sábado, 12 de abril de 2014

O que pensar sobre os mitos?

O CONTEXTO HISTÓRICO

Certa feita estávamos a debater com um meliant...quer dizer, militante ateu, e o sapientíssimo ser confundiu os significados de místico e mítico. Já era uma gritante declaração de que ele não havia gastado muito tempo considerando o assunto, não lendo nada sobre. A evidência era a falta de familiaridade com os termos. Mas a evidência máxima foi querer considerar a crença em Deus, particularmente no Deus cristão (aliás, evidentemente, era um neo-ateu, embora nem isso soubesse), uma crença mítica. No final, o nada erudito adversário escancara sua idiotice ao considerar toda informação não empírica como mítica. Na verdade, para ele, toda crença, todo ‘ato de fé’, era encerrar-se em um mito, no sentido pejorativo do termo. 
Pois bem, nada melhor do que a boa e velha instrução para resolver esse tipo de confusão. Vamos, pois, no que se segue adiante, explicar o que é o mito, sua relação com o surgimento da filosofia, e sua relação à religião. 


IDENTIFICANDO OS TERMOS: MÍSTICO OU MÍTICO?

Primeiro, para o leitor que também não está muito inteirado sobre o assunto e vive a confundir algo místico com algo mítico, traremos um esclarecimento básico sobre o que é algo místico. A seguir, abaixo, teremos uma exposição sobre o que é o mito e, consequentemente, o que é algo ‘mítico’.
Charles Hodge, de forma magnífica, nos esclarece sobre os usos do termo ‘místico’. Seguiremos, em suma, a ele: ‘Misticismo’ é um termo controverso e amplo. Etimologicamente refere-se a alguém que aprendia os mistérios por revelação especial, segredos. O místico vê e sabe mistérios que outras pessoas não sabem, seja por intuição imediata ou revelação interior (p. 46).
Na filosofia o termo é usado para os que ensinam a unidade do humano com o divino, ou para os que ensinam a intuição imediata do infinito. Conhece-se Deus face a face, sem intermediação. Aquiescência ao sentimento despertado pelo infinito. Veremos, ao expor Plotino e o neo-platonismo, a exposição dessa perspectiva filosófica (HODGE, p. 46-47).
Um outro uso do termo é o que torna o sentimento a fonte do conhecimento, e os eleva acima de toda outra fonte. É dar mais importância às emoções do que ao intelecto. O místico desconfia da razão e dos sentidos. Um tipo de misticismo vê nas emoções a fonte da verdade outra considera que Deus testifica as verdades por meio das emoções (HODGE, p. 48-49).
Bom, seja como for, não é ao misticismo que iremos dissertar abaixo. O texto versará sobre o mito, o mítico, e não sobre o místico. É bom que não se confunda.

O MITO NA ANTIGUIDADE

“A fim de entendermos o pensamento dos primeiros filósofos, precisamos entender primeiro o que significa ter uma visão mitológica do mundo” (GAARDER, p.35).

O homem estava diante de muitos fenômenos naturais desconhecidos, não-interpretados, hostis à sua sobrevivência. Que era, afinal, esses lampejos celestiais que emanam feixes de luz até o solo trazendo morte? Que é toda essa ventania que surgiu ‘do nada’, com muita água, inundando e derrubando tudo? Esses e outros eram os fenômenos, os ‘fatos’ tal como se davam aos sentidos. E essas eram as questões. Foi, como observa Chalita, o espanto, o medo e o assombro (CHALITA, p.22), que fizeram o homem antigo ‘parir’ o mito*1.
Segundo Chalita, o mito é oriundo do próprio animismo. Chalita observa que o homem antigo fez a seguinte analogia (perceba como uma hipótese foi levantada e, como ela fazia sentido e, aparentemente explicava os fenômenos, viabilizando, inclusive, um modo supostamente eficaz de lidar com eles e suas reais ameaças): “Da mesma forma que imaginamos as circunstâncias que levam uma pessoa a ter uma explosão de raiva inexplicável, os homens tentavam entender os fenômenos ‘explosivos’ da natureza*2. ‘Por que esta tempestade? Alguma coisa desagradou a natureza. Fizemos algo errado, ou deixamos de fazer alguma coisa que deveria ter sido feita. A partir do momento em que a natureza ou cada uma das suas manifestações passaram a ser consideradas entidades superiores e temperamentais, que podiam de uma hora para outra irromper em fúria, surgem, primeiro na forma de boatos, depois como expressão da verdade, histórias sobre a personalidade e os feitos, as alianças e as inimizades dessas entidades [...]. E uma vez que os fenômenos naturais são associados aos deuses*3 e esses são interpretados como personagens semelhantes aos homens*4 – já que têm personalidade e manifestam emoções*5 –, a única coisa a fazer é tentar agradar a eles*6” (CHALITA, p. 20-22). Essa é a aurora do animismo, do mito e das religiões antigas e, quiçá, das atuais*7. Aos poucos foram-se acrescentando detalhes, segundo imaginavam, e em épocas e lugares diferentes as lendas foram se desenvolvendo*8. Supostamente alterações dialéticas teriam produzido as religiões posteriores*9.
Logo as histórias sobre as entidades por detrás dos elementos, convertidos em histórias sobre ‘homens imortais e superpoderosos’, deuses, encerraram históricas cosmogônicas também. “São histórias que nossos ancestrais transmitiam de geração a geração e que descrevem como o universo foi criado por uma ou mais entidades sobrenaturais, as chamadas divindades” (ROCHA, p.37).
Tudo bem, sabemos como os homens criaram os mitos, e até como do animismo eles tornaram-se histórias, tramas complexas, segundo a imaginação dos homens. Mas não era apenas para compreensão dos fenômenos que os mitos serviam. “Essas histórias fazem parte da tradição oral dos povos e visam sempre reafirmar os seus valores morais, religiosos ou éticos” (ROCHA, p.37). Chalita observa que os mitos não eram apenas narrativas sobre a origem das coisas (homem, natureza, mundo), mas “também falam sobre aspectos da condição humana, como o fato de ser mortal e sexuado, de viver em sociedade e ter de trabalhar para sobreviver, da necessidade de regras de convivência...” e adiante complementa sobre a utilidade deles: “... um papel importantíssimo, transmitindo o conhecimento de pais para filhos, garantindo a segurança dos indivíduos e a continuidade dos valores sociais, unindo as pessoas de um mesmo grupo” (p. 23).
Vale lembrar que os gregos acreditavam, também, que as habilidades humanas eram dádivas divinas, ou emanavam deles. Parece-nos que Platão iria ver nisso um insight para o ‘mito dos metais’, o que veremos noutra oportunidade.
Portanto, os mitos faziam parte de toda a cosmovisão dos antigos. Eles fundamentavam a metafísica (versando sobre a origem e o funcionamento do mundo), a ética (incluindo a reflexão existencial, teleológica e sociológica) e a antropologia*10. Toda a vida dos antigos estava comprometida e influenciada pelos mitos.




O MITO E NÓS, HOJE

Chalita afirma, sem muitas explicações, que os mitos ainda têm valor: “Em todos os povos, o mito sempre teve (e ainda tem, em muitas culturas) um papel importantíssimo...” (p. 23, itálico nosso). Talvez ele queira se referir, de forma pejorativa, às nações ‘atrasadas’, que ainda abraçam mitos. Seja como for, isso forneceu um insight para que pensemos em como os mitos poderiam nos abençoar. Acreditamos que o filósofo Olavo de Carvalho pôde iluminar-nos quanto a isso em seu artigo ‘Do Mito à Ideologia’.
Em suma, Olavo de Carvalho defende que devemos compreender o mito fundador de nossa sociedade para podermos compreendê-la com exatidão e não cairmos em ideologia. Segundo o professor Daniel Gomes, para a sociologia marxista, ‘ideologia’ é sinônimo de ‘falsa consciência’, discurso enganoso que leva-nos a ver as coisas não como elas são, mas de maneira invertida*11.
Por mito-fundador, portanto, Olavo não quer dizer “uma ilusão coletiva inventada por espertalhões de classe dominante para colocar os homens a seu serviço” (p. 407-408), que, a propósito, é a concepção dos críticos da religião, como se toda religião não passasse de um instrumento de domínio social*12.
O mito fundador seria “uma narrativa simbólica de fatos que efetivamente sucederam, fatos tão essenciais e significativos que acabam por transferir parte do seu padrão de significado para tudo o que venha a acontecer em seguida numa determinada área civilizacional” (OLAVO, p. 408). Assim, como observa pouco antes disso, os mito-fundadores não eram produtos culturais uma vez que foram a partir deles e da abstração das lições que trouxeram que as culturas se desenvolvem.
Adiante Olavo vai defender que a Bíblia seria o mito fundador do ocidente. Temos algumas reservas quanto a essa perspectiva, pois não acreditamos ser necessário entender as narrativas bíblicas como simbólicas. Falaremos disso em outro momento. Mas, o que interessa aqui é tentar perceber como essa proposta do professor Olavo poderia nos ajudar a apreciar, hodiernamente, os mitos antigos. Talvez a proposta seja justamente pelo fato de que eles fornecem os alicerces significativos que fundamentaram o desenvolvimento filosófico do Ocidente e lhe estruturou o pensamento. Nesse sentido, como veremos adiante, parecem fugir da ideia de ‘narrativas de fatos que aconteceram’. Mas ainda assim são os alicerces do pensamento ocidental.

MITO E RELIGIÃO

Seria viável inventar Deus?
Para começo de conversa, temos de encarar (e refutar, ou pelo menos refutar a ideia de que isso fundamenta a descrença de alguma forma) a concepção de que a religião (ou melhor, toda e qualquer religião, inclusive a cristã) é apenas um progresso do animismo ao mito, e do mito à fé religiosa. Essa proposição é refutada por dois pensadores cristãos de maneira muito interessante. Primeiro, R. C. Sproul. Percebemos que tipo de raciocínio é usado pelo ateu para valer-se do mito como argumento para sua descrença. Agora, Sproul faz observações, no mínimo, capciosas. Aliás, ele joga uma questão no ar, uma provocação, que, a não ser que seja respondida, encerra a conversa reduzindo o ‘meliante’ à ignorância: “A tese básica de Freud é que o ser humano inventou a religião a partir do medo da natureza. Para diminuir esse medo, ele personaliza a natureza. Depois a sacraliza, mas ela nunca se torna pessoalmente santa. De acordo com a Bíblia, existe algo ainda mais ameaçador, mais traumático, para a psique humana do que as forças impessoais da natureza. Se a natureza não é pessoal nem santa, precisamos temer apenas o seu poder. Todavia, se Deus é pessoa e santo, temos de temer não apenas seu poder, mas também seu juízo [...]. Se inventamos Deus somente para afastar a ameaça da natureza, por que inventar alguém infinitamente mais ameaçador que a própria natureza?” (p. 190, itálico nosso).

Falácia Genética
Agora, o óbvio, a falácia genética. Ainda que concedêssemos ao ateu que a religião se desenvolveu a partir do animismo, isso provaria o quê?  Norman Geisler deixa-nos compreender perfeitamente do que se trata a falácia genética com a seguinte ilustração: “De fato, posso herdar uma queda para a matemática e aprender a tabuada com minha mãe, mas as leis da matemática existem independentemente de como eu venha a conhecê-las” (GEISLER; TUREK, p. 194). Talvez seja por isso que Abraham Kuyper diz isto dos que propõem a origem na religião como oriunda do animismo: “...tem confundido o canhão que dispara a bala com a bala em si.” (KUYPER, p. 38). Na melhor das hipóteses a ideia de que a crença em Deus originou-se no animismo pode provar como os homens vieram a crer em Deus, mas não prova que essa crença é falsa. Colocando de outra maneira, seria a forma que viemos a descobrir a Deus, e não a iventá-lo. Dizer que é evidência de que ele foi inventado é extrapolar as premissas e cair em falácia.

