quinta-feira, 9 de julho de 2015

Prolegômena à Predestinação - uma questão de justiça




"Ora, a excelência, beleza e perfeição de cada ser vivo, objeto inanimado ou ação humana depende exclusivamente da utilidade para que o destinou a natureza ou o artífice" (Platão, Livro X da República).

Prolegômena é aquilo que se discute antecipadamente. É a discussão que deve ser feita - mas geralmente não o é - antes de entrarmos em outros pontos. Supostamente há pontos pacíficos quando se vai discutir vários temas. Acreditamos que aquele com quem estamos a debater assume algumas coisas que nós de antemão achamos óbvias demais para serem discutidas. No entanto, um levantamento de pressupostos que regem as colocações demonstrará que, não raro, há pontos de discordância que impediriam completamente os contendores de chegarem a um acordo.
Com esse pequeno texto, pretendemos explorar alguns itens prolegomenais em relação à discussão sobre a predestinação, eleição e afins, contidos nas doutrinas da graça* conforme expõem os teólogos protestantes reformados - os quais nos parecem mais próximos das Escrituras. Particularmente, estamos interessados em considerar o conceito de justiça que é trazido à baila nessas discussões de forma, amiúde, desorganizada e confusa. Basicamente, questiona-se se seria justo que Deus elegesse algumas pessoas para serem salvas e outras não. Nossa tese é de que é perfeitamente justo que Deus faça tal escolha.

Foi Voltaire quem observou que para discutirmos adequadamente temos que definir os nossos termos, o que já consiste, por si, em uma tarefa prolegomenal. Isso é uma forma de evitar a falácia da equivocação, que consiste em discutir com conotações distintas para um mesmo termo. É marca distinta de um bom pensador e de uma boa discussão que as coisas fiquem de antemão claras. Ao acompanharmos as discussões socráticas veremos da parte do sábio ateniense justamente o desejo de definições precisas para evitar confusão - o que, com frequência, colocava o próprio adversário em confusão, pois esse fora para a discussão sem pensar muito bem nas palavras que usava.
Queremos entender, pois, o que significa 'justiça'. Esse é o termo-chave da discussão. Acreditamos que podemos defini-la como algo nos seguintes termos: 'é ter cada um o que lhe é de direito', ou, 'cada um ter o que é adequadamente seu'. Quem já leu a República sabe como é difícil uma definição precisa, embora 'intuitivamente' arranhemos o conceito. Supomos suficiente definir tal como o fizemos.

A questão que se segue é a de saber o que é devido a cada um, ou seja, o que é de direito. O direito de algo ou alguém é determinado por seu valor ontológico, i. é., o valor intrínseco que a coisa tem segundo seu próprio ser. Entretanto, há algo assim? Valor intrínseco?
O valor de um determinado artefato criado por um homem está determinado por ele ao criar e estabelecer seu objetivo. E mesmo as coisas que ele não cria ganham seu valor segundo os fins para os quais ele percebe. Um homem pode considerar um violão extremamente valoroso na medida em que aprecia a música e, principalmente, aquela produzida pelo violão. Mas um cão ou gato não terá o mesmo apreço pelo instrumento, principalmente se não houver quem o toque - se é que animais podem verdadeiramente apreciar uma música. No máximo, servir-lhes-á para depositar alguma coisa, ou para afiar suas unhas. Portanto, percebemos que o valor das coisas é determinado de forma subjetiva. É preciso um referencial para que haja a determinação do valor.
Pois bem, temos que decidir de antemão se nosso referencial será antropocêntrico ou teocêntrico. Se tomarmos o homem como a medida de todas as coisas, teremos uma avaliação valorativa, e se tomarmos Deus, outra.
Estamos percebendo a que rumo o argumento está levando? Quem é que determina o valor do homem? Se ele é determinado pelo próprio homem, temos uma situação distinta daquela em que Deus é quem o determina. Esse é o ponto nevrálgico. Podemos falar que todas as coisas têm valor segundo o estabelece a subjetividade humana. Mas não seríamos indelicados se perguntássemos sobre o valor do próprio homem. É engraçado ver como naturalistas 'rebolam' para tentar dar algum valor distinto para um conjunto determinado de átomos dispostos de uma forma específica e não de outra. O homem não é mais do que isso nesse tipo de cosmovisão. E o valor que ele dá às coisas é relativo. E daí se as coisas têm esses valores para o homem?
Sem o homem poderíamos pensar no valor das coisas para manter o ecossistema. Mas, e daí? Por que o ecossistema deveria ser mantido? Alguém poderia responder imediatamente que seria para manter a vida na terra. Mas por que manter a vida? Ela nem mesmo é compreendida de forma 'anímica' pelo naturalista. Uma cosmovisão naturalista não pode dar um significado essencial para a realidade. Um cristão que toma o homem como referência para o valor das coisas é um incoerente que anda de mãos dadas com naturalistas. Um protestante, então, nesse caminho, chama para banquetear consigo Pelágio, João Cassiano e toda a corja que se segue.

Agora podemos rumar para a situação oposta. Deus determinando o valor das coisas. Para começar, ele está numa situação singular e muito superior à do homem para determinar o valor das coisas. Antes de mais nada, na cosmovisão cristã, ele é quem cria 'ex nihilo' tudo o que há. Cada parte do que existe além dele é engendrado, formulado, cogitado e executado por seu desejo. Portanto, o valor das coisas é definido segundo os objetivos que Deus tem para com tudo. Aí está o valor absoluto das coisas. Elas têm valor intrínseco por conta de seu lugar na criação.
Segue-se que é de direito que Deus dê ao homem o que lhe é cabível segundo o valor que Deus deu na execução de seus planos para cada coisa. Se o valor das coisas é dado por Deus, cabe a Ele dar a cada um o que bem entender segundo lhe parecer viável.

Não podemos encerrar esse artigo sem uma última formulação. Um ser racional age, na medida em que age racional e inteligentemente, com fins. Ele tem planos. Julgamos a integridade de seus planos e a competência do logos em executar seus planos. Um homem ao fazer algo tem, consciente ou inconscientemente, planos. Na medida em que ele conhece mais a si mesmo, mais consciente de seus objetivos ele está. Na medida em que é mais sábio e bom, objetivos mais nobres e sensatos ele tem, bem como os meios para alcançá-los. Apliquemos o raciocínio a Deus e teremos alguém que age com fins plenamente conscientes e estabelecidos, totalmente nobres e sensatos. Portanto, quando Deus criou cada coisa, inclusive cada homem, tinha uma pauta, um objetivo em mente.
E qual objetivo é esse? Com Charles Hodge aprendemos o que viria a ver novamente em John Piper: que Deus não pode ter outro objetivo que não ele mesmo como alvo final, último, derradeiro para as coisas. Quando ele vai criar só pode haver um objetivo sumamente nobre, santo e justo que é enaltecer aquilo que é mais santo, belo, nobre e bom: ele mesmo. Ele age, pois, em consonância com o que Paulo diz na epístola aos Romanos, para a sua glória, pois 'por ele, para ele e por meio dele são todas as coisas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém!'.
Na mesma epístola, no nono capítulo, o apóstolo Paulo diz que Deus criou os eleitos para enaltecer sua misericórdia e os ímpios para enaltecer sua santidade, justiça e severidade para com o mal, o que implica ser extremamente bom. Paul Helm, certa feita, notou que se fosse injusto que Deus não salvasse alguns homens, então salvá-los seria questão de dívida, e não de misericórdia. Deus os salva segundo seu propósito final de glorificar a si mesmo em suas várias perfeições.

Portanto, é mais do que justo, nobre e santo que Deus eleja quantos ele quiser para a sua inteira glória, bem como pretira, igualmente, a quantos lhe aprouver. Este é o soberano Deus para quem nos dobramos em reverente adoração!

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* Notar que não iremos discutir as demais doutrinas da graça que são indissociáveis da eleição, como justificação objetiva e subjetiva, chamado externo, regeneração, santificação, adoção, ressurreição e glorificação.


segunda-feira, 8 de junho de 2015

Afinal, quem REALMENTE são "os evangélicos"?



