sábado, 21 de março de 2015

Uma Historieta para Explicar o Capitalismo

Elaboramos a seguinte ilustração para comunicar, de forma mais didática possível, alguns princípios elementares do capitalismo de modo a demonstrar que ele não é o bicho de sete cabeças, o chacal carniceiro que nos ensinam no Brasil. O princípio de geração de riqueza, distribuição justa (que não significa igual), geração de empregos, motivação para o progresso e afins estão aí presentes de forma germinal. É apenas uma historieta, amigos, mas esperamos trazer alguma luz.

Bom, imaginemos um número de pessoas chegando à uma ilha. Inicialmente elas, cada uma em família, pegam uma quantidade de terras e começam a produzir valendo-se de uma cultura de subsistência. Tudo que produzem é criação. Se um produzir mais do que o outro, terá, necessariamente, mais, sem que, com isso, o outro tenha menos. Eis um princípio.
E é claro que haverá quem produzirá mais. Há pessoas que ficam contentes com o pouco que produzem, sem muitas ambições. Outros, movidos pela recompensa de seus esforços, trabalharam de modo dobrado. E há os que têm habilidades naturais para trabalhar, que também produzirão mais. Eis outro princípio valorizado pelo capitalista: a livre iniciativa e as recompensas justas do esforço. As famílias crescem e começam a produzir mais e mais.
Alguns desenvolvem produtos únicos. Conseguem produzir, organizando a família, até mais do que precisam. E querem comprar os produtos únicos de outra família. Resolvem permutar. Acontece que o preço dos produtos têm de ser estipulados. Pelo produto único A, produzido pela família X, a família Y quer dar tantos quilos de arroz e farinha. A família Z quer dar um pouco mais. Eis o princípio do valor subjetivo do produto. A família X, claro, desejará passar seu produto para Z. Se mesmo assim houver demanda, a família X poderá se empenhar um pouco mais para produzir mais e mais para vender. Ela até pensa em colocar o preço um pouco mais caro, visto que seu produto está sendo bastante requisitado. Ela pode até parar de produzir para subsistência para produzir seu produto único A. Então surge outra família que consegue desenvolver o produto único A. E vende um pouco mais barato. É claro que a família X deverá abaixar seus preços caso ainda queira vender. Com o preço nivelado, podem concorrer por quem oferece o melhor produto único A. Eis a lógica da concorrência. 
A mera troca nem sempre era viável para todos os produtos por questões logísticas. Daí que usar uma moeda comum passou a ser viável e, em comum acordo, passaram a usar uma para representar as posses. Acontece que, quando uma família produzia mais, não tirava, necessariamente, riquezas dos bolsos de outros. Antes, com o aumento da produção, passou a demandar mais trabalhadores do que a família poderia fornecer. Outros mais novos, que não os grandes patriarcas proprietários, resolveram vender o seu trabalho por salário. Havia várias famílias oferecendo trabalho, e quanto mais gente com dinheiro mais poder de compra havia, e maior era a demanda, aumentando a necessidade de contratos, mais empregos geravam. Se o povo ficasse desempregado não iriam ter dinheiro para consumir e logo não haveria produtos para serem pagos. As riquezas minorariam em sua produção. Assim, quanto mais produção, mais empregos. Quanto mais empregos, mais consumidores e assim sucessivamente.
Como havia mais oferta de trabalho, o trabalhador poderia escolher a que lhe dava melhores condições.  Além disso, havia produtos diversos, que não dependiam da terra ou coisas do tipo,  que eram locados também.
Eis um resumo, pra lá de conciso, da lógica capitalista.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

The zuera never ends? Será?



"Há certos gracejos que teríamos vergonha de dizer, e no entanto, quando ouvimos numa cena de comédia, ou mesmo em particular, nos regozijamos e não sentimos nenhuma revolta diante de sua inconveniência. O caso da piedade repete-se aqui, pois damos soltas àquele prurido de rir que contínhamos em nós como a razão, temendo passar por chocarreiros, e não nos apercebemos de que ao fortalecê-lo assim nos deixamos arrastar frequentemente por ele no trato ordinário, até nos convertermos em farsantes" (Platão, 'República', Livro X).

Até que ponto as gracejos, o humor, as brincadeiras se justificam? É correto brincar de tudo? Caçoar de tudo? Não há limites para o humor? Não é o humorista Rafinha Bastos quem propaga que o humor não pode ser tolhido? Claro, ele diz que tudo é feito em tons de brincadeira, e que não refletem, necessariamente, uma posição em qualquer assunto quando ele chacota de algo ou alguém. É apenas viés cômico, uma percepção jocosa de um fato ou boato. O objetivo é fazer com que as pessoas riam, e, em meio às vagas procelosas da vida, tal fim torna-se quase que um bem supremo ou, pelo menos, algo inquestionável. C. S. Lewis, minha principal orientação nesse sentido*, observa que é mesmo
um ídolo para aqueles que se deparam com as amarguras da vida*. O contentamento que deveria ser buscado em Deus é buscado neste paliativo intocável. Mas, então, o que devemos pensar sobre isso?

Pois bem, minha tese básica é que há alguns elementos distintos que julgam as piadas. Um deles é o objetivo da piada em si. Outro é o seu conteúdo. E, claro, não podemos negligenciar a ocasião. O que precisa ser antecipado é que há piadas que devem ser evitadas. Há limite no humor porque é uma atividade humana escrutinável à ética. Não é um ato supra-moral.

Claro, não estou, em momento algum, defendendo que não haja brincadeiras saudáveis e piadas muito bem colocadas. Quem me conhece sabe o quão brincalhão eu sou. Por isso, o assunto é caro a mim. Por isso, tal perscrutação introspectiva é movida por grande sinceridade e confronto pessoal. Se você que lê achar que o que virá a seguir é muito pesado e tão difícil que lhe parece impraticável, saiba que estamos praticamente juntos. Entretanto, hoje é o dia em que resolvi abandonar as brincadeiras que não agradam a Deus. Uma área em que deixei-me levar após conhecer a Cristo e agora vejo-me enredado em situações que açoitam minha consciência. É dia de santificação e espero que atinja a vocês também!

Para começo de conversa, a desculpa de que a brincadeira era só brincadeira e não refletia algum ponto de vista ou posicionamento não é necessariamente verdadeira. A motivação aqui, como observada acima, é simplesmente alegrar, fazer com que as pessoas sorriam, independente do conteúdo que se emprega.
Primeiro, evidentemente, não é tudo que alegra e faz sorrir que é bom. O pecado mesmo, num primeiro momento, alegra. Não fosse assim não haveria tentação alguma! E isso é assim porque o pecado é a perversão de um prazer legítimo. O sexo fora do casamento ainda é bom porque é sexo, e não porque é fora do casamento. Mas ele mesmo fora instituído para o casamento e é ali que deve ser desfrutado.
Em segundo lugar, e o ponto culminante aqui, é que o humor é elaborado dentro de um referencial teórico. Aqui vou com um pouco de filosofia. Tal como a arte ou mesmo a literatura pura, nada que o homem produz está desassociado de seus pressupostos*. Ele elabora suas piadas em torno do que acredita. Mesmo que admitamos que uma vez ou outra ele pode ter feito uma piada que não reflete suas crenças, via de regra, ele pensará conforme suas crenças mais profundas e básicas.
É muito famosa a frase de Charles Chaplin a esse respeito: "se você estivesse levando a sério as minhas brincadeiras de dizer a verdade, você teria ouvido muitas verdades que insisto em dizer brincando". É esse o ponto! Mesmo em meio ao humor, tal como num simples romance - mesmo nos que não são caracterizados como 'romance de tese' -, defende-se uma cosmovisão. Basta olharmos para as piadas do grupo Porta dos Fundos que veremos argumentações 'dawkinetes'. E isso é muito fácil de detectar pra quem conhecer sobre algum assunto.
A essa altura, claro, alguém poderia objetar: 'Ei, mas é só piada! Não vou me deixar levar!'. Sinto informar que isso não passa de uma ingenuidade enorme. O humor, primeiro de tudo, é uma ferramenta didática excelente. O próprio lúdico, quem sabe, poderia ser encarado como um princípio para tal tese que defendo agora. O certo é que a atração natural pelo gracejo nos atrai a atenção para o que é dito. Chaplin esperava transmitir alguma ideia com suas piadas. E mesmo que os humoristas, conscientemente, não percebam, vendem suas visões de mundo ao recitarem seus shows.
Uma forma inquestionável de observar isso é que esses que defendem o humor acima de tudo não percebem que defendem uma ética com tal proposta. Nela está inclusa, por exemplo, que não há nada tão sagrado que não possa ser omitida de uma elaboração proposicional jocosa. Se disserem que não estão vendendo ideia alguma com suas piadas, são mais inocentes - intelectualmente, e não moralmente, falando - do que poderíamos supor. Mas prefiro imaginar que seja estupidez mesmo. A alternativa seria que são deliberadamente cretinos e maldosos.
A piada é tão didática que muitos se valem dela como recurso erístico, i. é., como estratégia de debate. Ela é extremamente persuasiva e é muito difícil alguém não versado em retórica perceber o que foi feito. Basta que alguém saiba reformular qualquer posição com xisto e dará aquela impressão de que, de repente, aquela ideia não é tão atrativa assim. O ateu Christopher Hitchens era um mestre nisso. Mesmo que seus argumentos não fossem tão substanciosos e suas críticas não fossem nada avassaladoras, sua retórica era incrível e isso era muito atrativo aos ouvintes. Mas para um indivíduo treinado nas artes liberais (mais especificamente no Trivium), saberá que isso não passa da falácia denominada 'apelo ao ridículo'.