A Bíblia ensina que surgiu primeiro o politeísmo ou o monismo?
Bom, primeiramente, temos que entender o seguinte. Há um fato real, algo que realmente aconteceu no passado. Formulamos hipóteses que tentam explicar da maneira mais abrangente (que abarca a maior parte dos ‘dados’) e lógica o que aconteceu*13. Sabemos, pois, que povos antigos nutriam várias religiões e cultos. Parece-nos, de fato, que vieram a crer em deuses por detrás do mundo de maneira natural. Mas essa não é toda a história.
À luz das Escrituras podemos ampliar nossa compreensão sobre os fenômenos que ocorreram. Primeiramente o homem sabia que existe apenas um Deus. Mas houve a Queda. Daí em diante o homem foi entregue a si mesmo, e foi abandonado por Deus, na medida que ele mesmo recusava-se a se-lhe submeter. O coração caído, pois, acabou por criar todo tipo de deuses falsos, não só para lidar com o mundo hostil que viviam, mas por serem homens criados com o desejo de buscar a Deus. O homem, pois, é um ser ‘religioso’ por natureza.
Observemos essa ideia claramente exposta no texto bíblico escrito por Paulo:
“A ira de Deus se revela do céu contra toda a impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça; porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou.
Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das cousas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato.
Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos e mudaram a glória do Deus incorruptível em semelhança da imagem de homem corruptível, bem como de aves, quadrúpedes e répteis.” (Romanos 1:18-25).
Não iremos, por questão de espaço, expor toda a porção destacada. Mas algumas partes têm de ser apenas destacadas, brevemente, a título de uma instrução inicial. O texto, claramente, diz que alguma espécie de conhecimento já está presente no homem. Acreditamos que se trata da ideia inata sobre Deus. Mas esse conhecimento, por conta do amor do homem ao pecado, foi pervertido. O homem preferiu seguir seus próprios caminhos. Tudo isso fê-lo enredar-se em obscuridade, em insanidade, na ‘criação’ de seus próprios deuses. Portanto, toda religão além da Bíblica seria uma perversão humana da verdadeira religião. Deus mesmo teve que se revelar para corrigir todas as falsas impressões que o homem tinha e conceder-lhe informações que jamais teria se não se lhe fossem contadas.
Outro texto que queremos, de forma bem rápida e suscinta, trazer à tona para breve consideração é o de Gênesis 4:26: “A Sete nasceu-lhe também um filho, ao qual pôs o nome de Enos; daí se começou a invocar o nome do SENHOR”. Que os exegetas do Antigo Testamento nos corrijam, mas parece que após a Queda do homem, após a morte de Sete, não se invocou a Deus até que Enos nascesse. Talvez nesse período tenha-se florescido o animismo, os mitos e coisas do gênero, ou até mesmo um período de ateísmo.

Religião para o homem?
Mas Kuyper, mui sagaz, acrescenta observações preciosas que precisamos registrar. Para ele, a religião oriunda do animismo, ainda que desenboque no monoteísmo, ainda assim é uma religião distinta da bíblica, da revelada na Palavra de Deus. Em suma: “Em todas estas diferentes formas ela é e continua sendo uma religião promovida por causa do homem, visando sua salvação, sua liberdade, sua elevação, e em parte também seu triunfo sobre a morte. E mesmo quando uma religião deste tipo tem se desenvolvido em monoteísmo, o deus que ela adora invariavelmente permanece um deus que existe para ajudar o homem, para assegurar a boa ordem e a tranqüilidade do Estado, para fornecer assistência e livramento em tempos de necessidade, ou para fortalecer o mais nobre e alto impulso do coração humano em sua incessante luta contra a influência degradante do pecado” (p. 38-39, itálico nosso). O destaque em itálico acentua um grande contraste entre a religião ‘natural’ e a religião bíblica, ou seja, segundo aquela a religião existe, conforme os propósitos para que veio, para assistir ao homem, para lhe beneficiar, para ajudá-lo a viver; ao passo que esta entende que o tudo que existe, o homem e o mundo, o faz para a glória do Deus Triuno: “Porque dele, e por meio dele, e para ele são todas as cousas. A ele, pois, a glória eternamente. Amém.” (Apóstolo Paulo em sua Epístola aos Romanos, capítulo 11, verso 36).
Precisamos, ao comentar isso, nos precaver do erro de negar que a religião pode beneficiar o homem, de fato, trazendo-lhe bonanças subjetivas. Mas não é por isso que a religião existe. Ela existe porque está dentro dos propósitos de Deus para o louvor de sua glória. Kuyper, mas uma vez, expressa-se com maestria: “A posição do Calvinismo [termo tomado pelo autor como representação plena da teologia bíblica] é diametralmente oposta a tudo isto. Ele não nega que a religião tem igualmente seu lado humano e subjetivo; não discute o fato de que a religião é promovida, encorajada e fortalecida por nossa disposição de buscar ajuda em tempo de necessidade e consagração espiritual diante de paixões sensuais; porém, sustenta que isto inverte a própria ordem das coisas para buscar, nestes motivos acidentais, a essência e o verdadeiro propósito da religião. O Calvinismo valoriza tudo isto como frutos que são produzidos pela religião, ou como âncoras que lhe dão apoio, mas rejeita honrá-los como a razão de sua existência. Certamente, a religião, como tal, produz também uma bênção para o homem, mas ela não existe por causa do homem. Não é Deus quem existe por causa de sua criação; a criação existe por causa de Deus. Pois, como diz a Escritura, ele tem criado todas as coisas para si mesmo” (p. 39).
Kuyper ainda é perspicaz o suficiente para observar que a religião egoísta, que tem como fim a busca da satisfação do homem, em tempos de bonança e prosperidade é preterida, e esse foi o seu fim em terras não cristãs (p. 39).

Religião x Ciência?* 14
Basicamente a questão é a seguinte. O animismo vê na própria natureza a existência de entidades espirituais. Para compreender a natureza e lidar com os fenômenos, pois, era preciso lidar com essas entidades. Já na teologia judaico-cristã a concepção é muito diferente. Compreende-se a natureza, primeiro, pelos pressupostos corretos, e, em seguida, pela investigação científica. Isso é versar sobre os fenômenos, as relações fenomenais, e afins. Mas não é dizer respeito a questões metafísicas, assuntos da filosofia e da teologia.

Metafísica x Física
Além disso, a própria teologia tem perspectivas muito distintas. Se o que marca a mitologia é a busca pela compreensão dos fenômenos naturais, a teologia já não tem essa pretensão. Antes, ela coloca as coisas nos lugares. Deus é quem estabeleceu as leis, pressuposto necessário para busca-las. Encontra-as pelo método científico e pela imaginação racional. Já Deus está relacionado aos fundamentos metafísicos da existência do mundo, do cosmos e tudo o mais, bem ao sabor da proposta filosófica inicial, como veremos doravante. A discussão existencial e moral também lhe ‘traz’ à baila. Mas as discussões fenomenais em si já não são matérias de discussão de um filósofo, com exceção dos filósofos da ciência (e, sendo ainda mais específico, os filósofos ‘internos’ da ciência).

