quinta-feira, 3 de abril de 2014

Sobre a 'campanha contra o estupro'...

A PROBLEMÁTICA
A jornalista Nana Queiroz, de 28 anos, engendrou uma campanha, recentemente, em protesto contra os resultados da pesquisa do Ipea (se é que procedem)que "apontou que 65% dos entrevistados consideravam que mulheres de roupa curta mereciam ser estupradas"
O que devemos pensar sobre isso? Uma campanha justa? Devemos dar a ela seu apoio? Acho que não. Não pare de ler aqui. Vá até o fim, se há, no mínimo, dignidade em vossa pessoa. Se não quiser ler até o fim, saiba que você não passa de um covarde amontoador e baderneiro. Um atraso para a humanidade.
Dadas às calorosas recepções (ironia, para os desavisados), vamos ao que interessa!

RESSALVAS
É evidente que não estamos do lado dos que dizem ser as mulheres merecedoras de tal mazela, terrível, talvez a pior que exista, rivalizando-se, quem sabe, à pedofilia, infanticídio, ou a genocídios. Portanto, ao nos posicionarmos contra essa campanha, de maneira alguma estamos querendo assumir o outro lado. Não existem só esses partidos.
Acreditamos, antes, que haja uma confusão imensa aqui e desejamos desnudá-la para que o leitor, seja lá quem esse blog alcançar, não venha a entrar em mais uma campanha contra o bem estar social e mesmo, por que não, contra as virtudes solapadas pela campanha.

Outra ressalva necessária, genericamente apontada alhures, é que, com isso, não queremos escusar os estupradores. Como dissemos, é um crime hediondo, e ainda que uma mulher estivesse em pleno atentado ao pudor, e, para piorar, fosse muito, digamos, 'formosa', ele não está justificado na prática de seu ato, e nem as condições favoráveis para sua execução lhe servem de atenuantes (a não ser, quem sabe, em casos em que haja comprovada intenção de sedução da parte da vítima).


ESCLARECENDO A NOSSA POSIÇÃO

Os termos usados na discussão estão mal colocados, são inapropriados. A questão não é merecer isso ou aquilo. Evidente que, dada a definição da palavra como retribuição por conta de uma ação, ninguém faz por merecer ser estuprado (nem mesmo um estuprador que, certamente merece pena de morte, mas estuprá-lo é praticar um ato imoral para buscar retificar outro, culminando em nonsense patente). A questão é se o trajar das mulheres podem influenciar, estimular os estupradores. É evidente que o fazem. Uma ilustração vista nas redes sociais parece-nos lidar com a questão: "Porém, existem [sic.] perfil de vítima,[.] Se alguém tem R$10.000,00, o dinheiro é dele e ele faz o que quiser com isso, Agora se ele sai com esse dinheiro na rua, à pé, com as notas à mostra, ele se encaixa num perfil de vítima de assalto. Isso não quer dizer que ele (quando digo ele, quero dizer cidadão, não homem ou mulher) mereça ser assaltado, mas é óbvio que um ladrão vai preferir assaltá-lo do que um cidadão comum. O mesmo ocorre quando um policial, familiar, amigos, ou qualquer pessoa que te conhecer, dizer que andar com roupa x de noite sozinho é perigoso, ele não está sendo machista ou culpando a vítima, ele está alertando sobre esse perfil. Parafraseando, você tem sua casa, você tem o direito de deixá-la com as portas todas abertas, mas se um ladrão te roubar, você não é um coitado oprimido por um sistema fictício que só existe na sua mente de chorão, você é uma vítima assim como qualquer outra vítima."(o texto é oriundo da página 'bananal', indicada por um amigo - fizemos algumas correções ortográficas mínimas).

Colocando, pois, os pingos nos 'is', asseveramos duas proposições: o traje imprudente, sem pudor, provocante, das mulheres, de fato influenciam, despertam o desejo dos estupradores; isso não isenta-os de culpa.

UMA REFLEXÃO ÉTICO-ESTÉTICA NECESSÁRIA

Não queremos ser hipócritas, na onda da 'praga do PC', nome que Pondé dá aos 'Politicamente Corretos' (p. 18). Não queremos 'esconder a beleza', pois, como aponta o filósofo supra referido, tal atitude é justamente o que faz as proponentes feministas, acometidas de inveja. No fundo, muitos censuram a beleza por motivações nem tão nobres assim: "A condenação do uso da beleza feminina por parte das mulheres é um ferramenta das que não têm, por azar (a beleza ainda é um recurso contingente), acesso à beleza, seja porque são feias, seja porque (no caso dos homens), em sendo feio (ou fraco), ele não pode 'pegar' a beleza da mulher nas mãos, beijá-la ou penetrá-la" (p.92).
Portanto, não, não estamos a sugerir a proibição da beleza. Estamos apenas reivindicando o pudor. A ética do 'tudo que é bonito é para se mostrar' é muito perigosa, pois implica num dever, na obrigação da exposição da beleza a quem quer que seja. É evidente que Deus não tenha criado as coisas belas para que fiquem encobertas, mas isso não quer dizer que não haja os alvos corretos da exposição. Até mesmo o sumo bem e a suma beleza só serão vistos, na visão beatífica, por um grupo seleto da humanidade, quando puderem vê-lo 'face a face' (Apocalipses 22:4)*. A beleza da mulher não precisa ser escondida. Ela tem o dever de mostrá-la a seu marido.
Ah, claro, também não defendemos uma perspectiva 'assembleina de ser' para com o trajar das mulheres. A questão principal aqui é o pudor. Sem rodeios, os seios, as nádegas e as genitálias não são para se mostrar em público (nem para quase se mostrar). Lado outro, as mulheres podem, e arriscamo-nos dizer que 'devem', produzir-se ao máximo para ficarem bonitas, afinal, como observa Pondé, "o mundo respira melhor quando tem mulher bonita por perto" (p.91)