Alguns estimados amigos e irmãos apreciaram um texto com a graça "Afinal, quem são 'os evangélicos'?", do jornalista Ricardo Alexandre. O título é interessante e, para todo bom cristão, há um desejo muito grande de verem-se apartados, inclusive no 'imaginário popular', de vários charlatões e reconhecidos malfeitores que se valem da religião para promoverem seus interesses e a tornam deplorável para o olhar do mais vil secularizado hedonista. Assustou-nos o fato de o texto estar na Carta Capital, nada afeiçoada à confissão cristã. A junção desses elementos despertou-nos à leitura. Escrita agradável e bem desenvolvida ['muito distante das que se veem nos textos deste humilde escritor que vos fala', destacariam alguns que inclusive vieram nos falar pessoalmente a respeito da
nossa dificuldade de expressão segundo seus respectivos pontos de vista], trouxe lá sua contribuição. Ele pareceu-nos querer atacar, principalmente, a 'generalização' [leia o artigo aqui].
Ok, de fato, a generalização apressada é algo reconhecidamente imprudente. Entretanto, é preciso tomar cuidado para não abrir a definição a ponto dela deixar de ser isso mesmo que pretendia ser: uma definição*¹.O tio Ari poderá nos ajudar (e falamos do bom Ari, ou seja, aquele macedônio, estagirita, da Grécia Antiga, filósofo reconhecido; e não um velho nada douto e sapiente que arroga autoridade de teólogo nos nossos dias ou de um tal boca suja que também intitula-se 'pastor'...)*².
Quando queremos definir algo temos que, primeiro, identificar um gênero (no sentido de 'classe', 'grupo maior') a qual determinado objeto de investigação se encaixa e depois distingui-lo das demais espécies. Façamos o exercício.
'Evangélico', para começo de conversa, é uma religião, e, como tal, acredita em alguma força maior e nalguma relação do home para com tal ser superior. Não é, pois, ateísmo, agnosticismo ou deísmo. Também não é uma ideia política, embora possa implicar em política; não é o nome de uma família ou de uma empresa, embora algumas igrejas têm famílias que parecem comandá-las como se lhes pertencessem, e outras parecem, de fato, empresas... Esse é o primeiro gênero que devemos salientar: é uma religião. Óbvio de ser dito, mas, a título de completude, necessário.
Em seguida, temos que nos lembrar de que há uma pretensão pelos ditos evangélicos de serem seguidores de Cristo, i. é., cristãos. Portanto, supõe-se algum vínculo com a figura histórica de Jesus. Portanto, não é de tradição oriental, embora algumas práticas cheirem a práticas orientais, como, por exemplo, a confissão positiva. Não é de linha muçulmana. Não é budismo. Não é de linha ocultista, mística, tal como as religiões de origem africana, embora algumas que se dizem 'evangélicas' tenham mais elementos dessas religiões do que elementos tradicionalmente cristãos. É, em maior ou menor medida, uma religião vinculada à pessoa de Jesus.
Mas não é qualquer Jesus. Os muçulmanos falam de Jesus como um profeta e nada mais do que isso. Há quem o veja como um grande mestre moral, e tão somente isso. Há ainda aqueles que o encararão como um espírito perfeito, que, meio que por emulação, nos levará à prática do bem. Concepções cada vez mais distantes. Remontando uma tradição 'moderna' (no sentido estrito do termo, i. é., algo pouco depois do Renascimento, ou ali 'encostada'), intitulada de Reforma Protestante - que por sua vez reivindica associação à um movimento mais antigo ainda, i. é., a fé da Igreja Primitiva - a qual reclamava fidelidade última às Escrituras Sagradas, 'evangélicos' seriam aqueles que pautam sua fé sobre Cristo tão somente naquilo que diz a Bíblia sobre ele. Esse é, ao menos em teoria, o discurso. Na prática, sabemos que não é bem assim e, bom, eis um critério para vermos se de fato estamos diante de um evangélico: é sua fé sobre Cristo tal como ensinada na Bíblia? Caso não seja, esse subgênero já teria de excluí-lo daqueles que reivindicam ser evangélicos.
Uma religião cristã fundamentada tão somente nas Escrituras. Se não quisermos nos delongar até às
controvérsias fundamentalistas do início do século XX, e entender quando é, exatamente, que o termo 'evangélico' surge, essa definição que inicia o parágrafo é mais do que suficiente para que façamos a peneira. Se perdermos esse parâmetro para dizer que 'evangélico É tudo', teremos a correta conclusão de que o termo é, o mesmo tempo, 'nada'. E, de fato, quando usamos de 'universais', estamos a alegar que tal expressão nos traga à mente algum conceito. Se o conceito diz respeito a tudo e a nada, não é um conceito, e a palavra torna-se menos significativa do que um arroto ou a emissão de uma flatulência, que ainda comunicam a existência de alguma vida (ou, a depender do odor, algo próximo à morte...) dentro do indivíduo.
É interessante, da parte do autor do artigo, demonstrar que o termo já não evoca mais nenhum conceito. Nesse sentido, ele está corretíssimo. Quando se perde o universal como um gênero que inclui todas as caraterística supracitadas, ele passa a não significar nada, e a incluir no seu conjunto cada vez mais elementos distintos, até que não se possa mais classificar qualquer coisa com aquele termo. É por isso, aliás, que muitos preferem se intitular de forma alternativa, como 'reformados', e.g., ao invés de 'evangélicos', para não serem confundidos com algo que está muito longe de ter algum parentesco com o que acreditam.
Mas não podemos, por conta da confusão gerada pelo termo, abrir mão de qualquer definição precisa que o termo costumava denotar. E nisso o autor peca. É um texto na 'Carta Capital', como já observamos, e, claro, era de se esperar que viesse eivado de vaidade politicamente correta. Sem uma definição, e salientando os vários tipos de pensamentos divergentes no seio da igreja cristã, deu a entender que se pode nomear cristão de forma legítima com as mais variadas crenças e práticas, pois haverá 'uma igreja para você'. Se há alguma intenção boa aí, há também um péssimo conselho. E, para isso, é interessante versarmos também sobre a questão das diferenças de pensamento.
Bons teólogos, sensatos, piedosos e notáveis acadêmicos distintamente cristãos protestantes notaram que há um 'mínimo divisor comum' entre os movimentos verdadeiramente cristãos. Embora haja uma disputa grande a respeito de quais são todos os elementos inegociáveis, há pontos pacíficos, tais como a criação da parte de Deus, i. é., que Deus é o criador do mundo e de tudo que nele há; a perfeição ontológica de Deus (como bom, santo, sábio, justo, todo poderoso, todo conhecedor, presente em todos os lugares e assim por diante). Trindade (incluindo a divindade de Cristo e pessoalidade do Espírito Santo); os méritos da nossa salvação como pertencentes a Cristo por pagar, na Cruz, a pena que cabia ao homem; a ressurreição literal de Cristo e sua segunda vinda visível. Isso é ser cristão bíblico. Há diferenças em várias questões periféricas, mas nenhuma dessas crenças podem ser omitidas ou serem contraditas por alguma outra crença nova. Feito isso, temos que considerar que tal 'particular' está fora do conjunto que poderíamos chamar de 'evangélicos', conforme definimos acima. Em poucas palavras, entre as igrejas e denominações que a partir da própria Bíblia poderíamos considerar cristãs há mais pontos de convergência do que pontos de divergência. E é nesse espírito que se unem para adorar a Deus juntos. Até aí temos 'ecumenismo'. Fora dessas paredes estaremos falando de sincretismo.
Se não fizermos essa distinção, corremos o risco de sermos precipitados, descuidados e tolos. Poderíamos tomar como 'evangélico' aquilo que não é, tal como chamar de pintura tudo e qualquer coisa que alguém fizer diante de uma tela. Se não estabelecermos parâmetros, perderemos as condições para dizer o que é uma produção artística, e o que é apenas uma bagunça diante de um tale em branco, embora para o leigo - há de se confessar - pareça tudo a mesma coisa.
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*¹ Para uma melhor compreensão do texto, sugerimos a leitura a partir do subtema 'Os Cânones da
Lógica', que se encontra no seguinte artigo: Introdução à Lógica Aristotélica
*² Para quem realmente não pegou a piada, estamos falando de Aristóteles.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Uma Breve Reflexão Sobre o Problema da Tolerância



Não, leitores, não somos contra a tolerância. Acreditamos ser um valor inestimável, inexorável. Temos, provavelmente, tanto apreço por ela como qualquer um dos inúmeros devotos ao termo que não tem, nem mesmo, uma compreensão adequada do que isso signifique, evocando, ao proferi-lo, no máximo, uma noção turva, genérica, sobre ele. E é justamente essa apreciação não plenamente consciente que causa todo o problema. Por isso, é preciso observar o que intolerância não é. Não pretendemos ser exaustivos mas apenas escancarar alguns dos erros mais cotidianos para nós, ou, visto de outro modo, confrontar o valor da tolerância com outros valores caros para várias vertentes de pensamento 'revolucionário' com as quais temos nos deparados.