É certo que, mesmo que as intenções sejam boas, o conteúdo das piadas deve ser observado. Lewis, na sagacidade que é de seu apanágio, nota que o diabo sabe usar o humor para o mal. Basicamente há duas formas de fazer isso. Uma é a de atenuar a vildade de qualquer ação. Assim, algo completamente imoral, lamentável, que deveria nos trazer repulsa sem fim, passa a ser tolerável, senão desejável, quando se vê por um prisma de zoação. Daí que coisas tristes como o homossexualismo é, ao invés de ser um tema sério e muito triste, abraçado pelo nosso cotidiano. A glutonaria é omitida com brincadeiras e piadas sobre gordos. A ociosidade vil é disfarçada sobre uma montanha de risos e assim por diante. E para nosso terror, quantos não acham engraçado imitar terroristas muçulmanos que decepam cristãos fiéis?! Brincamos com a deficiência das pessoas quando nunca nos importamos com sua dor! Até mesmo achamos legal quando caçoam das Escrituras ou mesmo escarnecem do próprio Cristo! Tudo isso, por mais caro que nos seja, deve ser abandonado caso queiramos agradar a Deus!
A outra forma que o Inimigo de nossas almas usa o humor para o mal é o de caçoar das coisas santas. Virtudes são colocadas em cheque nessa estratégia. Ri-se da honestidade impecável de um homem que nem mesmo atravessa um sinal vermelho quando ninguém está vendo. Coloca-se a coragem
numa situação em que ela leva o indivíduo que a demonstra se dando mal, tudo num tom de brincadeira, de modo que, com o tempo, a coragem possa parecer algo estúpido para as pessoas. Pouco a pouco, observa o autor das Crônicas de Nárnia, aquelas coisas que Deus preza vão se tornando odiosas, repulsivas, nos corações dos homens.


Agora, claro, pelo amor de Deus, ninguém venha pensar que defendemos a vida taciturna, fúnebre e melancólica! Não mesmo! Vamos considerar alguns usos legítimos do humor.

Primeiro, no que diz respeito à retórica. É claro que a ironia, que eventualmente produz alguma comicidade, pode ser muito persuasiva e seria um elemento legítimo na argumentação (principalmente na estratégia chamada 'reductio ad absurdum'). Quem não se lembra de Elias, no Monte Carmelo, fazendo chacotas impagáveis ao Baal adorado em Israel? Esse seria um uso legítimo do humor. E ele bem poderia ser usado como ferramenta didática também, desde que para ensinar coisas boas. Caçoar de alguns erros teológicos grosseiros junto a amigos ou mesmo a um público que é por nós considerado pode ser uma ótima ferramenta para despertar os equivocados de seu sono dogmático. Mas tudo deve ser feito com sabedoria e cautela.

Agora, e fora do uso instrutivo? É pecado? Não mesmo! Até porque Deus quer que nos alegremos. O fundamento último de nossa felicidade, claro, está em Deus. Mas todos os demais apetites nos foram dados por ele mesmo. E as demais alegrias são legítimas. O próprio riso e predisposição para as piadas pode ser santo. Deus mesmo nos convida, nas Escrituras, a nos alegrarmos no Senhor. Ele ordena festas! Pede para que nos alegremos com os que se alegram! Bolas foras, situações embaraçosas ou, quiçá, algum tropeço que não cause nenhum ferimento grave são coisas que podem povoar nossas piadas. Há, de fato, alguns poucos humoristas cristãos fazendo um bom trabalho, como o
pessoal do canal do youtube 'Desconfinados'. Entre amigos e amantes o mero esboço de um gracejo causa riso fácil, como observa Lewis. Boas gargalhadas, movidas por piadas santas, são muito desejáveis! Tudo que temos que fazer é vigiar nosso coração para que não busque nas piadas o que deveríamos buscar em Deus, i. é, paz de espírito ou luz para as trevas da angústia. Também devemos observar se o que falamos é santo e agradável a Deus. Se contaríamos aquela piada para Jesus caso ele estivesse ao nosso lado. Ou melhor, como bem disse Chesterton outrora, ele está! Perceber isso mudará toda a história.

Portanto, qual filosofia pretendemos seguir? Vamos dar ouvidos a C. S. Lewis ou a Rafinha Bastos? Todos nós estamos envolvidos com a questão, e não há como não se decidir. Hoje mesmo fiz minha escolha definitiva. Qual é a sua? Sei que poderei perder algumas amizades com isso, o que lamentarei profundamente. Mas nada é mais valioso do que agradar ao meu Senhor!

[PS: Não estou falando que tudo que o Rafinha Bastos ou o grupo Porta dos Fundos produz é ruim. Pode haver algo de produtivo por conta da graça comum. Mas se formos dar audiência para eles e outros com filosofias semelhantes, devemos considerar o quão influente serão em outras mentes menos seletivas e, se mesmo assim considerarmos que vale a pena assistir, devemos ter a coragem de mudar de canal ou tirar o vídeo quando falharem nos filtros que propus aqui].

*Particularmente me refiro à carta XI do livro 'Cartas de um diabo a seu aprendiz' ou 'cartas do inferno'.
*Para quem quer entender o que estamos querendo dizer com isso, leia este artigo: crise existencial
*Para entender o que queremos dizer por 'pressupostos' e 'cosmovisão', leia esse artigo: cosmovisão - o que é?

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Autoritarismo Hermenêutico: eis um dos porquês de não aceitarmos a autoridade da Igreja Católica como Mestra



Nesta parte, falaremos sobre um assunto talvez não muito conhecido entre os irmãos, e certamente desconhecido de muitos católicos, que diz respeito aos conceitos católicos romanos sobre a interpretação bíblica, para o qual buscaremos expor a contradição gritante em que se encerram. Num artigo anterior, observamos a admissão das Escrituras sobre suas pontuais obscuridades, para a qual concluímos que, de fato, há trechos e porções difíceis de entender. No entanto, a Igreja Católica frisa esse aspecto das Escrituras a ponto de negar ao leigo o direito e a possibilidade de interpretar por si mesmo a Palavra de Deus.
"Como disse Martilho Lutero, o sacerdócio de todos os crentes (1 Pe 2:5) consiste na acessibilidade e possibilidade de a Bíblia ser entendida por todos os cristãos. Essa afirmação contrapunha-se à pretensa obscuridade da Bíblia sustentada pela Igreja Católica Romana, que asseverava que só a Igreja podia desvendar seu significado" (p.29).
Ao lermos esse trecho do 'Interpretação Bíblica' de Zuck, despertou-nos o interesse por dissertar, ainda que rapidamente, sobre o assunto.
Dessa maneira, para que não haja especulações de que fizemos uma má leitura da doutrina de Roma, apresentamos um parágrafo do Concílio de Trento:
"Decreta também com a finalidade de conter os ingênuos insolentes, que ninguém, confiando em sua própria sabedoria, se atreva a interpretar a Sagrada Escritura em coisas pertencentes à fé e aos costumes que visam a propagação da doutrina cristã, violando a Sagrada Escritura para apoiar suas opiniões, contra o sentido que lhe foi dado pela Santa Amada Igreja Católica, à qual é de exclusividade determinar o verdadeiro sentido e interpretação das Sagradas Letras; nem tampouco contra o unânime consentimento dos santos Padres, ainda que em nenhum tempo se venham dar ao conhecimento estas interpretações" (OS DECRETOS DO CONCÍLIO ECUMÊNICO DE TRENTO, Sessão IV, apud FERREIRA; MYATT, p. 97).
Diante disso, pode-se observar que somente à Igreja é permitida a interpretação da Bíblia. Bem como de que nenhuma pessoa pode violar o sentido das Escrituras para defender suas opiniões. Nesse ponto, concordamos, claro. Porém, não compactuamos com a visão deles de que violar as Escrituras seja discordar da Igreja Católica, ao invés de ser o faltar com as regras lógicas de interpretação.
Recorramos a Charles Hodge, com toda a sua maestria, a demonstrar a falácia deste princípio:
"Se o povo deve crer que as Escrituras ensinam certas doutrinas, então deve ter a evidência de que tais doutrinas são realmente ensinadas na Bíblia. Se tal evidência consiste em que a Igreja interprete os escritos sacros, então o povo deve saber o que é a Igreja, ou seja, qual dos corpos que reivindicam ser a Igreja, está autorizado a ser assim considerado. Como o povo, a massa sem instrução, determinará essa questão? O sacerdote lhe diz. Se o povo recebe seu testemunho nesse ponto, então como dizer-lhe como a Igreja interpreta as Escrituras? Aqui uma vez mais deve receber a palavra do sacerdote" (p.139).
Em síntese, a Igreja Católica quer provar por meio da Bíblia que ela é a Igreja verdadeira, que pode interpretar as Escrituras, e que a correta interpretação das Escrituras pode-se dar somente por ela. Alguém espera que a Igreja Católica vá pronunciar que interpretou as Escrituras e não encontrou apoio para sua reivindicação de ser ela a Igreja verdadeira, detentora do poder de dizer o significado das Escrituras? Essa é uma autêntica petição de princípio! Desapossar-nos do juízo privado para enjaular-nos em tal sistema é um suicídio intelectual. Fujamos disso!
Confessemos o que a Confissão de Fé de Westminster propõe no primeiro capítulo, seção VII: “Todas as coisas, por si mesmas, não são igualmente claras nas Escrituras, nem igualmente evidentes a todos; não obstante, aquelas coisas que precisam ser conhecidas, cridas e observadas para a salvação são tão claramente expostas e visíveis, em um ou outro lugar da Escritura, que não só os doutros, mas ainda os indoutos, no devido uso dos meios ordinários, podem alcançar um suficiente entendimento delas”
Aprendamos, pois, a interpretar a Bíblia por nós mesmos. Então, ao trabalho!