Valores ontológicos da criação segundo a Bíblia diferem dos do animismo
Ferreira e Myatt ainda tecem observações para demonstrar a diferença entre os mitos e a religião bíblica, o teísmo judaico-cristão: “Em termos que deveriam soar escandalosos aos ouvidos do mundo antigo, o autor do livro de Gênesis lança um ataque frontal contra os conceitos de divindade comuns naquela época. Em vez de serem objetos dignos de louvor e temor, os céus, as estrelas, o sol, a lua, os animais e demais objetos da criação são descritos como apenas objetos criados. Eles não têm sinal algum de poder divino – mana – no seu ser. Pelo contrário, apontam para o poder e a divindade superior do Criador, que é totalmente distinto da criação. Além disso, o ser humano é descrito como o ápice da criação. De forma alguma deve se colocar sob as forças da criação e dos animais para venerá-los e servi-los. À luz do ensino bíblico, então, é preciso rejeitar a postura das religiões alicerçadas no animismo. Primeiro, a tendência ao panteísmo tem de ser repudiada. A criação não é permeada por uma força divina e espiritual*15. Quaisquer forças que existam na criação forma criadas por Deus e não tomam parte em sua natureza [...]. A Bíblia, ao proibir a veneração dos elementos da criação, também nega que representem a habitação e domínio de deuses ou outros seres espirituais. Mesmo entidades espirituais que existem são criaturas de Deus, tal como o ser humano, e não devem ser objetos de devoção ou temor [os autores, em nota, observam que pode, sim, haver relação a poderes demoníacos com questões animistas, mas esse é assunto para outro texto, e eles também o protelam para outra parte da Sistemática]” (p. 75).
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*1 Pondé faz uma observação interessante sobre o assunto e, para demonstrar um pouco da relevância deste estudo, resolvemos abrir essa nota. Para demonstrar a ingenuidade dos ‘politicamente corretos’ para com a natureza (daquele tipo de adoradores modernos da vida natural, da natureza, a despeito do progresso tecnológico e dos avanços da humanidade, como se devêssemos tornarmo-nos como os índios para resolver todos os problemas da raça humana), Luiz Felipe Pondé observa: “Nossos ancestrais facilmente cultuavam a natureza porque ela os fazia sentir pequenos, dependentes e protegidos e/ou destruídos por ela. Qualquer relação adulta com a natureza implica saber que ela gera e destrói, e, nesse sentido, nossos ancestrais eram mais adultos do que os retardados contemporâneos, pois cultuavam a natureza não porque viam nela uma pureza santinha, mas porque enxergavam o poder dos deuses ancestrais: beleza e crueldade. Os idiotas românticos de hoje em dia esquecem que câncer é tão natural quanto os passarinhos, e pensam que a natureza seja apenas os passarinhos” (p. 73).
*2 Percebamos que Sproul expõe Freud com proposições muitíssimos semelhantes às de Chalita, como vimos acima, quanto ao início da religião:  “A explicação mais comum para o fenômeno global da religião é que ela tem suas raízes em uma profunda necessidade psicológica ou projeção intencional [...]. Ele [Freud] concluiu que a principal tarefa, a raison d’etre, da civilização era nos proteger e defender da natureza. A natureza manifesta elementos que parecem zombar do controle humano [...]. Para criar uma defesa contra as forças da natureza, diz Freud, é preciso personaliza-las. Poderes impessoais são remotos; não é possível achegar-se a eles com segurança [...]. Temos experiência de como lidar com pessoas que nos ameaçam [...]. Assim, o primeiro passo para escapar das ameaças da natureza é humanizar e personalizar a natureza [...]. O segundo passo é sacralizar a natureza [...]. Como organismos, a religião começa simples e avança para formas mais complexas [...] Para Freud, o animismo constitui o primeiro estágio do desenvolvimento religioso [...]. A religião, no fim, desenvolve-se até chegar ao monoteísmo complexo que afirma uma Providência benevolente” (SPROUL, p. 187-189).
*3 Voltaire acredita, diferente de muitos estudiosos, que originalmente havia a crença num só Deus para, então, “a fraqueza humana ter concebido vários” (p. 190). Ele vê os homens deparando-se com fenômenos naturais, estupefazendo-se e conotando algum poder superior a eles. Vejamos o relato em suas palavras: “É natural que os habitantes de uma pequena povoação, aterrados pelo trovão, afligidos pela perda das suas searas, maltratados pela povoação vizinha, em toda a parte sentindo um poder invisível, tenham logo asseverado: ‘Há algo superior a nós que nos traz o bem e o mal’” e “Nas aldeias, ter-se-ão limitado a comentar: ‘Há um poder que troveja, que neva sobre nós, que faz morrer os nossos filhos: apaziguemo-lo; mas como apaziguá-lo? Já observamos que graças a pequenos presentes, pudemos acalmar a cólera de gentes irritadas; vamos pois dar pequenos presentes a esse poder. Temos também de lhe dar um nome” (p. 190-191). Até aqui tudo conforme os demais. Entretanto, Voltaire questiona: porque mais de uma divindade? Porque os povos iriam supor várias e não uma? Talvez por conta de presumir que cada tipo de fenômeno da natureza comportava um espírito diferente, alguém poderia responder. Mas para Voltaire isso aconteceu depois: “É natural que com o exaltar-se a imaginação dos homens e havendo o seu espírito adquirido conhecimentos confusos, a breve trecho multiplicassem os deuses e assinalassem protetores aos elementos, aos mares, às florestas, às fontes, aos campos [...]. Como não adorar o sol, quando se adora a divindade de um riacho? Dado o primeiro passo, em breve a terra se cobriu de deuses e, por fim, desce-se dos astros aos gatos e às cebolas” (p. 191).
Outra coisa que ficou sugerida no verbete é o contato com outros povos que poderia ter favorecido a crença em vários deuses, afinal, cada aldeia, cada tribo, tinham o seu deus diferente.
Para argumentar em prol do monoteísmo da religião natural Voltaire entende que havia uma associação daquele poder maior à uma autoridade, e esses povos primitivos viviam sob auspícios de uma única autoridade. Tal fato teriam os feito reproduzir essa analogia na divindade.
Quem sabe? Mas Voltaire, pelo menos, é um dos nomes que contesta a ideia vigente de que a religião teria surgido em forma de politeísmo para, então migrar para o monoteísmo.
Para completar sua exposição, ele entende que cada povo adorava um deus único, concernente aos fenômenos climáticos, ou de alguma outra natureza, da região. Se fossem filósofos adorariam ao Deus da natureza, e não a um deus de uma aldeia. Mas o tempo trouxe esclarecimento ao homem, e voltaram a sair da ignorância politeísta para o monoteísmo novamente.
*4 Gaarder nos dá um exemplo da mitologia nórdica e como ela supostamente explicaria os fenômenos. Trata-se de Thor em Midgard. Thor percorre os céus, e o agitar de seu martelo produzia raios e trovões. Os nórdicos imaginavam o mundo habitado como uma ilha, ameaçada por elementos externos. Essa é Midgard. Em Midgard havia Asgard, a morada dos deuses. Lá também estava Freyja, a deusa da fertilidade.
Pois bem, as chuvas e a fertilidade, da terra e das mulheres, estavam ligadas a Asgard. Freyja tinha de lá permanecer. Thor defendia o local com seu martelo.
Acontece que havia, fora de Midgard, trolls, inimigos dos deuses e dos homens, que buscavam destruir Asgard. Havia uma trama conhecida onde o martelo de Thor era roubado. Há toda uma historinha que é desenvolvida para que Thor vá ao reino dos trolls, Jotunheim, e recupere o martelo. O importante é como essa lenda poderia ajuda-los a compreender os fenômenos. Veja como Gaarder cogita algumas aplicações: “Quando a seca assolava uma região, as pessoas precisavam de uma explicação para a total ausência de chuva. Não seria porque os trolls tinham roubado o martelo Thor? Podemos imaginar, também que este mito tenta explicar a alternância das estações do ano: no inverno a natureza está morta,, porque o martelo de Thor está em Jotunheim. Mas na primavera Thor consegue reavê-lo” (p.38).
Evidentemente as pessoas não queriam apenas esperar as tramas acontecerem. Nos mitos nórdicos imaginava-se que os sacrifícios, rituais e cerimônias iriam fortalecer os deuses, e, assim, poderiam acelerar o processo de recuperação do martelo de Thor, por exemplo.
Entretanto todos os ritos não podem ser entendidos como os nórdicos. Não visavam, necessariamente ‘fortalecer os deuses’. Oriundos do animismo, antes, visavam acalmá-los, aplacar sua ira e, com isso, pender a natureza para um ímpeto benéfico à sobrevivência. Além disso, “os rituais, além de servir para obter a boa-vontade das entidades divinas ou míticas, são uma maneira de celebrar o mito ou divindade, atualizando-os na memória das pessoas da comunidade...” (CHALITA, p. 22).
*5 “... os deuses, para os gregos, também tinham características muito especiais: eram antropomórficos, isto é, semelhantes aos seres humanos. Eram imortais e tinham grandes poderes, é verdade, mas em todo o resto eram como os homens. Nasciam, apaixonavam-se, tinham relações sexuais, cultivavam amizades, ódio, sentiam alegria, fúria, faziam intrigas e alianças entre si, e assim por diante. Também se relacionavam com os seres humanos” (CHALITA, p. 25).
*6 Voltaire, que chama os mitos de ‘fábulas’, diz que as antigas são prestigiosas e pinturas, alegorias, analogias sobre a natureza. Mas o mesmo filósofo condena o desenvolvimento dos mitos como perversões: “A maioria das outras fábulas são a corrupção de antigas histórias ou resultado dos caprichos da imaginação [...]. As fábulas dos povos primitivos, os quais possuíam qualidades inventivas, foram mais tarde grosseiramente imitadas por povos rudes e sem imaginação [...]. Os povos bárbaros, que nelas ouviram falar confusamente, introduziram-nas na sua mitologia selvagem; e, a seguir, atreveram-se a dizer: ‘Fomos nós que as inventamos’” (VOLTAIRE; DIDEROT, p.97-98).
*7 Franklin Ferreira e Alan Myatt podem muito contribuir para ampliar nossa compreensão sobre as religiões antigas: “Podem ser percebidas duas maneiras pelas quais o divino era visto na criação, tanto nas religiões tribais dos povos primitivos quanto nas religiões antigas das sociedades mais desenvolvidas. Primeiro, o divino era entendido como uma força ou energia que permeava todas as coisas. Os antropólogos adotaram a palavra ‘mana’, do idioma da Melanésia, para descrever essa força, que é vista como um poder oculto que existe em todas as coisas. [...] Mana é capaz de ser transmitida das coisas para as pessoas e vice-versa. É uma forma de energia que pode dar poderes extraordinários às pessoas que conseguem obtê-la. Nesse sentido, Eliade disse que não é correto entender mana como uma força impessoal, porque não funciona fora do contexto dos eventos e pessoas nas quais está operando. Mas ela não está automaticamente presente nas pessoas também. Para obter a energia oculta nas coisas, as religiões desenvolveram vários sistemas de ritos e magia.
A segunda maneira que as religiões antigas entenderam o divino na criação foi feita pela identificação dos deuses com a própria criação [e aqui está a gênesis dos mitos como temos estudado]. As religiões antigas interpretavam vários aspectos da criação como deuses e as forças da criação como as atividades dos deuses [...]. É importante entender que não é a natureza física em si que é o objeto de culto, mas sim a criação permeada pela presença do divino. [...].
O que podemos observar em nossa descrição dessas religiões é a ideia de dois tipos de poderes sagrados na criação: a força ou energia que permeia todas as coisas e a existência de seres espirituais. A distinção entre a força ou energia e as pessoas não é sempre óbvia. Existe uma interação íntima entre os dois. Animismo é o nome empregado para descrever as religiões tradicionais que trabalham com essas entidades. Van Rheenen nos oferece a seguinte definição: ‘[animismo é] a crença que entidades pessoais espirituais e forças pessoais espirituais têm poder sobre os negócios humanos e, consequentemente, que os seres humanos devem descobrir quais forças os influenciam, para que eles possam determinar a ação futura e, frequentemente, manipular seus poderes’.
O alvo do animismo é a manipulação dos poderes. Isso pode ser feito para conseguir sucesso na vida, amaldiçoar os inimigos, prever o futuro, curar doenças ou descobrir a fonte de calamidade e os problemas da vida” (FERREIRA/MYATT, p. 54-55).
*8 Será interessante ressaltar que o mito diferirá do teísmo propriamente dito, para começar, por sua origem e, consequentemente, proposta epistêmico-metafísica. Protelemos.
*9 “Os mitos formavam, para os gregos daquele tempo, um sistema complexo, que explicava praticamente todos os elementos de sua cultura. Eles estavam organizados num conjunto coerente, lógico; em termos amplos, era uma maneira de ver o mundo, de explica-lo e compreendê-lo” (CHALITA, p. 26). Ou seja, como observamos, formavam uma cosmovisão. Dissertarmos sobre cosmovisão nos seguintes endereços: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/10/cosmovisao-parte-1.html
Embora vários autores não usem o termo, podemos perceber que a ideia está presente. Observem como François Pradeau, que lemos após ter escrito esses dois artigos, menciona a temática sem valer-se do termo: “A filosofia nunca disse a mesma coisa, certamente, mas ela fala sempre da mesma coisa: da realidade e do conhecimento que podemos dela ter; do sentido de nossa existência e da maneira como podemos conduzi-la” (p.12). Outra abordagem interessante, que fomos conhecer após os dois artigos, é a do Franklin Ferreira e Alan Myatt, que podem ser conferidas nas páginas 3-15 da Teologia Sistemática desses autores.
*10 Abraham Kuyper faz uma síntese excelente dessa mentalidade, saindo o animismo até uma concepção meio que Nova Era da acepção do divino consistindo no próprio ser pensante, no próprio indivíduo: “A atenção é chamada, e muito propriamente, ao contraste entre o homem e o poder esmagador do cosmos que o cerca; e a nova religião é introduzida como energia mística, tentando fortalecê-lo contra este poder imenso do cosmos que lhe causa um medo mortal. Estando consciente do domínio que sua alma invisível exerce sobre seu próprio corpo material, ele naturalmente infere que a Natureza também deve ser movida pelo impulso de algum poder espiritual oculto. Animisticamente, portanto, primeiro ele explica os movimentos da natureza como o resultado da habitação de um exército de espíritos, e tenta pegá-los, invocá-los e subjugá-los em sua vantagem. Então, subindo desta idéia atomística para uma concepção mais compreensiva, ele começa a crer na existência de deuses pessoais, esperando destes seres divinos, que permanecem acima da natureza, assistência eficaz contra o poder demoníaco da Natureza. E, finalmente, entendendo o contraste entre o espiritual e o material, ele homenageia ao Espírito Supremo como estando em contraste com tudo que é visível, até, no fim, tendo abandonado sua fé em um tal Espírito extramundano como um ser pessoal e, encantado pela altivez de seu próprio espírito humano, prostra-se diante de algum ideal impessoal, do qual em auto-adoração supõe ser ele mesmo a venerável encarnação.” (p. 38).

*11 Confira a aula em que ele fala isso aqui: https://www.youtube.com/watch?v=VraQwmvpBGo
*12 Confira esse excelente artigo que lida com essa acusação ao cristianismo, a saber, que ele não passa de uma forma de domínio social: http://projetoquebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2012/09/26/tecnica-cristianismo-foi-inventado-para-dominacao-social/
*13 Pretendemos, noutra oportunidade, dissertar sobre epistemologia relacionada à história.
*14 “Esse foi o caso com o Paganismo, que em sua forma mais geral é conhecido pelo fato que supõe, assume e adora a Deus na criatura. Isto aplica-se ao mais baixo Animismo, bem como ao mais alto Budismo. O Paganismo não eleva para a concepção da existência independente de Deus, além e acima da criatura.” (KUYPER, p. 18).
*15 Os dois subtópicos a seguir abordarão assuntos que serão melhor elaborados em outros artigos mas que, por questão de completude, não poderiam deixar de ser mencionados sumariamente aqui. Eles também dependem do conhecimento dos leitores a respeito dos pressupostos das ciências naturais, sobre os quais escrevemos no seguinte endereço (siga toda a série de artigos): http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/09/sobre-ciencia-e-fe-1.html

REFERÊNCIAS
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A BÍBLIA Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. 2 ed. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1999. 1334 p.

CARVALHO, Olavo de; BRASIL, Felipe Moura (org.). O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de Janeiro: Record, 2013, 616p.

CHALITA, Gabriel. Vivendo  Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.

FERREIRA, Franklin; MYATT, Alan. Teologia Sistemática: uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, 1220p.

GAARDER, Jostein. O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. Tradução de João Azenha Jr. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. 560 p.

GEISLER, Norman L.; TUREK, Frank. Não Tenho Fé Suficiente Para Ser Ateu. Tradução de Emirson Justino. São Paulo: Editora Vida, 2006 424p.

GOMES, Daniel. Aula 1 – O que é ideologia?. Acessado em 11/04/2014 em: https://www.youtube.com/watch?v=VraQwmvpBGo

HODGE, Charles. Teologia Sistemática. Tradução de Valter Graciano Martins. São Paulo:Editora Hagnos, 2001. 1777p.

KUYPER, Abraham. Calvinismo. Tradução de Ricardo Gouveia e Paulo Arantes. Sao Paulo: Cultura Cristã. 2003, 208 p.

OLIVEIRA, Lucio Antônio. Cosmovisão (Parte 1). Acessado em 11/04/2014 em: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/10/cosmovisao-parte-1.html.

OLIVEIRA, Lucio Antônio. Cosmovisão (Parte 2). Acessado em 11/04/2014 em: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/12/cosmovisao-parte-2.html

OLIVEIRA, Lucio Antõnio. Sobre Ciência e Fé (Parte 1). Acessado em 11/04/2014 em: http://mcapologetico.blogspot.com.br/2011/09/sobre-ciencia-e-fe-1.html

PONDÉ, Luiz Felipe. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia: ensaio de ironia. São Paulo: Leya, 2012, 232 p.

PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.

ROCHA, José Fernando (org.). Origens e Evolução das Ideias da Física. Salvador: EDUFBA, 2002, 372p.

SNOWBALL. Técnica: Cristianismo foi inventado para dominação social. Acessado em 11/04/2014, em: http://projetoquebrandooencantodoneoateismo.wordpress.com/2012/09/26/tecnica-cristianismo-foi-inventado-para-dominacao-social/

SPROUL, R. C. Filosofia para iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova, 2002, 208 p.

VOLTAIRE, DIDEROT. Os Pensadores. Tradução de Bruno da Ponte, João Lopes Alves e Marilena de Souza Chauí. São Paulo: Nova Cultura, 

quinta-feira, 10 de abril de 2014

Introdução à História da Filosofia: O panorama histórico da aurora da filosofia ocidental

A visão eurocêntrica da história da humanidade nos ensinou a falar dos primórdios da filosofia na Grécia, embora já houvesse pensadores profundos no oriente antes que o Ocidente sistematizasse o pensamento. Entretanto, cremos piamente na desenvoltura superior da filosofia ocidental e, ainda que haja quem vá contestar, preferimos não desenvolver, por hora, esse assunto, apenas mencioná-lo a título de completude (ou pretensa completude)*¹.
Mas antes de conhecermos Tales de Mileto e companhia, acreditamos que seria interessante observar o contexto histórico e cultural que cercou o raiar, a gênesis filosófica ocidental.

PANORAMA SÓCIO-POLÍTICO DA ANTIGUIDADE

Antes, temos que registrar um esboço sócio-político e histórico para que possamos compreender a situação em que escreveram muitos desses filósofos.
Entendamos o seguinte. Primordialmente não havia propriedade privada da terra. Havia uma posse coletiva das pequenas comunidades que viviam nessas terras. Essas comunidades tendem a crescer, e geralmente, como é o caso da Grécia, crescem em terrenos de relevo acidentado ou montanhoso, sem grandes ofertas de terras. O que acontece é que o crescimento populacional gera uma escassez de terras, visto que a terra que dava para todos chegaria a não dar mais. Consequentemente, dentro dos próprios grupos, temos uma disputa pelas terras onde dois grupos distintos são formados: os que conseguem apossar-se das terras, minoria; e os que não as têm, a crescente maioria. Os que não detém terras, via de regra, trabalharão na terra dos que têm. Acontecia, também, que os que trabalhavam nas terras não eram pagos de forma digna, de modo que acabavam tornando-se devedores e, quando a dívida era grande demais para ser paga, essas pessoas tornavam-se escravos.
Eis a primeira característica a ser destacada: era uma sociedade escravista.