Primeiro, esse é um valor ocidental. É produto de nossa cultura, exceto se adotarmos uma perspectiva tal como a de um hobbesiano ou rousseauniano, que poderia muito bem admitir a intolerância como um acordo de sobrevivência, o que o 'super-homem' de Nietzsche não veria razão para observar caso garantisse impunibilidade, ou um 'anel de Giges'*¹, tal como o descreve Platão. Anulada essa via, pensemos mesmo na ideia de que seja um produto de nossa cultura ocidental, grega, romana, judaico-cristã. Eis aí um problema para o tolerante que o associa ao relativismo cultural. Se não houver valor algum que seja comum para todos, então por que pensar que a tolerância deve ser? E, de fato, parece-nos que não seja algo que esteja no itinerário muçulmano... Será que temos que ser tolerantes com os intolerantes?
Mas o texto é curto, e não pretendemos nos demorar.

Há, em segundo lugar, um problema associado à determinada política 'vitimista', fundamentada numa antropologia para lá de problemática se levada realmente a sério. Basicamente, muito bandido é tratado como se fosse apenas uma vítima da sociedade, um produto do meio. O meio - o que inclui a cultura, o ambiente em que vive e todo o histórico do indivíduo - e/ou mesmo sua constituição biológica, argumentam à la B. F. Skinner, são os fatores determinantes para levá-lo - encarado quase como uma coação - ao ato criminoso*². Claro, esse pensamento pode ser reduzido ao absurdo, e tomando legitimamente suas premissas, não haverá como escapar de escusar todo e qualquer ato, julgando-o apenas como um produto natural, determinista, da combinação dos dois fatores que forma nosso comportamento. Agora, mesmo numa versão mais soft, que não quer admitir tais conclusões, ainda temos aquele considerado 'intolerante' nos nossos dias e na nossa cultura.
'A esse não podemos tolerar!', podem esbravejar. Mas que sentido há nisso? Aquele dito como 'intolerante' não pode ser, muito bem, alguém que foi criado dentro de um contexto no qual recebeu determinada educação e foi condicionado biologicamente para a prática da intolerância? Se ele está fazendo algo de errado, e principalmente se é considerado um estúpido por isso, não seria alguém digno de pena e reeducação, tal como os bandidos protegidos sob esse pretexto? E não adianta falar que o indivíduo intolerante tem escolha, pois logo advogaríamos o mesmo para o bandido*³.

Por fim, será que tolerar é não considerar o que o outro faz como sendo errado? Alguns podem até advogar que a questão é puramente estética, mas isso seria reduzir a moral à estética, o que a conduz para rincões emotivistas e aí não será, novamente, razoável falar em imoralidade da intolerância. Tolerar é justamente achar que o outro faz algo errado mas, de algum modo, descobrir uma maneira de conviver com isso e garantir que ele também viva com o juízo alheio sobre si, tal como acaba de avaliar seu juízo, i. é., ele julga que você está cometendo um erro, quiçá um crime, ao julgar-lo em erro. É uma faca de dois gumes. Só não pode-se negar que ela corta. Enquanto intolerância for encarada como o não direito à crítica estaremos o mais distante possível da tolerância.

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*¹ Platão, em sua 'A República', livro II, conta, nas falas de Gláucon, sobre um homem, Giges, que achou um anel que o tornava invisível e, assim, ele podia dar vasão a todos os seus desejos e fazer um monte de coisas sem ser visto por ninguém. A falta de punição revelou sua vilania e a do gênero humano.
*² Estamos pensando, particularmente, no 'fisicalismo' no que diz respeito à filosofia da mente. Em breve estaremos publicando um artigo sobre o assunto para mostrar sua irracionalidade.
*³ Seria interessante considerar outro artigo que elaboramos no qual explorarmos um pouco melhor as incongruências dessa política. Para isso, clique aqui.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Conheçam os Bons Pensadores Cristãos Brasileiros

Conversando com alguns amigos e percebendo, em nossa experiência cristã, o quão deplorável são as influências dos tidos por ícones do pensamento cristão hodierno, resolvemos, para além das iniciativas pessoais, escrever um artigo de recomendações. Ele se destina a você que imagina que 'pastor Lucinho', Silas Malafaia, Ariovaldo Ramos, Caio Fábio, Ed Rene Kivitz e tutti quanti* são os 'teólogos' e pastores que dispomos para nos informar, que são os baluartes da fé cristão no Brasil. Temos a maravilhosa notícia de informá-lo sobre seu equívoco. Esses caras não são nem boas influências, e nem de longe os mais cultos e piedosos pensadores que temos. Infelizmente, estão em voga. E, com isso, furtam a cena daqueles que verdadeiramente deveriam ser vistos e ouvidos. Além de, não raro, falarem besteira, nos envergonham perante a sociedade e camuflam o evangelho com suas mensagens genéricas e, amiúde, heréticas. Essa gentalha faria um grande favor ao reino de Deus se ficassem calados. Basta comparar o currículo e a competência de cada um com os que indicaremos. Se você é um dos que aprecia algum desses, queira, pelo bem de sua alma, desapegar-se (ou pelo menos tentar). Dê uma chance a esses nobres senhores que vos apresentamos*. Ore muito e veja se não estamos certos!

Bom, como recomendar genericamente não faz com que ninguém procure, de verdade, pelas indicações, daremos indicações específicas, com um link. Mas queremos que extrapolem essas indicações. Vejam mais coisas. Procurem mais pregações, sermões, palestras e aulas no youtube ou google-vídeos. Aliás, nem precisam ver exatamente essas pregações que sugerimos. Procurem pelos temas que lhes interessar nas buscas pelos nomes destes.


Augustus Nicodemus Lopez
O Batismo com o Espírito Santo

Daniel Santos
Exposições em Jó

Franklin Ferreira
O Credo dos Apóstolos

Guilherme de Carvalho
O 'Salto' na Cultura Contemporânea

Heber Carlos de Campos
Romanos 1:8-15

Heber Jr.
Amando a Deus com Todo o Nosso Entendimento

Hermisten Maia Pereira Costa
Teologia, Igreja e Academia

Jonas Madureira
Idolatria

Josemar Bessa
Inferno (Naum e Rob Bell)

Leandro Lima
As Característica de Uma Fé que não Salva

Ludgero Bonilha
Salmo 1

Luiz Sayão
A Religião que Mata a Fé e o Coração

Marcos Granconato
A Negação de Pedro

Mauro Meister
A Origem da Idolatria

Paulo Anglada
Outro Evangelho

Paulo Romeiro
Pentecostalismo [e hermenêutica]

Samuel Vieira
Três Impulsos que Podem nos Destruir

Solano Portela
O Evangelho que Envergonha





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*Não mencionamos os clássicos Edir Macedo, R. R. Soares e os demais super-poderosos porque acreditamos que quase ninguém os considera teólogos. Até mesmo aqueles que apreciam os mencionados desprezam esses aqui, no rodapé, mencionados. Mas, para não restar dúvidas, afirmamos que eles estão inclusos entre aqueles que não devem ser ouvidos.
*É bom notificar-lhes que não é uma lista exaustiva, e podemos até mesmo aumentá-la. Alguns bons pensadores não têm palestras ou pregações em vídeo. Mas só nesses nomes já teremos material para anos de 'entretenimento'.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Diálogos sobre a Homossexualidade


Era um jantar em família. Uma família tradicionalmente cristã - embora fosse só uma confissão nominal -, reúne-se em um restaurante para comemorar a Páscoa. Mais cedo já haviam trocados ovos de chocolate e todos estavam contentes. Dentre as várias pessoas que ali se encontravam, três nobres senhores [e o adjetivo certamente será subtraído a um deles, no decorrer do texto... fica aqui apenas como efeito retórico], com cosmovisões muito distintas, merecem nossa atenção. São parentes. Um é um homossexual, e o chamaremos de Sr. Rosa. Outro é um homofóbico que será denominado de Sr. Vermelho [até porque comunistas não se davam muito bem com homossexuais... mas pensamos na cor mais para simbolizar violência, sangue]. O terceiro e último homem é o Sr. Cristão, e trata-se de um bom cristão reformado (que acredita que os proponentes da Reforma Protestante estavam certos e que realmente remontaram a fé original, bíblica). Também, não haveria como não notá-los. Por 'força do destino', o assunto acabou rumando-se para aquelas questões polêmicas típicas que tumultuam um encontro desses e geralmente não são nada produtivas. O assunto era homossexualidade. O Sr. Rosa, suspeita do Sr. Vermelho e aproveita para, elegantemente, evocar a discussão diante dos presentes, o que lhe conferiria certa segurança e poderia angariar repúdio ao pensamento daquele que tanto lhe quer mal. Em certo sentido, era uma medida preventiva. E lhe doía o desprezo de seu parente, principalmente o que ele insistia em propagar aos demais familiares noutras ocasiões que não estava presente. Além disso, o parente que tinha menos contato, o sr. Cristão, possivelmente devia fazer o mesmo, embora os exemplos de Cristo pudessem torná-lo mais ameno. Seja como for, se ele coadunasse com o Sr. Vermelho, já seriam dois coelhos com uma cajadada só.