Para quem ainda não conhece a série de artigos que fizemos a respeito de dicas básicas para que se aprenda a ler a Bíblia, eis um sumário com os links para todos os artigos do gênero já postados:

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BIBLIOGRAFIA

FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, 1220p.
HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo:EditoraHagnos, 2001. 1777p.
ZUCK, Roy B. A Interpretação da Bíblia. Tradução de Cesar de F. A. Bueno Vieira. São Paulo: Vida Nova, 1994, 360p.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Sobre filosofia e ser filósofo... (Parte 3 -Educação e Signficado Existencial ou resgatando o antigo conceito de vocação).

Parte 2

ERRATA: O texto havia sido publicado sem que as revisões do Misael fossem efetivadas. Foi descuido meu. Mas agora já está tudo certo! Boa leitura! Peço-lhes desculpas.

CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES

Este artigo atenderá a algumas demandas diversas. Ele nos ajudará a sistematizar uma explicação muito relevante que temos a respeito de vocação, particularmente da vocação intelectual, a qual somos cobrados muitas vezes para dar. Mas ele também poderá mudar a forma como o leitor concebe sua própria educação, seu modo de olhar para a vida acadêmica, ainda que ele não tenha sido chamado para ser um acadêmico, e como ele encara os estudiosos (como ameaça a seu bem estar ou como heróis da civilização). E, finalmente, para uma aplicação mais particular, tentará tornar clara a nossa decisão por se envolver com um curso das humanas tão pouco rentável como o de Filosofia. Filosofia no Brasil!

Basicamente seguiremos o seguinte roteiro. Primeiro, iremos explorar um pouco o conceito de vocação. Depois, iremos demonstrar a relevância das discussões acadêmicas para mostrar que não se trata de uma atividade sem sentido, ou que seu significado não é subjetivo. Assim, teremos por justificada a vocação acadêmica e seus benefícios (ou malefícios) para a sociedade. Em suma, esperamos mostrar que o intelectual não é alguém distante da sociedade, mas, antes, forma seus alicerces.


VOCAÇÃO E EDUCAÇÃO


Há dois grandes empecilhos que impedem as pessoas de compreenderem o porquê de alguém com competência para cursar um curso mais 'adequado', financeiramente falando, não o faz, mas, ao invés disso, opta por algo como 'filosofia'. O primeiro é a ignorância quanto ao conceito de 'vocação'. O segundo é a falta de conhecimento da importância de um curso como esses. Vamos dar uma olhada no primeiro problema nesta seção. Para esclarecê-lo, vamos evocar o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho que nota algo de exímio valor para nosso labor, no livro 'O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota', mais precisamente no brilhante artigo denominado 'Vocação e Equívocos':


"Se você escreve, ou pinta, ou faz sermões na igreja, ou toca música, ou monta a cavalo, ou tira fotos, ou faz qualquer outra coisa que pareça interessante já deve ter ouvido mil vezes a pergunta: 'Você faz isso por dinheiro ou por prazer?' [...]. O que está omitido na pergunta [...] é a possibilidade de que alguém se dedique de todo o coração a alguma coisa sem ser por necessidade econômica ou por prazer - ou, pior ainda, que continue se dedicando a ela como se fosse a coisa mais importante do mundo mesmo quando só dá prejuízo e dor de cabeça. O que está omitido nessa pergunta [...] é aquilo que se chama vocação" (CARVALHO, p.47).

Essa concepção fútil, claro, alcança a educação. Para as pessoas, em geral, só há essas duas opções. Ou você faz algo por puro prazer, ou porque é rentável e vêem a escolha do curso universitário, ou mesmo ofício, à luz desses critérios. Isso mostra a insignificância que nos metemos, a pobreza de espírito a qual nossa sociedade está inserida. No entanto, Olavo se equivoca ao pensar que esse é um problema tipicamente brasileiro. Francis Schaeffer, após elaborar um panorama completo da decadência da cultura ocidental, fala sobre os porquês de chegarmos a conceber a educação nesse sentido. Schaffer discursa que a pretensão humanista chega, se acompanharmos o desenvolvimento da filosofia, ao ponto em que o homem, a partir de si mesmo, não consegue conceber sentido para a vida, nem formular valores objetivos e, com isso, enredou-se numa situação em que os únicos valores admitidos pelo homem moderno são 'paz pessoal' e 'prosperidade'. Com o primeiro, Schaeffer quer dizer um tipo de descompromisso com todas as coisas e pessoas, bem como imperturbabilidade e liberdade completa para fazer o que bem se entende. 'Prosperidade' é encarada em termos 'materialistas' (eticamente - e não metafisicamente - falando). Afinal, a melhor aposta do humanismo humanista (ou 'secular') é o hedonismo, mui exponenciado quando se tem mais recursos. Em outras palavras, 'já que a vida acaba aqui, temos que 'aproveitá-la' da forma mais intensa possível. Em suma, a crise na educação vai anuir com esses valores, admitidos tacitamente pelo homem comum, pai de família, que só quer o bem para seus filhos. Vale a pena citar as palavras de Schaeffer, falando dos anos 60, com foco no que acontecia na Europa, mas que é facilmente percebido em terras tupiniquins:
"Se algum estudante dos anos 60 perguntasse a seus pais e a outras pessoas 'estudar para quê?', a resposta que frequentemente lhe era dada, se não em palavras ao menos em inferência, era 'ora, porque as estatísticas dizem que uma pessoa com estudo ganha muito mais'. E quando ele perguntava 'ganhar mais para quê?', a resposta era 'para que possa pagar uma faculdade para seu filho'. De acordo com esse tipo de resposta, declarada ou implícita, não existe sentido na vida do homem, e a educação não faz sentido" (SCHAEFFER, p. 145-146).
Percebem o looping? Se a pergunta continuasse: 'E por que pagar faculdade para meus filhos?', a resposta seria: 'para que ganhassem mais' e assim por diante. E são os jovens que mais se incomodam com essa questão porque as questões existenciais ainda não lhes foram solapadas pela ocupação*.
Nesse contexto em que a educação não faz sentido é claro que só sobram as duas alternativas mencionadas por Olavo. Ou alguém se envolveria por puro prazer, ou por que dá dinheiro. Ninguém consegue conceber que poderíamos nos envolver por entendermos que nos enveredamos naquilo por que sentimos que temos esse papel no universo, que devemos desempenhar essa função, em suma, 'vocação'*. Schaeffer e Olavo estão de acordo que o que se perdeu, o que era fundamental e anterior à própria empreita rumo à educação, foi o 'sentido da vida'. Se o todo não faz sentido, muito menos faz suas partes. Se a vida não faz sentido, estudar também não. Temos uma crise existencial que precede a crise educacional. Uma crise filosófica...

É interessante que Craig, pautado no célebre livro de Alan Bloom, 'The Closing of the American Mind', vai ainda mais afundo para observar que as consequências nefastas do pensamento ocidental encontra sua origem no pós-modernismo. Não só a perda de sentido e de valores, mas da própria noção de verdade. "Uma vez que não há nenhuma verdade absoluta, uma vez que tudo é relativo, o propósito da educação não é ensinar a verdade ou conhecer os fatos - pelo contrário, trata-se apenas de adquirir a habilidade necessária para enriquecer, conseguir poder e fama" (CRAIG, p. 11).

Arthur Schopenhauer, famoso filósofo alemão pessimista do século XIX, pode muito nos ajudar em suas elucubrações a respeito desses assuntos. Ele não evoca a noção de vocação, preferindo deter-se na questão do prazer pelos estudos. Não podemos deixar de concordar que o intelectual deve sentir algum prazer no esclarecimento. Sanar suas dúvidas, ampliar seus horizontes, ter uma compreensão mais adequada e abrangente da vida pode ter e, de fato, tem muito valor. A grande validade da citação que fazemos de Schopenhauer destina-se, particularmente, àqueles que não conseguem entender que poderíamos nos envolver com o labor mental sem pensar, primeiramente, em quanto isso nos renderá. Observemos um poucos suas palavras embebedadas de desprezo por quem pensa assim:
"Diletantes, diletantes! - Assim os que exercem uma ciência ou uma arte por amor a ela, por alegria, per il loro diletto [pelo seu deleite], são chamados com desprezo por aqueles que se consagram a tais coisas com vistas ao que ganham, porque seu objeto dileto é o dinheiro que têm a receber. Esse desdém se baseia na sua convicção desprezível de que ninguém se dedicaria seriamente a um assunto se não fosse impelido pela necessidade, pela fome ou por uma avidez semelhante" (SCHOPENHAUER, p. 20-21).
Em certo sentido, Schopenhauer não está em franca oposição a Olavo, visto que o conceito de vocação não exclui nem o prazer e, não necessariamente, visto que pode ocorrer em alguns casos, a remuneração. Aliás, é difícil pensarmos em vocação sem considerarmos que há algum deleite na labuta, na empreita. É claro que tal labuta irá trazer suas dificuldades e obstáculos e muitos deles não seriam vencidos se o indivíduo apenas se deleitasse na tarefa, se não se sentisse vocacionado para tal pois, assim que o prazer cessasse, cessar-se-ia a motivação. O prazer é parte essencial, mas não é o leit motiv. Mas discordamos num ponto de Schopenhauer. Pouco antes da citação anterior ele diz:
"Para a imensa maioria dos eruditos, sua ciência é um meio e não um fim. Desse modo, nunca chegarão a realizar nada de grandioso, porque para tanto seria preciso que tivessem o saber como meta, e que todo o resto, mesmo sua própria existência, fosse apenas um meio Pois tudo o que se realiza em função de outra coisa é feito apenas de maneria parcial, e a verdadeira excelência só pode ser alcançada, em obras de todos os gêneros, quando elas foram produzidas em função de si mesmas e não como meios para fins ulteriores" (SCHOPENHAUER, p. 19).
Claro, evidentemente ele tem razão quanto à competência de quem se envolve nos estudos por amor ao conhecimento. Mas ele faz do conhecimento em si a razão existencial do homem. E aqui ele perde o que acreditamos ser o grande motor da busca pelo conhecimento. Não vamos discordar dele, muito menos de C. S. Lewis, que completa o quadro observando que a descoberta, a sede pelo conhecimento, é apetite que Deus mesmo colocou em nós: "Em certo sentido, refiro-me à busca do conhecimento e da beleza por eles mesmos, mas num sentido que não exclui serem também por causa de Deus. O apetite para essas coisas existe na mente humana, e Deus não cira apetite nenhum em vão" (LEWIS, p. 59). Entretanto, por que ansiamos por conhecer? É verdade que, em certo sentido, desejamos nos proteger. Mas entendemos que há algo mais profundo aí. São as questões essenciais, colocadas no coração humano, as questões últimas, fundamentais, que nos levam à buscar a educação. A cosmovisão humanista diz que não há sentido e muitos que a adotam chegam a dizer que não há, nem mesmo, forma de se chegar à verdade objetiva (ou mesmo que ela não existe!). E se essa possibilidade nos é vetada desde o início, então, como notaram Schaeffer e Craig, a educação está fadada ao fracasso. Todavia, se olharmos para o ardoroso trabalho da pesquisa e reflexão como meios para encontrarmos as respostas mais significativas, então nos debruçaremos nos livros, na natureza, e onde mais apontarmos o nariz e suspeitarmos que as respostas estão. A salvação da educação, bem como a compreensão e valorização daqueles destinados a ofícios afins, está, pois, numa concepção diferente sobre a vida. Somente uma cosmovisão alternativa poderá salvar o homem da estupidez bem assalariada que ele almeja, do 'american dream'.