Outro fator inovador dessa nova etapa da humanidade é o da mobilidade social que foi formada. É uma sociedade censitária que se formou. Os que têm mais posses têm mais direitos, e isso vai variando proporcionalmente. Há, pois, uma divisão social com base nesses princípios. Temos os possuidores das terras, os proprietários, com mais direitos que todos; os que não possuem a terra e trabalham na terra alheia são os homens livres e têm menos direitos do que os proprietários; por fim, sem direito algum, os escravos. A primeira camada social, pequena, detém o poder econômico e político, além de todos os direitos possíveis. Depois temos um montante enorme que detém apenas seu direito de liberdade.

A mobilidade social supra referida é a de que as pessoas transitavam de camada social. Normalmente os da segunda camada, homens livres, tornavam-se pessoas da terceira camada, isto é, escravos. Era possível haver ascensão social como homens escravos tornarem-se livres e tornarem-se proprietários, mas isso era muitíssimo difícil de acontecer.


PANORAMA HISTÓRICO




Segundo o professor Rodolfo Neves*², por volta do século XX*³ antes de Cristo, a península balcânica, ao sul da Europa, num relevo muito montanhoso, num litoral muito ‘recortado’, recebe imigrantes indo-europeus: aqueus, eólios e jônios. Segundo Gabriel Chalita, esses indo-europeus vieram do sul "do que hoje é território da Rússia, invadiram a região mediterrânea da Europa à procura de melhores terras" e completa dizendo que "o povoamento da região, devido ao relevo acidentado, concentrou-se em planícies cultiváveis, aninhadas entre as montanhas e em faixas de terra ao longo da costa" (CHALITA, p.12). Chalita também nos informa que primeiro vieram os aqueus e estabeleceram-se no Peloponeso, na região peninsular, ao sul da Grécia. Posteriormente Eólios e Jônios migraram para a Grécia e regiões próximas, junto à porção oeste, litorânea, da Ásia Menor foi por eles habitada.
A partir do ano de 1500 a. C. temos notícias de pequenos reinos, núcleos urbanos independentes, nessas terras. Micenas destaca-se. Os micenos eram um povo patriarcal, de economia agrícola e pastoril bem como ímpeto militar dirigido a conquistas e à guerra. São características indo-européias.
Os monarcas detinham o poder político e controlavam a distribuição dos produtos agrícolas valendo-se, inclusive, de um sistema rudimentar de grafia.
Micenas, próxima ao mar, era um reino próspero, e a proximidade com o mar os levaram à exploração das ilhas próximas, sem, contudo, ir à alto-mar. Em uma dessas expedições, em 1400 a. C. aproximadamente, entraram em contato com os minoicos, uma cultura muito avançada, na Ilha de Creta que ali se estabeleceram desde cerca de 2800 a. C.
Os cretenses, ou minoicos, também exerciam um império marítimo no mar Egeu. Com micenos e minoicos viajando pelo mar Egeu, é estranho que não tenham se encontrado antes de cerca de 100 anos de atividades marítimas. Os minoicos mantinham intercâmbios com os egípcios e sírios.
Tal fator teve como consequência o organizam-se por meio de uma talassocracia, ou seja, quem dominava o poder político era uma elite de comerciantes marítimos. Tal talassocracia viria à tona, novamente, em Atenas. Voltaremos ao assunto. Por hora, basta saber que o Mar Egeu e era muito bem conhecido, bem como os litorais que o cercava.

O contato entre minoicos e micenos promoveu um intercâmbio cultural entre eles também. Com o tempo Micenas acabou dominando Creta. Essa dominação culminou no que historiadores chamam de civilização creto-micênica. Daí um processo de expansão marítima atingindo todo o mar Egeu, rumo à Ásia Menor, foi engendrado e executado.
É importante observarmos que essa civilização creto-micênica possui os fundamentos, a origem da cultura grega. Desenvolveram, pois, a mitologia e a língua grega já estabelecidas essencialmente. Falaremos, doravante, sobre a mentalidade mítica dos gregos, mentalidade essa que precede a filosofia natural dos primeiro pensadores 'oficiais' (dissertamos sobre isso aqui).

Ainda no século XV a. C. alguns outros povos indo-europeus vêm à península balcânica para residir. O professor Rodolfo destaca os Dórios, que era um povo militarmente muito organizado e viviam de conquistas sobre outros povos.
Os povos creto-micênicos fogem dos Dórios por cerca de 200 anos (!) indo para o norte, afastando-se do litoral, para regiões montanhosas. Essa fuga é conhecida como a 1ª diáspora*4 grega (Chalita nos informa sobre os Dórios apenas no século XIII a. C., mas, como Neves nos informa sobre os 200 anos de ‘perseguição’, acreditamos que aquele refere-se apenas aos finalmente da conquista Doriana). Essa diáspora marca a transição do período pré-homérico para o período homérico (‘homérico’ vem de Homero - ao que parece, viveu no século IX ou VIII a. C. - que narrou o surgimento da civilização grega de forma épica e mitológica na Odisseia e na Ilíada que versam sobre guerra de Tróia e afins)*5.
Não se sabe exatamente como o povo creto-micênico foi extinto. Alguns culpam os dórios. Outros dizem que foram os conflitos internos, inclusive na guerra de Tróia. O fato é que foram desaparecendo.

Com a diáspora os creto-micênicos formam os genos, ou comunidades gentílicas, no interior da península balcânica. Havia ali, como já observado alhures, comunidades familiares com a posse coletiva das terras. Mas o crescimento demográfico, a partir do século X a.C. até o século VIII a.C., faz com que a terra fique escassa e surja uma luta pela sua posse, e todo o processo, que culmina na propriedade privada, escravidão, e sociedade censitária, se desenvolve. Esse período de regresso cultural e empobrecimento da Hélada (nome que davam à Grécia Antiga, segundo Chalita, p. 11) é chamado de ‘Idade Média da Grécia’ ou ‘Era Negra’ (CHALITA, p. 14)
As terras, possuídas, eram herdadas pelos eupátridas, herdeiros naturais. Os sem terras trabalhavam no comércio, ou no artesanato, ou vendem sua mão de obra. Os eupátridas eram a elite social, os proprietários. Fora estes, a desigualdade social era cada vez mais crescente nessas comunidades e conflitos internos e insatisfação começava a dominar o cenário.
Às comunidades desenvolvidas que se formaram podemos chamar de Demos. As Demos resolvem apoiar a colonização grega, a expansão. Eis a 2ª Diáspora Grega. Os povos gregos dispersam-se ou ao longo do Mar Mediterrâneo ou ao longo do Mar Egeu, formando colônias gregas com autonomia política, embora com relações econômicas e culturais com a península balcânica. A falta de terras e a possibilidade de reestabelecer o comércio internacional e marítimo motivaram a expansão a seguir cada vez mais firme e em dois séculos já havia se espalhado para o sul da França, Espanha, Sicília e sul da Itália, bem como norte da África e costa do mar Negro. Todas essas colônias juntas à península balcânica formaram a Magna Grécia.




Tal empreitada ajudou a diminuir os conflitos nas Demos e a produzir os intercâmbios culturais que favoreceram o surgimento da filosofia [conforme nota 1 e como será visto posteriormente]. Um dos benefícios, aliás, foi aprender com os orientais a escrita, viabilizando a grafia das lendas e histórias que vinham sendo transmitidas oralmente. Aqui Homero aparece.

As Demos, pois, se organizam de forma alternativa nas chamadas Polis, uma nova estrutura. As Polis tinham autonomia política, econômica e militar. Afinal, formaram-se em isolamento geográfico por conta do relevo montanhoso que as separam, ou, como expõe Chalita: “a organização social e política da Grécia, que está bastante relacionada aos limites geográficos de seu território, os quais, se não permitiram a formação de um grande império, propiciaram o surgimento de pequenos Estados independentes – as cidades-Estados (póleis, plural de pólis)” (p.11). Entretanto essas cidades têm suas origens no mesmo povo: os creto-micênicos e, portanto, tinham a mesma língua e a mesma religião (mitologia). Assim, apesar da autonomia e das características particulares que desenvolveram, desenvolveram-se sob um mesmo pano de fundo cultural, ou, nas palavras de Chalita: “falavam a mesma língua, tinham a mesma escrita e a mesma religião, cultuavam os mesmos deuses, reuniam-se nas mesmas festas e jogos esportivos” (p.11). Chalita acrescenta que as relações com os orientais trouxeram, além da habilidade gráfica, as ideias políticas de cidadania que tanto influenciam as Polis gregas (p.16).
A partir do século VIII a.C. temos o surgimento do período Arcaico e o desenvolvimento de duas grandes Polis, Atenas e Esparta. Logo viriam as outras. Mas é nas colônias, na Magna Grécia, que a filosofia vai surgir...
“Nesse cenário de intenso dinamismo e de transmissão de ideias é que se originariam, numa colônia fundada na Ásia Menor, as primeiras concepções de uma nova visão do mundo das coisas, levadas a termo por um grupo de homens que passaram a usar a razão para conhecer e questionar: os pensadores de Mileto, na Jõnia” (CHALITA, p. 16-17).


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*¹ Catherine Osborne alavanca tal discussão: "A filosofia caiu do céu? Ou uma atividade mais antiga abriu-lhe o caminho? Trata-se de um fenômeno exclusivamente grego, ou ela foi adaptada de descobertas que os gregos teriam furtivamente retirado de culturas que lhe eram estranhas? Eis algumas questões que podem dar lugar a diversas controvérsias relativas a eventuais desvios culturais. Admitindo que os gregos tenham realizado algo de extraordinário, de que se trata exatamente?" (PRADEAU, p.14). A mesma autora acredita que os gregos, ao navegarem e dispersarem-se, entrando em contato com outras culturas, passaram a questionar a integridade de suas crenças e costumes e, daí, teria surgido a filosofia (PRADEAU, p.14-15).
Para Will Durant, em sua História da Filosofia (homônimo do livro de François Pradeau), tal contato com outras crenças tende a gerar o ceticismo (e talvez ‘ceticismo’ seja a condição inicial da filosofia, segundo Durant, quiçá Sócrates, o que discutiremos noutra oportunidade). O momento histórico a que ele se refere é outro, e o abordaremos doravante, mas é interessante observar, aqui, suas impressões: "Atenas se tornava um movimentado mercado e porto, o local de encontro de muitas raças de homens e de diversos cultos e costumes, cujo contato e cuja rivalidade geraram comparações, análise e reflexão. Tradições e dogmas se atritam [...]; onde existem mil crenças, tendemos a nos tornar céticos em relação a todas elas" (DURANT, p.26).
Já Chalita tem impressões semelhantes às de Osborne. Falando sobre “as circunstâncias que contribuiu para a que a civilização grega alcançasse um nível que a distinguisse de outras culturas e para o amadurecimento intelectual que a conduziu à condição de berço da filosofia ocidental” (p.10), nota que “a configuração geográfica do território grego, com um relevo peculiar – o continente montanhoso, ao norte, com maciços de grande altitude, a península, ao sul, com um litoral recortado por golfos e baías e a parte insular, composta pelas várias ilhas do mar Egeu – ao mesmo tempo que representou um obstáculo à circulação, proporcionou a expansão em direção ao exterior, favorecendo o comércio marítimo e o intercâmbio cultural e econômico com outros povos” (p. 10-11, itálico nosso).
Em suma, como Chalita observa de maneira concisa, há um consenso entre os disputadores da questão da gênesis e proeminência helênica quanto à filosofia, que diz respeito ao reconhecimento ao “mérito do desenvolvimento e aprimoramento da sabedoria” (p.10). Osborne, após observar que os gregos podem ter se beneficiado da escrita, até da matemática e astronomia de outros povos – para algumas informações sobre a matemática e astronomia de outros povos confira o capítulo 1, ‘Da Bíblia até Newton: uma visão humanística da Mecânica’, de Roberto Ponczek (p.25-135) do livro ‘Origens e Evolução das Ideias da Física’, que traz lá seus problemas, mas é instrutivo –, é mais competente para abordar o assunto, e levanta um argumento interessante em prol dos gregos: “Podemos supor que assim tenha sido [que os gregos tenham usado elementos de outras culturas]. Mas mesmo que essa hipótese esteja correta, os dados tomados de empréstimo seriam somente o material de partida do filósofo. Tal hipótese não estabelece, contudo, que outras culturas antigas tenham se consagrado à filosofia antes de transmiti-la aos gregos. Mas se essas culturas dispunham das matemáticas, de arquivos astronômicos, da escrita e da experiência de um certo relativismo cultural, por que elas não propuseram as questões que caracterizam os inícios da filosofia? Porque elas não procuram o porquê? O nascimento da filosofia parece exigir outras explicações” (p. 15). Basicamente outros povos tinham a matéria prima, na melhor das hipóteses, mas não desenvolveram a filosofia propriamente dita.
Chalita ainda chega a falar que o mérito dos gregos foi conseguir desenvolver uma filosofia ateológica (ou seja, desassociada de qualquer conceito religioso), o que contestaremos, ou pelo menos abordaremos com mais calma num artigo posterior.
*² Confira suas vídeo-aulas em: https://www.youtube.com/channel/UC-1nFDK2XLiRhWnBatlgNFw
*³ Percebemos que não há um consenso sobre datas e nomes, o que não será tão relevante para nós nesse tipo de estudo. Temos que começar com alguma perspectiva, e resolvemos reproduzir uma síntese entre Gabriel Chalita, professor Rodolfo e a do History Channel no documentário 'Construindo um Império: Grécia' que pode ser acessado em https://www.youtube.com/watch?v=nwD2F7v67PI.
*4 O professor Rodolfo Neves resolve acentuar o termo diáspora, distinguindo-o de ‘êxodo’. No êxodo todo um povo sai de um lugar para outro, como foi o caso dos Hebreus fugindo do Egito. Já na diáspora, o grupo que sai de um ponto vai, fragmentado, para vários pontos, ou seja, se dispersa e espalha-se. Foi isto, e não aquilo, que os gregos fizeram. Eles saem da civilização creto-micênica e dispersam-se para o interior da Grécia.
*5 George Zarkadakis, no documentário do History Channel supra-referido, observa que a Ilíada de Homero era como se fosse a Bíblia para os gregos contendo uma história moral e dizendo como se deve viver. Descrevia deuses, religião e também as pessoas. Descrevia, também, situações. Dava ideais a serem seguidos. O documentário ainda observa que, embora as histórias possam ser míticas, as conquistas dos ancestrais as quais elas referiam-se eram bem reais. No mesmo documentário Peter Weller, que atua como narrador, diz que os gregos tinham Homero como um historiador real, e o que ele narra como fato.
Chalita nos informa sobre controvérsias cercando Homero e os dois épicos que lhe são atribuídos: “Tanto a questão da autoria como a figura de Homero têm sido tema de controvérsias entre estudiosos e pesquisadores. Alguns contestam a origem de Homero, outros negam até mesmo sua existência; outros, ainda, duvidam que as duas obras tenham saído exclusivamente de suas mãos. Apesar da polêmica, e até que se prove o contrário, atribui-se a Homero, um poeta cego, nascido na Jônia, a autoria dos épicos” (p.15).
O personagem principal, Werther, de J. W. Goethe em seu 'Os sofrimentos do Jovem Werther' devota-se frequentemente a ler Homero e Mortimer J. Adler, no 'Como Ler Livros', é só elogios quando se refere a este antigo autor. Todos esses fatores nos fazem ansiar muito para ler esses títulos.