Sr. Rosa - Vocês explicam como, para vossos filhos, a respeito da relação entre coelho, ovo e chocolate?
Sr. Vermelho - Não precisamos explicar. Têm apenas que aceitar.
Sr. Rosa - Mas, então acham possível que convivam com essa besteira e não conseguem explicar que duas pessoas do mesmo sexo se amem?
Sr. Cristão - Não acredito que devemos chamar nem a um nem a outro de normal. Nada me obriga. Posso explicar para meus filhos que as coisas não são bem assim.
Sr. Vermelho - Além disso, uma coisa é um mito, uma lenda. É algo imaginativamente possível. Não tem que ver com conduta moral...
Sr. Rosa - O que dizem a vossos filhos sobre mim? - perguntou meio que para quem quisesse responder.
Sr. Vermelho - Que você faz algo muito errado! - respondeu, de prontidão, ainda que tentando se conter.
Sr. Rosa - Só isso? E eles acham que sou uma espécie de criminoso? - insistiu ao suspeitar que o Sr. Vermelho tivesse mais para falar.
Sr. Vermelho - Talvez, mas eu vos ensinei que não adiantaria prendê-los, pois poderiam apreciar o cárcere... - falou diminuindo um pouco o tom por perceber ter dito algo muito ofensivo, mas achava-se no dever de falar o que cria.
Sr. Rosa - E você, sr. Cristão, o que me diz. - disse, contendo-se, por ser educado, após ouvir o que achou uma barbaridade da parte do Sr. Vermelho.
Sr. Cristão - Em partes, penso como o sr. Vermelho. Acho que fazes algo muito errado. Entretanto...
Sr. Rosa - Poderia dizer-me, pois, qual a diferença entre vocês dois? - interrompeu-o abruptamente, já um tanto quanto alterado emocionalmente diante de uma confissão assim, começando a sentir-se, inda que não numa dimensão perfeitamente consciente, malquisto por toda a família. - Afinal, não foi Jesus quem ensinou-vos amar ao próximo? Quando Jesus disse que devemos fazer aos outros o que queremos que nos façam, não inclui igualdade? Responda-me, sr. Cristão, pois sei que és interessado em teologia e vives a conversar sobre essas coisas. Não conheces esses textos?
Sr. Cristão - Bom, sr. Rosa, eu entendo seu estado emocional diante do que ouvistes. Mas quero assegurar-te, antes de mais nada, que não concordo que sejas um criminoso e que mereces algo pior do que o encarceramento...
Sr. Vermelho - Eu não disse 'algo pior'!
Sr. Cristão - Tudo bem, sr. Vermelho. Seja como for, no mínimo pareces dizer que os homossexuais merecem uma punição semelhante ao dos criminosos. Quero que saibam que eu não penso assim e estou persuadido de que não é a posição bíblica a esse respeito.
Sr. Vermelho - Veja que não sou cristão, mas sei que a Bíblia mandava apedrejar (ou algo assim) aos que faziam essas abominações.
Sr. Rosa - Perfeitamente, sr. Cristão. Como respondes a isso? A Bíblia, também, no mesmo momento que condena a homossexualidade - o que há bons intérpretes que discordam, mas não vem ao caso -, recomenda compra de escravos e até o formato da barba e corte de cabelo! Parece que o sr. não é tão coerente assim com esses deveres. Como excluis uns e não outros? E não venhas me dizer que aqueles que rejeita caducaram ao passo que os preceitos que aceita permanecem. Parece-me arbitrário arguir assim.
Sr. Cristão - Bom, temos que nos acalmar aqui. Estamos abrindo muitas pontas soltas e creio que não estão dispostos a me ouvir discursar demoradamente sobre esses temas.
Sr. Vermelho - Se te demoras é porque está nos enrolando.
Sr. Rosa - Não pode nos responder de forma resumida?
Sr. Cristão - Há questões complicadas que demandam explicações mais elaboradas. É a natureza do problema que determina sua complexidade.
Sr. Rosa - Pois tente um resumo, por favor! Quero muito entender-te. Prometo esforçar-me pare entendê-lo. Posso até pesquisar mais sobre. Sei como é não ser compreendido e ter muito a falar...
Sr. Vermelho - ...
Sr. Cristão - Bom. Deixa-me resumir da seguinte maneira. Existem critérios lógicos que os teólogos, no decorrer dos anos, elaboraram para explicar o fenômeno neotestamentário de abraçar algumas leis e rejeitar a outras. Afinal, os apóstolos e a igreja primitiva não andavam em conformidade com todas as prescrições do Pentateuco, i. é., dos livros de Moisés.
Existe uma noção muito popular que divide a 'Lei' (como é, também, chamado o Pentateuco - mas há momentos em que usamos o termo para o decálogo e outras para a lei moral) entre leis cerimoniais, leis civis e leis morais. As cerimônias e as leis civis tinham valores transitórios, para um momento específico da história da humanidade, especialmente voltadas para os judeus. As leis cerimoniais eram leis litúrgicas e não obrigavam a mais ninguém além dos judeus. E num regime teocrático, ou mesmo na monarquia hebreia, haveria uma rigidez muito grande para com as coisas santas...
Sr. Rosa - E nessas 'coisas santas' incluía a morte dos homossexuais?
Sr. Cristão - Sim, certamente. Mas, espere, não me interrompa ou então não compreenderás a questão. Da mesma forma que o homossexualismo era punido com morte, também o era o adultério, o estupro e até mesmo a rebeldia indomável de um jovem que se levanta contra seus pais. Era inadmissível que os valores celestiais não fossem estritamente observados num povo que portaria a descendência do Messias! Bom, essa é uma divisão útil, mas prefiro, ainda, uma outra divisão...
Sr. Rosa - Mas, sr. Cristão, as pessoas nascem homossexuais! Não é uma escolha!
Sr. Cristão - Sr. Rosa, insistes em me interromper. Assim não poderás compreender muito bem meus posicionamentos.
Sr. Rosa - É que não pensei que falavas tão a sério quando dizias que demorarias...
Todos dão algumas gargalhadas, quebrando um pouco da tensão. Algumas mordiscadas na comida que já esfriava e tornaram ao diálogo.
Sr. Rosa - Bom, sr. Cristão, acredito que já entendi o seu ponto. As normas se restringiam a uma determinada situação política ou para um determinado problema específico, como não comer carne de porco por não terem condições assépticas para evitar doenças na época...
Sr. Cristão - Algo nesse sentido.
Sr. Rosa - Mas, e quanto à escravidão?!
Sr. Cristão - É outro assunto que demanda uma dosagem de paciência... Bom, basicamente, os judeus humanizaram a prática social tão comum da antiguidade. Escravos sexuais seriam abomináveis. Os escravos deveriam ser tratados como pessoas, seres humanos que, por eventualidades, acabaram por chegar àquela situação social. Não poderiam trabalhar mais do que um trabalhador qualquer e deveriam ser tratados com amor. Muitos se apegavam à família a quem serviam. Haviam possibilidades múltiplas de alforriar-se mas mesmo assim alguns insistiam em continuar com seus amos. Não te estranhas que os profetas que fizeram tantos discursos sobre desigualdades e injustiças sociais não tenham se compadecido deles? O assunto não lhes era estranho. Eles foram escravos dos egípcios e foram tratados de forma muito ruim. No entanto, o escravo dos hebreus seria, inclusive, circuncidado e levado a cultuar a Deus junto a eles! Isso, para os judeus, era o reconhecimento maior de sua dignidade.
Sr. Vermelho - Não estou tão certo assim de que essa argumentação convence e entendo que naqueles tempos era comum tomar os povos vizinhos, conquistados nas guerras, como escravos...
Sr. Rosa - E achas que isso é certo agora?
Sr. Vermelho - É certo que não!
Sr. Rosa - Então admites que pode haver progresso social?
Sr. Vermelho - Sim. Mas não significa que toda novidade deva ser tomada como progresso.
Sr. Cristão - Perfeitamente, sr. Vermelho. Finalmente deras uma dentro nesta noite!
Sr. Rosa - Mas estou a rejeitar a modernidade, senhores! Por um acaso acreditam que devamos voltar a ter escravos? Devemos suprimir o sufrágio feminino?
Sr. Cristão - De modo algum! Mas você deve entender que apreciarmos uma cultura não implica em abraçarmo-la toda. E ao criticar uma parte não temos que rejeitá-la, igualmente, de forma integral.
Sr. Rosa - Mas não consideras a igualdade entre os homens como um progresso modernos?
