cidade de mármore, e Adriano queria um legado na engenharia igualmente memorável. Ele decidiu reconstruir o templo incendiado, datado da época de Augustus [#DÚVIDA: Incendiado no ‘acidente’ de Nero?]. O Panteão seria construído e teria o maior vão aberto de concreto no mundo por 18 séculos! Não sabemos quem é seu arquiteto! Há hipóteses de que tenha sido o próprio Adriano! Outra hipótese é Apolodoro de Damasco, o arquiteto do Fórum de Trajano, que era cético quanto às capacidade arquitetônicas de Adriano, e era corajoso suficiente para afirmar isso. Assim Adriano forçou-o a se matar quando teria rejeitado as alterações do projeto que sugerira.
Em 138 d. C., 8 anos após ordenar a morte do maior arquiteto romano, Apolodoro, Adriano morre de causas naturais. As duas décadas de seu governo foram a fase mais produtiva da engenharia romana.
Knight e Anglin dizem que tanto Trajano quanto Adriano também perseguiram e mataram muitos cristãos (KNIGHT; ANGLIN, p. 22).

MARCO AURÉLIO

Pouco depois de Adriano temos o grande imperador e filósofo estoico Marco Aurélio, que toma o poder em 161 e reina até 180. O professor Rodolfo Neves, como já observamos, nota que, a partir do governo de Marco Aurélio a expansão romana desacelera até minguar. É importante destaca-lo justamente por ser uma figura importante para a filosofia.
Marco Aurélio também perseguiu o cristianismo. Teria sido sob seu governo que aconteceu o épico martírio de Policarpo. Bom, Policarpo era bispo em Esmirna mas acabou afastando-se das aparições públicas por suspeitar que estava sendo espionado. A esta altura muitos mártires cristãos já havia morrido. Às escondidas, continuou a servir a Deus. Mas descobriram onde ele estava e foram lá para o prender. Knight e Anglin dizem que ele se encomendou a Deus em uma oração antes de sair, na presença dos soldados. O resto, os mesmos autores nos contam: “Diz-se que o fervor de sua oração comoveu de tal maneira os oficiais que eles se arrependeram de ser os instrumentos da captura. Montaram-no num jumento, e trouxeram-no para Esmirna, onde estava reunida uma grande multidão para celebrar a festa dos pães asmos. Por consideração pela sua idade avançada e pela sua sabedoria, Nicites, homem de grande influência, e seu filho Herodes, oficial da cidade, foram ao seu encontro e, fazendo-o entrar no seu carro, instaram com ele par que assegurasse a sua liberdade, tributando honras a César e consentido em oferecer sacrifício aos deuses. Ele recusou-se a isto e, por esse motivo, foi empurrado do carro com tal violência abaixo que na queda torceu uma coxa. Mas o velho servo de Deus continuou pacificamente o seu caminho, sem se perturbar com a rudeza de Herodes, indiferente aos gritos da multidão que, no seu ódio, empurrava-o de um lado para outro; e deste modo chegaram à arena” (KNIGHT; ANGLIN, p. 23-24). Sob julgamento é que temos a parte mais triste mas que consideramos uma das mais emocionantes já registradas: “quando o cônsul, comovido com o seu aspecto venerável, pediu-lhe que jurasse pela alma de César, e disse: ‘Fora com os ímpios!’ o velho mártir, apontando para os bancos cheios de gente, repetiu com tristeza: ‘fora com os ímpios!’. ‘Jurai’, disse o governador, compadecido, ‘e eu vos mandarei embora. Renegai a Cristo.’ Mas Policarpo respondeu com brandura: ‘Tenho-o servido durante oitenta e sete anos, e nunca Ele me fez mal. Como posso eu agora blasfemar contra o meu Rei e Salvador?’. ‘Jurai pela alma de César’, repetiu o governador ainda inclinado à compaixão, mas Policarpo respondeu: ‘Se julgais que hei de jurar pela alma de César como dizeis, e fingis não saber quem eu sou, ouvi a minha confissão livre: sou cristão; e se desejais conhecer a doutrina do cristianismo, concedei-me um dia para falar-vos e escutai-me’. O governador, notando com inquietação o clamor da multidão, pediu ao ancião que abjurasse sua fé, mas Policarpo se negou a fazer isso. [...] ‘Tenho à mão animais ferozes’, disse o governador, ‘lançar-vos-ei a eles, se não mudardes de opinião’ – ‘Mandai-os vir’, disse Policarpo tranquilamente. [...] e sua tranquila intrepidez exasperou o governador, que por esse motivo ameaçou queimá-lo, mas o intrépido Policarpo respondeu: ‘Ameaçais-me com fogo que arde por um momento, e depressa se apaga, mas nada sabeis da pena futura, e do fogo eterno reservado aos ímpios’” (KNIGHT; ANGLIN, p. 24-25). Bom, acabou-se a paciência do governador que mandou queimá-lo. Conta-se que as chamas não o tocavam! Então mataram-no a espadada mesmo. Deveras emocionante a história desse mártir, não?


CARACALAS

Quase um século depois, um imperador encomendou uma das últimas grandes construções de Roma, e provocou a queda e destruição do império romano.
Nas décadas que se seguiram o governo de Adriano, Roma manteve-se hegemônica e proeminente na Europa, Norte da África e Oriente Médio. Seus imperadores detinham autoridade absoluta, seus exércitos permaneciam invencíveis e seus arquitetos continuavam a impressionar. Sua maior realização, um complexo imenso de termas romanas, encomendada pelo corrupto imperador Caracala (211 a 217 d. C.). Caracala ascendeu ao poder à moda antiga: por meio do assassinato. Seu pai desejava que ele e seu irmão governassem o império juntos, mas Caracala e Gueta se odiavam e, após a morte de seu pai era questão de tempo até que um eliminasse o outro e Caracala agiu primeiro. Caracala matou Gueta na frente da mãe! O Estado tentou erradicar sua memória, mas vestígios mostraram sua existência e rascunhos comprovaram. O império, pois, voltara às mãos de um tirano que governava pelo medo. Ele se considerava acima dos homens, na esfera dos deuses.
Caracala queria deixar um legado que lhe renderia fama eterna, como o Panteão de Adriano; o Fórum de Trajano ou o Coliseu de Vespasiano. Para ‘compensar’ seus pecados, construiu um complexo de termas. As termas estava no cotidiano romano a séculos. Prédios com piscinas de águas quentes e frias. Mas eram mais do que lugares para se banhar. Eram como se fossem clubes, para todas as classes. Haviam, neles, muita liberdade e promiscuidade. Havia horários separados para atender homens e mulheres. Era um lugar público, portanto, grátis. Lá podiam malhar, se produzir, ir às saunas... etc. Eram, pois, projetos populares entre os imperadores que buscaram deixar termas extravagantes como herança de seu nome. Caracala queria superar a todos e criou um superclube com piscinas ‘olímpicas’, restaurantes e até bordéis! Acomodava confortavelmente quase 2000 pessoas de uma só vez! As termas de Caracalas foram inauguradas em 216 d. C., e foram uma das últimas obras magníficas do império romano. Ali toda a tecnologia adquirida pelos romanos estavam juntas para produzir aquele monumento.
Embora as termas de Caracala tenham sido um sucesso, seu reinado não teve a mesma fama. Exauria os cofres públicos com as termas e com as invasões à Pérsia e Armênia que não eram governadas por um imperador romano desde Trajano (98-117 d. C.), um século antes. Caracalas queria obter as mesmas vantagens que Trajano nas conquistas. Após 6 anos de reinado cruel, Caracalas foi esfaqueado por seus guardas numa campanha no oriente (portanto, reinou de 211 a 217 d. C.). No mesmo ano um incêndio destruiu o Coliseu. 20 anos depois foi reconstruído, mas a capital nunca se recuperou para viver seus dias de glória, obtidos na época de Augustus, Vespasiano e Trajano.

DIOCLECIANO

Em 285 Diocleciano surge para lidar com a instabilidade militar e econômica do vasto império. “A saída foi dividir o Império em duas áreas administrativas, governadas por dois imperadores: o Império Romano do Oriente, com sede na Turquia, que coube a Diocleciano, e o Império Romano do Ocidente, com sede na Itália, que foi delegado a Maximiliano. Subordinados a Diocleciano e a Maximiliano, forma nomeados dois outros imperadores para cuidar das regiões da Hispânia, Gália, Bretanha, Ilíria, Macedônia e Grécia” (CHALITA, p. 94). É importante observar que, virtualmente, Diocleciano ainda era o chefe máximo do Estado. Maximiliano se lhe submetia. Foi, pois, Diocleciano o responsável por essa Tetrarquia.
Diocleciano foi um grande perseguidor da Igreja. No seu reinado quatro editos com esse intuito foram redigidos. Knight e Anglin nos falam sobre: “o primeiro ordenando a destruição de todas as igrejas e dos escritos sagrados – edito este sem dúvida instigado pelos filósofos; o segundo, determinando que todos os que pertencessem às ordens clericais fossem presos; o terceiro, declarando que nenhum seria solto a não ser que consentisse em oferecer sacrifício; e o quarto mandando que todos os cristãos em qualquer condição em toda parte do império, oferecessem sacrifício e voltassem a adorar os deuses, sob pena de morte em caso de recusa” (KNIGHT; ANGLIN, p. 49).

CONSTANTINO

Podemos começar com os dados biográficos que Knight e Anglin nos oferecem: “Nasceu na Grã-Bretanha, e dize-se [sic.] que a sua mãe era uma princesa britânica. Depois da morte de seu pai que foi muito estimado pela sua justiça e moderação, as legiões romanas estacionadas em York saudaram-no como César e vestiram-no com a púrpura imperial. Apesar de Galeriano se ofender com esta aclamação, ele não estava preparado para se arriscar numa guerra civil, opondo-se a ela; e portanto ratificou o título que o exército dera a seu general, e concedeu-lhe o quarto lugar entre os governadores do Império. Durante os seis anos que se seguiram administrou Constantino a Prefeitura da Gália com uma perícia notável, e ao fim desse tempo tomou posse do todo o império romano, visto que Maximínio e Galério, no intervalo, tinham morrido. Apenas restava agora um competidor ao trono, Maxêncio” (KNIGHT; ANGLIN, p. 53). Ele é proclamado Augusto por seu exército em 306 e, em 312, enfrenta uma batalha terrível contra Maxêncio, a chamada ‘batalha da Ponte Mílvio’, para ver quem realmente assumiria o cargo de imperador no Ocidente. Ferreira e Myatt nos contam como foi: “Durante a batalha da Ponte Mílvio, que ocorreu em 28 de outubro de 312, Constantino afirmou ter a visão de que, se ele se tornasse cristão, venceria o exército de seu inimigo, Maxentius, na disputa pelo controle da metade ocidental do império. Constantino assumiu o cristianismo e venceu um exército que, segundo alguns, era superior, na proporção de quatro para um! [...] Segundo se conta, enquanto Constantino olhava para o sol que se punha, teve uma visão das letras gregas XI (Chi-Rho, as primeiras duas letras de Cristo [e, grego) entrelaçadas com uma cruz, que lhe apareceram enfeitando o sol justamente com a inscrição In Hoc Signo Vinces – que, traduzido do latim, significa ‘sob este signo vencerás’. Constantino deu ordem para que o símbolo passasse a fazer parte dos escudos e estandartes de seu exército” (FERREIRA; MYATT, p. 921-922).
Depois da vitória, Constantino declara-se cristão. William Smith crê que ele teria se convertido de fato: “Continuou a chamar-se de Pontifex Maximus’ (sumo sacerdote). Matou a esposa, o filho e Licínio, seu cunhado. E não resta dúvida, motivos políticos pesaram bastante na sua relação com a Igreja. Mas, há outras indicações de que sua conversão foi genuína” (SMITH, p. 110). Não estamos tão seguros disso, pois, Chalita nos informa que “Constantino instalou uma monarquia autocrática, reunindo amplos poderes em suas mãos e, apesar de se professar cristão, não aboliu o luxo na corte imperial nem o privilégio de ser cultuado como um deus” (CHALITA, p. 95). Para piorar o ‘quadro de acusações’, Ferreira e Myatt nos dizem que “Constantino nunca se submeteu, sob nenhum aspecto, à autoridade pastoral da igreja. Ele contava com conselhos de bispos influenciados pelas ideias de Ário, mas sempre se reservou o direito de determinar, ele mesmo, suas atitudes religiosas, pois se considerava o ‘bispo dos bispos’” (FERREIRA; MYATT, p. 922).
A propósito, em falar em Licínio, podemos falar um pouco mais dos atos políticos importantes de Constantino. “Com Licínio no leste, ele publicou, em 313, o ‘Edito de Milão’, pelo qual o cristianismo foi declarado uma ‘religião legal’ (religião lícita)” (SMITH, p. 109). O cristianismo, que fora perseguido severamente no decorrer dos três últimos séculos, agora não era mais proibido. Por que Constantino tomou essa atitude? Bom, os imperadores que o antecederam tentaram eliminar o Cristianismo com todo tipo de perseguição possível. Matava-os, levava-os como espetáculo sangrento no Coliseu e muitos outros atos de violência. Mas os cristãos não abandonavam sua fé. Pelo contrário, preferiam o martírio. “E muitos que tinham se apostatado nas perseguições, arrependeram-se e voltaram para a Igreja. Enfim, a Igreja cresceu como nunca antes!” (SMITH, p. 108). Smith prossegue “As perseguições, portanto, não somente fracassaram, mas ainda aumentaram o problema. O império tinha de exterminar o cristianismo, ou elevá-lo à religião do império. Não conseguiu a primeira alternativa, só restou a segunda” (SMITH, p. 109). Seguiu-se, pois, o velho ditado: ‘se não pode vencê-lo, junte-se a ele’ e Constantino, junto a seu cunhado, assinam o Édito de Milão.
Mas sua ambição não terminava. Dissemos que ele matou Licínio, seu cunhado. Licínio era o imperador do Oriente. Constantino queria ser o imperador máximo de Roma. Ferreira e Myatt nos informam que “em 324, depois de vencer outro rival – Licínio [o primeiro foi Maxêngio] – que era o imperador da metade oriental do império, Constantino se tornou o único imperador romano” (FERREIRA; MYATT, p. 922).
Seguindo ao quadro de ações importantes adotadas por Constantino, ele “convocou o Primeiro Concílio Ecumênico, que se reuniu em Nicéia, Nicomédia, em 325 d. C.” (HODGE, p. 341). Charles Hodge ainda nos explica os motivos para tal concílio: “Remediar a confusão que prevalecia no uso de várias palavras importantes em discussão sobre a doutrina da Trindade. Condenar erros que haviam sido adotados nas diferentes partes da Igreja. Elaborar uma declaração da doutrina que incluísse todos os elementos bíblicos e satisfizesse as convicções religiosas da massa dos crentes” (HODGE, p. 341). Podemos dizer que é a partir desse momento que temos a Igreja como uma instituição, uma organização oficial, embora alguma espécie de organização já se veja descrita no texto sagrado, no livro de Atos dos Apóstolos (cf., e. g., Atos 15:1-35). Mas, em geral, era uma ‘seita judaica’, que vivia esgueirando-se no império romano. Também não havia um predomínio de Roma, como pretendem alguns. A isso Ferreira e Myatt acrescentam: “O Concílio de Nicéia, ocorrido em 325, reconheceu três bispados como proeminentes: as igrejas de Alexandria, Roma e Antioquia*” (FERREIRA; MYATT, p. 923).
O nome ‘Constantinopla’, nos informa Chalita, surge quando, “em 330 [Constantino] escolheu a cidade de Bizâncio – um antigo porto grego, na península do estreito de Bósforo, ponto estratégico de rotas de comércio entre a Ásia e a Europa – como a capital oriental do Império, batizando-a de Constantinopla (atual Istambul)” (CHALITA, p. 95).