AS FALSAS VOCAÇÕES PARA SER INTELECTUAL


No número das vocações, existe, pois, a do intelectual. Aqueles chamados para pensar, refletir, e sanar dúvidas, expandir a compreensão das coisas, educar. Dentre esses, temos aquele que irá estudar as ciências humanas, os pensadores, os filósofos (o que pode incluir não só filósofos mas, também, sociólogos, economistas... etc.). E aqui ainda temos de distinguir entre o filósofo e o professor de filosofia. Em suma, muito do descrédito para com a filosofia é por conta de haver tão poucos pensadores, não-vocacionados que se passam por vocacionados. Não que não haja quem estude num curso de humanas, mas que aqueles que entram ali, dizem-nos os 'amigos' que chamamos para conversar [nos referimos às fontes bibliográficas], não são verdadeiros 'filósofos', ou 'pensadores'. Ouçamos-los.
Para começar, gostaríamos de citar ousadas afirmações de outro filósofo brasileiro, Luiz Felipe Pondé. As reflexões desta seção partirão de suas afirmações:
"Na maioria dos casos, professores de universidades (ou não) são pessoas que, além de não gostar dos alunos, têm uma inteligência mediana e foram, quando jovens, alunos medíocres, que fizeram ciências humanas porque sempre foi fácil entrar na faculdade em cursos de ciências humanas. Claro que todos pensavam em si mesmos como Marx ou Freud não revelados. Ao final, o que se revela com mais frequência é alguém fracassado que ganha mal e odeia os alunos. Professores normalmente não gostam de ler ou de estudar, mas dizem que esse pecado é apenas dos alunos. Há um enorme sofrimento na maioria dos professores porque têm de fingir o tempo todo que acreditam na importância do que fazem" (PONDÉ, p.).
Há muita coisa pesada e polêmica aqui, não? Segundo Pondé, os professores são incompetentes, frustrados e até mesmo não gostam de ler! Seria essa uma constatação isolada? É claro que não! Não é de hoje que vários pensadores têm reclamado, desprezado e até feito chacotas de outros pseudo-pensadores de sua época.
Comecemos com o turrão Schopenhauer: "Os professores ensinam para ganhar dinheiro e não se esforçam pela sabedoria, mas pelo c´redito que ganham dando a impressão de possuí-la. E os alunos não aprendem para ganhar conhecimento e se instruir, mas para poder tagarelar e para ganhar ares de importantes" (SCHOPENHAUER, p. 17). Ou seja, muitos (para Schopenhauer, a maioria) dos que adentram aos cursos superiores o fazem não por amor ao conhecimento, ou por vocação, como Olavo diria, tomam o conhecimento como um meio para alcançar fama, dinheiro, prestígio e notoriedade, ou, na perspectiva de Pondé, adentraram-se ao mundo das humanas porque não tinham muitas alternativas.
A propósito, o professor Olavo, noutra obra, intitulada 'A Filosofia e Seu Inverso', defende que a filosofia tem a ver com a formação 'espiritual' do homem, trazendo-lhe orientação para a vida, em oposição à mentalidade 'profissionalizante' assumida com a formação das universidades modernas que permitiu às pessoas a possibilidade de lidarem artificialmente com as discussões filosóficas. Ele nos conclama a ver a filosofia tal como ela nasceu e, para isso, evoca o exemplo dos clássicos, i. é, de Sócrates, Platão e Aristóteles. O professor Olavo nota, particularmente, seguindo a Eric Voegelin, a disputa entre Sócrates e Platão contra os sofistas. Ele começa observando que
"Sócrates se volta contra tudo aquilo que, no meio ateniense, é opinião dominante, tida como respeitável e séria no mais alto grau. Graças ao próprio empenho de Sócrates e de Platão, a doxa ateniense nos parece hoje coberta de ridículo, mas na época ela era tão respeitada que desafiá-la podia ser punido com a morte, como de fato o foi. [...] A diferença específica de Sócrates reside num estrato mais profundo da experiência da discussão. Enquanto seus adversários repetem ideias correntes, apegando-se à segurança dos papéis sociais que lhes infundem a ilusão de estar certos por pensar de acordo com a maioria, ou com a classe dominante, Sócrates fala apenas como indivíduo humano, sem respaldo em qualquer autoridade externa. E não apenas faz isso, mas apela ao próprio testemunho íntimo de seus contendores, o que equivale a despi-los de suas identidades sociais e induzi-los à confissão direta, sincera, humana, de seus verdadeiros sentimentos" (OLAVO, 2012, p. 35).
Mais adiante Olavo caminha com Voegelin para observar que esse oposto do filósofo, que não lida com as questões íntimas como se tivessem relação com ele, ou que apenas abraça a opinião main stream, foi denominado por Platão de 'filodoxo', ou seja, um amante (filo) da opinião (doxa). E segundo Olavo, a maioria das faculdades e universidades estão cheias deles. Não se pensa mais com sinceridade e devoção. O grande objetivo é se amoldar ao establishment, e ganhar um título de autoridade em algum assunto. Schopenhauer, novamente, está em sintonia com esse mesmo pensamento, e o transporta lá para a Alemanha do século XIX:
"É possível dividir os pensadores entre aqueles que pensam a princípio para si mesmos e aqueles que pensam de imediato para os outros. Os primeiros são pensadores autênticos, são os que pensam por si mesmos, são eles mais propriamente os filósofos. [...] O prazer e a felicidade onde sua existência consiste exatamente em pensar. Os outros são os sofistas: eles querem criar uma aparência e procuram sua felicidade naquilo que esperam receber dos outros" (SCHOPENHAUER, p. 47).
Claro, olhando para o que já aprendemos de Aristóteles, podemos perceber que Schopenhauer adere a seu ideal eudemônico que concebe a realização existencial no ato de pensar, o que não coadunamos. Mas, independente, ele concorda que há aquele tipo de 'profissional do saber', 'sofistas', que veem na busca do conhecimento a busca pela felicidade nos aplausos alheios.

Pondé também fala de professores que não gostam de ler. Outros filósofos falam de um problema de mesmo porte, o fato de não saberem ler! Sim! Não falamos de professores analfabetos, mas que leram muito sem se tornar mais esclarecidos por isso. O conhecimento que adquiriram não foi abraçado de maneira adequada, de modo que praticamente 'não lhes pertence'. Mortimer Adler e Charles Van Doren podem elucidar esse ponto:
"Montaigne falava de uma 'ignorância abecedariana que precede o conhecimento, e uma ignorância doutoral que se segue ao conhecimento'. A primeira ignorância é a do analfabeto, isto é, do sujeito incapaz de ler. A segunda ignorância é a do sujeito que leu muitos livros, mas os leu de maneira incorreta. Alexander Pope os chamava, com justiça, de livrescos estúpidos, literatos ignorantes. Na história, sempre houve ignorantes alfabetizados, isto é, pessoas que leram muito mas leram mal. Os gregos tinham um nome especial para essa estranha mistura de aprendizado e estupidez - um nome que pode ser aplicado aos literatos ignorantes de todas as eras. Eles chamavam esse fenômeno de sofomania" (ADLER, VAN DOREN, p. 33).
E se alguém precisa de explicações quanto ao que é ler mal, podemos ver uma das formas denunciadas por Schopenhauer, que tanto reclama daqueles que leem demais e não param para pensar no que estão lendo:
"A leitura contínua, retomada de imediato a cada momento livre, imobiliza o espírito mais do que o trabalho manual contínuo, já que é possível entregar-se a seus próprios pensamentos durante esse trabalho. [...] Com isso não se chega à ruminação: mas é só por meio dela que nos apropriamos do que foi lido, assim como as refeições não nos alimentam quando comemos, e sim quando digerimos. Em contrapartida, se alguém lê continuamente, sem parar para pensar, o que foi lido não cria raízes e se perde em grande parte" (SCHOPENHAUER, p. 114).
E é justamente por isso que temos tão rasos pensadores (na verdade, pretensos pensadores). E por serem de qualidade tão ruim, tão sem proveito, é que todos desprezam seu ofício de forma geral. Eles não sabem nem dialogar com os 'professores mortos' (como Adler chama os livros)*. Entretanto, não podemos nos esquecer que o grande erro castrante é o da pressuposição de que não há sentido e valores na vida, ou mesmo que não há verdade, como vimos com o dr. Craig. Afastando-se desses pressupostos esterilizadores teremos uma avenina pela frente rumo ao conhecimento e o bem!