Sr. Cristão - Isso depende muito do que queres dizer com igualdade.
Sr. Rosa - A aceitação do homossexualismo é uma expressão de igualdade. Se antes os homens eram bárbaros e agora podem pensar melhor sobre essa questão, então certamente estamos em condições mais adequadas. Ou não acreditas que o fim da discriminação - ao menos oficial - não constituiu progresso.
Sr. Cristão - Acredito! Mas não acredito que a causa gay o seja.
Sr. Rosa - Mas você tem que ver que é apenas um desdobramento natural da cultura que, em grande parte, foram vocês mesmos que construíram. Como, agora, decidem abandonar suas crias?
Sr. Cristão - Estais muito equivocado, sr. Rosa. Lembra-te que o homossexualismo era uma prática comum na sociedade romana, entre os espartanos e noutros momentos e situações históricas antigas. Há quem diga, inclusive, que os professores gregos, na antiguidade, praticavam sexo com seus alunos que não são, exatamente, o que chamaríamos hoje de maiores de idade. Nesse sentido, poderíamos dizer que estamos regredindo e não progredindo. Aliás, para que a prática fosse condenada no livro de levítico temos de concordar que fosse antiga. E por haver uma pontual crítica, na Torá (outro nome para o Pentateuco) aos costumes pagãos antigos, é de se presumir que esse era um costume de povos antigos pagãos.
Sr. Vermelho - Além disso, o homossexualismo é anti-natural! Até a Bíblia fala isso - e corrija-me se eu estiver equivocado, sr. Cristão!
Sr. Cristão - Está correto. Paulo, por exemplo, o diz em sua epístola aos Romanos.
Sr. Rosa - Pois eu já digo que é natural. Aliás, sr. Cristão, você não me respondeu o que fazer com essa questão pois, afinal, é congênito. Como poderíamos, pois, deixar de pecar?
Sr. Vermelho - Natural? Não mesmo!
Sr. Rosa - Isso não constitui uma refutação, sr. Vermelho. Só um esbravejamento, e ética não se elucubra com meras expressões subjetivas. Até, aliás, reformulo o que disse. Eu diria que o termo 'natural' é um tanto quanto polissêmico. O que querem dizer com isso?
Sr. Vermelho - Permita-me, primeiro, sr. Cristão?
Sr. Cristão - Sim, à vontade! Aproveito e como um pouco enquanto vos ouço.
Sr. Vermelho - Muito bem, sr. Rosa. Acredito que não podes negar que há males para a própria preservação da espécie se aceitarmos, como legítimo, o casamento gay, não é mesmo?
Sr. Rosa - Discordo. Se legitimarmos o casamento gay e coisas do tipo não estaremos, com isso, obrigando ou forçando as pessoas a se tornarem homossexual. Acredito, certamente, que muitos sentir-se-ão menos agrilhados e o que chamam por aí de 'sair do armário' tenderá a crescer.
Sr. Vermelho - Então concordas que a liberação acabará por influenciar a sociedade?
Sr. Rosa - Não determinantemente, e nem predominantemente. A maioria das pessoas continuam sendo heterossexuais nos lugares mais permissivos - se é que são mesmo, pois acredito que todos tenham alguma tendência...
Nesse momento o sr. Vermelho fez um movimento brusco e o sr. Rosa viu que exagerou.
Sr. Cristão - Sr. Rosa, se algum cristão o interpelasse dizendo que, no fundo, o senhor sente atração por mulheres, o senhor sentir-se-ia satisfeito?
Sr. Rosa - É evidente que não! Já entendi seu ponto. Perdoem-me. Mas pareces admitir que é congênito...
Sr. Cristão - Protelemos este ponto. Continuem de onde pararam.
Sr. Vermelho - Muito bem. É inegável que a aceitação da sociedade fará com que várias pessoas assumam-se gays. Muito mais do que agora. E muitos o farão, até mesmo, por moda. Isso minorará nossa capacidade procriativa.
Sr. Rosa - Bom, primeiro que, por esse raciocínio, terias de condenar tudo o mais que não procria.
Sr. Vermelho - Como assim?
Sr. Rosa - O celibato também teria de ser condenado, posto que atenta contra a preservação da espécie.
Sr. Vermelho - Talvez. Por que não? Fazes um ad baculum!
Sr. Rosa - Ok. E achas que o baculum não lhe atinge? Pois mostrarei que atinge...
Sr. Cristão - Permitam-me interrompê-los por um breve instante. Preciso salientar que não considero, como parece considerar o sr. Vermelho, a preservação da espécie como o valor supremo pelo qual se julga todas as demais coisas. E é evidente que não recrimino o celibato. Não em si, conforme as Escrituras... Mas, prossigam.
Sr. Rosa - Bom, sr. Vermelho, o senhor compactua com a ideia de que o os homossexuais agem contra a natureza por praticarem sexo que não é para a procriação?
Sr. Vermelho - Até porque não podem, não é mesmo...
Sr. Rosa - Indubitavelmente que não. Mas não vem ao caso. Sei que não és católico também. Por isso, não tomas o sexo como se tivesse esse único fim.
Sr. Cristão - E diante de um católico, o que dirias?
Sr. Rosa - Diria que, se assim fosse, eles teriam de parar com uma série de outras práticas que parecem dar uma utilidade secundária para os vários órgãos que têm. Eles usam a boca para beijar, e ela parece ter sido feita para comer e falar. Usam as mãos para tocar violão, além de servirem para a obtenção de alimento. Além disso, teriam de proibir a masturbação e o sexo oral também.
Sr. Cristão - Argumentação interessante. Mas eles proíbem masturbação. Retires essa parte do argumento...
Sr. Rosa - Hum. Percebo. Enfim, o argumento se segue. Além disso, se corrermos para a ideia de que os órgãos estariam sendo usados para fins inapropriados, ou não naturais, estaríamos incorrendo em grandes dificuldades. Seria como se alguém tivesse pensado neles...
Sr. Vermelho - Já entendi o seu ponto.
Sr. Cristão - Noto que essa argumentação teria poder de convencimento somente sobre aquele que concorda com os teus pressupostos naturalistas. Se Deus existe e criou o homem, é perfeitamente razoável pensar que os órgãos foram criados para fins determinados e que usá-los para outros fins seria errado.
Sr. Rosa - Os olhos foram feitos para ver. Mas isso te impede de dar uma boa piscadela?
Sr. Cristão - Não. Mas as mãos foram feitas para vários fins, conforme a criatividade humana, que é dom de Deus. No entanto, elas podem ser usadas de forma inadequada para matar. E de fato foram.
Sr. Rosa - Mas não são vocês que defendem que existe guerra santa e coisas do tipo? Nesse caso, há um uso legítimo das mãos para causar dano.
Sr. Cristão - Como tu abres pontas, sr. Rosa! É bem possível que eu tenha deixado algum ponto sem responder por não conseguir me lembrar de todos, e não por não ter respostas. Pois bem, percebestes o meu ponto. Há momentos adequados e pessoas certas para usarmos nossos membros, órgãos e afins. E o sexo é destinado aos casais.
Sr. Vermelho - É fácil mostrar que é contra a natureza! Basta olharmos para a maioria esmagadora das pessoas sobre a terra. Logo será notado que é algo anormal.
Sr. Rosa - Irritar-te-ás, mas tenho que refutá-lo novamente. Se as coisas são decididas, assim, por estatística, então ser albino, que é 'anormal', é, também, errado.
Sr. Vermelho - Mas ser albino não é opção ou ação moral!
Sr. Rosa - E quem falou que ser gay o é?!
Sr. Cristão - Parece inevitável que entremos nessa questão, não é mesmo? Bom, para começo de conversa, sr. Rosa, crês que as condições biológica são indelevelmente determinantes?
Sr. Rosa - Bom, às vezes sim, às vezes não. Também acredito e admito no poder educativo. Mas acredito que a força mais determinante é a biológica.
Sr. Vermelho - Então acreditas que um psicopata também não tem escolha?
Sr. Rosa - Não é isso!
Sr. Cristão - Parece-me um corolário do que afirmas e pressupões, senhor Rosa. Aliás, parece-me enredá-lo também, sr. Vermelho.
Sr. Vermelho - E como tu vês isso?
Sr. Cristão - Acredito que existam fatores espirituais determinando as escolhas. Mas há cristãos que acreditam que as escolhas não são eficientemente determinadas, e outros que as vêem fortemente influenciadas. Não vem ao caso entrarmos nessa discussão prolongada da teologia agora, acredito eu.
Sr. Vermelho e Sr. Rosa - Não mesmo!
Sr. Rosa - Muito bem, sr. Cristão, ainda quero tua apreciação. Como é que eu, que sinto atração natural por homens, poderia deixar de pecar?