TEODÓSIO

Knight e Anglin, novamente, é quem nos dá informações biográficas: “Depois da morte do seu tio, o imperador Valente (um grande partidário de Ário), Graciano ficou como o único governador do império, mas, sentindo-se incapaz de suportar o peso de ansiedade inerente a esta nova responsabilidade, determinou investir com a púrpura imperial Teodósio, um espanhol de nascimento nobre. Era este o filho do general Teodósio, que tinha prestado bons serviços na Bretanha, durante o reinado de Valenciano, reprimindo as incursões dos pictos e escosses; e Graciano tinha toda confiança na sua energia e habilidade” (KNIGHT; ANGLIN, p. 64).
Chalita credita a ele a separação do império: “Roma e Constantinopla mantiveram-se como capitais até que, em 395, o imperador Teodósio oficializou a separação dos dois Impérios” (CHALITA, p. 95). Ao passo que o Império Ocidental sofria de todas os problemas mencionados, o Império Oriental ia muito bem, e sobreviverá praticamente por quase toda a Idade Média.
Vimos que Constantino legalizou o cristianismo no império. “Mas o passo seguinte foi dado pelo Imperador Teodósio ‘o Magno’, em 380: o cristianismo foi decretado como a religião civil. Daqui em diante, o cristianismo ortodoxo era obrigatório, o paganismo constituía ofensa política. O paganismo passou a ser perseguido com zelo renovado, ganhando com isso nem a Igreja nem o império” (SMITH, p. 114). Portanto, a igreja passa de perseguida para perseguidora. Evidente que temos conversões que nada tinham a ver com as convicções das pessoas.
Entretanto, Teodósio estava crendo que servia a Deus em tal empreitada. Aliás, Knight e Anglin nos contam de sua submissão à igreja a ponto de aceitar a disciplina eclesiástica recomendada por Ambrósio (340-397) (cf. KNIGHT; ANGLIN, p. 64-66). Parecia, de fato, um homem crente, apesar dos pesares.

O FIM DO IMPÉRIO

Will Durant abre-nos uma janela elucidativa muito impressionante sobre o que acontecia naquele século V d. C.: “Seja qual for a causa, a riqueza de Roma transformou-se em pobreza, a organização em desintegração, o poder e o orgulho em decadência e apatia. Cidades voltaram a fundir-se com o interior sem distinção; as estradas ficaram sem manutenção e já não ecoavam a agitação do comércio; as pequenas famílias dos romanos de instrução eram ultrapassadas, em número, pelos vigorosos alemães sem instrução que cruzavam, ano após ano, a fronteira; a cultura pagã cedeu aos cultos orientais; e, quase que imperceptivelmente, o império se transformou em papado” (DURANT, p. 93). Falaremos sobre o domínio católico na Idade Média. Detenhamo-nos em perceber a fragmentação política e econômica da sociedade romana. Os bárbaros acabaram por diluir o império ocidental.
Grande parte dos invasores eram bárbaros germânicos: alamanos, francos, anglos e saxões. São eles que deram origem ao feudalismo, e deixam algumas características para Roma, como, e.g., maior ruralização da economia; fragmentação da política, pois eram tribais e, assim, não tinham uma noção de ‘Estado’; por fim, a ‘relação de comitatus’, ou seja, uma relação entre o líder bárbaro e os guerreiros. O líder bárbaro oferecia terra aos guerreiros e os guerreiros ofereciam fidelidade militar.
Com a queda de Roma, haverá uma pequena transformação na ‘relação de comitatus’. Ao invés do líder bárbaro teremos o rei, um nobre proprietário de terras. Os guerreiros serão a nobreza. Essa relação, no feudalismo, receberá o nome de ‘suserania e vassalagem’.

Em 476 d. C., o último grande líder bárbaro, Odoarco, invade Roma, governada pelo imperador Rômulo Augusto, e causa-lhe a queda. Mas o império romano que cai é o império do Ocidente, pois, como já vimos, em 395 d. C. o império romano foi dividido em dois: império romano do ocidente e império romano do oriente. O império romano do oriente continuará existindo como império bizantino. No lugar do império romano do ocidente, teremos o feudalismo que nada mais é que uma síntese dialética entre romanos e bárbaros. Os romanos deixam como herança o latim, o catolicismo, o militarismo, o sistema servil e a lei das XII tábuas (o direito); já os bárbaros deixam como herança a fragmentação política; a ruralização da sociedade; e o comitatus.

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* O professor Rodolfo Neves irá demonstrar, a partir daqui e ao longo da Idade Média, que, embora exímio professor de história, é um péssimo teólogo. Ele, por exemplo, nesta parte, desconsidera completamente a doutrina da Trindade. Iremos, portanto, aparando o texto do professor, corrigindo as falhas, quando for viável, ou apontando os erros mais grotescos nas notas de rodapé, cá embaixo. O mais chato é que é isso que ensinam nas escolas.
* O professor Rodolfo faz mais uma leitura míope do Cristianismo, pois nem todos que sofrem irão para os céus, embora os sofrimentos dos verdadeiros crentes serão, de fato, recompensados nos céus.
* Aqui há um compêndio de equívocos. É óbvio que em meras notas não é possível discorrer exaustiva e peremptoriamente sobre os assuntos. Permitam-nos breve observações. Primeiro, a valorização do espiritual é antes de Platão, na teologia hebraica (e.g., Salmo 73). Depois, não há um desprezo ao mundo material, já que a proposta escatológica inclui uma reconstrução deste para ser como ele era antes da Queda. Por fim, há bases bíblicas para o chamado ‘mandato cultural’, que compromete o cristão com o cuidado para com o mundo material, com o planeta, e isso desde o a Queda. Por esses prismas já dá pra ver a ignorância do meio secular ao olhar para o Cristianismo, e sua ‘crítica espantalho’.
Para não pensar que nossa crítica se dirige apenas ao professor Rodolfo Neves, podemos citar vários pontos perfeitamente contestáveis em Gaarder e Chalita. Por exemplo, Gaarder, no afã de comparar Sócrates e Jesus, esquece-se de que Jesus fazia reivindicações muitíssimo maiores do que as de Sócrates; que ele não era tão ‘enigmático’ em seus ensinos (exceto nas parábolas), antes, seu ensino é que é profundo demais; dentre outras dessemelhanças que pretendemos apontar em um artigo, posteriormente (cf. GAARDER, p. 81-82).
Chalita, por sua vez, diz que Jesus ensinava “a bondade de um Deus único e pai de todos, indistintamente” e esse é um equívoco teológico muito comum. Jesus estava longe ensinar que Deus é o pai de todos. Ele é pai dos que recebem a Jesus (e. g., João 1:12-13; Romanos 8:14-17). Doravante, Chalita diz que os apóstolos saíram a pregar, pelo mundo, para os judeus exclusivamente: “Com o propósito de divulgar o Evangelho na Judéia e entre as comunidades de judeus dispersas pelo Mediterrâneo e Ásia Menor, os apóstolos partiram em várias direções, propagando a fé cristã” (CHALITA, p. 93). Pensávamos que ninguém mais, após o episódio de Pedro em Atos 10, cometia essa gafe. Chalita também, na mesma página, fala das 14 epístolas paulinas que compõem o Novo Testamento. Acreditamos já ter dado exemplos o suficiente. Esperamos a oportunidade de demonstrar, também em um artigo, as várias gafes que outros, inclusive críticos ao cristianismo, cometeram.
* O professor Rodolfo Neves pede espaço para analogias. Ele observa que links com políticas contemporâneas de assistência automaticamente são feitas por muitos. Não seria interessante abordar isso sem abordar o liberalismo e neoliberalismo de um lado, e o kennesianismo de outro.
Mas Rodolfo Neves discute o futebol e a política do ‘pão e circo’, como se o futebol fosse um ópio do povo, um alienante. Na verdade, o futebol não só aliena o brasileiro, divertindo-o e tirando-lhe o foco dos problemas políticos, como também lhe confere um sentimento de superioridade. O que faz o Brasil sentir-se superior até mesmo às potências europeias: o Futebol. Quando ganhamos a copa de 1958 uma série de marchinhas enaltecendo o Brasil. O patriotismo, no Brasil, chega a se confundir com o futebol. Nelson Rodrigues dizia que o futebol é a pátria de chuteiras. Rodolfo chega a comparar a própria estrutura dos estádios com a do coliseu, e diz que a linguagem ainda permanece: ataque, defesa, artilharia... etc.
* Rodolfo Neves nota que os brasileiros sabem que isso não funciona pois, no final da década de 80 fomos vítimas de um tabelamento de preço feito por José Sarnei e sua ‘brilhante’ equipe econômica.
* Para conhecer mais e certificar-se do que estamos falando, sugerimos o seguinte vídeo do History Channel: https://www.youtube.com/watch?v=eax3PNgOri0.
* Antes que soltássemos os cachorros para cima de Chalita, na página seguinte, ele se retrata a tempo: “Se, de um lado, a comunidade judaica permanecia unida pelos preceitos ditados pelos Dez Mandamentos, de outro mostrava bastante dividida quanto à interpretação sobre a vinda do Messias. Assim, cada facção nutria uma expectativa diferente: o Messias poderia ser um libertador e vingador impiedoso com os inimigos ou um mestre dócil, virtuoso e pacificador. Um ponto, entretanto, era comum a todas as correntes: a fé em um únicos Deus e na vinda de um redentor. Precisamente esse ponto seria um dos pilares do cristianismo” (CHALITA, p. 91).
* Para deixa o ponto ainda mais claro, os autores completam: “E o Concílio de Calcedônia, ocorrido em 451, deu ao bispo de Constantinopla os mesmos privilégios e honra que ao bispo de Roma” (FERREIRA; MYATT, p. 923).

REFERÊNCIAS

CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã. São Paulo: Cultura Cristã. Vol. 1, 228p. (e-book).

CHALITA, Gabriel. Vivendo  Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.

FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, 1220p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.

HISTORY CHANNEL. Construindo um Império: Roma. Acessado em 05/04/2014 em:

HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo:Editora Hagnos, 2001. 1777p.

KNIGHT, A. E.; ANGLIN, W. História do Cristianismo. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2 ed., 1983, 352p.