REFERÊNCIAS

ADLER, Mortimer J; VAN DOREN, Charles. Como Ler Livros. Tradução de Edward Horst Wolff e Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2010, 432p.
CHALITA, Gabriel. Vivendo  Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.
DURANT, Will. A História da Filosofia. Tradução de Luiz Carlos do Nascimento Silva. Rio de Janeiro/São Paulo: Editora Record. 4ª ed., 2001, 406p.
GOETHE, J. W. Os Sofrimentos do Jovem Werther. Tradução de Leonardo César Lack. São Paulo: Abril, 2010. 176p.
HISTORY CHANNEL. Construindo um Império: Grécia. Acessado em 05/04/2014 em:
NEVES, Rodolfo. Antiguidade Clássica: Introdução. Acessado em 05/04/2014 em: https://www.youtube.com/watch?v=IZw_Sj7Kw8A
NEVES, Rodolfo. Antiguidade Clássica: Introdução à Civilização Grega. Acessado em 05/04/2014 em: https://www.youtube.com/watch?v=91g7p6VvuPE
NEVES, Rodolfo. Antiguidade Clássica: Esparta. Acessado em 05/04/2014 em: https://www.youtube.com/watch?v=AdkgZdz-TJQ
NEVES, Rodolfo. Atenas Clássica. Acessado em 05/04/2014 em: https://www.youtube.com/watch?v=b83vPhrIBkI
OSBORNE, Catherine. O nascimento da filosofia _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.
ROCHA, José Fernando (org.). Origens e Evolução das Ideias da Física. Salvador: EDUFBA, 2002, 372p.


sábado, 5 de abril de 2014

Parmênides e a encrenca de Sproul


R. C. Sproul, famoso filósofo e teólogo cristão [e, diga-se de passagem, o pai filosófico do presente autor (embora tenhamos, hoje, algumas divergências para com o velhinho)], conta-nos que quando estava graduando-se em filosofia ouviu seu professor mencionar a mais famosa declaração de Parmênides: 'Tudo o que é, é". Aquilo soou, como acontece com todos os incultos, risório, um vexame. Em suas palavras "Eu ri e exclamei: 'E ele é famoso?' Com essa manifestação verbal eu me traí como um calouro de primeira. Imaginei que tuodo o que Parmênides fez foi gaguejar" (SPROUL, p. 22). Mas o tempo passou, Sproul amadureceu e nos deu a lição de que não se deve subestimar os clássicos, como Mortimer J. Adler tanto insiste, afinal, mentes brilhantes no decorrer das décadas, séculos, os reconheceram como geniais e se não o fazemos, certamente é porque somos burros demais (ADLER, 2010). Olavo de Carvalho, aliás, (substituindo o velho moto dirigido a Freud), explica: "Quanto menos você percebe, menos percebe que não percebe. Quase que invariavelmente, a perda vem por isso acompanhada de um sentimento de plenitude, de segurança, quase infalibilidade" (CARVALHO, p.431).
Sproul, claro, foi experto o suficiente para se retratar: "Agora que atingi o crepúsculo de minha vida, estando talvez na segunda metade do segundo tempo do jogo, perdi a onisciência que eu tinha no pouco tempo em que fui calouro. Depois desses anos todos, não consigo me lembrar de nenhum conceito que aprendi na filosofia que provocasse mais reflexão do que essa frase de Parmênides" (SPROUL, p.23).
Convidamos-lo pois, leitor, a buscar compreender um pouco da filosofia de Parmênides. Nesse primeiro artigo (talvez tenhamos que escrever mais que dois só para abordar com responsabilidade esse italiano), iremos trabalhar com as reflexões epistemológicas, linguísticas e lógicas do eleata para noutra(s?) oportunidade(s?) trabalhar com sua metafísica, que junto à de Heráclito, fundam a grande problemática que moveu a filosofia ocidental. 

"Quase tudo o que sabemos sobre o pensamento de Parmênides provém do poema de sua autoria denominado Sobre a Natureza", notifica-nos Chalita (p. 39).  Essa obra é composta de três partes*¹, mas as duas primeiras é que foram melhor preservadas, conta-nos Osborne (PRADEAU, p.23). A mesma autora nos conta que "A introdução descreve um jovem levado pelo encontro de uma deusa para além das portas da noite e do dia. No resto do pema, o jovem relata as palavras da deusa" (PRADEAU, p.24).
A segunda parte do poema é a mais célebre: O Caminho da Verdade. 'Verdade', aqui, corresponde à palavra grega 'aletheia', e quer dizer "desvelamento, descoberta, o movimento pelo qual algo se mostra ao nosso conhecimento plenamente" (CHALITA, p. 39), ou seja, o ato de tornar-se patente ao nosso intelecto.
O caminho da verdade é o caminho que diz que o que é, é (a famosa 'encrenca de Sproul'). A frase também diz que o que é não pode deixar de ser, mas deixaremos essa discussão para outro artigo.
Aqui é preciso muita atenção para perceber o que está sendo dito. As palavras são selecionadas a dedo para conceber a ideia.
Em suma, o ser é, e o não-ser não é. E o que não é nem mesmo pode ser concebido. Simples, não é? Não mesmo! Não se desespere (como fizemos) ao não compreender imediatamente essas complicadas proposições. Vamos tentar elucidá-las, se não for muita pretensão de nossa parte.

O 'ser' é aquilo que existe. Portanto ele 'é', e 'é' deriva-se do verbo 'ser'. Já o não-ser não possui existência. Se ele não possui existência, ele é nada. Perceba, ele É nada, e não 'ele NÃO É nada'. Permitam-nos.
Você tem uma última bala. Está você e seu amigo. Você, justo (ou, talvez, bondoso e misericordioso, visto que poderia ser justo você usufruir da bala... ok, sem conjecturar demais!), não quer comê-la e deixá-lo na vontade. Então resolve propor uma brincadeira clássica, porém muito simples. Você coloca suas mãos para trás e numa delas coloca a bala. Na outra, não. Você coloca as duas mãos pra frente, fechadas, e pede-o para escolher. A que ele escolher trará seu quinhão. Bom, independente de quem ganhe, na outra mão que não havia bala, o que podemos dizer que havia?
Se dissermos, como de costume, que 'não havia nada', então havia algo, pra não falar que a frase é completamente sem sentido. 'Nada' não é algo para que haja. O ato de 'haver' é peculiar ao ser. Mas dizer que 'havia nada' também não resolve a questão. Percebe? O 'nada' nem mesmo é concebível! Não podemos pensar no nada pelo simples fato de que, se pensarmos e concebermos algo, será alguma coisa, e não nada.
Assim, podemos, até aqui, concordar com Parmênides que para dizermos a verdade temos que dizer o que é, e não o que não é.

E quanto às coisas que realmente não existem, o que temos a dizer? Por exemplo, Papai Noel, fada, Saci, Curupira, neo-ateu que consegue entender o significado de uma proposição complexa... etc. Bom, nesse caso essas coisas são concebíveis. Existem, ao menos, na mente. Podemos dizer que elas 'são realidades apenas mentais', abstrações, ou que 'são ilusórias' (percebam a flexão numérica do verbo ser em 'são', ou seja, o plural de 'é').
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*¹ Chalita não nos informa sobre a primeira parte e nem que a última parte não foi bem preservada: "Basicamente, essa obra trata, em duas partes, do caminho da verdade (da altétheia) e do caminho da opinião (da doxa)" (p. 39).

REFERÊNCIA
ADLER, Mortimer J; VAN DOREN, Charles. Como Ler Livros. Tradução de Edward Horst Wolff e Pedro Sette-Câmara. São Paulo: É Realizações, 2010, 432p.

CHALITA, Gabriel. Vivendo  Filosofia. São Paulo: Atual, 2002, p. 304.

OSBORNE, Catherine. O nascimento da filosofia _ PRADEAU, François. História da Filosofia. Tradução de James Bastos Arêas e Noéli Correia de Melo Sobrinho. Petrópolis: Vozes; Rio de Janeiro: PUC-Rio. 2ª ed., 2012, 624p.

SPROUL, R. C. Filosofia Para Iniciantes. Tradução de Hans Udo Fuchs. São Paulo: Vida Nova. 2002, 208p.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Sobre a 'campanha contra o estupro'...

A PROBLEMÁTICA
A jornalista Nana Queiroz, de 28 anos, engendrou uma campanha, recentemente, em protesto contra os resultados da pesquisa do Ipea (se é que procedem*¹) que "apontou que 65% dos entrevistados consideravam que mulheres de roupa curta mereciam ser estupradas"
O que devemos pensar sobre isso? Uma campanha justa? Devemos dar a ela seu apoio? Acho que não. Não pare de ler aqui. Vá até o fim, se há, no mínimo, dignidade em vossa pessoa. Se não quiser ler até o fim, saiba que você não passa de um covarde amontoador e baderneiro. Um atraso para a humanidade.
Dadas às calorosas recepções (ironia, para os desavisados), vamos ao que interessa!

RESSALVAS
É evidente que não estamos do lado dos que dizem ser as mulheres merecedoras de tal mazela, terrível, talvez a pior que exista, rivalizando-se, quem sabe, à pedofilia, infanticídio, ou a genocídios. Portanto, ao nos posicionarmos contra essa campanha, de maneira alguma estamos querendo assumir o outro lado. Não existem só esses partidos.
Acreditamos, antes, que haja uma confusão imensa aqui e desejamos desnudá-la para que o leitor, seja lá quem esse blog alcançar, não venha a entrar em mais uma campanha contra o bem-estar social e mesmo contra as virtudes solapadas pela campanha.

Outra ressalva necessária, genericamente apontada alhures, é que, com isso, não queremos escusar os estupradores. Como dissemos, é um crime hediondo, e ainda que uma mulher estivesse em pleno atentado ao pudor, e, para piorar, fosse muito, digamos, 'formosa', ele não está justificado na prática de seu ato, e nem as condições favoráveis para sua execução lhe servem de atenuantes (a não ser, quem sabe, em casos em que haja comprovada intenção de sedução da parte da vítima).