Sr. Cristão - Na verdade é muito simples, mas como tudo que envolve conselhos sexuais, dado seu poder de nos mover, é difícil de aceitar. O que tens que entender é o seguinte. A Bíblia não condena as tendências homossexuais. A Bíblia condena as práticas homossexuais, e essa distinção é crucial!
Sr. Rosa - Mas seria legar-nos uma vida muito infeliz, sem poder amar!
Sr. Cristão - Na verdade, concebes a felicidade e a santificação de forma pobre, caro sr. Rosa. Para começo de conversa, a santificação demandada pelas Escrituras implica em abdicação da parte de todos. Alguns em maior grau, outros em menor. De alguns exige a castidade. Acredito que o mesmo se dê com os que têm tendências homossexuais. Por exemplo, condenamos a promiscuidade, a fornicação o adultério e demais pecados sexuais, e a prática homossexual está inclusa. Aliás, é possível até mesmo que alguém que não tenha tendências homossexuais resolva 'experimentar', o que seria condenável da mesma forma. Pessoas menos dotadas de beleza ou com alguma deficiência podem querer se rebelar e voltar-se a qualquer tipo de relacionamento que o Senhor desaprove. Entretanto, aquele é o fardo que fora destinado a elas. Podemos e devemos tentar ajudar de todas as formas possíveis, mas não podemos ceder que elas pequem para tentar aliviar suas dores.
Sr. Rosa - Algo ficou pendente! Como sei que essa norma que proíbe o homossexualismo não é mais uma daquelas obsoletas?
Sr. Cristão - Bom, praticamente porque a razão de ser dela não cessou. Não tornou-se natural...
Sr. Rosa - Novamente a questão do 'natural'...
Sr. Cristão - Mas veja que justifico minha teleologia. Além do mais, o fato de um homem e uma mulher conseguirem procriar parece-me, sim, um indício de que são o par natural.
Sr. Rosa - Falas como se fosse uma doença!
Sr. Cristão - Bom, certamente é um 'defeito', fruto do pecado no mundo, e que manifesta-se particularmente causando esse desregulamento.
Sr. Rosa - Se concebes que alguém com tendências naturais para crimes deves conter-se e agora parece falar da mesma forma a respeito do homossexualismo...
Sr. Cristão - Tens, tal como aqueles, que conter teus impulsos. Por mais desagradável que seja, é assim que tem que ser. E é assim para ti e para ele. Tens que admitir que dentro de um quadro teórico que toma os pressupostos bíblicos, as coisas são assim.
Sr. Rosa - Pois prossiga na explicação da Bíblia Sagrada.
Sr. Cristão - Bom, como era uma norma moral, que não cessou as razões para existir, e que é reiterada no Novo Testamento, então é fato de que é bíblico continuar a afirmar que é pecado a prática homossexual.
Sr. Rosa - Mas, então Deus quer que sejamos infelizes?
Sr. Cristão - Não, sr. Rosa. Certamente é possível que ele queira que tenhas vida casta. Mas estaria, apenas, privado de uma alegria, e não de todas, muito menos da principal, que é saciar a sede de tua alma com a água da vida. Além disso, há esperança. Eu mesmo conheço pessoas com tendências fortes ao homossexualismo que acabaram conseguindo superá-las e até namoram! Algumas relatam que perderam toda a atração para com o mesmo sexo! Mas só Deus sabe qual será teu destino. Uma coisa é certa, ele quer que te retraias.
Sr. Rosa - Percebo... mas não acredito no teu Deus!
Sr. Vermelho - Não precisa, retomemos a questão da preservação da espécie...
Sr. Rosa - Essa é fácil de responder, sr. Vermelho. Basta que os gays se reproduzam com barrigas de aluguel, inseminação in vitro e coisas do tipo... Entre os teus argumentos e os do sr. Cristão, é muito mais razoável acompanhá-lo.
Sr. Cristão - De fato, por um viés utilitarista, acho difícil condenar a prática homossexual. Ela parece-me tão ameaçadora quanto aquelas mentirinhas insignificante que as pessoas contam. Mentiras que não prejudicam a ninguém. Aparentemente, se são insignificantes nos resultados que produzem, são também para a moral em si. O problema é que, se existe um Deus, os valores existem objetivamente, e mesmo que as transgressões não produzam algum efeito ruim, elas são más em si. A propósito, uma cosmovisão cristã consistente, inclusive, admitiria que as coisas podem até estarem desequilibradas nesse mundo. Injustiças não são sempre castigadas, por exemplo. Mas isso se dá porque ainda estamos numa realidade de 'Queda'. O mundo não é o que deveria ser por causa de sua contaminação pelo pecado. Talvez seja por isso que as coisas não venham a dar tão errado para várias injustiças.
Sr. Vermelho - E o que respondes às questões a respeito de serem felizes, sr. Cristão? Sei que condenarias minha juventude também, mas estava apenas sendo feliz...
Sr. Cristão - Estaríamos entrando, talvez, para um outro assunto...
Sr. Rosa - Não, de forma alguma. É, ainda, sobre sexualidade.
Sr. Cristão - Bom, o problema é que estão tomando felicidade por hedonismo grosseiro. Nem é preciso ser cristão para saber que isso não traz, necessariamente, felicidade...
Sr. Rosa - Eu não estava encarando as coisas assim. Falava de amar de verdade...
Sr. Cristão - Bom, faríamos um looping eterno aqui, pois eu insistiria que a maior felicidade está em encontrar-se com Cristo e as outras coisas são, embora importantes, adendos.
Sr. Rosa - Ainda acho que furtam nossos direitos ao mesmo tempo que pregam igualdade. Parece, pois, que a Bíblia é incoerente.
Sr. Cristão - Bom, seria interessante salientarmos que os direitos de igualdade conquistados por mulheres e negros devem muito às investidas de cristãos... Mas, detenham-nos no que dissestes. Igualdade é o direito de toda pessoa poder se casar. Mas casamento, essencialmente, é, segundo as Escrituras, algo realizado entre um homem e uma mulher.
Sr. Rosa - Mas isso não limita o conceito de igualdade?
Sr. Cristão - E dirias que o conceito de liberdade é limitado quando eu digo que não podes intentar contra minha vida?
Sr. Rosa - Não mesmo!
Sr. Cristão - Pois bem, acredito que o fazes porque acredita que a liberdade é condicionada e cerceada por princípios. A igualdade também. Todo homem tem o direito a relacionar-se com uma mulher. Toda mulher tem o direito de relacionar-se com um homem. Quando se diz 'ter direitos iguais', queremos dizer que algumas coisas lhe são inerentemente pertencentes. A questão é discutir o que são essas coisas.
Sr. Rosa - Pois digo que é amar e ser amado por quem bem se entende.
Sr. Cristão - Inclui, pois pedofilia?
Sr. Rosa - Claro que não! A criança não pode consentir de forma não viciosa!
Sr. Cristão - Inclui, zoofilia?
Sr. Rosa - Também não!
Sr. Cristão - Com todo o respeito, mas não vejo com quais critérios elimina esses itens. E vou mais além, digo que dizes o que é certo e errado recorrendo a algum padrão absoluto de moralidade.
Sr. Rosa - Aonde queres chegar com isso?
Sr. Cristão - Que se o padrão disser que é errado fazer algo, não importa se as pessoas consentem ou se acreditam ter esses direitos.
Sr. Rosa - Tudo bem, mas e se eu não aceito esse padrão?
Sr. Cristão - Terás de justificar o padrão pelo qual decides...
Sr. Rosa - Combinado, mas deixemos essa discussão para outro momento. Por hora, eu diria que rejeito o teu Deus.
Sr. Cristão - Sim, todos já estão fartos. Eu concluiria que é o único jeito de continuares sustentando teu homossexualismo.
Sr. Vermelho - Bom, boa noite a todos. De ti, sr. Rosa, não quero nem amizade.
Sr. Cristão - Pois faço questão de devotar-lhe carinho e respeito, desde que mantenha o decoro e o pudor na frente de meus filhos e dos filhos dos outros, como demonstrastes hoje pela noite. No mais, serás tratado por mim com a misericórdia que trato meus amigos que vivem vidas desregradas. Entendo que continuas em rebeldia contra Deus e quero demovê-lo desse caminho.
Sr. Rosa - Pois aprecio muito sua postura, sr. Cristão. Espero que estreitemos os laços e tu possas me apresentar esses seus amigos que mudaram de vida para que eu veja com meus próprios olhos e ouça deles mesmos o que lhes aconteceu.
Sr. Cristão - Será um prazer!