Mas temos que ser cautelosos. Podemos cair naqueles erros também. Podemos nos tornar pseudo-intelectuais. Não basta sabermos ler direito. Seria ingenuidade pensar que não seremos assediados pelos benefícios que o reconhecimento de sabedoria pode trazer. Nessa entoada Lewis nos adverte:
"podemos vir a amar o conhecimento - o nosso conhecer - mais que o objeto conhecido: deleitar-nos não no exercício de nossos talentos, mas no fato de que eles nos pertencem, ou mesmo na fama que eles nos proporcionam. A cada sucesso na vida de um intelectual esse perigo aumenta" (LEWIS, p. 60).
Tomando essas cautelas, acreditamos que poderemos salvar nossa vida intelectual.

Ok, sabemos o que é vocação, e como ela é importante, mas, alguém poderá perguntar: 'filosofia?'. Será que há alguma utilidade no estudo disso? É aí que vamos explorar nosso segundo ponto.


E PRA QUE SERVE ESSA TAL DE FILOSOFIA?


Quem foi que nunca se deparou com conceitos de filósofos, frases soltas ditas por essa ou aquela celebridade grega de centenas de anos atrás, e se perguntou: qual a relevância disso? Não é raro ver quem pense serem essas discussões filosóficas, e até teológicas, uma grande babaquice. E não é apenas gente iletrada. Registramos o exemplo do respeitado teólogo e razoável filósofo R. C. Sproul cometendo uma gafe célebre, mas muito didática*. Pois bem, além do fato de, normalmente, tais asseverações serem injustas, pautadas na absoluta falta de compreensão do que os pensadores disseram, temos que salientar que uma hora ou outra aquelas ideias batem à nossa porta. Isso mesmo, as mais abstratas elucubrações filosóficas começam a escorrer pelas escadarias da academia e, mais cedo ou mais tarde, quando conseguem prevalecer no topo, alcançam as mentes mais simples e 'vulgares' da população. Padeiros e donas de casa, sem perceber, repetem os jargões filosóficos da moda, e a população, em geral, pensa como os filósofos ditaram que deveriam pensar.
Uma evidência muito tranquila para quem quiser averiguar é a seguinte: pesquisem nas escolas literárias. Elas são reflexo das elaborações filosóficas que as precederam. É frequente que os autores até conheçam as principais discussões filosóficas e tomem partido. Acontece que eles irão expressar essas concepções em suas historias, narrativas, contos, romances e poemas. Logo as pessoas irão ler o que foi dito. Haverá escritos considerados mais sofisticados, e os intelectuais se devotarão a eles. E também surgirão escritos mais grosseiros, amiúde de competência intelectual proporcional e são esses que também, usualmente, nem conseguem perceber que escrevem admitindo conceitos e teses filosóficas, e acabam popularizando-as aos mais simples.
Música, teatro e cinema também contribuem muito para a divulgação dessas ideias, como bem nota Francis Schaeffer na obra 'Como Viveremos?'. E é o próprio Schaeffer - não exclusivamente, pois o filósofo brasileiro Olavo de Carvalho faz observações muito semelhantes em 'O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota' - também nota que haver outra maneira muito eficaz de encucar nos mais diversos setores sociais alguma ideia: as universidades. São delas que saem os formadores de opinião, e o que seus professores lhes convenceram é o que será base para o que irão transmitir. Aliás, aqui valem as palavras de William Lane Craig:
"De fato, a instituição mais importante na construção da sociedade ocidental é a universidade. É na universidade que os nossos futuros líderes políticos, jornalistas, advogados, professores, cientistas, executivos e artistas serão formados. É na universidade que eles formularão ou, mais provavelmente, absorverão a cosmovisão que moldará suas vidas. Uma vez que são os formadores de opinião e os líderes que moldam a nossa cultura, a cosmovisão que eles absorverem na universidade será aquela que moldará a nossa cultura" (CRAIG, p. 15).
Sendo assim, achamos que a ideia de que as questões filosóficas não passam de divagações e devaneios malucos provou-se obsoleta e infantil. Qualquer um pode ignorá-las, mas, a qualquer hora poderá notar que aquelas ideias que lhe pareciam tão naturais não eram outra coisa senão a formação social de suas ideias. Alguém que ignora esse fenômeno está muito propício a ser manipulado. E aqui podemos recorrer às observações pertinentes de Olavo de Carvalho a esse respeito - novamente, não está sozinho, pois Schaeffer coaduna com ele em observar a existência desse projeto -, que acredita existir 'estrategistas da guerra cultural', 'manipuladores conscientes' das opiniões, e segue isso com base nos escritos do mui influente Antonio Gramsci. Então revela o que para todos parece impossível:
"Que, para o estrategista da guerra cultura, o 'senso comum' seja um produto social como qualquer outro, sujeito a ser moldado e alterado pela ação organizada de uma elite militante; que sentimentos e reações, que, para o cidadão comum, constituem a expressão personalíssima da sua liberdade interior, sejam para o planejador social apenas cópias mecânicas de moldes coletivos que ele mesmo fabricou; que a direção de conjuntos das transformações culturais não seja a expressão dos desejos espontâneos da comunidade mas o efeito calculado de planos concebidos por uma elite intelectual desconhecida da maioria da população - tudo isso lhe parece ao mesmo tempo um insulto à sua liberdade de consciência e um atentado contra a ordem do mundo tal a concebe" (CARVALHO, 2013, p. 172).
Se existem mesmo esses planejadores culturais, os homens estarão menos sujeitos na medida em que forem educados, que conhecerem as raízes do que creem. A forma de se livrar é o interesse verdadeiro pela sua maturação, pela 'educação' no sentido estrito do termo. Precisamos estar cientes que, de uma forma ou de outra, abraçamos os pensamentos de nosso meio e época, e o conhecimento filosófico, devidamente adquirido, nos permitirá transcender nossa situação para avaliarmos de forma mais adequada o que nos é apresentado. Recorremos às acertadas palavras de Sproul para iluminar a questão:
"A filosofia nos obriga a pensar em termos de fundamentos. Com fundamentos quero dizer os primeiros princípios ou verdades básicas. A maioria das ideias que moldam nossa vida é aceita (pelo menos no começo) sem muita crítica. Não criamos um mundo ou ambiente do zero e depois vivemos nele. Entramos num mundo e numa cultura que já existem e aprendemos a interagir com eles" (SPROUL, p. 11).
E falando em Sproul, podemos pegar, mais uma vez, um exemplo de sua vida para ilustrarmos o que estamos trabalhando por aqui. Sproul conta que no segundo ano da faculdade de filosofia precisava arrumar um emprego nas férias e, não achando nada que demandasse alguém com conhecimentos filosóficos, acabou na manutenção de um hospital onde se encontrou com um homem cumprindo funções semelhantes para, em seguida, descobrir que se tratava de um Ph. D. em filosofia que fora expulso da Alemanha por ocasião da ascensão de Hitler que não queria, ali, ninguém que
discordasse de seus valores. Então Sproul notou:
"Eu estava empunhando uma vassoura poque vivia em uma cultura que dá pouco valor à filosofia e tem pouca estima por quem gosta dela. Meu amigo, todavia, estava com uma vassoura nas mãos porque vinha de uma cultura que dava grande valor à filosofia. Sua família fora destruída porque Hitler sabia que idéias são perigosas" (SPROUL, p. 10-11).
As ideias são perigosas, e, a menos que não queiramos ser vítimas delas, precisamos nos debruçar sobre os livros e refletirmos bem para combater, ou mesmo prevenir, as mazelas que uma ideia errada pode produzir.

É interessante notarmos que a questão do declínio do significado da educação é justamente produto de desdobramentos filosóficos. Cientes do que acabamos de expor, podemos voltar para o que apresentamos no início do artigo para percebermos que foi justamente por conta de concepções filosóficas que acometeram o Ocidente é que a educação caiu onde caiu.

Alguém poderia, ainda, nos lançar uma última objeção. Será que não há coisas prioritárias para serem estudadas? Por exemplo, medicina. Será que não é mais importante salvar a vida das pessoas para que elas pensem? Ou protegê-las e lhes dar conforto, estudando engenharia, por exemplo? Há quem diga que devemos dar uma atenção especial às 'verdadeiras ciências'. Isso, para Olavo, é típico dos países subdesenvolvidos:
"Sobretudo em países do terceiro mundo, a formação das elites governantes é maciçamente concentrada em estudos de economia, administração, direito, ciência política e diplomacia. Para esses indivíduos, as letras e artes são, na melhor das hipóteses, um adorno elegante, um complemento lúdico às atividades 'peso pesado' da política, da vida militar e da economia" (CARVALHO, 2013, p. 171).
E completa dizendo que há uma falsa suposição, da parte de muitos, de que um povo deve, primeiro, atentar-se às questões políticas, militares e econômicas para, só então, lidar com os 'tesouros culturais': "Nenhum povo ascendeu ao primado econômico e político para somente depois se dedicar a interesses superiores. O inverso é que é verdadeiro: a afirmação das capacidades nacionais naqueles três domínios antecede as realizações político-econômicas" (CARVALHO, 2013, p. 66). É interessante observar que C. S. Lewis faz a mesma constatação:
"Se os homens tivessem adiado a busca do conhecimento e da beleza até estarem em segurança, essa busca jamais teria começado. [...] Jamais faltaram razões plausíveis para se adiarem todas as atividades meramente culturais até que algum perigo iminente seja desviado ou evitado ou que alguma injustiça gritante seja consertada. Entretanto, a humanidade há muito tempo preferiu esquecer essas razões. Quis o conhecimento e a beleza agora, e não ia esperar o momento apropriado que jamais chega" (LEWIS, p. 53).
Um pouco mais adiante ele reforça a ideia:
"Sempre houve muitos rivais de nosso trabalho. Estamos sempre nos apaixonando ou querelando, procurando emprego ou temendo perdê-lo, adoecendo e nos recuperando, acompanhando negócios públicos. Se nos deixarmos pegar pelo abandono, sempre ficaremos esperando que uma ou outra distração termine antes que comecemos de fato nosso trabalho. Os únicos que alcançam muito são os que desejam tão intensamente o conhecimento que o procuram enquanto as condições ainda são desfavoráveis" (LEWIS, p. 62).