NEVES, Rodolfo. Civilização Romana – Alto Império. Acessado em 05/04/2014 em:

NEVES, Rodolfo. Civilização Romana – Baixo Império. Acessado em 05/04/2014 em:


SMITH, William S. Do Pentecoste até o Renascimento. Patrocínio: CEIBEL, 4 ed., 1984, 342p.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

O Materialismo Antigo - de Anaxágoras a Epicuro

Iremos, agora, dissertar sobre o materialismo filosófico que, salvaguardando as nuances diferenciadoras, pode ser chamado, também, de naturalismo filosófico. Aqui, pois, materialismo deve ser diferenciado de materialismo moral; e naturalismo filosófico deve ser diferenciado da atitude do biólogo e suas pesquisas. Com tais ressalvas, podemos introduzir nosso assunto de forma mais apropriada.
Ronald Nash observa que “antes de Albert Einstein e de outros cientistas responsáveis pela revolução na física que levou à era nuclear, a ciência do século 19 explicava o universo como sendo uma coleção de átomos individuais que, em combinações diversas, inventava tudo o que existia. [...] um tipo similar de atomismo, simplista nos aspectos específicos, existia já na Grécia antiga durante o tempo de Sócrates e Platão, sendo revivido e modificado pela escola de filosofia conhecida como epicurista” (NASH, P. 45).
Exploraremos os pensadores da antiguidade que refletiram em termos materialistas. São, tal como Tales, Anaximandro, Anaxímenes, Heráclito e Parmênides, filósofos da natureza*1. Entretanto, são naturalistas no sentido especial que mencionamos acima. Por isso, Nash assim comenta sobre eles: “A maior parte dos filósofos que vieram antes de Sócrates, Platão e Aristóteles é descrita como naturalista. [...] Tendiam a dizer, comparativamente, pouco sobre temas humanos como conhecimento e ética. Uma das razões pelas quais eram chamados de naturalistas é porque tais pensadores concentravam sua atenção na natureza em vez de coloca-la nas questões humanas. [...] Os antigos pensadores gregos geralmente pensavam que o mundo natural, ou universo físico, era a única realidade existente. Uma das consequências disso foi sua negação da existência de qualquer coisa fora dos limites do universo físico” (NASH, p. 45). A propósito, Durant acredita que a filosofia natural teria de descambar-se em materialismo mesmo, e elabora essas palavras resumindo o histórico da cosmovisão na antiguidade: “A princípio, essa filosofia era física; olhava para o mundo material e perguntava qual era o final e irredutível componente das coisas. O resultado natural dessa linha de pensamento foi o materialismo de Demócrito [...] Esta era uma das principais correntes da especulação grega; ficou subterrânea durante algum tempo, na época de Platão, mas emergiu em Epicuro [...] e tornou-se uma torrente de eloquência em Lucrécio” (DURANT, p. 26).
Por isso, voltaremos, um bocado, no tempo, a começar pela época dos filósofos da natureza, iniciando, pois, em Anaxágoras, e terminaremos em Lucrécio, no último século antes do nascimento e ressurreição de Jesus Cristo e, também, o final da República Romana (contexto que já trabalhamos historicamente). O método será apresentar cada um dos pensadores com as informações que colhemos e, em seguida, suas ideias nos ‘locis’ da filosofia, traçando um desenvolvimento histórico do materialismo, dos precursores até à ideia do atomismo em si, seguido, por fim, de uma avaliação. Vamos, pois, dar as boas-vindas a Anaxágoras, Empédocles, Demócrito, Leucipo, Epicuro e Lucrécio!

ANAXÁGORAS

Sobre este filósofo, Gaarder informa: “O que há de interessante ainda sobre Anaxágoras é o fato de ele ter sido o primeiro filósofo de Atenas, cuja vida conhecemos em parte. Natural da Ásia Menor, aos quarenta anos aproximadamente ele se mudou para Atenas. Ali foi acusado de ateísmo e teve que deixar novamente a cidade” (GAARDER, p. 52). Essa condenação de Anaxágoras, segundo Osborne, se deu no ano de 450 a. C. (PRADEAU, p. 31). Durant e Gaarder nos contam que ele teria nascido em 500 a. C. e morrido em 428 a. C. (DURANT, p. 66; GAARDER, p. 51).
Gaarder ainda nos informa sobre algumas afirmações ‘perigosas’ (para aqueles tempos) que ele fez: “Dentre outras coisas, ele disse que o Sol não era um deus, mas uma massa incandescente, maior do que a península do Peloponeso. Anaxágoras interessava-se muito por astronomia. Ele acreditava que todos os corpos celestes eram feitos da mesma matéria que compunha a Terra. E chegou a esta convicção depois de ter examinado um meteorito. Por isto seria de se pensar que em outros planetas houvesse vida, dizia ele. Além disso, Anaxágoras explicou que a Lua não possuía luz própria, mas que tirava seu brilho de Terra. Finalmente, ele explicou como surgiam os eclipses" (GAARDER, p. 52). Sobre os eclipses Durant também comenta: “Anaxágoras [...] parece ter dado uma explicação correta dos eclipses solar e lunar” (DURANT, p. 67). E, além disso, teria feito pesquisas biológicas também, chegando a opinar na antropologia: “descobriu os processos de respiração nas plantas e nos peixes; e explicou a inteligência do homem, atribuindo-a ao poder de manipulação que veio quando os membros dianteiros ficaram liberados das tarefas de locomoção” (DURANT, p. 67).
Mas o que nos interessa mais são suas elucubrações filosóficas, e são nelas que nos demoraremos um pouco mais.

METAFÍSICA: A ARCHÉ

Na busca pela ‘arché’, Anaxágoras inovou o ‘mercado das ideias’. Ele não optou por um dos elementos que encontramos, como o fizeram Tales e Anaxímenes. Assim, Gaarder está correto ao afirmar: “Ele também não aceitava a ideia de que terra, ar, fogo ou água pudessem se transformar em ossos, pele ou cabelos” (GAARDER, p. 51). Também não optou por algo tão ‘transcendente’ como Anaximandro. “Anaxágoras prestou uma contribuição importante à era pré-socrática com uma única modificação do pluralismo corpóreo. Ele achava que o mundo material é composto de unidades eternas que chamou de ‘sementes’ (spermata)” (SPROUL, p.26). Mas temos que ter cautela. Ele não era exatamente um atomista (no sentido de postular uma partícula mínima indivisível). As ‘spermatas’ eram perfeitamente divisíveis até ao infinito, como nos informa Osborne: “Anaxágoras considerava que os elementos primeiros eram infinitamente divisíveis, de modo que não existe limite para a pequenez de uma gota de água” (PRADEAU, p. 20).
Mas cabia a Anaxágoras, pois, explicar como uma coisa se torna outra, ou seja, explicar as mudanças. Entendemos que ele está propondo que todas as coisas são compostas de partículas minúsculas, podemos chama-las de sementes, mas, como é que essas sementes tornam-se uma coisa ou outra? Gaarder é muito límpido em sua explicação: “Anaxágoras achava que a natureza era composta por uma infinidade de partículas minúsculas, invisíveis a olho nu. Tudo pode ser dividido em partes ainda menores, mas mesmo na menor das partes existe um pouco de tudo. Assim, se pele e cabelo não podem surgir de alguma outra coisa, então eles devem estar presentes também no leite que bebemos e nas comidas que comemos” (GAARDER, p. 51). É isso mesmo que acabamos de ler! Tal como numa célula, que contém todas as informações sobre nosso genótipo, em cada ‘semente’ temos partes de tudo que existe. Isso explicaria, na mente do filósofo, como ocorreriam as mudanças, conforme nos explica Osborne: “Um de seus objetivos [de Anaxágoras] foi claramente dar uma explicação à mudança química que respeite o velho ditado segundo o qual ‘nada vem do nada’. Anaxágoras explica que, em toda mudança aparente, o material de origem, que parece puro, é na realidade uma mistura, de maneira que, no material ao qual a mudança dá lugar, na realidade essa mistura já estava presente [...] Anaxágoras sustenta que tudo, até o depósito calcário deixado no fundo do copo, contém minúsculas combinações de todos os tipos de materiais” (PRADEAU, p. 20). Portanto, parece que Anaxágoras estaria ensinado que tudo que acontece é um rearranjo material. A filosofia deste filósofo, pois, não nos parece muito clara e o que nos resta são especulações.
O conceito claro é que ‘spermatas’, pois, são partículas que têm um pouco de todas as coisas, como conclui Gaarder: “Anaxágoras chamava estas partes minúsculas, que traziam em si um pouco de tudo, de ‘sementes’ ou ‘gérmens’” (GAARDER, p. 52). O que Anaxágoras propõe de inovador, de especial, é a ideia de que, de repente, haveria uma única forma de matéria (nada tão etéreo quanto a proposta de Anaximandro) que comporia todas as coisas.

METAFÍSICA: O MOVIMENTO

Já sabemos como Anaxágoras pensa em relação à realidade. Mas falta uma explicação para o movimento. Porque as coisas mudam e se movimentam? O que as faz agregarem-se ou separarem-se? Ele também faz, pois, aqui, suas contribuições. Gaarder, como lhe é peculiar, é muito claro na exposição: “Anaxágoras também imaginou um tipo de força que seria responsável, por assim dizer, pela ordem e pela criação de homens, animais, flores e árvores. A esta força ele deu o nome de inteligência” (GAARDER, p. 52). Ou seja, relacionado à criação de todas as coisas, ou melhor, à causa que fez as coisas surgirem de uma primeira mistura (portanto, presume-se, como é natural dos filósofos da natureza, a eternidade da matéria) ou ainda, em termos aristotélicos, a causa eficiente e formal do mundo, está um princípio imaterial, não composto. É Osborne quem nos esclarece: “A fim de explicar como o mundo nasceu de uma primeira mistura, Anaxágoras a denomina o ‘Intelecto’, uma forma de inteligência ordenadora que é a única realidade que não pode ser um composto. O ‘Intelecto’ parece igualmente designar a inteligência inerente a cada coisa viva” (PRADEAU, p. 20).
Temos, no entanto, que ponderar bem sobre esse conceito. Ele é inovador, em certo sentido (podendo ser visto de alguma forma análoga em Heráclito), mas não chega a ascender a ideias teístas, como nota Sproul: “Singular em Anaxágoras foi sua ideia de que a realidade compõe-se não apenas de matéria mas também de mente. Na busca de um princípio racional que organizasse e harmonizasse as sementes do mundo material, ele desenvolveu seu conceito de nous. [...] Contudo, Anaxágoras não preencheu seu conceito de nous com a ideia de um criador ou regente pessoal do universo. Seu conceito era mais abstrato, de um poder ou força impessoal que é o princípio teleológico (proposital) da realidade” (SPROUL, p. 26-27).

EMPÉDOCLES

Ele nasceu em “Arigento, cidade localizada na Sicília, ilha hoje pertencente ao território italiano” (CHALITA, p. 41). A data de seu nascimento é discutida. Gaarder nos fala de 494-434 a. C. (GAARDER, p. 49); Durant nos diz que ele teria falecido em 445 a. C. (DURANT, p. 67) e Chalita ainda arrisca 490-430 a. C. (CHALITA, p. 41). O fato é que foi um contemporâneo de Anaxágoras. Tal como os demais filósofos antigos, contribuiu para as ciências políticas e naturais. Chalita nos informa que Empédocles “destacou-se na política como defensor da democracia” (CHALITA, p.41). E Osborne nos fala de contribuições científicas e até existenciais e morais (religiosas): “As obras de Empédocles reúnem análises científicas (sobre a sensação e a respiração, por exemplo) e explicações profundamente religiosas (sobre nosso lugar no mundo e os meios de obter nossa salvação)” (PRADEAU, p. 29). É Durant, no entanto, quem mais nos informará sobre suas contribuições científicas, encontrando nele o precursor da ideia de seleção natural, futuramente defendida por Darwin: “Empédocles (fl. 445 a. C. na Sicília) levou a um estágio mais avançado a ideia da evolução. Os órgão não surgem intencionalmente, mas de uma seleção. A natureza faz muitas tentativas e experimentos com organismos, combinando órgãos de várias formas; quando a combinação atende às necessidades ambientais, o organismo sobrevive e perpetua suas características; quando a combinação fracassa, o organismo é eliminado; à medida que o tempo passa, os organismos se adaptam, de forma cada vez mais enredade e com um sucesso cada vez maior, ao seu ambiente” (DURANT, p. 67).
Seu modo de produção é a poesia, tal como o fez Parmênides, e. g.: “Assim como Parmênides, Empédocles deixou suas ideias registradas na forma de poemas, um denominado obre a natureza, e outro, Purificações” (CHALITA, p. 41).
Quanto a seu projeto filosófico, Gaarder o aponta como o herói que pensador que ficaria encarregado de quebrar a corrente cética que se segue ao impasse entre Heráclito e Parmênides: “Fica a cargo de Empédocles (c. 494-434 a. C.) apontar o caminho que tiraria a filosofia do impasse a que ela tinha chegado. Ele achava que tanto Parmênides quanto Heráclito tinham razão numa de suas afirmações, mas estavam totalmente enganados quanto à outra” (GAARDER, p. 49). Em seus próprios termos, temos a exposição de Chalita de que “no primeiro [poema, ‘Sobre a Natureza’] Empédocles diz pretender alcançar não uma verdade absoluta, mas uma verdade (alétheia) proporcional à dimensão humana. Dentro dessa perspectiva, não se pretendia mais o intelecto puro, mas uma razão clara, capaz de interpretar as informações recebidas pelos sentidos” (CHALITA, p. 41). Portanto, em certo sentido, ele irá concordar com Heráclito sobre a importância do conhecimento obtido pelos sentidos. Mas não quer ignorar a razão, embora não vá ficar com uma mera abstração teórica. Ele quer as duas coisas, razão e sensação, conciliadas de alguma forma. Não podemos nos furtar à observação de que sua afirmação de que produziria uma ‘verdade proporcional à dimensão humana cheira a Protágoras e seu ‘homo mensura’. Quem sabe ele tenha inspirado o futuro sofista?