sábado, 21 de março de 2015

Uma Historieta para Explicar o Capitalismo

Elaboramos a seguinte ilustração para comunicar, de forma mais didática possível, alguns princípios elementares do capitalismo de modo a demonstrar que ele não é o bicho de sete cabeças, o chacal carniceiro que nos ensinam no Brasil. O princípio de geração de riqueza, distribuição justa (que não significa igual), geração de empregos, motivação para o progresso e afins estão aí presentes de forma germinal. É apenas uma historieta, amigos, mas esperamos trazer alguma luz.

Bom, imaginemos um número de pessoas chegando à uma ilha. Inicialmente elas, cada uma em família, pegam uma quantidade de terras e começam a produzir valendo-se de uma cultura de subsistência. Tudo que produzem é criação. Se um produzir mais do que o outro, terá, necessariamente, mais, sem que, com isso, o outro tenha menos. Eis um princípio.
E é claro que haverá quem produzirá mais. Há pessoas que ficam contentes com o pouco que produzem, sem muitas ambições. Outros, movidos pela recompensa de seus esforços, trabalharam de modo dobrado. E há os que têm habilidades naturais para trabalhar, que também produzirão mais. Eis outro princípio valorizado pelo capitalista: a livre iniciativa e as recompensas justas do esforço. As famílias crescem e começam a produzir mais e mais.
Alguns desenvolvem produtos únicos. Conseguem produzir, organizando a família, até mais do que precisam. E querem comprar os produtos únicos de outra família. Resolvem permutar. Acontece que o preço dos produtos têm de ser estipulados. Pelo produto único A, produzido pela família X, a família Y quer dar tantos quilos de arroz e farinha. A família Z quer dar um pouco mais. Eis o princípio do valor subjetivo do produto. A família X, claro, desejará passar seu produto para Z. Se mesmo assim houver demanda, a família X poderá se empenhar um pouco mais para produzir mais e mais para vender. Ela até pensa em colocar o preço um pouco mais caro, visto que seu produto está sendo bastante requisitado. Ela pode até parar de produzir para subsistência para produzir seu produto único A. Então surge outra família que consegue desenvolver o produto único A. E vende um pouco mais barato. É claro que a família X deverá abaixar seus preços caso ainda queira vender. Com o preço nivelado, podem concorrer por quem oferece o melhor produto único A. Eis a lógica da concorrência. 
A mera troca nem sempre era viável para todos os produtos por questões logísticas. Daí que usar uma moeda comum passou a ser viável e, em comum acordo, passaram a usar uma para representar as posses. Acontece que, quando uma família produzia mais, não tirava, necessariamente, riquezas dos bolsos de outros. Antes, com o aumento da produção, passou a demandar mais trabalhadores do que a família poderia fornecer. Outros mais novos, que não os grandes patriarcas proprietários, resolveram vender o seu trabalho por salário. Havia várias famílias oferecendo trabalho, e quanto mais gente com dinheiro mais poder de compra havia, e maior era a demanda, aumentando a necessidade de contratos, mais empregos geravam. Se o povo ficasse desempregado não iriam ter dinheiro para consumir e logo não haveria produtos para serem pagos. As riquezas minorariam em sua produção. Assim, quanto mais produção, mais empregos. Quanto mais empregos, mais consumidores e assim sucessivamente.
Como havia mais oferta de trabalho, o trabalhador poderia escolher a que lhe dava melhores condições.  Além disso, havia produtos diversos, que não dependiam da terra ou coisas do tipo,  que eram locados também.
Eis um resumo, pra lá de conciso, da lógica capitalista.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

The zuera never ends? Será?



"Há certos gracejos que teríamos vergonha de dizer, e no entanto, quando ouvimos numa cena de comédia, ou mesmo em particular, nos regozijamos e não sentimos nenhuma revolta diante de sua inconveniência. O caso da piedade repete-se aqui, pois damos soltas àquele prurido de rir que contínhamos em nós como a razão, temendo passar por chocarreiros, e não nos apercebemos de que ao fortalecê-lo assim nos deixamos arrastar frequentemente por ele no trato ordinário, até nos convertermos em farsantes" (Platão, 'República', Livro X).

Até que ponto as gracejos, o humor, as brincadeiras se justificam? É correto brincar de tudo? Caçoar de tudo? Não há limites para o humor? Não é o humorista Rafinha Bastos quem propaga que o humor não pode ser tolhido? Claro, ele diz que tudo é feito em tons de brincadeira, e que não refletem, necessariamente, uma posição em qualquer assunto quando ele chacota de algo ou alguém. É apenas viés cômico, uma percepção jocosa de um fato ou boato. O objetivo é fazer com que as pessoas riam, e, em meio às vagas procelosas da vida, tal fim torna-se quase que um bem supremo ou, pelo menos, algo inquestionável. C. S. Lewis, minha principal orientação nesse sentido*, observa que é mesmo
um ídolo para aqueles que se deparam com as amarguras da vida*. O contentamento que deveria ser buscado em Deus é buscado neste paliativo intocável. Mas, então, o que devemos pensar sobre isso?

Pois bem, minha tese básica é que há alguns elementos distintos que julgam as piadas. Um deles é o objetivo da piada em si. Outro é o seu conteúdo. E, claro, não podemos negligenciar a ocasião. O que precisa ser antecipado é que há piadas que devem ser evitadas. Há limite no humor porque é uma atividade humana escrutinável à ética. Não é um ato supra-moral.

Claro, não estou, em momento algum, defendendo que não haja brincadeiras saudáveis e piadas muito bem colocadas. Quem me conhece sabe o quão brincalhão eu sou. Por isso, o assunto é caro a mim. Por isso, tal perscrutação introspectiva é movida por grande sinceridade e confronto pessoal. Se você que lê achar que o que virá a seguir é muito pesado e tão difícil que lhe parece impraticável, saiba que estamos praticamente juntos. Entretanto, hoje é o dia em que resolvi abandonar as brincadeiras que não agradam a Deus. Uma área em que deixei-me levar após conhecer a Cristo e agora vejo-me enredado em situações que açoitam minha consciência. É dia de santificação e espero que atinja a vocês também!