ESCLARECENDO A NOSSA POSIÇÃO

Os termos usados na discussão estão mal colocados, são inapropriados. A questão não é merecer isso ou aquilo. Evidente que, dada a definição da palavra como retribuição por conta de uma ação, ninguém faz por merecer ser estuprado (nem mesmo um estuprador que, certamente merece pena de morte, mas estuprá-lo é praticar um ato imoral para buscar retificar outro, culminando em nonsense patente). A questão é se o trajar das mulheres podem influenciar, estimular os estupradores. É evidente que o fazem. Uma ilustração vista nas redes sociais parece-nos lidar com a questão: "Porém, existem [sic.] perfil de vítima,[.] Se alguém tem R$10.000,00, o dinheiro é dele e ele faz o que quiser com isso, Agora se ele sai com esse dinheiro na rua, à pé, com as notas à mostra, ele se encaixa num perfil de vítima de assalto. Isso não quer dizer que ele (quando digo ele, quero dizer cidadão, não homem ou mulher) mereça ser assaltado, mas é óbvio que um ladrão vai preferir assaltá-lo do que um cidadão comum. O mesmo ocorre quando um policial, familiar, amigos, ou qualquer pessoa que te conhecer, dizer [sic.] que andar com roupa x de noite sozinho é perigoso, ele não está sendo machista ou culpando a vítima, ele está alertando sobre esse perfil. Parafraseando, você tem sua casa, você tem o direito de deixá-la com as portas todas abertas, mas se um ladrão te roubar, você não é um coitado oprimido por um sistema fictício que só existe na sua mente de chorão, você é uma vítima assim como qualquer outra vítima."(o texto é oriundo da página 'bananal', indicada por um amigo - fizemos algumas correções ortográficas mínimas).

Colocando, pois, os pingos nos 'is', asseveramos duas proposições: o traje imprudente, sem pudor, provocante, das mulheres, de fato influenciam, despertam o desejo dos estupradores; isso não isenta-os de culpa.

UMA REFLEXÃO ÉTICO-ESTÉTICA NECESSÁRIA

Não queremos ser hipócritas, na onda da 'praga do PC', nome que Pondé dá aos 'Politicamente Corretos' (p. 18). Não queremos 'esconder a beleza', pois, como aponta o filósofo supra referido, tal atitude é justamente o que faz as proponentes feministas, acometidas de inveja. No fundo, muitos censuram a beleza por motivações nem tão nobres assim: "A condenação do uso da beleza feminina por parte das mulheres é um ferramenta das que não têm, por azar (a beleza ainda é um recurso contingente), acesso à beleza, seja porque são feias, seja porque (no caso dos homens), em sendo feio (ou fraco), ele não pode 'pegar' a beleza da mulher nas mãos, beijá-la ou penetrá-la" (p.92).
Portanto, não, não estamos a sugerir a proibição da beleza. Estamos apenas reivindicando o pudor. A ética do 'tudo que é bonito é para se mostrar' é muito perigosa, pois implica num dever, na obrigação da exposição da beleza a quem quer que seja. É evidente que Deus não tenha criado as coisas belas para que fiquem encobertas, mas isso não quer dizer que não haja os alvos corretos da exposição. Até mesmo o sumo bem e a suma beleza só serão vistos, na visão beatífica, por um grupo seleto da humanidade, quando puderem vê-lo 'face a face' (Apocalipses 22:4)*. A beleza da mulher não precisa ser escondida. Ela tem o dever de mostrá-la a seu marido.
Ah, claro, também não defendemos uma perspectiva 'assembleina de ser' para com o trajar das mulheres. A questão principal aqui é o pudor. Sem rodeios, os seios, as nádegas e as genitálias não são para se mostrar em público (nem para quase se mostrar). Lado outro, as mulheres podem, e arriscamo-nos dizer que 'devem', produzir-se ao máximo para ficarem bonitas, afinal, como observa Pondé, "o mundo respira melhor quando tem mulher bonita por perto" (p.91)

MAS QUAL O PROBLEMA EM PARTICIPAR DA CAMPANHA?

A campanha é facilmente vinculada aos movimentos feministas (talvez a autora não o tenha feito propositalmente, ou nem perceba as ligações, embora provavelmente seja vítima do zeitgeist tupiniquim hodierno). 
Olavo de Carvalho nos faz entender um problema por detrás das campanhas gayzistas, feministas e comunistas em geral: a subversão das instituições tradicionais da sociedade. Eles começam alavancando um lugar comum entre todo cidadão de bem, e sorrateiramente agregam outros elementos da agenda ideológica até que a família, a igreja, o capitalismo e os valores tradicionais sejam, enfim, execrados. O exemplo dado pelo filósofo é o de que, nos Estados Unidos, um homem pode ter sua vida arruinada pela simples acusação, sem prova alguma, por parte de sua esposa, de que ele tenha agredido. A consequência é que cinquenta por cento das crianças americanas vivem sem um dos pais, e geralmente é o pai que está ausente, e, uma das consequências é o aumento dos casos de pedofilia, principalmente oriundos do novo namorada da mamãe. Olavo observa que "tudo isso começou com os ares mais inofensivos que se pode imaginar como campanha de proteção à mulher contra a 'opressão machista'" (p.501). Nada mais pertinente, não é mesmo?
O que tememos com a campanha da sra. Nana Queiroz? Sem dúvida alguma, o que vem na bagagem do itinerário feminista.
Particularmente, ainda que o leitor discorde de nossa associação da campanha com os valores feministas, é inegável a questão do pudor. O trajar inadequado das moças, quiçá algo bem próximo do atentado ao pudor, é o que vemos nas ruas e na televisão. Cremos, sem exagero, que tal campanha, como observou um (outro) amigo nas redes sociais, assume nosso lugar comum contra o estupro para 'enfiar-nos goela abaixo' o direito à falta de pudor. Isso o cidadão de bem não quer, mas mal sabe que contribui para tal fim quando participa de campanhas como essa.

Alister McGrath pontua bem qual é a filosofia feminista: "Em seu cerne, o feminismo é um movimento global que trabalha na direção da emancipação das mulheres. [...] é, lá no fundo, um movimento de libertação que direciona seus esforços para alcançar a igualdade para as mulheres na sociedade moderna, especialmente por meio da remoção de obstáculos, quer crenças, quer valores, quer atitudes, que impeçam esse processo" (p. 289).
Ao que parece, tais campanhas propõe-se a inibir até mesmo os instintos básicos do macho adulto heterossexual, ou, pegando a definição do McGrath, promovem os direitos femininos às custas dos 'direito' do homem de ser atraído pelo sexo oposto em plena exposição. A agenda feminina, no afã de adquirir a 'igualdade entre os sexos', acaba por produzir uma ditadura das mulheres, e uma imposição de seus desejos controversos. "Daqui a alguns séculos vão ver nossa época como a época da histeria feminina à solta" (p.113).

A TACANHA COMPETÊNCIA INTELECTUAL E MORAL DE NANA QUEIROZ E MAIS UM ARGUMENTO USADO PELOS DEFENSORES DE CAMPANHAS AFINS

A moça que criou a campanha cometeu alguns erros crassos, e, para nossa felicidade, serviram de insights para apontarem outro erro comum que surge diante do debate em torno desse assunto. Observemos algumas de suas brilhantes palavras:
"Estavam dizendo que mulheres com decote merecem ser estupradas. Eu queria mostrar que eu podia fazer topless e, ainda assim, não merecer ser estuprada" (O Globo).
Pois bem, se alguém quer provar que não merece algo, um método interessante (talvez o único viável e necessariamente correspondente) seria provar que merece o contrário: respeito, e ser deixada em paz, em plena integridade física. Certo, mas como é que a sra. Queiroz pretende provar isso? Fazendo um topless! Nada mais estúpido! Como é que isso prova que ela não merece ser estuprada?! A bem da verdade, não acredito estar sendo presunçoso ao dizer que a atitude foi uma busca de promover a campanha, dando mais notoriedade, apesar de dizer que "não se sente confortável com a nudez erótica" e que, por isso, não pousaria para uma revista masculina.

(Vimos a imagem compartilhada por um amigo no facebook, oriunda de uma página chamada bobagento, a qual não conhecemos o conteúdo).

E os erros não param por aí. Temos a clássica reivindicação moderna de que nosso corpo nos pertence. Ao ser questionada sobre possível ciúmes do marido, ela relatou que esse respondeu: "Ele disse: 'eu não tenho o direito de ficar desconfortável, o corpo é seu'." (O GLOBO). Poderíamos fechar a questão observando que tal asserção é nitidamente anti-bíblica (1 Coríntios 7:4= "A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim o marido; e também, semelhantemente, o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim a mulher"). Mas para os estúpidos não satisfeitos com o texto bíblico, temos uma enxurrada de razões para contestar tal reivindicação.

Guilherme de Carvalho é, aqui, por nós, convidado a prestar esclarecimentos e elucidar, de forma brilhante, a questão. Carvalho associa a reivindicação 'o corpo é meu e faço dele o que quiser' ao liberalismo moral, definido como a filosofia de que podemos fazer o que bem entender desde que não violemos a liberdade ou a propriedade alheia.

A primeira observação de Carvalho é que, para o ser humano ser completamente livre ele não pode ser controlado por compulsões, ou suas ações não podem ser causadas por forças sociais ou psicológicas que vão além de sua vontade. Pois bem, para que tenhamos um indivíduo com as capacidades de controlar seus instintos e volições de forma racional, temos de ter alguém com uma educação que lhe permita atingir tal habilidade. Essa educação não é uma educação liberal, que o deixa seguir os desejos que têm os homens, naturalmente. Assim, há uma contradição na proposta liberal moral, pois para a formação de um indivíduo competentemente liberal seria necessário que lhe fossem retiradas as liberdades até que fosse educado o suficiente para exercê-la.
Como se não bastasse esse problema, Carvalho aponta que anomalias morais são possíveis com esta filosofia visto que o corpo não é mais considerado como parte constituinte do próprio ser, mas um objeto que lhe pertence, uma propriedade do indivíduo. O pensador ilustra a questão com um caso na Alemanha em que um indivíduo cede, voluntariamente, seu corpo para ser comido por outro homem. Evidentemente o Estado alemão caiu em cima e condenou o antropófago. Mas ele, segundo os pressupostos de que 'o corpo pertence ao indivíduo e ele tem o direito de fazer dele o que quiser', estava plenamente justificado. A conclusão é que a sociedade liberal aliena o homem de si mesmo (para usar uma expressão de Marx e angariar, quem sabe, a despeito das citações de Pondé, Olavo e MgGrath, apreciação positiva de um esporádico leitor de 'esquerdinha') "pois ele tem que tratar uma parte dele como se fosse uma coisa dele, e não ele", aponta Carvalho.
Por fim, o tão óbvio e, mesmo assim, tão negligenciado pela mentalidade liberal, é que não existe tal indivíduo autônomo. O que somos está estritamente ligado ao nosso contexto, e acrescento que o que somos e fazemos, invariavelmente influencia o contexto, ainda que apenas um ou dois indivíduos.
Eis, pois, em três pontos, a irracionalidade do 'o corpo é meu e faço dele o que bem entender', que, aliás, não raro, vem à tona nos debates em torno da questão em voga como justificativa para a mulher andar como bem entender em lugares públicos.

CONCLUSÃO

Portanto, amigos e amantes do bem, a não ser que queiram aumentar a promiscuidade na sociedade, não adiram à essa campanha. Evadir-se de participar dela não implica em ser a favor do estupro. Podemos criar campanhas melhores, talvez com mais rigor para os estupradores, ou políticas de segurança pública mais inteligentes, ou mesmo com mais investimentos. Tudo o que não precisamos, no entanto, é apoiar a campanha da Nana Queiroz.

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*¹ Posteriormente à escrita do artigo, descobrimos que não procedia. A própria IPEA se retratou.
*² Para quem quiser compreender melhor essa questão, sugerimos o capítulo 23, páginas 1083-1085,  da Teologia Sistemática de Franklin Ferreira e Alan Myatt.

FONTES
BANANAL https://www.facebook.com/blogbananal

CARVALHO, Guilherme de. Liberalismo Moral - o corpo é meu e faço dele o que quero. Acessado em 03/04/2014: https://www.youtube.com/watch?v=TWgRwjxLyMY

CARVALHO, Olavo de; BRASIL, Felipe Moura (org.). O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de Janeiro: Record, 2013, 616p.

MCGRATH, Alister. Apologética Cristã no século XXI: ciência e arte com inteligência. Tradução de Antivan Guimarães; Emirson Justino. São Paulo: Editora Vida, 2008, 368 p.

BRÍGIDO, Carolina. O Globo - Jornalista que lançou campanha contra estupro conta que não esperava repercussão. Acessado em 03/04/2014: http://oglobo.globo.com/pais/jornalista-que-lancou-campanha-contra-estupro-conta-que-nao-esperava-repercussao-12045632


PONDÉ, Luiz Felipe. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia: ensaio de ironia. São Paulo: Leya, 2012, 232 p.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Um debate com Julio Severo e cia. sobre cessacionismo (Parte 3)

ANÔNIMO 3 (?)
Eu não disse que o que colei apenas rebateria o argumento que foi a Igreja Católica que deu a Bíblia ao mundo! Por algum efeito (que não sei denominar, talvez o de tabela)também rebateu os seus argumentos que o Perfeito é a compilaçao do Canon! Também não sei o nome o argumento que estás a utilizar (talvez voce mesmo saiba) quando agora foca em dizer que nem "todas as igrejas" (já admite que muitas tinham) tinham livros canonicos, para justificar a extinção dos dons! até agora não consegui ligar os pontos!
E só para lembrar os pentecostais! Não precisamos de muitos malabarismos, pra saber que o perfeito que corintios cita é Jesus na sua volta! Aí sim cessará os dons! pq a igreja ja estará com o noivo!