METAFÍSICA

Gabriel Chalita coloca Empédocles em consonância com a busca metafísica dos filósofos naturais: “De forma semelhante aos primeiros pré-socráticos, vários dos quais ele conhecia, Empédocles buscava uma resposta que explicasse o princípio de todas as coisas” (CHALITA, p. 41).
Mas Empédocles, conforme observa Gaarder, parte de pressupostos diferentes. Ele nota, justamente, que os impasses a que chegou a filosofia era devido aos seus predecessores terem argumentado sob pressupostos equivocados: “Para Empédocles, a grande discordância estava no fato de que ambos os filósofos [Parmênides e Heráclito] tinham assumido como ponto de partida o fato quase inquestionável de que haveria apena um elemento básico. Se isto fosse verdade, o abismo entre o que a razão nos diz e o que nossos sentidos percebem seria intransponível” (GAARDER, p. 49). Portanto, Empédocles propõe uma mudança de paradigmas, tomando por certo que “a água não pode se transformar num peixe, ou numa borboleta. A água em si não pode se transformar” (GAARDER, p. 49). Empédocles não deixa, com isso, de reconhecer os créditos dos que lhe antecederam, particularmente de Parmênides e Heráclito: [...] Sob esse aspecto, Parmênides tinha razão quando afirmava que nada se transforava. Ao mesmo tempo, Empédocles concordava com Heráclito quando este dizia que devemos confiar no que dizem os nosso sentidos. Precisamos acreditar no que vemos, e o que vemos é justamente o fato de que a natureza está em constante transformação” (GAARDER, p. 49).
Na sua elaboração doutrinária não podemos deixar de notar as influências de Tales, Anaxímenes também. Chalita nos esclarece: “Segundo ele [Empédocles], o universo seria composto pelas quatro substâncias, mais tarde chamadas de elementos: ar, água, fogo e terra. Nenhum deles seria mais importante do que os demais. Cada coisa seria definida de acordo com a proporção em que cada um dos quatro estivesse presente em sua composição” (CHALITA, p. 41). A essas substâncias (termo que, como informa-nos Chalita, posteriormente foi substituído por ‘elementos’) Empédocles também deu outro nome, conforme nos indica Gaarder: “Empédocles acreditava que a natureza possuía ao todo quatro elementos básicos, também chamados por ele de ‘raízes’” (GAARDER, p. 49).
Podemos reforçar o que Chalita disse. Tudo que existe é composto desses quatro elementos, e as diferenças estão na quantidade e disposição que cada um se encontra: “Todas as transformações da natureza seriam resultado da combinação desses quatro elementos, que, depois novamente se separavam um do outro. Pois tudo consiste em terra, ar, fogo e água, só que em diferentes proporções de mistura. Quando uma flor ou um animal morrem, esses quatro elementos volta a se separar. Essas transformações podem ser percebidas por nós a olho nu [...]. O que acontece é que esses quatro elementos diferentes simplesmente se combinam e depois voltam a se separar para então se combinarem novamente” (GAARDER, p. 49-50). Aqui temos, pois, uma perspectiva inovadora, que desembocaria no atomismo. Tudo é composto de partículas dos quatro elementos em proporções diferentes. É na mistura desses elementos que as coisas diferentes surgem. Realmente fantástico! Assim, Empédocles salvaria os fenômenos, afirmando que, de fato, as coisas mudam e transformam-se em outras coisas. Mas, com isso, ele não precisaria lidar com o problema da transformação apontado por Parmênides pois, de fato, as coisas em si não mudavam. Havia algo eterno e imutável que eram as partículas dos quatro elementos que compunham os objetos.
O mesmo Jostein Gaarder nos dá uma ilustração brilhante: “Talvez possamos fazer aqui uma comparação com o trabalho de um pintor. Se ele tiver á sua disposição apenas uma cor – o vermelho, por exemplo –, não poderá pintar árvores verdes. Mas se ele estiver amarelo, vermelho, azul e preto, então poderá criar centenas de cores diferentes, porque poderá combinar as cores em diferentes proporções. Um exemplo do que ocorre na cozinha nos mostra a mesma coisa. Se eu tiver apenas farinha, terei de ser mágico para fazer dela um bolo. Mas se eu tiver ovos, farinha, leite e açúcar, poderei assar diferentes bolos a partir desses quatro elementos básicos” (GAARDER, p. 50).
Gabriel Chalita nos lembra que essa ideia irá perpassar os séculos e será plenamente contestada apenas na modernidade: “[Empédocles] propôs a doutrina das substâncias indestrutíveis que mais tarde se tornaria conhecida como a teoria dos quatro elementos, aceita até o século XVIII quando o cientista francês Lavoisier (1743-1794) demonstrou a existência dos elementos químicos, tal como são admitidos atualmente” (CHALITA, p. 41). Portanto, em termos empedóclicos é que muitos filósofos irão raciocinar (e.g. na Antiguidade: Platão e Aristóteles).

MOVIMENTO

Empédocles, claro, também teria de lidar com a questão do movimento. Afinal, o que proporcionaria as mudanças nas coisas? Qual seria a causa eficiente (e formal) que tiraria o cosmos da inércia? Sproul nos informa que “isso levou pensadores posteriores a procurar por um quinto elemento, uma ‘quinta essência’ que unisse aos quatro, o que deu origem à palavra quintessência” (SPROUL, p. 26). Mas não é essa, exatamente, a proposta de Empédocles.
Gaarder simplifica a questão: “o que faz com que os elementos se combinem para dar origem a uma nova vida? E o que é responsável pelo fato de uma mistura – uma flor, por exemplo – voltar a se desintegrar? Empédocles dizia que na natureza atuavam duas forças, por ele chamadas de amor e de disputa. O que une as coisas é o amor; o que as separa é a disputa. Empédocles diferencia, portanto, elemento e força” (GAARDER, p. 50). Outros pensadores chamam a força desagregadora de ódio. Chalita complementa o entendimento de Empédocles sobre ela: “A reunião e a separação dos elementos se daria através do amor e do ódio, forças em ação no movimento cósmico formador de tudo o que existe. O amor agiria na reunião e harmonização dos elementos, e o ódio os colocaria em desacordo, e esse processo seria interminável, ora predominando uma força, ora a outra” (CHALITA, p. 42). Elas, pois, criam tudo que existe (particularmente o amor). É por isso que Sproul diz: “O princípio que governa a harmonia é o amor, que ‘faz o mundo andar’” (SPROUL, p. 26). Além disso, o fazem num processo interminável, incessante. É fácil, pois, ver como ele logo concebeu a seleção natural.
Catherine Osborne fala de implicações éticas por detrás desse conceito metafísico, incluindo uma descrição espiritual negligenciada pelos demais comentaristas: “ A alternância do ‘amor’ e do ‘ódio’ não é somente uma metáfora. Em Empédocles, os ‘elementos’ são também deuses ou espíritos (daimones), que experimentam a atração e a repulsão uns pelos outros, ou seja, que amam ou odeiam. Uma passagem célebre descreve os espíritos exilados longe do deus e condenados a errar pelo mundo, encarnados em diferentes meios elementares, durante trinta mil temporadas. Esse exílio é a punição de um crime, talvez o assassinato. Esso está de acordo com a maneira pela qual Empédocles condena o sacrifício e o consumo de carne, considerados como pecados, porque os animais são reencarnação de entes queridos” (PRADEAU, p. 28). Portanto, parece que Empédocles concebia a atração e repulsa nos elementos graças aos enredos e dramas espirituais. Nesse sentido, sente-se, ainda, o aroma mitológico em suas cogitações.
Mas, como foi dito, mais uma de suas contribuições excepcionais para o pensamento é a distinção (análoga à feita por Anaxágoras) entre os elementos e as forças naturais que atuam sobre eles. Gaarder nota a atualidade do conceito: “Até hoje a ciência estabelece uma diferença entre elemento básico e forças naturais. A ciência moderna acredita poder explicar todos os processos da natureza através de uma interação entre os diferentes elementos básicos e algumas poucas forças naturais” (GAARDER, p. 51).

EPISTEMOLOGIA

Jostein Gaarder, com uma completude admirável, ainda nota reflexões de cunho epistemológico: “Empédocles também refletiu um pouco sobre a questão de saber o que ocorre quando percebemos alguma coisa. [...] Empédocles acreditava que, como todas as outras coisas da natureza, também nossos olhos são compostos de terra, ar, fogo e água. Assim, a terra contida em meus olhos perceberia o componente terra no objeto visto; o ar, o componente ar; o fogo, o componente fogo; e a água, o componente água. Se faltasse aos olhos um desses elementos, eu não poderia enxergar a natureza em sua totalidade” (GAARDER, p. 51). É interessante que se note, a seguir, a semelhança desse postulado com as concepções epistêmicas de Epicuro.

ATOMISTAS

Finalmente nos encontraremos com os atomistas propriamente ditos. Aqui, Morel nos faz notar que se trata de uma cosmovisão completa: “Um e outro sustentam que os componentes últimos da matéria são corpúsculos indivisíveis, em movimento num vazio infinito. [...] Tomado literalmente, o atomismo é, portanto, em primeiro lugar, uma doutrina física. No entanto, seus defensores desenvolvem também teses relativas à teoria do conhecimento e à ética. A teoria dos átomos e do vazio é, por conseguinte, o núcleo de um pensamento que tem como vocação dar conta de todos os aspectos do real e da existência humana” (PRADEAU, p. 74). Ou seja, inicialmente pode versar sobre física e metafísica, mas há implicações éticas e epistemológicas sendo discutidas e, portanto, temos, nesses pensadores, todo um sistema conceitual que fundamentará muitos pensadores em suas cosmovisões ateístas.

LEUCIPO E DEMÓCRITO

Gaarder considera Demócrito “o último grande filósofo da natureza” (GAARDER, p. 57). Em certo sentido, podemos concordar com ele, visto que Epicuro irá desenvolver preponderantes reflexões ético-existenciais. Mas, como veremos, Epicuro também elaborou reflexões físicas que lhe poderiam outorgar o título supra referido. Segundo Gaarder, Demócrito teria vivido mais ou menos entre 460-370 (data que Chalita, Durant e Nash concordam) e, portanto, era um contemporâneo de Sócrates e Platão! Gaarder nos informa que Demócrito “era natural da cidade portuária de Abdera, na costa norte do mar Egeu” (GAARDER, p. 57). Durant ainda completa a informação dizendo-nos que se tratava da Trácia (DURANT, p. 67).
Mas não podemos nos esquecer de outro pensador que precedeu Demócrito, pois Nash associa os dois como baluartes do atomismo antigo: “Os dois nomes associados ao atomismo grego antigo são os de Leucipo (490-430 a. C.) e Demócrito” (NASH, p. 46). Vejam o que Pierre-Marie Morel diz sobre Leucipo: “Demócrito de Abdera encarnou o primeiro atomismo, a quem é preciso associar também Leucipo [...] que foi provavelmente seu mestre, mas cuja contribuição doutrinária é difícil de circunscrever” (PRADEAU, p. 74). Isso mesmo, talvez seja Leucipo que tenha começado com todo o projeto atomista. Entretanto, não conhecemos muito sobre seus escritos. A propósito, nisso também Morel nos é útil: “Conhecemos a filosofia dos primeiros atomistas a partir de testemunhos antigos, dentre os quais alguns resgatam alguns fragmentos que, na maioria das vezes, dizem respeito à moral” (PRADEAU, p. 74).
Bom, embora seja Demócrito o responsabilizado por conceber o atomismo, ele não foi muito considerado em sua época e, aparentemente nem mesmo reconhecido pelos seus devedores: “Os princípios da filosofia natural epicurista decorrem diretamente do atomismo abderiano. Sob a inspiração de Epicuro [...] o atomismo, tal como o tinha definido Demócrito, gozou de uma sorte tanto mais inesperada, que Platão (428-348 a. C.) não cita Demócrito em lugar nenhum e Aristóteles (384-322 a. C.) formula contra ele críticas radicais. Epicuro dirige, por sua vez, fortes objeções contra o Abderiano, mas conserva o essencial de sua teoria dos átomos” (PRADEAU, p. 74). Portanto, Demócrito fora ignorado por Platão, que viveu mais ou menos na mesma época que ele, e foi ser lembrado de modo não muito agradável por Aristóteles e Epicuro. De certo, um pensador negligenciado, não?