MAS QUAL O PROBLEMA EM PARTICIPAR DA CAMPANHA?

A campanha é facilmente vinculada aos movimentos feministas (talvez a autora não o tenha feito propositalmente, ou nem perceba as ligações, embora provavelmente seja vítima do zeitgeist tupiniquim hodierno). 
Olavo de Carvalho nos faz entender um problema por detrás das campanhas gayzistas, feministas e comunistas em geral: a subversão das instituições tradicionais da sociedade. Eles começam alavancando um lugar comum entre todo cidadão de bem, e sorrateiramente agregam outros elementos da agenda ideológica até que a família, a igreja, o capitalismo e os valores tradicionais sejam, enfim, execrados. O exemplo dado pelo filósofo é o de que, nos Estados Unidos, um homem pode ter sua vida arruinada pela simples acusação, sem prova alguma, por parte de sua esposa, de que ele tenha agredido. A consequência é que cinquenta por cento das crianças americanas vivem sem um dos pais, e geralmente é o pai que está ausente, e, uma das consequências é o aumento dos casos de pedofilia, principalmente oriundos do novo namorada da mamãe. Olavo observa que "tudo isso começou com os ares mais inofensivos que se pode imaginar como campanha de proteção à mulher contra a 'opressão machista' (p.501). Nada mais pertinente, não é mesmo?
O que tememos com a campanha da sra. Nana Queiroz? Sem dúvida alguma, o que vem na bagagem do itinerário feminista. Particularmente, ainda que o leitor discorde de nossa associação da campanha com os valores feministas, é inegável a questão do pudor. O trajar inadequado das moças, quiçá algo bem próximo do atentado ao pudor, é o que vemos nas ruas e na televisão. Cremos, sem exagero, que tal campanha, como observou um (outro) amigo nas redes sociais, assume nosso lugar comum contra o estupro para 'enfiar-nos goela abaixo' o direito à falta de pudor. Isso o cidadão de bem não quer, mas mal sabe que contribui para tal fim quando participa de campanhas como essa.

Alister McGrath pontua bem qual é a filosofia feminista: "Em seu cerne, o feminismo é um movimento global que trabalha na direção da emancipação das mulheres. [...] é, lá no fundo, um movimento de libertação que direciona seus esforços para alcançar a igualdade para as mulheres na sociedade moderna, especialmente por meio d remoção de obstáculos, quer crenças, quer valores, quer atitudes, que impeçam esse processo" (p. 289).
Ao que parece, tais campanhas propõe-se a inibir até mesmo os instintos básicos do macho adulto heterossexual, ou, pegando a definição do McGrath, promovem os direitos femininos às custas dos 'direito' do homem de ser atraído pelo sexo oposto em plena exposição. A agenda feminina, no afã de adquirir a 'igualdade entre os sexos', acaba por produzir uma ditadura das mulheres, e uma imposição de seus desejos controversos. "Daqui a alguns séculos vão ver nossa época como a época da histeria feminina à solta" (p.113).

A TACANHA COMPETÊNCIA INTELECTUAL E MORAL DE NANA QUEIROZ E MAIS UM ARGUMENTO USADO PELOS DEFENSORES DE CAMPANHAS AFINS

A moça que criou a campanha cometeu alguns erros crassos, e, para nossa felicidade, serviram de insights para apontarem outro erro comum que surge diante do debate em torno desse assunto. Observemos algumas de suas brilhantes palavras:
"Estavam dizendo que mulheres com decote merecem ser estupradas. Eu queria mostrar que eu podia fazer topless e, ainda assim, não merecer ser estuprada" (O Globo).
Pois bem, se alguém quer provar que não merece algo, um método interessante (talvez o único viável e necessariamente correspondente) seria provar que merece o contrário: respeito, e ser deixada em paz, em plena integridade física. Certo, mas como é que a sra. Queiroz pretende provar isso? Fazendo um topless! Nada mais estúpido! Como é que isso prova que ela não merece ser estuprada?! A bem da verdade, não acredito estar sendo presunçoso ao dizer que a atitude foi uma busca de promover a campanha, dando mais notoriedade, apesar de dizer que "não se sente confortável com a nudez erótica" e que, por isso, não pousaria para uma revista masculina.