CONCLUSÃO


Não há dúvidas de que a formação de um filósofo é algo de extrema importância para o bem estar da sociedade. Graduar-se nessa área, ou em alguma outra área das humanas, é de valor crucial para ter a possibilidade de influenciar a cultura para o bem ou para o mal. E é justamente por conta da situação, do zeitgeist, do espírito pessimista que assombra a humanidade e concatena a razão à falta de sentido para tudo, e até mesmo à falta de verdades, que a a educação é desprezada, e com isso os pensadores. Mas é justamente nesse desprezo que se coloca à mercê deles. É um sistema que se auto-alimenta. Quanto mais as pessoas ignorarem os pensadores, seus poderes de influência, e desprezarem a própria educação, não vendo nela nada além do que um meio para se enriquecer, mais suscetíveis à manipulação, ao engano e ao engodo estarão. O autor desse texto é que não se enquadrará nesse cenário! Não há, portanto, motivos para abandonar o projeto de graduar-se em prol de caminhar rumo ao objetivo de tornar-se um filósofo (não que a graduação seja absolutamente necessária, mas é um meio ordinário), amigo tanto do bem quanto do saber, comprometido com o bem da sociedade. Acreditamos que existe sentido para a vida, valores, e que há verdades objetivas. E tentaremos mudar os rumos, ao menos dos que se encontram ao nosso redor.


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Queremos agradecer a Misael Pulhes pela revisão que fez ao texto!
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* Sobre isso, dissertamos mais demoradamente aqui.
*  Julgamos, aliás, que a leitura dos livros de Adler/Van Doren e Schopenhauer, relendo-os aplicando seus próprios métodos a eles mesmos, dará as competências iniciais para uma boa educação, ou pelo menos as bases para o aprendizado.
* A propósito, diga-se de passagem, é bom conceituarmos vocação antes de continuar, caso o leitor sinta-se um pouco perdido. Olavo define-a da seguinte forma: . O termo que, até onde sabemos, tem origem cristã, particularmente protestante (o que não é omitido pelo professor Olavo, embora ele diga ver coisas semelhantes na própria Idade Média), é mui bem definido por Marcos Botelho num vídeo com esse mesmo nome. Nele, Botelho diz o seguinte: 'A base do chamado é servir ao próximo' e, adiante, diz que uma vocação é aquilo que 'você sabe fazer, gosta de fazer e Deus colocou nas suas mãos para fazer'. Podemos arrematar com uma elaboração muito feliz de Botelho: 'Vocação é a maneira que Deus se expressa ao mundo através de você'! O vídeo completo pode ser visto clicando aqui.
A título de completude temos Lewis dando alguma luz para os que não sabem qual seria sua vocação: "O modo com que um indivíduo foi criado, seus talentos, suas circunstâncias, normalmente são todos índices razoáveis de sua vocação" (LEWIS, p. 53).
* Quem quiser, dê uma olhada aqui.


BIBLIOGRAFIA


ADLER, Mortimer Jerome; VAN DOREN, Charles. Como Ler Livros: o guia clássico para a leitura inteligente. Tradução de Edward H. Wolff e Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2010. 432p.
CARVALHO, Olavo de. A Filosofia e Seu Inverso: E Outros Estudos. Campina: Vide Editorial, 2012, 264p.
CARVALHO, Olavo de. O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Organização de Felipe Moura Brasil. Rio de Janeiro: Record, 7 ed., 2013, 616p.
CRAIG, William Lane. Apologética para questões difíceis da vida. Tradução de Heber Carlos de Campos. São Paulo: Vida Nova, 2010, 192p.
LEWIS, C. S. O Peso de Glória. Tradução de Lenita Ananias do Nascimento. São Paulo: Editora Vida, 2008, 184p.
PONDÉ, L. F. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia. São Paulo: Leya. 2012, 232p.
SCHAEFFER, Francis. Como Viveremos? Tradução de
SCHOPENHAUER, Arthur. A Arte de Escrever. Tradução, organização, prefácio e notas de Pedro Süssekind. Porto Alegre: L&PM, 2013, 152p.
SPROUL, R. C. Filosofia Para Iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208p.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Sobre filosofia e ser filósofo... (Parte 2 - A Filosofia da Religião)



Uma vez estabelecido que a dúvida, oriunda do espanto, é o fundamento e a semeadora da filosofia [se ainda não leu a primeira parte, clique aqui], há ainda passos a lidar em relação à compreensão do que é a filosofia e o que é um filósofo. A resposta, pois, girará em torno de lidar com a inquietação, em encarar o deslumbramento, não raro aterrorizante, que envolve a experiência humana. E dentre as inquietações, talvez haja uma que seja a primordial. Afirmamos que se trata da questão sobre Deus e seu corolário, a religião.

Agostinho de Hipona, na provável primeira auto-biografia da história, começa, no primeiro livro de suas 'Confissões', questionando o que seria Deus: "Que és, portanto, ó meu Deus?" (Livro I, Capítulo IV). Junto a essas questões ele faz uma série de outras questões. As questões parecem remontar seus tempos de juventude e havia algum grau de não-sofisticação nelas, pois parecem refletir uma concepção filosófica equivocada não digna de um pensador dessa envergadura. Aliás, no decorrer da própria obra podemos perceber que ele mesmo toma ciência dessas questões e suas soluções. Mas é interessante que, tanto ali, antes de sua conversão, quanto após ela, continuam a surgir dúvidas sobre Deus. Não mais, necessariamente, sobre sua existência, mas sobre sua natureza e sua relação com o mundo e com os homens. Portanto, mesmo uma vez experimentado, ainda surgem questões sobre Deus, o que moveria a todos a pensar sobre o assunto. Sendo assim, Deus torna-se objeto de indagação constante e, portanto, uma 'fonte de pensamento filosófico'.
De fato, segundo Ronald Nash, realmente todos pensam sobre Deus. Ele coloca as questões sobre Deus como basilares, i. é, fundamentais para toda a compreensão de mundo. Fazem parte das questões últimas da vida que, pois, compõem o sistema de pensamento, ou seja, a cosmovisão*, E 'cosmovisão' todo mundo tem, ainda que não saiba. Sendo assim, todos pensam sobre Deus.
Pensar o que sobre Deus? Nash nos dá uma lista de perguntas que nos surgem naturalmente: "Deus existe? Qual é a natureza de Deus? Há mais de um Deus? É Deus um ser pessoal, ou seja, é ele o tipo de ser que pode conhecer, amar e agir? Ou é Deus uma força ou poder impessoal?" (NASH, p. 15). Todos nós, sendo assim, temos alguma resposta, ainda que rudimentar, à essas questões.

Mas como é próprio da maioria das pessoas, nem todas concebem respostas refletidas sobre esses temas. É próprio do filósofo lidar com as questões relacionadas à cosmovisão. Demorar-se um pouco mais nessas questões basilares. E a questão sobre Deus é primordial. Nesse sentido, Nash afirma que "O elemento crucial de qualquer cosmovisão é aquilo que ela diz ou não sobre Deus" (NASH, p. 15). Até mesmo os ateus admitem isso. Por exemplo, Lee Strobel nos conta sobre sua entrevista com Charles Templeton, que era pastor e passou a ser ateu, e a figura, ao ser questionada sobre Jesus, o julga mal pensador por não ter lidado com a questão mais importante de todas. Melhor olhar em suas próprias palavras. Em determinada parte da entrevista, Strobel pergunta: " _ E os ensinamentos dele; o senhor admirava o que ele ensinou? _ Bem, ele não era um pregador muito bom. O que ele disse era simples demais*. Ele não havia refletido sobre o que dizia. Não havia meditado sobre a maior pergunta que se pode fazer. _ Que é... _ Existe um Deus? [...]" (STROBEL, p.22).
Collin McGinn é ainda mais explícito, e afirma justamente o que estamos tentando mostrar nesse artigo: "Seria somente uma questão de fé cega ou a existência de Deus podia ser provada? E a formulação dessa pergunta rapidamente leva a toda a questão do que ´uma justificativa afinal, assim como questões sobre conhecimento, certeza, livre-arbítrio e a origem do universo. Deus pode ser ou não um filósofo, mas certamente é responsável por muita filosofia" (MCGINN, p. 20). Ou seja, a questão sobre Deus é tão fundamental que suscita reflexões em várias outras áreas e, além disso, implica em tudo o mais. Se Deus existe, e dependendo de como ele é, então a metafísica, a ética, a antropologia filosófica, a escatologia, a reflexão existencial e a própria epistemologia é concebida de forma diferente*. A questão chega ao ponto em que há autores que afirmem ser a religião a progenitora da filosofia, como Alessandro Rocha: "Sem incorrer em nenhum equívoco, podemos dizer que na origem mesmo da filosofia está a experiência tipicamente religioso do espanto acerca da realidade e do esforço por nomear suas origens" (ROCHA, p. 9).
Olavo é ainda mais ousado, e afirma que a filosofia, como inicialmente concebida nos projetos clássicos, abrangendo Sócrates, Platão e Aristóteles, implicavam na busca pelo Supremo Bem, o que seria, que seja de uma forma genérica, uma busca por Deus: "Tanto em Platão quanto em Aristóteles ou em toda a filosofia escolástica, o Supremo Bem não é um 'valor', muito menos uma 'criação cultural', mas a realidade suprema, o ens realissimum, fundamento primeiro e objeto último de todo conhecimento" (CARVALHO, p. 38).
É interessante e pertinente notarmos, agora, que os autores do famoso livro 'O Livro das Religiões', que conta com a coautoria de Jostein Gaarder, menciona as questões fundamentais, 'parteiras' da filosofia, como bases da religião. "Quem sou eu? Como foi que o mundo passou a existir? Que forças governam a história? Deus existe? O que acontece conosco quando morremos? [...] Muitas questões existenciais são bastante gerais e surgem em todas as culturas. Embora nem sempre sejam expressas de maneira tão sucinta, elas forma a base de todas as religiões" (GAARDER, HELLERN, NOTAKER, p. 11). Aqui, pois, é possível perceber como a questão sobre Deus afeta toda a reflexão dos indivíduos. A resposta irá interferir no conceito sobre o homem, a origem (ou ausência de início) do mundo, o destino do homem e assim por diante, como já observamos, alhures, em outros termos.
E é tão evidente que a questão sobre Deus influencia todos os setores, repartições, da vida, que "qualquer pergunta sobre a cultura, a política, as artes, a economia, as ideologias pode muito bem ser argumentada tomando por base a presença e a influência da religião" (ROCHA, p. 9). Gaarder, Hellern e Notaker afirmam algo muito semelhante: "Um rápido olhar para o mundo ao redor mostra que a religião desempenha um papel bastante significativo na vida social e política de todas as partes do globo. [...] É difícil adquirir uma compreensão adequada da política internacional sem que se esteja consciente do fator religião" (GAARDER, HELLERN, NOTAKER, p. 16).