METAFÍSICA

Como materialista, pois, Demócrito acredita que tudo que existe, em suma, é a matéria, ou melhor, os átomos. Gaarder, com sua exímia habilidade didática, sintetiza o assunto nas seguintes palavras: “Demócrito concordava com seus antecessores num ponto: as transformações que se podiam observar na natureza não significavam que algo realmente ‘se transformava’. Ele presumiu, então, que todas as coisas eram constituídas por uma infinidade de pedrinhas minúsculas, invisíveis, cada uma delas sendo eterna e imutável. A estas unidades mínimas Demócrito deu o nome de átomos. A palavra ‘átomo’ significa ‘indivisível’. Para Demócrito era muito importante estabelecer que as unidades constituintes de todas as coisas não podiam ser divididas em unidades ainda menores. Isto porque se os átomos também fossem passíveis de desintegração e pudessem ser divididos em unidades ainda menores, a natureza acabaria por se diluir totalmente” (GAARDER, p. 57). Portanto aqui já temos seu distanciamento de Anaxágoras. Portanto, o átomo, além de “fisicamente indivisível, [...] é sem partes separáveis” (PRADEAU, p. 75).
Mas a realidade não se restringe a átomos. Há espaços entre os átomos, onde, pois, não há ‘matéria’ ou melhor, onde não há ‘ser’. Assim, Morel nota que Demócrito está subvertendo Parmênides: “Contra o monismo de Parmênides [...] e dos eleatas em geral, Demócrito quer dar conta do movimento, o que o leva a colocar a existência do vazio [...], intervalo ilimitado necessário ao movimento dos átomos. Assim, o ser dos átomos ou ‘algo’ [...] se opõe ao vazio entendido como não ser ou ‘não algo’” (PRADEAU, p. 75). Portanto, parece-nos que Demócrito está propondo uma diferença ontológica entre ‘nada’ e ‘não-ser’, ou melhor, entre vazio e ‘não-ser’. Podemos até concordar que ‘não-ser’ é algo inconcebível, mas o vazio é uma ideia perfeitamente compreensível.
Não o coloquemos, entretanto, como um inimigo de Parmênides pois, como nota Gaarder, sua doutrina é condizente com proposições do eleata: “... as ‘pedrinhas’ constituintes da natureza tinham que ser eternas, pois nada pode surgir do nada. Neste ponto, Demócrito concordava com Parmênides e com os eleatas. Para ele, os átomos eram unidades firmes e sólidas” (GAARDER, p. 57). Portanto, tal como acontece com Empédocles, concorda-se tanto com Parmênides, no sentido de que as coisas não mudam de fato, quanto com Heráclito, no sentido de que as coisas realmente mudam (quando tudo que está havendo é uma recombinação dos átomos).
Em suma, “segundo Demócrito, a verdade sobre o universo físico pode ser resumida em duas palavras: átomos e vazio. Tudo no universo é resultado de átomos qualitativamente indistintos, movendo-se ao redor do universo, colidindo com outros átomos, unindo-se brevemente com outros átomos” (NASH, p. 47). Esse é o mundo materialista de Demócrito. Vamos explorá-lo um pouco melhor.
Primeiro, discutamos mais alguns detalhes dos átomos. Já sabemos que são indivisíveis e sem partes, além de eternos e imutáveis. Gaarder amplia dizendo que “só não podiam ser iguais, pois se todos os átomos fossem iguais não haveria explicação para o fato de eles se combinarem para formar de papoulas a oliveiras, do pelo de um bode ao cabelo humano. Demócrito achava que existia na natureza uma infinidade de átomos diferentes: alguns arredondados e lisos, outros irregulares e retorcidos [...] combinados para dar origem a corpos os mais diversos” (GAARDER, p. 57). Portanto, acrescentamos que os átomos são de uma infinidade muito grande de formas. Logo, somado aos movimentos diversos esse fenômeno iria produzir todo tipo de coisa que existe, como vai reforçar Morel: “A partir desse par de princípios, os átomos e o vazio, os atomistas tinham em vista uma combinação ilimitada, capaz de dar conta de todas as modificações dos corpos compostos. Seus princípios são muitos simples: os átomos são ilimitados em número e se movem incessantemente e em todos os sentidos no vazio; eles possuem um número ilimitado de formas; eles constituem os corpos compostos por simples agregação e as diferenças das formas atômicas determinam as propriedades dos compostos” (PRADEAU, p. 75).

Há espaço para reflexões cosmológicas nas elucubrações democritianas. Em suma, “Existe, ou existiu, ou existirá um número infinito de mundos; a todo instante, há planetas colidindo e morrendo, e novos mundos estão surgindo do caos, graças à agregação seletiva de átomos de tamanho e forma semelhantes. Não há um plano; o universo é uma máquina” (DURANT, p. 67). Esse é o conceito básico. Mas Gaarder, Osborne e Morel fazem mais alguns comentários.
Quanto a não haver plano algum no mundo, Gaarder amplia: “Demócrito não acreditava numa ‘força’ ou numa ‘inteligência’ que pudessem intervir nos processos naturais. As únicas coisas que existem são os átomos e o vácuo, dizia ele. E como ele só acreditava no ‘material’, nós o chamamos de materialista. Por detrás do movimento dos átomos, portanto, não havia determinada ‘intenção’. Mas isto não significa que tudo o que acontece é um ‘acaso’, pois tudo é regido pelas inalteráveis leis da natureza. Demócrito acreditava que tudo o que acontece tem uma causa natural” (GAARDER, p. 59). Essas ‘causas naturais’ que movem o mundo são chamadas por Morel de Necessidades.
Observemos que as movimentações atômicas, causadas por leis naturais, constroem e diluem das menores coisas às maiores no universo. Portanto, de uma formiga a planetas, temos a causa oriunda das movimentações atômicas. Morel, pois, nos diz que, segundo Demócrito, “os mundos são em número ilimitado e nascem ou morrem sob o efeito unicamente dos movimentos atômicos. No plano cosmogônico e cosmológico, os atomistas pleiteiam, portanto, uma imanência radical: nenhuma inteligência organizadora, nenhuma providência é convocada para justificar a existência dos mundos. Demócrito julga que um único princípio está na origem de todas as coisas: a Necessidade” (PRADEAU, p. 75-76).
Osborne nos conta que, para Demócrito, “um turbilhão faz com que estruturas cósmicas se formem em alguns lugares do espaço: não simplesmente para formar esse mundo aqui, mas uma multidão de mundos possíveis. Algumas dessas proposições foram retomadas pelos epicuristas na época helenística e inspiraram tanto cientistas quanto filósofos no início da Modernidade” (PRADEAU, p. 20). Há, portanto, numa agremiação enorme de átomos, um turbilhão que cria os mundos nos espaços vazios. Eis a doutrina da ‘criação’ conforme a concebe os atomistas. Tudo não passa de um rearranjo dos átomos, mediante leis naturais.

Na antropologia filosófica Demócrito também fornece sua contribuição (que, aliás, será tão bem utilizada por Epicuro), conforme nos notifica Gaarder: “Mas o que acontece com a consciência? Está aí uma coisa que não pode ser composta de átomos, quer dizer, de ‘coisa’ materiais, certo? Errado. Demócrito acreditava que a alma era composta por alguns átomos particularmente arredondados e lisos, os ‘átomos da alma’. Quando uma pessoa morre, os átomos de sua alma espalham-se para todas as direções e podem se agregar a outra alma, no momento mesmo em que esta é formada. Isto significa que o homem não possui uma alma imortal. E este é um pensamento compartilhado por muitas pessoas em nossos dias. Como Demócrito, elas acreditam eu a alma está intimamente relacionada ao cérebro e que não podemos possuir qualquer forma de consciência quando o cérebro deixa de funcionar e degenera” (GAARDER, p. 59). Aquilo a que denominamos alma, pois, não passaria de fenômenos mentais completamente dependentes e causados pelo cérebro. Sem cérebro, sem ‘alma’*2.

Gaarder é, ainda, sagaz ao observar que em essência a doutrina de Demócrito ainda rege a pesquisa científica contemporânea: “Hoje em dia podemos dizer que a teoria atômica de Demócrito estava quase perfeita. De fato, a natureza é composta de diferentes átomos, que se ligam a outros para depois se separarem novamente. Um átomo de hidrogênio presente numa célula da pontinha do meu nariz pode ter pertencido um dia à tromba de um elefante. [...] Hoje em dia, porém, a ciência descobriu que os átomos podem ser divididos em partículas ainda menores, as ‘partículas elementares’. São elas os prótons, nêutrons e elétrons. E talvez estas partículas também possam ser dividas em outras, menores ainda. Mas os físicos são unânimes em achar que em alguma parte deve haver um limite para esta divisão. Deve haver as chamadas partículas mínimas, a partir das quais toda a natureza se constrói. Demócrito não teve acesso aos aparelhos eletrônicos de nossa época. Na verdade, sua única ferramenta foi a sua razão” (GAARDER, p. 58-59).

EPISTEMOLOGIA

Talvez a divergência mais gritante entre Demócrito e Epicuro esteja no campo da epistemologia. O conceito básico não difere muito, e podemos ver algo de Empédocles presente. Durant, de modo rápido, explica a ideia da seguinte forma: “A percepção se deve à expulsão de átomos do objeto para o órgão dos sentidos” (DURANT, p. 67), ao passo que Gaarder amplia dizendo que, “para Demócrito, a teoria atômica explicava também nossas percepções sensoriais. Quando percebemos alguma coisa, isto se deve ao movimento dos átomos no espaço. Quando vejo a Lua, isto acontece porque os ‘átomos da Lua’ tocam os meus olhos” (GAARDER, p. 59). Mas, aqui cessam-se as semelhanças.
De forma resumida, peguemos as seguintes palavras de Morel: “Demócrito afirma, de fato, que somente existem realmente, ou como verdade, os átomos e o vazio, tudo mais – e principalmente as propriedades perceptíveis dos compostos – é apenas o produto das nossas crenças ou das nossas convenções” (PRADEAU, p. 76-77), ou seja, em outras palavras, “toda qualidade é uma ilusão; é a maneira como certas configurações quantitativamente diferentes de átomos parecem para nós” (NASH, p. 47).
Bom, porque isso acontece? “Demócrito distinguia entre o mundo como os humanos o percebem e o mundo como realmente é. Para Demócrito, qualquer coisa que percebemos é uma ilusão. Para cada observador, há uma aparência diferente” (NASH, p. 52). Ou seja, uma coisa é o que vemos, outra é o que o mundo realmente é. E o que o mundo realmente é? Como já fora observado, ‘átomos e vazio’. E é justamente na concepção dos átomos que se encontra a distinção entre o que percebemos e o que realmente é. Ainda Nash nos informa que “os átomos, é preciso entender, não teriam propriedades como cor, gosto ou odor; não seriam, também, frios, azedos ou doces. [...] Os atomistas explicavam tais propriedades como sendo as maneiras das coisas parecerem a nós como resultado de ligações ocorridas ao acaso entre átomos que possuiriam tais propriedades. Os antigos ensinaram que os átomos diferiam apenas em termos quantitativos, tais como tamanho e forma, jamais em qualidade” (NASH, p. 46).
É então que chegamos às problemáticas epistemológicas. Pierre-Marie Morel nota que, “enquanto este último [tipo de conhecimento, o pela via das sensações] é necessário às atividades humanas em geral, mas também, no domínio filosófico e científico, ao conhecimento dos fenômenos naturais, unicamente a razão tem acesso aos princípios – os átomos e o vazio – que, de fato, são imperceptíveis. Ao juízo racional e ‘legítimo’ que os compreende, opõe-se o juízo ‘ilegítimo’ do pseudoconhecimento sensível. Alguns fragmentos do abderiano extraem desse paradoxo uma consequência extrema, uma forma de pré-ceticismo que não poupa nem os sentidos nem a razão [...]” (PRADEAU, p. 77). Ou seja, em outras palavras, os sentidos nos diriam que de fato as coisas mudam. As coisas, claro, existem. A partir dessas duas informações oriundas das sensações abstraímos, ensina Demócrito, a existência dos átomos e do vazio. Mas, claro, a razão torna-se, pois, refém de informantes não muito confiáveis e, portanto, acaba minando a confiança em si mesma. Afinal, é como fazer análises políticas sob uma infinidade de dados inexistentes ou alterados.
Entretanto, parece que Demócrito pressupõe a razão como um fenômeno psicológico à parte dos átomos e que, portanto, seria perfeitamente confiável. Doravante notaremos que esse é o tendão de Aquiles da cosmovisão naturalista.
Antes de encerrar, notemos a contribuição de Osborne para o tema. Segundo ela, “ele [Demócrito] estima que o conhecimento racional prevaleça sobre a percepção sensorial, explicando que a experiência dos sentidos permanece subjetiva e tributária do estado do corpo e de seu meio ambiente. Ele reconhece, entretanto, que essa crítica dos sentidos se condena a si mesma, já que a razão tem necessidade do apoio dos sentidos para afirmar que eles não são confiáveis” (PRADEAU, p. 27). O grande lance dessa citação é que Demócrito reconhece que a razão, para conceber que os sentidos não são confiáveis, depende dos sentidos para assim concluir, parecendo presumir que eles são, sim confiáveis. Mas o ceticismo epistemológico poderia muito bem ser mantido se entendêssemos que o fato de alguma impressão pôde ter vindo defeituosa, o que foi comprovado por experiências posteriores, nos faz pensar que não temos um critério muito fixo para acreditar nas impressões que recebemos e impressões ad hoc poderiam sempre ‘corrigir’ as anteriores.