Não esse argumento cessacionista que a cada concilio o que é perfeito muda!

Enfim, em ironia você tbm é muito bom! E a carapuça do que constatei nas suas argumentações serviu todinha!

PENTECOSTAL
Julio, você mexeu no ninho dos calvinistas.
Essa gente constrói seus fundamentos teológicos sobre princípios antibíblicos, e com blasfêmia camufalada ao Espírito Santo ainda tem a audácia de dizer que priorizam o Evangelho da Reforma.
Quem blasfema contra o Espírito Santo tem perdão?
Aquele que atribui a obra do Espírito Santo a demônios tem perdão?
Enganadores que se escondem atrás dos princípios difundidos por João Calvino.
É por esta razão que suas congregações estão à míngua, não avançando, mas pelo contrário, contraindo-se.

LUCIO
Antes de argumentar, alguns desarmes (para variar):
“Enfim, em ironia você tbm é muito bom! E a carapuça do que constatei nas suas argumentações serviu todinha!”
Bom, parece que concordamos que ironia não é algo bom a ser feito, pois incita a raiva, a ira pecaminosa. Agora, se eu faço, isso legitima a sua?
Ademais, onde foi que fui irônico? Poderia apontar? Li meu texto e, talvez, nesta parte: ‘ou não lestes com a melhor das atenções ou habilidades’ é que tenha se ofendido. Desculpe-me. Agora, como é que eu poderia dizer que você não compreendeu o que escrevi? Seja como for, se há vida espiritual e você, pondere como me responde e dose tudo com amor, que buscarei fazer o mesmo (inclusive, como já ensinava John Newton, já orei para você e os demais que comigo contendem).
Vamos aos argumentos.
‘Anônimo’ disse: “Por algum efeito (que não sei denominar, talvez o de tabela)também rebateu os seus argumentos que o Perfeito é a compilação do Canon!”
Meus argumentos? Mas, onde foi que eu advoguei este texto para afirmar minha posição cessacionista? Bater em um argumento que nem elenquei é, novamente, atacar um espantalho.
E, diga-se de passagem, não vi nem como seus argumentos lidaram definitivamente com este texto. Aliás, até entendo que este não me parece um texto muito bom para lidar com o assunto. O fato é que não o usei, e meus argumentos, junto a meu cessacionismo, permanece intacto se eu admitir que o texto se refere à parousia e o reino de glória.
“Também não sei o nome o argumento que estás a utilizar (talvez voce mesmo saiba) quando agora foca em dizer que nem "todas as igrejas" (já admite que muitas tinham) tinham livros canonicos, para justificar a extinção dos dons!”
Bom, vejamos o que eu disse. Possivelmente você se refere a um destes dois trechos:
‘no primeiro século, onde o 'dom profético' foi exercido, várias Igrejas não tinham, ainda, várias porções das Escrituras Neo-Testamentárias’
ou
‘...dizer que todas as igrejas tinham cópias particulares de cada texto neo-testamentário, é extrapolar as evidências’.
Bom, primeiramente, não me pegastes a cometer falácia alguma (não que eu tenha percebido). Para garantir, vou desdobrar o argumento e buscar elucida-lo.
Meu argumento fundamenta-se no fato de que as profecias eram substitutos provisórios para o cânon, que, primeiro, não estava completo até Apocalipse e, depois, mesmo após esse livro estar pronto, ainda não estava, bem como alguns outros, presentes em todas as igrejas.
Se não havia ciência do cânon completo em qualquer número de igrejas da igreja primitiva, meu argumento prevalece.
As evidências mais antigas que citastes não passam de uma lista incompleta do Novo Testamento e uma menção aos quatro Evangelhos. Certamente uma pesquisa mais profunda mostraria que os livros neo-testamentários em geral foram aceitos pelas igrejas, mas tudo leva a crer que, se havia alguma igreja como cânon completo no primeiro século, eram poucas. Tudo que preciso é entender que haviam igrejas que não tinham o cânon completo.
Usando os cânones da lógica, legados por Aristóteles no Órganon, temos as seguintes proposições:
‘Todas as igrejas tinham o cânon’ opõe-se a ‘Nenhuma das igrejas tinham o cânon’.
Os contraditórios, respectivamente:
‘Algumas igrejas não tinham o cânon’ e ‘Algumas igrejas tinham o cânon’.
É óbvio que os dois contraditórios dos opostos podem ser, respectivamente, verdadeiros. Portanto, não qualquer problema lógico em meu argumento.
“Não precisamos de muitos malabarismos, pra saber que o perfeito que corintios cita é Jesus na sua volta! Aí sim cessará os dons! pq a igreja ja estará com o noivo!”
Bom, embora a questão de 1 Coríntios 13 já tenha sido esclarecida alhures, preciso tecer alguns comentários breves (por conta do espaço) que esse seu texto me sugere.
Primeiro, o que acredito ter sido apenas um desvio comunicativo, quando dissestes: ‘não precisamos de muitos’, tende a sugerir que precisam somente de alguns. Claro, ‘malabarismos’ seria algo a se discutir. Pareceu-me que usou num tom pejorativo. O certo é que o único recurso usado para sua afirmação seria a analogia da fé, visto que a referência à parousia não é explícita. Ótimo.
Mas, não crer mais na realidade dos dons miraculoso (e é bom esclarecer que os cessacionistas acreditam na contemporaneidade dos dons não-miraculoso – cito Hoekema como exemplo) pode ser por mais motivos além da segunda e gloriosa vinda. Primeiro, não vejo, salvo um controvertido texto a Coríntio (quiçá Romanos) uma ordem para que tenhamos, como item imprescindível, os dons miraculosos para uma vida cristã saudável e legítima. Oração, leitura bíblica e prática do bem são essenciais para uma vida espiritual íntegra. A comunhão dos santos poderia ser acrescida. Mais que isso, parece-me obscuro.
Termino questionando-o: o que você já leu sobre cessacionismo, além deste texto do blog?

Pentecostal , está lendo o que eu escrevo?
Está animado a debater suas afirmações?
Intentou mencionar-me, ou foi só um texto de apoio ao Julio e a ele direcionado?
É porque acredito que suas afirmações estão equivocadas, e tenho argumentado em prol de minhas teses.
Dê uma lida, se ainda não deu.
Gostaria de libertá-lo dessa hostilidade sectarista aos cessacionistas.

JULIO
O que há para debater, senhor “teólogo” Lúcio? Você é rico em teses, porém pobre em verdadeiro conhecimento e experiência com Deus. O Apóstolo Paulo, que declarou que falava em línguas mais do que qualquer cristão de sua época, veria suas teses teológicas contrárias ao que Deus dá de dons sobrenaturais por meio do Espírito Santo como heresias. E pode ter certeza de que se ele estivesse vivo hoje, você receberia uma boa repreensão. No seu ministério terreno, Jesus frequentemente repreendia os fariseus, “doutores da lei”, que era os teólogos, cheios de teses, cheios de letra, cheios de diplomas, cheios de teologia, mas não conseguiam enxergar Deus na frente deles. Prova disso é que Jesus era Deus e estava na frente deles e eles nada viam e enxergavam. Nada mudou. Os homens cheios de teses e teologia continuam não enxergando nada de Deus mesmo quando Deus está na frente deles. Os “doutores da lei” continuam a mesma coisa ontem, hoje e, pelo visto, para sempre, para azar deles e dos que seguem as suas teses. Mas graças a Deus, para nossa bênção, o Jesus Cristo de Paulo e outros apóstolos é o mesmo ontem, hoje e para sempre.

LUCIO
Bom, Julio, acho que o debate contigo chegou ao fim. Acredito ter respondido a estas suas acusações alhures. Deixemos que os leitores decidam por si mesmos e oremos para que o Espírito guie todos os cristãos à verdade.
Estamos, ambos, comprometidos com nossas posições. Que o nosso compromisso com a verdade e com Deus e sua Palavra seja mais forte.

Deus o abençoe, meu irmão. :)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Um debate com Julio Severo e cia. sobre cessacionismo (Parte 2)

JULIO SEVERO
Lucio, quanta “lucidez” na teologia humana, falível e carnal e quanto falta de lucidez do alto. Driscoll não é um teólogo sistemático. Eu não sou tal teólogo. Jesus não era. Seus apóstolos não eram. Quem era? Os fariseus. E dizer que os apóstolos não tinham as Escrituras é um erro grosseiro. Como judeus, eles tinham o Antigo Testamento, que eram as Escrituras. Nunca deixaram de ser Escrituras. Não preciso ser teólogo para dar essas respostas básicas e, se a teologia fosse fundamental, os apóstolos teriam perdido a vez e Jesus teria escolhido apenas os fariseus para serem seus apóstolos. Os fariseus eram os grandes teólogos da época da Igreja Primitiva.

LUCIO
Julio Severo, meu irmão, sua resposta não foi satisfatória. Permita-me demonstrar o porquê.
Primeiro, a consequência de suas afirmações parecem-me levar à convicção de que os teólogos eram maus, e que a sistematização da teologia algo a ser evitado. É isso que concluis?

Depois, meu amigo, você compreendeu mal (ou me expressei mal) o que eu quis dizer. Não disse que os apóstolos não tinham as Escrituras, visto que, como observa Geisler e Nix no 'Introdução Bíblica', eram 'cânons vivos'. Eu disse que as Igrejas primevas não tinham o cânon, as Escrituras, ou melhor, não tinham a revelação final completa (cf. Judas 3).
Ademais, Jesus era sim um grande filósofo, um grande teólogo, bem como Paulo (pelo menos ele é preciso admitir o rigor teológico), Apolo, Nicodemus...etc.
Dizer que a teologia não é fundamental é dar um tiro no pé, pois, para tal, é preciso arquitetar um argumento teológico (sugiro o 'Crer é também pensar'). Para toda empreitada espiritual, mesmo para a oração, é preciso fazer teologia (se gosta do Cheung, leia o primeiro capítulo da Teologia Sistemática dele). Enfim, irmão, atacar meu argumento tentando inutilizar a teologia é algo insensato.
No mais, meu irmão, todo o resto do seu discuso pareceu-me um ad lapidem. Denegrir meu argumento como 'teologia humana, falível, isenta de lucidez e luz celeste' não passa de insultos a ele. :)

Não respondera a todos os pontos que levantei também, brother... :)

Aguardo respostas. :)

ANÔNIMO 3 (?)
Já que o Teólogo-Filósofo Lúcio gosta de falar tanto em silogismo e falácias - na minha pouca experiência no assunto, mas usando de observação percebo que todo o seu discurso é baseado na "pressuposição teológica" que a passagem bíblica: "mas quando vier o que é perfeito" 1 Co 13: 10)Representa o Canon pronto!

Aí fica a pergunta quando o Canon ficou pronto? Depois da Reforma?

Só a título de informação! e se servir de resposta ao Lúcio! Colo trechos do Site CACP (cessacionalista) quando rebate o argumento que foi a igreja católica que deu a bíblia ao mundo:

Abaixo nós catalogamos uma lista de livros que foram mencionados pelos escritores cristãos primitivos.

• 326. Atanásio, bispo de Alexandria, menciona todos os livros do Novo Testamento.

• 315-386. Cirilo, bispo de Jerusalém, dá uma lista de todos os livros do NT exceto Apocalipse.

• 270. Eusébio, bispo de Cesaréia, chamado de Pai da história eclesiástica, narra sobre a perseguição que o imperador Diocleciano lançou sobre a igreja cujo decreto requeria que todas as igrejas fossem destruídas e as Sagrada Escrituras queimadas. Ele lista todos os livros do Novo Testamento. Ele foi comissionado por Constantino para preparar cinqüenta cópias da Bíblia para uso das igrejas de Constantinopla.

• 185-254. Origenes, escritor de Alexandria, especifica todos os livros de ambos os Testamentos.

• 165-220. Clemente, de Alexandria, especifica todos os livros do Novo Testamento exceto Filemon, Tiago, 2 Pedro e 3 João. Mas Eusébio, que possuía os escritos de Clemente, disse que ele deu explicações e citações de todos os livros canônicos.

• 160-240. Tertuliano, contemporâneo de Orígenes e Clemente, menciona todos livros do NT exceto 2 Pedro, Tiago e 2 João.

• 135-200. Irineu, citou todos os livros do NT exceto o Filemon , Judas, Tiago e 3 João.

• 100-147. Justino, o Mártir, menciona os Evangelhos como sendo quatro em número e cita eles e algum das epístolas de Paulo e Apocalipse.