Mas mesmo que não se admita a origem religiosa da reflexão filosófica, ainda sim não podemos negar que a religião, e, portanto, o assunto 'Deus', é tema constante das elucubrações dos filósofos, bem como as questões mais imediatas que daí decorrem, como a relação do homem com Deus e afins: "Dos longínquos tempos anteriores a Sócrates até os fluidos dias de nossa cultura pós-moderna, a religião nunca saiu da pauta da filosofia. Ora como rainha, ora como vassala, sempre esteve ali impondo sua desejada* ou incômoda presença" (ROCHA, p. 9).

E a questão, claro, é tão fundamental que envolve alto comprometimento psicológico, tanto para o teísta quanto para o ateísta, como demonstra muito eloquentemente R. C. Sproul: "Os dois lados do debate precisam ver que todos os envolvidos na discussão sobre a existência de Deus trazem bagagem psicológica à mesa. Aqueles que negam a Deus, por exemplo, tem um interesse enorme em sua negação porque, colocando de forma simples, se o Deus bíblico existe, então abre-se um infinito obstáculo entre eles e sua própria autonomia" (SPROUL, p. 144). Em outras palavras, quem nega a Deus tem algum interesse em fazê-lo. Se o Deus da Bíblia existe, por exemplo, então tudo deve ser revisto, inclusive como vivemos nossas vidas e haveremos de prestar contas de nossos atos e pensamentos. Para alguém envolvido, apaixonadamente, em determinado tipo de atividade, como a dissolução, vida boêmia, adultério e afins, a existência do Deus da Bíblia pode ser um enorme incômodo*. Sproul continua: "Enquanto cristãos, cada fibra de nosso ser quer que Deus exista, e cada fibra de nosso ser igualmente repele o pensamento de que a soma de todas as nossa vidas é a 'paixão inútil' de Sartre. [...] A mesma pressão psicológica para o ateu negar a existência de Deus é a do teísta para assumir sua existência. [...] Sabemos o que está em jogo se fizermos isso [cremos no Deus da Bíblia]; entendemos que estaremos em apuros se conhecermos a existência de um Deus soberano" (SPROUL, p. 144) e mais adiante um pouco: "Não podemos arriscar expor essa nudez. Não podemos estar sob a luz da revelação de Deus. Nosso ambiente de conforto é a escuridão. Preferimos a escuridão porque e oculta nossa perversidade. Então, por natureza, suprimimos a luz da revelação de Deus. Fazemos isso porque consideramos que é necessário nos proteger da dor da exposição*" (SPROUL, p. 146). Assim, ao mesmo tempo em que o teísta quer que Deus exista, o ateu quer que ele não exista. Destaque para a palavra QUER. Isso deve ser colocado à mesa caso se queira refletir sério sobre o tema. Envolve, aqui, pois, as questões existenciais, éticas e a própria orientação da cosmovisão do indivíduo*.

Se Deus e filosofia têm alguma coisa a ver? Parece-nos inseparáveis e, portanto, não nos é concebível filósofo e filosofia responsável que não considere Deus como assunto e não lhe logre devida atenção.

Parte 3

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*Se algum leitor ainda não domina o conceito de 'cosmovisão', sugerimos os artigos que escrevemos sobre, bastando a leitura da parte 1 e da parte 2:
Parte 1
Parte 2
*Caso algum leitor também pense assim podemos sugerir o magnífico artigo de Douglas Groothuis que lida justamente com o tema: http://liberdadeepensar.blogspot.com.br/2007/11/jesus-o-filsofo-e-apologista-por.html.
Peter Kreeft também tém um livro inteiro observando as habilidades filosóficas de Jesus: http://www.thomasnelson.com.br/livro/jesus-o-maior-filosofo-que-ja-existiu/ (tudo bem que foi publicado pela Thomas Nelson, e que o gênero indicado seja 'auto-ajuda' - o que é um engano -, mas é Kreeft. É bom!).
*Claro, a formulação da existência de Deus pode elevar-se a partir de um desses pontos filosóficos. Mas a questão de que há um intercâmbio entre os vários braços da filosofia ainda permanece e, uma vez decidida a questão sobre Deus, tudo o mais é também influenciado.
*Para uma lista de filósofos teístas organizados mais ou menos de forma cronológica elaboramos uma lista quando ilustrávamos o conceito de sofisma no artigo que pode ser conferido clicando aqui.
*Embora não seja tema das reflexões de agora, é bom salientar que a fé cristã não é ascetista tanto quanto o epicurismo, no que concerne à sua ética, não o é.
*Não é o que parece estar sugerido no trecho de João 3:19-21.
*Para uma abordagem um pouco mais extensa do que Sproul chama de 'Psicologia do Ateísmo', vejam: https://www.youtube.com/watch?v=HQgMoKIXV6M
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BIBLIOGRAFIA



AGOSTINHO. Confissões. Tradução de Alex Marins. São Paulo: Martin Claret, 2008, 439p.
CARVALHO, Olavo de. A Filosofia e seu Inverso: e outros estudos. Campinas: Vide Editorial, 2012, 264p.
GAARDER, Jostein; HELLERN, Victor; NOTAKER, Henry. O Livro das Religiões. Tradução de Isa Mara lando; revisao técnica e apêndice de Antônio Flávio Pierucci. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, 335p.
MCGINN, Collin. A Construção de Um Filósofo. Tradução de Luiz Paulo Guanabara. Rio de Janeiro: Record, 2004, 268p.
NASH, Ronald H. Questões Últimas da vida: uma introdução à filosofia. Tradução de Wadislau Martins Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2008. 448 p.
ROCHA, Alessandro. Introdução à Filosofia da Religião: um olhar da fé cristã sobre a relação entre a filosofia e a religião na história do pensamento ocidental. São Paulo: Editora Vida, 2010, 184p.
SPROUL, R. C. Defendendo sua Fé. Tradução de Patrícia Merlim. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, 192p.
STROBEL, Lee. Em Defesa da Fé:  jornalista ex-ateu investiga as mais contundentes objeções ao cristianismo. Tradução de Alderi S. de Matos. São Paulo: Editora Vida, 2002, 368p.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

O que pensar sobre Jogos de Azar?



INTRO

Uma questão ética relevante para ser discutida é a questão da pertinência de um cristão se envolver em jogos de azar. É viável para o cristão se envolver com isso? É pecado?
Existe, na cultura cristã, a afirmação taxativa de que é. E a maioria das pessoas que conheço afirmam que aprenderam que é errado. Mas se pergunto quais são as fontes bíblicas de tal ensino, grande parte não sabe responder, enquanto que outros respondem com argumentos muito duvidosos. Nós, como reformados, assumindo a sola scriptura, não podemos nos conformar com o ensino ‘tradicional’. Ou temos um ensino bíblico sobre o tema, ou não o proibamos, nem falemos que Deus não gosta, quando ele não se pronunciou.
Primeiro, para não haver confusão, vamos definir o que queremos dizer por ‘jogos de azar’. Em grande parte, o erro que nos parece haver neles (já antecipando nossa posição) está incluso em sua definição. Para evitar tal equívoco, tomemos uma definição. Nas palavras de Champlin, "jogo é um risco que envolve dinheiro, que se pode ganhar ou perder mediante uma aposta" ..."(R.N. CHAMPLIN, Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, v.3, p.568-9).
Colocarei aqui aqueles argumentos que considerei bons. Li alguns artigos, e em boa parte, vi argumentos bem falaciosos. Não consegui perceber nestes que apresentarei. Também observaremos algumas objeções comuns, bem como traremos à baila suas devidas (ou possíveis) refutações. Percebam que são argumentos cumulativos. Ou seja, o que pode escapar em um é respondido em outro.