EPICURO E LUCRÉCIO


Tanto Chalita quanto Gaarder concordam que Epicuro nasceu em 341 e morreu em 270. Portanto, podemos dizer que ele vem após Aristóteles. Chalita nos informa que se tratava de “um cidadão descendente de família nobre de Atenas” (CHALITA, p. 79). Suas influências filosóficas abertas e patentes são Demócrito e Aristipo (este último conheceremos doravante), como aponta Gaarder: “Ele desenvolveu ainda mais a ética do prazer de Aristipo e a combinou com a teoria do átomo de Demócrito” (GAARDER, p. 149-150).
Gaarder também nos notifica que “conta-se que os epicureus reuniam-se num jardim. Por esta razão, também, eram chamados de ‘filósofos do jardim’. Dizem também que sobre o portão de entrada do jardim havia a seguinte inscrição: ‘Forasteiro, aqui te sentirás bem. Aqui, o bem supremo é o prazer’” (GAARDER, p. 150). Chalita completa as informações dando data e um ‘epiteto’ para a ‘Academia’ de Epicuro: “Em 306 a. C., ele fundou sua escola no jardim de uma grande casa, local que ficou conhecido como Jardim de Epicuro” (CHALITA, p. 79). É interessante a descrição de uma citação que Durant faz de Anatole France: “[Epicuro] comprou um belo jardim, que ele mesmo cultivava. Foi lá que instalou sua escola, e ali vivia uma vida tranquila e agradável com seus discípulos, aos quais ensinava enquanto andava e trabalhava. (...) Era delicado e afável para com todos os homens...” (FRANCE apud DURANT, p. 90).
Conhecemos suas doutrinas por meio de epístolas que ele nos deixou, mas o grande divulgador de suas ideias foi o filósofo romano Lucrécio, como nos informa Morel: “Epicuro resumiu o essencial de sua filosofia em cartas e sentenças, que nos foram conservadas. Depois dele, a doutrina não sofrerá uma evolução maior. Ela será, no entanto, enriquecida, principalmente com o epicurismo romano, do qual Lucrécio (século I a. C.), autor do longo poema Sobre a natureza das coisas (De rerum natura), é a principal figura” (PRADEAU, p. 74-75). Na verdade, Lucrécio não produziu ‘upgrades’ significativos no sistema de Epicuro, não desenvolvendo conteúdo nas lacunas, como nota Nash: “Se sua obra fosse avaliada apenas em termos de ideias novas, Lucrécio teria sido insignificante na história das ideias. Contudo, seu poema apresentou o epicurismo quase que de forma épica, sobretudo, escrito em latim, tornando acessíveis aos romanos as ideais do atomismo grego. [...] Lucrécio presumiu, mas jamais provou, a uniformidade da natureza. Pouco disse, ou quase nada, sobre as aparentes irregularidades na natureza” (NASH, p. 51). Portanto, Lucrécio é um célebre divulgador, para a posteridade, de Epicuro e do atomismo antigo. Podemos ainda aproveitar a comicidade da descrição e dados biográficos fornecidos por Durant: “Lucrécio [...] concluiu sua vigorosa pregação do prazer cometendo suicídio. Sua nobre epopeia, Sobre a Natureza as Coisas, acompanha Epicuro em condenar o prazer ao elogiá-lo sem entusiasmo. Quase contemporâneo de César e Pompéia, ele viveu em meio a torvelinhos e alarmes; sua pena nervosa está eternamente compondo orações à tranquilidade e à paz. Nós o imaginamos como uma alma tímida cuja juventude havia sido obscurecida por temores religiosos; porque ele nunca se cansa de dizer a seus leitores que não existe inferno, exceto aqui, e que não existem deuses, exceto deuses cavalheirescos, que vivem em um jardim de Epicuro nas nuvens e nunca se intrometem nos negócios dos homens” (DURANT, p. 91). Em Epicuro e Lucrécio, pois, temos o último desenvolvimento do atomismo na Antiguidade.
Antes de estudarmos a filosofia epicurista, é bom dizermos que, “contrariamente aos estóicos, os epicureus quase não se interessavam pela política e pela sociedade. ‘Vive em reclusão!’ era o conselho de Epicuro. Talvez passamos comparar o seu jardim com as comunidades de nossos dias. Nesta época em que vivemos, muitas pessoas buscam uma ilha, um ‘porto seguro’ em meio ao turbilhão da sociedade” (GAARDER, p. 151). Isso retrata bem o conceito da época que já não via a pólis e a vida social como pré-requisito para a felicidade, embora a boa e verdadeira amizade, como veremos, não seja negligenciada, antes, pelo contrário.

METAFÍSICA

Expor a metafísica de Epicuro, entendida a de Demócrito, será tarefa mais fácil. O que ele faz é modificar um pouco a filosofia de seu predecessor e é Pierre-Marie Morel quem nos guiará nessas adaptações.
Primeiramente, Demócrito cria que os átomos não possuíam partes, não eram ‘compostos’. “Os epicuristas, por sua vez, afirmam a existência de partes últimas do átomo [...] que equivalem às suas unidades de medida. Elas são, no entanto, inseparáveis do átomo e, por causa disso, incapazes de produzir por si mesmas o movimentos e as agregações” (PRADEAU, p. 75). Essa é uma mudança importante, e nos parece que foi reivindicada para explicar os formatos diferentes dos átomos.
Segundo Morel, Epicuro muda o foco de suas análises físicas: “os epicuristas classificam os átomos e os compostos unicamente na categoria do ‘corpo’: Entre os corpos, uns são os compostos, outros aquilo de que os compostos são feitos. A diferença entre átomos e compostos não é mais uma distinção ontológica, mas uma diferença funcional no interior de uma mesma categoria física. Lucrécio insiste, por outro lado, na função imediatamente produtora do átomo: os átomos não são somente a ‘matéria’ [...] de que as coisas são feitas; elas são também os ‘princípios primeiros das coisas’ [...], os corpos primeiros’ [...], as ‘sementes das coisas’ [...], ou os princípios geradores’ [...]. Nesse sentido, para o atomista epicurista, a categoria fundamental da filosofia natural não é mais o átomo, e sim o corpo” (PRADEAU, p.76-77). Esse é um ponto importante. A análise das coisas sobe da análise atômica abstrata, podendo elevar-se para a ciência que podiam desenvolver com a tecnologia que tinham. As qualidades dos corpos são reais, e não ilusórias. São propriedades oriundas dos próprios átomos. As implicações epistemológicas serão notadas.
Morel continua: “Epicuro e Lucrécio, ainda que retomem o essencial da teoria abderiana dos átomos e do vazio, corrigem-na em dois pontos importantes. Por um lado, as formas e as grandezas de átomos não são em número absolutamente ilimitado; por outro lado, o movimento atômico deve ser explicado mais precisamente. Para Epicuro, o peso próprio do átomo é a causa de seu movimento para baixo, os choques apenas modificam a trajetória. Além disso, os epicuristas pretendem justificar ao mesmo tempo a potência organizadora da natureza e a liberdade de agir. Para fazer isso, eles introduzem um princípio de variação e de indeterminação no movimento atômico, princípio que tem como efeito suscitar choques de átomos e, por intermédio disso, as agregações, mas também subtrair os movimentos deliberados à hegemonia da Necessidade, quer dizer, ao determinismo. Assim, Lucrécio – como talvez Epicuro antes dele – supõe que a queda dos átomos é acompanhada de um desvio [...] ínfimo. Este explica, por um lado, a gênese espontânea das combinações corporais e, por outro lado, a possibilidade do ato livre” (PRADEAU, p. 76). Ao que parece, uma certa aleatoriedade é acrescentada ao movimento atômico, de modo que o determinismo abderiano pode ser abandonado. Mas algo importante foi mencionado, e Nash trará seu devido destaque: “Epicuro acrescentou o peso como uma propriedade dos átomos, o que, ele pensava, levaria o átomo a decair em uma linha reta e na mesma velocidade. [...] imagine um número infinito de átomos decaindo em linha reta no espaço infinito. Temos aí uma nova questão para a qual não há resposta: como os átomos de Epicuro colidem e entram em novas combinações? A resposta conveniente de Epicuro tem sido chamada de declinação do átomo. Ocasionalmente, de modo imprevisível e inexplicável, os átomos desviam a direção de sua rota decadente. Tal desvio produz colisões e vórtices, finalmente alguns desse vórtices se transformam em um mundo” (NASH, p. 49). Portanto, até mesmo na cosmologia temos uma força aleatória declinando os átomos até que um ‘vórtice’ adequado surge e um mundo é criado.
O interesse no indeterminismo, como veremos, é de cunho ético-existencial. Se as coisas não acontecem por necessidade absoluta, podem acontecer por ‘escolha’, presume Epicuro. Pode haver um fator ‘determinante’ que não seja mecânico, natural. A associação entre ato livre e movimento atômico quase nos faz pensar que ele apoiaria Anaxágoras e a ‘inteligência’ movendo os átomos. Mas ele é basicamente um materialista atomista e, portanto, poderíamos estar ‘forçando a barra’ com isso. Adiemos as discussões antropológicas para sua ética. Antes, passemos pela epistemologia e teologia epicurista.

EPISTEMOLOGIA

Bom, como dissemos, a epistemologia epicurista difere em muitíssimos pontos da epistemologia abderiana. Para começar, eles devolvem às sensações o status de confiabilidade justamente crendo que as qualidade recebidas dos átomos de fato lhes pertenciam, conforme Morel ensina: “os epicuristas modificam essencialmente a maneira de conceber a relação entre átomos e os compostos. Estes últimos não são mais, como em Demócrito, substratos precários de qualidades sensíveis ilusórias, mas existentes de pleno direito” (PRADEAU, p. 76). Portanto, quando sentimos o gosto de algum composto, aquilo corresponde ao gosto que aquela combinação de átomos realmente têm. É uma soma de qualidades atômicas que nos é percebida. Não se trata de uma ilusão.
Ronald Nash nos lembra que se trata de um empirista, e, como Demócrito, segue a proposta de Empédocles: “Todo conhecimento depende unicamente da sensação; não há espaço para ideias inatas ou intuições intelectuais na cosmovisão atomista. Todo o conhecimento humano tem seu ponto de partida na experiência sensorial. O que vale a pena comentar é a maneira pela qual os atomistas explicam as informações sensíveis. No caso óbvio do odor e da visão, nenhum contato direto é aparente. Epicuro presume partículas passando do objeto sentido à pessoa que o percebe” (NASH, p. 52).
Mas é Morel quem lida de forma mais completa sobre a epistemologia epicurista. “Para Epicuro, sensação, longe de ser fonte de erro ou de ilusão, é nosso primeiro critério de conhecimento e o primeiro critério de verdade, porque os outros conhecimentos derivam dela. Toda sensação é por si mesma portadora de uma verdade irredutível, sendo ela a única que pode expressá-la*3. [...] Quanto à razão, ela é extraída da sensação e não pode, portanto, refutá-la, pois ela se destruiria ao pretender refutar sua própria origem. É preciso admitir que o erro provém de um outro movimento psíquico, distinto da sensação. Se vejo como redonda, ao longe, uma torre quadrada, não é a própria sensação que me engana, mas a opinião que formo na ocasião da sensação. É preciso que nós, para compreendermos isto, retornemos à física. Cada corpo composto emite finas películas, simulacros, que reproduzem a forma e a tornam perceptível. Porém, pode ser que os simulacros da torre quadrada que eu vejo ao longe me tragam a imagem de uma torre redonda por causa da erosão que seu fluxo sofre atravessando o ar numa longa distância. Não obstante, a imagem finalmente recebida é uma imagem real: ela é a presença efetiva daquilo que emana do objeto visado. A sensação em si mesma não é, portanto, falsa, pois é verdade, quando percebo a torre redonda, que eu a percebo redonda, ainda que ela seja em si mesma de forma cúbica” (PRADEAU, p. 77-78). Trocando em miúdos, o que acontece é que, na percepção, recebemos, das coisas sensíveis, simulacros que nos permitem percebê-las. Mas, no decorrer do caminho, tais átomos podem sofrer erosões de modo que os recebemos em formas distintas. Mas o que é recebido é real. Veio, de fato, daquele objeto. A sensação não é falsa pois é verdade que as coisas percebidas são de fato percebidas e nos parecem de tal e tal forma.
Lucrécio também tentou fazer, lá, sua contribuição à epistemologia empirista: “Assim, Lucrécio defendeu a infalibilidade dos sentidos, mostrando que nenhuma sensação particular, como a visão ou o olfato, pode ser refutada por uma outra sensação particular; a visão não pode ser corrigida pela audição, a audição pelo tato, o tato pelo gosto, pois cada sentido tem um poder particular e separado” (PRADEAU, p. 77). Portanto, se sentimos algo mas não vemos nada, temos de presumir que ali há algo, embora seja invisível, já que uma sensação não poderia refutar a outra. Pelo menos, é isso que ensina Lucrécio.

TEOLOGIA

Seguindo a epistemologia epicurista de que tudo que está na mente é, na verdade, oriundo do que está na realidade (o que Hume contestaria com autenticidade alguns séculos mais tarde), Epicuro concebe a existência dos deuses: “Conforme Epicuro, os deuses do Olimpo existem porque os seres humanos têm retratos mentais deles, especialmente quando dormem. Na crença de Epicuro, é básica a presunção de que todas as formas de consciência são causadas por átomos passando de um objeto para um órgão sensorial. As figuras dos deuses eram explicadas em termos de imagens brotando dos corpos dos deuses. As figuras mentais de tais seres seriam tão fortes e claras que jamais sofreriam distorção no curso dos átomos” (NASH, p. 51-52).
Demócrito, como já vimos, acreditava na criação de vários mundos pelo movimento atômico. Epicuro também. E nos intervalos entre esses mundos, ali estavam os deuses, como nos conta Chalita: “Além disso, a doutrina epicurista afirmava que existiam diversos mundos e, no espaço entre eles, os intermundos, o lugar onde os deuses viviam, completamente desinteressados pelos homens. Já que as divindades desprezavam a vida humana, não influenciado em nada a existência das pessoas, não seria adequado preocupar-se com a ação dos deuses em suas vidas” (CHALITA, p. 80). Nash amplia, nos informando que “Epicuro cria que os deuses, também composto de átomos, habitassem em perfeita felicidade no espaço vazio entre os mundos” (NASH, p. 52). Portanto, eles estavam muito bem e não davam a mínima para nós. Aqui, talvez, ele tenha seguido a Aristóteles e seu ‘deus-monarca-inglês’.
Já Lucrécio, alguns bons anos mais tarde, não tinha interesse no panteão grego e sentia-se, de certa forma, livre para declarar seu ateísmo aberto e completo, como o mesmo Nash nos indica: “Enquanto Epicuro tornava os deuses preeminentes em seu sistema, Lucrécio queria eliminá-los do mundo. Três dos desenvolvimentos mais infelizes na vida humana, pensava ele, seriam a crença nos deuses, na imortalidade e na punição. [...] Uma das razões para a atitude negativa de Lucrécio em relação aos deuses era sua crença de que a possibilidade de punição divina para os atos humanos poderia causar dor aos homens em termos de medo e preocupação” (NASH, p. 52). Como não há ateus que o acompanharam nessa equivocada reflexão, não é mesmo?