(Vimos a imagem compartilhada por um amigo no facebook, oriunda de uma página chamada bobagento, a qual não conhecemos o conteúdo).

E os erros não param por aí. Temos a clássica reivindicação moderna de que nosso corpo nos pertence. Ao ser questionada sobre possível ciúmes do marido, ela relatou que esse respondeu: "Ele disse: 'eu não tenho o direito de ficar desconfortável, o corpo é seu'." (O GLOBO). Poderíamos fechar a questão observando que tal asserção é nitidamente anti-bíblica (1 Coríntios 7:4= "A mulher não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim o marido; e também, semelhantemente, o marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, e sim a mulher"). Mas para os estúpidos não satisfeitos com o texto bíblico, temos uma enxurrada de razões para contestar tal reivindicação.

Guilherme de Carvalho é, aqui, por nós, convidado a prestar esclarecimentos e elucidar, de forma brilhante, a questão.
Carvalho associa a reivindicação 'o corpo é meu e faço dele o que quiser' ao liberalismo moral, definido como a filosofia de que podemos fazer o que bem entender desde que não violemos a liberdade ou a propriedade alheia.

A primeira observação de Carvalho é que, para o ser humano ser completamente livre ele não pode ser controlado por compulsões, ou suas ações não podem ser causadas por forças sociais ou psicológicas que vão além de sua vontade. Pois bem, para que tenhamos um indivíduo com as capacidades de controlar seus instintos e volições de forma racional, temos de ter alguém com uma educação que lhe permita atingir tal habilidade. Essa educação não é uma educação liberal, que o deixa seguir os desejos que têm os homens, naturalmente. Assim, há uma contradição na proposta liberal moral, pois para a formação de um indivíduo competentemente liberal seria necessário que lhe fossem retiradas as liberdades até que fosse educado o suficiente para exercê-la.
Como se não bastasse esse problema, Carvalho aponta que anomalias morais são possíveis com esta filosofia visto que o corpo não é mais considerado como parte constituinte do próprio ser, mas um objeto que lhe pertence, uma propriedade do indivíduo. O pensador ilustra a questão com um caso na Alemanha em que um indivíduo cede, voluntariamente, seu corpo para ser comido por outro homem. Evidentemente o Estado alemão caiu em cima e condenou o antropófago. Mas ele, segundo os pressupostos de que 'o corpo pertence ao indivíduo e ele tem o direito de fazer dele o que quiser', estava plenamente justificado. A conclusão é que a sociedade liberal aliena o homem de si mesmo (para usar uma expressão de Marx e angariar, quem sabe, a despeito das citações de Pondé, Olavo e MgGrath, apreciação positiva de um esporádico leitor de 'esquerdinha') "pois ele tem que tratar uma parte dele como se fosse uma coisa dele, e não ele", aponta Carvalho.
Por fim, o tão óbvio e, mesmo assim, tão negligenciado pela mentalidade liberal, é que não existe tal indivíduo autônomo. O que somos está estritamente ligado ao nosso contexto, e acrescento que o que somos e fazemos, invariavelmente influencia o contexto, ainda que apenas um ou dois indivíduos.
Eis, pois, em três pontos, a irracionalidade do 'o corpo é meu e faço dele o que bem entender', que, aliás, não raro, vem à tona nos debates em torno da questão em voga como justificativa para a mulher andar como bem entender em lugares públicos.

CONCLUSÃO

Portanto, amigos e amantes do bem, a não ser que queiram aumentar a promiscuidade na sociedade, não adiram à essa campanha. Evadir-se de participar dela não implica em ser a favor do estupro. Podemos criar campanhas melhores, talvez com mais rigor para os estupradores, ou políticas de segurança pública mais inteligentes, ou mesmo com mais investimentos. Tudo o que não precisamos, no entanto, é apoiar a campanha da Nana Queiroz.

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* Para quem quiser compreender melhor essa questão, sugerimos o capítulo 23, páginas 1083-1085,  da Teologia Sistemática de Franklin Ferreira e Alan Myatt.

FONTES
BANANAL https://www.facebook.com/blogbananal

CARVALHO, Guilherme de. Liberalismo Moral - o corpo é meu e faço dele o que quero. Acessado em 03/04/2014: https://www.youtube.com/watch?v=TWgRwjxLyMY

CARVALHO, Olavo de; BRASIL, Felipe Moura (org.). O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota. Rio de Janeiro: Record, 2013, 616p.

MCGRATH, Alister. Apologética Cristã no século XXI: ciência e arte com inteligência. Tradução de Antivan Guimarães; Emirson Justino. São Paulo: Editora Vida, 2008, 368 p.

BRÍGIDO, Carolina. O Globo - Jornalista que lançou campanha contra estupro conta que não esperava repercussão. Acessado em 03/04/2014: http://oglobo.globo.com/pais/jornalista-que-lancou-campanha-contra-estupro-conta-que-nao-esperava-repercussao-12045632


PONDÉ, Luiz Felipe. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia: ensaio de ironia. São Paulo: Leya, 2012, 232 p.

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