Assim, todos os livros do NT estiveram em circulação na era apostólica. Realmente, os apóstolos eles mesmos colocaram seus escritos em circulação no começo do cristianismo (Col. 4:16 – 1 Tess. 5:27). As Escrituras Sagradas foram escritas para todos (1 Cor. 1:2; Ef. 1:1) e toda vontade será julgada por eles no último dia (Rev. 20:12; João 12:48). Jesus disse que Sua Palavra permanecerá parA Igreja Católica não é a única a possuir a Bíblia nesses séculos de cristianismo
Portanto, Lúcio, você agora com a palavra: Fale sobre o que você acha o que é perfeição citada em Co 13 e diga se ainda continua com o mesmo pensamento que a igreja primitiva não tinha os livros do Novo Testamento?

LUCIO
Bom, desculpem-me a demora. Estive ocupado com questões particulares que não carecem de ser explicitadas aqui.
Bom, ao que parece, houve apenas uma objeção, feita anonimamente, contra meus argumentos.

Antes, permita-me tirar-lhe as pedras das mãos. Quando disse: "Já que o Teólogo-Filósofo Lúcio gosta de falar tanto em silogismo e falácias". Senti um tom de ironia nessas palavras. Uma provocação, em meio a um assunto delicado, não me parece surtir efeitos positivos. Então, que tal abandonarmos isso?

Bom, minha primeira observação é que 1 Coríntios 13 não é o único texto que fundamenta o cessacionismo. João 1:1, 14, 18 + Hebreus 1:1-3, 2:1-4 e Judas 3 também. Posso expandir o assunto, se quiserem.

No mais, percebam que ataca um (novo) espantalho. Suas palavras: "rebate o argumento que foi a igreja católica que deu a bíblia ao mundo".
Se minhas palavras foram entendidas dessa forma, então ou não me expressei bem, ou não lestes com a melhor das atenções ou habilidades.
Bom, nosso argumento está no fato de que, no primeiro século, onde o 'dom profético' foi exercido, várias Igrejas não tinham, ainda, várias porções das Escrituras Neo-Testamentárias. Simples assim.

"Assim, todos os livros do NT estiveram em circulação na era apostólica." Non sequitur, meu amigo. A indução não é taxativa. Permite-nos dizer, no máximo, que havia grande circulação dos livros. Quer que eu expanda este ponto?

Ressalto: claro que percebo que não foi a ICAR (particularmente Nicéia) quem deu a Bíblia ao mundo. Como F. F. Bruce observa, Nicéia apenas reconheceu o que já havia sido reconhecido.
Agora, daí dizer que todas as igrejas tinham cópias particulares de cada texto neo-testamentário, é extrapolar as evidências. Acho que isso é auto-evidente, mas, se quiserem, posso demonstrar.


No mais, seu argumento, anônimo, atingiu a pretensão romanista, e nada mais.

sábado, 16 de novembro de 2013

Um debate com Julio Severo e cia. sobre Cessacionismo (Parte 1)

Recentemente tenho participado de um debate em torno da questão cessacionista (para esclarecimento sobre o assunto, veja alguns destes artigos AQUI). O debate encontra-se no blog do Julio Severo, nos comentários (AQUI).

Achei por bem compilá-lo e aqui expô-lo.
Envolvi-me no debate quando um amigo pediu-me esclarecimentos sobre a questão, e indicou-me este texto.
O debate começou com uma simples crítica ao texto de Julio Severo (que, aliás, admiro, coadunando com este em suas posições éticas e até mesmo em seus ataques apologéticos à Igreja Católica). Posteriormente, tomou alguma proporção pouco maior, e outros foram envolvidos. Poupei-lhes os nomes, salvo o Julio Severo.
Meu intuito é que o debate promova esclarecimento e elimine o espírito sectarista e faccioso que perpassa a questão. E que os meus irmãos cessacionistas sintam-se reconfortados com suas posições.
Bom, ao debate.

LUCIO
Julio Severo, eu admiro muito seu trabalho, meu caro, e sei que esse artigo também está enraizado em suas convicções mais profundas de modo que refutá-lo poderá trazer grande incômodo. Mas, mesmo assim, me sinto no dever de corrigi-lo com breves observações.

Primeiro, irmão, cessacionistas acreditam e oram para que Deus faça milagres ou direcione sua providência de maneira especial (como conduzir fenômenos climáticos). É, de fato, uma grande confusão crer que os cessacionistas, por não crerem que Deus conceda 'dons miraculoso' mais, visto que eles tinham função específica de autenticação naquele período, não creem, também, que Deus faça milagres. Deus não fazia milagres somente mediante dons. Com essa distinção, acredito que todo o seu argumento cai, meu irmão.

Outro erro tão grave como esse se encontra em sua sátira no final do artigo. "Se Deus quiser, Ele pode me conceder sem que eu peça." Que cessacionista que pensa assim? Eu mesmo desconheço, irmão. Isso é confundir, de fato, cessacionistas com quietistas e, até mesmo, como você o faz, com deístas.
Até mesmo Cheung, que podemos considerar um continuista, e que também é um determinista, entende que os decretos não alteram nosso dever de orar, nem o significado da oração.
O cessacionista não crê que não é preciso orar para que Deus haja. Muito pelo contrário, crê tanto quanto qualquer outro cristão que a oração é um meio estabelecido por Deus para se alcançar muitas bençãos. Crê e ora! Sugiro a Teologia Sistemática de Charles Hodge para que você confira o que estou dizendo.

Um exemplo disto é quem vos fala. Sou cessacionista e canto o refrão do Ramones sem qualquer problema: I believe in miracles; I believe in a better world for me and you.
Hehe
Espero que corrija sua posição, meu irmão.
Lutar contra o cessacionismo é lutar contra irmãos. Concentre suas forças na luta contra o mal.

ANÔNIMO 1
Lutar contra o cessacionismo é lutar contra uma heresia, Lúcio. Possa Deus lhe dar lucidez.

ANÔNIMO 2
Mr. Lucio: considerando as palavras de Jesus “Pedi e dar-se-vos-á” e considerando que a igreja neotestamentária tinha o dom de profecia (com visões sobrenaturais) e que 1 Coríntios 14:1 nos instrui a buscar intensamente o dom de profecia que eles tinham, pergunta: Você ora intensamente pedindo o dom de profecia, com visões sobrenaturais? Você ora também para ter e ministrar no poder do Espírito Santo, com sinais, prodígios e milagres? O texto do Júlio parece significar exatamente isto. Porém se você for um cessacionista como os outros, você irá trazer sua teologia para desculpar sua descrença.
[Aqui pulamos uma série de textos que não julgamos relevantes à discussão]

CESSACIONISTA 1
Julio, infelizmente você conhece muito pouco do cessacionismo. Eu sou cessacionista, tal qual o Dr Augustus e oro todos os dias: por minha esposa, por meu trabalho, que seja luz para meus alunos. Oro agradecendo pela comida que como e agradeço a Deus pelo perdão dos pecados que Ele me concede todos os dias. A propósito, na semana passada o Dr Augustus escreveu sobre oração e a relação que ele tem com ela.

Oro quando fico doente, clamando pela ação sobrenatural de Deus e oro agradecendo a Deus a inteligência e capacidade que Ele dá para os médicos e cientistas, que desenvolvem remédios contra as doenças. Oro por meus irmãos quando eles ficam doentes e me pedem por interceder por eles.

Oro a Deus quando tenho que tomar decisões importantes na minha vida e peço Seu direcionamento. Aí tenho sempre a Palavra de Deus, rotineira e sistematicamente, lida e dentro do meu coração para Deus falar comigo.

Os teólogos reformados, todos oravam e ensinavam a orar. E o mais importante, oro porque a Bíblia me manda orar.

JULIO SEVERO
O importante, Marcos, é que o Rev. Mark Driscoll, como reformado, CONHECE MUITO BEM O 
CESSACIONISMO. E ele disse que é deísmo e mundanismo. Vincent Cheung diz que é falso ensino. Quem somos nós para discordar? Além disso, veja os links que coloquei depois artigo: Todos mostram a incredulidade do cessacionismo. Graças a Deus, como bem reconhece você, “conheço muito pouco do cessacionismo.” Conheço muito pouco também do deísmo e incredulidade. É importante conhecê-los? Claro que não! Quem conhece a Palavra de Deus sem a contaminação cessacionista (deísta, incrédula), já sabe o que é mais importante. O importante é conhecer a Cristo e sua voz. Jesus diz em João 10:3 que suas ovelhas OUVEM A SUA VOZ. Entre ser um bode cheio de incredulidade disfarçada de belos conceitos teológicos (exatamente como eram os fariseus, que diziam que oravam e liam a Bíblia) e uma ovelha que ouve a voz do Mestre, é tão difícil assim fazer uma escolha?

LUCIO
Olá, meus irmãos (espero que ainda assim mo considerem, depois de eu ter declarado-me cessacionista).
Vou respondê-los um por um.
Primeiro, temos que acalmar nossos ânimos, e discutir com mansidão, para, se estivermos errados, sabermos reconhecer e tergiversar. Antes de continuarmos, questionemos-nos: estaríamos dispostos a mudar?
Caso a resposta seja negativa, por favor, é melhor não continuarmos o debate, não é verdade?
Bom, vamos lá.
Primeiro, respondendo ao Anônimo 1.
"Lutar contra o cessacionismo é lutar contra uma heresia, Lúcio. Possa Deus lhe dar lucidez."
Primeiro, agradeço à oração para que Deus me dê lucidez. Se foi um desejo sincero, apresentado a Deus, estou agradecido.
Mas, como o Franklin Ferreira e Alan Myatt (na Teologia Sistemática) ponderam, heresia e erro teológico são diferentes. Heresia são erros que ferem algum princípio soteriológico, de modo que iniba e embargue a salvação. Acredito que o continuísmo de qualquer espécie seja um erro (e alguns da estirpe montanista chegam a ser heresia), mas não uma heresia, de modo que posso chamar muitos pentecostais de irmãos. Agora, se entende que o cessacionismo é uma heresia, então terá de mostrar como tal embota o conhecimento salvífico. :)

Depois o 'Anônimo disse': "considerando as palavras de Jesus “Pedi e dar-se-vos-á” e considerando que a igreja neotestamentária tinha o dom de profecia (com visões sobrenaturais) e que 1 Coríntios 14:1 nos instrui a buscar intensamente o dom de profecia que eles tinham, pergunta: Você ora intensamente pedindo o dom de profecia, com visões sobrenaturais?"
Bom, peço-lhe, e aos demais que acompanham o diálogo, que considerem a seguinte perspectiva: a Igreja primitiva não tinha as Escrituras em mãos, de modo que o conhecimento revelacional (especial) pleno não lhes era alcançável. O que teve de ser feito, então, era conceder estas instruções enquanto a Igreja não dispunha das Escrituras completas. Essa me parece ser uma explicação muito razoável.
Corrobora com ela o fato de não haver mais instrução nesse sentido em qualquer lugar das Escrituras, e de que a Igreja pós-apostólica, até onde sei, também não praticou tais coisas. Somente no século IV, se não me falha a memória, é que Montano e sua estirpe tentaram abordar tais assuntos.

Atitude mais piedosa para mim é buscar estudar com dedicação as Escrituras e por elas ser orientado.

Ademais, os pontos de esclarecimento e distinção que observei nem mesmo foram considerados... =/

Bom, é isso aí. Aguardo as respostas e, se preciso, amplio os pontos. :)
E Julio, meu irmão, também não achei justa a sua resposta ao Cessacionista 1. Permita-me intrometer-me na conversa entre vocês.
Primeiro, o Driskoll não é um grande teólogo sistemático. Não é autoridade sobre o assunto.
Depois, o Cheung, ao mesmo tempo que condena o cessacionismo, condena o arminianismo como heresia mortal, e tudo mais que não está de acordo com seus pontos doutrinais. Portanto, levantar a posição de Cheung aqui não ajuda muito.
Ademais, acredito que você cometeu uma gafe, irmão, a saber, que para que critiquemos uma posição com propriedade é preciso que a conheçamos melhor.
Depois, ao enquadrá-la na categoria de deísmo e incredulidade, faz-se injusto, como postei no meu primeiro comentário, para com o cessacionismo e para com os cessacionistas. Todos os cessacionistas que conheço (pessoalmente ou por livros) oram e acreditam que Deus pode realizar muitos milagres.
Por fim, você diz, o que concordo, que "O importante é conhecer a Cristo e sua voz. Jesus diz em João 10:3 que suas ovelhas OUVEM A SUA VOZ". Mas isso é já admitir, desde o início, que sua posição é a bíblica, ou seja, pareceu-me uma petição de princípio. Todo aquele que estiver convicto de sua posição como bíblica dirá o mesmo, e, tal como eu, apreciará sua convicção. Ainda assim o debate está aberto.

Vou elaborar um silogismo para que observem que estão a fazer uma falácia chamada afirmação do consequente:

1) Se é deísta não acredita na intervenção de Deus na história.
2) Deus intervir por meio de dons miraculosos é uma forma de intervenção de Deus na história.
3) Alguém não acredita que Deus intervenha por meio de dons.
4) Portanto, esse alguém é deísta.


Viu só? Afirmação do consequente. :)