ÉTICA

A coroa da filosofia de Epicuro é sua ética-existencial. Ele mesmo o admite. Morel nos informa que “Epicuro, ao afirmar a necessidade de conhecer os princípios da física, coloca em questão a utilidade das ciências positivas particulares, considerando que elas não são necessárias à ausência de perturbação (ataraxia), o único estado da alma que leva à felicidade” (PRADEAU, p. 75-76). Portanto, o que realmente importa, para o filósofo, correspondendo ao que de novo se pensava em sua época, conota à reflexão de cunho ético e existencial o pódio*4.
Como dissemos, ao passo que na metafísica ele ‘bebe’ em Demócrito, na ética ele colhe no canteiro de Aristipo, e vai plantar no Jardim de Epicuro. “Sócrates também teve um aluno chamado Aristipo, que, segundo Cheung, viveu de 435 a 356 a. C. (CHEUNG, p. 22). Para Aristipo, o objetivo da vida seria obter dos sentidos o máximo possível de satisfação. Aristipo dizia que o prazer era o bem supremo, e a dor, o mal supremo. Assim, seu objetivo maior era desenvolver uma filosofia de vida capaz de afastar toda e qualquer forma de dor e sofrimento. (O objetivo dos cínicos e dos estóicos [como iremos ver] era suportar todas as formas de dor, e isto é algo completamente diferente de fazer todo o esforço para tirar do caminho a dor.)” (GAARDER, p. 149). Aristipo, portanto, é o que podemos chamar de hedonista, ou seja, em termos práticos, aquele que coloca ‘bem’ e ‘prazer’ como sinônimos, bem como ‘mal’ e ‘dor’. O hedonismo de Aristipo foi, também, chamado de “Cirenaísmo, que defendia a prática de prazeres corporais, vivendo pela máxima: ‘Comamos, bebamos e casemos, pois amanhã poderemos morrer’” (CHEUNG, p. 22).
Gabriel Chalita resume a doutrina para, em seguida, ampliarmo-la: “Em suma, o epicurismo afirmava que a finalidade da vida é o prazer. Não um prazer obtido simplesmente, por meio dos instintos e das paixões; e sim pela razão: o verdadeiro prazer estaria em superar todos os desejos, não ter necessidade de nada. [...] A doutrina epicurista afirmava ainda que valores como a amizade, o pensamento, a apreciação das belezas naturais e das artes são formas de obter essa satisfação. A felicidade – a paz espiritual – seria alcançada quando o homem atingisse o autodomínio, isto é, se libertasse de todos os medos e desejos, agindo somente segundo sua vontade” (CHALITA, p. 80).
Ronald Nash é, dessa vez, quem resume a parte do ensino de Epicuro que queremos explorar: “Um dos pressupostos da ética epicurista era o hedonismo, a crença de que o prazer seja o bem maior. [...] o hedonismo de Epicuro era diferente do hedonismo austero e sensual, como o promovido por pré-socráticos. Um deles, Aristipo, instava seus seguidores a buscar o maior prazer físico que se pudesse obter no momento, enquanto Epicuro persuadia as pessoas a considerar as consequências em longo prazo” (NASH, p. 55). Portanto, contra o hedonismo grosseiro, conforme expõe Sproul, Epicuro ensinava um ‘hedonismo refinado’: “Os epicuristas buscavam a ataraxia pelo que eu chamo de ‘hedonismo refinado’, em contraste com formas rudes ou grosseiras de hedonismo. O hedonismo refinado define o bem como obtenção de prazer e ausência de sofrimento. Os antigos cireneus eram um exemplo de hedonismo grosseiro. Eles eram glutões, buscando o prazer físico no grau máximo. [...] Diferente dos cireneus, os epicureus buscavam um gozo refinado e sofisticado do prazer, portando-se com moderação. [...] Eles entendiam que há diferentes tipos de prazer: há os prazeres da mente, além dos prazeres do corpo. Alguns prazeres são intensos, mas de curta duração. A preocupação com o prazer intenso e apenas físico leva inevitavelmente a duas coisas que se quer evitar: infelicidade e sofrimento” (SPROUL, p. 55). Para compreender como o hedonismo grosseiro pode levar ao sofrimento, Jostein Gaarder é particularmente elucidativo: “Epicuro ensinava que o resultado prazeroso de uma ação sempre deve ser ponderado em relação a seus eventuais efeitos colaterais. Se você já comeu chocolate demais, então você entende o que digo [...]. Epicuro também achava que o resultado prazeroso de curto prazo devia ser ponderado em relação a um prazer maior, mais duradouro e mais intenso, a ser obtido a longo prazo. [...] Diferente dos animais, o homem tem a possibilidade de planejar a sua vida. Ele possui a capacidade de ‘calcular o seu prazer’” (GAARDER, p. 150). Ao fenômeno, pois, do ‘efeito colateral’ do empanturrar-se de chocolate, Sproul denomina de ‘paradoxo do hedonismo’: “Os epicureus procuravam escapar do ‘paradoxo hedonista’: a busca do prazer acaba apenas em frustação (quando o objetivo não é alcançado) ou em tédio (quando se atinge o objetivo). [...] Por isso, os epicureus buscavam não o prazer máximo, mas o prazer ótimo. Eles concluíram que a dieta de pão e água de um sábio tem mais chances de lhe trazer felicidade do que a comida excelente de um glutão” (SPROUL, p. 55-56). Portanto, tanto o prazer maior, a longo prazo, como os efeitos colaterais, devem ser medidos antes de se tomar alguma atitude (quem conhece Jeremy Bentham perceberá o plágio). Morel completa a exortação de Epicuro: “Somente se aprecia, no entanto, os verdadeiros prazeres quando se sabe julgar com prudência [...] que prazeres e que desprazeres podem resultar desta ou daquela ação. A felicidade epicurista é, portanto, uma questão de disciplina, de cálculo e de razão. Ela não se encontra no puro impulso afetivo ou na satisfação imediata de qualquer desejo” (PRADEAU, p. 78). Portanto, a primeira correção é a de que se deve buscar o prazer de forma irresponsável, sem calcular, sem ponderar.
Mas não é apenas isso que Epicuro acrescenta. Ele observa, o que já fora antecipado, que há coisas mais prazerosas que outras, ou, pelo menos que, no cálculo final, tendem a resultar em maior benefício. Gaarder explica da seguinte maneira: “Epicuro faz questão de enfatizar, porém, que ‘prazer’ não significa necessariamente satisfação dos sentidos [...]. A amizade ou a sensação vivenciada ao se admirar uma obra de arte também podem ser muito prazerosas. Além disso, outros pressupostos para o prazer da vida são os velhos ideais gregos do autocontrole, da temperança e da serenidade. Isto porque o desejo precisa ser controlado. Assim, a serenidade também nos ajuda a suportar a dor” (GAARDER, p. 150). Ou seja, não muito distante do que Aristóteles já havia ensinado, Epicuro está a defender que há prazeres mentais e sociais superiores aos prazeres ‘carnais’ (daqui para o cinismo filosófico é um passo, não é mesmo?). Pierre-Marie Morel dá um passo a mais na reflexão (aproximando Epicuro ainda mais de Antístenes e seu cinismo, bem como de Aristóteles): “Somente participam diretamente da felicidade os desejos naturais e necessários, como a filosofia e a amizade, em oposição aos desejos vãos, como o desejo de fazer crescer suas próprias riquezas. Não é surpreendente, portanto, que a ética epicurista seja uma ética erudita, instruída particularmente pelas lições de filosofia natural. Eis aí um ponto que os fragmentos éticos de Demócrito, que dão relevância à alegria que busca a tranquilidade ou o equilíbrio da alma [...] apenas fazem sugerir” (PRADEAU, p. 78-79). Portanto, segundo Epicuro, na exposição de Morel, as perturbações da alma acontecem por conta de desejos artificiais que lhe são imprimidos (Epicuro e Antístenes iriam morrer do coração ao verem o apelo do marketing em nossos dias). Os prazeres que demandam satisfação em prol da felicidade são os prazeres essenciais da alma humana: a demanda por conhecimento, por apreciação estética, por relações sociais, amizades e, por que não acrescentar, de um relacionamento afetivo, um namoro e um casamento.
Cheung, aqui, é sagaz ao notar que não podemos cair na tentação (ou no engano) de conceber esses prazeres ‘mentais’ como distintos, ontologicamente, dos físicos: “visto que a mente não é distinguida do corpo, estamos meramente nos referindo a diferentes tipos de sensações, e não a prazeres mentais como distintos dos físicos” (CHEUNG, p. 22).
Morel ainda nos concede outra reflexão importante: “A ausência de perturbação não é outra coisa senão o outro lado do próprio prazer. Este é, portanto, o fim da vida feliz, nosso bem primeiro e ‘conatural’” (PRADEAU, p. 78). São dois lados da mesma moeda, que é a felicidade. Ter a alma em paz, sem demandas não satisfeitas, é também condição para a felicidade, e satisfazer suas demandas é ‘desperturbá-la’. Em suma, como aponta Morel: “De fato, a palavra-chave de Epicuro é que ‘o prazer é o princípio e o fim da vida feliz’. Os homens procuram naturalmente a vida feliz, que tem por finalidade ‘a saúde do corpo e a ausência de perturbação (ataraxia) na alma” (PRADEAU, p. 78).
Gaarder nos diz que, “depois de Epicuro, muitos epicureus evoluíram sua reflexão no sentido de uma busca unilateral do prazer. Sua palavra de ordem era: ‘Viver o momento!’. A palavra ‘epicurista’ é frequentemente usada em nossos dias de forma pejorativa, para designar alguém que só vive pelo prazer” (GAARDER, p. 151). Ou seja, ao invés de evoluírem, parece-nos que regrediram e caíram nos erros dos hedonistas grosseiros.

EPISTEMOLOGIA MORAL

Pierre-Marie Morel ainda nos é solícito em oferecer a compreensão de como se dá, com mais detalhes, o ato da prudência nos atos: “Os outros critérios estão diretamente ligados à sensação. Diógenes Laércio [...] acrescenta que, de acordo com o Cânone de Epicuro, os critérios da verdade são as sensações e as afecções (pathos). Estas revelam o prazer e a dor [...]. As afecções não são somente os indicadores das nossas disposições internas – indicadores pelos quais sentimos que sofremos ou que experimentamos prazer –, mas também critérios de ação, quer dizer, signos evidentes daquilo de que se deve fugir ou perseguir. Elas desempenham, portanto, um papel central na ética epicurista” (PRADEAU, p. 78). Há, pois, na natureza humana, na alma, afecções que nos informam sobre o benefício ou malefício que algo ou alguma ação exerce sobre nós. E a partir dessas afecções que devemos refletir, abstrair, ponderar e calcular o que pode nos fazer bem ou mal.

MEDO DA MORTE

“Segundo o epicurismo, a filosofia deve servir para libertar o homem do medo do destino, da morte, das divindades” (CHALITA, p. 79). Já vimos como ele faz isso para com as divindades, dizendo que elas mal se interessam pelos assuntos humanos. Lucrécio, por sua vez, prefere simplesmente negar sua existência. Vejamos, agora, como é que Epicuro propõe que abandonemos o medo da morte. E é Chalita, novamente, quem vai nos esclarecer o conceito: “Epicuro afirmava que a alma seria composta de partículas imateriais, muito leves e imperceptíveis, isto é, de átomos, conceito que o filósofo herdou de Demócrito. Com a morte, os átomos se dispersavam e a alma se desfazia; portanto, Epicuro sustentava que não existia vida após a morte e, por isso, não havia motivo para se preocupar com o que podia acontecer no além, pois tudo acabaria ao morrermos” (CHALITA, p. 79-80). Uma boa explicação do espírito que se queria evocar está em Nash: “Pessoas racionais não se afligem por causa dos séculos que se passaram antes que suas vidas começassem; por que então deveríamos nos afligir por causa dos séculos que passarão depois que tivermos deixado de existir?” (NASH, p. 48). É por isso que as pessoas, temerosas ante o discurso escatológico condenatório das religiões, corriam para o Jardim de Epicuro, conforme nos conta Gaarder (e é interessante que a citação enfatiza o fato, mencionado por Chalita, de que Demócrito é novamente aproveitado): “Com frequência, pessoas acometidas por temores de origem religiosa procuravam o jardim de Epicuro. Nesse caso, a teoria do átomo de Demócrito era extremamente útil contra a religião e a superstição. Para viver uma boa vida também era importante se libertar do medo da morte. Nesta questão, Epicuro retomava a teoria de Demócrito sobre os ‘átomos da alma’. Talvez você ainda lembre que Demócrito não acreditava na vida depois da morte, já que após a morte os ‘átomos da alma’ se dispersavam para todos os lados” (GAARDER, p. 150-151). Em suma, “eles eram hostis à religião, porque acreditavam que ela gera um temor supersticioso e debilitante. Entendiam que a filosofia liberta de um modo humano as pessoas da sua escravidão a religião” (SPROUL, p. 55).