Para começo de conversa, a desculpa de que a brincadeira era só brincadeira e não refletia algum ponto de vista ou posicionamento não é necessariamente verdadeira. A motivação aqui, como observada acima, é simplesmente alegrar, fazer com que as pessoas sorriam, independente do conteúdo que se emprega.
Primeiro, evidentemente, não é tudo que alegra e faz sorrir que é bom. O pecado mesmo, num primeiro momento, alegra. Não fosse assim não haveria tentação alguma! E isso é assim porque o pecado é a perversão de um prazer legítimo. O sexo fora do casamento ainda é bom porque é sexo, e não porque é fora do casamento. Mas ele mesmo fora instituído para o casamento e é ali que deve ser desfrutado.
Em segundo lugar, e o ponto culminante aqui, é que o humor é elaborado dentro de um referencial teórico. Aqui vou com um pouco de filosofia. Tal como a arte ou mesmo a literatura pura, nada que o homem produz está desassociado de seus pressupostos*. Ele elabora suas piadas em torno do que acredita. Mesmo que admitamos que uma vez ou outra ele pode ter feito uma piada que não reflete suas crenças, via de regra, ele pensará conforme suas crenças mais profundas e básicas.
É muito famosa a frase de Charles Chaplin a esse respeito: "se você estivesse levando a sério as minhas brincadeiras de dizer a verdade, você teria ouvido muitas verdades que insisto em dizer brincando". É esse o ponto! Mesmo em meio ao humor, tal como num simples romance - mesmo nos que não são caracterizados como 'romance de tese' -, defende-se uma cosmovisão. Basta olharmos para as piadas do grupo Porta dos Fundos que veremos argumentações 'dawkinetes'. E isso é muito fácil de detectar pra quem conhecer sobre algum assunto.
A essa altura, claro, alguém poderia objetar: 'Ei, mas é só piada! Não vou me deixar levar!'. Sinto informar que isso não passa de uma ingenuidade enorme. O humor, primeiro de tudo, é uma ferramenta didática excelente. O próprio lúdico, quem sabe, poderia ser encarado como um princípio para tal tese que defendo agora. O certo é que a atração natural pelo gracejo nos atrai a atenção para o que é dito. Chaplin esperava transmitir alguma ideia com suas piadas. E mesmo que os humoristas, conscientemente, não percebam, vendem suas visões de mundo ao recitarem seus shows.
Uma forma inquestionável de observar isso é que esses que defendem o humor acima de tudo não percebem que defendem uma ética com tal proposta. Nela está inclusa, por exemplo, que não há nada tão sagrado que não possa ser omitida de uma elaboração proposicional jocosa. Se disserem que não estão vendendo ideia alguma com suas piadas, são mais inocentes - intelectualmente, e não moralmente, falando - do que poderíamos supor. Mas prefiro imaginar que seja estupidez mesmo. A alternativa seria que são deliberadamente cretinos e maldosos.
A piada é tão didática que muitos se valem dela como recurso erístico, i. é., como estratégia de debate. Ela é extremamente persuasiva e é muito difícil alguém não versado em retórica perceber o que foi feito. Basta que alguém saiba reformular qualquer posição com xisto e dará aquela impressão de que, de repente, aquela ideia não é tão atrativa assim. O ateu Christopher Hitchens era um mestre nisso. Mesmo que seus argumentos não fossem tão substanciosos e suas críticas não fossem nada avassaladoras, sua retórica era incrível e isso era muito atrativo aos ouvintes. Mas para um indivíduo treinado nas artes liberais (mais especificamente no Trivium), saberá que isso não passa da falácia denominada 'apelo ao ridículo'.

É certo que, mesmo que as intenções sejam boas, o conteúdo das piadas deve ser observado. Lewis, na sagacidade que é de seu apanágio, nota que o diabo sabe usar o humor para o mal. Basicamente há duas formas de fazer isso. Uma é a de atenuar a vildade de qualquer ação. Assim, algo completamente imoral, lamentável, que deveria nos trazer repulsa sem fim, passa a ser tolerável, senão desejável, quando se vê por um prisma de zoação. Daí que coisas tristes como o homossexualismo é, ao invés de ser um tema sério e muito triste, abraçado pelo nosso cotidiano. A glutonaria é omitida com brincadeiras e piadas sobre gordos. A ociosidade vil é disfarçada sobre uma montanha de risos e assim por diante. E para nosso terror, quantos não acham engraçado imitar terroristas muçulmanos que decepam cristãos fiéis?! Brincamos com a deficiência das pessoas quando nunca nos importamos com sua dor! Até mesmo achamos legal quando caçoam das Escrituras ou mesmo escarnecem do próprio Cristo! Tudo isso, por mais caro que nos seja, deve ser abandonado caso queiramos agradar a Deus!
A outra forma que o Inimigo de nossas almas usa o humor para o mal é o de caçoar das coisas santas. Virtudes são colocadas em cheque nessa estratégia. Ri-se da honestidade impecável de um homem que nem mesmo atravessa um sinal vermelho quando ninguém está vendo. Coloca-se a coragem
numa situação em que ela leva o indivíduo que a demonstra se dando mal, tudo num tom de brincadeira, de modo que, com o tempo, a coragem possa parecer algo estúpido para as pessoas. Pouco a pouco, observa o autor das Crônicas de Nárnia, aquelas coisas que Deus preza vão se tornando odiosas, repulsivas, nos corações dos homens.


Agora, claro, pelo amor de Deus, ninguém venha pensar que defendemos a vida taciturna, fúnebre e melancólica! Não mesmo! Vamos considerar alguns usos legítimos do humor.

Primeiro, no que diz respeito à retórica. É claro que a ironia, que eventualmente produz alguma comicidade, pode ser muito persuasiva e seria um elemento legítimo na argumentação (principalmente na estratégia chamada 'reductio ad absurdum'). Quem não se lembra de Elias, no Monte Carmelo, fazendo chacotas impagáveis ao Baal adorado em Israel? Esse seria um uso legítimo do humor. E ele bem poderia ser usado como ferramenta didática também, desde que para ensinar coisas boas. Caçoar de alguns erros teológicos grosseiros junto a amigos ou mesmo a um público que é por nós considerado pode ser uma ótima ferramenta para despertar os equivocados de seu sono dogmático. Mas tudo deve ser feito com sabedoria e cautela.

Agora, e fora do uso instrutivo? É pecado? Não mesmo! Até porque Deus quer que nos alegremos. O fundamento último de nossa felicidade, claro, está em Deus. Mas todos os demais apetites nos foram dados por ele mesmo. E as demais alegrias são legítimas. O próprio riso e predisposição para as piadas pode ser santo. Deus mesmo nos convida, nas Escrituras, a nos alegrarmos no Senhor. Ele ordena festas! Pede para que nos alegremos com os que se alegram! Bolas foras, situações embaraçosas ou, quiçá, algum tropeço que não cause nenhum ferimento grave são coisas que podem povoar nossas piadas. Há, de fato, alguns poucos humoristas cristãos fazendo um bom trabalho, como o
pessoal do canal do youtube 'Desconfinados'. Entre amigos e amantes o mero esboço de um gracejo causa riso fácil, como observa Lewis. Boas gargalhadas, movidas por piadas santas, são muito desejáveis! Tudo que temos que fazer é vigiar nosso coração para que não busque nas piadas o que deveríamos buscar em Deus, i. é, paz de espírito ou luz para as trevas da angústia. Também devemos observar se o que falamos é santo e agradável a Deus. Se contaríamos aquela piada para Jesus caso ele estivesse ao nosso lado. Ou melhor, como bem disse Chesterton outrora, ele está! Perceber isso mudará toda a história.

Portanto, qual filosofia pretendemos seguir? Vamos dar ouvidos a C. S. Lewis ou a Rafinha Bastos? Todos nós estamos envolvidos com a questão, e não há como não se decidir. Hoje mesmo fiz minha escolha definitiva. Qual é a sua? Sei que poderei perder algumas amizades com isso, o que lamentarei profundamente. Mas nada é mais valioso do que agradar ao meu Senhor!

[PS: Não estou falando que tudo que o Rafinha Bastos ou o grupo Porta dos Fundos produz é ruim. Pode haver algo de produtivo por conta da graça comum. Mas se formos dar audiência para eles e outros com filosofias semelhantes, devemos considerar o quão influente serão em outras mentes menos seletivas e, se mesmo assim considerarmos que vale a pena assistir, devemos ter a coragem de mudar de canal ou tirar o vídeo quando falharem nos filtros que propus aqui].

*Particularmente me refiro à carta XI do livro 'Cartas de um diabo a seu aprendiz' ou 'cartas do inferno'.
*Para quem quer entender o que estamos querendo dizer com isso, leia este artigo: crise existencial
*Para entender o que queremos dizer por 'pressupostos' e 'cosmovisão', leia esse artigo: cosmovisão - o que é?