ARGUMENTOS E OBJEÇÕES

1)      Argumento do Vício.
O primeiro bom argumento que vi é que o jogo envolve o vício, e este vício em particular, traz grandes mazelas sociais. Pessoas se envolvem com jogos de tal forma que perdem tudo!  Depois disso, as conseqüências são muito amplas para se colocar em um texto como esse. Mas vários tipos de distúrbios sociais poderiam ser mencionados: como a miséria e mendicância; ou o envolvimento com crimes, por conta da situação que alguém foi levado por conta de jogos; ou ainda, como último exemplo, em problemas familiares por conta de gastar recursos com jogos ao invés de empregá-los em necessidades da família.
Qualquer vício é, obviamente, desencorajado e proibido pelas Escrituras. Pertinente, neste momento, é o texto de 1 Coríntios 6:12:
 ‘Todas as coisas me são lícitas, mas nem tudo me convém. Todas as coisas me são lícitas, mas eu não me deixarei dominar por nenhuma delas’.
 Wiersbe, comentando sobre esse texto, observa que esse ‘todas as coisas me são lícitas’ era um ditado dos liberais morais de Corinto. Paulo concorda. Todas as coisas me são possíveis, alcançáveis, mas nem todas me são convenientes, ou seja, próprias, corretas. ‘Posso’ é uma palavra que pode ter, pelo menos, dois sentidos. ‘Posso’ de ‘capacidade’, ‘habilidade’; ou ‘posso’ de ser permitido. Podemos todas as coisas no primeiro sentido, mas não no segundo.
Este mesmo comentarista observa que Paulo estava argüindo sobre a liberdade cristã, e entende que Paulo estava combatendo a idéia de ser livre para entrar em outro vício. É o que fica explícito na proposição ‘não me deixarei dominar por nenhuma delas’.
Portanto, vício é pecado.
Objeção: Alguém pode replicar que joga e não é viciado, ou que jamais se viciará. Bom, primeiro que tais alegações são muito suspeitas. O viciado nem sempre percebe que está viciado. Às vezes demora um bom tempo para admitir. No programa dos 12 passos do AA (Alcoólicos Anônimos), o primeiro passo é admitir o vício. Portanto, alegar que não é viciado nem sempre é sinônimo de que, de fato, não o é.
Mais difícil ainda é garantir que não vai se viciar. Pessoas que ficam viciadas também pensam assim. Ou alguém pensa que todo mundo que está escravizado a algum vício começou pensando e querendo se viciar?
Por fim, ainda que haja uma forma de garantir não se viciar, o jogo, praticado como um ato público é um testemunho e um incentivo para mais fracos (principalmente para quem tem um papel de liderança, no qual poderá ser imitado), propensos ao vício, caírem na cilada. Portanto, tal pratica poderia levar outras pessoas ao pecado.
Aqui, a questão é muito parecida com a bebida, e tem os mesmos argumentos desmotivadores. Primeiro, para se viciar, tem de começar. Uma vez iniciado (na bebida ou nos jogos), abre-se as portas para a possibilidade de se viciar. Mesmo assim, bebida não é pecado em si (ficar bêbado é). Se alguém consegue beber sem vício e sem embriagar-se, ainda assim deve ser cauteloso (se não omisso para com seu prazer), pois seu gesto pode incentivar outros mais fracos a beberem, e caírem no vício.

2)      Argumento da Forma de Angariar Recursos

Um dos fortes (e controvertido) argumento usado é o de como devemos obter nossos bens, recursos, posses, etc. Claramente Moisés declara em Gênesis 3:19 “No suor do rosto comerás o teu pão, até que tornes à terra, pois dela fostes formado; porque tu és pó e ao pó tornarás”. Ninguém, sensato, pensa que o suor funciona como margarina. A expressão significa que o homem vai conseguir os recursos de subsistência mediante seu trabalho. Essa é uma maldição na qual Deus encerrou toda a humanidade. Portanto, jogar, é tentar granjear recursos sem os esforços que Deus nos incumbiu de ter. É tentar escapar do juízo de Deus, o que só acarretará mais juízo.
E a analogia da fé só tem a confirmar tal postulado. Efésios 4:28 (NVI):
“O que furtava não furte mais; antes trabalhe, fazendo algo de útil com as mãos, para que tenha o que repartir com quem estiver em necessidade”. Alguém pode objetar que o texto refere-se apenas à antítese entre conseguir por trabalho ou por furto. Mas não é só isso que o texto ensina. Ele diz que os recursos que a pessoa terá será oriundo do seu esforço (não necessariamente um serviço braçal). É assim que a Bíblia legitima o ganho.
1 Tessalonicenses 4:11-12 ensina a mesma coisa:
“Esforcem-se para ter uma vida tranqüila, cuidar dos seus próprios negócios e trabalhar com as próprias mãos, como nós os instruímos; a fim de que andem decentemente aos olhos dos que são de fora e não dependam de ninguém.”
Claramente, juntando todos estes textos, percebemos uma ética bíblica em que os recursos devem ser obtidos pelo esforço, pelo trabalho. Em momento algum se recomenda angariar algo por outra forma além do labor.
Cumprindo esse itinerário divino, temos a promessa de que seremos sustentados. Obviamente, Deus não promete sustentar o negligente, o ocioso.  Em 1 Timóteo 6:17, Paulo diz que Deus ‘tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento’ (RA), e em Filipenses 4:19 o mesmo autor diz “E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades”.
Assim, temos o modo de obter sustento e recursos, e temos a promessa de que Deus nos sustentará. Onde é que jogos podem entrar aqui. Ao que me parece, jogar seria não confiar e/ou não estar satisfeito com a providência divina.
Objeção: Alguém poderia dizer: mas, com essa mentalidade de que tudo que temos deve ser adquirido pelo suor de nosso trabalho, então não podemos receber presente. Mas essa é uma má aplicação da regra que acabamos de estipular (percebendo-a na Palavra). Receber um presente, primeiro, não é apostar dinheiro (o que já elimina boa parte do pecado); e, mais em conexão com esse tópico, o presente foi obtido com o suor do trabalho de alguém (naturalmente, se soubermos que provém de fontes ilícitas, não podemos aceitar).
A regra que descobrimos é que os bens devem ser obtidos pelo esforço. Um presente deve ser oriundo da mesma fonte. Ganhar ‘uma bolada’ num jogo de azar não é receber um presente, um ato voluntário em que alguém oferece um recurso que conseguiu mediante esforço. Portanto, é uma falsa analogia.

3)      Argumento da Confiança na Sorte
Um dos grandes problemas que os Reformadores apontaram em relação aos jogos é que, quando neles, o cristão tinha a tendência em acreditar em algo chamado ‘sorte’. Primeiramente, sorte não existe. Isso está bem claro no texto de Provérbios 16:33: “A sorte se lança no regaço, mas do Senhor procede toda decisão”.
Acreditar em ‘sorte’ é negar princípios bíblicos inegociáveis das doutrinas da providência e da soberania de Deus.
Objeção: Uma objeção comum é a de que jogaremos confiando na providência de Deus. Mas isso seria tentá-lo. É fazer algo que ele não ordenou (alguns diriam: ‘proibiu’, mas, por hora, preferimos ser mais cautelosos) e esperar que ele o abençoe. Uma situação hipotética semelhante seria alguém encher a cara, depois dirigir em alta velocidade para chegar rápido em casa, e esperar que Deus o abençoe com uma apressada caminhada segura. Pra começar, Deus não mandou ficar bêbado. Pra começar, Deus não mandou beber. Não se pode ‘esperar em sua providência em ocasiões assim’.

4)      Argumento da Motivação.
Alguns autores bem observam que os jogos alimentam a ganância (ou, se alimentam dela). Nada que estimule o amor e o apego ao dinheiro é aconselhado na Bíblia. Pelo contrário, ela nos ensina não superestimar o dinheiro. Veja o texto de 1 Timóteo 6:10:
“Porque o amor do dinheiro é raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e a si mesmos se atormentaram com muitas dores”. Olha que perigo! E, cá entre nós, é meio difícil (para não dizer impossível) alguém se envolver com esses jogos e não ter sua ganância estimulada.
Objeções: Caso alguém diga que não joga por ganância, então perguntaríamos: ‘por que joga, então?’ Se não está tão afim de ganhar dinheiro assim, abandone logo esse jogo!
Se alguém disser que joga para conseguir recursos para fins caridosos, só está usando uma ética jesuíta completamente anti-bíblica, de que os fins justificam os meios. Apontar para um fim bom não valida um meio mal. Para convencer quem contende, basta fazê-lo perceber que se envolver com o tráfico para angariar recursos em prol de atividades filantrópicas é completamente condenável. Se jogos de azar são errados, a situação fica sendo a mesma.
5)      Argumento da Mordomia Cristã
R. C. Sproul, no livro ‘Boa Pergunta’, usa o argumento da mordomia. Jogos são um péssimo emprego dos nossos recursos. As chances de ganho são extremamente mínimas. A grande maioria dos jogadores nunca vão ganhar, e, num montante, terão desperdiçado muito dinheiro. Ainda mais em jogos onde pode-se perder muita coisa.
Objeção: Alguém poderia levantar a questão de que o investimento na bolsa de valores dá na mesma. Na verdade, isso me parece aquela clássica falácia de tentar desmentir um erro com outro. Porém, nem isso esta objeção consegue ser. Pois, o investimento na bolsa não é uma aposta na sorte. É algo em que existe uma parte dependente da competência analítica do investidor. Mas, ainda que esse argumento não seja suficiente, no máximo, teríamos de admitir que investir na bolsa também é errado, e não que tanto ela quanto jogos de azar são certos.

CONCLUSÃO
Muitos textos são usados equivocadamente para acusar este pecado. Isso mesmo, pecado. Concatenando os argumentos, podemos chegar à conclusão de jogos de azar são pecaminosos. Eles envolvem vício; tentam burlar a forma prescrita por Deus de obter recursos; estimulam a confiança na sorte; fomentam a ganância; e são uma péssima mordomia do tempo e recursos.  Esses cinco argumentos, concomitantemente mencionados, inescapavelmente, ao que nos parece, encerra o jogador de jogos de azar em uma situação de pecado.

Outros argumentos menos convincentes ainda poderiam ser citados (como o fato de que os jogos estão, muitas vezes, ligados a financiamento de crimes, ou associados a eles de alguma forma – como a prostituição em cassinos). Entretanto, mencionamos os que mais nos convenceram. E esperamos que os cristãos que lerem não se envolvam mais com isso!