Morel já menciona o fenômeno em termos de limites do que compete ao homem discernir, deixando transparecer, intencionalmente ou não, o princípio (e pressuposto) de Protágoras de que o homem é a medida de todas as coisas: “Para Epicuro, a filosofia natural demarca os limites do que nos pertence, ensinando que está para além não deve ser temido. O caso da morte mostra isso muito bem: a alma é corpórea, composta de átomos, de maneira que suas funções dependem da proporção desses átomos no agregado que ela forma com o corpo. Ela não sobrevive, portanto, à morte do corpo e não experimentamos mais qualquer sensação, uma vez ultrapassado este limite. [...] não vivenciamos dela qualquer dor; logo, ela não deve mais ser temida. Assim, conhecendo a natureza – mortal – da alma e sabendo, por outro lado, que os deuses não se preocupam absolutamente com os assuntos do mundo, libertamo-nos da perturbação que engendra o medo da morte dos castigos infernais” (PRADEAU, p. 79). Em suma, para delírio (nem que seja de jocosidade) de Albert Camus e Jean-Paul Sartre, o fato de não haver imortalidade e, com isso, muito menos punições eternas, é aquilo que finalmente trará alívio à alma humana. O mais interessante é que isso não foi feito para justificar um tipo de rebeldia explicitamente carnal para com Deus. Foi feito para que possa-se viver uma vida particularmente moral, correta, em certo sentido, mas que não precise render-se a Deus de forma alguma, não lhe rendendo graças e nem os louvores devidos.

INDETERMINISMO

Um último quesito mencionado que não pode ser negligenciado é o indeterminismo, conceito, já mencionado e um pouco trabalhado, tão caro à ética de Epicuro. “Os epicureus, por sua vez, rejeitavam o determinismo materialista e afirmavam um âmbito muito mais amplo da liberdade humana” (SPROUL, p. 55). Nash é quem salienta a importância do conceito para Epicuro: “Ainda que negasse um propósito (teleologia) no mundo, o sistema materialista atomista mecanicistas de Epicuro não era totalmente mecânico. Epicuro pensava ser importante libertar o homem do determinismo mecanicista, o qual considerava como uma ameaça para a felicidade humana. [...] ele teve de achar um meio para introduzir o indeterminismo no movimento dos átomos. Afinal, os seres humanos são feitos de átomos. Portanto, para que os seres humanos fossem livres, o movimento dos átomos teria de ser indeterminado – pelo menos, em alguns casos” (NASH, p. 49). Ele concebia que ações mecanicamente realizadas fariam do homem mera vítima do destino. Esse era um conceito retrógrado que Epicuro queria deixar nas tragédias antigas, no teatro grego. Os estóicos que vivessem com esse conceito, mas Epicuro não! A felicidade consiste justamente em escolhermos certo o que irá nos trazer mais felicidade e menos (ou nenhum, se possível) dano. Tal escolha calculada não faz sentido num sistema determinista, mecânico. É por isso que Epicuro o rejeita e precisa elaborar toda aquela conversa que vimos na metafísica.

UM RESUMO DO EPICURISMO

Vincent Cheung, intentando mesmo resumir o que pensavam os epicuristas, nos oferece uma concisa exposição do que vimos até aqui, e achamos que vale a pena para que o conteúdo fique bem fixado: “A principal motivação para a filosofia de Epicuro é a de libertar o homem do seu medo da morte e dos deuses. Embora os epicureus formalmente afirmem as deidades gregas tradicionais, elas são vistas como parte do universo materialista e atômico, e irrelevantes para os assuntos humanos. Porque os deuses não estavam interessados nos assuntos humanos, a crença na providência divina era considerada supersticiosa, e os rituais religiosos inúteis. Nós podemos chamá-los de deístas; os estóicos os consideravam ateístas, e eles realmente o eram no sentido prático” (CHEUNG, p. 21).

CRÍTICA

Finalmente iremos lançar nosso ceticismo sobre as teses materialistas. Algumas coisas não serão ditas, visto que, na exposição de outros pensadores, iremos trabalha-las futuramente. Uma delas, por exemplo, é como Hume descartaria os deuses de Epicuro, deduzidos de sua epistemologia. Quanto às críticas que faremos, seguiremos, basicamente, a Ronald Nash.
Primeiramente, Nash observa algumas questões que são simplesmente pressupostas “Por que existe alguma coisa (átomos) em vez de nada? Por que os átomos se movem em vez de permanecerem imóveis? Se você for um atomista, eis em que você tem de crer” (NASH, p. 46). Isso mesmo. O atomista deve partir desses pressupostos. É uma questão de fé. Eis os axiomas da cosmovisão naturalista. Não que isso seja particularmente um problema. Só o é para o ignorante que presume ser sua cosmovisão isenta de crenças.
O problema está justamente na falta de bases epistemológicas para explicar alguns fenômenos*5. E Nash está recheado de exemplos céticos sobre a cosmovisão naturalista.
Peguemos dois casos: “Epicuro então apresenta outra questão que não tem resposta: por que os átomos desviam? Não há razão, exceto que, de outra maneira, nada existiria. No espaço infinito –devemos observar – as palavras alto e baixo não têm sentido. Contudo, Epicuro usou a palavra cair, e implicou que os átomos estivessem decaindo. Caindo para onde? É mais polido não perguntar” (NASH, p. 50). É, pois, totalmente arbitrária a suposição de que os átomos declinariam levemente. Nash reclama de forma peremptória: “Os atomistas se orgulhavam de sua habilidade para explicar tudo em termos plenamente mecânicos. Infelizmente, qualquer evento espontâneo e arbitrário (não-causado), como, até mesmo, um único desvio, é um evento para o qual não há explicação possível” (NASH, p. 51). Explicar implica, justamente, em definir as causas, e dizer que algo simplesmente acontece, de forma arbitrária, sem nem mesmo tentar esquivar-se para a possibilidade de uma vontade oriunda de uma inteligência (aliás, a única coisa que pode ter vontade é alguma coisa em algum sentido ‘viva’).
Nash não para por aqui: “Os antigos atomistas tinham outro problema. Seu universo era uma máquina, destituída de propósito e de projeto. Mas o universo em que vivemos está repleto de ordem. [...] Os atomistas não só têm dificuldades para explicar por que existem átomos ou por que os átomos se movem de maneira tão conveniente, mas parecem não ter também meios para explicar a natureza regrada e ordenada do universo” (NASH, p. 47). A não ser que digam que somos nós, humanos, que imaginamos ‘ordem’ no universo, estarão em maus lençóis. Sua cosmovisão já falhará em explicar um aspecto crucial e será reprovada no teste da abrangência.
Mas caso eles fujam para onde apontamos, só terão mordido a isca para serem pegos em um problema ainda maior. “Têm os atomistas o direito de usar palavras como perceptivo, observador ou eu/nós? Seu uso ilegítimo desses termos faz seu sistema parecer mais plausível do que realmente é?” (NASH, p. 53). Quando eles falam sobre ‘nós’, estão presumindo uma entidade mental transcendente, algo que não é meramente moção atômica. Então, Bailey questiona: “Pode o movimento de partículas insensíveis produzir ou ser levado em conta como consciência?” (BAILEY apud NASH, p. 53).
Cheung, embora não intente, como ele mesmo declara, no livro em questão lidar com cada ponto do epicurismo, nos oferece um ponto, em resumo, que deve ser mencionado: “na ética, sua [dos epicureus] teoria não pode ser formulada com base em sua epistemologia, e não há razão autoritativa para pensar que o prazer é o bem maior” (CHEUNG, p. 23). De fato, Epicuro parece estar apenas seguindo Aristipo e Aristóteles sem qualquer justificativa em sua cosmovisão. Como é que ele tem certeza de que o prazer é o bem maior? Aliás, o que seria mesmo um ‘bem maior’ nesse materialismo radical? Tudo o que temos são amontoados de átomos? Como se beneficia um aglomerado de átomos? É melhor mantê-los unidos que soltos? Por que mantê-los unidos é bom? Essas e outras questões afins podem ser formuladas de modo que o materialista terá sérios problemas.
E, finalmente, no ataque arrasador de Nash ao materialismo filosófico, está o problema epistemológico. “Conquanto os atomistas tenham usado a lei da não-contradição, as leis da lógica não podem ser reduzidas ou equiparadas com as mecânicas leis do movimento. [...] Processos puramente mecânicos não produzem nem podem produzir inferências válidas. Processos mentais não podem ser reduzidos a relações mecânicas de causa e efeito. Conexões lógicas são não-mecânicas” (NASH, p. 53-54). Nash faz duas citações de C. S. Lewis que simplesmente pulverizam a epistemologia epicurista: “Todo conhecimento possível... depende da validade do raciocínio. Se o sentimento de certeza que emitimos com expressões como tem de, portanto e uma vez que, é uma real percepção de como a coisa fora de nossas mentes realmente tem de ser, muito bem. Mas se tal certeza é meramente um sentimento em nossas mentes e não uma genuína percepção das realidades além delas – se meramente representa as maneiras como nossas mentes ocorrem operar – então nem sequer temos conhecimento” (LEWIS apud NASH, p. 56). Para explicar um pouco melhor o que Lewis queria dizer, outra citação: “Nenhum exame do universo [...] pode ser verdadeiro a menos que tal exame deixe aberta a possibilidade de que nosso pensamento seja uma percepção verdadeira. [...] A menos que nossa conclusão seja a lógica consequente de nossa base, não terá valor e seria realmente, apenas um engano” (LEWIS apud NASH, p. 57). Para o materialista, cada pensamento nosso, ou seja, cada proposição de um silogismo, não passa de uma moção bioquímica cerebral. Portanto, a conclusão não se segue necessariamente das premissas mas, antes, não passa de outra moção cerebral sem sentido e sem propósito*6.
Embora iremos abordar a questão quando lidarmos com os existencialistas, temos de antecipá-los para dizer que Epicuro e Lucrécio não nos tiram nossos medos. Antes, nos colocam em completo desespero: “Ao tentar eliminar nossos medos cósmicos, dizendo-os ilusórios, Epicuro e Lucrécio deveriam ter ido além e dito que nossas escolhas e esperanças seriam igualmente ilusões. A vida em tal mundo não pode ter significado” (NASH, p. 55). Tanto no cosmos abderiano, com seu mecanicismo cego, quando no cosmo epicureus, com suas ações aleatórias, sem explicação ou nexo algum, não há como postular sentido, significado e coisas do gênero*7.
Por fim, embora Nash nem nenhuma outra fonte que consultamos mencione, mas o espírito apolítico dos epicureus é um tiro no pé. Talvez seja fruto da sensação de impotência oriunda do imperialismo alexandrino, mas o fato é que o não envolvimento político acabará fazendo seus efeitos baterem às portas do Jardim de Epicuro, podendo causar-lhe desconfortos que lhe furtem o tempo dedicado aos prazeres da vida, ou mesmo as condições básicas de subsistência.

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*2 Não é, portanto, que temos, em suma, o que os ateus acreditam aqui? O mundo é explicado pela interação entre matéria e leis naturais (sabe-se lá porque as coisas são do jeito que são). Alguns, diante dos problemas criados por argumentos teístas, ainda advogam multiversos, o que as teorias de Demócrito, no mínimo, nos fazem lembrar. Somente, talvez, na epistemologia, como veremos a seguir, que tenhamos alguns estranhamentos. Além disso, temos a ideia de que todo fenômeno mental não passa de fenômenos bioquímicos cerebrais. Protelemos uma avaliação para a crítica final.
*3 De fato, toda sensação oferece uma verdade irredutível, a saber, a de que ‘nos parece’ ter visto, ouvido, sentido, cheirado ou experimentado o gosto de algo. Nash explica melhor a questão: “Proposições incorrigíveis são declarações nas quais relatamos fielmente aquilo que está presente em nossa consciência. A maneira de transformar qualquer proposição duvidosa sobre o mundo (com: ‘Estou agora no Monument Velley’) em uma proposição incorrigível é por meio de prefacia-la com a expressão ‘parece-me’” (NASH, p. 303).
*4 Osborne chega a sugerir que Epicuro teria desenvolvido sua filosofia ética também de Demócrito. Ela fala de fragmentos que seriam de Demócrito: “Esses textos definem a vida boa como um estado de quietude da alma, cuja realidade é material, afetada por átomos que a circundam. Demócrito antecipa desse modo a pesquisa sobre ‘tranquilidade’, a partir de prazeres moderados, que reencontraremos entre os atomistas posteriores da escola de Epicuro. Alguns intérpretes localizam aqui uma semelhança entre Demócrito e Sócrates, notadamente porque ambos sustentam que é vantajoso ser bom, mas são argumentos que resta alusivos em Demócrito, talvez porque nossas fontes permanecem fragmentárias” (PRADEAU, p. 30).
*5 Veja mais sobre como criticar uma cosmovisão pelo teste da abrangência aqui:  http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/12/cosmovisoes-parte-4-segundo-teste.html
*6 Iremos trabalhar com um artigo argumentando exclusivamente nesse sentido, ampliando esse argumento da mente contra o naturalismo filosófico.

REFERÊNCIAS

CHALITA, Gabriel. Vivendo  Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.

CHEUNG, Vincent. Confrontações Pressuposicionalistas. Tradução de Felipe Sabido de Araújo Neto e Marcelo Herberts. Brasília: Monergismo, 2006, 83 páginas (e-book).

DURANT, Will. A História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 4ª ed., 2001, 406p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.

MOREL, Pierre-Marie. O atomismo antigo _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.

NASH, Ronald H. Questões Últimas da vida: uma introdução à filosofia. Tradução de Wadislau Martins Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 448 p.

OSBORNE, Catherine. O nascimento da filosofia _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.

SPROUL, R. C. Filosofia para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208 p.